CARACTERIZAÇÃO DE PADRÕES ALIMENTARES NO DESENVOLVIMENTO DOS TRANSTORNOS DEPRESSIVOS 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511231614


Poliana Alves Borges
Orientadora: Dra. Caroline Castro de Araújo


RESUMO

A depressão é um transtorno mental multifatorial que envolve alterações neuroquímicas, inflamatórias e metabólicas, influenciando diretamente o bem-estar e o funcionamento diário dos indivíduos. Nas últimas décadas, a literatura tem demonstrado que a alimentação desempenha papel relevante na modulação desses mecanismos, podendo contribuir tanto para o agravamento quanto para a redução dos sintomas depressivos. Este estudo teve como objetivo analisar como diferentes padrões alimentares podem influenciar processos fisiopatológicos associados ao desenvolvimento da depressão. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura elaborada com base em oito artigos científicos publicados entre 2020 e 2025, selecionados majoritariamente na base U.S. National Library of Medicine (PubMed). Os achados evidenciam que padrões alimentares considerados saudáveis, como a Dieta Mediterrânea, DASH, nórdica, japonesa e a Dieta Tradicional Brasileira, compostos por alimentos in natura, ricos em fibras, antioxidantes, compostos bioativos e gorduras insaturadas, demonstram potencial para reduzir inflamação sistêmica, modular neurotransmissores e favorecer o equilíbrio da microbiota intestinal, contribuindo para menor risco de sintomas depressivos. Em contraposição, modelos característicos da Dieta Ocidental, marcados pelo consumo de ultraprocessados, gorduras saturadas e açúcares simples, mostram associação com maior inflamação, disbiose intestinal e piora de mecanismos neurobiológicos ligados ao humor. Conclui-se que os padrões alimentares exercem influência significativa na saúde mental e devem ser considerados como parte das estratégias de prevenção e manejo da depressão, especialmente em abordagens interdisciplinares voltadas à promoção do bem-estar e redução de sintomas.

Palavras-chave: Depressão; Inflamação; Microbiota intestinal; Padrões alimentares; Saúde mental.

ABSTRACT

Depression is a multifactorial mental disorder involving neurochemical, inflammatory, and metabolic alterations that directly affect individuals’ well-being and daily functioning. Over recent decades, scientific evidence has demonstrated the important role of diet in modulating these mechanisms, which may contribute either to the worsening or reduction of depressive symptoms. This study aimed to analyze how different dietary patterns can influence pathophysiological processes associated with the development of depression. An integrative literature review was conducted based on eight scientific articles published between 2020 and 2025, primarily selected from the U.S. National Library of Medicine (PubMed) database. The findings indicate that healthy dietary patterns, such as the Mediterranean, DASH, Nordic, Japanese, and the Traditional Brazilian Diet, characterized by the consumption of unprocessed foods rich in fiber, antioxidants, bioactive compounds, and unsaturated fats, have the potential to reduce systemic inflammation, modulate neurotransmitters, and support gut microbiota balance, contributing to a lower risk of depressive symptoms. In contrast, dietary patterns typical of the Western diet, marked by high intake of ultra-processed foods, saturated fats, and refined sugars, are associated with increased inflammation, gut dysbiosis, and worsening of neurobiological mechanisms related to mood. It is concluded that dietary patterns significantly influence mental health and should be considered as part of strategies for the prevention and management of depression, especially within interdisciplinary approaches aimed at promoting well-being and reducing symptoms.

Keywords: Depression; Dietary patterns; Gut microbiota; Inflammation; Mental health.

1 INTRODUÇÃO 

 A depressão é uma condição de saúde mental que afeta mais de 260 milhões de pessoas em todo o mundo, configurando-se como uma das principais causas de incapacidade na atualidade. Trata-se de um transtorno multifatorial, decorrente da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais, com maior prevalência no final da adolescência e na vida adulta. Sintomas como tristeza persistente, fadiga, perda de interesse, alterações no apetite e no sono são frequentemente subestimados, contribuindo para prejuízos significativos na qualidade de vida, nas relações sociais e no funcionamento ocupacional. Em suas formas mais graves, a depressão pode levar ao suicídio, representando uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos (COSTANTINI, 2021).

Classificada como um transtorno do humor, a depressão caracteriza-se por um estado emocional prolongado de tristeza profunda associado à anedonia, marcada pela perda de interesse ou prazer em atividades anteriormente valorizadas. Conforme o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5), o espectro dos transtornos depressivos inclui o transtorno depressivo maior (TMD), a distimia, o transtorno disfórico pré-menstrual, o transtorno de desregulação disruptiva do humor e quadros induzidos por substâncias ou condições médicas. Em comum, esses diagnósticos apresentam manifestações emocionais, cognitivas e somáticas que comprometem de maneira significativa o desempenho social, acadêmico e profissional (CHAND; ARIF, 2023).

