BULLYING ESCOLAR: CAUSAS PSICOSSOCIAS E CONSEQUÊNCIAS PSICOLÓGICAS

SCHOOL BULLYING: PSYCHOSOCIAL CAUSES AND PSYCHOLOGICAL CONSEQUENCES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510251626


Letícia Amoedo Campos Gualda


RESUMO

Bullying é um conjunto de comportamento agressivo, intencional e repetitivo, sem motivo evidente, adotado por um ou mais estudantes contra outro (s), causando dor e angústia e, executado dentro de uma relação desigual de poder. O objetivo foi identificar, descrever e analisar as causas psicossociais do bullying e suas consequências psicológicas através de pesquisa bibliográfica. O bullying é encontrado em todas as escolas e afeta o desenvolvimento psicossocial dos envolvidos, gravemente. As causas psicossociais são entendidas como um conjunto de fatores que envolvem a personalidade, a estrutura familiar e as vivências pessoais nas diversas relações do indivíduo. As consequências psicológicas são diferentes para cada um dos envolvidos. Elas vão desde problemas de relacionamento até problemas escolares, e traumas psíquicos. Tanto a escola quanto a família e a sociedade devem se envolver na identificação e criação de estratégias contra o bullying, por este ser um fenômeno social no qual todos sofrem. 

Palavras-Chave: Bullying; causas psicossociais; conseqüências psicológicas.

ABSTRACT

Bullying is a set of aggressive behavior, deliberate and repeated, without apparent reason, adopted by one or more students against another (s) causing pain and anguish, and executed within an unequal power relationship. The objective was to identify, describe and analyze the psychosocial causes of bullying and its consequences through psychological literature. Bullying is found in all schools and affects the psychosocial development of those involved, seriously. The psychosocial causes are understood as a set of factors related to personality, family structure and personal experiences in the various relations of the individual. The psychological consequences are different for everyone involved. They range from relationship problems to academic problems, and psychological trauma. Both school and family and society should be involved in identifying and creating strategies against bullying, because it is a social phenomenon in which everyone suffers.

Keywords: Bullying, psychosocial causes; psychological consequences

1. INTRODUÇÃO

    Atualmente, um dos fenômenos que mais angustiam pais, instituições escolares, profissionais da saúde e da educação, e, a sociedade como um todo, é a violência e suas derivações. O assunto ganha maior foco quando diz respeito à população infanto juvenil, a qual tem apresentado índices alarmantes em relação ao aumento da prática e do envolvimento com a violência, em especial, com o assunto que será abordado neste artigo, o bullying escolar.

    Pode-se ver casos em jornais e revistas, de crianças e adolescentes que aparentavam calma e tranquilidade nas suas rotinas de vida cotidiana e emocional, e que, aparentemente, sem que ninguém esperasse, entraram na própria escola atirando nos colegas de sala. Situações violentas e rompantes como esta, delatam uma ação específica em reação ao bullying sofrido, ou seja, em relação ao efeito produzido pelo preconceito e pela falta de aceitação das diferenças pessoais, que estas crianças e adolescentes sofrem de outras pessoas.

    Bullying é uma palavra de denominação inglesa, surgida na década de 1970, na Noruega, adotada universalmente, durante a realização da Conferência Internacional Online School Bullying and Violence, de maio a junho de 2005 (LOPES NETO, 2005), decorrente da dificuldade de traduzí-la para diversas línguas e, compreendida como um fenômeno de agressão velada, física, verbal ou psicológica, capaz de acarretar grande prejuízo emocional, psicológico e social no indivíduo vitimizado.

    É caracterizado como um tipo de violência, conceituado como um fenômeno que “compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro (s), causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder” (LOPES NETO, 2005).

    Esse tipo de violência pode ser encontrado em qualquer lugar, porém, a escola será o palco do estudo em questão, onde poderemos perceber a existência de prejuízos sociais, psicológicos e educacionais da vítima de bullying.

    Na verdade, é possível pensar que o bullying é apenas a “casca”, o sintoma de algo mais profundo, que traz por detrás de si questões antigas e sempre existentes identificadas como preconceito, isto é, como dificuldades em lidar e aceitar as diferenças e os valores pessoais, mobilizando em suas vítimas, mecanismos psicológicos e sociais capazes de prejudicar o indivíduo como um todo.

    Desse modo, faz-se importante conhecer estes mecanismos psicológicos do fenômeno bullying, bem como suas causas psicossociais e suas implicações nos aspectos emocionais, sociais e educacionais dos envolvidos, além da importância do envolvimento de uma equipe multidisciplinar composta pelo corpo docente, discente e familiar, na construção de planos de ação no combate ao bullying e, no cuidado com seus efeitos produzidos.

    O objetivo deste artigo é identificar, descrever e analisar as causas psicossociais do fenômeno bullying e suas consequências psicológicas, através de relatos da literatura acadêmica, no período dos últimos sete anos.

