INFLUÊNCIA DAS REDES SOCIAIS NA SAÚDE MENTAL,  AUTOESTIMA E AUTOIMAGEM DE JOVENS UNIVERSITÁRIOS 

THE INFLUENCE OF SOCIAL NETWORKS ON MENTAL HEALTH,  SELF-ESTEEM AND SELF-IMAGE OF YOUNG UNIVERSITY  STUDENTS 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510171355


Ana Laura Silveira Abadia; Ana Julia Lemos Fernandes; Beatriz Campos; Bruna Vieira  Castro; Camila Marques Lacerda; Scarleth Reis de Santos Oliveira1; Andreia Moreira da Silva Santos2


RESUMO 

A autoimagem corresponde a um fenômeno psíquico que atua na construção da imagem do indivíduo  pelas suas relações interpessoais e interações com o mundo. A percepção da própria imagem influencia  o comportamento e a autoestima dos jovens. Nesse contexto, este estudo objetivou verificar a influência  das redes sociais na saúde mental, autoestima e autoimagem entre universitários. Trata-se de um estudo  descritivo, observacional e transversal, com análise de dados por aplicação de questionário  sociodemográfico, Inventário de Beck de Ansiedade (BAI), Questionário de Atitudes Socioculturais em  Relação à Aparência (SATAQ-4) e Body Shape Questionnaire (BSQ). O perfil sociodemográfico da  amostra corresponde a faixa etária entre 18 a 24 anos e sexo feminino. Com relação à saúde mental e ao uso das mídias sociais, a maioria (49,1%) apresentou tempo de uso entre 2 a 5 horas por dia, sendo que a maior parte se enquadra em ansiedade leve (56,9%), entretanto não houve relação de significância  entre tempo nas mídias e grau de ansiedade. Ao analisar insatisfação corporal, a maioria concentra-se  no grau mínimo (83%), e a maior parte com tempo de tela entre 2 a 5 horas (49,8% da amostra),  demonstrando baixa relevância entre tempo de uso e nível de insatisfação corporal. No entanto, houve  relação significativa entre aqueles com mínima insatisfação corporal e sem ansiedade (p<0,05). Quanto  a autoimagem, observou-se que os que mais sofrem influência sociocultural sobre sua aparência  apresentaram média de score 90±13, mas essa influência não causa relação significativa com ansiedade.  O estudo concluiu que o tempo de uso das mídias não afeta o aparecimento de ansiedade em nenhum  nível e nem o grau de satisfação corporal. Entretanto, o grau de satisfação está relacionado com o grau  de ansiedade na amostra. Por fim, os fatores socioculturais influenciam os participantes com relação a  aparência, sem afetar o grau de ansiedade. 

Palavras-chave: Autoimagem. Mídias sociais. Saúde mental. 

ABSTRACT 

Self-image is a psychological phenomenon that influences the construction of an individual’s image  through their interpersonal relationships and interactions with the world. Self-image perception  influences young people’s behavior and self-esteem. In this context, this study aimed to assess the  influence of social media on mental health, self-esteem, and self-image among university students. This  is a descriptive, observational, and cross-sectional study, with data analysis using a sociodemographic  questionnaire, the Beck Anxiety Inventory (BAI), the Sociocultural Attitudes Toward Appearance  Questionnaire (SATAQ-4), and the Body Shape Questionnaire (BSQ). The sociodemographic profile of  the sample corresponds to the 18-24 age group and female gender. Regarding mental health and social  media use, the majority (49.1%) reported screen time between 2 and 5 hours per day, with the majority  having mild anxiety (56.9%). However, there was no significant relationship between media time and  anxiety. When analyzing body dissatisfaction, the majority (83%) had minimal screen time, with the  majority (49.8% of the sample) between 2 and 5 hours of screen time, demonstrating low correlation  between screen time and body dissatisfaction. However, there was a significant relationship between  those with minimal body dissatisfaction and those without anxiety (p<0.05). Regarding self-image, it  was observed that those most affected by sociocultural influence on their appearance had an average  score of 90±13, but this influence did not significantly correlate with anxiety. The study concluded that  media use time did not affect the onset of anxiety at any level or the level of body satisfaction. However,  the level of satisfaction was related to the level of anxiety in the sample. Finally, sociocultural factors  influence participant’s appearance without affecting their level of anxiety.  

