O IMPACTO DA ATUAÇÃO DA ENFERMEIRA OBSTETRA NO PROCESSO DE TRABALHO DE PARTO

THE IMPACT OF THE OBSTETRIC NURSE’S ROLE IN THE LABOR PROCESS

EL IMPACTO DE LA ACTUACIÓN DE LA ENFERMERA OBSTETRA EN EL PROCESO DE TRABAJO DE PARTO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511080233


Briena Padilha Andrade Beltrame1
Nathália Villas Bôas Negrão Hagemeyer2
Juliana Sartori Bonini3
Alexandra Bittencourt Madureira4
Maria Lucia Raimondo5
Iria Barbara de Oliveira6


RESUMO

A Enfermeira Obstetra é fundamental para promover a autonomia e humanização no parto, respeitando a fisiologia e reduzindo intervenções desnecessárias. Este estudo descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa, investigou a perspectiva de 20 mulheres que vivenciaram partos com e sem a presença dessa profissional. Os dados foram coletados online entre novembro de 2021 e janeiro de 2022, usando Google Forms© e Google Meet©, e analisados com a técnica de análise de conteúdo de Bardin, apoiada pelo software Iramuteq. Os resultados revelaram três categorias: percepção das mulheres sobre o impacto da Enfermeira Obstetra no pré-parto e parto; comparação entre partos com e sem a presença da Enfermeira Obstetra; e a profissional como fonte de conhecimento, acolhimento e proteção. A pesquisa destaca a importância dessa profissional na redução de violência obstétrica e cesáreas desnecessárias, evidenciando práticas de cuidado qualificadas e baseadas em evidências científicas.

Palavras-chave: Enfermagem Obstétrica; Humanização do Parto; Autonomia Materna

ABSTRACT

The Obstetric Nurse is essential for promoting autonomy and humanization in childbirth, respecting the physiology and reducing unnecessary interventions. This descriptive and exploratory study with a qualitative approach investigated the perspectives of 20 women who experienced births with and without the presence of this professional. Data were collected online between November 2021 and January 2022 using Google Forms© and Google Meet©, and analyzed using Bardin’s content analysis technique, supported by the Iramuteq software. The results revealed three categories: women’s perceptions of the impact of the Obstetric Nurse during pre-labor and labor; comparison between births with and without the presence of the Obstetric Nurse; and the professional as a source of knowledge, support, and protection. The research highlights the importance of this professional in reducing obstetric violence and unnecessary cesarean sections, emphasizing qualified care practices based on scientific evidence. 

Keywords: Obstetric Nursing; Humanization of Childbirth; Maternal Autonomy

RESUMEN

La Enfermera Obstetra es fundamental para promover la autonomía y humanización del parto, respetando la fisiología y reduciendo intervenciones innecesarias. Este estudio descriptivo y exploratorio, con un enfoque cualitativo, investigó la perspectiva de 20 mujeres que experimentaron partos con y sin la presencia de esta profesional. Los datos fueron recopilados en línea entre noviembre de 2021 y enero de 2022, utilizando Google Forms© y Google Meet©, y analizados con la técnica de análisis de contenido de Bardin, apoyada por el software Iramuteq. Los resultados revelaron tres categorías: percepción de las mujeres sobre el impacto de la Enfermera Obstetra en el preparto y el parto; comparación entre partos con y sin la presencia de la Enfermera Obstetra; y la profesional como fuente de conocimiento, acogida y protección. La investigación destaca la importancia de esta profesional en la reducción de la violencia obstétrica y cesáreas innecesarias, evidenciando prácticas de cuidado calificadas y basadas en evidencia científica.

Palabras clave: Enfermería Obstétrica; Humanización del Parto; Autonomía Materna.

1 INTRODUÇÃO

Ao final do século XIX, a maioria dos partos ocorriam em casa, assistidos por parteiras, e parir fora do domicílio era considerado incomum e até assustador, sendo reservado apenas para casos extremos. A presença do médico era requerida somente em situações críticas, quando a parteira não conseguia resolver o problema. Além de auxiliar no parto, a parteira também ajudava com os afazeres domésticos durante o período puerperal .Essas profissionais eram bem conhecidas e confiáveis na comunidade local, pois possuíam conhecimentos que tornavam o parto mais fácil e tranquilo, como a liberdade de posição, o estímulo à ingestão líquida e sólida, e o apoio humanitário e psicológico (Leister, Riesco, 2013;Silva et al., 2018).

