GEOGRAPHIC TONGUE IN CHILDREN-CASE REPORT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202510170939
Maria Gracilene de Sousa Bezerra
Tainá Zeballos Galdino
Cristiane Menezes Assis
Orientador: Rodrigo Jacon Jacob
RESUMO
A língua geográfica é uma condição inflamatória benigna caracterizada pela atrofia das papilas filiformes, formando lesões irregulares no dorso lingual. Sua etiologia envolve fatores genéticos, imunológicos e ambientais, como estresse e desequilíbrio da microbiota oral. Embora geralmente assintomática, pode causar desconforto, ardência e sensibilidade a alimentos ácidos ou picantes. O presente trabalho teve por objetivo evidenciar o caso clínico de língua geográfica em uma criança na cidade de Porto Velho/Ro, seu diagnóstico e tratamento, contribuindo na recuperação das lesões linguais e alívio de desconfortos. Ademais, foi realizada uma revisão de literatura, no intuito de apresentar informações recentes e atualizadas. Para isso, foram feitas pesquisas nos bancos de dados eletrônicos: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), National Library of Medicine (PUBMED), Google Acadêmico e Scientific Electronic Library (SciELO), entre os anos de 2016 a 2024. Além de tudo, a conduta terapêutica consistiu nas orientações sobre a doença e acompanhamento até a regressão das lesões, resultando um modelo de auxílio aos cirurgiões-dentistas que não se julgam aptos ao atendimento de pacientes com esse perfil. Conclui-se que o diagnóstico é clínico, baseado no aspecto migratório e história relatada na anamnese, o tratamento deve ser individualizado e algumas vezes multidisciplinar, para que haja completa melhora e qualidade de vida do paciente.
Palavras-Chave: Língua Geográfica. Pediatria. Diagnóstico Clínico. Tratamento Odontológico.
ABSTRACT
Geographic tongue is a benign inflammatory condition characterized by atrophy of the filiform papillae, forming irregular lesions on the dorsum of the tongue. Its etiology involves genetic, immunological and environmental factors, such as stress and imbalance of the oral microbiota. Although usually asymptomatic, it can cause discomfort, burning and sensitivity to acidic or spicy foods. This study aimed to highlight the clinical case of geographic tongue in a child in the city of Porto Velho/Ro, its diagnosis and treatment, contributing to the recovery of lingual lesions and relief of discomfort. In addition, a literature review was carried out in order to present recent and updated information. To this end, research was conducted in the following electronic databases: Virtual Health Library (BVS), National Library of Medicine (PUBMED), Google Scholar and Scientific Electronic Library (SciELO), between the years 2016 to 2024. In addition, the therapeutic approach consisted of guidance on the disease and monitoring until the lesions regressed, resulting in a model to assist dentists who do not consider themselves qualified to care for patients with this profile. It is concluded that the diagnosis is clinical, based on the migratory aspect and history reported in the anamnesis, the treatment must be individualized and sometimes multidisciplinary, so that there is complete improvement and quality of life for the patient.
Keywords: Geographic Tongue. Pediatrics. Clinical Diagnosis. Dental Treatment.
1. INTRODUÇÃO
A língua é um órgão multifuncional e de extrema importância no organismo humano, desempenhando papéis cruciais como a fala, digestão, deglutição e a percepção gustativa. Sua superfície é revestida por pequenas estruturas denominadas papilas, responsáveis por auxiliar na identificação dos sabores de cada alimento (Sawan et al. 2023).
Ademais, a língua é revestida por quatro tipos de papilas, sendo elas a filiformes, fungiformes, circunvaladas e foliáceas. Cada uma possui funções específicas e juntas desempenham papéis essenciais na percepção sensorial, na manipulação dos alimentos e na proteção da língua (Spence, 2022).
Com isso, as papilas filiformes, são as mais numerosas e cobrem a maior parte da superfície dorsal da língua, possuem forma alongada e pontiaguda, auxiliando na percepção tátil e na manipulação dos alimentos, mas não contêm botões gustativos. Já as papilas fungiformes, localizadas principalmente na ponta e nas bordas da língua, têm formato de cogumelo e contêm botões gustativos, sendo responsáveis pela percepção dos sabores (Spence, 2022).