Keywords: Self-image. Social media. Mental health.

INTRODUÇÃO 

 As mídias sociais se tornaram uma ferramenta imprescindível para a construção da  comunicação e da autoimagem dos indivíduos, especialmente dos jovens (FIALHO, SOUSA,  2019). O rigoroso padrão imposto coage o jovem a se moldar através de aplicativos e  propagandas a fim de alcançar um modelo estereotipado e fictício exposto nas mídias. Como  consequência, a frustração e a insatisfação com a autoimagem se elevam, devido a incapacidade  de alcançar as exigências necessárias para a aceitação social (BRUNELLI et al., 2019).  

A praticidade do acesso às postagens nas redes e o seu alto alcance sobre os usuários,  gera no jovem uma percepção de segurança social, processo denominado “busca pela  reafirmação”. Entretanto, esse processo é dicotômico, isto é, pode fornecer confiança, porém  também é capaz de amplificar no indivíduo uma sensação de angústia aliada a uma diminuição  da socialização (MOROMIZATO et al., 2017). 

Essa dicotomia, por vezes, manifesta-se como consequência das grandes mudanças  emocionais, sociais, familiares, físicas, sexuais e econômicas próprias da juventude (PENSO, SENA, 2019). Inicia-se o momento em que o sujeito se depara com o sentido de sua existência:  o fim do ensino médio, a escolha da carreira profissional, o ingresso na faculdade, a separação  da família, o desenvolvimento da vida social, afetiva, da autoestima, a individualização, as  responsabilidades financeiras, dentre outros fatores específicos marcantes da transição entre o  final da adolescência e início da vida adulta (PENSO, SENA, 2019). Com isso, há uma  predisposição nessa faixa etária para o adoecimento mental, com surgimento da depressão e  ansiedade, relacionadas inclusive à pensamentos suicidas (PENSO, SENA, 2019). 

Além disso, a sociedade contemporânea, principalmente por meio das mídias sociais, vem  impondo um padrão estético em que há supervalorização de corpos magros ou musculosos  (CARDOSO et al., 2020). Esse padrão vem desencadeando situações de quadros de  inferioridade e insatisfação com a própria aparência nos indivíduos que não se encaixam nele,  levando ao desenvolvimento de quadros depressivos e ansiosos (CARDOSO et al., 2020).  

De acordo com Moromizato et al. (2017) o uso excessivo da internet ocasiona o mau  gerenciamento do tempo, juntamente a prejuízos psicológicos, no qual interfere nos relacionamentos que o indivíduo possui. Como resultado desse quadro, acadêmicos tendem a  se tornarem suscetíveis às variações de humor e doenças psíquicas. Uma análise realizada por Souza et al. (2019) afirma que há uma estreita relação entre o crescimento da depressão nos  jovens e o aumento do tempo gasto em redes sociais, ocorrendo devido à grande “vitrine virtual”  apresentada nas redes, onde são exibidas personalidades de sucesso. 

A preocupação dos sistemas de saúde baseia-se no fato de que esses graves transtornos  mentais costumam colocar em risco o bem-estar e a saúde das pessoas que os sofrem  (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019). Um terço das mulheres no mundo têm sido vítimas  desses problemas mentais em algum momento de suas vidas (APARICIO-MARTINEZ et al.,  2019). Se forem tratados de forma inadequada, podem desenvolver distúrbios clínicos graves  (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019). Além disso, estima-se que muitas dessas pessoas com  atitudes alimentares desordenadas lutam contra problemas prejudiciais à saúde e emocionais  durante toda a vida (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019). Da população com atitudes  alimentares desordenadas, 16% apresentam alimentação excessiva, 20% purgados por vômitos  e 61% restrição alimentar (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019). Essas frequências mudaram  com a idade, sendo a restrição alimentar mais comum em mulheres mais velhas e vômitos  durante a adolescência (APARICIO-MARTINEZ et al., 2019). 

