EFICÁCIA DO PROTOCOLO ERAS NA OTIMIZAÇÃO DA RECUPERAÇÃO PÓS-OPERATÓRIA DE MULHERES SUBMETIDAS À CESARIANAS: UM ESTUDO COMPARATIVO COM O MANEJO PERIOPERATÓRIO CONVENCIONAL

EFFICACY OF THE ERAS PROTOCOL IN OPTIMIZING THE POSTOPERATIVE RECOVERY OF WOMEN UNDERGOING CESAREAN SECTION: A COMPARATIVE STUDY WITH CONVENTIONAL PERIOPERATIVE MANAGEMENT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511082304


Giovanna Lima Gaia1; Eduarda Helena Castellanos Rocha1; Sarah Bernardes Chaves1; Valentina Miranda Nogueira1; Sofia Santos Rosa Macêdo1; Gabriela Horta Madeira1; Giovanna de Lima Araújo1; Melina Calmon Silva1; Leonardo Anício Viana Vieira1; Anabele Azevedo Lima Barbastefano2


Resumo

O presente estudo analisa a eficácia do protocolo de Recuperação Acelerada Pós-Cirurgia (ERAS) na otimização da recuperação pós-operatória de mulheres submetidas à cesariana, em comparação ao manejo perioperatório convencional. A partir disso, o objetivo consiste em avaliar se a adoção do ERAS é capaz de reduzir o tempo de internação, o uso de opioides e a intensidade da dor, além de favorecer a mobilização precoce, o retorno funcional, o início antecipado da amamentação e a melhora da satisfação materna. Além disso, também foram considerados parâmetros como o tempo de realimentação, a incidência de náuseas e vômitos pós-operatórios, a estabilidade hemodinâmica, o equilíbrio emocional e a ocorrência de complicações e readmissões hospitalares. Dessa forma, a análise dos dados disponíveis na literatura evidencia que a implementação do ERAS promove resultados clínicos superiores, sem aumento de riscos maternos ou neonatais. Observa-se que a integração multiprofissional, a comunicação efetiva entre as equipes e o uso de analgesia multimodal são elementos fundamentais para o sucesso do protocolo. Ademais, a abordagem centrada na paciente e o estímulo à autonomia durante o processo de recuperação contribuem para uma experiência obstétrica mais positiva e humanizada. Conclui-se, portanto, que o ERAS representa uma estratégia eficaz, segura e baseada em evidências para aprimorar a recuperação após a cesariana, consolidando-se como um modelo de cuidado obstétrico moderno e sustentável.

Palavras-chave: Protocolo ERAS. Cesariana. Recuperação pós-operatória. Analgesia multimodal. Humanização da assistência.

1 INTRODUÇÃO

A cesariana é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados no mundo, demonstrado por taxas globais que aumentaram significativamente, passando de cerca de 7% em 1990 para 21% atualmente, e prevê-se que alcancem 29% até 2030 (ANGOLILE et al., 2023). Tal cirurgia representa um recurso essencial para a segurança materno-fetal quando bem indicado, mas que também está associada a maior morbidade em comparação ao parto vaginal, especialmente devido ao trauma cirúrgico, dor pós-operatória e tempo prolongado de recuperação. Nos últimos anos, o desenvolvimento de protocolos baseados em evidências científicas têm transformado o cuidado perioperatório, sendo o protocolo ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) uma das inovações mais relevantes nesse contexto. Originalmente criado para cirurgias colorretais, o ERAS foi gradualmente expandido para diferentes especialidades, incluindo a obstetrícia, visando reduzir o estresse fisiológico da cirurgia, otimizar o controle da dor, acelerar o retorno às funções normais e, consequentemente, promover uma recuperação mais rápida e segura (SAURO et al., 2024).

No contexto obstétrico, a aplicação do protocolo, denominada ERAC (Enhanced Recovery After Cesarean),  propõe um modelo multidisciplinar e multimodal de cuidado, abrangendo todas as fases do processo cirúrgico: pré-operatória, intraoperatória e pós-operatória. As principais estratégias incluem a redução do jejum, mínima utilização de opioides, a mobilização e alimentação precoces e a promoção do contato pele a pele entre a mãe e o recém nascido (BOLLAG et al., 2021). Essas medidas têm se mostrado eficazes na redução do tempo de internação, diminuindo 13,78 horas, no controle mais eficiente da dor e na melhora da experiência materna sem aumento de complicações (PINHO e COSTA, 2024).

Essa pesquisa se mostra relevante, posto que a cesariana, embora necessária em muitos casos, ainda é frequentemente associada às práticas hospitalares tradicionais que prolongam a recuperação materna e dificultam o início do cuidado do recém-nascido. Dessa forma, esse trabalho tem como objetivo analisar a eficácia do protocolo ERAS na otimização da recuperação pós-operatória de mulheres submetidas à cesarianas comparando-o com o manejo perioperatório convencional. Além disso, deve-se discutir a importância da adoção desse protocolo na prática obstétrica, considerando seus benefícios clínicos, econômicos e sociais. Assim, esta pesquisa pretende contribuir para o avanço das pesquisas na área obstétrica, reforçando a importância de um cuidado centrado na paciente, seguro, eficiente e baseado em pesquisas embasadas e aplicadas.

O presente estudo objetiva avaliar o impacto da aplicação do protocolo ERAS em mulheres submetidas a cesarianas, em comparação ao manejo perioperatório habitual, analisando sua influência na recuperação pós-operatória.

