IGREJAS BATISTAS EM FOZ DO IGUAÇU: UMA CHAMA DE ESPERANÇA CONTRA A XENOFOBIA E EM FAVOR DO  CONFORTO DO MIGRANTE NA TRÍPLICE FRONTEIRA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509251733


Sérgio Aparecido Alfonso1


RESUMO

O presente trabalho começa com um breve diagnóstico da presença dos migrantes estrangeiros na região trinacional, a circulação de pessoas, mercadorias, produtos e serviços, bem como as trocas que ocorrem nesta localidade. Em seguida faz uma análise sobre a atuação das igrejas evangélicas na Tríplice Fronteira no que se refere à presença de migrantes estrangeiros do lado brasileiro na cidade de Foz do Iguaçu, através do testemunho de pastores das igrejas Batistas. O objetivo principal era conhecer a forma como essas instituições agem frente às necessidades desse público. Foi usado um questionário dirigido para pastores. Dado o grande número de organizações religiosas, foi selecionada a denominação Batista e dela foi solicitado a participação de três pastores voluntários para responder sobre a presença de estrangeiros em meio à sua membresia e a forma de trabalho de suas respectivas igrejas diretamente com os migrantes das diferentes nacionalidades. Pretendeu-se entender como essas pessoas são abordadas, como se achegam às igrejas, o status em que se encontram, o que fazem para amenizar o sofrimento dos estrangeiros com quem fazem contato no que se refere às discriminações, por exemplo, a xenofobia. Além disso, saber como proceder para fazer a integração nas igrejas, promovendo a aceitação e interação entre os brasileiros e os estrangeiros frequentadores. Se esses migrantes possuem alguma responsabilidade tais como, função ou cargo eclesiástico. Como suas necessidades materiais são atendidas, que tipo de apoio a igreja dá para que os estrangeiros possam se inserir na sociedade, acessar serviços públicos, se adaptar à região.

Palavras-chave: Igreja, interação, xenofobia, fronteira.

RESUMEN

Este trabajo comienza con un breve diagnóstico de la presencia de migrantes extranjeros en la región trinacional, la circulación de personas, mercancías, productos y servicios, así como los intercambios que ocurren en esta localidad. A continuación, se realiza un análisis sobre la actuación de las iglesias evangélicas en la Triple Frontera en lo que respecta a la presencia de migrantes extranjeros del lado brasileño en la ciudad de Foz do Iguaçu, a través del testimonio de pastores de las iglesias Baptistas. El objetivo principal era conocer la forma en que estas instituciones actúan frente a las necesidades de este público. Se utilizó un cuestionario dirigido a pastores. Dado el gran número de organizaciones religiosas, se seleccionó la denominación Baptista y se solicitó la participación de tres pastores voluntarios para responder sobre la presencia de extranjeros en medio de su membresía y la forma de trabajo de sus respectivas iglesias directamente con los migrantes de diferentes nacionalidades. Se pretendía entender cómo estas personas. Son abordadas, cómo se acercan a las iglesias, el estatus en el que se encuentran, qué hacen para aliviar el sufrimiento de los extranjeros con quienes contactan en cuanto a las discriminaciones, por ejemplo, la xenofobia. Además, se debe saber cómo proceden para integrar en las iglesias, promoviendo la aceptación y la interacción entre brasileños y extranjeros que asisten. Si estos migrantes tienen alguna responsabilidad, como una función o cargo eclesiástico. Cómo se satisfacen sus necesidades materiales, qué tipo de apoyo brinda la iglesia para que los extranjeros puedan integrarse en la sociedad, acceder a servicios públicos y adaptarse a la región.

Palabras-clave: Iglesia, interacción, xenofobia, frontera.

1. Introdução

A tríplice fronteira Argentina (Puerto Iguazu), Brasil (Foz do Iguaçu) e Paraguai, (Ciudad Del Este), é um ambiente de trocas das mais variadas. Por esta região passam todos os tipos de mercadorias, as lícitas e as ilícitas. Sejam produtos transportados de forma legal, vindos do interior dos três países, passando de um para o outro, ou do mesmo país vindo parar na fronteira para abastecer o comércio local e as necessidades dos respectivos usuários. Também tem as mercadorias transportadas e comercializadas de forma ilegal, o que caracteriza o contrabando, ainda que as mercadorias sejam lícitas, mas tendo a ilicitude na sua forma de entrada nos países com a burla nos sistemas governamentais de controle.

Tudo pode ser encontrado. Drogas, armas, medicamentos, suplementos alimentares, anabolizantes, mas também eletrodomésticos, perfumaria, roupas, eletroeletrônicos, informática, equipamentos de comunicação, vestuário, produtos veterinários, dinheiro através das casas de câmbios, joias etc. Como se vê, o campo é fértil para quem pode investir e ganhar dinheiro. Também há lugar para aqueles que estão desempregados, seja por falta de vagas, seja por opção, onde então encontram na informalidade o meio de subsistência.

A tríplice fronteira também é o espaço onde o turismo de visitação e de compras encontra uma infinidade de oportunidades para satisfazer as aspirações daqueles que se ocupam dessas situações. Em razão disso, a região acaba sendo a terra das oportunidades, atraindo gente de todos os cantos do mundo. Em vista disso, para conhecer dos habitantes da região, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Foz do Iguaçu-CODEFOZ requisitou o levantamento de Nacionalidades e Etnias da Região Trinacional do Iguaçu. Apesar dos desencontros em relação aos assentamentos estatísticos entre os três países, foi possível chegar a alguns achados importantes. A pesquisa em comento se baseou em revisão bibliográfica para conceitos e definições, e em fontes primárias para a coleta de dados.    

De acordo com o relatório elaborado com dados de 2010 a 2022, (MENDONÇA et al, 2023), Foz do Iguaçu tem noventa e cinco (95) nacionalidades e vinte e nove (29) etnias, sendo que os migrantes são em número de 14.574, totalizando 5% da população. Importante frisar que não se deve confundir migrantes com pessoas pertencentes a uma determinada etnia ou comunidade delas, vez que a comunidade árabe em Foz do Iguaçu é bem maior que o números de migrantes, pois essa numeração se refere aos estrangeiros.

