THE INFLUENCE OF SOCIAL NETWORKS ON MENTAL HEALTH, SELF-ESTEEM AND SELF-IMAGE OF YOUNG UNIVERSITY STUDENTS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510171355
Ana Laura Silveira Abadia; Ana Julia Lemos Fernandes; Beatriz Campos; Bruna Vieira Castro; Camila Marques Lacerda; Scarleth Reis de Santos Oliveira1; Andreia Moreira da Silva Santos2
RESUMO
A autoimagem corresponde a um fenômeno psíquico que atua na construção da imagem do indivíduo pelas suas relações interpessoais e interações com o mundo. A percepção da própria imagem influencia o comportamento e a autoestima dos jovens. Nesse contexto, este estudo objetivou verificar a influência das redes sociais na saúde mental, autoestima e autoimagem entre universitários. Trata-se de um estudo descritivo, observacional e transversal, com análise de dados por aplicação de questionário sociodemográfico, Inventário de Beck de Ansiedade (BAI), Questionário de Atitudes Socioculturais em Relação à Aparência (SATAQ-4) e Body Shape Questionnaire (BSQ). O perfil sociodemográfico da amostra corresponde a faixa etária entre 18 a 24 anos e sexo feminino. Com relação à saúde mental e ao uso das mídias sociais, a maioria (49,1%) apresentou tempo de uso entre 2 a 5 horas por dia, sendo que a maior parte se enquadra em ansiedade leve (56,9%), entretanto não houve relação de significância entre tempo nas mídias e grau de ansiedade. Ao analisar insatisfação corporal, a maioria concentra-se no grau mínimo (83%), e a maior parte com tempo de tela entre 2 a 5 horas (49,8% da amostra), demonstrando baixa relevância entre tempo de uso e nível de insatisfação corporal. No entanto, houve relação significativa entre aqueles com mínima insatisfação corporal e sem ansiedade (p<0,05). Quanto a autoimagem, observou-se que os que mais sofrem influência sociocultural sobre sua aparência apresentaram média de score 90±13, mas essa influência não causa relação significativa com ansiedade. O estudo concluiu que o tempo de uso das mídias não afeta o aparecimento de ansiedade em nenhum nível e nem o grau de satisfação corporal. Entretanto, o grau de satisfação está relacionado com o grau de ansiedade na amostra. Por fim, os fatores socioculturais influenciam os participantes com relação a aparência, sem afetar o grau de ansiedade.
Palavras-chave: Autoimagem. Mídias sociais. Saúde mental.
ABSTRACT
Self-image is a psychological phenomenon that influences the construction of an individual’s image through their interpersonal relationships and interactions with the world. Self-image perception influences young people’s behavior and self-esteem. In this context, this study aimed to assess the influence of social media on mental health, self-esteem, and self-image among university students. This is a descriptive, observational, and cross-sectional study, with data analysis using a sociodemographic questionnaire, the Beck Anxiety Inventory (BAI), the Sociocultural Attitudes Toward Appearance Questionnaire (SATAQ-4), and the Body Shape Questionnaire (BSQ). The sociodemographic profile of the sample corresponds to the 18-24 age group and female gender. Regarding mental health and social media use, the majority (49.1%) reported screen time between 2 and 5 hours per day, with the majority having mild anxiety (56.9%). However, there was no significant relationship between media time and anxiety. When analyzing body dissatisfaction, the majority (83%) had minimal screen time, with the majority (49.8% of the sample) between 2 and 5 hours of screen time, demonstrating low correlation between screen time and body dissatisfaction. However, there was a significant relationship between those with minimal body dissatisfaction and those without anxiety (p<0.05). Regarding self-image, it was observed that those most affected by sociocultural influence on their appearance had an average score of 90±13, but this influence did not significantly correlate with anxiety. The study concluded that media use time did not affect the onset of anxiety at any level or the level of body satisfaction. However, the level of satisfaction was related to the level of anxiety in the sample. Finally, sociocultural factors influence participant’s appearance without affecting their level of anxiety.
Keywords: Self-image. Social media. Mental health.