De forma específica, busca-se comparar o tempo de recuperação funcional entre as pacientes submetidas ao protocolo ERAS e aquelas que receberam o cuidado perioperatório convencional. Ademais, pretende-se mensurar o grau de satisfação das pacientes que seguiram o protocolo em relação ao cuidado perioperatório, bem como avaliar a influência do ERAS na qualidade da analgesia e no tempo até a suspensão do uso de opioides. Por fim, propõe-se comparar a ocorrência de eventos adversos pós-operatórios entre os dois grupos, a fim de identificar possíveis benefícios clínicos associados à adoção do protocolo.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

Referencial teórico/Estado da arte

O estudo de Sauro et al. (2024) apresentou uma meta-análise abrangente, incluindo 74 ensaios clínicos randomizados de diversas especialidades cirúrgicas, que demonstrou redução significativa do tempo de hospitalização e das complicações pós-operatórias em pacientes submetidos ao protocolo ERAS, sem aumento nas taxas de mortalidade ou readmissão. Embora o trabalho não tenha se limitado à obstetrícia, suas conclusões sustentam os princípios que embasam o Enhanced Recovery After Cesarean (ERAC), indicando que a aplicação estruturada e multidisciplinar do protocolo é capaz de promover uma recuperação mais rápida e segura comparada ao modelo tradicional. Esses achados são reforçados por Pinho e Costa (2024), que, ao analisarem exclusivamente cesarianas, observaram resultados semelhantes, com redução média de 13,78 horas na internação e menor necessidade de opioides. Ambas as pesquisas apontam que a eficácia do ERAS decorre da combinação entre analgesia multimodal, mobilização precoce e controle metabólico rigoroso, embora Pinho e Costa (2024) tenham ressaltado com maior ênfase a melhora na experiência subjetiva da paciente, como conforto e bem-estar durante o puerpério.

De forma similar, Afreen et al. (2024) e Ofelia et al. (2023) confirmam que a adoção do protocolo ERAS em cesarianas eletivas reduz o tempo de internação, além de favorecer a mobilização precoce e a amamentação. Entretanto, enquanto Afreen et al. (2024) destacam o impacto positivo na satisfação materna e na humanização do cuidado, evidenciando os benefícios psicossociais da técnica, Ofelia et al. (2023) enfatizam mais fortemente os resultados objetivos, como as menores pontuações de dor e a ausência de aumento nas complicações pós-operatórias. Dessa forma, tal diferença de foco revela como o ERAS pode ser avaliado sob múltiplas perspectivas: uma centrada em desfechos clínicos e outra voltada ao bem-estar subjetivo da paciente. Ambos, contudo, reforçam a segurança do protocolo e a viabilidade de sua implementação em contextos distintos, segundo o estudo de Afreen et al. (2024).

O estudo de H.-S. Na (2025), por sua vez, aproxima-se dos achados de Afreen et al. (2024) ao valorizar a dimensão emocional da recuperação e o fortalecimento do vínculo materno-infantil, além de destacar a aceleração da mobilização pós-operatória. No entanto, enquanto Afreen et al. (2024) observam esses benefícios em um contexto clínico controlado, H.-S. Na (2025) enfatiza os desafios práticos da implementação, como a necessidade de engajamento multiprofissional e adesão institucional, o que dialoga diretamente com as observações de Digenis et al. (2024) sobre as barreiras à adesão plena ao protocolo.

O trabalho de Digenis et al. (2024) é um contraponto relevante dentro do conjunto de evidências, pois revela que apenas 38% das mulheres elegíveis completaram integralmente o protocolo ERAC, e que os principais fatores de não adesão estavam relacionados a condições obstétricas e médicas, mais do que a fatores psicossociais. Esses achados contrastam com os estudos de Bollag et al. (2021) e H.-S. Na (2025), que ressaltam a importância do preparo emocional e da educação da paciente. Essa divergência sugere que, embora os aspectos psicossociais sejam fundamentais para a aceitação do protocolo, as variáveis clínicas ainda representam o principal obstáculo à sua completa execução, apontando para a necessidade de adaptações individualizadas e flexibilidade na aplicação dos componentes do ERAS.

Mundhra et al. (2024) ampliam o foco de análise ao avaliar a aplicação do ERAS em cesarianas de emergência, um cenário ainda pouco explorado pelos demais autores. Ao contrário dos estudos focados em cirurgias eletivas, o trabalho demonstrou que o protocolo também é eficaz em situações emergenciais, proporcionando recuperação mais rápida, menor dor e restabelecimento precoce da função intestinal, sem aumento das complicações. Esses resultados complementam e fortalecem as conclusões de Sauro et al. (2024) e Pinho e Costa (2024), mostrando que o ERAS mantém sua efetividade mesmo em contextos clínicos de maior complexidade, desde que adaptado adequadamente.

Pan et al. (2020) contribui de forma mais específica ao demonstrar que o uso do protocolo ERAS em cesarianas eletivas reduz de maneira significativa os escores de dor nas primeiras 24 e 48 horas, tanto em repouso quanto em movimento, e diminui a incidência de náuseas intraoperatórias. Tais resultados estão em consonância com os achados de Ofelia et al. (2023), que também evidenciaram melhor controle da dor e conforto materno. No entanto, Pan et al. (2020) destaca de forma mais expressiva a vantagem econômica do protocolo, ao observar redução nos custos hospitalares sem prejuízo à segurança, o que o diferencia dos demais estudos, que priorizaram aspectos clínicos e psicossociais.

