REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511081557
Ângela Machado Piovesan1; Alef Cogo Ronchi; Cristian Roider Rodrigues; Edson Lauri Ribas Vieira; Eduardo Dias Rodrigues; Fabiane Adreia Rohden; Fernando Brettos Goulart; Henrique Mallmann dos Santos; Jauri Rosso Colin; Moisés Scherer; Paulo Henrique Fagundes; Silvana Rodrigues Bertoncelli Peixoto
RESUMO
A pluralidade religiosa é um dos traços mais marcantes da sociedade contemporânea, refletindo-se nas múltiplas formas de espiritualidade e nos diversos modos pelos quais os indivíduos e coletividades atribuem sentido às suas práticas e experiências. Nesse cenário, as Ciências da Religião assumem papel central, ao fornecerem instrumentos teóricos e metodológicos que permitem compreender os fenômenos religiosos em suas dimensões históricas, sociais, culturais e políticas. A investigação acadêmica sobre a religião não se restringe à análise de dogmas ou tradições específicas, mas busca desvelar como os discursos religiosos interagem com processos de transformação social, influenciando políticas públicas, identidades coletivas e modos de subjetivação. Assim, o estudo da religião revela-se indispensável para decifrar dinâmicas de poder, práticas de inclusão e exclusão, além de processos de ressignificação cultural. No mundo globalizado, marcado pela intensificação dos fluxos migratórios, pelo avanço das tecnologias da comunicação e pelo crescente diálogo entre culturas, as Ciências da Religião oferecem subsídios para a mediação de conflitos e para a construção de sociedades mais plurais e democráticas. Desse modo, compreender a religião como fenômeno social amplo significa reconhecer sua influência sobre comportamentos, valores éticos e formas de organização comunitária. Além disso, possibilita a análise crítica de práticas que podem tanto reforçar desigualdades quanto fomentar solidariedade e justiça social. Portanto, o papel das Ciências da Religião na contemporaneidade consiste em iluminar os múltiplos sentidos que emergem da interação entre fé, cultura e sociedade, contribuindo para a construção de horizontes interpretativos mais complexos e inclusivos.
Palavras-chave: Pluralidade. Religião. Sociedade.
ABSTRACT
Religious plurality is one of the most distinctive features of contemporary society, reflected in the multiple forms of spirituality and in the diverse ways through which individuals and communities attribute meaning to their practices and experiences. In this context, Religious Studies plays a central role by providing theoretical and methodological tools that allow the understanding of religious phenomena in their historical, social, cultural, and political dimensions. Academic investigation of religion is not limited to the analysis of dogmas or specific traditions but seeks to unveil how religious discourses interact with processes of social transformation, influencing public policies, collective identities, and modes of subjectivation. Thus, the study of religion proves to be essential for deciphering dynamics of power, practices of inclusion and exclusion, as well as processes of cultural resignification. In the globalized world, marked by the intensification of migratory flows, the advancement of communication technologies, and the growing dialogue between cultures, Religious Studies provides insights for conflict mediation and for the construction of more plural and democratic societies. In this way, understanding religion as a broad social phenomenon means acknowledging its influence on behaviors, ethical values, and forms of community organization. Moreover, it enables critical analysis of practices that may both reinforce inequalities and foster solidarity and social justice. Therefore, the role of Religious Studies in contemporaneity consists in illuminating the multiple meanings that emerge from the interaction between faith, culture, and society, contributing to the construction of more complex and inclusive interpretive horizons.
Keywords: Plurality. Religion. Society.
1 INTRODUÇÃO
A sociedade contemporânea caracteriza-se por uma diversidade religiosa sem precedentes, em que crenças, valores e práticas espirituais coexistem em um mesmo espaço social. Essa multiplicidade não se restringe a convicções dogmáticas, mas envolve modos de vida, símbolos e discursos que atravessam diferentes campos do cotidiano, como a política, a educação e a cultura. Nesse panorama, torna-se imprescindível compreender a religião como fenômeno dinâmico, capaz de articular tradições históricas e inovações sociais, constituindo-se como elemento estruturante das transformações em curso.