Prosseguindo, as papilas circunvaladas ou valadas são maiores e estão dispostas em forma de “V”, localizam-se na parte posterior da língua, rodeadas por depressões onde se encontram as glândulas de von Ebner, que secretam enzimas digestivas e contêm botões gustativos. Há também as papilas foliadas, localizadas nas bordas laterais da língua, com aparência de folhas e botões gustativos, sendo mais proeminentes em alguns animais do que em humanos (Spence, 2022).
Nessa perspectiva, a língua geográfica é caracterizada pela perda ou atrofia das papilas filiformes, uma condição inflamatória benigna, crônica e recorrente, que afeta principalmente o dorso da língua, a qual apresenta bordas esbranquiçadas ou amareladas ligeiramente elevadas ao redor das áreas afetadas, variando em disposição e profundidade. Além de que, a língua geográfica passa por períodos de remissão, nos quais as lesões desaparecem e quando reaparecem, pode acontecer de ser no mesmo local ou em outras regiões, com intervalos de tempos diferentes (Hu et al. 2024).
Vale dizer que a patogênese da língua geográfica envolve interações complexas entre fatores genéticos e ambientais, como o estresse, mutações em genes envolvidos na regulação imunológica e na função das células epiteliais, como IL36RN e genes do antígeno leucocitário humano (HLA). Também foram observadas associações com a psoríase, diabetes juvenil, mudanças hormonais, reações alérgicas e alteração da comunidade bacteriana, causando inflamação e aumento dos níveis de substâncias inflamatórias, como a interleucina-8 (IL-8) e a calprotectina, sugerindo que há uma relação entre o desequilíbrio da microbiota oral e a inflamação (You, He e Huang 2024).
Pode-se dizer que a etiologia exata da língua geográfica ou glossite migratória benigna permanece desconhecida, mesmo que tenha sido sugerida uma relação com a microbiota lingual do paciente. Por isso, outras associações são relatadas pela literatura, como a dermatite atópica, alergias, doença celíaca, síndrome de reiter, anticoncepcionais orais, lítio, anti-hipertensivos, síndrome de down e gravidez (Horiuchi, 2023; Lombardi et al. 2023).
Nesse contexto, a língua geográfica é marcada por ciclos, caracterizados pela exacerbação e remissão da condição e as lesões cicatrizam sem deixar marcas residuais. Assim, durante a fase de exacerbação, os pacientes podem relatar desconforto oral, sensação de queimação, corpo estranho ou até dor referida no ouvido (Nery et al. 2023).
Em sequência, o diagnóstico consiste em exames clínicos e no histórico do paciente, com foco em lesões crônicas, migratórias e que alteram sua cor, tamanho e posição ao longo do tempo. Exames laboratoriais de rotina, como hemograma completo e taxa de sedimentação de eritrócitos podem ser realizados para descartar outras condições, e a biópsia com a análise histológica das lesões podem ser úteis para confirmar o caráter benigno da patologia (Pereira et al. 2023).
Nesse viés, os achados histológicos revelam inflamação crônica e aguda na submucosa, com edema epitelial. As áreas brancas elevadas apresentam infiltrados subepiteliais de neutrófilos, micro abscessos, invasão de leucócitos na camada epitelial, edema Inter epitelial, ruptura das junções celulares, acúmulo de glicogênio nas células epiteliais e descamação de células necróticas na camada superficial. Já as áreas eritematosas exibem alterações nas camadas basais e espinhosas, com ausência de estratos granuloso e queratinizado ou para queratinizado incompletos na superfície (Dick et al. 2024).
Logo, o presente trabalho visa evidenciar um caso clínico de língua geográfica em crianças, seu diagnóstico e tratamento, cujo objetivo consiste em contribuir na recuperação das lesões linguais e/ou alívio das dores do paciente.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo clínico do tipo relato de caso prospectivo, com abordagem descritiva e qualitativa, que tem como objetivo documentar e analisar o diagnóstico e o tratamento de língua geográfica em criança. A pesquisa será conduzida em conformidade com os princípios éticos estabelecidos pela Resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 466/2012, assegurando os direitos, a integridade e a confidencialidade do paciente envolvido e foi aprovada pelo CEP sob o parecer n° 89267825.3.0000.0013.
