BETWEEN BIOLOGICAL SEX AND LIVED GENDER: CONSIDERATIONS FOR THE INTERPRETATION OF LABORATORY TESTS IN TRANSGENDER PATIENTS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511051535
Gustavo Queiroz Sampaio1
Ana Cristina da Silva Pinto2
Suzy Christine Goes de Melo Martins3
Eduardo da Costa Martins4
Gabrielle Araújo de Melo5
Resumo
A interpretação de exames laboratoriais em pacientes transgênero requer compreensão crítica das interações entre sexo biológico, gênero vivido e terapias de afirmação de gênero. Variações hormonais naturais e induzidas por tratamento podem alterar parâmetros laboratoriais de forma a comprometer diagnósticos se critérios convencionais baseados em sexo natal forem aplicados sem ajustamento. Objetiva-se de forma geral, compreender como sexo biológico, identidade de gênero e intervenções médico-hormonais influenciam resultados laboratoriais, propondo orientações interpretativas para práticas clínicas. O estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura nas bases Google Scholar, SciELO e LILACS, com recorte temporal de 2020 a 2025. Foram incluídos estudos originais, revisões e trabalhos de conclusão de curso em português, que abordaram alterações bioquímicas, hematológicas e hormonais em pessoas transgênero submetidas ou não a terapias hormonais. Critérios de inclusão consideraram qualidade metodológica e relevância clínica; a seleção e extração de dados seguiram processo sistemático com dupla leitura. Os resultados indicam alterações significativas em perfis lipídicos, marcadores hepáticos, hemoglobina e hormônios sexuais após terapias estrogênicas ou androgênicas. Intervalos de referência convencionais frequentemente não refletem a variabilidade observada em pessoas trans, especialmente em fases transicionais. Estudos destacam a necessidade de registrar sexo legal, sexo natal, tipo e duração da terapia hormonal para interpretação contextualizada. Dado o exposto, recomenda-se adoção de práticas laboratoriais que incorporem histórico hormonal e identidade de gênero, desenvolvimento de intervalos de referência específicos e educação continuada de profissionais. Pesquisas longitudinais e padronização metodológica são urgentes para reduzir vieses diagnósticos e promover cuidado seguro e inclusivo e participação da comunidade trans.
Palavras-chave: Identidade de gênero; Exames laboratoriais; Terapias hormonais.
1 INTRODUÇÃO
Segundo Monteiro e Egito (2024) a interpretação de exames laboratoriais é uma ferramenta central na prática clínica, sendo essencial para diagnósticos precisos, acompanhamento terapêutico e tomada de decisões médicas. No entanto, essa interpretação tradicionalmente se baseia em intervalos de referência estratificados pelo sexo biológico, sem considerar fatores individuais como identidade de gênero ou terapias hormonais. Em pacientes transgênero, essas abordagens podem ser inadequadas, pois alterações hormonais induzidas por tratamentos de afirmação de gênero podem modificar parâmetros hematológicos, bioquímicos e endócrinos, levando a potenciais equívocos diagnósticos (Cardoso, 2024).
Benedito (2023) define as pessoas transgênero são aquelas cuja identidade de gênero não corresponde ao sexo biológico atribuído ao nascimento, situação comumente denominada disforia de gênero. Para afirmar seu gênero vivido, alguns indivíduos recorrem a um conjunto de intervenções médicas e terapêuticas destinadas a promover alterações fenotípicas condizentes com sua identidade. O tema torna-se ainda mais relevante à medida que cresce o acesso a cuidados de saúde afirmativos para pessoas transgênero e aumenta a conscientização sobre a diversidade de corpos e experiências.
Estudos recentes destacam que a simples categorização por sexo natal não reflete as variações fisiológicas observadas durante e após terapias hormonais, como estrogênio, testosterona ou bloqueadores hormonais. Além disso, a ausência de protocolos laboratoriais específicos contribui para vieses clínicos, subdiagnósticos e estigmatização, reforçando a necessidade de práticas baseadas em evidências e sensíveis à identidade de gênero (Nascimento, 2024).