Nos últimos anos, a literatura científica tem evidenciado, de forma consistente, a relação entre alimentação e saúde mental, apontando que escolhas alimentares influenciam vias metabólicas, neuroquímicas e inflamatórias envolvidas na regulação do humor. Em indivíduos com sintomas depressivos, observa-se frequentemente um padrão alimentar caracterizado pelo maior consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares e gorduras saturadas, acompanhado da redução da ingestão de frutas, vegetais, legumes, peixes e cereais integrais. Essas mudanças no comportamento alimentar repercutem negativamente no estado nutricional e podem intensificar mecanismos fisiopatológicos associados à depressão (EKINCI; SANLIER, 2023).

Nesse cenário, destacam-se os efeitos protetores de padrões alimentares equilibrados, como a dieta Mediterrânea, reconhecida por sua composição rica em frutas, hortaliças, cereais integrais, leguminosas, oleaginosas e peixes, com ênfase no azeite de oliva como principal fonte de gordura. Evidências científicas associam esse padrão alimentar à redução de marcadores inflamatórios e ao melhor funcionamento de estruturas cerebrais relacionadas à regulação emocional e cognitiva. Em contrapartida, a dieta ocidental, caracterizada pelo consumo elevado de alimentos ultraprocessados, gorduras saturadas e açúcares simples, está vinculada ao aumento da inflamação sistêmica, à disfunção da barreira hematoencefálica, ao comprometimento do hipocampo e ao declínio cognitivo, fatores que podem agravar sintomas depressivos (FIRTH et al., 2020).

Adicionalmente, evidências recentes reforçam o papel da microbiota intestinal e do eixo intestino cérebro na interface entre alimentação e saúde mental. Dietas ricas em fibras, gorduras insaturadas, vitaminas e compostos bioativos favorecem a eubiose intestinal, enquanto padrões pró-inflamatórios podem desencadear disbiose, aumentar a permeabilidade intestinal e promover maior produção de citocinas inflamatórias, mecanismos diretamente relacionados à neuroinflamação, componente central da fisiopatologia da depressão (FIRTH et al., 2020).

Diante desse panorama, o objetivo deste estudo foi analisar como diferentes padrões alimentares influenciam o risco, a manifestação e a modulação dos sintomas depressivos em adultos.

2 REVISÃO DA LITERATURA

2.1 Dados epidemiológicos da depressão

A depressão é um transtorno mental comum e multifatorial, caracterizado por tristeza persistente, perda de interesse em atividades habituais e prejuízo significativo nos domínios social, emocional e ocupacional. Quando esses sintomas permanecem por tempo prolongado, configuram um quadro clínico que demanda atenção especializada e acompanhamento contínuo (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2023). Trata-se de uma condição com elevado impacto global, figurando entre as principais causas de incapacidade e contribuindo de maneira expressiva para o aumento da morbidade e para a redução da qualidade de vida (MATTIELLO et al., 2022).

Em escala mundial, estima-se que 3,8% da população apresente depressão, incluindo 5% dos adultos e 5,7% das pessoas com 60 anos ou mais. Aproximadamente 280 milhões de indivíduos convivem com o transtorno, e a prevalência é consistentemente maior entre mulheres, cerca de 50% superior em comparação aos homens (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2023).

No Brasil, o cenário epidemiológico acompanha esse padrão global e apresenta indicadores relevantes. A prevalência ao longo da vida é estimada em 15,5%, valor considerado elevado em comparação a outras regiões (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2023). Em 2019, aproximadamente 16,3 milhões de adultos receberam diagnóstico de transtorno depressivo, correspondendo a 10,2% da população nacional. Assim como no panorama internacional, as mulheres apresentam maior prevalência, com taxa estimada em 14,7%, enquanto entre os homens a proporção é de 5,1% (SCHWAMBACH; QUEIROZ, 2023).

Esses dados evidenciam a relevância da depressão como problema prioritário de saúde pública e reforçam a necessidade de fortalecer estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e intervenções terapêuticas eficazes.

2.2 Fisiopatologia da depressão

A fisiopatologia da depressão é complexa e envolve uma interação multifatorial entre aspectos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais, não podendo ser atribuída a um único mecanismo. Diversos fatores aumentam a vulnerabilidade ao transtorno, como diferenças entre sexo e gênero, condições socioeconômicas desfavoráveis, suporte social insuficiente, estresse crônico, uso de álcool e outras substâncias, além de componentes genéticos e epigenéticos. Também contribuem para esse cenário processos inflamatórios, alterações endoteliais, presença de doenças clínicas associadas e padrões alimentares inadequados. Nos últimos anos, estudos têm sugerido uma possível participação do microbioma intestinal na fisiopatologia da depressão; entretanto, essa relação ainda se encontra em investigação e necessita de maior aprofundamento científico (KRISETHERTON et al., 2021).