Ainda segundo os autores, nos lados argentino e paraguaio, os dados são disponibilizados de forma diferente, e abrange os respectivos Estados, ou no caso daqueles dois países, as unidades da federação são também chamadas de Departamentos. Mesmo assim, os dados do censo argentino não são disponibilizados em relação aos migrantes. Por outro lado, o censo paraguaio é mais preciso em relação aos indígenas. No entanto, é público e notório o contingente de migrantes estrangeiros nas três cidades da fronteira. Ressalte-se que a ACNUR (2023), convencionou chamar de migrante, e não mais imigrante, todos aqueles que cruzam a fronteira, para reunir a família, fugir das dificuldades, estudar, entre outros objetivos. Ao passo que refugiado, em resumo, é aquele que em razão de perseguições atravessa as fronteiras em busca de asilo. Em que pese o uso diferenciado dos termos, recomendado pela ACNUR (ibidem), usar-se-á o termo migrante para se referir a todos os que chegam de fora, tendo vista não haver espaço para se explicar as especificidades e técnicas envolvidas na diferenciação das expressões.

E assim, um local como a tríplice fronteira que recebe tantos migrantes, de dentro e de fora do Brasil, o local acaba sendo palco para discriminação e xenofobia que se manifesta de várias formas, incluindo fatores sociais, de cor e origem (MEJÍA, 2019). Um estudo feito por esse autor, apresentado em seu Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Direitos Humanos na América Latina, junto aos alunos da Universidade Federal de Integração Latino-americana, denominado Os “Unileiros e a Xenofobia”, colheu depoimentos dos alunos estrangeiros que relataram casos de xenofobia tanto na sociedade quanto nos locais de serviços públicos como o da saúde. De acordo com alguns alunos, os estudantes estrangeiros são tratados como delinquentes, que ouviram declarações que passam a impressão de que os brasileiros não se sentem latino-americanos. O estudo citado, cuja leitura é recomendada, é só um exemplo do que ocorre na região trinacional.

Tem até mesmo organizações estrangeiras que não estão oficialmente instaladas na região, e que praticam discriminação aventando que a comunidade árabe abriga células terroristas por aqui (DREYFUS 2007, in CARDIN, 2015), em que pese a persistente negativa por parte da comunidade islâmica, que denuncia que o maior problema da região é a corrupção dos agentes públicos. Mas em razão das suspeitas levantadas por essas organizações, alguns membros da comunidade árabe acabam sendo alvos de pseudopiadas sobre bombas, explosões, etc.

Não é aceitável que se discrime o migrante de qualquer natureza, inclusive o estrangeiro. Alguns deles são retirantes, outros, refugiados que buscam novos locais para se instalar a fim de procurar uma nova oportunidade como empregados, outros como negociantes e por aí vai. De qualquer forma, a sua presença contribui com os acréscimos culturais da região, influenciando por meio de suas doutrinas e costumes, (HOLANDA, 2005) e sendo influenciados pelos mesmos motivos ao entrar em contato com a população local num sistema de fricção cultural e construção do ser. Além disso, trazem desenvolvimento social e econômico, modos diferentes de produtividade e práticas comerciais e de serviços que melhoram as relações de consumo, por exemplo.

Com objetivo de entender o desempenho da igreja diante do fenômeno discriminatório sofrido pelos migrantes presentes na região, sobretudo, os estrangeiros, este artigo foi elaborado de modo a esclarecer que algumas questões às vezes partem dos próprios membros das religiões e eles mesmos são parte da solução dos problemas. Assim, a organização deste artigo está dividida em três tópicos, sendo que o primeiro vai se ocupar de falar sobre alguns casos mais gritantes de xenofobia encontrados na Bíblia entre estrangeiros, judeus e cristãos, conforme as pessoas iam mantendo contato. Os subtópicos falam da xenofobia no Antigo Testamento e xenofobia no Novo Testamento. Objetiva-se com isto demonstrar que esse fenômeno reprovável também é identificado entre o povo bíblico. 

No Segundo tópico é tratado o antídoto contra a xenofobia, com as medidas encontradas tanto no Antigo como no Novo Testamento. Pretende-se esclarecer a existência de recomendações, determinações e ações para serem observadas tanto por judeus quanto por cristãos a fim de promover a igualdade entre as pessoas. E o terceiro tópico trata dos desafios do migrante estrangeiro e como a igreja pode contribuir na mitigação dos impactos da discriminação, adaptação e integração do migrante junto à igreja e na sociedade em geral. 

Tendo vista os migrantes das várias nacionalidades que desembarcam dos ônibus e aviões na região, tem-se a pretensão de saber se a religião pode contribuir de alguma forma para amenizar os estranhamentos para eles, mormente os estrangeiros, no lado brasileiro. Pretende-se, ainda que superficialmente, trazer luz a essa pergunta através de um questionário respondido voluntariamente por pastores evangélicos, mais precisamente, três pastores da denominação Batista.

Antes de prosseguir, é importante citar que as igrejas Batistas, filiadas à Convenção Batista Brasileira – CBB2 seguem uma série de princípios comuns, entre eles o princípio 2º que versa: “O conceito de igreja como sendo uma comunidade local democrática e autônoma, formada de pessoas regeneradas e biblicamente batizadas”. Ou seja, ainda que sigam os mesmos princípios de fé, são administrativamente livres para se organizar e atender as demandas identificadas localmente conforme melhor entender possível e viável de acordo com os seus recursos. Portanto, essas igrejas, uma vez organizadas e com Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica próprio, não estão atreladas a um padrão único de atuação frente aos desafios, não cabendo interferência nem da própria convenção, que a todas congrega, ou das demais igrejas quanto à forma de atuação na gestão dos problemas administrativos locais. Havendo apenas vinculação de ordem doutrinária.

Retomando, por meio das respostas elaboradas pelos pastores responsáveis por essas igrejas, o presente artigo tem o objetivo de entender como o migrante chega e é acolhido por essas comunidades de fé. Se eles têm oportunidades de integração na comunidade batista brasileira da fronteira, se podem fazer parte dos ritos e liturgias, participando não apenas como assistentes, mas colabores efetivos, como por exemplo, fazer parte do rol de membros e assumir responsabilidades desempenhando atividades de liderança, assumindo funções e/ou cargos eclesiásticos, liderando ministérios ou fazendo parte como membro dos grupos que trabalham nas igrejas. Ou seja, prestando serviço durante os cultos e outras ações dessa igreja, e ainda, recebendo convites dos brasileiros para eventos em suas casas, como aniversários, almoços, ou até eles recebendo visitas para a mesma finalidade. Enfim, convívio para além das finalidades eclesiásticas. 

