FORMAÇÃO DOCENTE E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: UM ESTUDO SOBRE OS DESAFIOS PEDAGÓGICOS NO ENSINO CONTÁBIL

TEACHER TRAINING AND ARTIFICIAL INTELLIGENCE: A STUDY ON THE PEDAGOGICAL CHALLENGES IN ACCOUNTING EDUCATION

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510262302


Gustavo Pereira Nunes1


Resumo 

A ascensão da inteligência artificial (IA) tem provocado transformações significativas na  contabilidade e exigido novas competências dos profissionais da área. Nesse contexto, esta pesquisa  buscou analisar de que forma a ausência de formação específica em IA pode impactar as práticas  pedagógicas dos professores de contabilidade no ensino superior. O estudo, de natureza qualitativa e  caráter bibliográfico, baseou-se em fontes acadêmicas recentes, permitindo identificar que a falta de  preparo docente em IA limita o uso de metodologias inovadoras e mantêm práticas tradicionais de  ensino. Os objetivos específicos incluíram: identificar abordagens teóricas sobre a formação docente e  o uso da IA no ensino superior; discutir as dificuldades enfrentadas pelos professores na integração da  IA às suas práticas pedagógicas; e refletir sobre as implicações dessa lacuna formativa para a  qualidade do ensino contábil. Os resultados indicam que a falta de preparo em IA mantém práticas  pedagógicas tradicionais, limita a adoção de metodologias inovadoras e revela uma baixa proficiência  digital entre os docentes, o que fragiliza o processo de ensino-aprendizagem e o alinhamento com as  demandas do mercado contemporâneo. 

Palavras-chave: Formação Docente. Inteligência Artificial. Ciências Contábeis. Docência. Práticas  Pedagógicas. 

1. INTRODUÇÃO 

A ascensão da inteligência artificial (IA) está provocando uma transformação profunda  em diversas profissões, dentre elas a contabilidade. Quando se analisa a temática da evolução  pode-se perceber que esses conhecimentos se tornam essenciais para o desempenho da  profissão. Essa essencialidade vai além de caprichos do próprio profissional, mas também é  fator obrigatório diante de evoluções relacionadas a obrigações no processo de comunicação  de informações dos contribuintes e os órgãos fiscalizadores e regulatórios. 

A importância dos conhecimentos de IA na contabilidade são tão relevantes que estão  inseridos nas diretrizes curriculares dos cursos de contabilidade, através de normativas oficiais publicadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), um órgão integrante do  Ministério da Educação (MEC). Conforme Resolução CNE/CES nº 1/2024 estabelece que os  cursos de graduação devem desenvolver nos estudantes a competência de compreender o  papel da tecnologia da informação na análise de dados e na produção de informações. Para  isso, é necessário estimular habilidades voltadas ao uso e implementação de tecnologias  modernas, como big data, data analytics, data visualization e IA, aplicadas aos sistemas de  informação contábil (Brasil, 2024). 

Ampliando para o aspecto da educação a nível de políticas globais destaca-se o  Consenso de Pequim sobre IA e Educação, que foi estabelecido em 2019. A UNESCO (2019)  reafirmou o compromisso com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, com foco  especial no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 4 que trata da educação de  qualidade. Após discutir os desafios para alcançar essa meta, o documento expressa a  dedicação em liderar políticas que integrem sistematicamente a IA à educação. O objetivo é  inovar o ensino e a aprendizagem, além de usar essa tecnologia para acelerar a oferta de  sistemas educacionais abertos e flexíveis, que garantam oportunidades de aprendizado  equitativas, relevantes e de qualidade para todos ao longo da vida, contribuindo para os ODS  e um futuro compartilhado. 