Ao integrar os resultados de todos esses trabalhos, é possível identificar que o protocolo ERAS/ERAC promove benefícios consistentes na recuperação pós-cesariana, especialmente no que se refere à redução do tempo de internação, à menor necessidade de opioides e ao retorno precoce das funções fisiológicas e maternas. Enquanto estudos como os de Sauro et al. (2024), Pinho e Costa (2024), Ofelia et al. (2023) e Pan et al. (2020) enfatizam desfechos objetivos, pesquisas como as de Bollag et al. (2021), Afreen et al. (2024) e H.-S. Na (2025) destacam narrativas mais subjetivas e humanizadas, reforçando que a recuperação não se limita à cicatrização física, mas também envolve bem-estar emocional e fortalecimento do vínculo materno-infantil. Por outro lado, Digenis et al. (2024) e Mundhra et al. (2024) trazem olhares complementares, alertando para os desafios da adesão e para a necessidade de adaptações contextuais — seja em cesarianas de emergência ou em pacientes com condições clínicas específicas.

A análise de Bollag et al. (2021) complementa esses achados ao propor um consenso de diretrizes específicas para a cesariana, denominado Enhanced Recovery After Cesarean (ERAC). O artigo enfatiza a padronização do cuidado e a integração multiprofissional como pilares do sucesso do protocolo, indo além dos aspectos clínicos para incluir dimensões educativas e emocionais. Ao comparar-se com estudos como os de Sauro et al. (2024) e Pinho e Costa (2024), percebe-se que Bollag et al. (2021) contribuem de maneira mais normativa e teórica, estabelecendo as bases para a prática, enquanto os outros estudos confirmam de forma técnica os benefícios dessas recomendações. A visão de H.-S. Na (2025), destaca a importância da adaptação do ERAS ao contexto obstétrico, considerando a relação mãe-bebê e a necessidade de colaboração ativa entre paciente e equipe de saúde. Ambos os autores reforçam que o sucesso do protocolo depende não apenas da técnica, mas também da filosofia de cuidado centrada na mulher, o que o diferencia das práticas cirúrgicas tradicionais.

Assim, os artigos analisados demonstram que, embora o ERAS seja amplamente benéfico e aplicável, sua eficácia plena depende da integração entre a evidência científica e a realidade clínica. O conjunto das pesquisas aponta para o protocolo como uma estratégia segura, eficaz e humanizada, capaz de transformar o modelo de cuidado obstétrico cirúrgico, desde que sua implementação seja acompanhada de capacitação profissional, adesão institucional e abordagem centrada na paciente.

3 METODOLOGIA 

 Trata-se de uma revisão bibliográfica de caráter integrativo, com abordagem descritiva e comparativa, cujo objetivo foi analisar a eficácia do protocolo Enhanced Recovery After Surgery (ERAS) na otimização da recuperação pós-operatória de mulheres submetidas à cesariana, em comparação ao manejo perioperatório convencional. A busca dos estudos foi realizada na base de dados PubMed e BVS, utilizando a combinação de descritores controlados e não controlados: ((“Enhanced Recovery After Surgery”) AND (“Women”)) AND (“Cesarean Section”). Foram incluídos artigos publicados nos últimos cinco anos, disponíveis na íntegra, redigidos em inglês ou português, e que apresentavam delineamento metodológico do tipo ensaio clínico randomizado, estudo de coorte ou caso-controle, revisões sistemáticas e meta-análise. Foram excluídas, relatos de caso, protocolos ainda não aplicados, estudos duplicados ou que não abordassem especificamente a aplicação do protocolo ERAS em cesarianas. A seleção ocorreu em três etapas: leitura dos títulos, análise dos resumos e leitura integral dos textos elegíveis, conforme os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos.

 A análise dos estudos selecionados foi conduzida de forma descritiva e comparativa, considerando as variáveis definidas a partir da estrutura PICO: P (população) – mulheres submetidas a cesarianas; I (intervenção) – protocolo ERAS; C (comparador) – manejo perioperatório convencional; O (desfecho) – recuperação pós-operatória. Os resultados foram organizados de modo a sintetizar os principais achados referentes ao tempo de recuperação funcional, grau de satisfação das pacientes, qualidade da analgesia, tempo até a suspensão de opioides e ocorrência de eventos adversos.