Ao longo das últimas décadas, diferentes hipóteses fisiopatológicas foram propostas para explicar o desenvolvimento da depressão, entre elas as hipóteses monoaminérgica, dos receptores, neuroendócrina, neuroplástica, inflamatória, glutamatérgica e aquela relacionada ao desequilíbrio da microbiota intestinal. Dentre essas, a hipótese neuroinflamatória tem recebido destaque crescente, sustentada por evidências de que alterações no sistema imunológico podem exercer influência significativa sobre os mecanismos envolvidos na regulação do humor (ZHAO et al., 2025).

Pesquisas nas áreas de neurofisiologia e neuropsiquiatria reforçam o papel da neuroinflamação na depressão, demonstrando que a ativação inadequada do sistema imunológico interfere nos circuitos cerebrais relacionados ao comportamento e às emoções. Nesse contexto, as células gliais exercem funções essenciais. A micróglia atua na regulação da neurogênese, participa da remodelação sináptica e contribui para a organização dos circuitos neuronais. Os astrócitos, por sua vez, representam a população glial mais abundante no sistema nervoso central, desempenhando papel fundamental na manutenção da homeostase cerebral e estando envolvidos em diferentes condições psiquiátricas e neurodegenerativas (ZHAO et al., 2025).

Embora essas células desempenhem funções protetoras, situações de estresse intenso ou prolongado podem desencadear sua ativação exacerbada. Esse estado hiperativo resulta na liberação aumentada de citocinas pró-inflamatórias e outros mediadores imunológicos, que comprometem a integridade neuronal, prejudicam a plasticidade sináptica e alteram circuitos cerebrais associados à regulação do humor. Dessa forma, o aumento da atividade neuroinflamatória tem sido reconhecido como um dos processos centrais envolvidos no desenvolvimento e na persistência dos sintomas depressivos (ZHAO et al., 2025).

2.3 Fatores etiológicos da depressão

A depressão é reconhecida como um transtorno de origem multifatorial, resultante da interação entre predisposição genética, fatores ambientais, experiências de vida e processos biológicos complexos. Nesse contexto, a epigenética tem desempenhado papel central na compreensão dos mecanismos que modulam o risco e a expressão clínica do transtorno. Esse campo investiga alterações na expressão gênica que ocorrem sem modificar a sequência do DNA, influenciando a forma como determinados genes são ativados ou silenciados. No âmbito dos transtornos depressivos, evidências apontam que fatores ambientais, como estresse crônico, experiências traumáticas e exposição a condições adversas, podem desencadear modificações epigenéticas capazes de afetar a regulação do humor e a resposta ao estresse (ALJABALI et al., 2024).

No Transtorno Depressivo Maior (TDM), a interação entre susceptibilidade biológica e ambiente é determinante. Embora mutações ou polimorfismos genéticos possam aumentar a predisposição ao transtorno, tais variantes não são suficientes, isoladamente, para desencadear o quadro. O risco se eleva de forma significativa quando essas vulnerabilidades se associam a estressores psicossociais, caracterizando a interação geneambiente. As alterações epigenéticas atuam como mediadoras desse processo, modulando a expressão de genes relacionados à neurotransmissão, à neuroplasticidade e à resposta ao estresse, aspectos diretamente envolvidos nos circuitos neurais associados à depressão (FILATOVA; SHADRINA; SLOMINSKY, 2021).

Até o momento, não foram identificados marcadores genéticos ou epigenéticos específicos que possibilitem diagnóstico ou predição confiável do TDM, o que reforça a complexidade etiológica do transtorno e a necessidade de pesquisas contínuas sobre seus mecanismos. Apesar disso, o avanço nesse campo tem contribuído para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais direcionadas e para uma compreensão mais ampla dos processos envolvidos (FILATOVA; SHADRINA; SLOMINSKY, 2021).

Além dos aspectos genéticos e epigenéticos, outros fatores etiológicos têm sido amplamente discutidos, incluindo o uso de substâncias psicoativas, determinados medicamentos e características do estilo de vida. Entre esses elementos, os hábitos alimentares têm recebido atenção crescente. Dietas ricas em alimentos ultraprocessados, gorduras saturadas e pobres em micronutrientes essenciais favorecem o desequilíbrio metabólico, aumentam a inflamação sistêmica e podem contribuir para o agravamento dos sintomas depressivos. Em contrapartida, padrões alimentares equilibrados têm sido apontados como potenciais fatores protetores (BEUREL; TOUPS; NEMEROFF, 2020).

2.4 Classificação diagnóstica segundo o DSM-5

De acordo com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, quinta edição (DSM-5), os transtornos depressivos compreendem um conjunto de condições caracterizadas por humor deprimido persistente, perda de interesse ou prazer nas atividades cotidianas e alterações cognitivas e somáticas que comprometem de forma significativa o funcionamento social, ocupacional e pessoal do indivíduo (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).