O avançar da medicina e das ciências apresentou como consequência a medicalização de processos antes tidos como fisiológicos, com o parir não foi diferente. O parto que antes era um evento social e familiar, passou a ser experienciado em ambiente hospitalar, com a presença de pessoas desconhecidas e permeado de técnicas e procedimentos. A medicalização do parto transformou um processo natural em um evento iatrogênico, resultando na perda da autonomia feminina e no aumento de diferentes graus de risco. Essa abordagem também levou ao excesso de intervenções obstétricas, muitas vezes sem respaldo científico e sem melhoria nos resultados (Bouguignon, Grisotti, 2020).

Nos últimos anos, o sistema obstétrico brasileiro tem passado por mudanças devido à discrepância entre a realidade nacional e as recomendações da Organização Mundial da Saúde, além da pressão de movimentos sociais, em prol do resgate da fisiologia e autonomia da mulher no parto (Picheth, Crubelatte e Verdu, 2018).

A Enfermeira Obstetra tem sido reconhecida como uma peça chave no parto, pois estimula a participação ativa das mulheres e oferece suporte contínuo durante todo o processo. Ela contribui para a promoção da saúde e redução da mortalidade materna, e quando a assistência ao parto de baixo risco é liderada por uma enfermeira obstetra, há uma valorização do respeito, qualidade da assistência e segurança. Essa abordagem também reduz a necessidade de medicalização e o número de intervenções, estimula a liberação natural de hormônios essenciais para o parto e incentiva o protagonismo da mulher, utilizando práticas que garantem uma experiência mais fisiológica e respeitosa (Ramos et al.,2018).

O papel do enfermeiro obstetra foi estabelecido por meio de resoluções, portarias, leis e decretos, conforme descrito abaixo. Inicialmente, destaca-se a PORTARIA N.º 163, DE 22 DE SETEMBRO DE 1998. Atualmente, as Resoluções do COFEN Nº 0477/2015 e Nº 0478/2015 definem as competências e a participação desse profissional no processo de parto, compete privativamente ao enfermeiro obstetra: chefiar unidades de enfermagem em obstetrícia; organizar os serviços e atividades de enfermagem; planejar e coordenar os serviços de enfermagem na área obstétrica; realizar auditorias e consultorias em enfermagem obstétrica; conduzir consultas de enfermagem obstétrica; prescrever assistência de enfermagem obstétrica; garantir os direitos das pacientes obstétricas em estado grave; participar do planejamento e da programação de saúde em obstetrícia; elaborar planos de assistência e prevenção de infecções na área; prestar assistência à gestante, parturiente, puérpera e ao recém-nascido; realizar partos sem distócias; identificar distócias e tomar decisões adequadas até a chegada do médico, intervindo conforme sua capacitação científica; realizar episiotomia e episiorrafia com aplicação de anestesia local quando necessário (COFEN, 2015).

O enfermeiro obstetra desempenha um papel crucial no parto natural humanizado, sendo o profissional que acompanha a gestante durante todo o processo do parto. Ele orienta as parturientes sobre os métodos a serem utilizados e oferece cuidados que fortalecem os laços afetivos entre a família, respeitando tanto as necessidades físicas quanto emocionais. A presença desse profissional na assistência obstétrica contribui para um atendimento mais humanizado, reduzindo a ocorrência de intervenções desnecessárias e promovendo maior autonomia para a mulher durante o parto (Silva, Mendonça, 2021).

Diante do exposto, a presente pesquisa tem o objetivo de descrever e comparar a experiência da mulher que já teve parto sem a presença do enfermeiro obstetra e parto com a presença do enfermeiro, procurando caracterizar os dados coletados de acordo com o papel do enfermeiro obstetra, investigando a percepção das mulheres sobre a prática de ser assistida pelo enfermeiro obstetra.

