FEOCROMOCITOMA: RELATO DE CASO E REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510171512


João Victor Barcelos Durce
Thiago Siqueira Chagas
Angela Alves Gomes Fonseca
Luiza Branco Lopes Cortê Real


Introdução

O feocromocitoma é um tumor raro, originado nas células cromafins da medula adrenal, que leva à produção excessiva de catecolaminas, resultando em hipertensão e sintomas autonômicos [1,2]. Representa uma causa incomum de hipertensão secundária, com incidência anual estimada em 2 a 8 casos por milhão de habitantes. Embora a maioria dos casos ocorra em adultos jovens ou de meia-idade, o tumor também pode se manifestar em idosos, apresentando desafios diagnósticos e terapêuticos [1,6].

A apresentação clínica é variável, podendo incluir a clássica tríade de hipertensão, cefaleia e sudorese, bem como arritmias, crises hipertensivas graves e insuficiência cardíaca [3,4,7]. O diagnóstico precoce é crucial, visto que complicações cardiovasculares podem ser fatais. A avaliação bioquímica por metanefrinas plasmáticas e urinárias, associada a exames de imagem, é fundamental para confirmar a presença do tumor e planejar a cirurgia [1,3,6].

O presente artigo relata um caso de feocromocitoma adrenal em paciente idoso, destacando aspectos clínicos, laboratoriais e radiológicos, com revisão da literatura recente.

Palavras-chave: Feocromocitoma, adrenalectomia, hipertensão, metanefrinas, tumor adrenal.

Relato de Caso

Paciente do sexo masculino, 72 anos, agricultor, procurou atendimento médico após queda de cavalo durante atividades rurais. Apresentava urgência hipertensiva com pressão arterial sistólica de 240 mmHg, apesar de uso regular de losartana. Exames iniciais evidenciaram massa adrenal direita de grande volume, deslocando o rim direito.

A tomografia de abdome revelou lesão expansiva lobulada na adrenal direita, heterogênea, com áreas císticas e necróticas, medindo 13,3 x 7,5 x 9,4 cm, apresentando densidade de 80 Unidades de Hounsfield (HU) em porção periférica e 33 HU em porção central, em contato íntimo com fígado, veia cava inferior e rim direito, sem invasão clara de estruturas vizinhas. Linfonodo interaortocaval discreto [2,6,7].

O paciente apresentou hormônios adrenais e sexuais (cortisol após supressão com dexametasona, SHBG, aldosterona, atividade plasmática de renina, testosterona, DHEA-S, androstenediona)  normais. Metanefrinas plasmáticas de 145 pg/ml (valor de referência inferior a 100 pg/ml) e normetanefrinas plasmáticas de 5834 pg/ml (valor de referência inferior a 216 pg/ml) e metanefrinas urinárias de 1304,9 mcg/24h (Valor de referência até 280 mcg/24h) e normetanefrina urinárias maior que 4260 mcg/24h (Valor de referência até 732 mcg/24 h), confirmando feocromocitoma [1,3,6].

Histórico familiar incluía câncer gástrico em pai. Comorbidades: hipertensão, diabetes tipo 2 e dislipidemia. Era ex-tabagista, cessado há 40 anos, e negava etilismo. Exame físico: paciente em bom estado geral, normocorado, hidratado, sem alterações cardíacas e respiratórias. Apresentava massa em região de flanco direito palpável e dolorosa, mas sem sinais de irritação peritoneal. Membros inferiores sem edema ou empastamento. [4,5].

Após discussão com paciente e familiares, foi definido preparo clínico seguido de adrenalectomia, com acompanhamento multidisciplinar. O preparo foi realizado com medicações anti-hipertensivas com alfa-bloqueio seguido de beta-bloqueio. Após implementação das medidas clínicas, o paciente foi encaminhado ao tratamento cirúrgico proposto [8,9,13].

Objetivo

Relatar o caso de um paciente idoso com diagnóstico de feocromocitoma, destacando os aspectos clínicos, laboratoriais e radiológicos que contribuíram para o diagnóstico, bem como as etapas do preparo clínico, à luz da literatura atual, a fim de reforçar a importância da suspeita diagnóstica precoce e do tratamento multidisciplinar nessa condição rara.

Riscos e benefícios

A participação neste estudo envolve o risco de quebra de confidencialidade (algum dado que possa identificar o paciente ser exposto publicamente). Para minimizar esse risco, nenhum dado que possa identificar como nome, codinome, iniciais, registros individuais, informações postais, números de telefones, endereços eletrônicos, fotografias, figuras, características morfológicas (partes do corpo), entre outros, serão utilizadas sem sua autorização. Fotos, figuras ou outras características morfológicas que venham a ser utilizadas estarão devidamente cuidadas (camufladas, escondidas) para não identificação.