    O levantamento bibliográfico foi feito por meio de busca eletrônica de artigos indexados nas bases de dados BVS – Psicologia, LILACS (Literatura Latino–Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e SCIELO (Scientific Eletronic Library Online), em português, a partir das palavras-chave: bullying, psicologia, aspectos psicológicos, preconceito.  Além disso, foram consultados livros e fragmentos de livros, disponíveis na internet e em livrarias do ramo. A biblioteca da Faculdade Anhanguera de Campinas foi consultada também, porém, por ser um assunto novo, nada foi encontrado. A pesquisa se deu através da análise qualitativa, identificando, descrevendo, analisando e, discutindo os dados relevantes encontrados.

    Foram encontrados então na base de dados BVS e LILACS, um TCC, nove periódicos técnico-científicos, quatorze textos no SCIELO, dos quais quatro deles foram lidos e analisados, dois sites específicos sobre bullying (www.abrapia.org.br e www.bullying.com.br) e oito livros.

    Os resumos foram lidos a fim de encontrar informações sobre a definição, as causas e as consequências psicológicas do fenômeno bullying. As pesquisas qualitativas foram as mais usadas as quais despertaram maior interesse para a realização deste artigo. Os dados quantitativos serviram apenas para uma melhor constatação dos resultados buscados.

    2. BULLYING

    Conforme podemos encontrar em diversas literaturas, o bullying é um fenômeno tão antigo quanto a própria escola, mas, como já mencionado anteriormente, somente passou a ser objeto de estudo nos anos 70, na Suécia, devido ao aumento da violência no âmbito escolar.

    Esta preocupação logo tomou conta de outros países e, no final de 1982, na Noruega, após o trágico episódio do suicídio de três crianças com idades entre 10 e 14 anos, motivadas pelos maus tratos sofridos por colegas de escola, o Ministério da Educação da Noruega, realizou então uma campanha no combate ao bullying escolar, em resposta à grande mobilização nacional.

    Nessa mesma época, Dan Olweus, famoso pesquisador norueguês, iniciou estudos com 84.000 estudantes, cerca de 400 professores e quase 1.000 pais de alunos, com o objetivo de avaliar as taxas de ocorrência e as formas pelas quais o bullying se apresentava na vida escolar das crianças de seu país. O estudo acabou por mobilizar uma campanha nacional antibullying com uma redução de 50% de tal prática nas escolas e, devido ao grande sucesso, outros países aderiram quase que imediatamente a mesma prática antibullying. Entre os países citados encontramos a Inglaterra, o Canadá e Portugal (SILVA, 2010).

    Ainda em relação aos estudos de Silva, 2010, outras pesquisas mundiais sobre o fenômeno bullying, apontaram para o crescimento do problema, de 5% a 35% das crianças em idade escolar estão envolvidas em situações de violência escolar (os espectadores não estão envolvidos nestes estudos).

    Devido a todos esses índices, principalmente a partir da década de 90 o trabalho sobre bullying passou a ser intenso. No Brasil, a atenção e os estudos ainda se dão de forma incipiente e, nos EUA, o bullying é considerado um conflito global (SILVA, 2010).

    A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA) se dedica desde 2001 a estudar, pesquisar e divulgar o fenômeno bullying.  No período de novembro de 2002 a março de 2003, esta associação realizou uma importante pesquisa em escolas do Rio de Janeiro com 5.482 alunos de 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental, a qual apontou diversos dados importantes, a saber:

    – 40,5% tiveram algum tipo de envolvimento direto na prática do Bullying, como alvo ou como vítima;

    – Em relação à participação ativa de bullying, os meninos (50,5%) superaram as meninas (49,5%);

    – Os locais de ocorrência das agressões foram de 60,2% em salas de aula, 16,1% no recreio e, 15,9% no portão da escola.

    – A aparente aceitação dos adultos e a consequente sensação de impunidade ajudam na continuidade do comportamento agressivo (SILVA, 2010).

    Segundo Lopes Neto (2005), o bullying é classificado em dois tipos: direto e indireto. No primeiro, encontram-se os apelidos, agressões físicas, ameaças, roubos, ofensas verbais ou expressões e gestos que geram mal estar aos alvos e, são encontradas quatro vezes mais em meninos. No segundo, encontram-se atitudes de indiferença, isolamento, difamação e negação aos desejos, sendo mais usados pelas meninas.

    Pode-se dizer então, que enquanto as meninas tendem a utilizar o terror psicológico e a manipulação de outras meninas contra a vítima, os meninos tendem a utilizar da força física para afirmar e firmar seu poder sobre os outros. Além disso, na maioria das vezes, o líder do grupo masculino usa de outros colegas que necessitam da aceitação do grupo, para agirem diretamente sobre as vítimas (SILVA, 2010).

    Para Lopes Neto (2005), existe uma função fundamental para o praticante de bullying: é um modo deste de afirmar o poder interpessoal por meio da agressão, o que vem ao encontro com o que Martins (2005) defende que o autor do bullying age com dois objetivos, o primeiro de demonstrar poder e, o segundo de conseguir uma afiliação junto aos colegas.