Diante desse cenário, um desafio na realidade da graduação de contabilidade se mostra  intrigante. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional determina que a formação dos  profissionais que atuam na administração, planejamento, supervisão e orientação educacional  da educação básica deve ser realizada em cursos de pedagogia ou programas de pós graduação, incluindo pelo menos trezentas horas de prática de ensino. No caso da formação  de docentes para o ensino superior, a LDB prevê que ela ocorra em nível de pós-graduação,  preferencialmente em programas de mestrado ou doutorado, mas não estabelece outras  exigências, como por exemplo a carga mínima de prática prevista para a educação básica 

(Brasil, 1996). Diante disso a ausência de formação específica em IA) tem um impacto direto  e significativo nas práticas pedagógicas dos professores de contabilidade no ensino superior. Conforme Tsiligiris e Bowyer (2021, apud Rodrigues; Miranda, 2025), em um estudo  com entidades influentes na educação contábil, a formação específica em IA é reconhecida  como uma habilidade digital avançada e essencial para os futuros profissionais da  contabilidade. Essa ausência de formação em IA impacta diretamente as práticas pedagógicas,  perpetuando abordagens tradicionais e limitando a exploração de metodologias inovadoras. Nesse contexto emerge a pergunta central: De que forma a ausência de formação específica em inteligência artificial pode impactar as práticas pedagógicas dos professores de  contabilidade no ensino superior? 

Para responder a pergunta problema essa pesquisa tem como objetivo geral analisar de  que forma a ausência de formação específica em inteligência artificial pode impactar as  práticas pedagógicas dos professores de contabilidade no ensino superior. Para isso a pesquisa  tem como objetivos específicos primeiramente identificar abordagens teóricas sobre a  formação docente e o uso da inteligência artificial no ensino superior, com ênfase na área de  contabilidade; em seguida, busca discutir as dificuldades e limitações enfrentadas por  professores na incorporação da inteligência artificial em suas práticas pedagógicas; e refletir  criticamente sobre as possíveis implicações dessa lacuna formativa para a qualidade do  processo de ensino em contabilidade, à luz das tendências de inovação educacional. 

A pesquisa justifica-se pela crescente presença da IA no cenário global e no mercado  de trabalho tem transformado significativamente diversas áreas do conhecimento, incluindo a  contabilidade. Essa transformação impõe a necessidade de adaptação dos profissionais, não  apenas como uma escolha estratégica, mas como uma exigência para o cumprimento de  obrigações regulatórias e para a comunicação eficiente de informações entre contribuintes e  órgãos fiscalizadores. Nesse contexto, compreender o papel da IA e desenvolver  competências para utilizar essa tecnologia torna-se fundamental para o exercício da profissão  contábil. Além disso, as próprias diretrizes curriculares dos cursos de Ciências Contábeis,  conforme estabelece o Conselho Nacional de Educação, já incorporam a necessidade de  desenvolver tais habilidades nos estudantes, reforçando a relevância da temática para a  formação acadêmica e para o futuro da profissão. 

No entanto, persiste um desafio importante no que se refere à formação docente no  ensino superior de contabilidade. Embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional  determine requisitos formais para a formação de professores, ela não prevê carga horária  mínima de prática pedagógica ou formação específica em tecnologias emergentes, como a IA.  Essa lacuna contribui para a manutenção de métodos de ensino tradicionais, que muitas vezes  não dialogam com as demandas tecnológicas e inovadoras da profissão contábil  contemporânea. Portanto, investigar o impacto da ausência de formação específica em IA nas  práticas pedagógicas dos professores de contabilidade é essencial para compreender suas  implicações na qualidade do ensino, na formação dos futuros profissionais e na capacidade de  inovação dos cursos de graduação. Essa pesquisa tem potencial para ser relevante a docentes,  pesquisadores, acadêmicos, gestores educacionais e demais interessados no tema.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA 

O referencial teórico deste estudo busca fundamentar as discussões a partir de uma  revisão de literatura que aborda os principais conceitos e reflexões relacionados à temática  proposta. Para isso, este capítulo está estruturado em dois eixos centrais: o primeiro trata da  IA na educação, explorando seu papel como ferramenta de apoio aos processos de ensino e  aprendizagem, suas potencialidades e desafios na prática pedagógica; o segundo aborda a  formação docente em ciências contábeis, discutindo as competências necessárias para a  docências, as demandas da educação superior frente às transformações tecnológicas e as  implicações da inovação digital no desenvolvimento profissional docente. Essas seções  permitem compreender, de forma integrada, como a incorporação da IA pode impactar e  ressignificar a prática educativa no ensino contábil. 

