MANEJO ODONTOLÓGICO DE PACIENTES COM TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS: REVISÃO DE LITERATURA

MANEJO ODONTOLÓGICO DE PACIENTES COM TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS: UMA REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511052045


Paulo Ricardo Aguiar de Arruda1
Patrícia Zigoski Fonteles2
Professora: Sônia Karina Alves dos Anjos3


RESUMO: A saúde mental de um indivíduo reflete a saúde de todo o corpo, incluindo a cavidade oral. Pacientes com transtornos psiquiátricos, em virtude de sua condição sistêmica, são mais susceptíveis a patologias bucais. Pessoas que convivem com transtornos como depressão, ansiedade ou esquizofrenia, devido à própria natureza de seus sintomas gerais e aos efeitos adversos dos psicotrópicos — que envolvem disfunções psicobiológicas e afetam a cognição —, apresentam maior propensão a sintomas orais e à má higiene bucal. Portanto, é fundamental que o manejo odontológico adote uma abordagem mais adequada no tratamento desses pacientes.

PALAVRAS CHAVE: Transtornos psiquiátricos, manejo odontológico, saúde mental, saúde oral

ABSTRACT: An individual’s mental health reflects the health of the entire body, including the oral cavity. Patients with psychiatric disorders, in their systemic condition, are more susceptible to oral pathologies. People living with disorders such as depression, anxiety, or schizophrenia, due to the very nature of their general symptoms, are human beings who, due to the adverse effects of psychotropic drugs, which involve psychobiological dysfunctions that affect cognition, are more likely to experience oral symptoms and poor oral hygiene. Therefore, it is essential that dental management adopt a more appropriate approach to treating these patients.

KEYWORDS: Psychiatric disorders, dental management, mental health, oral health

INTRODUÇÃO:

A saúde mental (SM) do indivíduo reflete na saúde do corpo em toda sua plenitude, igualmente na cavidade oral. A saúde bucal é parte integrante da saúde sistêmica e, desta forma, está associada ao bem-estar físico, social e mental (Lawal, 2022 apud Ferreira et. al. 2024). Pacientes com transtornos psiquiátricos (TM), em sua condição sistêmica, estão mais suscetíveis a patologias bucais (PB). Isso ocorre porque indivíduos que convivem com transtornos como depressão (DPP), ansiedade (ANS) ou esquizofrenia (ESQ), devido à natureza de sua sintomatologia e aos efeitos adversos dos psicofármacos (que envolvem disfunções psicobiológicas e afetam a cognição), inclinam-se prevalentemente a ter sintomas bucais e uma higiene oral (HO) ineficiente. Desta forma, é precípuo que o manejo na Odontologia tenha uma perspectiva mais apropriada no tratamento desses pacientes. 

REVISÃO DE LITERATURA:

1. PACIENTES COM TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS:

 De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS, 2023), a saúde mental é influenciada por uma série de determinantes que abrangem tanto atributos individuais, como a capacidade de administrar pensamentos, emoções, comportamentos e interações, quanto fatores sociais, culturais, econômicos, políticos e ambientais. Entre estes, destacam-se as políticas públicas, a proteção social, os padrões de vida, as condições de trabalho e o apoio comunitário. Essa compreensão evidencia que a saúde mental resulta da interação entre características pessoais e contextos sociais mais amplos.

Nesse sentido, os transtornos mentais, comportamentais e do neurodesenvolvimento, conforme definidos pela Organização Mundial da Saúde (2019), podem ser entendidos como manifestações clínicas de disfunções nesses processos interligados. Tais transtornos são caracterizados por anormalidades clinicamente significativas na cognição, na regulação emocional ou no comportamento, refletindo falhas nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento que sustentam o funcionamento mental e neural. Assim, os determinantes apontados pela OPAS/OMS ajudam a compreender as múltiplas origens desses transtornos, os quais, em geral, estão associados a sofrimento e prejuízo significativo no desempenho pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional ou em outras áreas relevantes da vida.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) complementa a definição, caracterizando os transtornos mentais como uma síndrome marcada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento, vinculada a sofrimento relevante ou incapacidade funcional. Importante ressaltar que respostas culturalmente aceitas ou esperadas a estressores comuns, como o luto pela morte de um ente querido, não configuram transtornos mentais. Da mesma forma, comportamentos socialmente desviantes (políticos, religiosos ou sexuais) e conflitos primariamente entre indivíduo e sociedade não devem ser classificados como transtornos, a menos que estejam associados a disfunções internas no indivíduo (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013 apud STEIN et al., 2021).