O advento da tecnologia nos últimos tempos e, principalmente, o início da pandemia do  Covid-19 no ano de 2020, com a consequente necessidade do isolamento social, fez com que  as relações no meio virtual passassem a se fazer mais presentes na vida das pessoas. Dessa  forma, as redes sociais passaram a influenciar ainda mais os indivíduos, principalmente os  jovens, tanto de forma positiva, quanto negativa.  

Em relação aos aspectos positivos, elas facilitaram a comunicação, além de  possibilitarem com que a rotina dos jovens, tanto estudantil quanto social, pudesse continuar de  maneira remota. No entanto, esse aumento do contato com as mídias sociais intensificou ainda  mais as comparações que os jovens realizam da sua própria imagem com padrões previamente  impostos no Instagram, Twitter, Tiktok, dentre outras redes. Muitas vezes, esses padrões, como  dito anteriormente, são inalcançáveis e geram ansiedade e problemas de autoestima, como o  Transtorno Dismórfico Corporal. Além disso, o uso em excesso dessas mídias aumentou ainda  mais as expectativas dos jovens com relação a boa aceitação de seus posts, sejam escritos,  fotografias, ou vídeos, fato que também contribuiu para um aumento da prevalência de  ansiedade nessa faixa etária.

Visto as complicações que permeiam a influência das mídias sociais em jovens, os dados  reunidos nesse estudo serão de grande relevância no que tange o conhecimento e  conscientização dessa faixa etária acerca da prevalência de ansiedade e distúrbios na autoestima  e autoimagem pelo uso inadequado das redes sociais. Com relação a originalidade, não foram  encontrados estudos relacionando o uso de mídias sociais com transtornos mentais, autoestima  e autoimagem. 

Diante desse cenário de cobrança e frustração dos jovens com suas autoimagens, o  presente estudo verificou a influência das redes sociais na saúde mental, autoestima e  autoimagem entre os universitários. 

METODOLOGIA  

Trata-se de um estudo analítico, observacional, transversal e quantitativo, realizado com  acadêmicos dos cursos de direito e psicologia da Universidade Evangélica de Goiás – UniEVANGÉLICA. O estudo foi realizado na Universidade Evangélica de Goiás – UniEVANGÉLICA com acadêmicos dos cursos de Psicologia e Direito do Campus Anápolis  entre os meses de agosto à dezembro de 2022.  

A população da presente pesquisa totaliza 1049 e 541 alunos, dos cursos de Direito e  Psicologia, respectivamente, matriculados regularmente na Universidade Evangélica de Goiás.  O cálculo amostral foi realizado no G*Power 3.0 considerando o teste qui-quadrado, tamanho  de efeito médio (0,3w), nível de significância 5%, considerou um poder amostral de 90, grau  de liberdade 4, culminando em um tamanho amostral de 171). Foram considerados critérios de  inclusão, estar matriculado nos cursos de Direito ou Psicologia da UniEvangélica e ter idade  entre 18 e 29 anos. Foram considerados critérios de exclusão, o preenchimento inadequado dos  questionários e o não uso de redes sociais. 

Para realizar a coleta de dados, primeiramente, as secretarias dos cursos de Direito e  Psicologia foram contatas afim de coletar a autorização do responsável no Termo de Anuência.  Foi Solicitado junto à secretaria de ambos os cursos o contato dos representantes de turma, para  que um encontro presencial fosse marcado, foi feita a explicação da importância e relevância  do estudo e para que posteriormente fosse disponibilizado em massa os questionários via  Google Forms, por Whatsapp, alcançando assim, o máximo de acadêmicos. Dessa forma, os participantes responderam em momento oportuno, de modo que o tempo necessário varia entre  7 a 10 minutos, em suas próprias casas, da forma como preferirem.  