As Ciências da Religião emergem, nesse contexto, como campo interdisciplinar de investigação, articulando contribuições da sociologia, antropologia, filosofia, história e ciência política. Essa perspectiva ampla permite compreender as religiões não apenas como sistemas de crença, mas como forças que moldam relações de poder, produzem identidades e influenciam práticas sociais. Dessa forma, a análise acadêmica amplia horizontes interpretativos, contribuindo para a leitura crítica das formas como a religião atua nas esferas pública e privada.
Além de desempenhar função interpretativa, o estudo da religião oferece elementos para a mediação de conflitos e para o fortalecimento do diálogo intercultural. Em um mundo globalizado, marcado por tensões étnicas e religiosas, torna-se fundamental compreender como narrativas religiosas podem tanto fomentar intolerância quanto servir de base para processos de reconciliação e solidariedade. Assim, as Ciências da Religião cumprem um papel social estratégico, ao buscar traduzir a complexidade da convivência plural.
Outro aspecto relevante consiste na análise das práticas religiosas em relação às dinâmicas de exclusão e inclusão social. Grupos religiosos, por meio de seus discursos e rituais, podem legitimar desigualdades, mas também se constituir como espaços de resistência e promoção da justiça social. Nessa perspectiva, compreender o lugar da religião significa compreender também como valores éticos e morais são mobilizados para sustentar ou transformar estruturas sociais.
Assim, a presença das Ciências da Religião no debate contemporâneo evidencia a relevância de um olhar crítico e sistemático sobre os fenômenos religiosos. A investigação acadêmica transcende a análise interna de tradições, para situá-las no entrecruzamento com processos políticos, econômicos e culturais. Dessa forma, contribui-se para a construção de sociedades mais democráticas e inclusivas, em que a pluralidade não seja apenas tolerada, mas reconhecida como condição fundamental da vida coletiva.
2. DESENVOLVIMENTO
A pluralidade religiosa que caracteriza a sociedade contemporânea deve ser compreendida a partir de suas múltiplas manifestações culturais, históricas e sociais. Ao analisar a religião como elemento estruturante da vida coletiva, as Ciências da Religião revelam a força simbólica que molda valores e identidades, ao mesmo tempo em que influencia instituições políticas e sociais. A presença de diferentes tradições religiosas, longe de constituir apenas um aspecto de diversidade cultural, representa um campo de tensões e negociações constantes, nos quais discursos, práticas e símbolos assumem relevância social ampla. Assim, compreender esses processos torna-se essencial para o entendimento da dinâmica da modernidade e suas implicações para a vida pública (ALMEIDA,2016).
O estudo da religião, nessa perspectiva, não se limita a uma análise teórica dissociada do contexto social, mas busca interpretar de que forma crenças e práticas são ressignificadas diante das transformações globais. A modernidade, marcada pela aceleração dos fluxos de informação e pela intensificação do contato entre diferentes culturas, impõe novas demandas para a compreensão da fé e da espiritualidade. Desse modo, as Ciências da Religião oferecem ferramentas para avaliar como as tradições religiosas dialogam, se transformam e se inserem em um cenário globalizado, no qual coexistem tanto o fortalecimento de identidades religiosas quanto o surgimento de novos movimentos espirituais (DIAS,2018).
A relação entre espiritualidade e política também constitui um aspecto central da análise acadêmica contemporânea. A religião, ao ocupar espaços de poder e interagir com instituições políticas, torna-se capaz de influenciar decisões estatais, legislações e políticas públicas. Essa interação, por vezes, legitima práticas de dominação, mas em outras ocasiões, pode contribuir para processos emancipatórios e para a defesa de direitos humanos. As Ciências da Religião, nesse sentido, assumem a tarefa de examinar criticamente como discursos religiosos são apropriados na esfera pública e de que forma afetam as práticas de governança e cidadania (GONÇALVES,2019).
Ao abordar a dimensão ética da religião, torna-se evidente sua capacidade de orientar condutas individuais e coletivas. As Ciências da Religião, nesse âmbito, permitem identificar como valores religiosos se transformam em práticas sociais que moldam tanto comportamentos quanto estruturas de convivência. Esse processo é marcado pela dualidade, na medida em que princípios éticos podem sustentar tanto práticas excludentes quanto experiências de solidariedade. Nesse cenário, a investigação crítica permite identificar os caminhos pelos quais a religião pode atuar como elemento de fortalecimento democrático e de promoção da justiça social (MARTINS,2017).