Entre as principais categorias descritas no manual, destaca-se o Transtorno Depressivo Maior (TDM), definido pela presença de episódios depressivos com duração mínima de duas semanas, acompanhados de sintomas como alterações do sono e do apetite, fadiga, dificuldade de concentração, sentimento de culpa ou inutilidade e, em casos mais graves, pensamentos recorrentes de morte ou ideação suicida (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).

O Transtorno Depressivo Persistente (distimia) corresponde a um quadro crônico no qual sintomas depressivos menos intensos permanecem por pelo menos dois anos. Pessoas com esse transtorno podem apresentar baixa autoestima, desesperança, alterações do sono e do apetite, além de desânimo persistente (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014). De modo similar, o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual caracterizase por alterações emocionais marcantes, como irritabilidade, ansiedade, tristeza intensa e dificuldade de concentração, que surgem ciclicamente na fase pré-menstrual e tendem a se estabilizar após o início da menstruação (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).

Há ainda o Transtorno Depressivo Induzido por Substâncias/Medicações, caracterizado quando a sintomatologia depressiva decorre do uso ou abstinência de substâncias psicoativas ou de determinados medicamentos (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014). De forma semelhante, o Transtorno Depressivo Devido a Outra Condição Médica é diagnosticado quando os sintomas depressivos estão diretamente associados a doenças neurológicas, endócrinas ou sistêmicas (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).

Por fim, o DSM-5 inclui categorias especificadas e não especificadas, destinadas a quadros em que há presença de sintomas depressivos clinicamente relevantes, mas que não atendem integralmente aos critérios das classificações anteriores. De modo geral, os transtornos depressivos representam um importante desafio para a saúde pública, com impacto substancial sobre a qualidade de vida e o funcionamento global dos indivíduos, reforçando a necessidade de diagnóstico preciso e tratamento adequado.

2.5 Tratamento da depressão

2.5.1 Tratamento medicamentoso 

O tratamento medicamentoso constitui uma das principais abordagens no manejo da depressão, especialmente nos quadros moderados e graves, sendo frequentemente associado a intervenções psicoterapêuticas e mudanças no estilo de vida. Os antidepressivos atuam modulando neurotransmissores envolvidos na regulação do humor, como serotonina, norepinefrina e dopamina. A seleção da medicação mais adequada depende da intensidade dos sintomas, do histórico clínico, da presença de comorbidades, da resposta a tratamentos anteriores, da tolerabilidade individual e do perfil de efeitos adversos.

Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs) representam a classe de antidepressivos mais utilizada, devido à boa tolerabilidade, ao menor risco de efeitos adversos graves e à maior segurança em casos de superdosagem. Entre seus principais representantes estão citalopram, escitalopram, fluoxetina, fluvoxamina, paroxetina, sertralina, vilazodona e vortioxetina. Já os inibidores da recaptação de serotonina e norepinefrina (IRSNs), como venlafaxina, desvenlafaxina, duloxetina e levomilnaciprana, são recomendados como primeira linha principalmente em pacientes que apresentam fadiga intensa ou quadros depressivos associados a síndromes dolorosas. Também configuram alternativa terapêutica em situações de resposta insatisfatória aos ISRSs (CHAND; ARIF, 2023b).

Os antidepressivos atípicos, representados por bupropiona, mirtazapina, nefazodona e trazodona, constituem opções eficazes e podem ser utilizados como monoterapia ou associados a outras classes em casos de depressão resistente. Outra categoria relevante é a dos moduladores da atividade serotoninérgica e dopaminérgica (SDAMs), como aripiprazol e brexpiprazol, que atuam como agonistas parciais de receptores serotoninérgicos e dopaminérgicos e podem ser empregados como adjuvantes no tratamento do transtorno depressivo maior (CHAND; ARIF, 2023).

Os antidepressivos tricíclicos (TCAs), entre eles amitriptilina, imipramina, nortriptilina e clomipramina, embora eficazes, são menos utilizados atualmente em razão do maior número de efeitos adversos e do risco aumentado em casos de superdosagem. Os Inibidores da Monoamina Oxidase (IMAOs), como isocarboxazida, fenelzina, selegilina e tranilcipromina, também apresentam eficácia em diferentes transtornos depressivos e ansiosos, porém exigem restrições alimentares rigorosas em razão do risco de crises hipertensivas associadas ao consumo de alimentos ricos em tiramina, além de efeitos adversos como insônia, hipotensão postural, ansiedade e ganho de peso (CHAND; ARIF, 2023).