    Alguns autores vão discutir também que entre as causas do bullying encontramos fatores econômicos, sociais e culturais, aspectos de estrutura de personalidade, valores familiares e influências de familiares, de amigos, da escola e da comunidade (Lopes Neto, 2005, p. 66). Estes fatores de causa de bullying e de suas consequências serão melhores explanadas nos seus respectivos tópicos. Antes disso, será importante apontar e descrever as diferentes formas de envolvimento no fenômeno bullying para compreensão global do fenômeno em estudo. 

    3. CLASSIFICAÇÃO DAS FORMAS DE ENVOLVIMENTO NO FENÔMENO BULLYING

    A ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência) classifica as formas de envolvimento de crianças e adolescentes no fenômeno bullying da seguinte forma: alvos de bullying (vítima), autor de bullying (agressor), alvo/autor de bullying (agressor/vítima) e testemunha de bullying:

    3.1. Alvo de Bullying (vítima)

    O alvo de bullying (vítima) é o aluno que fica exposto, de forma repetida e por um tempo às ações negativas inferidas por um ou mais alunos. Estas ações são atitudes nas quais alguém causa dano, fere ou incomoda outra pessoa de forma intencional e repetida.

    Normalmente, o alvo não dispõe de recursos, status ou habilidade para reagir ou cessar o bullying. Geralmente, é pouco sociável, inseguro e, desesperançado quanto à possibilidade de adequação ao grupo. Possui baixa auto-estima a qual é agravada por críticas dos adultos sobre a sua vida ou comportamento, o que dificulta bastante a possibilidade de ajuda. Tem poucos amigos, é passivo, retraído, infeliz e sofre com a vergonha, medo, depressão e ansiedade. Normalmente, acredita ser merecedor dos maus-tratos sofridos.

    Quanto mais tempo a pessoa sofrer o bullying, maior será o seu comprometimento social, emocional e educacional, além de ter a ansiedade, a insegurança e o conceito negativo de si mesmo, aumentado.

    Lopes Neto (2005) coloca que apesar de não haver estudos precisos sobre métodos educativos familiares que incitem ao desenvolvimento de alvos de bullying, alguns deles são identificados como facilitadores: proteção excessiva, tratamento infantilizado, e o papel de bode expiatório da família.

    Na maioria das vezes, a vítima de bullying não conta a ninguém o que está sofrendo por medo da retaliação, por vergonha e ou por acreditar que a escola não lhe dará “ouvidos”. Seu silêncio só será rompido quando acreditar que será acolhida em seu sofrimento e, que seu problema será solucionado.

    Para identificar os alvos (vitimas) de bullying pode-se observar se os seguintes comportamentos estão sendo apresentados:

    – No recreio, isolam-se do grupo ou se aproximam de adultos que possam protegê-lo;

    – Em sala de aula se manifestam pouco, deixando claro suas inseguranças e ansiedades;

    – Faltas frequentes às aulas;

    – Mostram-se tristes ou aflitas;

    – Sempre são as últimas a serem escolhidas em jogos ou atividades coletivas;

    – Perdem suas coisas e se desinteressam por tarefas escolares;

    – Podem apresentar machucados;

    – Em casa se queixam de sintomas psicossomáticos como vômitos, dores de barrigas, entre outros, principalmente próximo ao horário de irem para a escola;

    – Frequentes mudanças de humor;

    – Possuem poucos amigos e a vida social é escassa;

    – Tentam presentear seus agressores, chegando às vezes a pedirem ou pegarem dinheiro dos pais para comprar algo ao agressor (SILVA, 2010).

    3.2. Autor de Bullying (agressor)

    O autor de bullying (agressor) normalmente é popular. Segundo pesquisas ele tende a envolver-se em uma variedade de comportamentos anti-sociais, podendo mostrar-se agressivo, inclusive com os adultos. Impulsivo, vê sua agressividade como qualidade, tem opiniões positivas sobre si mesmo, é geralmente mais forte que seu alvo, sente prazer e satisfação em dominar, controlar e causar danos e sofrimentos a outros. Além disso, podem existir em sua conduta, certos ganhos sociais e materiais como status, poder, reconhecimento, popularidade, entre outros.

    Em relação à escola, são menos satisfeitos com ela e com a família. São mais propensos ao absenteísmo e à evasão escolar e têm uma tendência maior para apresentarem comportamentos de risco (consumir tabaco, álcool ou outras drogas, portar armas, brigar, etc.) (LOPES NETO, 2005). 

    Apesar do desempenho escolar desses jovens costumarem ser regular ou deficitário, em nenhuma hipótese trata-se de uma deficiência intelectual ou de aprendizagem. Na verdade, apresentam desde muito cedo, aversão às normas, envolvimentos em pequenos delitos e, não aceitam ser frustrados ou contrariados (SILVA, 2010).

    O autor de bullying pode manter um grupo em torno de si, que atua como auxiliar em suas agressões ou é indicado para agredir o alvo. Assim, o autor dilui a responsabilidade por todos ou a transfere para os seus liderados. Esses alunos, identificados como assistentes ou seguidores, raramente tomam a iniciativa da agressão, são inseguros ou ansiosos e se subordinam à liderança do autor para se proteger ou pelo prazer de pertencer ao grupo dominante (LOPES NETO, 2005).