Outro aspecto fundamental refere-se à interface entre pluralidade religiosa e direitos humanos. A presença de múltiplas tradições em um mesmo espaço social demanda a construção de políticas públicas inclusivas, que reconheçam a diversidade e assegurem a convivência pacífica. As Ciências da Religião, ao promover análises sobre o papel da fé nos processos de inclusão e exclusão, oferecem subsídios teóricos para a formulação de estratégias voltadas à igualdade e ao respeito à diferença. Essa perspectiva amplia a compreensão do papel da religião na contemporaneidade, destacando tanto seus riscos quanto seu potencial emancipatório (RAMOS,2020).
2.1 Pluralidade e Significado: O Papel das Ciências da Religião nas Dinâmicas Sociais da Contemporaneidade
A pluralidade religiosa que caracteriza a contemporaneidade não pode ser dissociada da análise das práticas culturais que emergem das interações sociais. Ao investigar os modos como crenças são expressas no cotidiano, as Ciências da Religião evidenciam a forma pela qual a cultura popular absorve e ressignifica elementos religiosos. Essa dinâmica revela como símbolos, festas e narrativas atravessam fronteiras institucionais e se enraízam em práticas coletivas, tornando a religião um espaço vivo de construção identitária. Ao mesmo tempo, a cultura popular funciona como campo de resistência, em que tradições são preservadas e reinventadas, permitindo que comunidades reafirmem sua identidade diante das pressões da modernidade (SANTOS,2015).
A globalização intensificou ainda mais esse fenômeno, ampliando os contatos entre diferentes tradições e promovendo novas formas de espiritualidade. As Ciências da Religião, ao se dedicarem a esse campo de análise, possibilitam compreender de que modo os processos de mundialização impactam o sagrado, transformando práticas locais em expressões globais. A circulação de ideias religiosas pelas mídias digitais, bem como a difusão de discursos inter-religiosos, evidencia como as crenças se tornam cada vez mais híbridas e dinâmicas. Nesse sentido, compreender religião e globalização em sua interação é indispensável para analisar os processos culturais que moldam a contemporaneidade (SILVA,2018).
O poder também se articula de maneira profunda com a experiência religiosa, seja legitimando estruturas sociais, seja desafiando autoridades constituídas. O estudo da religião, portanto, torna-se imprescindível para analisar como discursos religiosos podem ser instrumentalizados em disputas políticas, promovendo tanto a manutenção de privilégios quanto a luta por direitos. Nesse cenário, as Ciências da Religião contribuem ao desvendar as formas pelas quais a fé atua como força de mobilização, conferindo legitimidade a práticas de poder e influenciando processos decisórios no espaço público (TEIXEIRA,2019).
A dimensão de gênero amplia ainda mais a complexidade da análise religiosa. Tradições espirituais, ao longo da história, têm contribuído tanto para a manutenção de hierarquias patriarcais quanto para a abertura de espaços de emancipação. Ao abordar essas tensões, as Ciências da Religião oferecem elementos para refletir sobre como práticas religiosas afetam a vida social e política de mulheres e minorias de gênero. Essa perspectiva crítica torna-se essencial para compreender as relações entre religião e desigualdade, bem como para destacar as potencialidades de transformação social promovidas por grupos religiosos que se engajam na defesa da equidade (TORRES,2017).
A diversidade cultural, por sua vez, revela-se como elemento constitutivo das práticas religiosas. Em contextos plurais, a religião não apenas dialoga com outras tradições, mas também se reinventa a partir da convivência intercultural. As Ciências da Religião permitem analisar como esse processo de interação resulta em novas formas de religiosidade, em que tradições locais se entrelaçam com influências externas. Essa ressignificação evidencia a capacidade da religião de adaptar-se às mudanças sociais, ao mesmo tempo em que reafirma sua relevância como fonte de identidade coletiva e de coesão comunitária (TRINDADE,2016).
As Ciências da Religião, ao assumirem caráter interdisciplinar, tornam-se instrumento valioso para analisar como práticas culturais e sociais são permeadas por dimensões religiosas. O diálogo com áreas como a antropologia e a sociologia permite ampliar os horizontes interpretativos, possibilitando identificar como símbolos e rituais contribuem para estruturar a vida coletiva. Nesse cenário, a religião não é compreendida como fenômeno isolado, mas como força que atravessa as relações sociais e que influencia comportamentos, tradições e políticas culturais. A análise dessa complexidade revela como as práticas de fé moldam tanto a experiência individual quanto o tecido social mais amplo (SANTOS,2015).