As terapias farmacológicas tradicionais têm como objetivo principal aumentar a disponibilidade de monoaminas no sistema nervoso central. No entanto, apresentam início de ação geralmente tardio, podendo levar semanas para que o efeito terapêutico seja plenamente observado. Além disso, estima-se que cerca de um terço dos pacientes com Transtorno Depressivo Maior não responda adequadamente a pelo menos duas classes distintas de antidepressivos, caracterizando a depressão resistente ao tratamento (TRD) (KIM et al., 2024). Nesses casos, mesmo após múltiplas tentativas farmacológicas, os sintomas podem persistir e impactar de forma significativa a qualidade de vida.

Diante disso, a prescrição medicamentosa deve ser realizada com acompanhamento profissional contínuo, levando em consideração aspectos clínicos, psicossociais e individuais, de modo a garantir maior segurança e efetividade terapêutica (KIM et al., 2024).

2.5.2 Tratamento dietético e padrões alimentares

 A nutrição desempenha papel fundamental na prevenção e no manejo da depressão, uma vez que diversos nutrientes participam de processos metabólicos e neuroendócrinos relacionados à regulação do humor. A ingestão insuficiente de componentes como triptofano, vitaminas B6 e B12, ácido fólico, colina, fenilalanina, tirosina, histidina e ácido glutâmico pode comprometer a síntese de neurotransmissores como serotonina, dopamina e norepinefrina, elementos essenciais para o equilíbrio emocional e o funcionamento cognitivo. Além disso, os ácidos graxos ômega-3 de origem marinha exercem efeitos moduladores sobre a neurotransmissão serotoninérgica e dopaminérgica, contribuindo para a redução dos sintomas depressivos (KRIS-ETHERTON et al., 2021).

Diversas evidências mostram que padrões alimentares caracterizados pelo consumo excessivo de gorduras saturadas, açúcares simples e alimentos ultraprocessados estão associados a maiores níveis de inflamação sistêmica e ao agravamento dos sintomas depressivos. Em contrapartida, modelos alimentares equilibrados têm demonstrado efeito protetor significativo. Entre esses padrões, destaca-se a dieta Mediterrânea, que prioriza frutas, vegetais, leguminosas, nozes, cereais integrais, azeite de oliva e peixes, além do consumo moderado de carnes brancas. Esse modelo alimentar é rico em antioxidantes, polifenóis, vitaminas do complexo B e ácidos graxos poli-insaturados, nutrientes reconhecidos por seus efeitos anti-inflamatórios e pela contribuição à saúde neurocognitiva (OLIVÁN-BLÁZQUEZ et al., 2021).

A dieta DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension), embora originalmente proposta para o manejo da hipertensão arterial, também apresenta evidências de benefícios para a saúde mental. Ela enfatiza o consumo de frutas, vegetais, grãos integrais, leguminosas, laticínios com baixo teor de gordura e carnes magras, além de restringir sódio, gorduras saturadas e açúcares. Por compartilhar características com a dieta Mediterrânea, especialmente a predominância de alimentos de origem vegetal e a redução de componentes pró-inflamatórios, tem sido associada à diminuição dos sintomas depressivos (STAUDACHER et al., 2024).

Outros padrões alimentares tradicionais, como a dieta nórdica, a japonesa e a tradicional brasileira, também vêm sendo estudados. Embora possuam menor volume de evidências quando comparados à dieta Mediterrânea, apresentam características convergentes, como maior consumo de fibras, peixes, vegetais e compostos bioativos, além da menor ingestão de ultraprocessados. Tais aspectos têm sido associados à redução da inflamação sistêmica e a melhores desfechos em saúde mental (STAUDACHER et al., 2024).

Evidências recentes mostram que indivíduos com depressão apresentam maior carga inflamatória dietética, caracterizada pelo consumo elevado de alimentos próinflamatórios, como gorduras trans, açúcares refinados e ultraprocessados, e pela ingestão insuficiente de alimentos anti-inflamatórios. Padrões como a dieta Mediterrânea auxiliam na redução dessa carga por meio de nutrientes como polifenóis, antioxidantes e gorduras poliinsaturadas, que modulam a resposta inflamatória (FIRTH et al., 2020).

Além disso, cresce o reconhecimento do papel da microbiota intestinal na interface entre alimentação e saúde mental. O microbioma interage com o sistema nervoso central por vias neurais, hormonais e imunes. Alterações em sua composição, frequentemente resultantes de dietas ricas em gorduras saturadas e pobres em fibras, aumentam a permeabilidade intestinal e favorecem processos inflamatórios sistêmicos, mecanismos relacionados ao desenvolvimento de sintomas depressivos. Em sentido oposto, dietas ricas em fibras, prebióticos e compostos bioativos promovem a eubiose intestinal, contribuindo para a regulação do eixo microbiota-intestino-cérebro e para o equilíbrio emocional (FIRTH et al., 2020).