2 METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo com a abordagem metodológica qualitativa. Esse tipo de metodologia aborda o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, representando um espaço mais profundo das relações, processos e fenômenos que não podem ser simplificados pela mera operacionalização de variáveis (Minayo, 2001). A pesquisa incluiu 20 mulheres pertencentes ao grupo “Parto Natural” no Facebook©, que aborda as temáticas de parto, gravidez e puerpério. O objetivo central desse grupo é promover o protagonismo feminino durante esse período da vida, fornecendo um espaço para esclarecimento de dúvidas, suporte moral, análise de situações de risco durante a gestação e, principalmente, para o compartilhamento de experiências obstétricas entre as participantes. A coleta de dados foi iniciada após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual do Centro-Oeste. As participantes foram convidadas a responder a um formulário online disponibilizado por meio do Google Docs/Forms©, cujo link de acesso foi fornecido de forma privativa a cada participante que manifestou interesse e atendeu aos critérios especificados no convite. Após a conclusão do formulário online, foi agendada uma chamada de vídeo com cada participante, durante a qual foi realizada a segunda parte da entrevista. Esta entrevista, única para cada participante, foi conduzida e transcrita para subsequente análise de conteúdo, abrangendo o período de novembro de 2021 a janeiro de 2022. As chamadas de vídeo foram gravadas para fins de posterior coleta de dados. Os dados foram analisados de acordo com a análise de conteúdo de Bardin com o auxílio do software Iramuteq.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1  Caracterização da População Estudo

Ao caracterizar a população de estudo obteve-se quatro participantes com a idade de vinte a trinta anos, quinze participantes de trinta a trinta e nove anos, e uma participante de quarenta anos. No que se refere ao grau de escolaridade, treze das participantes tinham ensino superior completo, três ensino médio completo e quatro ensino superior incompleto. Nos partos sem a presença da enfermeira obstetra (EO), cinco foram pelo SUS e quinze em instituição privada, nos partos com a presença da EO, sete foram pelo SUS e treze através de instituição privada/domiciliar. No que se refere a via de parto, naqueles que não tiveram a assistência de uma EO foram oito cesáreas e doze partos via vaginal, já os que tiveram o acompanhamento de uma EO foram duas cesáreas e dezoito partos via vaginal. Em relação ao local de parto houve predomínio do ambiente hospitalar tanto nos que tinham a presença da EO quanto nos que não tinham.

3.2 A percepção das mulheres acerca da repercussão da Enfermeira Obstetra no processo de pré-natal e parto:

A enfermeira obstetra (EO) se baseia em práticas que se relacionam com a  fisiologia do parto através de suporte emocional, acolhimento, estímulos a práticas não farmacológicas para alívio de dor, movimentação livre, banho de aspersão, estímulo à escolha de acompanhante. A monitoração do parto é feita por meio do partograma tornando o parto seguro para mãe e bebê. Dessa forma, o cuidado conferido à mulher no parto baseia-se em medidas que tragam autonomia e protagonismo. Valorizar as práticas humanizadas faz parte da atuação da enfermeira obstetra, que também possui a oportunidade de questionar o modelo de atenção ao parto (Duarte et al, 2020).

O termo protagonismo, possui o significado de pessoa que se destaca em qualquer situação, acontecimento, exercendo o papel mais importante. Isto é, desempenha papel de decisão e autonomia. Os partos com a presença da enfermeira obstetra obtiveram discursos que manifestam o sentimento de protagonizar o parto por parte das participantes: 

“…são mais humanas, mais respeitosas, não vão fazer nada que não tenha

evidência científica como o Kristeller ou a Episiotomia, eu fiquei segura, o

respeito às suas vontades realizado…” (ind16).

“…elas não estavam programando nada sem o meu consentimento, eu

consegui decidir junto com elas o que era melhor fazer…” (ind13).