O caso foi atendido no Centro Odontológico São Lucas, localizado em Porto Velho, Rondônia, e a seleção do paciente ocorreu por conveniência, entre os atendimentos rotineiros da instituição. O participante foi previamente informado sobre os objetivos do estudo e incluído somente após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
A coleta de dados foi realizada por meio de observação clínica direta, análise de registros odontológicos e história médica pregressa. A análise enfatiza a descrição detalhada das etapas do caso, incluindo o diagnóstico clínico e a terapêutica adotada baseada na revisão de literatura científica e, por fim, na correta orientação para o paciente e seus familiares.
RELATO DE CASO
Paciente JOJJ de 7 anos procurou a clínica odontológica do Centro Universitário São Lucas acompanhando por seu progenitor com a queixa principal de “lesão em língua”.
Na história médica pregressa o responsável relatou que o menor realizou tratamento sob supervisão da pediatra para broncoalveolite e asma com remissão total dos sintomas, negou alergias e outras patologias e não fazia uso de medicamentos.
No exame clínico, o paciente apresentava lesões com halo branco em dorso ventral da língua migratórias, esporádicas e sem ardência bucal. Apresentava boa higiene bucal e não usava aparato ortodôntico/ortopédico.
O progenitor relatou a preocupação com a doença e buscava informações se esta poderia ser ou evoluir para lesão maligna e trouxe exames laboratoriais de rotina solicitados pela pediatra que exibiam deficiência de vitamina D e zinco.
O tratamento proposto foi medicamentoso via oral com polivitamínico e complementação de zinco associado a orientação para higiene oral com bochechos com clorexidina 0,12% e, quando sintomática as lesões, evitar alimentos ácidos.
Imagem 1- Língua geográfica

DISCUSSÃO
O presente caso clínico descreve o diagnóstico, tratamento e orientações referentes à língua geográfica em crianças – condição benigna de etiologia ainda indeterminada, possivelmente associada a fatores genéticos, estresse, disfunções imunológicas, reações alérgicas ou alterações da microbiota oral. Os benefícios terapêuticos consistem em promover a remissão das lesões linguais e o alívio sintomático, quando presentes.
Nessa perspectiva, estudos como o de García et al. (2020), analisaram a prevalência de lesões em tecidos moles, revelando que a língua configura a região mais afetada (92,1%) dos casos, evidenciando que a educação do paciente é fundamental para reduzir o surgimento e a progressão dessas condições, pois a instrução e conhecimento funcionam como uma ferramenta eficaz para a prevenção e o diagnóstico precoce das patologias.
Sob essa ótica, seria esperado que houvesse estudos frequentes sobre o tema, mas, a literatura atual é surpreendentemente escassa, especialmente quando relacionada às crianças. Até então, o que se sabe é que a língua geográfica é uma condição oral crônica, de natureza inflamatória e imunomediada, cuja causa exata ainda não é conhecida. No entanto, várias teorias foram propostas, como seu vínculo com a asma, eczema, rinite alérgica, altos níveis de imunoglobulina, língua fissurada, alérgicos a medicamentos, alimentos ou outros (Picciani et al. 2016).
Vale salientar que a lesão observada na língua geográfica (LG) ocorre de uma atrofia peculiar das papilas da língua que se fundem em padrões migratórios, muitas vezes semelhantes a mapas, a qual recomenda-se evitar alimentos irritantes e, se necessário, usar soluções bucais calmantes com camomila, sálvia ou dexpantenol (Schießl e Dietrich, 2024).
Esses achados corroboram com o caso relatado e com o estudo de Wadia (2022), que define a língua geográfica como uma alteração frequente da mucosa bucal que acomete principalmente o dorso e as bordas laterais da língua. Essa condição é marcada pela redução das papilas filiformes, ocasionando regiões sem papilas, circundadas por áreas esbranquiçadas que se deslocam pela superfície lingual.
Importante dizer que os estudos revisados revelam divergências significativas quanto à natureza e patogênese do distúrbio apresentado. Diante desse fato introdutório, Horiuchi (2023), defende que as características histológicas apresentam notável semelhança com as observadas na psoríase cutânea, levando à hipótese de que a língua geográfica possa ser uma manifestação clínica da psoríase. Esta hipótese é reforçada por Picciani et al. (2016), o qual acredita que a LG seja uma manifestação oral da psoríase devido às semelhanças clínicas, histopatológicas e imuno-histoquímicas.