    De acordo com Silva (2010) o que lhes falta de forma evidente é a capacidade de sentir afeto pelo outro, de forma total ou parcial. Esta característica de personalidade pode se originar de lares desestruturados ou da própria personalidade do jovem, podendo ser observado desde os quatro ou cinco anos de idade em comportamentos que envolvem maus tratos a irmãos, amigos, animais de estimação ou outras pessoas de seu convívio.

    Lopes Neto (2005) também entende que algumas condições familiares podem contribuir ou favorecer o desenvolvimento da agressividade nas crianças. Geralmente, o que se identifica são a desestruturação familiar, o relacionamento afetivo pobre, o excesso de tolerância ou de permissividade e a prática de maus-tratos físicos ou explosões emocionais como forma de afirmação de poder dos pais. Vale lembrar que fatores individuais, de personalidade, também interferem na produção e manifestação da agressividade. São eles: hiperatividade, impulsividade, distúrbios comportamentais, dificuldades de atenção, baixa inteligência e desempenho escolar deficiente.

    Os comportamentos citados abaixo podem indicar os autores (agressor) de bullying:

    – Provocam os outros com brincadeiras de mau gosto e gozações;

    – Apelidam de forma maldosa determinados colegas;

    – Insultam, ameaçam e constrangem certos colegas;

    – Ameaçam e dão ordens a seus pares;

    – Perturbam ou intimidam usando de força física;

    – Envolvem-se de forma direta ou indireta em discussões e conflitos;

    – Pegam coisas de colegas sem permissão ou sob coação;

    – Mostram autoridade de forma hostil sob os parentes;

    – Não respeitam hierarquias familiares;

    – Manipulam e mentem para se safarem de situações conflitivas em casa;

    – Aparecem com objetos que não possuem dinheiro para comprarem sem justificarem a origem;

    – Contestam e não reconhecem todas as informações recebidas de seus parentes a respeito de seus maus comportamentos (SILVA, 2010).

    3.3 Testemunha de Bullying

    As testemunhas de bullying são alunos que não se envolvem diretamente em atos de bullying e normalmente se calam por medo de serem alvos, por não saberem como agir e por não acreditarem que a escola possa ajudar. Em sua maioria, eles condenam o comportamento dos agressores, sentem simpatia pelas vítimas e, desejam que a escola intervenha com mais efetividade. Eles não aprovam o ato de bullying.

    A forma como reagem ao bullying permite classificá-los em quatro categorias: a) auxiliares, que participam ativamente das agressões; b) incentivadores, que estimulam e provocam o autor de bullying; c) observadores, que só observam ou que se afastam; d) defensores, que protegem o alvo ou solicitam ajuda de um adulto para cessar a agressão (LOPES NETO, 2005).

    Segundo Silva, (2010), as testemunhas de bullying não costumam ter um comportamento tão marcante. Sua identificação depende de observação mais cuidadosa e frequente da escola.

    3.4 Alvo/autor de bullying

    Nos estudos realizados por Lopes Neto (2005), 20% dos autores de bullying, também sofrem este fenômeno, recebendo esta denominação. Normalmente, são alunos com alterações psicológicas mais importantes, das quais, da combinação de agressividade e de baixa auto-estima, podem apresentar comportamentos depressivos, inseguros e inoportunos, tentando humilhar colegas a fim de encobrir suas dificuldades e limitações. Estes se diferenciam dos agressores típicos porque além de não serem populares, são rejeitados pela maioria dos colegas. É comum encontrar neste grupo sintomas depressivos, pensamentos suicidas, e distúrbios psiquiátricos.

    4. CAUSAS PSICOSSOCIAIS DO FENÔMENO BULLYING

    Conforme estudos de especialistas, as causas desse tipo de comportamento abusivo são inúmeras e variadas. A maioria dos textos encontrados traz como causas do bullying aspectos sociais, econômicos, culturais, psicológicos e familiares, porém neste artigo será dado enfoque apenas nos aspectos psicossociais.  Entende-se por psicossociais as questões que envolvem os aspectos psicológicos e sociais do indivíduo, uma vez que o bullying se dá na interação da relação de duas ou mais pessoas e, sempre em ambientes sociais (aqui veremos apenas o escolar). Optou-se por trazer esses aspectos na forma descritiva.

    Citando o texto escrito por Antunes e Zuin (2008) os autores se referem a Lopes Neto (2005) que traz como causas do fenômeno bullying fatores sociais e os relacionados a temperamentos da pessoa, às influências familiares, de colegas, da escola e da comunidade. Além disso, temos ainda as relações de desigualdade e de poder, vistas como naturais por Smith (2002); a relação negativa com os pais e um clima emocional frio em casa, e às relações de poder existentes no ambiente escolar (Yoneyama & Naito, 2003).