Durante o desenvolvimento do DSM-5, tentou-se esclarecer ainda mais os critérios do DSM para um transtorno mental, confira-os (Tabela 1):

Tabela 1

1.  SAÚDE ORAL DE PACIENTES COM DOENÇA MENTAL (Manifestações orais)

Conforme os determinantes e definições de saúde mental apresentados pela OPAS (2023), pela OMS (2019) e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5 (STEIN et al, 2021), os TMs envolvem disfunções variadas. Essa compreensão permite explicar por que pessoas que convivem com transtornos como depressão, ansiedade ou esquizofrenia apresentam maior predisposição a problemas de saúde bucal em comparação com a população em geral. Essa vulnerabilidade resulta de uma combinação de fatores biológicos, comportamentais e sociais. A presença de sintomas como apatia, fadiga, falta de motivação e dificuldades cognitivas, comuns em diversos quadros psiquiátricos, leva com frequência à negligência dos cuidados básicos de higiene oral (Sogi, 2020). Dentro de fatores comportamentais, dados mostram que 72,1% dos indivíduos com transtornos mentais graves escovam os dentes apenas uma vez ao dia e 22,4% o fazem ocasionalmente, enquanto hábitos como dietas ricas em carboidratos e açúcar, além do tabagismo, contribuem para agravar os danos à SB (Khairunnisa, 2024).  Pesquisas indicam ainda que esses pacientes apresentam piores indicadores de saúde oral (SO), incluindo maiores índices de dentes cariados, perdidos e obturados (CPOD), acúmulo mais intenso de placa bacteriana e condições periodontais mais severas quando comparados a controles saudáveis (Sogi, 2020).

Agora, dentro de fatores biológicos, alguns transtornos mentais, como estresse crônico e a depressão estão associados ao aumento dos níveis de cortisol salivar, favorecendo o acúmulo de placa bacteriana, a inflamação gengival e a instalação de periodontite. Essa alteração também pode desequilibrar o microbioma oral, gerando disbiose e maior proliferação de microrganismos patogênicos. Bactérias como Porphyromonas gingivalis e Fusobacterium nucleatum tem a capacidade de induzir neuroinflamação ao liberar citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α e IL-1β, e produtos bacterianos como lipopolissacarídeos (LPS). Tais mecanismos podem comprometer a integridade da barreira hematoencefálica, permitindo que mediadores inflamatórios atinjam o sistema nervoso central e possivelmente contribuam para a progressão de distúrbios neuropsiquiátricos (DN) ( Kalinowski, 2025).

Essa relação, no entanto, é bidirecional. A saúde oral prejudicada também exerce impacto sobre o bem-estar psicológico, criando um ciclo de retroalimentação negativa (Khairunnisa, 2024). Dores dentárias persistentes, perda de dentes, halitose e alterações estéticas geram sofrimento emocional, reduzem a autoestima e favorecem o isolamento social, além de intensificarem quadros ansiosos (Tiwari, 2022). Um estudo norueguês mostrou que mais de 60% das pessoas com transtornos mentais graves sentem vergonha de sorrir ou expor os dentes, em contraste com apenas 5,5% dos controles sem transtornos. A SO deficiente interfere diretamente na qualidade de vida, prejudicando funções básicas como mastigação, fala e interações sociais (Bjørkvik, 2022). Além disso, a dor dentária crônica atua como fator estressor adicional, capaz de agravar sintomas de depressão e ansiedade, enquanto doenças periodontais crônicas, por meio de inflamação sistêmica, podem influenciar negativamente os transtornos de humor (Khairunnisa, 2024).