Não obstante, Nery et al. (2023), salienta que embora esta associação entre língua geográfica e psoríase seja frequentemente mencionada na literatura, a maioria dos pacientes com LG não apresentam psoríase. Essa falta de correlação direta sugere que outros mecanismos fisiopatológicos devem estar envolvidos. A complexidade dessa condição reforça a necessidade de mais evidências para compreender plenamente seus mecanismos desencadeantes.
Segundo o estudo de Çevik-Aras e Dafar (2023), a resposta inflamatória está ligada aos pacientes com LG, ou seja, a produção de sCD14 (mediador da imunidade inata) pode estar relacionada à progressão da doença e ser um marcador importante para avaliar sua gravidade, indicando que lesões graves apresentam aumento significativo, lesões moderadas aumento nem sempre significativo, e lesões leves com pouca ou nenhuma diferença.
Outro argumento interessante condiz ao histórico familiar e a gravidade clínica intimamente relacionada às características histopatológicas, reforçando a importância da análise microscópica para um diagnóstico mais completo. Por isso, geralmente os pacientes desenvolvem uma significativa ansiedade e medo de condições malignas, como o câncer, portanto, uma explicação detalhada desta doença é necessária (Lombardi et al. 2023; Dick et al. 2024; Hu et al. 2024).
Mais um aspecto relevante é a relação entre lesões orais e atopia, sendo inclusive bem conhecida na literatura, porém poucos estudos investigaram a prevalência de alterações de mucosa em doenças dentro do espectro atópico, gerando dados conflitantes. Além disso, históricos alérgicos, especialmente alergias alimentares, possam ser fatores predisponentes ou desencadeantes da condição (Dick et al. 2021; Tamayo-Martínez e Salas-Rivas, 2022).
Em contraste, García et al. (2020), por meio de uma pesquisa descritiva, documental, retrospectiva e multivariável aponta que a língua geográfica pode estar relacionada a fatores como estresse, deficiências nutricionais ou predisposição genética. Estas visões aparentemente discordantes podem, na realidade, complementar-se, sugerindo que a língua geográfica pode surgir por diferentes fatores em indivíduos distintos.
Para tanto, essa análise crítica da literatura revela que as causas da doença permanecem uma condição enigmática, com múltiplas facetas ainda não completamente compreendidas, abrindo precedentes para mais possibilidades, como a relação entre a língua geográfica e deficiência de vitamina D, B6, B12, ácido fólico, ferro e zinco (Picciani et al. 2016).
Embora nenhum microrganismo específico tenha sido consistentemente associado à condição, acredita-se que bactérias indígenas da língua, como Mogobacterium-neamide e da flora periodontal, como Porphyromonas (P) Gingivalis, são capazes de penetrar à mucosa e as responsáveis pelo padrão de mapa ao longo do tempo (Horiuchi, 2023).
Demais fatores, como a síndrome da boca ardente, líquen plano oral, distúrbios gastrointestinais e distúrbios hematológicos são considerados precursores do aparecimento da condição. No mais, diversas pesquisas também relatam a associação entre a língua geográfica (LG) e a língua fissurada (LF) e que apesar de apresentarem manifestações distintas, apresentam a mesma patologia inflamatória, sugerindo ainda que a LG possa evoluir para LF (Wadia, 2022).
Todavia, achados de Hu et al. (2024) refutam a interação entre LG e LF, demonstrando que enquanto a LF mostra forte associação com psoríase (p < 0,001), o mesmo não ocorre com a LG (p = 0,760). Esta discrepância sugere que, a LG e LF, embora relacionadas – podem envolver mecanismos patogênicos distintos e a LF estando mais intimamente ligada a processos inflamatórios sistêmicos como a psoríase.
Notoriamente, García et al. (2020), aborda em seu trabalho científico uma crítica e ressalta a necessidade de estudos como impulsionadores de avanços. Para ele, a epidemiologia das alterações nos tecidos moles bucais é menos explorada em comparação a cáries, doenças periodontais e más oclusões, destacando a importância de estudos nessa área para avanços na odontologia.
