O PAPEL DO MÉDICO DA FAMÍLIA NO DIAGNÓSTICO E MANEJO DA DEPRESSÃO EM IDOSOS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202510211930


Lorenna Ingryd Falcão Gomes, Helton Vitor Rigotti, Nicole da Cruz Pacó, Elizângela Almeida Andrade, Lenilda Gomes de Sá, Amanda Marques dos Santos, Thiago da Silva Lima, Maria Geovanna Barroso Sá, Danielly Fernanda Aires Gouveia, Orientadora: Dra.Francielle Alba Moraes


RESUMO

A depressão em idosos é um desafio crescente na saúde pública e um dos principais fatores que comprometem o envelhecimento saudável, afetando a autonomia, a funcionalidade e o bem-estar emocional dessa população. Este estudo teve como objetivo analisar o papel do médico de família no diagnóstico, tratamento e acompanhamento da depressão em idosos na Atenção Primária à Saúde (APS). Foi realizada uma revisão integrativa da literatura, com abordagem qualitativa e descritiva. As bases de dados utilizadas foram PubMed, SciELO e LILACS, abrangendo publicações entre os anos de 2020 e 2025. Foram incluídos estudos que discutiram a prática clínica, o manejo interdisciplinar e as estratégias de cuidado voltadas à saúde mental do idoso. Os resultados mostraram prevalência de sintomas depressivos variando entre 23,3% e 63,1%, associados à fragilidade, multimorbidade, polifarmácia, baixa escolaridade e vulnerabilidade social. Evidenciou-se que o médico de família deve desempenhar papel central na coordenação do cuidado, utilizando instrumentos de rastreamento, como a Geriatric Depression Scale (GDS), e estratégias humanizadas de acompanhamento longitudinal. O fortalecimento da Atenção Primária à Saúde, por meio da capacitação contínua, da integração com os serviços de saúde mental e de uma abordagem integral centrada na pessoa, é essencial para o diagnóstico precoce, o manejo eficaz e a promoção de um envelhecimento digno, feliz e saudável.

Palavras-chave: Depressão em idosos. Médico de família. Atenção Primária à Saúde. Tratamento farmacológico. Envelhecimento. Saúde mental.

ABSTRACT

Depression in the elderly is an increasing challenge in public health and one of the leading factors degrading healthy aging, compromising the autonomy, functionality, and emotional wellbeing of this population. This study aimed to analyze the role of the family physician in the diagnosis, treatment, and monitoring of depression in the elderly in Primary Health Care 215. An integrative review of the literature was performed, with qualitative and descriptive approaches. The databases used were PubMed, SciELO, and LILACS. The searches were conducted for papers released between 2020 and 2025. Studies that discussed the clinical practice, interdisciplinary management, and care strategies for the mental health of the elderly were included. The results showed that depressive symptoms ranged from 23.3 to 63.1%. They were associated with frailty, multimorbidity, polypharmacy, low schooling, and social vulnerability. It was evidenced that the family physician must play a central role in the coordination of care through screening instruments such as the Geriatric Depression Scale  followed by the  and in the follow-up through humanized strategies designed in a longitudinal approach. Strengthening Primary Health Care (PHC) through continued training, integration of mental health services, and the comprehensive approach to provide quality care is essential for early diagnosis, effective management, and promotion of dignified, happy, and healthy aging.             

Keywords: Depression in the elderly. Family physician. Primary Health Care pharmacological treatment. Aging. Mental health.  