Foram aplicados 4 questionários ao total. O primeiro questionário denominado  sociodemográfico foi aplicado com o objetivo de extrair o perfil e o padrão de uso das redes  sociais da amostra. Então, foi aplicado o Inventário Beck de Ansiedade (BAI), o qual foi  proposto por Beck e validado no Brasil por Cunha (2001) para avaliar os sintomas comuns de  ansiedade. O BAI dispõe de uma lista de 21 sintomas comuns em quadros de ansiedade. Ao  participante era dado quatro alternativas para que avaliasse o quanto foi incomodado por cada  sintoma durante a semana que se passou. As alternativas variavam de 0 a 3 pontos. A soma dos  escores identifica o nível de ansiedade, que avaliou grau mínimo de ansiedade (0 a 7 pontos),  grau leve (8 a 15 pontos), grau moderado (16 a 25 pontos) e grau grave (26 a 63 pontos). 

Em uma terceira etapa foi aplicado o Questionário de Atitudes Socioculturais em  Relação à Aparência (SATAQ-4), validado no Brasil por Barra et al. (2019), o qual é composto  por 30 questões, com respostas na forma de escala Likert de 1 (discordo totalmente) a 5  (concordo totalmente), com o objetivo de avaliar a influência da mídia em relação ao próprio  corpo. O escore final é calculado pela soma das respostas, e a pontuação representa  proporcionalmente a influência dos aspectos socioculturais na imagem corporal. Os itens do  questionário englobam quatro formas de influência: internalização geral dos padrões  socialmente, o ideal de corpo atlético, pressão exercida por esses padrões sobre a imagem  corporal e mídia como fonte de informações sobre aparência. Logo, foi realizada uma avaliação  de acordo com a adaptação de Gori (2017), onde a amostra foi subdividida em tercis de acordo  com suas pontuações, de forma que o tercil 1, contendo 59 participantes, pontuou menos que  49, o tercil 2, contendo 57 participantes, pontuou entre 50 e 69 pontos, e o tercil 3, contendo 55  participantes, pontuou acima de 69 pontos. 

Por fim, foi aplicado o Body Shape Questionnaire (BSQ), validado no Brasil por Silva  et al. (2016). Esse instrumento possui 34 perguntas em escala Likert de pontos, variando de 1  (nunca) a 6 (sempre), com o objetivo de avaliar a preocupação com a forma e peso corporais.  O questionário é composto de 34 questões que avaliam a preocupação com a imagem corporal.  As pontuações analisadas foram: sem insatisfação, quando o escore total foi menor ou igual a  80; leve, quando o escore total foi maior que 80 e menor que ou igual a 110; moderado, quando  o escore total foi maior que 11 e menor ou igual a 140; grave, quando a pontuação total é  superior a 140. 

A utilização concomitante do SATAQ-4 e do BSQ almeja associar a influência da mídia  e a insatisfação corporal.  

O projeto foi submetido ao comitê de ética seguindo as normas da RE 466/12 e foi  aprovado com o número de parecer CAEE 5.592.487. Foi analisada a estatística descritiva e  posteriormente a análise adequada do teste estatístico. Sendo realizadas comparações entre os  cursos de direito e psicologia, de modo a verificar se houve diferenças estatisticamente  significativas entre os jovens universitários avaliados. A partir das informações provenientes  dos questionários dos discentes as seguintes variáveis serão analisadas: quantidade de  universitários que sofrem a influência das mídias sociais em sua saúde mental, rede social de  maior consumo, tempo de uso médio das mídias sociais por dia, distribuição dos impactos desse  fenômeno entre os cursos de direito e psicologia, e, principais consequências decorrentes da  influência dos meios de comunicação nos estudantes.  

Foram utilizados, inicialmente, os recursos da estatística descritiva (média, desvio  padrão e frequências). Para verificar a associação entre as variáveis foi utilizado teste de qui quadrado e correção Likelihood ratio. O nível de significância considerado foi <0,05 e os dados  foram analisados no software Statistical Product and Service Solutions (SPSS) (IBM, versão  29, Nova York, 2022).  

RESULTADOS E DISCUSSÕES  

 De acordo com os dados obtidos, no que se refere a idade, houve um predomínio entre  a faixa etária de 18 a 20 anos (47,3%), seguida pela faixa etária de 21 a 23 anos (38%). No que  tange à sexo, o percentual feminino (71,9%) foi superior ao masculino (28%). Já em relação  aos cursos, Direito (57,3%) e Psicologia (42,6%) se mostraram próximos. (Tabela 1). 