INTRODUÇÃO
As mídias sociais se tornaram uma ferramenta imprescindível para a construção da comunicação e da autoimagem dos indivíduos, especialmente dos jovens (FIALHO, SOUSA, 2019). O rigoroso padrão imposto coage o jovem a se moldar através de aplicativos e propagandas a fim de alcançar um modelo estereotipado e fictício exposto nas mídias. Como consequência, a frustração e a insatisfação com a autoimagem se elevam, devido a incapacidade de alcançar as exigências necessárias para a aceitação social (BRUNELLI et al., 2019).
A praticidade do acesso às postagens nas redes e o seu alto alcance sobre os usuários, gera no jovem uma percepção de segurança social, processo denominado “busca pela reafirmação”. Entretanto, esse processo é dicotômico, isto é, pode fornecer confiança, porém também é capaz de amplificar no indivíduo uma sensação de angústia aliada a uma diminuição da socialização (MOROMIZATO et al., 2017).
Essa dicotomia, por vezes, manifesta-se como consequência das grandes mudanças emocionais, sociais, familiares, físicas, sexuais e econômicas próprias da juventude (PENSO, SENA, 2019). Inicia-se o momento em que o sujeito se depara com o sentido de sua existência: o fim do ensino médio, a escolha da carreira profissional, o ingresso na faculdade, a separação da família, o desenvolvimento da vida social, afetiva, da autoestima, a individualização, as responsabilidades financeiras, dentre outros fatores específicos marcantes da transição entre o final da adolescência e início da vida adulta (PENSO, SENA, 2019). Com isso, há uma predisposição nessa faixa etária para o adoecimento mental, com surgimento da depressão e ansiedade, relacionadas inclusive à pensamentos suicidas (PENSO, SENA, 2019).
Além disso, a sociedade contemporânea, principalmente por meio das mídias sociais, vem impondo um padrão estético em que há supervalorização de corpos magros ou musculosos (CARDOSO et al., 2020). Esse padrão vem desencadeando situações de quadros de inferioridade e insatisfação com a própria aparência nos indivíduos que não se encaixam nele, levando ao desenvolvimento de quadros depressivos e ansiosos (CARDOSO et al., 2020).
De acordo com Moromizato et al. (2017) o uso excessivo da internet ocasiona o mau gerenciamento do tempo, juntamente a prejuízos psicológicos, no qual interfere nos relacionamentos que o indivíduo possui. Como resultado desse quadro, acadêmicos tendem a se tornarem suscetíveis às variações de humor e doenças psíquicas. Uma análise realizada por Souza et al. (2019) afirma que há uma estreita relação entre o crescimento da depressão nos jovens e o aumento do tempo gasto em redes sociais, ocorrendo devido à grande “vitrine virtual” apresentada nas redes, onde são exibidas personalidades de sucesso.
A preocupação dos sistemas de saúde baseia-se no fato de que esses graves transtornos mentais costumam colocar em risco o bem-estar e a saúde das pessoas que os sofrem (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019). Um terço das mulheres no mundo têm sido vítimas desses problemas mentais em algum momento de suas vidas (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019). Se forem tratados de forma inadequada, podem desenvolver distúrbios clínicos graves (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019). Além disso, estima-se que muitas dessas pessoas com atitudes alimentares desordenadas lutam contra problemas prejudiciais à saúde e emocionais durante toda a vida (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019). Da população com atitudes alimentares desordenadas, 16% apresentam alimentação excessiva, 20% purgados por vômitos e 61% restrição alimentar (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019). Essas frequências mudaram com a idade, sendo a restrição alimentar mais comum em mulheres mais velhas e vômitos durante a adolescência (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019).
O advento da tecnologia nos últimos tempos e, principalmente, o início da pandemia do Covid-19 no ano de 2020, com a consequente necessidade do isolamento social, fez com que as relações no meio virtual passassem a se fazer mais presentes na vida das pessoas. Dessa forma, as redes sociais passaram a influenciar ainda mais os indivíduos, principalmente os jovens, tanto de forma positiva, quanto negativa.