4 RESULTADOS 

 Autor (ano)Resultados
1Sauro et al. (2024)Revisão sistemática com meta-análise de 74 ensaios clínicos randomizados que avaliou a eficácia das diretrizes de Recuperação Aprimorada Após a Cirurgia (ERAS) em comparação com o cuidado cirúrgico habitual. As diretrizes ERAS foram associadas a melhorias significativas no tempo de permanência hospitalar e nas complicações pós-operatórias, sem aumentar significativamente as readmissões, mas não tiveram impacto estatisticamente significativo nas readmissões em 30 dias ou na mortalidade em 30 dias. Os autores destacam que pesquisas futuras devem se concentrar em melhorar a implementação e o cumprimento (compliance) das diretrizes ERAS para otimizar os resultados dos pacientes.
2Na et al. (2025)Revisão que examina o protocolo atual de Recuperação Aprimorada Após o Parto Cesáreo (ERAC) e considera os tipos de pesquisa necessários para estabelecer um protocolo baseado em evidências no futuro. A implementação do ERAC tem sido associada a melhorias em certos resultados maternos, incluindo redução do tempo de permanência hospitalar pós-operatória, diminuição do tempo até a primeira deambulação, menor uso de cateter urinário e redução do consumo de opioides. No entanto, a principal conclusão do estudo de revisão é que muitos componentes do protocolo ERAC ainda carecem de evidências suficientes e são suportados por recomendações fracas. Em conclusão, embora o ERAC esteja associado a melhores resultados maternos, há necessidade de mais pesquisas rigorosas e colaboração multidisciplinar para abordar as limitações e fortalecer as evidências que apoiam muitos de seus componentes.
3Pinho e Costa (2023)Revisão sistemática com meta-análise que analisou 16 estudos (3 ensaios clínicos randomizados, 4 estudos de coorte, 9 estudos de coorte retrospectivos) com objetivo de comparar, determinar e resumir se os desfechos perioperatórios de parto cesariana seguindo as diretrizes ERAS são benéficos em comparação com a abordagem perioperatória tradicional. Foi concluído que as cesarianas gerenciadas com as recomendações ERAS estão associadas a um encurtamento benéfico do tempo de permanência hospitalar e à redução do consumo de opioides pós-parto, sem impacto negativo nos desfechos maternos gerais ou nas taxas de readmissão. Os autores ressaltam, no entanto, que a limitação principal da evidência encontrada reside no reduzido número de ensaios clínicos randomizados e na alta heterogeneidade dos protocolos inter-estudos. Para tirar conclusões definitivas, é necessária mais evidência científica robusta e de alta qualidade no futuro, focada em amostras maiores e aplicação mais controlada de diretrizes específicas do ERAS.
4Afreen et al. (2024)Estudo Prospectivo Cross-Sectional cujo objetivo foi comparar resultados da implementação das diretrizes do ERAS com o cuidado perioperatório convencional, o qual incluiu 206 cesarianas realizadas entre fevereiro e julho de 2023. Os resultados demonstraram que o protocolo ERAS foi associado a uma diminuição substancial no tempo de permanência hospitalar pós-operatória, com melhores resultados pós-operatórios imediatos. O grupo ERAS apresentou escores de dor mais baixos (medidos em 10 e 20 horas), menor incidência de náuseas e vômitos, e menor incidência de problemas urinários, em comparação com o grupo convencional. Ele permite uma recuperação mais rápida e minimiza o uso de opioides, a dor pós-operatória e a náusea, o que melhora a satisfação do paciente. Os autores recomendam a implementação do protocolo ERAS para melhorar os resultados dos pacientes e reduzir os custos hospitalares.
5Sordia Pineyro et al. (2023)Estudo retrospectivo e comparativo com objetivo de demonstrar que a aplicação do protocolo de Recuperação Aprimorada Após a Cirurgia (ERAS) em cesarianas eletivas está associada à redução do tempo de permanência hospitalar sem aumentar as complicações maternas. O estudo foi realizado em um hospital privado de atenção terciária em Monterrey, México, e incluiu 295 pacientes submetidas a cesariana eletiva entre janeiro de 2017 e dezembro de 2020. A aplicação do protocolo ERAS foi associada a uma redução estatisticamente significativa no tempo de permanência hospitalar, pacientes com menor dor pós-operatória, remoção do cateter urinário, iniciação de dieta oral e deambulação precoces e menor dor pós-operatória. Em países em desenvolvimento, a implementação deste protocolo pode ajudar a otimizar os recursos disponíveis do sistema de saúde.
6Pan et al. (2020)Ensaio clínico randomizado prospectivo controlado com objetivo de estar se a implementação de um protocolo de Recuperação Aprimorada Após a Cirurgia (ERAS) em pacientes submetidas a cesariana eletiva teria um impacto positivo no estado pós-operatório, especificamente no gerenciamento da dor, tempo de permanência hospitalar, custos de hospitalização e reações adversas. A conclusão é que o protocolo ERAS é promissor e sua implementação em pacientes submetidas a cesariana eletiva vale a pena. Foi considerado benéfico na redução da dor pós-operatória, da incidência de náuseas intraoperatórias e do custo médio de hospitalização, além de melhorar a satisfação da paciente. No entanto, o protocolo ERAS não demonstrou vantagens na redução do tempo de permanência hospitalar ou de outros desconfortos perioperatórios.
7Mundhra et al. (2024)Ensaio clínico randomizado prospectivo controlado com objetivo de determinar se o ERAS em cesarianas de emergência permitiria uma redução no tempo de permanência hospitalar pós-operatório e melhoraria na satisfação pós-operatória da paciente. O estudo randomizou 142 mulheres (ERAS versus Cuidado Convencional) submetidas a cesariana de emergência com idade gestacional ≥ 34 semanas. A incorporação do protocolo ERAS em cesarianas de emergência demonstrou melhorar os resultados da paciente em termos de retomada precoce de atividades, redução da dor pós-operatória e melhor qualidade de vida, resultando em uma alta mais precoce e maior satisfação da paciente, sem aumentar a taxa de complicações ou readmissões. A importância do estudo reside no fato de que poucas pesquisas examinaram o ERAS especificamente em cesarianas de emergência.
8Bollag et al. (2020)O estudo em análise é um Artigo Especial (Special Article) que apresenta uma Declaração de Consenso e Recomendações da Sociedade de Anestesia Obstétrica e Perinatologia (SOAP – Society for Obstetric Anesthesia and Perinatology). O objetivo do consenso é fornecer recomendações práticas e, sempre que possível, baseadas em evidências, sobre o protocolo de ERAC. Apesar de algumas recomendações serem baseadas em evidências de baixo nível ou consenso de especialistas, as evidências mais fortes (Classe I, Nível A) existem para elementos intraoperatórios e pós-operatórios. A implementação dos protocolos ERAC visa melhorar os resultados maternos e infantis, aprimorar a experiência da paciente e suportar uma cultura de melhoria contínua. O objetivo central é melhorar os desfechos maternos sem comprometer a segurança da paciente ou aumentar as taxas de readmissão e complicação. 
9Digenis et al. (2024)Estudo exploratório de coorte prospectivo realizado para avaliar os resultados de um protocolo australiano de EREC. O objetivo principal era quantificar a porcentagem de mulheres elegíveis que não completaram o protocolo e identificar as razões, além de comparar características biopsicossociais antenatais entre as mulheres que completaram e as que não completaram o EREC. O estudo recrutou 74 mulheres elegíveis para o EREC, mas 62% das mulheres não foram liberadas no dia seguinte e, portanto, não completaram o protocolo EREC. O achado mais importante do estudo é que fatores médicos (como hipertensão e diabetes) e obstétricos (como pré-eclâmpsia e hemorragia pós-parto), e não características psicossociais, foram as razões mais comuns para a permanência hospitalar prolongada. Este achado “proporciona tranquilidade aos clínicos e às mulheres” de que a alta hospitalar está funcionando conforme o pretendido, pois a permanência é estendida quando há indicação médica. O estudo também sugere que pesquisas adicionais são necessárias para entender como apoiar as mulheres com maior nível de estresse antenatal.