Por outro lado, Ogueta et al. (2020), defende que devido à natureza benigna, assim como ao seu curso assintomático, os pacientes com língua geográfica não necessitam de tratamento específico, demonstrando que suas lesões mudam de tamanho e forma com o tempo e são caracterizadas por períodos de exacerbação e remissão sem cicatrizes. Destacam-se ainda mais a necessidade de bons estudos serem realizados, os quais possam esclarecer a história natural da doença, seus mecanismos patogênicos e suas verdadeiras associações sistêmicas.
Nesse sentido, em virtude de incertezas quanto ao bem-estar do paciente, é aconselhável evitar exposição a agentes irritantes e fontes de infecção, como dispositivos ortodônticos, pois podem piorar a condição, além de que, o paciente deve receber orientações sobre a alimentação, priorizando a redução do consumo de comidas quentes, ácidas e apimentadas (Picciani et al. 2016).
No que diz respeito ao manejo terapêutico, Picciani et al. (2016), esclarece que a língua geográfica quando assintomática, não requer tratamento. Em contraponto, o manejo terapêutico para sintomáticos envolve a utilização de soluções para bochecho que contenham substâncias como anestésicos, corticoides tópicos, vitamina A, anti-histamínicos e complementos de zinco.
Entretanto, Sohal et al. (2023), propôs em seu estudo um tratamento inovador a base da mistura de ácido acetilsalicílico (aspirina) e etanol, proposto em pacientes acometidos de língua geográfica sintomática que não respondem às terapias já documentadas, como por exemplo, enxaguatórios bucais, antifúngicos, analgésicos, multivitamínicos e esteroides. O tratamento corresponde a dissolução de 3 mg de aspirina em 1 ml de etanol 70%, aplicada topicamente com gaze estéril por 2-3 minutos, de 5 a 7 dias, resultando ausência de sintomas e na remissão da lesão em 3 meses de acompanhamento. A única desvantagem é a ardência no local da aplicação, embora durem poucos segundos. Contudo, essa opção vale a pena, especialmente em países em desenvolvimento, considerando, o baixo custo.
Em contrapartida, o estudo de Horiuchi (2023), teve o objetivo de avaliar as peculiaridades da língua geográfica por intermédio de uma revisão bibliográfica, destacando a LG de aparência peculiar devido à ausência do estrato córneo e que a mudança no padrão ao longo do tempo não pode explicar sua patologia, a menos que seja baseada em bactérias móveis, fimbriadas e flagelares, cujo tratamento consiste no medicamento tacrolimus (IFSo®), haja vista, que mesmo com aplicação complicada tem demonstrado bastante eficácia.
Em suma, até que todas as questões correspondentes às lacunas existentes sejam respondidas adequadamente, através de novas pesquisas científicas, o manejo da LG deve ser individualizado, considerando tanto as características clínicas quanto as preocupações e expectativas de cada paciente.
CONCLUSÃO
O presente trabalho teve como objetivo evidenciar um caso clínico de língua geográfica em crianças, abordando seu diagnóstico e tratamento, e buscando contribuir para a recuperação das lesões linguais e o alívio do desconforto dos pacientes. A língua geográfica, uma condição inflamatória benigna e recorrente, caracteriza-se pela atrofia das papilas filiformes, formando lesões migratórias no dorso da língua. Sua etiologia é multifatorial, envolvendo aspectos genéticos, imunológicos, ambientais e a microbiota oral, com associações a condições como psoríase, dermatite atópica e deficiências nutricionais.
Através do relato de caso de um paciente pediátrico, foi possível demonstrar a importância do diagnóstico clínico, baseado na observação das lesões e na anamnese detalhada. O tratamento proposto, que incluiu suplementação vitamínica e mineral, além de orientações de higiene oral e dietéticas, resultou em um modelo de manejo que visa não apenas a remissão das lesões, mas também a melhoria da qualidade de vida do paciente. A discussão reforçou a escassez de literatura específica sobre a língua geográfica em crianças, destacando a necessidade de mais estudos para elucidar completamente sua patogênese e otimizar as abordagens terapêuticas.
Conclui-se que, embora a etiologia exata da língua geográfica permaneça um desafio, o diagnóstico precoce e um plano de tratamento individualizado e, por vezes, multidisciplinar, são cruciais para o manejo eficaz da condição. A educação do paciente e de seus responsáveis sobre a natureza benigna da doença e as estratégias de controle dos sintomas é fundamental para mitigar a ansiedade e garantir a adesão ao tratamento, promovendo assim a completa melhora e o bem-estar do paciente.