Em relação aos aspectos positivos, elas facilitaram a comunicação, além de possibilitarem com que a rotina dos jovens, tanto estudantil quanto social, pudesse continuar de maneira remota. No entanto, esse aumento do contato com as mídias sociais intensificou ainda mais as comparações que os jovens realizam da sua própria imagem com padrões previamente impostos no Instagram, Twitter, Tiktok, dentre outras redes. Muitas vezes, esses padrões, como dito anteriormente, são inalcançáveis e geram ansiedade e problemas de autoestima, como o Transtorno Dismórfico Corporal. Além disso, o uso em excesso dessas mídias aumentou ainda mais as expectativas dos jovens com relação a boa aceitação de seus posts, sejam escritos, fotografias, ou vídeos, fato que também contribuiu para um aumento da prevalência de ansiedade nessa faixa etária.
Visto as complicações que permeiam a influência das mídias sociais em jovens, os dados reunidos nesse estudo serão de grande relevância no que tange o conhecimento e conscientização dessa faixa etária acerca da prevalência de ansiedade e distúrbios na autoestima e autoimagem pelo uso inadequado das redes sociais. Com relação a originalidade, não foram encontrados estudos relacionando o uso de mídias sociais com transtornos mentais, autoestima e autoimagem.
Diante desse cenário de cobrança e frustração dos jovens com suas autoimagens, o presente estudo verificou a influência das redes sociais na saúde mental, autoestima e autoimagem entre os universitários.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo analítico, observacional, transversal e quantitativo, realizado com acadêmicos dos cursos de direito e psicologia da Universidade Evangélica de Goiás – UniEVANGÉLICA. O estudo foi realizado na Universidade Evangélica de Goiás – UniEVANGÉLICA com acadêmicos dos cursos de Psicologia e Direito do Campus Anápolis entre os meses de agosto à dezembro de 2022.
A população da presente pesquisa totaliza 1049 e 541 alunos, dos cursos de Direito e Psicologia, respectivamente, matriculados regularmente na Universidade Evangélica de Goiás. O cálculo amostral foi realizado no G*Power 3.0 considerando o teste qui-quadrado, tamanho de efeito médio (0,3w), nível de significância 5%, considerou um poder amostral de 90, grau de liberdade 4, culminando em um tamanho amostral de 171). Foram considerados critérios de inclusão, estar matriculado nos cursos de Direito ou Psicologia da UniEvangélica e ter idade entre 18 e 29 anos. Foram considerados critérios de exclusão, o preenchimento inadequado dos questionários e o não uso de redes sociais.
Para realizar a coleta de dados, primeiramente, as secretarias dos cursos de Direito e Psicologia foram contatas afim de coletar a autorização do responsável no Termo de Anuência. Foi Solicitado junto à secretaria de ambos os cursos o contato dos representantes de turma, para que um encontro presencial fosse marcado, foi feita a explicação da importância e relevância do estudo e para que posteriormente fosse disponibilizado em massa os questionários via Google Forms, por Whatsapp, alcançando assim, o máximo de acadêmicos. Dessa forma, os participantes responderam em momento oportuno, de modo que o tempo necessário varia entre 7 a 10 minutos, em suas próprias casas, da forma como preferirem.
Foram aplicados 4 questionários ao total. O primeiro questionário denominado sociodemográfico foi aplicado com o objetivo de extrair o perfil e o padrão de uso das redes sociais da amostra. Então, foi aplicado o Inventário Beck de Ansiedade (BAI), o qual foi proposto por Beck e validado no Brasil por Cunha (2001) para avaliar os sintomas comuns de ansiedade. O BAI dispõe de uma lista de 21 sintomas comuns em quadros de ansiedade. Ao participante era dado quatro alternativas para que avaliasse o quanto foi incomodado por cada sintoma durante a semana que se passou. As alternativas variavam de 0 a 3 pontos. A soma dos escores identifica o nível de ansiedade, que avaliou grau mínimo de ansiedade (0 a 7 pontos), grau leve (8 a 15 pontos), grau moderado (16 a 25 pontos) e grau grave (26 a 63 pontos).