A complexidade do tema envolve não apenas aspectos biológicos, mas também sociais, psicológicos e éticos, uma vez que cuidados inclusivos dependem do reconhecimento da identidade de gênero e da individualização do acompanhamento clínico. Profissionais de saúde devem estar atentos às particularidades da população trans, garantindo que a interpretação de exames laboratoriais seja segura, precisa e respeitosa, promovendo equidade no cuidado médico (Nascimento, 2020; Cruz, 2024).
O problema central abordado neste estudo refere-se à dificuldade de interpretar corretamente exames laboratoriais em pessoas transgênero quando os intervalos de referência convencionais, baseados apenas no sexo biológico, são aplicados de forma indiscriminada. Essa limitação pode resultar em diagnósticos incorretos, monitoramento inadequado de condições clínicas e decisões terapêuticas subótimas, evidenciando a lacuna existente na literatura e na prática clínica.
O objetivo geral deste estudo é compreender como o sexo biológico, a identidade de gênero e as intervenções médico-hormonais influenciam os resultados laboratoriais, propondo orientações interpretativas que possam embasar práticas clínicas seguras, inclusivas e baseadas em evidências. Busca-se ainda a) Investigar como as terapias hormonais e o processo de transição de gênero podem influenciar os resultados de exames laboratoriais; b) Reconhecer as principais dificuldades encontradas por profissionais e laboratórios na interpretação de exames de pessoas transgênero, especialmente diante da falta de referências adequadas para essa população; c) Sugerir orientações que ajudem profissionais de saúde a interpretar exames laboratoriais de forma mais sensível, segura e inclusiva, respeitando as particularidades de cada paciente.
A metodologia adotada consiste em uma revisão integrativa da literatura publicada entre 2020 e 2025 nas bases Google Scholar, SciELO e LILACS. Foram incluídos estudos que abordassem alterações laboratoriais em pessoas transgênero, com ou sem terapia hormonal, incluindo pesquisas originais, revisões, diretrizes clínicas e relatórios de consenso. O processo de seleção contemplou triagem de títulos e resumos, análise de textos completos e extração sistemática de dados, garantindo rigor científico e transparência.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1 Influências das terapias hormonais e do processo de transição nos resultados laboratoriais
A terapia hormonal cruzada constitui uma das principais intervenções médicas utilizadas no processo de afirmação de gênero. Seu objetivo é promover características físicas condizentes com a identidade de gênero da pessoa transgênero, por meio da administração de hormônios sexuais exógenos, como testosterona, estrogênio e bloqueadores androgênicos. No entanto, essas intervenções produzem repercussões significativas nos resultados laboratoriais, exigindo uma leitura técnica que vá além dos parâmetros binários tradicionais. Desse modo, apresenta-se na Tabela 1, 9 (nove) obras analisadas, que abordam acerca do primeiro objetivo específico de investigar como as terapias hormonais e o processo de transição de gênero podem influenciar os resultados de exames laboratoriais;
Tabela 1: Concepções sobre as influências das terapias hormonais nos resultados laboratoriais de pessoas transgênero (2020–2024)


Organização: Autores (2025).
Os estudos analisados evidenciam que as terapias hormonais utilizadas no processo de afirmação de gênero produzem efeitos laboratoriais consistentes, que precisam ser interpretados com sensibilidade e atenção às particularidades de cada paciente. Costa et al. (2020) ressaltam que a terapia hormonal influencia a redistribuição da massa corporal e as variações metabólicas, impactando marcadores como glicemia, colesterol e triglicerídeos, o que reforça a importância de uma análise integrada entre resultados laboratoriais, hábitos de vida e evolução clínica.
De modo complementar, Teixeira e Ribas (2021) reforçam que a interpretação dos exames laboratoriais deve sempre levar em conta o tempo de transição, o tipo de hormônio administrado e o gênero vivido pelo paciente. Esse olhar clínico mais amplo e empático traduz uma prática médica não apenas técnica, mas também ética, capaz de reconhecer o corpo trans em sua singularidade e legitimidade.