2.1. Inteligência Artificial na Educação 

Falar sobre inteligência artificial é um tema com diversas camadas de profundidade.  De acordo com Silva e Mairink (2019, p. 4),  

A Inteligência artificial, também conhecida como IA, é um ramo da ciência que visa, por meios tecnológicos, ser capaz de simular a inteligência humana; podendo resolver problemas, criar soluções e até mesmo tomar decisões no lugar do ser  humano, como um auxílio que facilitaria em diversas áreas do cotidiano. (SILVA eMAIRINK, 2019, p. 4) 

Esse conceito é um resumo que serve para introduzir ao assunto, porém  aprofundando mais temos Russel e Norvig (2013, p. 25) examinando quatro abordagens,  sendo elas a inteligência pensando como um ser humano, agindo como um ser humano,  pensando racionalmente e agindo racionalmente. 

Figura 1. Algumas definições de inteligência artificial, organizadas em quatro categorias.

Fonte. Russel e Norvig (2013, p. 25)

Independente da abordagem é necessário ressaltar que a IA diante desses conceitos  pode desempenhar um papel fundamental em auxiliar na educação e suas perspectivas. Diante  das mudanças rápidas da tecnologia, várias tecnologias são utilizadas como ferramentas de  ensino, sendo que um erro na implementação dela pode prejudicar todo esse processo.  

Segundo Vicari (2021), diversas tecnologias de IA têm sido aplicadas na educação,  em especial as relacionadas ao Processamento de Linguagem Natural (PLN), como tradução,  análise e interpretação de textos e voz. Essas ferramentas possibilitam a leitura e o resumo de  textos, vídeos e apresentações para facilitar o estudo dos alunos, além de incentivar a  produção de redações criativas e gerar livros personalizados, conhecidos como smartbooks,  conforme o perfil de aprendizagem de cada estudante. O autor também destaca que muitas  dessas aplicações estão associadas ao reconhecimento de emoções e que, nos últimos anos, o  PLN e a computação afetiva têm sido as áreas com maior número de registros de patentes. 

Ainda sobre esse tema, Vicari (2021) questiona se a tendência da tecnologia  educacional será voltada à personalização e à assertividade no atendimento aos usuários ou se  avançará no desenvolvimento de tecnologias que promovam a interação social e resultados  mais significativos para a educação. O autor também pondera sobre a possibilidade de uma  combinação entre essas abordagens e sobre onde poderá ocorrer a verdadeira disrupção nos  sistemas educacionais, refletindo ainda sobre como essas inovações contribuíram para o  desenvolvimento das competências exigidas em um contexto em que a IA e a robótica passam  a substituir pessoas em diversas funções. 

Em complemento a isso, Holmes e Miao (2023) descrevem a existência da  Inteligência Artificial Generativa (IAGen) e a descrevem como uma tecnologia capaz de criar  automaticamente novos conteúdos a partir de comandos em linguagem natural, diferindo de  outros sistemas de IA que apenas selecionam ou organizam informações já existentes na web. 

Os autores destavam que embora a IAGen consiga auxiliar professores e pesquisadores, pode ser ainda necessário várias interações de prompt para que se alcance o resultado esperado,  sendo esse termo utilizado para se referir às entradas de informações para se obter resultados.  Em outras palavras, a forma em que é feita a entrada de informação pode definir o uso dessa  tecnologia de forma sofisticada ou superficial. 

Diante disso, Holmes e Miao (2023), propõem algumas sugestões para facilitar o uso  da IAGen na área da educação e da pesquisa. Entre eles estão estratégias institucionais para  facilitar o uso responsável da tecnologia, como a implementação institucional de princípios  éticos, a capacitação e orientação para docentes, pesquisadores e alunos, desenvolvimento de capacidades de engenharia de prompts de IAGen, detectação de plágio por meio de IAGen em  trabalhos escritos. Outras propostas incluem utilizar o uso da IAGen para facilitar o ensino,  inclusive como um treinador para a aquisição de habilidades fundamentais a um ritmo  pessoal, apoio para alunos com necessidades especiais etc. É preciso destacar que todas são  propostas que precisam ser testadas e validadas cientificamente para o avanço científico sobre  o tema. 