A enfermeira obstetra, através de suas ações contribuiu para o resgate do parto natural, esse, que foi submergido através dos anos por práticas médicas intervencionistas. Dessa forma, sua assistência tem colaborado para a redução significativa da medicalização e a utilização de intervenções desnecessárias. Elas possuem a missão de resgatar a fisiologia do parto e a naturalidade. Essas ações concedem autonomia e empoderam as parturientes através da capacidade dessa profissional de realizar um cuidado integral que vai além do parto, mas também engloba questões sociais e culturais que contemplam o processo individual da paciente de gestar e parir, dessa forma, riscos físicos e psicológicos podem ser evitados e diminuídos (Silva et al, 2020).

Sobre o resgate da autonomia da mulher durante o parto Silva 2020 que a enfermeira obstetra, por meio de sua atuação qualificada, contribui significativamente para a humanização da assistência obstétrica, resgatando o parto normal como um evento fisiológico e promovendo a autonomia da mulher, em consonância com os princípios da dignidade e da segurança

O protagonismo, mais uma vez, foi relatado pelas participantes através das seguintes falas:

“…nesse momento a gente fica muito mais vulnerável, embora eu tenha

conseguido tomar todas as decisões do meu plano de parto sozinha em todos

os momentos, mas a presença das pessoas que me acompanharam durante

a gestação me confortou bastante. Eu pari sozinha…” (ind17).

“…dia do parto inclusive eu sinto que o segundo parto foi só meu, que a

enfermeira obstetra estava comigo apenas para apoiar o Henrique quando

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ele saísse, porque o parto foi só meu. Diferente do primeiro parto que eu não

tenho esse sentimento…” (ind01).

Nessas falas, foi possível observar que a EO conduziu um trabalho muito importante no que se diz respeito à atenção qualificada direcionada à parturiente, tornando-a capaz de tomar decisões mesmo durante o processo de parto, dessa forma, a profissional encarrega a parturiente de ser a principal agente condutora do parir.

As enfermeiras obstetras recebem a parturiente com acolhimento e afeto, favorecendo a movimentação, relaxamento, prática de exercícios, autonomia da mulher e protagonismo fortalecendo as potencialidades das parturientes para que tome suas decisões com respeito e emponderando-as a fazer escolhas próprias (Baggio et al, 2021).

“…elas estavam muito disponíveis para me ajudar, para me incentivar, me

encorajar que ia dar certo, para não desistir…” (ind07).

“…o fato da pessoa que estava em mais contato comigo estar atenta aos

meus desejos e cuidar para que as coisas pudessem evoluir dentro daquilo.

Porque no primeiro parto o médico obstetra interferiu na situação, não

permitiu que ele evoluísse de uma forma natural…” (ind08).

Nessas falas, evidenciou-se que a assistência da EO empodera a mulher para que ela se sinta encorajada durante todo o processo ao mesmo tempo que deixa a parturiente tranquila e informada, dessa forma, as chances de intercorrências caem drasticamente.

A enfermeira obstetra concede um cuidado integral com atenção a detalhes importantes do processo que vão da temperatura do quarto até o controle de sons e luzes para garantir que a parturiente se sinta acolhida e segura para movimentar-se de acordo com sua vontade, assim, conferindo autonomia à mesma (Duarte et al, 2020).

O cuidado humanizado, a escuta ativa e o tratamento personalizado conferido pela enfermeira obstetra pôde ser observado nas seguintes falas:

“…eu podia escolher qual a posição da cama se eu fosse para a cama ou não,

de resto era como se fosse um quarto, com uma luz mais baixa, tinha comida

disponível, se eu quisesse ligar música…” (ind01).

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“…acho que se eu puder falar uma palavra eu acho que seria o protagonismo

né? Eu fiz aquele parto, eu que pari, acho que esse protagonismo é o mais

importante, e o apoio. A equipe me apoiou para fazer, então no outro parto

cesáreo eu sou uma coadjuvante, então tiram o bebê de mim, sem nenhum

tipo de atividade, e no segundo parto eu tive esse protagonismo, pela via mais

natural, mais saudável…” (ind10).