    Cléo Fante (2010), em suas pesquisas, cita que para especialistas, as causas do bullying são inúmeras e, se devem à carência afetiva, à ausência de limites e ao modo de afirmação de poder e de autoridade dos pais sobre os filhos através de maus tratos físicos e explosões emocionais violentas. Constata que 80% daqueles classificados como “agressores”, atribuíram como causa principal do seu comportamento, a necessidade de reproduzir contra outros os maus-tratos sofridos em casa ou na escola. Devido a esse dado importante, a autora se motivou em pesquisas e estudos, que a possibilitou identificar a existência de uma doença psicossocial expansiva, desencadeadora de um conjunto de sinais e sintomas denominados SMAR – Síndrome de Maus-tratos Repetitivos.

    As características do portador dessa síndrome são: necessidade de dominar, de subjugar e de impor sua autoridade sobre outrem, mediante coação; necessidade de aceitação e de pertencimento a um grupo; de auto-afirmação, de chamar a atenção para si; inabilidade de expressar seus sentimentos mais íntimos, de se colocar no lugar do outro e de perceber suas dores e sentimentos.

    Os sintomas são: irritabilidade, agressividade, impulsividade, intolerância, tensão, explosões emocionais, raiva reprimida, depressão, stress, sintomas psicossomáticos, alteração do humor, pensamentos suicidas. É oriunda do modelo educativo predominante introjetado pela criança na primeira infância. Sendo repetidamente exposta a estímulos agressivos, aversivos ao seu psiquismo, a criança os introjeta inconscientemente ao seu repertório comportamental e transforma-se posteriormente em uma dinâmica psíquica “mandante” de suas ações e reações. Dessa forma, se tornará predisposta a reproduzir a agressividade sofrida ou a reprimi-la, comprometendo, assim, seu processo de desenvolvimento social. (FANTE, 2010).

    Lisboa, Braga e Ebert (2009), após vasta leitura de diversos autores sobre o fenômeno bullying, escrevem que um dos motivos para a prática do bullying pode estar na própria dinâmica do grupo, ou seja, mesmo não havendo regras escritas no grupo, este possui uma exigência de homogeneidade que é instituída a princípio entre seus membros. Estas exigências obedecem a um conjunto de normas e regras preestabelecidas de consenso geral que dizem respeito a atitudes, comportamentos, aspectos físicos, entre outros, dos quais, quem não faz parte, não pode então ser aceito, nem mesmo descaracterizar este grupo em questão. Pessoas com características semelhantes podem estar formando outros grupos os quais interagem entre si. Porém, isso pode aumentar ou diminuir a possibilidade de uma criança fazer amizades e de adaptar-se aos contextos sociais de forma saudável.

    Conforme estes grupos vão se estabelecendo, a violência passa a ser reforçada e legitimada intragrupo. Isso pode favorecer a aprendizagem de comportamentos agressivos porque a criança significa e internaliza crenças sobre relações sociais e modelos através da aprendizagem da observação de comportamentos e atitudes de outras pessoas. Será a partir desse modelo que a criança vai nutrir sua auto-estima e formar seu autoconceito. Os maus tratos dirigidos a outras crianças podem ainda ser compartilhados entre o grupo.

    Outra hipótese que estes autores trazem em seu texto acerca da motivação da prática de bullying, é que algumas crianças podem ter mais dificuldade para se adaptarem às características e às normas dos grupos e das instituições nas quais estão inseridas. Os acontecimentos diários e as experiências individuais e grupais são entendidas e sentidas de formas diferentes pelas crianças. Assim, um ambiente pode ser excelente para algumas e péssimo para outras. Essas características individuais podem contribuir também para que ocorram as agressões. Esta interação de características individuais, a influência familiar e os movimentos dentro dos grupos de pares, podem levar crianças e jovens a se tornarem agressores ou vítimas.

    Segundo Lopes Neto (2005), dentre os aspectos psicossociais pode-se destacar os aspectos inatos e de temperamento e, as influências familiares, de amigos, da escola e da comunidade. Alguns aspectos familiares podem favorecer o desenvolvimento de alvos de bullying como, por exemplo, a proteção excessiva, que gera dificuldades para a criança aprender a enfrentar os desafios e se defender. Há também o tratamento infantilizado, que pode causar um desenvolvimento psíquico e emocional na criança aquém do aceito pelo grupo e, o papel de “bode expiatório” da família, que faz com que a criança sofra críticas sistemáticas e seja responsabilizada pelas frustrações dos pais.

    Para os autores de bullying, Lopes Neto (2005) acredita que a causa seja algumas condições familiares adversas que favorecem o desenvolvimento da agressividade na criança. Dentre essas condições ele aponta a desestrutura familiar, o relacionamento afetivo pobre, o excesso de tolerância ou de permissividade e a prática de maus-tratos físicos ou explosões emocionais como forma de poder dos pais sobre os filhos. Cita ainda que fatores individuais também estejam presentes como: hiperatividade, impulsividade, distúrbios comportamentais, dificuldades de atenção, baixa inteligência e desempenho escolar deficiente.

    Silva (2010) tem pensamentos bem próximos dos de Lopes Neto. A autora coloca que a questão da violência sempre foi algo que preocupou a sociedade e, que 100% das escolas enfrentam situações de bullying. Em seu livro, não se detém tanto nas causas, mas principalmente nas consequências psicológicas do bullying, na maneira de identificar e de prevenir tal fenômeno.