Apesar das oportunidades é necessário entender que a implementação de boas  práticas de uso pode ser dificultada por fatores diversos, podendo os mesmos serem  relacionados a fatores como recursos das instituições, capacidade do corpo docente e dos  discentes, fatores econômicos, regionais etc.  

Além disso, Holmes e Miao (2023) comentam sobre diversas implicações e riscos  éticos relacionados ao uso da IAGen. Diante disso, os pesquisadores destacam as seguintes  implicações: agravamento da pobreza digital, superar a adaptação regulatória nacional, uso de  conteúdo sem consentimento, modelos inexplicáveis usados para gerar resultados  (funcionamento interno não transparente), conteúdo gerado por IA que polui a Internet, falta  de compreensão do mundo real, reduzir a diversidade de opiniões e marginalizar ainda mais  as vozes já marginalizadas, e gerar deepfakes mais avançados. Diante disso, os autores abordam sobre regular o uso da IA na educação, apresentando para isso sugestões de como  pode ocorrer essa implementação, como por exemplo interferência do estado ou da instituição  de ensino na regulamentação. 

2.2. Formação Docente em Ciências Contábeis 

A formação docente, segundo a visão de Rodrigues (2025), deve ser compreendida e  desenvolvida à luz da Teoria das Competências, que enfatiza a capacidade de mobilizar um  conjunto orquestrado de saberes (recursos internos) em resposta a situações concretas e  contextos específicos. Para o educador, essa mobilização eficaz requer a integração de três  dimensões fundamentais: conhecimento (saber teórico), habilidades (saber-fazer, analítico e  prático), e atitudes (comportamento ético, valores e segurança). No ambiente de ensino  superior, especialmente na área de Ciências Contábeis, onde a tecnologia redefine o papel do  profissional, a formação docente é guiada pelo Quadro Europeu para a Competência Digital  dos Educadores (DigCompEdu), que articula o domínio tecnológico necessário por meio de  três eixos: Competências Profissionais (relacionadas ao engajamento e desenvolvimento  contínuo), Competências Pedagógicas (uso de recursos digitais, metodologias de ensino/aprendizagem, avaliação, e capacitação dos aprendentes) e Competências dos  Aprendentes (foco na promoção da competência digital dos alunos).  

A autora destaca que o docente, portanto, precisa atuar como mediador, dominando o  uso das tecnologias de maneira segura, analítica e responsável, e deve buscar o  desenvolvimento profissional contínuo para superar o modelo tradicional e garantir a  integração intencional dos recursos digitais nas práticas pedagógicas e avaliativas. 

Em complemento a isso Marcom e Porto (2023) discorrem que a formação docente  pode ser vista como o pilar central para a efetiva integração da IA no ambiente educacional,  sendo crucial para que os professores adquiram as novas competências necessárias para atuar  na era digital. Cabe ressaltar que apesar dessa tecnologia ser uma ferramenta pedagógica  inovadora que permite a personalização do aprendizado e a oferta de feedbacks mais precisos,  sua incorporação enfrenta desafios significativos, como a resistência à mudança e,  principalmente, a necessidade de aprimorar a formação docente.  

As autoras destacam ainda que é fundamental que essa formação seja contínua e  intencional, capacitando os educadores não apenas no domínio técnico, mas também no  desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes para a implementação da IA,  transformando o professor em um animador da inteligência coletiva e mediador crítico da  informação. Além da capacitação tecnológica e pedagógica, a formação deve incluir uma  reflexão crítica sobre questões éticas, privacidade, igualdade e inclusão, garantindo que o uso  da tecnologia seja feito de forma responsável, alinhada às necessidades da sociedade  contemporânea. 