Dessa forma, o tratamento dietoterápico da depressão deve ir além da suplementação de nutrientes isolados, priorizando a adoção de padrões alimentares equilibrados e sustentáveis. Modelos baseados em alimentos in natura ou minimamente processados, ricos em fibras, antioxidantes e gorduras insaturadas, são capazes de reduzir a inflamação sistêmica, melhorar a saúde metabólica e favorecer o bem-estar psicológico (KRIS-ETHERTON et al., 2021; STAUDACHER et al., 2024).

Diante do exposto, reforça-se a importância de compreender de que maneira os padrões alimentares influenciam tanto o risco quanto a modulação dos sintomas depressivos, destacando o papel relevante da nutrição no contexto da saúde mental.

3 OBJETIVOS

3.1 Objetivo geral

Investigar, com base em evidências científicas, como diferentes padrões alimentares podem influenciar o risco e a modulação dos sintomas depressivos em adultos.

3.2 Objetivos específicos

  • Descrever os principais aspectos fisiopatológicos envolvidos na depressão;
  • Comparar diferentes padrões alimentares descritos na literatura e sua associação com o risco ou agravamento da depressão;
  • Analisar o impacto da alimentação na regulação de neurotransmissores, na neuroinflamação e na modulação da microbiota intestinal.

4 METODOLOGIA

O presente trabalho consistiu em uma revisão integrativa da literatura, elaborada a partir de artigos científicos publicados entre 2020 e 2025 e identificados nas bases de dados U.S. National Library of Medicine (PubMed) e ScienceDirect, nos idiomas inglês e português.

A estratégia de busca foi construída com descritores controlados dos MeSH Terms e dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados pelos operadores booleanos AND e OR. Foram utilizados os termos em inglês “depression”, “diet”, “dietary patterns”, “Western diet”, “gut-brain axis”, “inflammation” e “microbiome”, e, em português, “depressão”, “dieta”, “padrões alimentares”, “dieta ocidental”, “eixo intestino-cérebro”, “inflamação” e “microbiota intestinal”.

Foram incluídos estudos originais realizados com população adulta, incluindo idosos e que investigassem a relação entre depressão e padrões alimentares, considerando, quando disponível, desfechos associados à inflamação, microbiota intestinal ou mecanismos relacionados ao eixo intestino-cérebro. Foram excluídos artigos de revisão, relatos de caso, notas técnicas, editoriais, estudos conduzidos com animais ou modelos in vitro, bem como pesquisas envolvendo crianças, adolescentes, gestantes ou indivíduos com doenças que não se enquadrassem no escopo deste estudo.

A seleção dos estudos ocorreu inicialmente pela leitura de títulos e resumos. Os artigos potencialmente relevantes foram avaliados na íntegra e selecionados quando atendiam aos critérios de elegibilidade. Ao final do processo, oito artigos compuseram a amostra analisada. A partir da leitura completa dos textos, realizou-se uma análise qualitativa dos achados, identificando padrões, convergências e pontos de divergência entre os estudos incluídos. O detalhamento do processo de busca é descrito na figura 1. 

Figura 1. Etapas de seleção dos artigos incluídos na revisão integrativa.

Fonte: elaboração própria (2025).

5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A partir da busca e seleção dos estudos, foram identificados oito artigos que atenderam aos critérios estabelecidos, sendo um ensaio clínico randomizado nacional e sete estudos internacionais, incluindo coortes prospectivas, estudos transversais, observacionais e ensaios clínicos. As pesquisas abrangeram diferentes perfis populacionais, como adultos jovens, idosos, estudantes universitários e indivíduos com obesidade, o que ampliou a compreensão sobre a relação entre padrões alimentares e sintomas depressivos em distintos contextos. A caracterização de cada estudo, incluindo autores, país, público, objetivos, métodos e principais achados, encontra-se sintetizada nas Tabelas 1 e 2.

Os resultados mostraram de forma consistente que padrões alimentares saudáveis, como o padrão tradicional brasileiro, o padrão do tipo mediterrâneo, padrões à base de plantas saudáveis e o padrão nórdico, estiveram associados à redução de sintomas depressivos, maior bem-estar emocional e melhor funcionamento cognitivo. Intervenções estruturadas baseadas nesses padrões, especialmente aquelas ricas em alimentos in natura, azeite de oliva, frutas, vegetais, cereais integrais e fontes de ômega-3, demonstraram melhora significativa do humor e menor prevalência de sintomas depressivos, tanto em seguimentos de curto quanto de longo prazo.

No estudo nacional conduzido com indivíduos com obesidade grave, verificou-se redução expressiva dos sintomas depressivos após intervenção nutricional baseada na Dieta TradicionaI Brasileira, com destaque para o grupo que recebeu azeite de oliva associado à dieta. Esse resultado reforça o papel de um padrão alimentar equilibrado como componente adicional no suporte emocional e psicológico desse público (Canheta et al., 2020).