Em uma terceira etapa foi aplicado o Questionário de Atitudes Socioculturais em Relação à Aparência (SATAQ-4), validado no Brasil por Barra et al. (2019), o qual é composto por 30 questões, com respostas na forma de escala Likert de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente), com o objetivo de avaliar a influência da mídia em relação ao próprio corpo. O escore final é calculado pela soma das respostas, e a pontuação representa proporcionalmente a influência dos aspectos socioculturais na imagem corporal. Os itens do questionário englobam quatro formas de influência: internalização geral dos padrões socialmente, o ideal de corpo atlético, pressão exercida por esses padrões sobre a imagem corporal e mídia como fonte de informações sobre aparência. Logo, foi realizada uma avaliação de acordo com a adaptação de Gori (2017), onde a amostra foi subdividida em tercis de acordo com suas pontuações, de forma que o tercil 1, contendo 59 participantes, pontuou menos que 49, o tercil 2, contendo 57 participantes, pontuou entre 50 e 69 pontos, e o tercil 3, contendo 55 participantes, pontuou acima de 69 pontos.
Por fim, foi aplicado o Body Shape Questionnaire (BSQ), validado no Brasil por Silva et al. (2016). Esse instrumento possui 34 perguntas em escala Likert de pontos, variando de 1 (nunca) a 6 (sempre), com o objetivo de avaliar a preocupação com a forma e peso corporais. O questionário é composto de 34 questões que avaliam a preocupação com a imagem corporal. As pontuações analisadas foram: sem insatisfação, quando o escore total foi menor ou igual a 80; leve, quando o escore total foi maior que 80 e menor que ou igual a 110; moderado, quando o escore total foi maior que 11 e menor ou igual a 140; grave, quando a pontuação total é superior a 140.
A utilização concomitante do SATAQ-4 e do BSQ almeja associar a influência da mídia e a insatisfação corporal.
O projeto foi submetido ao comitê de ética seguindo as normas da RE 466/12 e foi aprovado com o número de parecer CAEE 5.592.487. Foi analisada a estatística descritiva e posteriormente a análise adequada do teste estatístico. Sendo realizadas comparações entre os cursos de direito e psicologia, de modo a verificar se houve diferenças estatisticamente significativas entre os jovens universitários avaliados. A partir das informações provenientes dos questionários dos discentes as seguintes variáveis serão analisadas: quantidade de universitários que sofrem a influência das mídias sociais em sua saúde mental, rede social de maior consumo, tempo de uso médio das mídias sociais por dia, distribuição dos impactos desse fenômeno entre os cursos de direito e psicologia, e, principais consequências decorrentes da influência dos meios de comunicação nos estudantes.
Foram utilizados, inicialmente, os recursos da estatística descritiva (média, desvio padrão e frequências). Para verificar a associação entre as variáveis foi utilizado teste de qui quadrado e correção Likelihood ratio. O nível de significância considerado foi <0,05 e os dados foram analisados no software Statistical Product and Service Solutions (SPSS) (IBM, versão 29, Nova York, 2022).
RESULTADOS E DISCUSSÕES
De acordo com os dados obtidos, no que se refere a idade, houve um predomínio entre a faixa etária de 18 a 20 anos (47,3%), seguida pela faixa etária de 21 a 23 anos (38%). No que tange à sexo, o percentual feminino (71,9%) foi superior ao masculino (28%). Já em relação aos cursos, Direito (57,3%) e Psicologia (42,6%) se mostraram próximos. (Tabela 1).
Tabela 1. Distribuição do perfil quanto à idade, sexo, curso e período dos jovens universitários (n=171).

Referente ao tempo médio de uso das redes sociais, constatou-se que a maioria dos participantes apresenta tempo de tela de 2 a 5 horas (49,1%), sendo que, a maior parte se enquadra em ansiedade leve (56,9%) (Tabela 2).
Tabela 2. Relação entre o tempo médio de uso das redes sociais e o grau de ansiedade avaliado pelo Inventário Beck de Ansiedade (n=171).

*Teste de Qui-quadrado (X2)(Correção likelihood ratio)=6,531. Dados para p<0,05.
Ao analisar a insatisfação corporal, a maior porcentagem concentra-se no grau mínimo, demonstrando assim uma baixa relevância entre o tempo de uso e o nível de insatisfação pelo próprio corpo entre os indivíduos (Tabela 3).
Tabela 3. Relação entre o tempo médio de uso das redes sociais e o grau de insatisfação corporal avaliado pelo Body Shape Questionnaire (n=171).