Em complemento a essas ideias, Lima (2018) discorre sobre a formação docente ser um pilar central para a atuação no Ensino Superior, mas ele ressalta que, especialmente na  área de Ciências Contábeis, ela se encontra fragilizada e, frequentemente, desassociada da  identidade pessoal do professor, o que pode instaurar uma crise identitária. A legislação  brasileira direciona a preparação para a docência em nível superior aos cursos de pós graduação stricto sensu (Mestrado e Doutorado). No entanto, o autor aponta que esses  programas priorizam historicamente a formação de pesquisadores, negligenciando a formação  didática e pedagógica necessária para a prática em sala de aula. Essa deficiência faz com que  os professores de Contabilidade, na maioria das vezes, ingressam na docência sem  planejamento e sem formação específica, resultando em um “choque de realidade” logo no  início da carreira. Diante dessa lacuna, eles acabam aprendendo a ser docentes na prática,  utilizando saberes experienciais e replicando os métodos de seus professores-referência, o que reforça a necessidade de um processo de formação mais robusto e contínuo que permita ao  professor refletir sobre sua prática e construir uma identidade profissional sólida e consciente Concluindo essa linha de pensamento, para Silva (2024) a formação docente é  considerada um aspecto indissociável da prática profissional, sendo um ciclo contínuo onde não existe docência sem formação e por outro lado não existe formação sem docência. O  autor aponta que, na área de Ciências Contábeis, a formação pedagógica do professor é  motivo de grande preocupação na literatura, apesar de não existir uma formação específica  regulamentada para a docência nesse campo. Assim, a preparação do profissional docente é,  na prática, remetida aos cursos de Pós-Graduação, conforme previsto pela LDB. A docência  universitária, nesse contexto, exige que o professor vá além do mero domínio do conteúdo,  integrando saberes pedagógicos desenvolvidos no contexto de ensino, pesquisa e extensão, e  mobilizando conhecimentos didáticos para lidar com tecnologias, discordância de opiniões e  processos de aprendizagem. O objetivo final da formação é o aperfeiçoamento contínuo,  capacitando o profissional a ser um facilitador do aprendizado, que reflete sobre a própria  prática para melhorar sua didática e motivar os alunos a se sentirem parte do processo de  ensino-aprendizagem. 

3. METODOLOGIA  

Sobre o tipo de pesquisa a ser desenvolvida, Vergara (1998, p. 44) classifica que  existem dois critérios básicos, que são quanto aos fins e quanto aos meios. Quanto aos fins a  pesquisa caracteriza-se como explicativa devido objetivo de analisar as dificuldades e  limitações na atuação do perito contábil. 

A investigação explicativa tem como principal objetivo tornar algo inteligível, justificar-lhe os motivos. Visa, portanto, esclarecer quais fatores contribuem, de  alguma forma, para a ocorrência de determinado fenômeno. Por exemplo: as razões do sucesso de determinado empreendimento. (VERGARA, 1998, p. 44) 

Quanto aos meios, a pesquisa caracteriza-se como pesquisa bibliográfica.  

Pesquisa bibliográfica é o estudo sistematizado desenvolvido com base em material publicado em livros, revistas, jornais, redes eletrônicas, isto é, material acessível ao público em geral. Fornece instrumental analítico para qualquer outro tipo de pesquisa, mas também pode esgotar-se em si mesma. O material publicado pode ser  fonte primária ou secundária. (VERGARA, 1998, p. 46)

Dessa forma serão feitas análises em sentido qualitativo devido aos tipos de pesquisa  descritos anteriormente, assim como o intuito de trazer luz ao problema construído na  introdução. 

A coleta de dados foi realizada através de consulta de publicações nos bancos de dados  do SciELO (Scientific Electronic Library) e Google Acadêmico. Para bases de referencial  teórico foram utilizados livros e artigos relevantes sobre o tema. Para a base do  desenvolvimento da pesquisa foi feito um processo de “filtro” mais criterioso. No primeiro  momento foram utilizados como termos de busca “inteligência artificial”, “formação  docente”, “ciências contábeis” e “contabilidade), e o período filtrado foi o intervalo de  publicação entre 2018 e 2023. Para seleção do material foi selecionado apenas as pesquisas  que estavam acessíveis de forma online, escritos em língua portuguesa e disponíveis de forma  completa. 

No segundo momento foram selecionados os artigos, teses e trabalhos de conclusão de  curso que têm relação com a temática da presente pesquisa e após um processo de leitura  crítica foi realizada uma seleção apenas com as pesquisas consideradas mais relevantes em  relação aos seus resultados e o percurso metodológico utilizado. Os dados selecionados foram  analisados e ao final resumidos em uma tabela contendo as principais e mais relevantes  informações. 