4.1. Duração de internação hospitalar (DIH):

Como consenso geral entre os estudos, foi observada uma redução na DIH em pacientes que foram submetidos ao protocolo ERAS. Na revisão sistemática com meta-análise feita por Sauro et al. (2024), o tempo de internação hospitalar diminuiu em 1,88 dias (95% CI, 0,95-2,81 dias; P <0,001) para os pacientes dos grupos ERAS em comparação aos grupos controle. Todavia, a magnitude da redução do DIH variou conforme o tipo de cirurgia, sendo maior em pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos pancreáticos, ortopédicos e gastrointestinais do que a pacientes submetidas a cirurgias ginecológicas e de mama. Na et al. (2025) também encontraram resultados similares por meio de uma revisão de literatura, sendo o ERAS demonstrado como capaz de encurtar as internações hospitalares pós-operatórias e melhorar os resultados clínicos de cirurgias de grande porte, especificamente as cesáreas.

Na revisão sistemática com meta-análise de Pinho e Costa (2023), foi observada  a diminuição majoritária no tempo de permanência hospitalar entre os estudos analisados, uma diferença média de – 13.78 horas (IC 95 %: − 19.28 a − 8.28; p < 0.00001). Três dos estudos incluídos não encontraram uma redução significativa de DIH, porém os autores notaram que, nesses casos, a DIH já era baixa nestes centros hospitalares, ou que fatores como pressões financeiras e sistemas de seguro poderiam ter influenciado a alta.

No estudo prospectivo e comparativo de Afreen et al. (2024), ao aplicar as diretrizes ERAS a cirurgias cesarianas eletivas, o resultado mais chamativo obtido foi a redução drástica no tempo de permanência pós-operatória no hospital, em que o grupo ERAS teve duração média de estadia hospitalar de 33,42 ± 7,74 horas, enquanto o grupo convencional teve uma média de estadia hospitalar de 61,30 ± 10,42 horas (p<0.001). Da mesma forma, Sordia Pineyro et al. (2023) investigaram a Recuperação Aprimorada Após Cirurgia para cesáreas eletivas e a DIH pós-cirúrgica também foi reduzida (grupo ERAS: 44,0 ± 5,4 horas x grupo controle: 50,2 ± 8,2 horas; p<0,001). Embora a diferença média de tempo de internação tenha sido de aproximadamente seis horas, os autores notaram que, ao ser aplicada a sistemas de saúde com alto volume de partos cesáreos, tal intervalo representaria uma economia de recursos. Afreen et al. (2024) também correlacionaram a redução da DIH à reserva do orçamento hospitalar.

Contudo, Pan et al. (2020), em ensaio clínico comparativo randomizado e controlado em partos cesáreos eletivos, constataram que a DIH total da internação [controle: 4,61 ± 0,64; ERAS: 4,67 ± 0,49 (P=0,412)] e a DIH pós-operatória [controle: 3,42 ± 0,55; ERAS: 3,45 ± 0,64 (P=0,775)] foram comparáveis em ambos os grupos, sem diferenças intergrupos, isto é, o uso do protocolo ERAS não mostrou vantagens quanto a esse aspecto. 

Por outro lado, no contexto de cesarianas de emergência, Mundhra et al. (2024) apresentaram resultados favoráveis, em ensaio clínico randomizado, no qual o grupo ERAS (5,32 ± 2,75 dias) teve duração de internação hospitalar significativamente mais curta que a do grupo convencional (7,86 ± 7,01 dias; p=0,006), concluindo que tal protocolo promove a alta precoce das pacientes. 