    Ainda assim, cita que cabe à sociedade transmitir para as novas gerações valores e modelos educacionais nos quais eles possam pautar suas caminhadas rumo à vida adulta de cidadão ético e responsável. Porém, como vivemos numa época em que o ritmo das informações se dá de forma muito acelerada, há uma facilidade para que as informações se tornem ultrapassadas. Isso gera crise nos valores sociais, culturais e emocionais e, deixa os jovens sem uma base sólida e segura da qual possam se estruturar gradualmente e, modificar suas próprias referências.

    Silva (2010) cita também a permissividade dos pais em relação à educação dos filhos, contribuindo para a criação de jovens egocêntricos, sem limites, inseguros e despreparados para enfrentar os obstáculos da vida. Muitos não se preocupam com regras sociais, nem percebem a importância delas no convívio coletivo e tampouco se preocupam com as consequências de seus atos e no estrago que podem fazer nas outras pessoas.

    A mesma autora finaliza apontando para o poder da influência dos amigos e grupos e, para a agressividade na juventude que pode ou não ser transitória.

    Nos artigos de Mello, Gazzola e Justi (2006) e no artigo de Francisco e Libório (2009), não aparecem citações sobre possíveis causas do fenômeno bullying, apenas apontam resumidamente para as consequências, as quais serão explanadas no próximo item.

    Para Carvalho (2005), as causas psicossociais do bullying estão relacionadas às características do aluno (personalidade) e, ao fenômeno coletivo e escolar da indisciplina. Para esta autora, as questões familiares estão fora da esfera das causas do bullying, sendo este um fenômeno bem antigo. Esta autora trata o bullying como parte dos comportamentos de indisciplina escolar.

    Calbo (2009) não aprofunda em seu artigo causas e consequências do fenômeno bullying. Apenas aponta que o que pode incitar tal prática é o fato das características diferentes da maioria do grupo, serem vistas e sentidas pelas crianças como algo negativo e, a condição da própria faixa etária (nove aos 15 anos) na qual há uma disputa natural pelo poder. Aponta ainda em sua pesquisa que o pico de idade entre as vítimas é de sete a nove anos e, entre os agressores de dez a doze anos. Isso talvez ajude a explicar o que a autora entende como causa do bullying.

    Almeida, Cardoso e Costac (2009) abordam em seu texto as estratégias de combate do bullying no ambiente escolar. Apontam como causas do fenômeno comportamentos discriminatórios devido às diferenças sócio-econômicas familiares, raça, cor, aparência física e deficiências físicas e ou intelectual.                   

    5. CONSEQÜÊNCIAS PSICOLÓGICAS DO FENÔMENO BULLYING

    As consequências desse fenômeno são graves e abrangentes para todos os envolvidos. Estas ideias são unanimes entre todos os estudiosos do fenômeno bullying.

    Segundo Cléo Fante (2010) este fenômeno pode causar “traumas” ao psiquismo de suas vitimas e envolvidos.

    Para as “vítimas” podemos verificar que no âmbito escolar, por exemplo, esse fenômeno pode causar o desinteresse pela escola, o déficit de concentração e aprendizagem, a queda do rendimento, o absentismo e a evasão escolar. No âmbito da saúde física e emocional, a baixa na resistência imunológica e na auto-estima, o stress, os sintomas psicossomáticos, transtornos psicológicos, a depressão e na pior das hipóteses, o suicídio.

    Para os agressores, ocorre a supervalorização da violência como forma de obtenção de poder, o desenvolvimento de habilidades para futuras condutas delituosas, além da projeção de condutas violentas na vida adulta.           

    Para os espectadores ocorre a insegurança, a ansiedade, o medo e o estresse, comprometendo o seu desenvolvimento sócio-educacional.       

    No texto de Mello, Gazzola e Justi (2006), podem ser encontradas as mesmas citações descritas acima, pois os autores compartilham dos escritos e estudos de Cléo Fante.

    Lisboa, Braga e Ebert (2009), salientam através de leituras de estudiosos do tema que as crianças envolvidas no bullying que não forem tratadas adequadamente podem tornar-se delinquentes, assassinos e agressores. Que as marcas psicológicas deixadas pelas vivências em experiências de bullying podem ser determinantes para o estabelecimento de uma baixa auto-eficácia e constituição da personalidade, por terem o seu desenvolvimento influenciado de forma negativa.

    Francisco e Libório (2009), citando Tognetta (2005), apontam que agressores e vítimas sofrem consequências psicológicas, visto que os primeiros sofrem grave deterioração de sua escala de valores e, portanto, de seu desenvolvimento afetivo e moral. Já as vítimas, sofrem uma deterioração de sua auto-estima e, do conceito que têm de si mesmos.

    Antunes e Zuin (2008) somente citam que as consequências do bullying são principalmente os problemas psicológicos e de adaptação.