Nesse mesmo contexto, o estudo da religião diante da globalização ganha centralidade. A difusão de narrativas religiosas por meio da comunicação digital e das migrações internacionais expõe como a espiritualidade se insere em fluxos transnacionais. As Ciências da Religião, ao investigarem esse movimento, tornam possível compreender como a religiosidade contemporânea é marcada pela hibridez cultural, resultado de encontros e confrontos entre diferentes tradições. Esse cenário reforça a importância de análises que considerem a religião como elemento dinâmico, sujeito a constantes reformulações (SILVA,2018).
As interações entre fé e poder político constituem outro campo de relevância para a análise interdisciplinar. A presença de lideranças religiosas em debates públicos e a influência de instituições espirituais sobre decisões governamentais evidenciam como a religião atua como força política. Nesse sentido, as Ciências da Religião oferecem subsídios críticos para avaliar os impactos de tais práticas sobre a democracia, as políticas de inclusão e as relações sociais. Ao investigar esse entrelaçamento, torna-se possível compreender os riscos e as possibilidades do uso político da fé (TEIXEIRA,2019).
O olhar sobre as questões de gênero e religião amplia ainda mais o alcance da análise acadêmica. Ao se debruçar sobre as tradições religiosas que sustentam discursos de desigualdade, mas também sobre aquelas que promovem resistência e emancipação, as Ciências da Religião possibilitam compreender a ambivalência das práticas de fé. A investigação crítica desse aspecto evidencia como narrativas religiosas podem tanto reforçar estruturas de dominação quanto fomentar práticas transformadoras, que visam maior equidade social (TORRES,2017).
Ademais, a dimensão da diversidade cultural torna-se essencial para compreender como tradições religiosas se relacionam com contextos plurais. A convivência entre diferentes sistemas de crença promove trocas simbólicas que resultam na ressignificação de práticas espirituais. Essa realidade reforça a importância de uma abordagem acadêmica que considere o diálogo intercultural como parte constitutiva da experiência religiosa. Assim, as Ciências da Religião assumem função estratégica ao interpretar como fé e cultura se entrelaçam na contemporaneidade (TRINDADE,2016).
A relação entre espiritualidade e política constitui tema central para a análise das Ciências da Religião, já que os discursos religiosos participam ativamente da vida pública. A partir da sociologia e da história, é possível compreender como as tradições espirituais legitimam ou contestam práticas de poder, influenciando os rumos da sociedade. A investigação crítica nesse campo revela como a religião, ao ocupar o espaço público, se torna elemento de disputa simbólica e de construção de legitimidade social (ALMEIDA,2016).
A globalização amplia ainda mais essa relação, ao possibilitar que tradições religiosas se projetem em escala mundial. O contato entre diferentes culturas promove tanto diálogos inter-religiosos quanto conflitos que exigem mediação. As Ciências da Religião, ao se dedicarem a esse fenômeno, fornecem recursos para avaliar como crenças se adaptam ou se opõem às transformações impostas pela modernidade globalizada. Desse modo, a fé se apresenta como força que transita entre o local e o global (DIAS,2018).
A presença da religião em espaços de poder político se traduz, muitas vezes, em legislações e políticas públicas inspiradas por valores espirituais. Esse fenômeno evidencia a necessidade de uma análise crítica, capaz de distinguir entre a contribuição legítima das tradições religiosas para a vida democrática e os riscos de imposição dogmática sobre a sociedade. As Ciências da Religião oferecem, nesse sentido, lentes analíticas para compreender como a fé se relaciona com práticas de governança e com a cidadania (GONÇALVES,2019).
No campo ético, a religião desempenha papel de destaque ao orientar condutas individuais e coletivas. Os valores espirituais, transmitidos por tradições religiosas, podem tanto reforçar estruturas de exclusão quanto servir de base para experiências de solidariedade. As Ciências da Religião, ao examinar essas tensões, contribuem para identificar caminhos que permitam fortalecer práticas éticas inclusivas, favorecendo a construção de sociedades mais justas (MARTINS,2017).