4.2. Segurança e readmissão:

 No estudo retrospectivo e comparativo de Sordia Pineyro et al. (2023), a aplicação das diretrizes ERAS não aumentou a taxa de complicações maternas pós-operatórias, aspecto importante a ser considerado para garantir que o ERAS é seguro; ao invés disso, a taxa de complicações foi similar em ambos os grupos [grupo 1 (ERAS): 3 pacientes (2,1%); grupo 2 (controle): 4 pacientes (2,6%); (p>0,9)]. Do mesmo modo, Pinho e Costa (2023) não encontraram  indícios de que o protocolo ERAS tivesse impacto negativo nos desfechos de segurança materna, ou na incidência de complicações gerais [OR: 0.87 (IC 95 %: 0.56 a 1.35; p = 0.53)] ou específicas como infecção do sítio cirúrgico (ISC) e morbidade emética, porém os autores observaram que não foi possível tirar uma conclusão definitiva sobre o impacto do ERAS na diminuição da ISC, pois alguns estudos incluídos na análise não compararam corretamente os passos específicos do ERAS (como profilaxia antimicrobiana pré-operatória e preparação da pele). Além disso, não foi encontrada diferença significativa nas taxas de readmissão em 30 dias entre as cesarianas gerenciadas por ERAS e as convencionais.

As diretrizes ERAS foram associadas a uma diminuição no risco de complicações por Sauro et al. (2024), em que o risco de complicações diminuiu com uma Razão de Risco (RR) agrupada de 0,71 (95% CI, 0,59-0,87; P < 0,001) no grupo ERAS, além de que os benefícios alcançados em virtude do protocolo ocorreram sem aumentar o risco de desfechos negativos. Ademais, não houve uma diferença no risco de readmissão hospitalar em 30 dias, sendo o RR de 1,04 (95% CI, 0,81-1,35; P = 0,74). É importante destacar que, os riscos de readmissão e mortalidade pós-operatória em 30 dias não foram muito distintos entre os grupos ERAS e controle [0,95 (95% CI, 0,48-1,88)]. 

No caso de Afreen et al. (2024), não houve readmissões devido a problemas cirúrgicos ou médicos em nenhum dos grupos, muito menos diferença discernível na incidência de febre ou infecções de feridas entre os grupos, bem como Mundhra et al. (2024), os quais não encontraram distinção significativa em termos de complicações como cefaleia espinhal, náuseas, vômitos, íleo paralítico, ou infecção do trato urinário, ou taxas de readmissão em 30 dias entre os grupos ERAS e convencional. Apenas uma paciente no braço ERAS foi readmitida, e duas pacientes no braço convencional tiveram cefaleia espinhal, mas essas diferenças não foram estatisticamente significativas.

4.3. Controle da dor e consumo de opioides:

Em relação ao uso de opioides, as diretrizes ERAS estabelecem a redução deste consumo, substituindo-o pelo uso de analgesia multimodal, isto é, uma combinação de diversos agentes com diferentes mecanismos de ação para controlar a dor de forma eficaz, evitando-se, assim, o uso de narcóticos. Tal analgesia é um elemento intraoperatório e postoperatório com Nível de Evidência Alto (Classe I, Nível A ou B-NR) (BOLLAG et al., 2020). Na et al. (2025) e Bollag et al. (2025) explicam que tal modalidade previne os efeitos colaterais associados aos opioides como complicações gastrointestinais (náuseas, vômitos), sedação e fadiga (que prejudicariam outro componente do ERAS, a mobilização precoce), retenção urinária (o que poderia atrasar a remoção do cateter urinário) e os riscos de má utilização e dependência.

 Para a implementação desta diretriz, Sordia Pineyro et al. (2023) fizeram o controle da dor pós-operatória no grupo ERAS com paracetamol e cetorolacol, evitando-se opióides o máximo possível. Como resultado, o grupo em questão teve menos dor em 24 horas (2.8 ± 2.1) em comparação com o Grupo 2 (4.0 ± 1.3), sendo esta diferença estatisticamente significativa (p<0,001). Todavia, o estudo observou que a maioria das mulheres recebeu opióides pós-operatórios em ambos os grupos (84,8%); entende-se, então, que a distinção de nível de dor entre os dois braços está justamente na analgesia multimodal. Pinho e Costa (2023) identificaram um decréscimo no consumo de opioides quando foram aplicados os protocolos ERAS [− 0.91 (IC 95 %: − 1.51 a − 0.32; p = 0.003)]. Isso inclui a porcentagem de mulheres que usaram opióides internadas, a média de Equivalentes de Morfina em Miligramas (MEM) consumidos por dia de internação e a porcentagem de mulheres que receberam prescrição de opioides na alta; eles também atribuíram à analgesia multimodal esse desfecho.

No estudo de Afreen et al. (2024), a dor pós-operatória foi avaliada pelas pacientes a partir de uma Escala Visual Analógica (EVA), cujos resultados foram: às 10 horas, a pontuação dor no grupo ERAS foi de 4,99 ± 1,77, significativamente menor do que 6,66 ± 1,72 no grupo convencional (p<0.001). Às 20 horas, a pontuação de dor no grupo ERAS foi de 2,92 ± 1,55, significativamente menor do que 4,99 ± 1,72 no grupo convencional (p<0.001). Mundhra et al. (2024) também fez uma avaliação da dor com suas pacientes através da EVA e obteve escores de dor relevantemente mais baixos no grupo ERAS comparativamente ao convencional, tanto na deambulação inicial quanto no repouso, nos dias 0 e 1  (p<0,05). Adicionalmente, as mulheres do braço ERAS relataram menores escores de dor durante a amamentação no dia 0 e no dia 1. 