Na análise da pontuação do BSQ, observou-se relação significante de 76,3% daqueles que possuem grau mínimo de insatisfação corporal e não possuem ansiedade simultaneamente. Houve uma associação com o BSQ e o Inventário de Beck (p=0,004) (tabela 4).
Tabela 4. Relação entre o grau de insatisfação pelo Body Shape Questionnaire e o grau de ansiedade avaliado pelo Inventário Beck de Ansiedade (n=171)

*Teste de Qui-quadrado (X2)(Correção likelihood ratio)=21,740. Dados para p<0,05.
Na tabela 5, é demonstrada uma média geral dos escores obtidos no SATAQ-4 (62,7) e foi realizada a divisão da amostra em tercis. O tercil 1 (38,9) obteve as menores pontuações, com 59 participantes, sendo a parcela dos indivíduos menos influenciados em relação a sua aparência. O tercil 2, com 57 participantes, possui pontuações intermediárias (58,1) e o tercil 3 (90,4), com 55 participantes, apresentou as maiores pontuações.
Tabela 5. Média aritmética das pontuações no questionário de atitudes socioculturais em relação à aparência (SATAQ-4) em geral, e por tercil (n=171)

DP: desvio-padrão.
Na tabela 6, observa-se a relação entre o questionário de atitudes socioculturais através da aparência com o grau de ansiedade. Nota-se que o tercil 3, o grupo que sofre maior influência sobre sua aparência, apresentou ansiedade grave (42,9%). Embora à medida que o tercil aumenta identifica-se um crescimento no grau da ansiedade, não se observou relação estatisticamente significativa.
Tabela 6. Relação do questionário de atitudes socioculturais em relação a aparência (SATAQ 4) com o grau de ansiedade avaliado pelo Inventário Beck de ansiedade

*Teste de Qui-quadrado (X2)(Correção likelihood ratio)=21,740. Dados para p<0,05.
No que diz respeito ao perfil dos estudantes, houve predomínio da faixa etária entre 18 e 20 anos, do sexo feminino. A maior parte dos universitários apresentou tempo de tela de 2 a 5h e sua maioria demonstrou um grau de ansiedade leve. Notou-se que a relevância entre insatisfação corporal e tempo de uso de tela foi baixa, no entanto, houve uma alta relevância entre aqueles que apresentavam grau mínimo de insatisfação corporal e ausência de ansiedade simultaneamente. Por fim, observou-se que grande parte dos estudantes sofrem alguma influência sociocultural sobre sua aparência, sendo que o grupo que mais pontuou no questionário aplicado também apresentou sintomas de ansiedade grave.
Em relação ao tempo gasto nas redes sociais e a severidade de sintomas ansiosos, observou-se que a maior parte dos participantes apresentaram tempo médio de tela de 2 a 5 horas, sendo que, a maioria desses apresenta sintomas que se enquadram em ansiedade leve. Diversos estudos revelaram que a dependência da internet está relacionada com comorbidades psiquiátricas, entre as quais o transtorno de ansiedade (ABREU et al., 2008). De acordo com o estudo de Pinto (2022) os indivíduos que utilizaram as redes sociais por tempo prolongado apresentaram maior predisposição para desenvolver ansiedade.
Além disso, não foi possível estabelecer uma relação crescente entre tempo/gravidade dos sintomas ansiosos, uma vez que a maioria dos participantes apresentou tempo de tela de 2 a 5 horas e sua maior parte se enquadrou em ansiedade leve. Em contraposição, o estudo de Berryman, Fergunson e Negy (2017) demonstrou uma relação diretamente proporcional entre o uso das mídias sociais entre jovens adultos e sua relação com a severidade de diversos problemas de saúde mental, dentre eles, a ansiedade. Assim, não é possível concluir que há relação diretamente proporcional entre o uso das mídias sociais e o grau de ansiedade.
Observou-se que foi significante a presença de grau mínimo de insatisfação corporal e ausência de ansiedade concomitantes. O estudo de Lima et al. (2018) trouxe dados que foram de encontro a essa relação, uma vez que, dos estudantes entrevistados, 70% apresentavam insatisfação com a imagem corporal e a maioria desses foram classificados como prováveis de apresentar alguma característica de ansiedade.