Tabela 1. Distribuição do perfil quanto à idade, sexo, curso e período dos jovens universitários (n=171). 

Referente ao tempo médio de uso das redes sociais, constatou-se que a maioria dos  participantes apresenta tempo de tela de 2 a 5 horas (49,1%), sendo que, a maior parte se  enquadra em ansiedade leve (56,9%) (Tabela 2). 

Tabela 2. Relação entre o tempo médio de uso das redes sociais e o grau de ansiedade avaliado  pelo Inventário Beck de Ansiedade (n=171). 

*Teste de Qui-quadrado (X2)(Correção likelihood ratio)=6,531. Dados para p<0,05. 

Ao analisar a insatisfação corporal, a maior porcentagem concentra-se no grau  mínimo, demonstrando assim uma baixa relevância entre o tempo de uso e o nível de  insatisfação pelo próprio corpo entre os indivíduos (Tabela 3). 

Tabela 3. Relação entre o tempo médio de uso das redes sociais e o grau de insatisfação  corporal avaliado pelo Body Shape Questionnaire (n=171). 

Na análise da pontuação do BSQ, observou-se relação significante de 76,3% daqueles  que possuem grau mínimo de insatisfação corporal e não possuem ansiedade simultaneamente.  Houve uma associação com o BSQ e o Inventário de Beck (p=0,004) (tabela 4). 

Tabela 4. Relação entre o grau de insatisfação pelo Body Shape Questionnaire e o grau de  ansiedade avaliado pelo Inventário Beck de Ansiedade (n=171) 

*Teste de Qui-quadrado (X2)(Correção likelihood ratio)=21,740. Dados para p<0,05. 

Na tabela 5, é demonstrada uma média geral dos escores obtidos no SATAQ-4 (62,7)  e foi realizada a divisão da amostra em tercis. O tercil 1 (38,9) obteve as menores pontuações,  com 59 participantes, sendo a parcela dos indivíduos menos influenciados em relação a sua aparência. O tercil 2, com 57 participantes, possui pontuações intermediárias (58,1) e o tercil 3  (90,4), com 55 participantes, apresentou as maiores pontuações.  

Tabela 5. Média aritmética das pontuações no questionário de atitudes socioculturais em  relação à aparência (SATAQ-4) em geral, e por tercil (n=171) 

DP: desvio-padrão. 

Na tabela 6, observa-se a relação entre o questionário de atitudes socioculturais  através da aparência com o grau de ansiedade. Nota-se que o tercil 3, o grupo que sofre maior  influência sobre sua aparência, apresentou ansiedade grave (42,9%). Embora à medida que o  tercil aumenta identifica-se um crescimento no grau da ansiedade, não se observou relação  estatisticamente significativa.  

Tabela 6. Relação do questionário de atitudes socioculturais em relação a aparência (SATAQ 4) com o grau de ansiedade avaliado pelo Inventário Beck de ansiedade

*Teste de Qui-quadrado (X2)(Correção likelihood ratio)=21,740. Dados para p<0,05. 

No que diz respeito ao perfil dos estudantes, houve predomínio da faixa etária entre 18 e  20 anos, do sexo feminino. A maior parte dos universitários apresentou tempo de tela de 2 a 5h e sua maioria demonstrou um grau de ansiedade leve. Notou-se que a relevância entre  insatisfação corporal e tempo de uso de tela foi baixa, no entanto, houve uma alta relevância  entre aqueles que apresentavam grau mínimo de insatisfação corporal e ausência de ansiedade simultaneamente. Por fim, observou-se que grande parte dos estudantes sofrem alguma  influência sociocultural sobre sua aparência, sendo que o grupo que mais pontuou no  questionário aplicado também apresentou sintomas de ansiedade grave. 