Em relação aos aspectos éticos, foram respeitadas a fidedignidade das ideias e  conteúdo dos materiais utilizados na coleta de dados. Além disso, a pesquisa ocorreu de forma  imparcial, não visando merecer ou desmerecer nenhum dos autores citados. 

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS 

Primeiramente sobre o perfil do docente de Ciências Contábeis no Brasil, este é  marcado por uma forte base técnica e por uma lacuna significativa na formação didático pedagógica, visto que a preparação para a docência em nível superior, por lei, é remetida aos  cursos de Pós-Graduação stricto sensu (Silva, 2024). No entanto, esses programas  historicamente priorizam a formação de pesquisadores, em detrimento dos saberes didáticos e  pedagógicos necessários à prática em sala de aula (Slomski et al., 2013).  

Esse tipo de lacuna no aspecto pedagógico pode resultar em um profissional que entra  no mercado de trabalho sem um preparo específico em relação à docência. Lima (2018)  apresenta que esses docentes acabam aprendendo a ser professores na prática, pautando-se em  saberes experienciais e replicando os métodos de seus professores-referência. A ausência  dessa formação específica contribui para a descaracterização da docência e pode levar à instauração de uma crise identitária, na qual o profissional se identifica prioritariamente como  contador, e não como docente. 

Este perfil, centrado na experiência profissional não docente, mas fragilizado nos  aspectos pedagógicos, reflete-se diretamente no domínio das competências digitais, que se  mostram entre as menos desenvolvidas pelos professores da área (Bolzan e Vendruscolo,  2021). Em sua pesquisa, Rodrigues (2025) destaca que era suposto que os docentes que atuam na pós-graduação stricto sensu, responsáveis por formar futuros professores, demonstrassem  níveis mais avançados de competência digital, porém foi identificado que na verdade  concentram-se nos níveis básico e intermediário. Esse é um fato preocupante, dadas as  exigências por qualificação tecnológica.  

Embora demonstrem maior familiaridade com Recursos Digitais, há uma pouca  integração desses recursos nas práticas de Avaliação, revelando uma lacuna na aplicação  pedagógica das tecnologias (Rodrigues, 2025). Essa limitação tecnológica e didática leva à  predominância de metodologias de ensino tradicionais, como aulas expositivas, casos de  ensino e seminários, em detrimento de abordagens inovadoras e ativas, que seriam mais  eficazes para desenvolver as competências digitais.  

De acordo com Rodrigues (2025), ainda existem lacunas nos currículos dos cursos de  graduação, especialmente no que se refere ao desenvolvimento de habilidades práticas e  atitudes voltadas aos ambientes digitais. Essas deficiências manifestam-se na limitada  integração de ferramentas tecnológicas atuais e emergentes ao ensino. Além disso, as  disciplinas que abordam competências digitais tendem a permanecer vinculadas a práticas  tradicionais, baseadas no uso de softwares convencionais, o que contribui para a manutenção  do estado atual, mesmo diante das transformações tecnológicas e de seus impactos na  profissão contábil. 

O impacto da falta de domínio em IA não se restringe apenas às metodologias, mas  também se estende aos recursos externos e às práticas de avaliação. A pesquisa sobre  currículos de Contabilidade revela que os recursos tecnológicos utilizados se concentram em  softwares tradicionais e planilhas, sem destaque para tecnologias emergentes como IA,  blockchain ou computação em nuvem. Essa prática limita o desenvolvimento de habilidades  analíticas e de visualização de dados nos alunos, que são cruciais para o contador moderno.  No que tange à avaliação, a falta de formação em IA afeta a capacidade do docente de utilizar  as tecnologias para aprimorar os métodos avaliativos, uma área que já apresenta a menor  média de proficiência digital entre os professores de pós-graduação em Contabilidade. O  predomínio de exames escritos e métodos tradicionais para avaliar competências, em vez de métodos mais dinâmicos como simulações assistidas por computador ou portfólios, falha em  capturar o domínio integral dos conhecimentos, habilidades e atitudes digitais exigidos pela  profissão. 