Apesar de diversos estudos observacionais apontarem uma forte associação entre periodontite e transtornos psiquiátricos, a relação causal ainda é incerta. Uma pesquisa baseada em randomização mendeliana, que utiliza variantes genéticas para avaliar causalidade, não encontrou evidências de uma relação bidirecional entre periodontite geneticamente prevista e dez transtornos psiquiátricos comuns (Tong, 2023). Os autores sugerem que tais associações podem refletir fatores de confusão compartilhados, como tabagismo, estilo de vida e vias inflamatórias comuns, incluindo aquelas mediadas pela interleucina-6, em vez de um efeito causal direto (Tong, 2023).

2.  BARREIRAS AO CUIDADO ODONTOLÓGICO

Indivíduos com transtornos mentais enfrentam obstáculos significativos para acessar e utilizar os serviços odontológicos. Entre as barreiras pessoais e psicológicas, destacam-se a falta de motivação, o medo e a ansiedade odontológica, que dificultam a busca por tratamento (Sogi, 2020). O estigma social associado à doença mental também pode levar à evitação dos cuidados odontológicos (Alcântara, 2023). Em um estudo, 41,7% dos participantes relataram nunca ter sentido necessidade de visitar um dentista (Sogi, 2020).

No aspecto financeiro e sistêmico, pacientes com TMs graves frequentemente enfrentam desemprego ou subemprego, o que limita o acesso a tratamentos por questões de custo. Além disso, a falta de integração entre os serviços de saúde mental e odontologia contribui para a ausência de uma abordagem holística do cuidado (Sogi, 2020). Do ponto de vista profissional, muitos dentistas não recebem treinamento adequado para atender pacientes com transtornos mentais (Bjørkvik, 2022). Embora reconheçam o estresse e as dificuldades desses indivíduos, muitos profissionais hesitam em realizar triagens em saúde mental por acreditarem extrapolar o escopo da prática, além das limitações de tempo e da falta de recursos para encaminhamento adequado (Mishle, 2025).

Diante disso, torna-se essencial a adoção de uma abordagem preventiva e integrada para quebrar o ciclo negativo entre saúde mental e bucal (Khairunnisa, 2024). A colaboração interprofissional entre psiquiatras, psicólogos e dentistas é fundamental para garantir um cuidado integral, cabendo aos profissionais de saúde mental dar a devida atenção às questões odontológicas (Sogi, 2020). Modelos de cuidado integrado, como a co-localização de serviços de saúde mental e odontologia, podem facilitar o acesso e a coordenação do atendimento (Khairunnisa, 2024). Além disso, ações de educação em saúde se mostram eficazes para promover o autocuidado e estimular a prevenção (Alcântara, 2023).

Em síntese, a relação entre SM e SB é indiscutível e multifacetada. Reconhecer que “não há saúde mental sem saúde bucal” (Sogi, 2020) é um passo essencial para o desenvolvimento de políticas públicas e práticas clínicas que considerem simultaneamente essas duas dimensões, promovendo um cuidado mais completo, justo e eficaz (Khairunnisa, 2024).

3.  MEDICAMENTOS ANTIPSICÓTICOS E A SAÚDE ORAL

Os medicamentos utilizados no tratamento de transtornos mentais graves (TMG) impactam significativamente a saúde oral dos pacientes. Embora os antipsicóticos de segunda geração (ASGs), ou “atípicos”, sejam cada vez mais populares por causarem menos distúrbios do movimento, eles ainda comprometem a saúde bucal de várias maneiras, especialmente por meio da disfunção das glândulas salivares e sensorial, além de aumentarem o risco de cárie e doença periodontal (Sharma, 2025). Dada a crescente utilização de antidepressivos e outros psicofármacos, é fundamental que o cirurgião-dentista esteja ciente das possíveis interações medicamentosas, principalmente com anestésicos locais e vasoconstritores, para garantir um tratamento seguro (Ioris, 2019).