Conforme Alvares (2022), em mulheres trans, o uso de estrogênio tende a reduzir os níveis de creatinina sérica e hemoglobina, o que pode gerar interpretações equivocadas sobre a função renal e hematológica se comparadas às faixas de referência masculinas. Esse achado reforça a necessidade de interpretar os resultados laboratoriais considerando o tipo de hormônio utilizado e o estágio do processo de transição.
Por outro lado, Matos (2023) descreve que homens trans em uso prolongado de testosterona apresentam aumento de hemoglobina e hematócrito, aproximando-se de valores tipicamente masculinos, sem que isso represente uma condição patológica. Tais resultados destacam a importância de rever parâmetros laboratoriais fixos e desenvolver faixas de referência mais adequadas às pessoas em terapia hormonal, de modo a evitar diagnósticos incorretos.
Os trabalhos de Iala (2022) e Cardoso (2024) acrescentam que o bloqueio androgênico e o aumento de estrogênio em pessoas transfemininas estão associados a elevações nos níveis de prolactina e HDL, exigindo acompanhamento periódico para monitorar possíveis efeitos metabólicos. Embora essas alterações sejam esperadas, seu monitoramento é essencial para prevenir complicações de longo prazo, como hiperprolactinemia e distúrbios lipídicos.
Outro ponto relevante é discutido por Bender (2024) e Nascimento et al. (2024), que apontam que a exposição prolongada a níveis elevados de estrogênio pode aumentar o risco de neoplasias mamárias em mulheres transexuais, embora esse risco permaneça inferior ao das mulheres cisgênero. Essa constatação sugere a necessidade de protocolos de rastreamento adaptados à população trans, considerando tempo de exposição hormonal, idade, histórico familiar e demais fatores individuais de risco.
Em síntese, as evidências apontam que as terapias hormonais, quando acompanhadas de forma adequada, são seguras e eficazes, mas demandam uma leitura contextualizada dos resultados laboratoriais. Mais do que ajustar valores numéricos, é fundamental que o olhar profissional se ajuste à diversidade humana, compreendendo que cada resultado reflete um corpo em transformação, um corpo que expressa, por meio da ciência e do cuidado, o direito de existir plenamente em sua identidade.
2.2 Dificuldades enfrentadas por profissionais e laboratórios
A interpretação de exames laboratoriais em pessoas transgênero ainda representa um desafio significativo para os profissionais de saúde e para os serviços de diagnóstico. Essa dificuldade decorre, principalmente, da ausência de intervalos de referência laboratoriais específicos que considerem o sexo biológico, a identidade de gênero e o tempo de uso da terapia hormonal. A maioria dos sistemas laboratoriais opera com parâmetros binários (masculino/feminino), o que gera incerteza e risco de erros diagnósticos quando se trata de pacientes trans (Lages, Gomes, 2024). Desse modo, a Tabela 2, apresenta 6 (seis) obras que objetivam reconhecer as principais dificuldades encontradas por profissionais e laboratórios na interpretação de exames de pessoas transgênero, especialmente diante da falta de referências adequadas para essa população.
Tabela 2: Dificuldades enfrentadas por profissionais e laboratórios na interpretação de exames laboratoriais em pessoas transgênero (2020–2025)

Organização: Autores (2025).
Os estudos analisados evidenciam que a interpretação de exames laboratoriais em pessoas transgênero ainda enfrenta desafios significativos. Nascimento (2020) aponta que a escassez de estudos populacionais sobre valores de referência específicos para pessoas trans compromete a padronização dos laudos clínicos, dificultando decisões médicas precisas. De forma complementar, Silva (2021) ressalta que muitos sistemas laboratoriais ainda operam com categorias binárias de sexo, impossibilitando o registro simultâneo do gênero vivido e do sexo biológico, o que pode levar a resultados descontextualizados ou equivocadamente interpretados.