Pretende-se ainda, apurar se a igreja de alguma forma ajuda ou estimula o estrangeiro a se inserir na comunidade e na sociedade secular, mercado de trabalho, serviços públicos etc. Por fim, se a membresia da igreja vive e age como uma comunidade batista que é para todos, independentemente da nacionalidade, etnia, cor, classe social ou status do migrante, se refugiado, transferido ou já aculturado no Brasil, chegando na fronteira apenas buscando uma oportunidade diversa daquela que vivia noutra localidade em que morava no território nacional.

2. A xenofobia nas duas principais religiões bíblicas

Na sociedade e nas religiões existem desentendimentos e não é de data recente. Durante o período de expansão das fronteiras americanas para o Oeste, por exemplo, foram registrados muitos eventos dessa natureza. De um lado, xenofobia do povo do Leste que ainda era dominado pelo poder inglês que criticava o comportamento dos expansionistas do Oeste, que sendo nascidos em território americano queriam avançar na conquista de novas terras. Segundo Knauss (2004, org.), Turner narra em seus ensaios sobre a expansão da fronteira americana, que as autoridades do Leste americano teciam duras críticas ao processo de avanço da fronteira, porque segundo essas autoridades, o avanço era irregular, no sentido de falta de planejamento e de usurpação, o que por esse entendimento, era um processo que causava instabilidade.

O governo britânico tentou frear o processo alegando preservação das relações comerciais com os indígenas, individualismo dos expansionistas, dispersão populacional e a perda de influência nas regiões costeiras. Ou seja, além de serem acusados de promover o individualismo, os expansionistas, segundo a ótica dos britânicos, (ibidem), dificultavam a formação de um governos central, forte e organizado. Enfim, apesar das alegações aparentemente legítimas, a despeito de todas as críticas à forma como o Oeste foi se estruturando, os britânicos, que detinham a autoridade na região Leste dos Estados Unidos, tinham sentimento de posse e controle sobre os cidadãos americanos e sua capacidade empreendedora dos desbravamentos do território que se afastava cada vez mais da costa leste americana.

A atuação britânica pode ser considerado um procedimento xenofóbico e colonialista por parte das suas autoridades, vez que pretendia tolher o crescimento e progresso dos americanos autóctones, e em que pese a aparente veracidade das críticas, se percebiam donos da vontade dos nascidos em território americano.

Nesse contexto de avanços dos conquistadores, entram as denominações religiosas que competiam pelo controle do proselitismo da região, ao mesmo tempo contribuindo para a formação de um sentimento público homogêneo e para a criação de instituições necessárias para disciplinar a mente, a consciência e o coração da população, (KNAUSS, 2004, org.). Se os religiosos contribuíram de um lado com a preservação da cultura e valores religiosos e políticos do Leste, inclusive com grandes empreendimentos, como universidades e outras instituições educacionais, por outro lado, eram percebidos como uma organização que reafirmava o poderio do sistema.

Enquanto isso, no contexto brasileiro, Velho (2009) identifica procedimento parecido na religião, enxergando na presença da igreja Católica, mais especificamente, um procedimento coxeante entre dois caminhos, o que no dito popular quer dizer: “tem um pé em cada canoa”. Ora tem o caráter de desafio à ordem estabelecida, fazendo a crítica social e organizando as sociedades mais frágeis, ora atuando em favor da legitimação do poder autoritário, promovendo a aceitação do sistema vigente. Enfim, Velho (2009) vê a religião no contexto de fronteira como uma força influenciadora tanto da cultura como dos movimentos políticos e sociais, atuando de forma paternalista na promoção social, e estatista na pregação da submissão bovina aos ditames do poder estatal e econômico estabelecido.

2.1 A xenofobia no Antigo Testamento

Malgrado a importância da religião na defesa dos menos favorecidos, com relação à xenofobia ela não está imune. Há alguns episódios registrados no Antigo Testamento, dos quais, dois serão citados para contextualização. Por exemplo, Isaac, filho do patriarca Abraão, é expulso das terras de Gerar (ALMEIDA, 2022 – Gên. 26.12-16). Nessa passagem, Isaac, depois de um período de peregrinação, passou a morar numa localidade chamada Gerar, que era governada por um rei chamado Abimeleque. Isaac estava prosperando em sua colheita. Quando o patriarca ia se fortalecendo, temendo seu poderio, Abimeleque pediu-lhe que deixasse a terra, sob esta exata alegação: “É melhor que nos deixes, porque te tornaste muito mais rico e poderoso do que nós (v.16)”. A prosperidade de Isaac provocou literalmente uma fobia nos moradores em relação a esse forasteiro, acendendo neles o temor de que ele os dominasse.

Mas o caso mais chocante de xenofobia no Antigo Testamento foi um ocorrido entre os familiares daquele que é considerado pelos judeus o maior líder e profeta de todos os tempos, Moisés. No livro de Números, capítulo 12, versículos 1 e 2, Arão e Míriam, irmãos de Moisés, mais velhos que ele, criticam o grande líder, questionando a sua liderança e sua comunhão com Deus. E para vergonha de ambos, com base em discriminação, reprovam o casamento do irmão porque ele se casou com uma mulher estrangeira, de uma terra próxima do Egito, chamada Cuxe (ALMEIDA, 2022), que seria o nome de um dos filhos de Cam, terceiro filho do patriarca Noé que viveu antes e depois do período diluviano.

No texto em questão, estão presentes atitudes xenofóbicas e racistas contra a esposa de Moisés. A passagem de Números capítulo 12, versículos 1 e 2 diz:

Falaram Miriã e Arão contra Moisés, por causa da mulher cuxita que tomara; pois tinha tomado a mulher cuxita. E disseram: Porventura tem falado o Senhor somente por Moisés? Não tem falado também por nós? O Senhor o ouviu. (Números 12. 1 e 2).

Em seu comentário sobre esse texto, MacArthur (2010), diz que a mulher cuxita de Moisés é uma segunda esposa, pertencente ao país Cuxe, originário de um dos filhos de Cam, o terceiro dos filhos de Noé, pai de Sem, Cam e Jafé. Ressalte-se que Sem é o antigo ascendente dos semitas, de quem descende Jacó, mais tarde chamado Israel, que deu origem ao povo de mesmo nome, que é o povo conduzido por Moisés. MacArthur afirma que Cuxe é uma referência à Etiópia e localizava-se ao sul do Egito. Ainda assevera o autor que o nome de Miriã aparece em primeiro nesse episódio de xenofobia e contestação da autoridade do irmão porque ela teria encabeçado toda a contenda entre os irmãos, sendo que Arão teria apenas apoiado o discurso dela.