Em relação ao tempo gasto nas redes sociais e a severidade de sintomas ansiosos,  observou-se que a maior parte dos participantes apresentaram tempo médio de tela de 2 a 5 horas, sendo que, a maioria desses apresenta sintomas que se enquadram em ansiedade leve.  Diversos estudos revelaram que a dependência da internet está relacionada com comorbidades  psiquiátricas, entre as quais o transtorno de ansiedade (ABREU et al., 2008). De acordo com o  estudo de Pinto (2022) os indivíduos que utilizaram as redes sociais por tempo prolongado  apresentaram maior predisposição para desenvolver ansiedade. 

Além disso, não foi possível estabelecer uma relação crescente entre tempo/gravidade  dos sintomas ansiosos, uma vez que a maioria dos participantes apresentou tempo de tela de 2  a 5 horas e sua maior parte se enquadrou em ansiedade leve. Em contraposição, o estudo de  Berryman, Fergunson e Negy (2017) demonstrou uma relação diretamente proporcional entre  o uso das mídias sociais entre jovens adultos e sua relação com a severidade de diversos  problemas de saúde mental, dentre eles, a ansiedade. Assim, não é possível concluir que há  relação diretamente proporcional entre o uso das mídias sociais e o grau de ansiedade.  

Observou-se que foi significante a presença de grau mínimo de insatisfação corporal  e ausência de ansiedade concomitantes. O estudo de Lima et al. (2018) trouxe dados que foram  de encontro a essa relação, uma vez que, dos estudantes entrevistados, 70% apresentavam  insatisfação com a imagem corporal e a maioria desses foram classificados como prováveis de  apresentar alguma característica de ansiedade.  

 Esta relação entre tempo de uso de tela e níveis de insatisfação corporal, foi observada que a maior parte dos estudantes estava concentrada em um grau mínimo de insatisfação  corporal, demonstrando, assim, uma baixa relevância entre tempo de uso de mídias sociais e  nível de insatisfação pela própria imagem. Um estudo realizado por Kim e Chock (2015)  afirmou que o tempo gasto nas mídias sociais não está relacionado com preocupações na  imagem corporal entre jovens adultos (18-25 anos). Lira et al. (2017), no entanto, trouxe que o  acesso diário maior de 10 vezes ao dia ao Facebook e Instagram aumentou a chance de  insatisfação corporal entre adolescentes em 6,57 e 4,47 vezes, respectivamente.  

Por fim, mesmo que grande parte do grupo deste estudo sinta pouca influência da  pressão sociocultural em sua aparência, é importante perceber que existe uma relação  diretamente proporcional entre a influência sociocultural e o grau de ansiedade do indivíduo,  ainda que esta realção não seja estatisticamente significativa. Essa relação vai ao encontro com  o estudo de Cardoso et al. (2020), no qual a maior relevância da pressão social foi encontrada  nos participantes diagnosticados com doenças psiquiátricas prévias. Isso se deve ao fato de que preocupações excessivas com a aparência, influenciadas socioculturalmente, geram distúrbios  de imagem corporal que prejudicam o âmbito psicossocial do indivíduo (ASSOCIAÇÃO  AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2014). 

No que tange os pontos positivos do presente estudo, pode-se ressaltar,  principalmente, a precariedade de pesquisas que estabelecem uma relação entre o uso de mídias sociais e sua influência na saúde mental, autoestima e autoimagem de jovens universitários,  demonstrando, assim, a relevância dessa mesma. Já em relação aos pontos negativos, notou-se  que, na literatura, poucos estudos apresentam análises sobre o Questionário de Atitudes  Socioculturais em Relação à Aparência (SATAQ-4), o que dificultou a discussão sobre o  mesmo. Outro ponto de objeção foi a breve amostra de estudo, uma vez que o tempo de resposta  aos questionários foi considerado longo pelos participantes no momento da coleta. 