A ausência de intervalos de referência adequados é reforçada por Lages e Gomes (2024), que destacam como essa lacuna dificulta a avaliação de parâmetros hormonais e metabólicos, tornando a prática laboratorial mais complexa. Além disso, Nascimento (2024) evidencia que a falta de preparo técnico e teórico de profissionais da saúde aumenta a insegurança e favorece a subinterpretação de resultados, enquanto Schlüter (2024) alerta que o desconhecimento sobre os efeitos das terapias hormonais contribui para erros diagnósticos e amplia desigualdades no atendimento laboratorial.
Frente a essas limitações, Reis (2025) defende a criação de protocolos de capacitação contínua e de sistemas laboratoriais inclusivos, capazes de orientar uma prática clínica baseada em evidências e no respeito à diversidade de gênero. Essas propostas evidenciam a necessidade de uma abordagem interdisciplinar e humanizada, que combine conhecimento técnico, sensibilidade ética e atualização científica constante.
Dado o exposto, as dificuldades identificadas vão além de questões técnicas: refletem a urgência de formação profissional adequada, adaptação de sistemas laboratoriais e desenvolvimento de protocolos inclusivos. Somente assim é possível garantir um atendimento seguro, ético e contextualizado, que respeite a identidade de gênero do paciente e promova a confiança e a qualidade nos resultados laboratoriais.
3 METODOLOGIA
Este trabalho constitui uma revisão integrativa da literatura, estratégia escolhida com base em Gil (2019) por permitir a síntese de informações provenientes de diferentes tipos de estudo, incluindo pesquisas originais, revisões sistemáticas, diretrizes clínicas e relatos de consenso. Esse desenho metodológico possibilita a construção de uma visão ampla e crítica sobre a interpretação de exames laboratoriais em pacientes transgênero, contemplando aspectos biológicos, hormonais e sociais que influenciam os resultados laboratoriais. O estudo foi baseado na seguinte questão: Como o sexo biológico, a identidade de gênero e as intervenções médicas, incluindo terapias hormonais e cirúrgicas, influenciam a interpretação de exames laboratoriais em pessoas transgênero? Essa formulação orientou a seleção dos estudos e a extração das informações relevantes, assegurando foco e consistência na análise.
3.1 Critérios de elegibilidade
Inicialmente, foram rastreados 40 estudos, estudos em português, publicados entre 2020 e 2025, que abordassem aspectos gerais e conceitos gerais sobre o tema. Em seguida, foi feita a leitura minuciosa, das obras que tivessem relação com as alterações em exames laboratoriais de pessoas transgênero, com ou sem terapias hormonais ou cirúrgicas. Desse modo a população do estudo, contemplou indivíduos de todas as idades e identidades de gênero. Foram considerados relevantes:
Organograma 1: Critérios de elegibilidade

Organização: Autores (2025).
Foram excluídos artigos com dados empíricos, relatos de caso isolados, literatura sem revisão científica e publicações que não abordassem diretamente a interpretação laboratorial, duplicados. Dessa forma, a composição final para resultados e discussões contempla 20 obras que foram incluídas, após leitura analítica.
3.2 Estratégia de busca
A busca foi realizada nas bases Google Scholar, SciELO e LILACS, abrangendo publicações em português. Foram utilizadas combinações de termos controlados e livres, como “transgênero”, “identidade de gênero”, “exames laboratoriais”, “valores de referência”, “hormônios sexuais” e suas variações linguísticas. Sempre que pertinente, aplicou-se a técnica de “snowballing”, consultando referências de estudos selecionados para ampliar a cobertura.
3.3 Processo de seleção dos estudos
A seleção ocorreu em três etapas: a) Remoção de duplicatas; b) Triagem de títulos e resumos, realizada de forma independente por dois revisores; c) Leitura integral dos textos selecionados, com registro de motivos de exclusão e resolução de divergências por consenso ou por um terceiro avaliador. Desse modo, foram Google Scholar, SciELO e LILACS
3.4 Síntese dos dados
Dada a heterogeneidade esperada entre os estudos (desenho, população, parâmetros laboratoriais), a síntese foi narrativa, organizada em categorias de exames: hematológicos, bioquímicos, lipídicos e hormonais. Sempre que possível, os resultados foram analisados considerando tempo e tipo de terapia hormonal, identidade de gênero e histórico clínico, permitindo uma interpretação contextualizada e humanizada.