A assistência da enfermeira obstetra busca trazer de volta a autonomia da mulher sobre o próprio corpo. A enfermeira obstetra atua como catalisadora da transformação do modelo assistencial, fomentando o protagonismo feminino nas decisões sobre a saúde e adotando as recomendações da OMS como norte para a prática “…a gente conversou bastante, a enfermeira obstetra me perguntou muita (Lima, 2020).

coisa sobre como eu estava me sentindo em relação a gestação, como que

eu me sentia em relação ao primeiro parto que eu tinha tido o que eu esperava

do novo parto…” (ind12).

“…assim que eu tive conhecimento me senti muito segura. É muito

confortável, eu senti que eu era uma pessoa de fato, eu não era apenas um

objeto a ser tratado e a ser cuidado, ela realmente me escutava, as minhas

preocupações, os meus anseios, os meus desejos para aquele parto…”

(ind08).

O pré-natal realizado por enfermeiras obstetras é fortemente indicado pelo Ministério da Saúde. A assistência das enfermeiras obstetras quando colocada em comparação com a assistência realizada por médicos obstetras possuem nível de melhores resultados na prevenção de partos pré-termo, esse dado é especialmente relevante tendo em visto o grande número de casos de parto prematuro no Brasil (Menezes et al, 2021).

O cuidado prestado pela enfermeira obstetra no período pré-natal surgiu com o objetivo de preparar a mulher para o parto e criar vínculo de confiança profissionalpaciente, tornando o processo mais fluido e diminuindo a ansiedade da parturiente, tal alegação pôde ser observada nas seguintes falas:

“…desde o acompanhamento até chegar o dia do parto eu passei por todas

as enfermeiras obstetras que trabalham na casa de parto, e cada consulta

era agendada em horário e dia diferente já para a gente se conhecer, sempre

muito atenciosas, prestou um atendimento… uma consulta eu acho que até

mais esclarecedora que a do médico que me acompanhou durante o prénatal…”

(ind01).

Ao se especializar em obstetrícia, a enfermeira desenvolve atributos para ser capaz de auxiliar a mulher no planejamento familiar, pré-natal, parto e puerpério, se  baseando em evidências científicas e necessidades de saúde e princípios do SUS. O objetivo do cuidado da enfermeira obstetra é não só a mulher, mas também a sua família, respeitando o processo e a fisiologia do parto procurando sempre empoderar a mulher durante esse processo (Silva et al, 2020).

“…a primeira consulta que a gente realizou foi muito gostosa, as enfermeiras

obstetras explicaram tudo que a gente precisava, a segurança do parto

domiciliar, explicaram tudo…” (ind14).

“…Na primeira consulta, eu me senti segura, eu acho que mais segura do que

com uma médica obstetra até por conta de o padrão de atendimento ser

personalizado, ser 100% voltado a mim…” (ind02).

A abordagem se destacou como sendo um aspecto notável da assistência prestada pela enfermeira obstetra. O profissional da saúde deve detalhar sua assistência a partir de uma apresentação que acolha o seu paciente de forma integral, levando em consideração a individualidade de cada ser humano, compreendendo que ali existe algo dinâmico, único e que a promoção da humanização surge através da visão de que há uma essência a ser respeitada (Reis et al, 2017).

“…o contato foi ótimo. Me senti muito segura. Para mim fez bastante diferença

saber que tinha alguém comigo do meu lado profissional que entendia, que

sabia… e principalmente que me respeitava…” (ind19).

“…na pandemia a minha filha estranhava gente em casa, e as enfermeiras

obstetras super iam cativando a minha filha com jeito, brincando, mostrando

os aparelhos para cativar minha filha, colocavam a minha filha do lado para

me examinar… para ela não ficar com medo. Isso fez toda a diferença…”

(ind16).

A enfermeira obstetra opera a fim de passar segurança para sua paciente promovendo escuta qualificada, facilitando o conforto e a criação de vínculo. Dessa forma, a profissional contribui para a diminuição da ansiedade e encoraja a parturiente a perseverar (Souza et al, 2019).

“…O respeito, as suas vontades realizadas dentro de estando tudo normal e

sendo saudável para você e para o bebê. Mas o que mais conta é o respeito,

a humanização, a empatia… fizemos o pré-natal em casa… não precisei me

locomover” (ind16).