INTRODUÇÃO

A depressão entre os idosos é uma condição comum e complexa, tendo um efeito significativo na qualidade de vida dessa faixa etária. O diagnóstico é complicado por desafios específicos, devido à complexidade clínica que geralmente acompanha a velhice e à presença de outras doenças, que podem encobrir ou agravar os sinais de depressão. Além disso, fatores como o estigma em relação à saúde mental, as diferenças na maneira como os sintomas se manifestam e as deficiências cognitivas frequentes entre os idosos dificultam a detecção precoce da doença. (GARATE et al., 2024)

Na atenção primária, identificar sintomas depressivos em pacientes idosos é um desafio para o diagnóstico e tratamento adequado, evidenciando a falta de preparo dos profissionais de saúde ao lidar com esse grupo. (QUEIROZ et al.,2024) A Atenção Primária à Saúde (APS) é fundamental para a detecção precoce e o manejo eficiente da depressão em idosos, oferecendo cuidados constantes e integrados. Entretanto, a eficácia da APS é afetada por desafios, como a ausência de padronização nos procedimentos de triagem e a necessidade de formação contínua para os profissionais de saúde.  (Nóbrega et al., 2025).  

A cooperação entre as equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) é essencial para garantir uma abordagem interdisciplinar e contínua, que vá além da prescrição de medicamentos e fomente o bem-estar biopsicossocial dos idosos. Entretanto, ainda há obstáculos a serem superados para fortalecer essa rede de apoio e implementar ações de promoção e prevenção em saúde mental nas rotinas dos serviços. É fundamental destacar a importância de fortalecer o papel do médico de família como figura central na identificação e acompanhamento da depressão entre os idosos. (Souza et al., 2022)

Nesse contexto, é essencial compreender de que maneira o médico de família, atuando como coordenador do cuidado na Atenção Primária à Saúde, pode contribuir para o reconhecimento precoce, tratamento apropriado e acompanhamento constante da depressão em idosos. Apesar de essa condição ser bastante comum e causar efeitos funcionais e sociais significativos, ainda existem poucos estudos que analisam especificamente o papel do médico de família nesse cenário, especialmente no Brasil. Assim, este estudo tem como objetivo investigar o papel do médico de família no diagnóstico, tratamento e acompanhamento da depressão em idosos na Atenção Primária à Saúde. Para tanto, será conduzida uma revisão integrativa, destacando os obstáculos e as possibilidades dessa prática clínica no cuidado ao idoso.

METODOLOGIA

Este estudo consiste em uma revisão integrativa da literatura, destinada a promover uma análise rigorosa e juntar várias abordagens metodológicas, com o intuito de resumir o conhecimento já disponível sobre o assunto. O processo de pesquisa seguiu as seis etapas delineadas por Souza, Silva e Carvalho (2010), que são: formulação da pergunta de pesquisa, identificação das fontes na literatura, coleta de dados, avaliação crítica dos estudos selecionados, interpretação dos resultados e apresentação da síntese integrativa.

A pergunta central que orientou esta revisão foi: “Qual é o papel do médico de família no diagnóstico e tratamento da depressão em idosos na Atenção Primária à Saúde?” A busca por literatura foi feita nas bases de dados PubMed, SciELO e LILACS, utilizando os seguintes termos e suas combinações na SciELO e LILACS: (Idoso OU idosos OU “terceira idade”) E (depressão OU “transtorno depressivo”) E (médico OU “atenção primária” OU “médico de família”) e em PubMed: (Aged OR Elderly OR “Older Adults”) AND (Depression OR “Depressive Disorder”) AND (“Primary Health Care” OR “Family Physician” OR Physician OR “General Practitioner”)

Para a escolha dos artigos que constituíram a amostra do estudo, foram selecionados aqueles publicados entre 2020 e 2025 que abordavam a atuação do médico de família no diagnóstico, tratamento ou acompanhamento da depressão em idosos no contexto da atenção primária.

Não houve limitações de idioma durante a pesquisa.

Os artigos que estavam duplicados nas bases de dados foram removidos. Após a leitura dos títulos e resumos, os estudos que se adequaram aos critérios de inclusão foram analisados na íntegra, formando a amostra final da revisão.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
1. Caracterização dos estudos e instrumentos empregados na APS       

Os 11 estudos concentram-se majoritariamente na Atenção Primária à Saúde (APS) e na Estratégia Saúde da Família (ESF), com delineamentos observacionais, de corte transversal, e um estudo quase-experimental que avaliou um pacote interventivo multidimensional em idosos acompanhados pela APS. A Geriatric Depression Scale (GDS, versões 15 e 30 itens) foi o instrumento de triagem mais utilizado para identificar sintomas depressivos, associada a questionários de perfil sociodemográfico, multimorbidades e uso de medicamentos; alguns trabalhos incorporaram avaliação de funcionalidade (p.ex., Katz) e de mobilidade (p.ex., TUG), úteis para o raciocínio clínico do médico de família (MF) ao planejar condutas e seguimento domiciliar por agentes comunitários de saúde (Marcelino et al., 2022; Antunes et al., 2023).