3.5 Considerações éticas e de integridade científica
Embora não tenha sido necessária aprovação por comitê de ética, o estudo respeitou rigorosamente os princípios de integridade acadêmica, incluindo citação adequada das fontes, transparência metodológica e discussão das limitações identificadas nos estudos incluídos.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
Diante das alterações laboratoriais decorrentes das terapias hormonais e das dificuldades enfrentadas pelos profissionais, diversos autores têm proposto estratégias e orientações que visam promover uma prática clínica mais segura, ética e inclusiva para pessoas transgênero. Essas recomendações incluem a interpretação contextualizada dos resultados laboratoriais, a adaptação de intervalos de referência, o acompanhamento contínuo de marcadores hormonais e metabólicos, e a capacitação de profissionais para lidar com a diversidade de gênero. A Tabela 3 apresenta, de forma resumida, os principais estudos publicados entre 2020 e 2025 que visam sugerir orientações que ajudem profissionais de saúde a interpretar exames laboratoriais de forma mais sensível, segura e inclusiva, respeitando as particularidades de cada paciente.
Tabela 3: Propostas de orientações interpretativas e práticas laboratoriais inclusivas (2020–2025)

Organização: Autores (2025).
A construção de práticas laboratoriais inclusivas e seguras para pessoas transgênero exige a integração entre evidências científicas, ética profissional e sensibilidade humana. Diante das dificuldades observadas, diversos autores têm proposto orientações que visam aperfeiçoar a interpretação dos exames laboratoriais, respeitando as particularidades de cada paciente e reconhecendo a influência das terapias hormonais no organismo.
Os estudos analisados convergem na defesa de práticas laboratoriais que unam rigor científico e sensibilidade humana, reconhecendo que a interpretação dos exames deve considerar a diversidade de experiências e trajetórias das pessoas transgênero. Oliveira (2020) enfatiza que a integração entre ciência e humanização é essencial no cuidado laboratorial, destacando que o respeito à identidade de gênero deve caminhar junto à segurança clínica e à precisão técnica dos resultados. Essa visão reforça a necessidade de transformar o espaço laboratorial em um ambiente de acolhimento, confiança e ética.
Entre as orientações práticas, Machado (2023) e Lages e Gomes (2024) sugerem que o tempo de uso da terapia hormonal e o gênero vivido sejam considerados na interpretação dos exames, uma vez que esses fatores influenciam diretamente os marcadores bioquímicos e hormonais. Essa perspectiva propõe um deslocamento do olhar puramente biológico para uma abordagem contextualizada e individualizada, reconhecendo o processo de transição como uma variável clínica legítima.
No âmbito da formação profissional, Benedito (2023) e Santos (2023) defendem a capacitação contínua dos profissionais de saúde em diversidade de gênero, acompanhada da atualização dos protocolos laboratoriais. Essa formação é vista como condição indispensável para reduzir vieses interpretativos, evitar constrangimentos no atendimento e fortalecer uma cultura de respeito e inclusão dentro das instituições de saúde.
Cardoso (2024) introduz a proposta dos intervalos de referência híbridos, voltados a pacientes em fase de transição hormonal, permitindo interpretações mais coerentes com a fisiologia intermediária observada nesse período. Já Lages e Gomes (2024) ampliam essa perspectiva ao destacarem a importância de laudos personalizados, que indiquem o tipo de terapia hormonal utilizada e contextualizem os resultados de maneira clara e compreensível. Essas práticas promovem uma comunicação mais transparente entre laboratório, médico e paciente.
Por fim, Bender (2024) e Pelegrini (2025) reforçam a necessidade de desenvolver protocolos de rastreamento específicos para condições hormonodependentes, como o câncer de mama em mulheres transexuais. Essas medidas representam um avanço na medicina preventiva e demonstram o compromisso com a equidade no cuidado à saúde.