“…foi uma experiência única, porque o medo que eu tinha… A quantidade de

vezes que eu olhei para a enfermeira obstetra falando me leve para o hospital

porque eu quero uma cesárea foi gigantesca e as enfermeiras obstetras tem

todo um trabalho para conduzir, para acalmar, para trabalhar em cima de

você e de todos os seus medos. Foi fundamental…” (ind06).

Em sua atuação, as enfermeiras obstetras procuraram adotar boas práticas no processo de parto e nascimento, humanização, utilização de posições que favoreçam o nascimento gerando baixas taxas de laceração perineal, contato pele a pele imediato após o nascimento, clampeamento do cordão umbilical tardio, estímulo à amamentação na primeira hora de vida, estímulo do acompanhante a se inserir em todo o processo. Tais ações acarretaram em uma boa evolução do trabalho de parto trazendo ótimos resultados para mãe e recém-nascido partindo de uma assistência de qualidade.

As mulheres que são atendidas por enfermeira obstetra relatam a importância da profissional, uma vez que a profissional demonstra empatia, fornece detalhes e informações e respeita sua autonomia, fornecimento de conforto e controle do trabalho de parto. Assim, a enfermeira obstetra é tida como uma profissional qualificada a promover o cuidado de acordo com a individualidade com atenção aos métodos que acarretam menos intervenções que afetam a fisiologia inerente ao parto. O diálogo criado entre a enfermeira e a parturiente colabora para o estabelecimento de confiança e segurança gerando humanização e tranquilidade em todo o processo (Baggio et al, 2021).

A enfermeira obstetra, então, surgiu como uma profissional de saúde capaz de transformar o ambiente em que está inserida, sendo percebida por aqueles que são assistidos pela profissional como fonte de preservação e responsabilidade. A presença da enfermeira obstetra impõe-se como um fator importante para a garantia de segurança. Sua assistência foi de grande importância para que a parturiente se sentisse mais tranquila para parir quando comparado a partos em que não havia sua presença. Tal discurso pôde ser observado nas seguintes falas:

“…foi completamente diferente, eu tive uma experiência traumática no

primeiro parto, eu me senti um completo objeto, já no segundo parto o

sentimento foi de ser completamente respeitada, acho que o ponto maior é

esse, eu me senti literalmente em casa e segura…” (ind19).

“… foi bem diferente, aquela explicação… foi bem tranquilo porque foi uma

equipe bem completa, me senti bem mais segura uma vez que no primeiro

parto eu tinha passado por algumas coisas e quando eu cheguei que tinha

médico plantonista presente ainda… a segurança foi zero, mas como tinha a

enfermeira eu me senti bem mais segura. No meu último parto também

porque eram enfermeiras, depois que a neném nasceu, acabou. O médico só

via ela passando e quem ia em questão de amamentação, em questão de

explicar… porque eu nunca tinha dado um banho numa menina na vida…

essa questão de explicar para mim foi a diferença…” (ind15).

“…eu me senti mais tranquila, mais confiante de que a equipe que estava ali

era muito capacitada para me auxiliar a ter um parto normal e que se tudo

estivesse saudável eu o teria. A enfermeira obstetra eu sabia que era muito

competente, no meu primeiro parto eu não entendia nada, eu não precisava

ter feito a cesárea… eu caí numa cesárea desnecessária… e o segundo parto

eu fiquei conformada, entendi que era aquilo que tinha que acontecer, que o

bebê não estava bem essa foi a principal diferença, em uma eu fui respeitada

e na outra não, a minha decisão foi respeitada…” (ind12).

Durante o parto, a enfermeira obstetra lança mão de habilidades integradas, como por exemplo: valorização das vontades da mulher, empatia, respeito, assistência humanizada, escuta ativa e se coloca à disposição da parturiente para retirada de dúvidas. O conjunto dessas ações pode ser descrito como a humanização da assistência, as ações da enfermeira obstetra são vistas pelos demais profissionais e por seus pacientes como uma assistência qualificada, segura e digna. (Silva et al, 2020).