Em três contextos distintos houve abrangência amostral e cenários complementares:

(i) uma amostra municipal ampla no Noroeste do Paraná (12 UBS, n≈654), reforçando a utilidade de variáveis de consulta rápida (autoavaliação de saúde, quedas, polifarmácia) no rastreio (Oliveira et al., 2022); (ii) uma amostra rural sob ESF em Campo Grande/MS (n=249), destacando diferenças logísticas e de acesso às ações psicossociais (Torres et al., 2024); e (iii) amostra no Distrito Federal (n=70), sublinhando a necessidade de equipe multiprofissional e ajustes na oferta local de cuidados em saúde mental (Ferreira et al., 2021).  Em estudos que lidaram com queixa de memória ou suspeita de declínio, foi comum o uso do MEEM para triagem cognitiva na APS, pois a depressão pode cursar com déficits cognitivos reversíveis (pseudodemência) e confundir o diagnóstico com demência; nesses cenários, o MF tem papel de primeiro contato e organizador da investigação mínima e dos encaminhamentos necessários (Cardoso et al., 2020).

2. Prevalência de sintomas depressivos na APS e no território

Figura 1 – Prevalência de sintomas depressivos em idosos por região/contexto

Fonte: Torres et al. (2024); Ferreira et al. (2021); Marcelino et al. (2022); Aragão et al. (2023); Nakamura et al. (2021).

A prevalência de sintomas depressivos em idosos na APS variou de 23,3% a 63,1%, refletindo diferenças territoriais, metodológicas e de vulnerabilidade social. Em áreas rurais de Campo Grande/MS, a prevalência foi 23,29% com associação a variáveis de estilo de vida e condições de saúde autorreferidas (Torres et al., 2024).

No Distrito Federal, encontrou-se 41,4% de sintomas, com maior concentração em mulheres entre 70–79 anos e associação a escolaridade, renda e condições clínicas musculoesqueléticas (Ferreira et al., 2021).  

Em um município do Nordeste, a prevalência chegou a 63,1% (2019–2020), mostrando o peso de multimorbidades e polifarmácia no território e sugerindo subdiagnóstico prévio na rede (Marcelino et al., 2022). 

Fora do escopo estrito da APS, mas relevante para a linha de cuidado, um serviço de cirurgia vascular registrou 60,6% de depressão entre internados, sinalizando forte repercussão funcional e a necessidade de contrarreferência estruturada à APS após a alta (Aragão et al., 2023).

Em área urbana socioeconomicamente vulnerável (20 clínicas de APS), 30% apresentaram sintomatologia depressiva (PHQ-9≥10) e 14% subclínica (PHQ-9 5–9 com ao menos um sintoma nuclear), com associação a sexo feminino, piora socioeconômica e doenças crônicas, reforçando a prioridade da detecção na APS (Nakamura et al., 2021).

3. Fatores associados: determinantes sociais, multimorbidade e uso de medicamentos

Os estudos convergem para maior probabilidade de sintomas em mulheres, com baixa escolaridade e renda, e em indivíduos com multimorbidades e polifarmácia (Marcelino et al., 2022; Ferreira et al., 2021).

No Noroeste do Paraná, pior autoavaliação de saúde elevou a razão de prevalência (RP 1,73 para “regular” e 2,22 para “ruim”), enquanto não usar medicamentos, não ter caído e ausência de comorbidades associaram-se à ausência de indicativo depressivo — variáveis que o MF capta rapidamente na consulta (Oliveira et al., 2022).