REFERÊNCIAS
ÇEVIK-ARAS, H.; DAFAR, A. Soluble LPS receptor CD14 is increased in saliva of patients with geographic tongue. Acta Odontol Scand, v. 81, n. 2, p. 137-142, 2023.
DICK, T. N. A. et al. Study of the Correlation between the Extent and Clinical Severity, and the Histopathological Characteristics of Geographic Tongue. Folia Morphol (Warsz), v. 22, p. 1-11, 2024.
DICK, T. N. A. et al. Investigation of oral atopic diseases: correlation between geographic tongue and fungiform papillary glossitis. J Stomatol Oral Maxillofac Surg, v. 122, n. 3, p. 283-288, 2021.
GARCÍA, A. T. Prevalencia de lesiones bucales en tejido blando encontradas en la Clínica de Estomatología de la Facultad de Odontología de la Universidad de los Andes: periodo 2015-2018. Rev. ADM, v. 77, n. 1, p. 11-16, 2020.
HORIUCHI, Y. Geographic tongue: what is this disease? J Dtsch Dermatol Ges, v. 21, n. 12, p. 1465-1467, 2023.
HU, Y. et al. Association of psoriasis with geographic and fissured tongue in the Han population in southwestern China. An Bras Dermatol, v. 99, n. 6, p. 826-832, 2024.
LOMBARDI, N. et al. Nodular migratory tongue lesions: atypical geographic tongue or a new entity? Oral Dis, v. 29, n. 4, p. 1791-1794, 2023.
NERY, F. V. R. et al. Oral manifestations in patients diagnosed with psoriasis: a systematic review. Spec Care Dentist, v. 43, n. 1, p. 29-39, 2023.
OGUETA, C. I. et al. Lengua geográfica: ¿qué es lo que un dermatólogo debería saber?. Actas Dermosifiliogr, v. 110, n. 5, p. 341-346, 2020.
PEREIRA, R. da P. L. et al. Worldwide prevalence of geographic tongue in adults: a systematic review and meta-analysis. Oral Dis, v. 29, n. 8, p. 3091-3100, 2023.
PICCIANI, B. L. S. et al. Geographic tongue severity index: a new and clinical scoring system. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol, v. 129, n. 4, p. 330-338, 2020.
PICCIANI, B. L. et al. Geographic tongue and psoriasis: clinical, histopathological, immunohistochemical and genetic correlation – a literature review. An Bras Dermatol, v. 91, n. 4, p. 410-421, 2016.
SARRUF, M. B. J. M. et al. Stress as worsening of the signs and symptoms of the geographic tongue during the COVID-19 pandemic: a pilot study. BMC Oral Health, v. 22(1), n. 565, p. 1-8, 2022.
SAWAN, D. et al. Assessment of the Possible Correlation between the Presence of Helicobacter Pylori Infection and Hairy Tongue Lesion in a Group of Patients in Syria: a Cross-Sectional and Pilot Study. Int J Environ Res Public Health, v. 20, n. 2, p. 1-9, 2023.
SCHIEßL, J.; DIETRICH, A. H. Lingua geographica: küssen verboten? Dermatologie (Heidelb), v. 75, n. 7, p. 566, 2024.
SOHAL, K. S. et al. Effectiveness of mixture of aspirin and ethanol regimen in the management of geographic tongue: a prospective study. Ann Med Surg (Lond), v. 85, n. 6, p. 2540-2544, 2023.
SPENCE, C. The tongue map and the spatial modulation of taste perception. Current Research in Food Science, v. 5, p. 598-610, 2022.
TAMAYO-MARTÍNEZ, G. JR.; SALAS-RIVAS, G. M. Alergias alimentarias en pacientes con glositis migratoria benigna / Food allergies in patients with benign migratory glossitis. Acta otorrinolaringol. cir. cuello (En línea), v. 50, n. 1, p. 45-50, 2022.
WADIA, R. Geographic tongue – risk factors. Br Dent J, v. 233, n. 6, p. 494, 2022.
YOU, Y.; HE, Y.; HUANG, P. Characterization of lingual microbiota in pediatric geographic tongue. Turk J Pediatr, v. 66, n. 4, p. 448-456, 2024.