Entre os estudos internacionais, observou-se que a adesão ao padrão alimentar do tipo mediterrâneo atuou como fator protetor contra sintomas depressivos, reduzindo impactos sobre funções cognitivas, especialmente atenção, entre idosos (Al Shamsi et al., 2025). Evidências similares foram descritas em pesquisas que analisaram dietas ricas em vegetais, fibras e compostos bioativos, associadas a menor risco de depressão e à atenuação de trajetórias depressivas ao longo do tempo (Lin et al., 2024; Zhou et al., 2025). Em contrapartida, padrões alimentares pró-inflamatórios e ocidentalizados, caracterizados por ultraprocessados, doces, refrigerantes, frituras e carnes processadas, mantiveram associação consistente com maior risco de depressão, pior vulnerabilidade emocional e piores indicadores de saúde mental (Bizzozero-Peroni et al., 2022; Lin et al., 2024). Portanto, conclui-se que com base nesses resultados gerais, os ensaios clínicos incluídos reforçaram ainda o potencial terapêutico das intervenções alimentares. Bayes et al. (2022) demonstraram redução significativa dos sintomas depressivos em jovens adultos submetidos a uma intervenção baseada no padrão mediterrâneo, com melhora paralela na qualidade de vida. 

Tabela 1 – Consolidado de estudos nacionais selecionados (n = 1).

Legenda: ↓ = redução / ↑ = aumento
Fonte: Elaboração própria (2025).

Tabela 2 – Consolidado de estudos internacionais selecionados (n = 7).

Legenda: ↓ = redução / ↑ = aumento; FFQ = Food Frequency Questionnaire, Questionário de Frequência Alimentar; GDS-10 = Geriatric Depression Scale 10, Escala Geriátrica de Depressão.
Fonte: Elaboração própria (2025).

Um resultado semelhante foi observado por Foshati et al. (2022), com consumo diário de azeite extravirgem promovendo redução relevante dos sintomas, sobretudo em casos mais graves, o que reforça o papel de compostos antioxidantes e antiinflamatórios, como os polifenóis, no cuidado adjuvante da depressão. De modo complementar, estudos observacionais mostraram que maior adesão a padrões alimentares saudáveis se relacionou a melhor percepção corporal, maior interocepção e menor sofrimento emocional (Young et al., 2022), enquanto a adesão ao padrão nórdico associou-se a maior bem-estar geral e menor ocorrência de sintomas depressivos (Hsu et al., 2021).

Em síntese, os achados evidenciam que padrões alimentares equilibrados, densos em nutrientes e com menor potencial inflamatório exercem efeito positivo sobre a saúde mental, contribuindo para a redução dos sintomas depressivos e constituindo estratégia acessível tanto para prevenção quanto para apoio terapêutico no contexto da depressão.

A partir da análise dos estudos incluídos, verificou-se que padrões alimentares com maior densidade nutricional e propriedades anti-inflamatórias, como o padrão do tipo mediterrâneo, apresentam impacto significativo sobre sintomas depressivos. Em contraposição, padrões de tipo ocidental, caracterizados por alto teor de ultraprocessados, açúcares simples e gorduras saturadas, foram consistentemente associados ao aumento da inflamação sistêmica, pior regulação metabólica e maior risco de desenvolvimento da depressão (Song et al., 2024; Lin et al., 2024; Nanri et al., 2020). Esses resultados reforçam que a alimentação pode modular vias fisiopatológicas ligadas ao humor, ao comportamento e à saúde mental ao longo do tempo.

No conjunto dos ensaios clínicos randomizados, destaca-se novamente o estudo de Bayes et al. (2022), no qual jovens adultos com depressão moderada a grave apresentaram melhora expressiva dos sintomas após intervenção nutricional baseada no padrão mediterrâneo, superior ao grupo controle, que recebeu apenas apoio social. De forma complementar, Foshati et al. (2022) mostraram que o consumo de azeite extravirgem, rico em compostos antioxidantes e anti-inflamatórios, promoveu redução dos sintomas, sugerindo efeito adjuvante relevante no tratamento da depressão.

Além disso, evidências epidemiológicas reforçam a associação entre padrões alimentares pró-inflamatórios e distúrbios do humor. Lin et al. (2024), analisando dados do UK Biobank, descreveram que dietas com maior carga inflamatória elevaram o risco de depressão e ansiedade, parcialmente mediado por processos de envelhecimento biológico acelerado. Song et al. (2024) observaram resultados semelhantes ao analisar padrões ricos em carboidratos refinados e baixa qualidade nutricional, que se associaram a piores desfechos emocionais na população adulta norte-americana. Em direção oposta, Nanri et al. (2020) identificaram que maior adesão às recomendações alimentares japonesas esteve associada a menor prevalência de sintomas depressivos, sugerindo que diferentes culturas podem convergir para efeitos positivos quando fundamentadas em padrões alimentares naturais, equilibrados e anti-inflamatórios. 