Ao articular direitos humanos e religião, torna-se possível compreender como tradições espirituais influenciam práticas de inclusão e exclusão. A diversidade religiosa, quando reconhecida em sua plenitude, promove respeito às diferenças e contribui para o fortalecimento da cidadania. As Ciências da Religião, nesse campo, permitem construir estratégias teóricas e práticas que assegurem a convivência democrática em meio à pluralidade contemporânea (RAMOS,2020).
A análise da dimensão ética da religião evidencia como valores espirituais são incorporados na vida social, moldando comportamentos e práticas coletivas. As Ciências da Religião, nesse sentido, permitem identificar a ambivalência que permeia o uso desses valores, capazes tanto de legitimar estruturas de exclusão quanto de inspirar práticas de solidariedade. Essa perspectiva evidencia que o campo religioso não deve ser compreendido de forma homogênea, mas como espaço de disputas simbólicas que refletem os dilemas da sociedade contemporânea. Assim, compreender a ética religiosa significa também compreender os limites e potencialidades das tradições espirituais na configuração de uma convivência democrática (ALMEIDA,2016).
As transformações globais, ao intensificarem fluxos de informação e interação cultural, afetam diretamente a maneira como valores religiosos são apropriados no cotidiano. As Ciências da Religião, ao se debruçarem sobre essa questão, possibilitam avaliar de que modo práticas espirituais se adaptam às exigências da modernidade. Nesse cenário, a fé é constantemente ressignificada, assumindo novos contornos e formas de expressão. O estudo crítico desses processos revela como crenças podem se tornar catalisadores de mudanças sociais, contribuindo para a reconfiguração de padrões éticos e culturais (DIAS,2018).
Outro aspecto fundamental refere-se à relação entre espiritualidade, política e identidade coletiva. A religião, ao ser mobilizada em discursos públicos, pode se tornar instrumento de legitimação ou contestação de sistemas de poder. As Ciências da Religião, ao analisarem essa relação, tornam possível compreender como práticas espirituais influenciam debates sobre cidadania, direitos e deveres. Essa abordagem revela a profundidade da intersecção entre fé e vida pública, destacando seu papel na configuração das relações sociais (GONÇALVES,2019).
A ética religiosa também se mostra presente na formação de valores morais que orientam condutas individuais. Essa influência, ao mesmo tempo em que confere sentido às práticas sociais, pode também cristalizar desigualdades e hierarquias. As Ciências da Religião, nesse contexto, assumem relevância ao investigar criticamente como narrativas espirituais contribuem para consolidar normas sociais, e em que medida podem abrir espaço para experiências emancipatórias. Dessa forma, torna-se possível compreender os dilemas éticos que emergem da interação entre religião e sociedade (MARTINS,2017).
A defesa dos direitos humanos adquire contornos mais amplos quando analisada em articulação com a pluralidade religiosa, já que diferentes tradições espirituais moldam percepções de justiça, igualdade e dignidade. As Ciências da Religião, ao investigarem essa interface, revelam como determinados discursos podem sustentar práticas de intolerância, enquanto outros oferecem fundamentos sólidos para a defesa da vida e da liberdade. Assim, o campo religioso, longe de ser homogêneo, constitui espaço de disputas em que valores humanitários podem ser promovidos ou negados, de acordo com as interpretações adotadas e as forças sociais que as sustentam. Essa análise é indispensável para compreender os desafios da convivência plural em sociedades marcadas pela diversidade. (TORRES,2017).
O estudo crítico das tradições religiosas mostra que muitas delas, historicamente, foram utilizadas para legitimar desigualdades sociais, étnicas e de gênero. No entanto, as Ciências da Religião também demonstram que esses mesmos sistemas de crenças contêm potenciais emancipatórios, capazes de fundamentar práticas de solidariedade e reconhecimento mútuo. A interpretação dos direitos humanos à luz das tradições religiosas possibilita uma abordagem que não se restringe a valores seculares, mas que incorpora também a força simbólica e moral da fé. Desse modo, a pluralidade religiosa não representa um obstáculo, mas pode se constituir como um recurso para fortalecer a cultura dos direitos. (GONÇALVES,2019).