Um dos efeitos colaterais mais comuns e debilitantes de muitos psicofármacos é a disfunção salivar. Muitos antipsicóticos possuem atividade anticolinérgica, que causa xerostomia (sensação de boca seca) e hipossalivação (Sharma, 2025; Meurman, 2024). Em um estudo com pacientes psiquiátricos hospitalizados, Meurman e Murtomaa (2024) demonstraram uma prevalência de xerostomia significativamente maior no grupo que utilizava antipsicóticos típicos (66%) em comparação com o grupo de atípicos (53%). A sensação de boca seca foi identificada como um dos três principais efeitos colaterais dos ASGs que comprometem a qualidade de vida (Sharma, 2025). A redução da saliva é crítica, pois diminui a capacidade de limpeza e tamponamento da boca, aumentando o risco de diversas doenças orais (Sharma et al., 2025). Antidepressivos, especialmente os tricíclicos (ADTs), também são conhecidos por causar xerostomia devido às suas ações antimuscarínicas (Chioca et al., 2010). Paradoxalmente, alguns ASGs, principalmente a clozapina, podem causar sialorréia (hipersalivação), gerando problemas físicos e psicossociais (Sharma et al., 2025).

A cárie dentária é altamente prevalente em pacientes com TMG, uma condição atribuída tanto a fatores comportamentais quanto aos efeitos dos medicamentos, como a hipossalivação (Sharma, 2025). Embora a associação seja evidente, a revisão de Sharma et al. (2025) aponta que os estudos sobre a ligação direta entre o uso de ASGs e a prevalência de cáries apresentam resultados mistos e por vezes inconclusivos.

A associação entre o uso de antipsicóticos e a doença periodontal é constantemente relatada. Uma revisão de escopo conduzida por Sharma et al. (2025) confirmou uma ligação significativa em todos os cinco estudos analisados sobre o tema. Os mecanismos incluem a hipossalivação e a potencial redução da densidade óssea causada pelos medicamentos (Sharma, 2025). Um mecanismo particularmente importante, explorado por Shalaby, Elmahdy e Mikhail (2023), é a hiperprolactinemia (aumento do hormônio prolactina). O estudo de coorte retrospectivo desses autores demonstrou que antipsicóticos “indutores de prolactina” (como risperidona) foram associados a uma progressão significativamente maior da doença periodontal, com maior profundidade de bolsa e perda de inserção clínica, em comparação com antipsicóticos “poupadores de prolactina” (como clozapina e olanzapina) (Shalaby et al., 2023). Esse mesmo estudo encontrou uma relação causal direta entre o nível de prolactina e a gravidade da periodontite, além de uma menor densidade mineral óssea nos grupos que usavam antipsicóticos (Shalaby et al., 2023).

Outras condições orais também são observadas. A asenapina, um ASG, está associada à hipoestesia oral (dormência) e disgeusia (gosto amargo) (Sharma et al., 2025). Pacientes em uso de antipsicóticos, especialmente os típicos, relataram maior prevalência de dor oral persistente, frequentemente descrita como uma sensação de queimação na língua e na mucosa bucal (Meurman, 2024). Bruxismo e disfunção temporomandibular (DTM) também são comuns, com sintomas que podem ser agravados por esses medicamentos (Sharma et al., 2025)

4.  INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS

Tabela 2 
AntidepressivosFluoxetina, Paroxetina, Sertralina, Escitalopram, Citalopram, Fluvoxamina.
Antidepressivos duaisVenlafaxina, Desvenlafaxina e Duloxetina.  
Antidepressivos Multimodais  Vortioxetina, Agomelatina  
Inibidores da enzima MAOTranilcipromina  
TricíclicosAmitriptilina, Nortriptilina, Clomipramina, Imipramina
Estabilizador de humorLítio
Anticonvulsivantes  Ácido Valproico, Lamotrigina, Carbamazepina
Antipsicóticos  Clorpromazina, Haloperidol, Sulpirida, Levomepromazina Clozapina, Olanzapina, Quetiapina, Risperidona, Amissulprida, Aripiprazol, Brexpiprazol, Lurasidona

(Arruda, 2025)

Conforme demonstrado na Tabela 2, os psicotrópicos diversificam-se em  antidepressivos, anticonvulsivantes, estabilizadores de humor e antipsicóticos. Apresentam diversas interações medicamentosas que podem afetar tanto a eficácia quanto a segurança do tratamento. Essas interações podem ser de natureza farmacocinética, alterando a concentração plasmática dos fármacos, ou farmacodinâmica, potencializando efeitos centrais ou periféricos. Por exemplo, a fluoxetina, um inibidor seletivo da recaptação de serotonina, quando associada a anti-inflamatórios não esteroides ou ácido acetilsalicílico, aumenta o risco de sangramento gastrointestinal, sendo recomendada a evitação dessa associação sem orientação médica (FLUOXETINA TEUTO, 2023).