As dificuldades enfrentadas pelo docente de Contabilidade vão além das lacunas  formativas e incluem desafios operacionais e institucionais. Os problemas mais críticos  percebidos são a falta de motivação e a heterogeneidade dos alunos, a quantidade de trabalho  administrativo e a falta de tempo, sendo estes mais intensos na fase de ingresso na carreira e  para professores com maior titulação (Lima, 2015). A incorporação da IA, vista como  essencial para formar profissionais atualizados, é dificultada por barreiras como a resistência à  mudança e a falta de suporte institucional adequado, incluindo infraestrutura e recursos  digitais (Leal, Lourenço e Araújo, 2024).  

A persistência dessas práticas pedagógicas defasadas tem sérias implicações para a  qualidade da formação do futuro contador. Quando a formação acadêmica não oferece o  domínio tecnológico necessário, o egresso corre o risco de ineficiência operacional em fluxos  de trabalho digitais e a perda de competitividade profissional, aumentando o risco de  substituição por profissionais mais qualificados, inclusive de outras áreas. Além disso, a falta  de formação em IA impede a devida reflexão sobre o uso ético e crítico das tecnologias,  negligenciando as atitudes digitais (segurança, privacidade e ética) que são fundamentais para  a atuação responsável na sociedade de dados. Portanto, a carência em IA no corpo docente  não apenas limita a inovação em sala de aula, mas fundamentalmente compromete a  empregabilidade e o preparo ético-crítico do profissional contábil para os desafios do século  XXI. 

Em síntese, a ausência de uma formação docente voltada para o uso da IA compromete tanto a empregabilidade dos futuros profissionais quanto a credibilidade da área  contábil. A falta dessas competências gera impactos diretos na eficiência das operações, na  agilidade das decisões estratégicas e na competitividade no mercado, expondo o contador ao  risco de ser substituído por profissionais com maior domínio tecnológico. Diante disso, as  Instituições de Ensino Superior (IES) assumem papel essencial ao promoverem reformas  curriculares e pedagógicas que priorizem a capacitação contínua dos docentes, de modo que  estes atuem como mediadores críticos do conhecimento e incentivadores do pensamento  criativo e colaborativo, impulsionando, assim, a qualidade do ensino em Contabilidade.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A presente pesquisa alcançou seu objetivo geral, que era analisar de que forma a  ausência de formação específica em IA pode impactar as práticas pedagógicas dos professores  de contabilidade no ensino superior. A análise dos dados e da literatura permitiu responder à  pergunta problema, confirmando que a ausência de formação específica em IA tem um  impacto direto e significativo na prática pedagógica, resultando na perpetuação de abordagens  tradicionais e limitando a exploração de metodologias inovadoras. Essa transformação é  particularmente crítica visto que a IA está provocando uma profunda transformação na  profissão contábil, sendo inclusive um conhecimento obrigatório estabelecido pelas Diretrizes  Curriculares Nacionais (Resolução CNE/CES nº 1/2024), que exige dos cursos o estímulo a  habilidades voltadas ao uso e implementação de tecnologias modernas, como big data, data  analytics e IA. 

O primeiro objetivo específico da pesquisa, que visava identificar abordagens teóricas  sobre a formação docente e o uso da IA no ensino superior, com ênfase na Contabilidade, foi  plenamente atingido por meio da revisão de literatura. Foi estabelecido que a formação  docente deve ser compreendida à luz da Teoria das Competências, que enfatiza a integração  de três dimensões fundamentais: conhecimento (saber teórico), habilidades (saber-fazer  analítico e prático) e atitudes (comportamento ético, valores e segurança). No contexto da IA,  essa formação pode ser guiada pelos eixos de Competências Profissionais, Competências Pedagógicas e Competências dos Aprendentes. Além disso, a relevância global da IA na  educação foi identificada no Consenso de Pequim da UNESCO (2019), que reforça a  dedicação em liderar políticas que integrem a IA para inovar o ensino e garantir a oferta de  sistemas educacionais abertos e flexíveis. 