Na amostra rural, a presença de sintomas esteve associada a atividade física, autoavaliação de saúde, uso de medicamentos, idade e estado civil, reforçando fatores modificáveis para intervenção comunitária e de promoção de saúde pela ESF (Torres et al., 2024).

Em regiões de alta vulnerabilidade, o sexo feminino, piores condições socioeconômicas e doenças crônicas aumentaram a chance de depressão e de quadro subclínico, ilustrando a utilidade de dados simplificados para estratificar risco e priorizar seguimento (Nakamura et al., 2021).

4. Fragilidade, funcionalidade e quedas como eixos clínicos para o MF

A fragilidade física apresentou relação consistente com depressão. Na UBS estudada, fadiga/exaustão (RP≈5,12) e redução do nível de atividade física (RP≈2,16) foram preditores independentes de sintomas depressivos; pré-fragilidade e fragilidade também se associaram aos sintomas, reforçando a avaliação do fenótipo (perda de peso, marcha, força de preensão) na rotina da APS (Barbiero et al., 2021).

No contexto hospitalar, em pacientes vasculares internados, além da alta prevalência, houve associação da depressão com dor crônica, claudicação, diabetes e amputação, além de pior capacidade funcional (Katz), o que aponta a necessidade de planos de reabilitação e seguimento coordenado na contrarreferência para a APS (Aragão et al., 2023).

Após o período de isolamento social da Covid-19, idosos praticantes de atividade física apresentaram melhores escores de vulnerabilidade (IVCF-20), mobilidade (TUG) e depressão (GDS-30) que os sedentários, sugerindo efeito protetor e terapêutico da ativação física como componente das intervenções do MF (Antunes et al., 2023).

5. Triagem e diagnóstico pelo médico de família

A GDS-15/GDS-30 mostrou-se adequada ao fluxo de APS, com ganho prático quando acoplada a perguntas-chave sobre quedas, polifarmácia e autopercepção de saúde; experiências locais relataram que a divulgação de resultados epidemiológicos levou à capacitação das equipes e ajuste da oferta de saúde mental (Marcelino et al., 2022; Ferreira et al., 2021).

Quando o idoso refere queixas de memória, atenção e lentificação, o MF deve considerar a possibilidade de pseudodemência depressiva — quadro frequentemente reversível com tratamento — e proceder à anamnese e exame neurológico, exclusão de causas orgânicas e, se necessário, triagem com MEEM e encaminhamento compartilhado com Neurologia e Psiquiatria (Cardoso et al., 2020).

Os domínios cognitivos mais acometidos (atenção, funções executivas e memória) podem confundir o MF; a reavaliação cognitiva após melhora do humor é recomendada, pois déficits persistentes elevam o risco de demência (Cardoso et al., 2020).

6. Intervenções e manejo coordenado na APS/ESF

No estudo quase-experimental em APS, intervenções multidimensionais (educação em saúde, suporte psicossocial, incentivo à atividade, entre outras) produziram melhora significativa em saúde mental, percepção geral e capacidade física (SF-36), além de queda da prevalência de depressão de 36,7% para 23,3% no grupo intervenção, mesmo sem significância estatística para o desfecho depressão — resultado compatível com o tempo de exposição e com a complexidade da população (Dantas et al., 2020).

Em revisão direcionada ao MF, recomenda-se prevenção primária e secundária, avaliação abrangente de fatores de risco/protetores (viuvez, incapacidade, crônicas), reconhecimento dos critérios diagnósticos e tratamento oportuno com psicoterapia/intervenções psicossociais, antidepressivos quando indicados e articulação interprofissional, refletindo o papel da APS na coordenação longitudinal (Ayala-Escudero et al., 2020).

Em territórios com restrição de recursos, a ESF é o cenário para estratégias viáveis e de baixo custo (grupos de educação, exercícios guiados, visitas domiciliares, revisão de polifarmácia), que dependem do vínculo e da coordenação clínica do MF para sustentação e impacto comunitário (Dantas et al., 2020; Antunes et al., 2023).