Como forma de punição pelos atos praticados, inclusive pela oposição rebelde à liderança, no versículo 10, Míriam, que foi a mais contundente, foi ferida com uma maldição de lepra. O versículo em questão diz: “A nuvem afastou-se de sobre a tenda; e eis que Miriã achou-se leprosa, branca como a neve; e olhou Arão para Miriã, e eis que estava leprosa”. Verdade é que precisa fé para acreditar nessa punição sobrenatural. Como este artigo não é sobre fé e teologia, mas registros de ocorrências discriminatórias, dá-se a ênfase na prática de rejeição a uma pessoa estrangeira por ela estar na condição de estrangeira, e a reprovação, pelo próprio Deus, em relação a esse discurso de ódio.

2.2 Xenofobia no Novo Testamento

Como já é de conhecimento, a cristandade nasce no período de composição do Novo Testamento quando Jesus pregava o evangelho. A igreja propriamente dita é anunciada a partir da fala de Jesus para Pedro no livro de Mateus, capítulo 16, versículo 18: “E também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Apesar de ter dito que edificaria a sua igreja, Jesus a havia inaugurado como instituição nessa passagem. Segundo Ferguson (2017), a igreja nasce na cidade de Antioquia, com a dispersão dos convertidos a Cristo, dada a perseguição feita pelos judeus tradicionais contra os adeptos da nova religião, o cristianismo. Os novos crentes eram considerados traidores, por isso eram perseguidos.

No livro de Atos dos Apóstolos capítulo 11, versículo 26, na cidade de Antioquia, os discípulos de Jesus foram chamados de cristãos pela primeira vez. Essa igreja era composta tanto de judeus dispersos como de helenistas convertidos (FERGUSON, 2017, vol.1), que residiam nos locais onde os cristãos refugiados de Israel, chegavam e faziam seus prosélitos. Entre esses convertidos, estavam gregos, como Estevão, o primeiro Mártir da igreja instituída como congregação. Muitos outros helenistas convertidos ao cristianismo foram martirizados em nome da fé e acordo com Fox (2018), que faz o histórico dos mártires da igreja, sendo ele mesmo posteriormente à composição do seu livro martirizado também.

A perseguição desencadeada pelos judeus fez um número incalculável de mártires, sendo um deles muito notório, o grego Estevão como já referido acima. Sob a observação de Paulo que era iniciante nas ações de perseguição, o jovem foi assassinado por apedrejamento. Depois disso, foram dez outros empreendimentos persecutórios de grande vulto em cerca de trezentos anos (FOX, 2018). Um surto de intolerância religiosa manifestando violência extrema vinha de todos os lados, partindo de judeus ortodoxos no primeiro século seguido de atos praticados pelos romanos até por volta do ano 300, quando Constantino adota o catolicismo como religião oficial do império (FERGUSON, 2017), fazendo uma coalizão entre Igreja e Estado.

Os judeus tinham desprezo tanto pelas conversões de seus membros do judaísmo para o cristianismo, como pelo fato de os judeus da conversão se relacionarem com os não judeus, também chamados de gentios, uma referência às gentes não pertencentes ao povo judeu. Outras perseguições foram executadas contra os cristãos pelos imperadores romanos, como observado por Fox (2018), que odiavam os judeus e os cristãos conjuntamente. Uns eram odiados por sua nacionalidade, outros eram odiados por sua religião (ibidem, 2018), a ponto de os cristãos receberem a culpa de atos deliberados de atentado a incêndio contra a cidade de Roma. O incêndio teria sido provocado por Nero, que teria culpado os cristãos e com esse evento justificou a perseguição e extermínio de grande número de discípulos de Jesus.

Não bastasse a perseguição e xenofobia por parte dos pagãos, como eram considerados os romanos pelos judeus, ainda foram registrados atos de discriminação a estrangeiros dentro da própria comunidade cristã. Antes, é preciso constar que o primeiro sucesso missionário dos discípulos de Jesus se deu durante uma peregrinação para uma festa judaica hodiernamente conhecida como “Pentecostes”, mas que na sua origem se tratava da 3Festa das Colheitas ou Festa das Semanas. Sendo que os primeiros convertidos eram exatamente judeus estrangeiros. O texto bíblico que narra essa ocorrência está em Atos dos Apóstolos, de forma muito específica, capítulo 2 versículos 7-12; 37-41)

E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! Não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, e Judeia, e Capadócia, e Ponto, e Ásia, e Frígia, e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos (tanto judeus como prosélitos), e cretenses, e árabes, todos os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus. E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? (Atos 2:7-12).
Ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, varões irmãos? E disse lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus, nosso Senhor, chamar.
E com muitas outras palavras isto testificava e os exortava, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa. De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e, naquele dia, agregaram-se quase três mil almas. (Atos 2:37-41).

Os ouvintes eram estrangeiros, descendentes de judeus, helenizados, que foram para a cidade de Jerusalém para cumprir o ritual de comparecimento às três festas oficiais obrigatórias: Páscoa, Tabernáculos e Colheitas ou Semanas. Os discípulos, entre eles os apóstolos, estavam concentrados no cenáculo onde Jesus teria celebrado a sua última ceia, conforme se verifica no texto bíblico acima. Próximo a essa casa estava a multidão de peregrinos. Ao ouvirem a mensagem e depois de algumas explicações adicionais, cerca de três mil pessoas se converteram do judaísmo para o cristianismo, como se lê no texto.

O problema começou quando a multidão de convertidos aumentou demais. Então, a partilha do pão ficou apertada, de modo que os judeus que tinham a incumbência de fazer a divisão dos alimentos, por ato aparentemente deliberado, nessa atividade as viúvas gregas ficavam de fora da mesa. No capítulo 6, versículo 1 de Atos dos Apóstolos consta o seguinte: “Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano”. Como os judeus helenizados se misturavam aos gentios com muita facilidade, o judeus israelitas rivalizavam com eles, e isso foi arrastado para a comunidade de crentes cristãos (SHELLEY, 2018). Para remediar essa preterição, os apóstolos apontaram uma solução:

E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete varões de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio. (Atos 6:2,3).

O texto acima diz que os apóstolos encarregaram a comunidade para que essa encontrasse homens capacitados entre os gregos, sobre cujos ombros recairia a responsabilidade de cuidar das necessidades das viúvas helenistas. De acordo com Wiersbe (2012), diante das queixas dos gregos, os apóstolos chegaram ao veredito de que a culpa pela negligência em relação às mulheres gregas era deles. De acordo com o autor, os apóstolos estavam concentrando em si as atividades de pregação e doutrinamento, somados à ação social, que levou à sobrecarga e negligência, desencadeando as reclamações. O texto evidencia que o tratamento diferenciado em prejuízo das viúvas gregas era praticado pelos próprios apóstolos.