Já a venlafaxina, antidepressivo dual, pode ter sua concentração plasmática aumentada quando usada concomitantemente com antifúngicos como o cetoconazol, o que exige ajuste posológico para evitar efeitos adversos. (RANBAXY FARMACÊUTICA, 2023)

A combinação de antidepressivos (especialmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina – ISRS) com benzodiazepínicos é frequentemente utilizada no início do tratamento de depressão ou ansiedade para alívio rápido dos sintomas ansiosos. Contudo, evidências apontam que os benzodiazepínicos podem atenuar ou retardar os efeitos terapêuticos dos antidepressivos ao inibir indiretamente a neurotransmissão serotoninérgica ou reduzir a neuroplasticidade no giro denteado, compromissos esses que são considerados mecanismos importantes para a ação antidepressiva. (Martin, 2006)

Estudos experimentais demonstraram que antidepressivos tricíclicos, como amitriptilina, doxepina e imipramina, podem exercer efeitos anestésicos em modelos animais, bloqueando funções nervosas com eficiência comparável à bupivacaína. (Sudoh, 2003) Entretanto, seu uso clínico não é recomendado devido à toxicidade tecidual observada. (Groves, 2006) Pesquisas em canais de sódio voltagem-dependentes indicam que medicamentos como lidocaína, carbamazepina e imipramina podem competir por locais de ligação similares, influenciando seus efeitos anestésicos. (Yang, 2010)

A administração de epinefrina em anestésicos locais pode causar vasodilatação paradoxal e aumentar o risco de hipertensão e arritmias em pacientes em uso de antidepressivos cíclicos, sendo recomendada cautela na escolha do anestésico local, podendo-se optar por alternativas como a felipressina, que apresenta menor risco cardiovascular. (Christensen, 1994) O uso de inibidores da monoamina oxidase, como a tranilcipromina, durante anestesia geral ou regional, também exige atenção especial, embora estudos indiquem que, com monitoramento adequado e evitando drogas que interagem, a anestesia possa ser realizada com segurança, mesmo nesse contexto. (Krings-Ernst, 2013) Dessa forma, as interações medicamentosas de psicotrópicos podem potencializar efeitos adversos, reduzir a eficácia do tratamento ou aumentar riscos durante procedimentos anestésicos, sendo fundamental o monitoramento clínico rigoroso, ajuste de doses quando necessário e a consulta médica multidisciplinar antes de procedimentos que envolvam anestesia local ou geral.

METODOLOGIA

A identificação para os artigos para esta revisão foi feita pela inserção de termos de forma individual ou combinados na plataforma PubMed, como: “Transtornos psiquiátricos”, “Saúde mental”, “Saúde oral”, “Manejo de pacientes com transtornos psiquiátricos”, “Medicamentos anticonvulsivantes”, “Interações medicamentosas”. Alguns critérios para inclusão foram; (I) Artigos de referência internacional, (II) ser publicado com no mínimo 10 anos para artigos referentes a TMs e 14 anos de publicação de artigos ou bulas com especificações gerais a respeito a psicofármacos e bulas de específicas, (III) O estudo deve apresentar o manejo odontológico de pacientes com transtornos psicológicos. (IV) Interações medicamentosas de medicamentos usados por transtornos psiquiátricos e medicações usadas na odontologia. Esses requisitos eliminaram vários estudos focados em apenas um tipo de transtorno. No entanto, os demais requisitos foram fundamentais para garantir que os dados resumidos fossem relevantes para o objetivo geral de fornecer dados. 