CONCLUSÃO 

Foi possível concluir que o perfil sociodemográfico majoritário foi de jovens na faixa  etária de 18-24 anos, sexo feminino. Além do mais foi analisado o padrão de uso das mídias  sociais, destacando-se a correlação do tempo de uso com presença dos sintomas de ansiedade,  sendo que 49.1% apresentam tempo de tela de 2-5 horas e dentre esses, 56,9% foram  estratificados em ansiedade leve pelo Inventário Beck de Ansiedade. Referente a autoimagem  e autoestima, avaliada pelo Body Shape Questionnaire, foi possível findar que o grau de  insatisfação corporal predominante é mínimo, inclusive nos usuários mais assíduos, concluindo  que não há relação direta entre tais variáveis. Em relação a influência cultural sobre a aparência  física, avaliada pelo Questionário de Atitudes Socioculturais em Relação à Aparência (SATAQ 4), observou-se que a maior parte dos jovens já se sentiu pressionado em relação a própria  imagem pela sociedade. O estudo concluiu que o tempo de uso de redes sociais não afeta o  aparecimento de ansiedade em nenhum nível, e nem o grau de satisfação corporal. Entretanto o  grau de satisfação está relacionado com o grau de ansiedade na amostra. Além disso, os fatores  socioculturais influenciam os jovens participantes da pesquisa com relação a sua aparência, sem  afetar o grau de ansiedade. 

Destacam-se como limitações deste trabalho o tempo demandado para responder  todos os questionários propostos, acarretando em uma baixa adesão dos participantes e consequentemente uma amostra menor. Além disso, não foram conduzidas perguntas diretas à  população em análise sobre os conteúdos mais acessados, com informações limitadas ao que se  refere a questões mais subjetivas do padrão de uso das redes sociais. 

REFERÊNCIAS 

ABREU, C. N. et al. Dependência de internet e de jogos eletrônicos. Revista Brasileira  Psiquiátrica, v. 30 n. 2, p. 156-167, 2008. 

ALMEIDA, M. I. S. et al. Quem lidera sua opinião? Influência dos formadores de opinião  digitais no engajamento. Revista de Administração Contemporânea, v. 22, n. 1, p. 115-137,  2018. 

APARICIO-MARTINEZ, P. et al. Social Media, Thin-Ideal, Body Dissatisfaction and  Disordered Eating Attitudes: An Exploratory Analysis. International Journal of  Environmental Research and Public Health, v. 16, p.1-16, 2019. 

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual Diagnóstico e Estatístico de  Transtornos Mentais. Rev: DSM-IV-TRTM. Trad.: Cláudia Dornelles. Porto Alegre: Artmed;  2014. 

BARRA, J. V. et al. Adaptação transcultural e validação do questionário de atitudes  socioculturais em relação à aparência-4 (SATAQ-4) aplicado a estudantes universitários.  Cadernos de Saúde Pública, v. 35, n. 5, 2019.  

BERRYMAN, C.; FERGUNSON, C. J.; NEGY, C. Use of social media and mental health  among young adults. Psychiatry Q, 2017.  

BRUNELLI, P. B.; AMARAL, S. C. S.; SILVA, P. A. I. F. Autoestima alimentada por “likes”:  uma análise sobre a influência da indústria cultural na busca pela beleza e o protagonismo da  imagem nas redes sociais. Revista Philologus, v. 25, n. 53, p. 226-236, 2019. 

CARDOSO, L. et al. Insatisfação com a imagem corporal e fatores associados em estudantes  universitários. Jornal Brasileiro de Psiquiatria v. 69, n. 3, p. 156-164, 2020. 

CONRADO, L. A. Transtorno dismórfico corporal em dermatologia: diagnóstico,  epidemiologia e aspectos clínicos. Anais Brasileiros de Dermatologia v. 84, n. 6, p. 569-581,  2009. 

COSTA, C. O. et al. Prevalência de ansiedade fatores associados em adultos. Jornal Brasileiro  de Psiquiatria, v.68, n.2, p. 92-100, 2019. 

CUNHA, J. A. Manual da versão em português das escalas Beck. Casa do Psicólogo, 2001. 

FIALHO, L. M. F.; SOUSA, F. G. A de. Juventudes e redes sociais: interações e orientações  educacionais. Revista Exitus, v. 9, n. 1, p. 202-231, 2019.

GORI, M. Conhecimentos, crenças, atitudes e comportamentos relacionados ao controle  de peso de professoras de escolas privadas de São Paulo – SP. Orientadora: Renata Furlan  Viebig. 2017. 94 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Nutrição) – Centro Universitário São  Camilo, São Paulo, 2017. 