Para Shelley (2018), essa oportunidade teria sido o registro da instituição dos primeiros oficiais da igreja, denominados do grego (diakonos), diáconos, cuja tradução literal é servo ou ministro, com atribuições aos moldes do que se vê hoje nas igrejas que os ordenam. Por fim, diante de uma desavença uma proposição para amenizar o choque do tratamento discriminatório ou preterição em relação aos estrangeiros, feita pelos apóstolos, estabeleceu os mesmos estrangeiros como os primeiros detentores de cargos de assistência social da igreja (ibidem). Ou seja, a solução encontrada reconhecia nos estrangeiros a capacitação para tirar a sobrecarga dos apóstolos e corrigir a discriminação.

3. Antídoto bíblico contra a xenofobia

Para que os conflitos sejam evitados em qualquer comunidade, é preciso sensibilização. No caso da igreja não pode ser diferente. O cristão da localidade onde a igreja está inserida precisa ter em mente que a igreja é universal, no sentido de que é abrigo e reunião de todos os crentes de todos os tempos (GRUDEN, 2018), compostas por vários grupos diferentes de pessoas, mas que ao final disso tudo é uma metáfora de família, ou também de uma videira, cujos ramos precisam estar ligados, entre outras metáforas, sendo que de acordo com o autor, a exclusão de uma dessas metáforas transmite uma ideia claudicante do que é igreja.

É importante trazer à lume, que o Deus que era invocado pela família de Moisés, não aprovava a discriminação de estrangeiros. Em seu comentário bíblico, Wiersbe (2012, vol 1), interpretando textos como o do livro de Números, capítulo 15 e Levíticos capítulo 19, lembra que os israelitas não poderiam excluir os estrangeiros do cumprimento das leis dadas por Moisés. Fossem essas leis de caráter punitivo pelas violações penais ou pecados cometidos, ou pelo viés beneficente, tanto para participar dos eventos eclesiásticos, com as festas sagradas, quanto para se beneficiar da misericórdia, no caso de ter direito de respigar nas roças para saciar a fome. Portanto, essas leis deveriam ser as mesmas para os israelitas e para os estrangeiros em benefício ou em prejuízo.

Não apenas a legislação deveria ser a mesma para os israelitas e para os estrangeiros que viviam entre o povo de Israel, não importando qual nação. Mas os procedimentos éticos também deveriam pautar a cortesia e o convívio saudável entre os naturais e os não naturais. No Livro de Êxodo, capítulo 22, versículo 21 diz: “O estrangeiro não afligiras, nem o oprimirás; pois estrangeiros fostes na terra do Egito”. Sobre essa recomendação, em relação ao estrangeiro havia uma necessária lição para os israelitas quanto à sua eleição enquanto nação (CONNEL, 1990), pois, segundo o autor, a lei de Deus, dada através de Moisés, estava deixando claro que apesar de escolhido, o povo de Israel não tinha exclusividade quanto à proteção de Deus, mas era sim, o parâmetro de justiça para todos os povos.

Em que pese o povo de Israel não ter permissão para transigir quanto aos usos e costumes, lei e princípios éticos, os estrangeiros por sua vez, para ter um bom convívio entre os israelitas, teriam que se adaptar (WIERSBE, 2012), adotando o modo ético e moral dos seus anfitriões. O que é correto, vez que aquele que é acolhido deve viver de acordo com a legislação do território no qual passou a viver, ao passo que o autóctone não deve mudar a lei em prejuízo do acolhido apenas porque ele é migrante.

Por outro lado, é de bom alvitre lembrar que as igrejas, geralmente, são frutos de atividades missionárias, o que implica dizer que elas nascem a partir da receptividade do evangelho por parte dos locais através da menagem dos forasteiros pregadores, que segundo Knauss (2004), muitas vezes surgem acompanhando os desbravadores de fronteiras. Razão pela qual faz todo sentido que os membros das igrejas sejam hospitaleiros e cordiais para com os que se achegam a ela vindo de outras localidades, estados e países.

Por um lado, ser missionário em termos de evangelização, é ser enviado com a missão de proclamar o evangelho e implantar uma nova igreja, (DE YONG e GILBERT, 2012), visando como prioridade originariamente as questões espirituais e de forma derivada as questões temporais, pensando secundariamente nas obras de ação social. Significa dizer que uma igreja é implantada por alguém que vem de fora, muitas vezes de outro país, bem como, tem por objetivo cuidar da vida espiritual das pessoas, sem negligenciar as necessidades materiais, emocionais e existenciais do público, sendo, no presente caso, as aspirações do migrante estrangeiro, numa acolhida sem distinção em relação aos naturais ou naturalizados.

Uma recomendação do apóstolo Paulo em relação à igualdade entre os seres humanos está escrita na sua carta aos cristãos de Gálatas, no capítulo 3, versículos 27 e 28, onde ele diz: Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. Uma declaração, como se observa, contra a discriminação de qualquer natureza. A clareza desse texto é gritante. Um cristão não deve olhar com reservas para ninguém, independentemente do sexo, da origem étnica ou social, sobretudo, nas relações de membresia.

4. Desafios dos migrantes estrangeiros

De acordo com o instituto AURORA, organização dedicada na defesa e educação sobre os direitos humanos, no ano de 2020 cerca de 281 milhões de pessoas estavam em migração ao redor do mundo, (BERENGER, s.d.). Só no Brasil, de 2011 a 2021, foram registrados 1,4 milhão de migrantes, dos quais, 297.712 fizeram pedido de refúgio. Essa população, segundo a autora, enfrenta alguns desafios, sendo que no caso do Brasil os mais recorrentes são: barreiras do idioma, dificuldades de colocação no mercado de trabalho, exposição à violência, pouco acesso a saneamento básico e à saúde e educação públicas. Tais desafios se dariam em razão da falta de informação.

Dentre outras problemáticas enfrentadas pela população migratória, sobretudo, os refugiados, está presente a xenofobia nos sistemas públicos de atendimento, segundo a Agência da ONU para Refugiados a ACNUR (2024). Foi através de um trabalho de campo que a ACNUR obteve esse diagnóstico. Após um processo de escuta e diálogo chamado “Diagnóstico Participativo”, envolvendo 218 ouvidos em 15 cidades localizadas nos estados do Amazonas, Goiás, Pará, Rio de Janeiro, Roraima, São Paulo e Distrito Federal. Nas falas dos entrevistados, eles perceberam claramente que havia prioridade nos atendimentos para os brasileiros, sendo que para os entrevistados, em relação aos nacionais as exigências aumentam de tamanho, havendo solicitação de documentos a maior para estrangeiros, motivando não poucas vezes a desistência na busca pela assistência.