A enfermagem obstétrica desempenha um papel fundamental na promoção da humanização do parto, uma vez que a gestação é um período marcado por uma complexa gama de emoções, incluindo medo, ansiedade e expectativa. Nesse contexto, o enfermeiro obstetra, ao estabelecer uma relação de confiança baseada no respeito às crenças e à cultura da gestante, proporciona um cuidado integral que visa minimizar o sofrimento e otimizar a experiência do parto. Essa abordagem humanizada contribui para a criação de um ambiente seguro e acolhedor, favorecendo o bem-estar físico e emocional tanto da gestante quanto do recém-nascido ( Gomes, Oliveira, Lucena, 2016).

A enfermeira obstetra, em virtude de suas competências e habilidades específicas, atua como facilitadora do processo parturiente, assumindo o papel de condutora do parto. Ao atuar como agente de apoio secundário, reforça a centralidade da mulher nesse processo, promovendo um ambiente que valoriza a fisiologia do parto e a interação mãe-bebê. Essa abordagem contribui para a desmedicalização do parto, resgatando a sua natureza fisiológica e exclusiva da mulher.

5 CONCLUSÃO 

Ao final da pesquisa, foi possível observar que diversos fatores atuam diretamente na percepção das mulheres em relação aos seus partos, dentre eles está a experiência anterior, o nível de conhecimento acerca do processo de trabalho de parto e o período em que vivenciaram a experiência de parto. 

A presença da enfermeira obstetra a partir do ponto de vista das mulheres foi decisório para a implementação de práticas que integram a humanização, segurança e protagonismo, trazendo a parturiente como o centro do processo de parto, o resgate do parto natural dando ênfase nos processos que ocorrem naturalmente e a atenção direcionada à parturiente com intuito de encorajar, estimular, acolher e apoiar a mulher durante seu parto, embasando-se em evidências científicas de qualidade e atualizadas. Além disso, a enfermeira obstetra foi um agente importante no que diz respeito à preparação para o parto no período pré-natal e acolhimento na primeira consulta, passando assim tranquilidade e confiança para a gestante.

A presença da enfermeira obstetra facilitou e promoveu a ocorrência de boas práticas de assistência ao trabalho de parto e esteve presente em números reduzidos de ocorrências de práticas consideradas violência obstétrica e partos cirúrgicos sem indicação precisa. Dessa forma, a EO é uma profissional capaz de estimular o protagonismo da mulher no processo de trabalho de parto tornando o momento mais individual, personalizado, humanizado e acolhedor.

Quando comparados, os partos com enfermeira obstetra obtiveram que a profissional EO colaborou para maiores ocorrências de boas práticas de assistência ao parto, menor ocorrências de violências obstétricas e partos cesáreas. Concluindo assim, que a enfermeira obstetra é uma profissional capaz de trazer mudanças para o cenário cesarista brasileiro tornando-se um agente importante no combate à violência obstétrica e resgate da autonomia no parir.

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1Mestre em Desenvolvimento Comunitário
Universidade Estadual do Centro Oeste-UNICENTRO:
Endereço: Guarapuava-Paraná-Brasil
E-mail: briena3@gmail.com
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4056-2898
2Bacharel em Enfermagem
Universidade Estadual do Centro Oeste-UNICENTRO
Endereço: Curitiba- Paraná- Brasil
E-mail: nathagemeyer@gmail.com
Orcid: https://orcid.org/0009-0008-6879-1239
3Doutora em Ciências Biológicas
Universidade Estadual do Centro Oeste-UNICENTRO:
Endereço: Guarapuava-Paraná-Brasil
E-mail: juliana.bonini@gmail.com
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-5144-2253
4Doutora em Enfermagem
Universidade Federal do Paraná-UFPR
Endereço: Guarapuava-Paraná-Brasil
E-mail: maluraimondo@yahoo.com.br
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4151-7925
5Doutora em Enfermagem
Universidade Federal do Paraná-UFPR
Endereço: Guarapuava-Paraná-Brasil
E-mail: amadureira@unicentro.br
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3227-3068
6Mestre em Enfermagem
Universidade Federal do Paraná-UFPR
Endereço: Guarapuava-Paraná-Brasil
E-mail: iria@unicentro.br
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4783-3523