KARIM, F. et al. Social media use and its connection to mental health: a systematic review.  Cureus, v. 12, n. 6, 2020. 

KIM, J. W.; CHOCK, T. M. Imagem corporal 2.0: Associações entre o aliciamento social no  Facebook e as preocupações com a imagem corporal. Computadores no comportamento  humano, v. 48, p. 331-339, 2015. 

LIMA, L. S. O. et al. Nível de satisfação com a imagem corporal, sintomas de ansiedade e  depressão de estudantes do curso de Educação Física em Teresina/PI. Fisiologia do Exercício,  v. 17, n.4, 2018.  

LIRA, A. G. et al. Uso de redes sociais, influência da mídia e insatisfação com a imagem  corporal de adolescentes brasileiras. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 66, p. 164-171, 2017. 

MOROMIZATO, M. S. et al. O uso de internet e redes sociais e a relação com índices de  ansiedade e depressão em estudantes de medicina. Revista Brasileira de Educação Médica,  v.4, n.4, 2017. 

OLIVEIRA, M. R.; MACHADO, J. S. A. O insustentável peso da autoimagem: (re)apresentações na sociedade do espetáculo. Ciência & Saúde Coletiva, v. 25, n. 7, p. 2663- 2672, 2021. 

O’REILLY, M. et al. “Is social media bad for mental health and wellbeing? Exploring the  perspectives of adolescents.” Clinical Child Psychology and Psychiatry, v. 23, n.4, p. 601- 613, 2018. 

ORGANIZAÇÃO PAN AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Transtornos mentais. Brasil,  2021. 

PENSO, M. A.; SENA, D. P. A. A Desesperança do jovem e o suicídio como solução. Revista  Sociedade e Estado, v. 35, n. 1, 2020. 

PETROSKI, E. L., PELEGRINI, A., GLANER, M. F. Motivos e prevalência de insatisfação  com a imagem corporal em adolescentes. Ciência & Saúde Coletiva v. 17, n. 4, p.1071-1077.  2012.  

PINTO, A. R. A. Ansiedade, ansiedade social e autoestima em utilizadores de redes sociais.  Orientadora: Professora Doutora Joana Brites Rosa. 2022. 65 f. Dissertação (Mestrado em  Psicologia Clínica e da Saúde – Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa,  2022. 

PINTO, C. et al. Ansiedade, depressão e estresse: um estudo com jovens adultos e aultos  portugueses. Psicologia, Saúde e Doenças, v. 16, n. 2, p. 148-163, 2015. 

SEABROOK, E. M.; KERN, M. L.; RICARD, N. S. Social networing sites, depression and  anxiety: a systematic review. Journal of Medical Internet Research Mental Health, v. 3, n.  4, 2016.  

SILVA, M. da C. A relação entre redes sociais e autoestima. Revista Ibero-Americana de  Humanidades, Ciências e Educação, v. 7, n. 4, 2021. 

SILVA, W. R. et al. Psychometric evaluation of a unified Portuguese-language version of the  Body Shape Questionnaire in female university students. Cadernos de Saúde Pública, v.32,  n.7, p.1-13, 2016. 

SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA PLÁSTICA. Dicionário de A a Z: termos e  palavras referentes à cirurgia plástica. 2008. Disponível em:  http://www.cirurgiaplastica.org.br/dic/dicionario.html. 

SOUSA, S. F.; GONÇALVES, B. O Cyberbullying nas Redes Sociais: um problema de todos?  Revista EducaOnline, v. 15, n. 1, p. 175-191, 2021. 

SOUZA, K.; CUNHA, M. X. C. da. Impactos do uso das redes sociais virtuais na saúde mental  dos adolescentes: uma revisão sistemática da literatura. Revista Educação, Psicologia e  Interfaces, v. 3, n. 3, p. 204-2017, 2019.


1Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Evangélica do Estado de Goiás.
2Docente do Curso Superior de Medicina da Universidade Evangélica do Estado de Goiás. Doutora em Ciências  da Saúde pela National University of Ireland, Galway. e-mail: andmoreirasil@hotmail.com