7. Subdiagnóstico, subtratamento e implicações para a prática

Em área urbana de alta vulnerabilidade, menos de 1/3 dos idosos com sintomatologia depressiva tinham diagnóstico prévio, e ≈16% faziam tratamento, sugerindo subdiagnóstico e subtratamento; os autores defendem estratégias na APS para elevar identificação e acesso ao cuidado, utilizando dados simples e ferramentas breves na linha de frente (Nakamura et al., 2021).

No Distrito Federal, reforçou-se a necessidade de rastreio precoce e tratamento preciso por equipe multiprofissional na APS, com o MF articulando fluxos de referência e contrarreferência (Ferreira et al., 2021). Em municípios com prevalências mais altas, a divulgação interna dos achados motivou capacitações e ampliação da oferta em saúde mental, exemplificando o papel da APS como produtora de informação e de resposta organizada (Marcelino et al., 2022).

8. Papel clínico do médico de família: do risco à conduta

Os resultados sustentam que o MF deve integrar triagem estruturada (GDS-15/30) à estratificação clínica e social (sexo feminino, escolaridade/renda, multimorbidades, quedas, polifarmácia), monitorar fragilidade (fenótipo físico, IVCF-20), capacidade funcional (Katz) e mobilidade (TUG), e prescrever/acompanhar atividade física como medida protetora e terapêutica (Oliveira et al., 2022; Barbiero et al., 2021; Antunes et al., 2023).

Diante de queixas cognitivas, maior gravidade clínica, risco suicida ou refratariedade inicial, o MF deve coordenar cuidado colaborativo com Saúde Mental e Neurologia, garantindo continuidade do cuidado e metas funcionais e de qualidade de vida para o idoso e sua família (Cardoso et al., 2020; Ayala-Escudero et al., 2020).

9. Discussão ampliada e implicações para a prática do médico de família

A heterogeneidade das prevalências observadas na APS — de 23,3% nas áreas rurais de Campo Grande/MS a 63,1% em município do Nordeste — sugere que determinantes territoriais, sociais e organizacionais modulam fortemente a expressão dos sintomas depressivos em idosos. Em contextos rurais, a associação com atividade física, autoavaliação de saúde e uso de medicamentos aponta alvos pragmáticos para o cuidado longitudinal da ESF (Torres et al., 2024).

Já em centros urbanos com maior vulnerabilidade socioeconômica, a sintomatologia depressiva e subclínica foi frequente e relacionada a sexo feminino, pior condição social e doenças crônicas, reforçando o papel da APS como primeiro ponto de contato para reduzir subdiagnóstico e subtratamento (Nakamura et al., 2021).

A estratificação de risco durante a consulta do médico de família (MF) desponta como eixo estruturante. Variáveis de alto rendimento clínico e baixo custo — queda recente, polifarmácia, autopercepção negativa de saúde e multimorbidades — mostraram associação consistente com a presença ou ausência de sintomas, o que legitima seu uso rotineiro para priorizar seguimento, definir metas e ajustar planos terapêuticos (Oliveira et al., 2022).

Em paralelo, a GDS-15/30 demonstrou aplicabilidade na APS, inclusive como gatilho para capacitação de equipes e reorganização de fluxos locais de saúde mental (Marcelino et al., 2022; Ferreira et al., 2021).

A inter-relação entre fragilidade e depressão reforça a necessidade de integrar avaliação geriátrica simples ao manejo em atenção primária. Marcadores como fadiga/exaustão e redução de atividade física foram preditores independentes de sintomas depressivos, oferecendo ao MF biomarcadores clínicos concretos para rastreio e decisão terapêutica; a identificação de pré-fragilidade/fragilidade deve desencadear intervenções de ativação física e reabilitação (Barbiero et al., 2021).

Nesse mesmo sentido, dados pós-pandemia indicaram que rotinas de exercício associam-se a melhores escores de vulnerabilidade (IVCF-20), mobilidade (TUG) e depressão (GDS), indicando caminho de baixa complexidade e alto impacto para a APS (Antunes et al., 2023).