4.1 Contribuição da Igreja Batista na Tríplice Fronteira

Uma vez que a migração e o refúgio são questões de direitos humanos, logo, os humanos em seus vários empreendimentos é que precisam tomar medidas para mitigar os efeitos deletérios destas questões. Tendo em vista o exposto, a pergunta que se faz é: As igrejas deveriam se envolver de alguma forma? A resposta é um sonoro sim. Senão, vejamos o que diz a ACNUR ao término do artigo citado em linhas anteriores:

O engajamento em atividades e projetos que promovam a coexistência pacífica entre refugiados, migrantes e a comunidade de acolhida é fundamental para abordar de maneira eficaz os desafios enfrentados por aqueles que necessitam de proteção internacional. Por fim, o ACNUR reafirma seu compromisso em apoiar iniciativas conjuntas para superar os desafios apresentados e reconhece a importância da participação dos atores locais, autoridades e sociedade civil para construir soluções duradouras. (grifos do autor).

Ainda que tenha natureza jurídica distinta das organizações públicas, privadas e associações civis, igreja é uma organização da sociedade civil. E em razão disso resta investigar se as igrejas da tríplice fronteiras fazem algo objetivando amenizar os danos dos deslocamentos, às vezes forçados, das pessoas que precisaram chegar na região. Segundo o site 4h2foz.com.br, matéria feita pelo repórter Valcy Álvaro (2024), a cidade de Foz do Iguaçu tem mais de 450 templos religiosos, conforme dados de 2022, apurados pelo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE. Diante do número de templos, obviamente não se buscou informações em todas as instituições religiosas do município. Por razões de logísticas se elegeu uma denominação, no caso, a Batista, e dentro de um grupo do aplicativo de mensagens WHATSAPP, organizado pelos pastores, solicitou-se a participação de três voluntários para responder um questionário com as seguintes perguntas:

1. Quantos estrangeiros congregam na tua igreja e de quais nacionalidades são eles? 2. Em quais circunstâncias os estrangeiros chegaram na igreja? (Refugiados, imigrantes, transferidos a trabalho, etc). 3. Descreva como foi a chegada dos estrangeiros, se houver histórico, e como foi a acolhida da igreja em relação a eles? (Breve histórico) 4. Qual é o grau de integração e interação entre os estrangeiros e os nacionais da igreja? (Se possuem funções ou cargos na igreja. Como os demais membros se relacionam no dia a dia fora das atividades eclesiais). 5. Como a igreja contribuiu para que os estrangeiros se adaptassem à região da tríplice fronteira e na sociedade iguaçuense especificamente? 6. A igreja tem algum projeto de abordagem, acolhida e integração dos estrangeiros?

Os voluntários se apresentaram, sendo o pastor Leonardo Bedani, da igreja Batista Itaipu na Vila, em Foz do Iguaçu-Pr, sito à rua Perdigão, nº 112, CEP 85857640, que respondeu o questionário por meio de áudio no aplicativo WHATSAPP, o pastor Marcelo Rubem Peralta, da igreja Batista Nova Vida, localizada na rua Guaratinguetá, Parque Imperatriz, nº 215, CEP 85862-030, Foz do Iguaçu-Pr e pastor Dilson Júnior, pastor da igreja Batista do Jardim São Paulo, sito À Avenida Pôr do Sol, nº 1005, Jardim São Paulo, CEP 858560439, Foz do Iguaçu-Pr, que optaram por responder o questionário por mensagem de texto no aplicativo WHATSAPP. Em síntese, as respostas foram satisfatórias para a expectativa do autor ao serem analisadas uma a uma e comparadas entre elas.

À pergunta 1. Quantos estrangeiros congregam na tua igreja e de quais nacionalidades são eles? Os pastores responderam que têm em suas igrejas: 15 estrangeiros na Igreja Batista na Vila A de Itaipu, 30 estrangeiros na Igreja Batista do Jardim São Paulo e 6 estrangeiros na Igreja Batista Nova Vida do Parque Imperatriz. Esses estrangeiros são de 11 nacionalidades diferentes: Venezuela, Síria, Líbano, nação indígena Ticuna, Guatemala, República Dominicana, Cuba, Argentina, Paraguai, Colômbia e Bolívia.

Quanto à pergunta 2. Em quais circunstâncias os estrangeiros chegaram na igreja? (Refugiados, migrantes, transferidos a trabalho etc.). A resposta do pastor Marcelo da Igreja Batista Nova Vida dá conta de que os cubanos chegaram na igreja na condição de refugiados, ao passo que o libanês, o argentino e os dois paraguaios chegaram como migrantes. Enquanto isso, o pastor Dilson, da Igreja Batista no Jardim São Paulo respectivamente, aponta que noventa e cinco por cento dos estrangeiros presentes na igreja são de origem venezuelana e foram recebidos com status de refugiados. Por sua vez, a Igreja Batista Itaipu recebeu os estrangeiros oriundos de várias situações, alguns chegaram como estudantes, outros como missionários, havia quem já morava na cidade de Foz do Iguaçu e chegou na igreja após conversão e ainda tem aqueles que chegaram para trabalhar.

A pergunta 3. Descreva como foi a chegada dos estrangeiros, se houver histórico, e como foi a acolhida da igreja em relação a eles? (Breve histórico) parece ser uma repetição de segunda, mas a ênfase é saber se a igreja estava preparada para a presença dos estrangeiros entre sua membresia. Uma explicação da parte do autor é que em alguns casos, pode ser percebido desconforto porque um esforço novo terá que ser feito para acomodar-se aos desafios. Mas a resposta do pastor Leonardo da Igreja Batista Itaipu na Vila A merece destaque em função do teor detalhado:

“Bom, alguns chegaram, como eu disse, a trabalho, ou para trabalho missionário, ou se converteram aqui. Então os missionários, por exemplo, já tinham contato aqui na igreja com o antigo pastor, que pastoreava aqui, que tinha um trabalho forte com missões. E a acolhida da igreja, eu faço parte da igreja desde 2014, eu vim como membro comum da igreja aqui, então cresci, passei a minha juventude na igreja, entrei com 17 anos na comunidade. E é uma igreja que sempre teve, principalmente ali a partir de 2016, é uma igreja que sempre teve um número considerável de estrangeiros. Principalmente na época, por causa do trabalho com os jovens, nós tínhamos alguns alunos da UNILA. Até hoje não estão mais aqui na cidade, já foram embora, mas tivemos alunos do Chile, do Haiti, e isso fez com que a igreja se acostumasse, de certa maneira, com esse aspecto cultural. Então acredito que a acolhida da igreja tenha sido boa, tenha sido boa para eles, especificamente para esses que estão agora, boa parte deles estão participando de pequenos grupos, estão bem envolvidos com a igreja.”