Pan et al. (2020) apresentaram escores médios de dor mais baixos no grupo ERAS do que o controle, tanto em repouso nas primeiras 24 horas [ERAS: 2,46 ± 1,58; Controle: 3,50 ± 1,76 (P<0,001)] e 48 horas [ERAS: 2,00 ± 1,65; Controle: 2,60 ± 1,57 (P=0,007)], quanto em movimento em 24 horas [ERAS: 3,38 ± 2,10; Controle: 4,74 ± 1,90 (P<0,001)] e em 48 horas [ERAS: 2,77 ± 2,01; Controle: 3,50 ± 1,65 (P=0,004)]. Além disso, o grupo ERAS teve menos pacientes com dor de grau EVA > 3 durante o repouso nas primeiras 24 horas  e durante o movimento nas primeiras 24 e 48 horas após a cirurgia. Não houve uma diferença significativa na necessidade de analgésicos extras entre os grupos, com apenas uma paciente em cada grupo com essa demanda.

4.4. Recuperação funcional e marcos fisiológicos:

De acordo com Afreen et al (2024), a recuperação de pacientes no protocolo ERAS é possível devido aos processos precoces de desjejum, deambulação, remoção do cateter urinário e  manejo multimodal da dor e analgesia, bem como a administração preventiva de antibióticos, processos contribuintes para a diminuição das taxas de dor e náusea pós-operatórias.

A recuperação funcional está intimamente ligada à mobilização precoce que o protocolo ERAS preconiza, sendo esse um princípio fundamental para a redução da resistência à insulina, risco de tromboembolismo e o tempo de permanência hospitalar (Bollag et al., 2021). Nesse sentido, o protocolo ERAS recomenda a remoção do cateter urinário em 6-12 horas após o pós-parto para facilitar a deambulação da paciente, sendo que a mobilização deve ser iniciada assim que a função motora retornar adequadamente, o que seria, idealmente, em 0-8 horas após a cirurgia  (Bollag et al., 2021).

Dentro dos marcos fisiológicos, o protocolo ERAS enfatiza a ingestão oral precoce para acelerar a recuperação da função intestinal e reduzir o catabolismo pós-operatório (Bollag et al., 2021; Na et al., 2025). Assim, o ERAS, geralmente, recomenda a ingestão de gelo ou água em 60 min após a admissão na Unidade de Pós-Anestesia e com avanço para a dieta regular em 4 horas (idealmente) (Bollag et al., 2021). Nesse contexto, em eletivas, o protocolo resultou em um período de jejum significativamente menor (8,0 ± 1,9 horas) comparado ao protocolo controle (11.3 ± 2.3 horas; p < 0.001) (Sordia-Pineyro et al., 2023). Em relação ao retorno da função intestinal, a passagem de flatulência ocorreu significativamente mais cedo no ERAS (21.68 ± 8.34 horas) do que no controle (35.51 ± 8.86 horas; p < 0.0001) (Mundhra et al, 2024).

4.5. Experiência do paciente e qualidade de vida:

O Protocolo ERAS está associado a uma melhor experiência percebida pelos pacientes, visto que na análise de satisfação da paciente, avaliada pela Escala Visual Análoga (VAS), o grupo ERAS apresentou resultados significativamente maiores (média 8.12 ± 0,76) em comparação com o grupo controle (média 8,12 ± 1,08; P = 0.016) em cesarianas eletivas, além de que a incidências de náuseas intraoperatórias foi significativamente menor no grupo ERAS (2.68%) do que no grupo controle (22.12%; P < 0.001) (Pan et al., 2020). No entanto, a incidência de náuseas e vômitos pós-operatórios não apresentou diferença significativa em comparação com o cuidado convencional (Pinho e Costa et al., 2023).

Digenis et al. (2024) destacou como o EREC contribui para recuperação com auxílio do vínculo familiar, visto que 93% das mulheres participantes concordaram que estar junto e família após o parto era importante, o que auxilia na experiência positiva da paciente.

Mulheres que completaram o caminho EREC (alta no dia seguinte) apresentaram níveis medianos de estresse antenatal significativamente mais baixos (mediana=5) em comparação aquelas que não o realizaram (mediana=8; P = 0.035) (Digenis et al., 2024)

Ademais, a avaliação da Qualidade de Vida (QoL) pós-parto, utilizando o questionário EQ-5D-5L, demonstrou resultados superiores do grupo ERAS em relação ao grupo convencional  quando avaliada no Dia 2, no dia da alta, 7-10 dias e 6 semanas pós parto. Além disso, a proporção de mulheres que relatou nenhum ou leve problema na recuperação funcional foi substancialmente maior no grupo ERAS (Mundhara et al., 2024). 

No entanto, ainda avaliando o QoL realizado por Mundhara et al (2024), a dimensão ansiedade ou depressão apresentou resultados comparáveis entre os grupos em todos os pontos pós-parto (98.59% das mulheres em ambos os rumos relataram nenhum/leve problema). 