Corroborando com o estudo de Nascimento et al. (2024), que traz uma contribuição significativa ao destacar o risco aumentado de malignidade mamária em mulheres trans submetidas ao uso prolongado de terapias estrogênicas. Esse achado reforça a necessidade de protocolos de rastreamento preventivo adaptados à realidade dessa população, incluindo exames como mamografias e ultrassonografias mamárias de acordo com o tempo de exposição hormonal e o histórico familiar do paciente. Diferentemente das mulheres cisgênero, cuja vulnerabilidade ao câncer de mama é amplamente estudada e respaldada por diretrizes consolidadas, as mulheres trans permanecem em uma zona de incerteza científica, em que parâmetros de risco e periodicidade de rastreamento ainda não estão bem estabelecidos.
Em síntese, os resultados demonstram que a prática laboratorial inclusiva não se limita à técnica, mas envolve empatia, atualização científica e compromisso ético. A adoção dessas orientações amplia a segurança diagnóstica, fortalece a confiança entre paciente e profissional e contribui para um modelo de saúde verdadeiramente humanizado, baseado em evidências e no reconhecimento pleno da diversidade humana.
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo alcançou com êxito o objetivo de compreender como o sexo biológico, a identidade de gênero e as intervenções médico-hormonais influenciam os resultados laboratoriais, evidenciando que a interpretação de exames em pessoas transgênero exige um olhar técnico, ético e humanizado. Observou-se que as terapias hormonais, embora promovam importantes adequações fisiológicas durante o processo de afirmação de gênero, geram alterações laboratoriais significativas que precisam ser compreendidas dentro do contexto clínico individual de cada paciente, evitando interpretações equivocadas ou patologizações indevidas.
No que se refere ao segundo objetivo, foi possível identificar as principais dificuldades enfrentadas por profissionais e laboratórios, destacando-se a falta de intervalos de referência específicos, a carência de formação técnica sobre diversidade de gênero e a limitação dos sistemas laboratoriais que ainda operam sob padrões binários. Tais fatores reforçam a necessidade urgente de políticas institucionais voltadas à atualização científica, à capacitação continuada e à construção de ambientes laboratoriais verdadeiramente inclusivos.
Quanto ao terceiro objetivo, foram apresentadas orientações interpretativas e práticas inclusivas que visam promover maior segurança clínica e respeito à identidade de gênero dos pacientes. Entre elas, destacam-se o uso de intervalos de referência híbridos, a elaboração de laudos personalizados, a implementação de protocolos de rastreamento preventivo e o fortalecimento da comunicação empática entre equipe laboratorial e paciente. Essas propostas representam um avanço significativo para uma medicina mais equitativa e centrada na pessoa.
Em síntese, este trabalho contribui para o debate sobre a humanização da prática laboratorial, ressaltando que o cuidado com pessoas transgênero vai além da técnica: envolve sensibilidade, conhecimento científico e compromisso ético. A adequação dos procedimentos laboratoriais às especificidades dessa população é um passo essencial para garantir equidade, segurança e dignidade no atendimento em saúde.
Por fim, recomenda-se a continuação de estudos longitudinais e multicêntricos que aprofundem a análise das influências hormonais em parâmetros laboratoriais, ampliem a base de dados sobre valores de referência específicos e subsidiem a criação de diretrizes nacionais voltadas à população trans. Investir em pesquisa e formação contínua é o caminho para consolidar práticas clínicas verdadeiramente baseadas em evidências e no respeito à diversidade humana.
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1Discente do Curso Superior gustavosampaio2737@gmail.com de Farmácia do Centro Universitário Fametro, e-mail:
2Doutora em Biotecnologia, Centro Universitário Fametro, e-mail: coord.saudezs@fametro.edu.br
3Professora em Centro Universitário Fametro, e-mail: susy.martins@fatecamazonia.com.br
4Professor em Centro Universitário Fametro, e-mail: eduardo.martins@fametro.edu.br
5Mestranda em Cirurgia, Universidade Federal do Amazonas, e-mail: gabrielle.melo@ufam.edu.br