A diferenciação entre depressão e declínio cognitivo é parte crucial da prática do MF, dada a frequência de déficits cognitivos reversíveis (“pseudodemência”) no quadro depressivo do idoso. História clínica minuciosa, exame neurológico dirigido, exclusão de causas orgânicas e, quando pertinente, MEEM são passos recomendados para orientar o manejo compartilhado com Neurologia e Psiquiatria, evitando investigações excessivas e atrasos terapêuticos (Cardoso et al., 2020).

A recomendação prática é reavaliar cognição após a melhora do humor, pois déficits persistentes elevam o risco de demência, demandando seguimento estruturado (Cardoso et al., 2020).

Quanto ao modelo de cuidado, o estudo quase-experimental brasileiro mostrou que intervenções multidimensionais coordenadas na APS — educação em saúde, suporte psicossocial e promoção de atividade — melhoraram domínios de saúde mental, percepção de saúde e capacidade física em idosos, com queda relevante da prevalência de depressão no grupo intervenção. Esses achados sustentam linhas de cuidado factíveis na ESF mesmo com restrição de recursos, desde que a equipe atue de modo colaborativo e com planos personalizados (Dantas et al., 2020).

Em coerência, recomenda-se que o MF adote prevenção primária e secundária da depressão, com ênfase em fatores de risco (viuvez, incapacidade, crônicas), critérios diagnósticos e tratamento oportuno (psicoterapia/intervenções psicossociais e antidepressivos quando indicados) (Ayala-Escudero et al., 2020).

A interface entre níveis de atenção merece atenção especial. Em ambientes de maior gravidade clínica — como o serviço de cirurgia vascular — a prevalência elevada de depressão e a associação com dor crônica, claudicação, diabetes, amputação e dependência funcional reforçam a necessidade de contrarreferência ativa à APS para continuidade do cuidado, reabilitação e prevenção de desfechos adversos (Aragão et al., 2023).

Em territórios de alta prevalência, a publicação de dados locais levou a capacitações e expansão de oferta especializada, ilustrando que monitoramento epidemiológico na APS pode induzir melhoria organizacional (Marcelino et al., 2022).

Por fim, os achados apontam prioridades operacionais para o MF: incorporar GDS-15/30 ao protocolo de risco; incluir marcadores de fragilidade e autopercepção de saúde no roteiro mínimo; revisar polifarmácia com foco em segurança; prescrever e acompanhar atividade física de forma adaptada; e articular cuidado colaborativo diante de queixas cognitivas, risco suicida, multimorbidades complexas ou refratariedade inicial (Ferreira et al., 2021; Barbiero et al., 2021; Antunes et al., 2023; Ayala-Escudero et al., 2020).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conclui-se que o diagnóstico precoce e o manejo adequado da depressão em idosos constituem estratégias fundamentais para mitigar os impactos negativos dessa condição sobre a saúde física, emocional e social da população idosa. A detecção antecipada permite não apenas um controle mais eficaz dos sintomas, mas também a adoção de intervenções menos invasivas e mais humanizadas, contribuindo para a preservação da autonomia, a melhoria da qualidade de vida e a redução das complicações associadas.

Os achados desta revisão integrativa reforçam a necessidade de abordagens centradas no paciente, pautadas em atuação multiprofissional, sensibilidade clínica aos sinais precoces e valorização do cuidado individualizado. O médico de família, inserido na Atenção Primária à Saúde, assume papel essencial nesse processo, atuando como mediador entre o idoso, sua família e a rede de apoio psicossocial.

Investir em medidas que favoreçam o reconhecimento precoce dos sintomas, ampliar o acesso a atendimentos especializados e fortalecer a capacitação das equipes de saúde são ações indispensáveis para um cuidado mais eficaz e compassivo. Assim, o fortalecimento da APS e a consolidação de práticas integradas e humanizadas representam caminhos promissores para enfrentar os desafios da depressão no envelhecimento e promover uma velhice mais digna e saudável.

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