Como se observa, a igreja do pastor Leonardo já estava com pensamento estruturado com relação aos estrangeiros. A comunidade já está há algum tempo com sua cultura preparada para desafios que chegam com a aproximação com os frequentadores de nacionalidades diferentes.

Para a mesma pergunta acima, o pastor Marcelo deu uma resposta lacônica. Segundo ele, não há histórico da chegada dos estrangeiros, mas diz que a acolhida foi satisfatória. Ao passo que o pastor Dilson Júnior diz que na sua igreja “A chegada foi simples e tranquila, a igreja os acolheu imediatamente com simpatia e amor, e no que esteve ao nosso alcance, ajudamos com itens de primeira necessidade, comida, roupas, utensílios domésticos, etc.). Houve casos que até pagamos quitinete e alojamento, inicialmente. Ou seja, houve uma acolhida até com dispêndios para que fossem amenizadas necessidades materiais e de abrigamento. O pastor também faz menção da simpatia da igreja em relação aos estrangeiros que chegaram na comunidade.

Com relação à pergunta 4. Qual é o grau de integração e interação entre os estrangeiros e os nacionais da igreja? (Se possuem funções ou cargos na igreja. Como os demais membros se relacionam no dia a dia fora das atividades eclesiais). A resposta do pastor Leonardo evidencia a cultura de atuação da igreja:

Qual é o grau de integração e interação entre os estrangeiros e os nacionais na igreja? Então a maioria deles tem uma boa integração ali na igreja, como eu disse, grande parte, a gente abre oportunidade para todos participarem de pequenos grupos, nem todos conseguem, mas de uma forma ou de outra eles estão bem envolvidos com a igreja. Alguns deles se batizaram, se batizaram aqui na nossa comunidade, e para se batizar você tem que ser acompanhado por alguém, de um a um, justamente para criar esse vínculo. Assim, depois que você entra na igreja, você tem a oportunidade, é incentivado a participar de um pequeno grupo. Então eu acredito que a interação entre os nacionais e os estrangeiros é muito boa. Além disso, nós temos, por exemplo, o irmão sírio, o casal que é da Síria, eles vieram como refugiados aqui para o Brasil, aqui para a região da Tríplice Fronteira, para desenvolver o ministério deles. Eles lideram pequenos grupos, ele é um seminarista da igreja, se Deus quiser vai caminhar para ordenação, eles trabalham na área do Ministério de Misericórdia da nossa comunidade.

Neste caso, não apenas a igreja Batista Itaipu é estimulada a receber as diferentes nacionalidades, mas também investe na formação de lideranças independentemente da origem étnica ou nacional, bem como, seu método de integração promove a interação entre membros pela forma de discipulado, onde um mentoreia o outro para o batizado. Ele ainda menciona a existência de um casal de sírios, cujo esposo faz o seminário de teologia visando a ordenação. Para informação, é importante que na ordenação no meio Batista, confia-se o título de pastor ao ordenado, título esse que representa a liderança máxima na igreja.

O pastor Dilson destaca que a igreja não faz distinção entre os membros, inclusive recebeu alguns oriundos de outras igrejas evangélicas como membros na sua comunidade. A resposta do pastor Marcelo quanto à integração e exercício de função, destaca que: A integração dos irmãos é muito boa, a interação poderia melhorar mais inclusive com toda a Igreja e possuem cargos sim, um é pastor (OPBB) da Argentina, outro é Missionário (JMM) do Líbano e outro futuro Diácono é do Paraguai. Os relacionamentos são sadios.” É o caso de mencionar que o argentino que é pastor da igreja é o próprio pastor Marcelo, ao passo que o diácono, que é paraguaio é o segundo cargo entre os oficiais da igreja na denominação Batista.

Sobre as siglas citadas pelo pastor Marcelo, OPBB é Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, credencial que se recebe depois de passar por um ato de exame e concílio, cujo candidato tem que ser formado em teologia. JMM é Junta Mundial de Missões, trata-se de uma organização da Convenção Batista Brasileira – CBB, responsável por recrutar, treinar e enviar missionários pelos mais variados países e povos do planeta. Para ser encaminhado para essa organização, o missionário precisa ter boa reputação e testemunho por parte da igreja. Os mesmos requisitos são atendidos pelo pastor e pelo diácono, porém, o diácono passa por um período de estágio.

Sobre a pergunta 5. Como a igreja contribuiu para que os estrangeiros se adaptassem à região da tríplice fronteira e na sociedade iguaçuense especificamente? O pastor Marcelo diz que a igreja demonstra cumplicidade, e às vezes ajuda na indicação de emprego. A igreja do pastor Dilson vai um pouco mais além da superfície: “Nós, através de contatos dos membros da igreja, na área profissional, procuramos e conseguimos incluir socialmente e profissionalmente”. Os próprios membros fazem as pontes necessárias para que os estrangeiros possam passar por uma colocação. Já na igreja Batista Itaipu, existe o investimento no aculturamento através dos relacionamentos e comunhão e atendimentos nas áreas espiritual e material.

Por fim, a pergunta de número 6. A igreja tem algum projeto de abordagem, acolhida e integração dos estrangeiros? A igreja do pastor Marcelo não tem um Ministério específico de acolhida ou integração de estrangeiros. O pastor Dilson respondeu que: Como atividade regular não. Mas estamos prontos e dispostos a ajudar. Ou seja, ainda que não haja uma atividade específica, está à disposição para atender às solicitações.