O segundo objetivo, que consistia em discutir as dificuldades e limitações enfrentadas  por professores na incorporação da IA em suas práticas pedagógicas, foi cumprido ao expor as  fragilidades estruturais do corpo docente. A LDB determina que a formação de docentes para  o ensino superior ocorra na pós-graduação, preferencialmente Mestrado ou Doutorado, mas  não estabelece carga mínima de prática, o que contribui para que o profissional ingresse na  docência “sem planejamento” e acabe aprendendo “na prática”, replicando métodos de seus  professores-referência. A principal limitação é a baixa proficiência digital dos docentes:  mesmo aqueles que atuam na pós-graduação concentram-se nos níveis básico e intermediário  de competência, com pouca integração de Recursos Digitais nas práticas de Avaliação. Soma se a isso a manutenção de métodos de ensino tradicionais, a resistência à mudança e a falta de suporte institucional adequado, infraestrutura e tempo hábil para o desenvolvimento  pedagógico. 

O terceiro objetivo específico, de refletir criticamente sobre as possíveis implicações  dessa lacuna formativa para a qualidade do processo de ensino em contabilidade, à luz das  tendências de inovação educacional, permitiu concluir que a ausência de formação em IA  compromete drasticamente a qualidade do ensino e o alinhamento com as Diretrizes  Curriculares Nacionais. As práticas pedagógicas permanecem atreladas a métodos tradicionais  e ao uso de softwares convencionais, o que limita o desenvolvimento de habilidades analíticas  e o domínio de tecnologias emergentes como big data, blockchain e IA. As implicações são  sérias: o egresso corre o risco de ineficiência operacional e perda de competitividade  profissional, podendo ser substituído por profissionais mais qualificados. Além disso, a  carência em IA impede a devida reflexão sobre o uso ético e crítico das tecnologias,  negligenciando as atitudes digitais (segurança, privacidade e ética) que são fundamentais para  a atuação responsável na sociedade de dados. 

Em síntese, a pesquisa confirmou sua relevância ao trazer luz sobre o impacto direto  da ausência de formação em IA nas práticas pedagógicas e na qualidade do ensino de  Contabilidade. As conclusões reforçam que a lacuna formativa compromete a  empregabilidade dos futuros profissionais e a credibilidade da área contábil. Para reverter esse  quadro, as IES devem assumir um papel essencial ao promoverem reformas curriculares e  pedagógicas. A formação docente deve ser contínua e intencional, visando a evolução para  níveis mais avançados de proficiência e a aquisição de novas competências digitais. Essa  capacitação precisa abranger o desenvolvimento orquestrado de conhecimentos, habilidades e  atitudes, incluindo a reflexão crítica sobre questões éticas e de privacidade, garantindo que os  docentes atuem como mediadores críticos, impulsionando a qualidade do ensino e formando  profissionais aptos para os desafios do século XXI. 

Dessa forma pode concluir-se que a pergunta problema foi respondida e todos os  objetivos foram alcançados. Como limitações da pesquisa pode-se destacar o fato da  investigação ter sido realizada apenas como uma revisão de literatura, dessa forma algumas  análises teriam potencial para muito mais profundidade ao ser realizado com uma amostragem  concreta. Como sugestão de pesquisas futuras, seria interessante uma pesquisa de campo ou  um estudo de caso com a mesma temática, visando justamente suprir as limitações descritas  anteriormente. 

REFERÊNCIAS

BOLZAN, G.; VENDRUSCOLO, M. I. Competências docentes: Um estudo com professores  de graduação em Ciências Contábeis no Rio Grande do Sul. Revista Contabilidade Vista &  Revista, v. 32, n. 3, 2021. https://doi.org/10.22561/cvr.v32i3.6811. Acesso em 22 de set.  2025. 

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da  educação nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 1996. Disponível em:  https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 30 de jan. 2025. 

BRASIL. Resolução CNE/CES 1, de 27 de março de 2024. Institui as Diretrizes  Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Ciências Contábeis, bacharelado.  Brasília, DF: Presidência Conselho Nacional de Educação, 2024. Disponível em:  http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rces01_24.pdf. Acesso em: 10 jul. 2025. 

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1Discente do Mestrado em Educação pela Universidad de La Empresa e-mail: gustp@outlook.com

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