A compreensão dos mecanismos por trás dessas associações foi reforçada por estudos experimentais, que mostraram que compostos antioxidantes e antiinflamatórios presentes em alimentos naturais, como resveratrol, quercetina e curcumina, reduzem citocinas pró-inflamatórias como TNF-α, IL-6 e IL-1β, inibem a ativação da via NF-κB e modulam receptores Toll-like TLR2/TLR4. Esses mecanismos contribuem para a redução da neuroinflamação, elemento central na fisiopatologia da depressão. Tais achados aproximam o conhecimento clínico do fundamento molecular, evidenciando que a nutrição influencia diretamente a expressão gênica, o metabolismo neuronal, a microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro.

Fatores individuais também surgiram como moduladores relevantes. Shamsi et al. (2025) demonstraram que diferenças entre os sexos podem interferir na relação entre padrões alimentares, sintomas emocionais e cognição, reforçando que intervenções nutricionais personalizadas podem representar avanço importante no manejo da depressão. Qie et al. (2024) acrescentaram que comportamentos saudáveis integrados, como alimentação equilibrada, sono adequado e prática regular de atividade física, exercem efeito cumulativo protetor sobre a saúde mental, indicando que abordagens isoladas podem ser menos eficazes do que estratégias multiprofissionais.

Apesar das evidências consistentes, algumas limitações devem ser consideradas, incluindo o uso de recordatórios alimentares sujeitos a viés de memória, a heterogeneidade dos desenhos metodológicos e o tempo de seguimento reduzido em alguns ensaios clínicos. Ainda assim, a convergência dos resultados entre diferentes tipos de estudo fortalece a interpretação dos achados e reafirma a importância da alimentação como recurso complementar no cuidado à depressão.

Diante do conjunto das evidências, observa-se que padrões alimentares antiinflamatórios, ricos em alimentos naturais, vegetais, frutas, grãos integrais e compostos bioativos, apresentam efeito benéfico sobre a regulação do humor e a redução dos sintomas depressivos. Recomenda-se, portanto, que intervenções nutricionais integrem o cuidado clínico à depressão, associadas a abordagens psicoterapêuticas e farmacológicas, reforçando o papel estratégico da nutrição na promoção da saúde mental.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base na literatura científica analisada, conclui-se que a alimentação exerce papel determinante na fisiopatologia da depressão, atuando como fator de proteção ou de risco conforme o padrão alimentar adotado. Padrões alimentares equilibrados e anti-inflamatórios, como a Dieta Mediterrânea, a Dieta Nórdica, a Dieta Tradicional Brasileira (DieTBra), a Dieta DASH e a Dieta Japonesa, têm demonstrado associação consistente com a redução de sintomas depressivos, melhora do bemestar emocional e fortalecimento das funções cognitivas.

Esses padrões caracterizam-se pelo consumo predominante de alimentos in natura ou minimamente processados, ricos em fibras, antioxidantes, vitaminas do complexo B, vitamina D, magnésio, zinco, ácidos graxos ômega-3 e compostos bioativos. Esses nutrientes exercem efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes, favorecem a modulação da microbiota intestinal, a produção adequada de neurotransmissores e o controle da neuroinflamação, mecanismo central envolvido na depressão. Esse conjunto de processos evidencia a relevância do eixo intestinocérebro como elo fundamental entre nutrição e saúde mental.

Em contrapartida, o padrão alimentar ocidental, caracterizado pelo elevado consumo de ultraprocessados, gorduras saturadas e açúcares simples, associa-se ao aumento da inflamação sistêmica, à disbiose intestinal e ao desequilíbrio neuroendócrino, fatores que contribuem para o surgimento, agravamento e manutenção da depressão. Esses achados reforçam que escolhas alimentares inadequadas impactam não apenas a saúde física, mas também o equilíbrio emocional, exigindo uma abordagem multidimensional no cuidado à saúde mental.

Assim, a nutrição configura-se como ferramenta estratégica, acessível e não farmacológica no enfrentamento da depressão. Políticas públicas e programas de educação nutricional devem incentivar padrões alimentares saudáveis, culturalmente adequados e sustentáveis, respeitando particularidades regionais e promovendo autonomia alimentar. A atuação integrada entre nutricionistas, psicólogos, médicos e demais profissionais da saúde é fundamental para um cuidado que contemple corpo e mente.

Por fim, destaca-se a necessidade de novos estudos clínicos e longitudinais que aprofundem os mecanismos que conectam nutrição, microbiota intestinal e processos neuroinflamatórios, ampliando a base científica da nutrição aplicada à saúde mental. Reconhecer que cuidar da mente também envolve cuidar da alimentação representa um avanço essencial para a construção de uma sociedade mais saudável, equilibrada e emocionalmente resiliente.

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