4.6. Fatores de barreira:

As barreiras metodológicas e de evidências são significativas para a conclusão definitiva sobre o impacto de cada componente do ERAS, sendo a alta heterogeneidade de protocolos um dos principais limitadores da avaliação do ERAS. Tal variação se deve a ampla diferença entre os números de elementos ERAS implementado, e em alguns casos, elementos ERAS podem ser incorporados no protocolo de cuidado convencional, o que compromete a diferenciação do efeito exato do ERAS (Pinho e Costa et al., 2023; Sordina-Pineyro et al., 2023). Esse fato pode ser comprovado observando que a maioria dos estudos de Ensaios Clínicos Randomizados (RCTs) examinados pela meta-análise mais ampla, realizada por Sauro et al (2024), incluiu menos de 70% dos elementos tradicionais do ERAS. 

Ademais, muitos componentes do ERAC (protocolo de recuperação aprimorada após o parto cesáreo) carecem de evidências específicas para a população obstetrícia, sendo frequentemente baseados baseados em evidências de baixa qualidade ou muito baixa qualidade, ou mesmo por extrapolação de outras cirurgias (Bollag et al., 2021). Devido a limitação de evidências, Na et al (2025) refere como algumas intervenções (como a suplementação pré-operatória de carboidratos, uso de chicletes pós-operatório e mobilização precoce) acabam por ter baixa força de recomendação pela limitação de  evidências.

Outra barreira importante é o potencial viés dos resultados pela impossibilidade de realização de um cegamento dos participantes e da equipe médica, devido à natureza das intervenções (Pinho e Costa et al., 2023). Outrossim, Sauro et al (2024) aborda como a adesão ao protocolo ERAS é reportada de forma inconsistente e insuficiente, havendo poucos estudos documentados de maneira clara. 

Além disso, de acordo com Digenis et al (2024), a principal barreira à conclusão bem-sucedida de um protocolo que promove a alta precoce (EREC) se concentra em fatores médicos e obstétricos, visto que em estudo sobre o caminho EREC com alta de 24 – 36h, 62% das mulheres elegíveis não completaram o protocolo por razões médicas e obstétricas (80% dos casos).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A aplicação do protocolo ERAS em cesarianas demonstra reduzir significativamente o tempo de internação hospitalar e otimizar a recuperação pós-operatória, atendendo ao objetivo geral da pesquisa. O protocolo melhora a recuperação funcional, diminui o consumo de opioides e proporciona analgesia mais eficaz, correspondendo aos objetivos específicos de avaliação da dor e da suspensão de opioides. As pacientes submetidas ao ERAS apresentam maior satisfação com o cuidado perioperatório e melhor qualidade de vida no pós-parto, evidenciando impacto positivo na experiência materna. Além disso, o protocolo mantém a segurança clínica, sem aumento nas taxas de complicações ou readmissões. Esses achados confirmam que o ERAS constitui uma abordagem eficaz e segura para aprimorar o cuidado perioperatório em cesarianas.

REFERÊNCIAS

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BOLLAG, L. et al. Society for Obstetric Anesthesia and Perinatology: Consensus Statement and Recommendations for Enhanced Recovery After Cesarean. Anesthesia & Analgesia, v. 132, n. 5, p. 1362–1377, 14 abr. 2021. Acesso em: 10 out. 2025.

DIGENIS, C. et al. Obstetric and medical factors rather than psychosocial characteristics explain why eligible women do not complete the enhanced recovery after elective caesarean (EREC) pathway: A prospective cohort study. Midwifery, v. 131, p. 103931, abr. 2024. Acesso em: 10 out. 2025.

NA, H.-S. Optimizing maternal recovery: insights into enhanced recovery after Cesarean delivery. Anesthesia and Pain Medicine, v. 20, n. 2, p. 101–108, abr. 2025. Acesso em: 10 out. 2025.

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PAN, J. et al. The Advantage of Implementation of Enhanced Recovery After Surgery (ERAS) in Acute Pain Management During Elective Cesarean Delivery: A Prospective Randomized Controlled Trial. Therapeutics and Clinical Risk Management, v. 16, p. 369–378, maio 2020. Acesso em: 10 out. 2025.

PINHO, B.; COSTA, A. Impact of enhanced recovery after surgery (ERAS) guidelines implementation in cesarean delivery: A systematic review and meta-analysis. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, v. 292, p. 201–209, 1 jan. 2024. Acesso em: 10 out. 2025.

RAJLAXMI MUNDHRA et al. Effect of Enhanced Recovery after Surgery (ERAS) protocol on maternal outcomes following emergency caesarean delivery: a randomized controlled trial. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology X, v. 22, p. 100295–100295, 1 jun. 2024. Acesso em: 10 out. 2025.

SAURO, K. M. et al. Enhanced Recovery After Surgery Guidelines and Hospital Length of Stay, Readmission, Complications, and Mortality. JAMA Network Open, v. 7, n. 6, p. e2417310–e2417310, 18 jun. 2024. Acesso em: 10 out. 2025.

UZMA AFREEN et al. Enhanced Recovery After Caesarean Section – An Improved Pathway Than Conventional Care for Reducing Hospital Stay. Journal of Ayub Medical College Abbottabad, v. 36, n. 1, p. 50–55, 5 fev. 2024. Acesso em: 10 out. 2025.


1Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Universidade Central de Brasília Campus Asa Norte e-mail: giovanna.gaia28@gmail.com 

2Docente do Curso Superior de Medicina do Instituto Universidade Central de Brasília Campus Asa Norte Doutora em Patologia Molecular. e-mail: anabele.lima@ceub.edu.br.

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