    Lopes Neto (2005) acredita que o tempo e a regularidade das agressões, contribuem para que os efeitos se agravem. Coloca que nos alvos de bullying o medo, a tensão e a preocupação com sua imagem podem acabar por comprometer o desenvolvimento escolar, além de aumentar a ansiedade, insegurança e o conceito negativo de si mesmo. Por medo, pode vir a evitar a escola e o convívio social. As atitudes de autodestruição, vingança, reações violentas e intenções suicidas são raras.

    Aponta que pessoas que sofrem bullying quando crianças são mais propensas a sofrerem depressão e baixa auto-estima quando adultos. Igualmente, quanto mais nova for a criança com atitudes agressivas, mais propensa a apresentar na vida adulta comportamentos anti-sociais, instabilidade no trabalho e relacionamentos afetivos pouco duradouros.

    O simples fato de ter presenciado bullying já é suficiente para causar comprometimentos sociais e escolares. A família também sofre consequências psicológicas do bullying como sentimentos de culpa e a incapacidade por não conseguirem impedir tal fenômeno contra seus filhos. Podem sentir descrença, indiferença, ira ou inconformismo, depressão, queda do rendimento no trabalho e nas relações pessoais.

    Lopes Neto (2005) coloca que ainda existem dúvidas se os danos à saúde precedem o bullying ou se estes são atos que afetam a saúde dos alvos. O estresse causado pela vitimização poderia levar a patologias psicológicas, porém, sabe-se que as características de depressão ou ansiedade podem mobilizar no outro, a ação de bullying.

    Em resposta a essa observação de Lopes Neto escrita em 2005, Silva (2010) acredita que além dos agressores escolherem uma vítima em desigualdade de poder, geralmente este já possui uma baixa auto-estima. Dessa forma seu problema pré-existente se agrava, e pode acabar por abrir quadros mais graves de transtornos psíquicos e\ou comportamentais, trazendo prejuízos irreversíveis.

    Os problemas mais comuns que Silva (2010) encontra na sua prática clínica são:

    – Sintomas Psicossomáticos;

    – Transtorno do Pânico;

    – Fobia Escolar;          

    – Fobia Social (Transtorno de ansiedade social);

    – Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG);

    – Depressão;

    – Anorexia e Bulimia;

    – Transtorno Obssessivo-Compulsivo (TOC);

    – Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT);

    – Esquizofrenia;

    – Suicídio e homicídio.

    Calbo (2009) citando Constantini, (2004) entende que como consequência o bullying pode trazer diminuição da auto-estima, prejuízo no desempenho escolar e nas relações sociais, surgimento de psicopatologias como depressão, fobia social e tentativa de suicídio, manifestação de transtorno de conduta na adolescência, transtorno de personalidade anti-social na vida adulta e intenções homicidas para os que se caracterizam como algozes.

    Almeida, Cardoso e Costac (2009) também citando autores como Lopes Neto, Azzi e Teixeira somente colocam que a presença do bullying pode acarretar prejuízos físicos, psicológicos e sociais, para todos os envolvidos podendo ser percebidos logo no início do bullying, e perdurar até a vida adulta da pessoa.

    Esta forma de violência é de difícil identificação por parte dos familiares e da escola, uma vez que a “vítima” teme denunciar os seus agressores, por medo de sofrer represálias e por vergonha de admitir que esteja apanhando ou passando por situações humilhantes na escola ou, ainda, por acreditar que não lhe darão o devido crédito. Sua denúncia ecoaria como uma confissão de fraqueza ou impotência de defesa. Os “agressores” se valem da “lei do silêncio” e do terror que impõem às suas “vítimas”, bem como do receio dos “espectadores”, que temem se transformarem na “próxima vítima”.

    6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Em relação aos textos e livros consultados, pode-se verificar que nem todos os autores abordam e tratam das causas e consequências do fenômeno bullying da mesma forma. Como no Brasil os precursores do fenômeno foram Lopes Neto e Cléo Fante (2010), os textos acabam por citar os resultados de suas pesquisas a respeito de assunto, bem como de outras informações obtidas por pesquisadores de outros países.

    Em sua maioria, encontram-se como causas psicossociais do fenômeno bullying, um conjunto de fatores associados à personalidade, estrutura familiar e, vivências pessoais nas relações sociais, afetivas e familiares de cada um.

    O agressor, além de apresentar uma dinâmica psíquica mais agressiva e comportamento de liderança e popularidade entre os demais colegas, teme ou nega possuir características que não são as mais comuns entre a sociedade. Seu mecanismo de defesa frente a tal angústia nada mais é do que refutar, negar, colocar para bem longe de si “o que não lhe pertence” ou o que “não aceita em si”. Desse modo, esta criança ou adolescente precisa encontrar um “bode expiatório” para depositar sua angústia e suas características não aceitas. Neste momento entra em cena a vítima do bullying.

    A vítima normalmente possui características de comprometimento com sua auto-estima e auto-imagem, além de dificuldades para impedir ou romper ações agressivas e invasivas de colegas. Seu desenvolvimento psíquico está comprometido e, acaba por se tornar alvo fácil e peça “perfeita” para as ações dos agressores.