Enquanto isso a igreja do pastor Leonardo apesar de ele dizer que não tem um projeto de acolhida e integração, mas de abordagem, a atuação da comunidade está distribuída em diversas frentes:

E a igreja tem algum projeto de abordagem acolhida e integração dos estrangeiros? Então eu já falo da abordagem, mas acolhida e integração, a gente não tem um projeto específico. O que a gente tem, como eu falei, são os pequenos grupos, caso o irmão vá se batizar, ele tem um acompanhamento pessoal com outro irmão da nossa comunidade, justamente para criar essa interação. Então o nosso projeto de integração é um projeto, como é que eu posso dizer, não é bem específico para estrangeiro. Um projeto geral que nós temos de tentar criar esse senso de identidade, comunidade em toda a nossa igreja. Agora de abordagem nós temos, nós temos dois projetos na igreja, que são de ensino, basicamente três projetos, não são dois. Dois são de ensino de português. Então nós temos, nós damos aulas de português gratuitas, e aí essas aulas elas se dividem em dois focos distintos. Nós temos aulas de português para árabes, nós temos aulas de português para ou hispânicos, de língua hispânica, ou ticunas também, que é uma tribo uma etnia indígena que veio do Norte para estudar na Unila. Então nós também damos aulas de português para aqueles hispânicos, hispanofalantes ou ticunas que queiram aprender, desenvolver mais a língua. Às vezes eles falam, mas não escrevem. E também com os árabes. E aí o terceiro projeto, é um projeto também pelos Irmãos Sírios, que coordenam essa aula de português para os árabes, eles também fornecem todo o cuidado com a chegada, ou enfim, com qualquer pessoa ou estrangeiro, imigrante, árabe que queira ajuda. Eles auxiliam com a questão de documentação, com a questão de… Às vezes precisam ir ao hospital, não sabem falar português, esses irmãos vão, fazem a tradução, auxiliam. Então é um projeto bem, por assim dizer, completo. Mas que busca, esses são os três projetos que buscam ter essa abordagem a imigrantes aqui na nossa cidade, com esse cuidado, com essa interação, para que eles possam escutar o Evangelho de Jesus e também serem cuidados em suas necessidades.

Ele esclarece que a integração não é exclusiva para estrangeiros. Isso pode ser muito bom, porque não havendo especificidade as pessoas não precisam se retrair sob a crença de que não podem fazer, ou alegar que se a programação é para estrangeiro não precisa se envolver. Mas a abordagem tem basicamente o ensino de idiomas com foco na evangelização. Porém, ao longo da entrevista observa-se na fala do pastor, às respostas de todas as perguntas, que se objetiva sempre que o estrangeiro se sinta bem e acolhido. Também existe o auxílio na obtenção de documentação e no atendimento hospitalar. Lembrando que a ACNUR (2024), no “Diagnóstico Participativo” ouviu relatos de tratamento baseado em xenofobia nos serviços públicos onde se exige dos estrangeiros uma documentação maior em relação ao que se exige do brasileiro. Por essa razão, acompanhá-los nos serviços públicos previne a discriminação.

5. Considerações Finais

As demandas atuais da sociedade vão além do que as igrejas se habituaram a fazer. A religião é um instrumento que pode tanto ser um bastião das liberdades e defesa dos vulneráveis (VELHO, 2009) como também pode ser um meio de afirmação do poder estabelecido. Em meio aos movimentos e deslocamentos de pessoas no planeta, algumas perguntas precisam ser feitas: O que a igreja faz para aliviar o desconforto daqueles que deixam seus lares expulsos pelas crises ambientais, econômicas, de segurança, persecutórias etc.? O que fazer para que o sofrimento não seja potencializado com a discriminação? Como tirar as pessoas do isolamento, ajudando-as a vencer as barreiras que encontram no seu novo local de habitação ou refúgio?

Como se viu ao longo deste trabalho, a discriminação em relação ao estrangeiro é uma realidade na história. Até mesmo na família do maior profeta judeu, onde sua esposa foi vítima de rejeição por parte de seus irmãos por causa da nacionalidade dela (WIERSBE, 2012). As discriminações algumas vezes vêm acompanhadas de outras manifestações, conforme aponta Porfírio (2025). Por exemplo, a intolerância religiosa que ele define como: “…o ato de discriminar, ofender e rechaçar religiões, liturgias e cultos, ou ofender, discriminar, agredir pessoas por conta de suas práticas religiosas e crenças”. Ainda segundo o autor, a intolerância religiosa não vem só, ela está relacionada com duas outras formas de discriminação: racismo e xenofobia.

A tríplice fronteira é um campo de atração de pessoas das várias partes do Brasil e do mundo. Uma verdadeira terra das oportunidades. É também o destino daqueles que ficaram sem um referencial de residência. Os que caíram no infortúnio da fuga por sobrevivência. Algumas perguntas foram feitas acima. Restando ainda outra: As igrejas têm respondido às demandas dos migrantes e refugiados que se deslocaram para a região trinacional?

De acordo com as perguntas feitas aos pastores das três igrejas da denominação Batista e as respostas dadas por eles, verifica-se que não importando o tamanho ou limitação de recursos dessas comunidades há sempre o que pode ser feito. Das três igrejas as respostas às demandas estão sendo dadas, em maior ou menor grau, mas alguma coisa tem sido feita. É claro que muito mais poderia ser realizado. Mas a verdade é que o principal objetivo deste artigo, que era saber se o problema da migração e da xenofobia tinha alguma atenção das igrejas da tríplice fronteira, foi alcançado. Foi possível saber que sim, a igreja atenta à presença e às necessidades dos migrantes e na medida de suas capacidades tem dado os encaminhamentos necessários.

Auxílio para instalação, alimentação, profissionalização, obtenção de documentos, direcionamento para emprego e claro, por meio de sua missão precípua, que é a evangelização e fazimento de prosélitos, a igreja tem promovido a integração dos estrangeiros e a integração deles à igreja e à sociedade. As respostas às perguntas demonstraram que as ações não precisam de espetacularização para que os resultados sejam alcançados a contento. Sem desmerecer os esforços das igrejas e pastores entrevistados, sem fazer nenhum juízo de valor quanto ao tamanho das contribuições, o que se pretende é finalizar constatando que uma ação em favor do migrante e do estrangeiro que busca alento, por pequena que seja, já produz alívio para o seu sofrimento. A religião, sobretudo a igreja, precisa ser ética em relação às necessidades da humanidade e servir para que ela entenda o seu sentido, que é contatar o numinoso, o divino, extrair-lhe o sentido moral (LELOUP, 2001) cuja manifestação deve ser auxiliar e socorrer. Isso é o sagrado, o sobrenatural, o ser humano, ainda que demasiadamente humano, mas filho de Deus.

6. Bibliografia

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__________. Comentário Bíblico Expositivo. Vol. 5. Santo André: Geográfica, 2012.


1Mestrando em Sociedade Cultura e Fronteira na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOSTE.

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