Termos utilizados TodosSelecionadosCitados
Transtornos psiquiátricos312,302 1005
Saúde mental253,443  1005
Medicamentos anticonvulsivantes8,962 1004
Manejo de pacientes com transtornos psiquiátricos25,547 1006
(Interações medicamentosas) e (Saúde oral)1,4591003

DISCUSSÃO

A relação bidirecional entre saúde mental e bucal impõe um ciclo vicioso particularmente prejudicial para pacientes com transtornos mentais, que apresentam consistentemente piores desfechos de saúde oral (Bjørkvik et al., 2023; Wölfle et al., 2025). A importância do cuidado odontológico se evidencia ao se observar como os sintomas da doença mental, como apatia, falta de motivação e anedonia, levam à negligência do autocuidado e da higiene (Sogi et al., 2020; Z et al., 2024). Além disso, o medo e a ansiedade odontológica são barreiras que fazem com que esses pacientes procurem atendimento apenas em emergências dolorosas, dificultando a prevenção (Sogi et al., 2020; Taravati et al., 2025). Essa deterioração da saúde bucal impacta severamente a qualidade de vida, gerando um profundo sofrimento psicossocial; um estudo de Bjørkvik et al. (2023) revelou que 62% dos pacientes com transtorno mental grave sentiam vergonha ao sorrir, o que agrava o isolamento social, a baixa autoestima e o próprio quadro psiquiátrico.

As dificuldades no atendimento odontológico a essa população são multifacetadas, começando pelos efeitos adversos dos psicofármacos. A xerostomia (boca seca) é o efeito colateral mais comum, sendo relatada por 66% dos pacientes em uso de antipsicóticos típicos e 53% em uso de atípicos, o que aumenta drasticamente o risco de cárie e doença periodontal (Meurman, 2024; Sharma et al., 2025). Alguns antipsicóticos, especialmente os que induzem hiperprolactinemia (como risperidona), também estão associados à redução da densidade mineral óssea, o que pode agravar a doença periodontal (Shalaby,  2023). 

Um desafio clínico crítico são as interações medicamentosas, principalmente o risco de crises hipertensivas e arritmias cardíacas ao se utilizar anestésicos locais com vasoconstritores (adrenalina) em pacientes que usam antidepressivos tricíclicos ou inibidores da MAO (Chioca et al., 2010). Além dos desafios clínicos, há barreiras sistêmicas: a falta de integração entre os serviços de saúde mental e odontologia é uma falha crucial (Bjørkvik, 2023). Muitos cirurgiões-dentistas se sentem despreparados e, embora percebam a triagem de saúde mental como viável, poucos estão dispostos a implementá-la, citando barreiras como o escopo da prática, falta de tempo e o desconforto do paciente (Mishler et al., 2025). A superação desses obstáculos exige modelos de cuidado integrados e centrados na pessoa, como o Projeto Terapêutico Singular (PTS), preconizado pelo Ministério da Saúde do Brasil (Brasil, 2013), que articula ações multidisciplinares pactuadas com o paciente e sua família.

CONCLUSÃO:

Destarte, para que pacientes com transtornos psiquiátricos tenham uma abordagem mais condizente com a realidade, na qual os mesmos estão inseridos, recomenda-se encetar projetos com equipe multidisciplinar mais instruída na área da saúde,  que vislumbre a individualidade no manejo odontológico do paciente com transtorno mental conjuntamente com a família, e assim auferir mais epílogo na interpelação deste público, que compõem cada vez mais a sociedade global. A inserção do tratamento bucal nesse público é assegurado por lei, sendo assim, é preciso um olhar mais pontual e acolhedor, praticamente estigmatizado por profissionais e população atualmente, viabilizando a motivação da iniciativa do paciente com Transtorno Mental Psiquiátrico para a manutenção da saúde da cavidade oral e não mais quando acometido por patologias bucais e efeitos adversos dos psicotrópicos.

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1 Acadêmico do curso de Graduação em Odontologia pela Faculdade Integradas Aparício Carvalho – FIMCA, de Porto Velho.
E-mail: pauloricardoaguiardearruda@gmail.com, http://lattes.cnpq.br/5577407735036052
2 Acadêmica do Curso de Graduação em Odontologia pela Faculdade Integradas Aparício Carvalho – FIMCA, de Porto Velho. E-mail: patriciazf7@gmail.com, http://lattes.cnpq.br/6021823634039322
3 Especialista em Prótese Dentária, Cirurgiã-Dentista na clínica ORBES e Professora na área de Prótese Dentária do Centro Universitário Aparício Carvalho – FIMCA, email:
prof.anjos.sonia@fimca.com.br, http://lattes.cnpq.br/3195712057562001

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