    Conforme citado acima, Lopes Neto (2005) faz um alerta de que ainda existem dúvidas se os danos à saúde precedem o bullying ou se estes são atos que afetam a saúde dos alvos; que o estresse causado pela vitimização poderia levar a patologias psicológicas, porém, que as características de depressão ou ansiedade podem mobilizar no outro, a ação de bullying.

    Diante dessa citação e de outros textos estudados e pesquisados, pode-se pensar que uma questão não anula a outra, ou seja, que podem existir casos de pessoas que já possuem comprometimentos psicológicos e sociais e, que em função disso acabam por se tornar alvos fáceis no ingresso da dinâmica do bullying. Em contrapartida, participar desse fenômeno de violência também pode deixar marcas no psiquismo e no desenvolvimento social que poderão nunca ser sanados ou elaborados. Além disso, podem ocorrer as duas coisas; existir inicialmente um comprometimento da saúde psíquica e, ao vivenciar o bullying, este provocar danos à saúde.

    Pode-se pensar ainda que na dinâmica do bullying ambas as partes, agressor e vítima, sofrem de uma fragilidade e comprometimento psicológico. Ambos possuem identificações parentais comprometidas, auto-imagem distorcidas, dificuldades em estabelecer relacionamentos adequados e saudáveis e, portanto, apresentam um sofrimento emocional e social, porém de formas distintas. O que os torna diferentes é a forma de manifestar suas dificuldades.

    Enquanto o agressor possui características agressivas e narcísicas, já que não consegue aceitar e respeitar o que é diferente de si mesmo, a vítima, possui características depressivas, e dificuldade em se defender. Dessa forma sempre haverá uma parte com características psicológica passiva e negativa a respeito de si mesmo (vítima) e, outra parte com características psicológicas ativa, agressiva e negativa a respeito de si mesmo também (agressor).

    Sendo assim, as crianças e os jovens que se encontram entrelaçados da dinâmica do bullying tanto como alvo, agressor ou testemunha, certamente experimentarão prejuízos emocionais e cognitivos numa escala própria de valores. Estes prejuízos poderão ser mais suaves e menos comprometedores para o resto de suas vidas ou, acompanhá-los eternamente.

    Ficam claras então as consequências que este fenômeno comportamental provoca porque ele atinge a área mais preciosa, íntima e inviolável do ser, o seu self. Envolve e vitimiza a criança, na tenra idade escolar, tornando-a refém de ansiedade e de emoções, que interferem negativamente nos seus processos de aprendizagem devido à excessiva mobilização de emoções de medo, de angústia e de raiva reprimida. A forte carga emocional traumática da experiência vivenciada, registrada em seus arquivos de memória, poderá aprisionar sua mente a construções inconscientes de cadeias de pensamentos desorganizados, que interferirão no desenvolvimento da sua auto-percepção e auto-estima, comprometendo sua capacidade de auto-superação na vida.

    Conforme já mencionado, dependendo do grau de sofrimento vivido pela criança, ela poderá fazer construções inconscientes de pensamentos de vingança e de suicídio, ou manifestar determinados tipos de comportamentos agressivos ou violentos, prejudicial a si mesma e à sociedade, isto se não houver intervenção diagnóstica, preventiva e psicoterápica, além de esforços interdisciplinares conjugados, por toda a comunidade escolar.

    O bullying é um fenômeno social e psicológico que envolve todos à sua volta, de forma direta ou indireta.  Escola, família, comunidade, crianças e adolescentes, todos precisam saber do que se trata e criarem estratégias de combate ao fenômeno, uma vez como já mencionado, não são só as crianças que sofrem as famílias e as escolas também.

    Segundo estudos, as estratégias de maior eficácia são as que se atentam para a “conscientização dos profissionais e dos pais quanto à existência do problema; treinamento de professores em como agir diante dessa situação; e a instalação de repertório socialmente habilidoso tanto na criança quanto nos adultos que o cercam” (Almeida, Cardoso & Costac 2009).

    Inserir o professor tanto na avaliação quanto na intervenção tem sido fator crucial na resolução do problema na escola. Outro fator importante é o conhecimento dos educadores quanto à presença do fenômeno na escola, pois assim, eles podem fazer um diagnóstico precoce e planejar uma intervenção com mais recursos e tempo.

    Segundo a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (2008), a intervenção deve se basear na conscientização dos profissionais de educação a respeito do problema, das causas e consequências; treino de habilidades sociais e resolução de problema; treino de comportamentos incompatíveis ao da agressividade; estímulo para a criação de regras entre grupos, bem como a solução e a modificação do ambiente que aumente os comportamentos agressivos.

    Finalmente, é importante também que a escola estimule a participação e a integração da família na resolução do problema. A participação dos pais em palestras, reuniões e debates ajuda a estimular o nascimento e o desenvolvimento de atitudes assertivas, como respeito, tolerância e outros mais, denunciando ou estimulando seus filhos a denunciarem o ocorrido à escola. Orientar os pais de forma mais específica também tem surtido bons resultados, além do compromisso em prestar apoio psicológico e pedagógico aos envolvidos ou encaminhá-los para serviços externos específicos quando necessário.

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