Esta relação entre tempo de uso de tela e níveis de insatisfação corporal, foi observada que a maior parte dos estudantes estava concentrada em um grau mínimo de insatisfação corporal, demonstrando, assim, uma baixa relevância entre tempo de uso de mídias sociais e nível de insatisfação pela própria imagem. Um estudo realizado por Kim e Chock (2015) afirmou que o tempo gasto nas mídias sociais não está relacionado com preocupações na imagem corporal entre jovens adultos (18-25 anos). Lira et al. (2017), no entanto, trouxe que o acesso diário maior de 10 vezes ao dia ao Facebook e Instagram aumentou a chance de insatisfação corporal entre adolescentes em 6,57 e 4,47 vezes, respectivamente.
Por fim, mesmo que grande parte do grupo deste estudo sinta pouca influência da pressão sociocultural em sua aparência, é importante perceber que existe uma relação diretamente proporcional entre a influência sociocultural e o grau de ansiedade do indivíduo, ainda que esta realção não seja estatisticamente significativa. Essa relação vai ao encontro com o estudo de Cardoso et al. (2020), no qual a maior relevância da pressão social foi encontrada nos participantes diagnosticados com doenças psiquiátricas prévias. Isso se deve ao fato de que preocupações excessivas com a aparência, influenciadas socioculturalmente, geram distúrbios de imagem corporal que prejudicam o âmbito psicossocial do indivíduo (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2014).
No que tange os pontos positivos do presente estudo, pode-se ressaltar, principalmente, a precariedade de pesquisas que estabelecem uma relação entre o uso de mídias sociais e sua influência na saúde mental, autoestima e autoimagem de jovens universitários, demonstrando, assim, a relevância dessa mesma. Já em relação aos pontos negativos, notou-se que, na literatura, poucos estudos apresentam análises sobre o Questionário de Atitudes Socioculturais em Relação à Aparência (SATAQ-4), o que dificultou a discussão sobre o mesmo. Outro ponto de objeção foi a breve amostra de estudo, uma vez que o tempo de resposta aos questionários foi considerado longo pelos participantes no momento da coleta.
CONCLUSÃO
Foi possível concluir que o perfil sociodemográfico majoritário foi de jovens na faixa etária de 18-24 anos, sexo feminino. Além do mais foi analisado o padrão de uso das mídias sociais, destacando-se a correlação do tempo de uso com presença dos sintomas de ansiedade, sendo que 49.1% apresentam tempo de tela de 2-5 horas e dentre esses, 56,9% foram estratificados em ansiedade leve pelo Inventário Beck de Ansiedade. Referente a autoimagem e autoestima, avaliada pelo Body Shape Questionnaire, foi possível findar que o grau de insatisfação corporal predominante é mínimo, inclusive nos usuários mais assíduos, concluindo que não há relação direta entre tais variáveis. Em relação a influência cultural sobre a aparência física, avaliada pelo Questionário de Atitudes Socioculturais em Relação à Aparência (SATAQ 4), observou-se que a maior parte dos jovens já se sentiu pressionado em relação a própria imagem pela sociedade. O estudo concluiu que o tempo de uso de redes sociais não afeta o aparecimento de ansiedade em nenhum nível, e nem o grau de satisfação corporal. Entretanto o grau de satisfação está relacionado com o grau de ansiedade na amostra. Além disso, os fatores socioculturais influenciam os jovens participantes da pesquisa com relação a sua aparência, sem afetar o grau de ansiedade.
Destacam-se como limitações deste trabalho o tempo demandado para responder todos os questionários propostos, acarretando em uma baixa adesão dos participantes e consequentemente uma amostra menor. Além disso, não foram conduzidas perguntas diretas à população em análise sobre os conteúdos mais acessados, com informações limitadas ao que se refere a questões mais subjetivas do padrão de uso das redes sociais.
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1Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Evangélica do Estado de Goiás.
2Docente do Curso Superior de Medicina da Universidade Evangélica do Estado de Goiás. Doutora em Ciências da Saúde pela National University of Ireland, Galway. e-mail: andmoreirasil@hotmail.com