Os possíveis benefícios resultantes da participação na pesquisa são elucidar mais sobre a doença estudada e aumentar o fomento a novas pesquisas sobre tal. Diante disso, aumenta-se o conhecimento sobre tal patologia e novas estratégias terapêuticas podem ser desenvolvidas.

Metodologia

Trata-se de um relato de caso com revisão de literatura.
Os dados clínicos foram obtidos a partir da análise retrospectiva do prontuário médico do paciente, incluindo informações sobre histórico clínico, exames laboratoriais e de imagem, conduta terapêutica e evolução clínica.

A revisão da literatura foi conduzida nas bases de dados PubMed, SciELO e NCBI, utilizando os descritores: feocromocitoma, hypertension, adrenalectomy e metanephrines. Foram selecionados artigos publicados nos últimos dez anos, priorizando revisões sistemáticas, estudos originais e diretrizes clínicas relevantes ao tema.

O estudo foi desenvolvido em conformidade com os princípios éticos da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, assegurando a confidencialidade das informações e a integridade dos dados. O paciente consentiu formalmente com o uso de suas informações clínicas mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Nenhum dado pessoal identificável foi divulgado, e todas as imagens e informações foram cuidadosamente tratadas para preservar o anonimato e a privacidade do paciente.

Discussão
O feocromocitoma é raro, mas deve ser considerado em pacientes com hipertensão grave ou refratária. A produção excessiva de catecolaminas explica a variabilidade clínica e as crises hipertensivas, podendo levar a complicações graves se não tratado [1,2,3].

O diagnóstico é confirmado por metanefrinas plasmáticas e urinárias, os marcadores mais sensíveis e específicos. Valores elevados, como no caso descrito, confirmam a presença do tumor. A avaliação do cortisol pós-dexametasona auxilia na exclusão da Síndrome de Cushing [1,3,6].

Imagens de alta resolução, como tomografia e ressonância magnética, são essenciais para localização, avaliação do tamanho, características e relação com estruturas adjacentes. Tumores heterogêneos, com áreas císticas ou necróticas, podem sugerir maior risco de malignidade [2,6,7].

O manejo inclui preparo clínico rigoroso com bloqueio alfa-adrenérgico e controle da pressão arterial antes da adrenalectomia. A abordagem laparoscópica é preferencial em tumores menores, enquanto tumores maiores podem exigir cirurgia aberta [8,9,13]. O acompanhamento pós-operatório deve incluir monitoramento de metanefrinas para detectar recidiva [11,12].

O prognóstico depende do diagnóstico precoce, do preparo clínico e da experiência cirúrgica. Tumores grandes ou invasivos exigem vigilância rigorosa [1–13]. O manejo multidisciplinar reduz a morbidade e mortalidade e otimiza os resultados cirúrgicos.

Conclusão

Este caso evidencia a importância de considerar o feocromocitoma em pacientes idosos com hipertensão grave e refratária. A combinação de avaliação bioquímica, exames de imagem detalhados e preparo clínico adequado permite diagnóstico seguro e planejamento cirúrgico eficaz. O acompanhamento multidisciplinar é fundamental para minimizar complicações perioperatórias e monitorar possíveis recidivas.

Referências

  1. Lenders JW, Duh QY, Eisenhofer G, et al. Endocrine Reviews. 2014;35(5):618–676. doi:10.1210/er.2014-1011
  2. Pacak K, Eisenhofer G, Ahlman H, et al. Nat Clin Pract Endocrinol Metab. 2007;3(2):92–102. doi:10.1038/ncpendmet0425
  3. Eisenhofer G, Peitzsch M. Clin Chem. 2017;63(1):146–158. doi:10.1373/clinchem.2016.261225
  4. Whitelaw BC, Prague JK, Mustafa OG, et al. Endocr Rev. 2014;35(2):251–275. doi:10.1210/er.2013-1096
  5. Bernal C, Rodríguez A, García-Mayor RV. Endocrinol Nutr. 2006;53(6):276–283. doi:10.1016/S0187-5509(06)72562-4
  6. Nati-Castillo HA, et al. Front Endocrinol. 2024;15:1433582. doi:10.3389/fendo.2024.1433582
  7. Huang R, et al. BMC Med Imaging. 2024;24(1):175. doi:10.1186/s12880-024-01350-0
  8. Kamath AS, et al. NCBI Bookshelf. 2023. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK589634/
  9. Zhou Y, et al. Eur J Surg Oncol. 2025;51(1):1–8. doi:10.1016/j.ejso.2025.01.010
  10. Else T, et al. NCBI Bookshelf. 2023. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK1548/
  11. Raber W, et al. PMC. 2023. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10252063/
  12. Raber W, et al. Front Endocrinol. 2024;15:1419028. doi:10.3389/fendo.2024.1419028
  13. Bojoga A, et al. Ann R Coll Surg Engl. 2024;106(4):e1–e6. doi:10.1308/rcsann.2023.0054