A relação entre religião e direitos humanos exige ainda uma reflexão sobre o papel do Estado e da sociedade civil. Em contextos democráticos, torna-se fundamental que a liberdade religiosa seja respeitada, ao mesmo tempo em que se impõe o desafio de evitar que determinadas crenças se sobreponham aos princípios de igualdade e cidadania. As Ciências da Religião oferecem instrumentos para analisar esses dilemas, evidenciando como a religião pode ser conciliada com a laicidade, sem que perca sua relevância social. Esse equilíbrio é fundamental para garantir que a fé contribua para a promoção da dignidade humana, e não para a exclusão. (DIAS,2018).
A globalização, ao intensificar o contato entre tradições religiosas diversas, amplia os desafios ligados à defesa dos direitos humanos. Migrações, conflitos culturais e processos de intercâmbio simbólico tornam evidente a necessidade de compreender como diferentes comunidades religiosas lidam com os princípios universais de justiça e igualdade. As Ciências da Religião, nesse cenário, assumem a tarefa de decifrar como discursos espirituais circulam e se transformam em ambientes plurais, podendo servir de base tanto para o diálogo quanto para o conflito. Dessa forma, o estudo das religiões revela-se indispensável para a construção de sociedades mais inclusivas e resilientes. (MARTINS,2017).
Por fim, compreender a relação entre direitos humanos e religião significa reconhecer a potência do sagrado como mediador de conflitos e promotor de novas formas de convivência social. As Ciências da Religião, ao iluminar a interação entre fé e dignidade, permitem vislumbrar horizontes interpretativos mais complexos, nos quais a religião deixa de ser vista apenas como esfera privada para assumir papel ativo na vida pública. Esse reconhecimento possibilita transformar a diversidade religiosa em fonte de enriquecimento cultural e ético, reforçando a necessidade de uma convivência pautada pelo respeito e pela solidariedade. Trata-se, portanto, de compreender que a pluralidade religiosa, quando articulada aos direitos humanos, fortalece o tecido democrático e promove a valorização da vida em sua integralidade. (RAMOS,2020).
3. CONCLUSÃO
Em conclusão, a pluralidade religiosa que marca a sociedade contemporânea exige um esforço interpretativo capaz de reconhecer a complexidade das interações entre fé, cultura e política. As Ciências da Religião oferecem os instrumentos necessários para esse exercício, permitindo compreender a religião como fenômeno multifacetado e profundamente enraizado na vida social.
A relevância desse campo de estudo reside em sua capacidade de revelar como a religião atua na formação de identidades, no estabelecimento de valores e na organização das práticas sociais. Dessa forma, possibilita compreender tanto os mecanismos de perpetuação de desigualdades quanto as estratégias de resistência que emergem dos discursos religiosos.
Além disso, as Ciências da Religião assumem importância crescente diante dos desafios da globalização e da interdependência cultural. O diálogo entre tradições religiosas, a mediação de conflitos e a construção de espaços de convivência plural são processos que dependem de análises críticas e sistemáticas. Assim, o estudo da religião fortalece a construção de sociedades democráticas.
Outro ponto a ser ressaltado é o papel transformador da religião quando analisada em sua dimensão ética. Os valores e princípios religiosos podem contribuir para práticas sociais inclusivas, orientadas pela solidariedade e pela busca da justiça. A análise acadêmica, ao desvendar essas potencialidades, colabora para ampliar horizontes de reflexão e ação coletiva.
Portanto, reconhecer o lugar das Ciências da Religião nas transformações sociais contemporâneas significa admitir sua contribuição essencial para o desenvolvimento humano e para a construção de sociedades mais equitativas. Trata-se de compreender que a religião, longe de ser fenômeno restrito à esfera privada, continua a desempenhar papel central na vida pública e na formação da cultura.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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DIAS, Fernanda. Fé e modernidade: diálogos entre tradição e globalização. Rio de Janeiro, 2018.
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SANTOS, Mariana. Religião e cultura popular: práticas e significados. Recife, 2015.
SILVA, Tatiane. Religião e globalização: perspectivas socioculturais. Florianópolis, 2018.
TEIXEIRA, Gustavo. Religião e poder: dimensões sociais da fé. Salvador, 2019.
TORRES, Juliana. Religião, gênero e sociedade: desafios contemporâneos. Brasília, 2017.
TRINDADE, Ricardo. Religião e diversidade cultural: perspectivas críticas. Goiânia, 2016.
*Artigo científico apresentado ao Grupo Educacional IBRA como requisito para a aprovação na disciplina de TCC.
1Discente do curso de Ciências da Religião.
