REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202509240712
Iulo Almeida Alves1
Marília Flores Seixas de Oliveira2
Resumo:
Neste artigo, analisamos as ações Monumento Horizontal, Racismo Policial e Racismo Policial: Quem Policia a Polícia?, do coletivo de arte Frente 3 de Fevereiro, compreendendo tais proposições artísticas como respostas simbólicas à recorrente tipificação racista feita pela polícia ao negro ao tratá-lo como “elemento suspeito cor padrão”. Para tanto, discorremos acerca dos eventos que motivam a feitura dessas obras artísticas, fazendo dialogar concepções de autores como Vera Malaguti Batista e Nicolau Sevcenko quando versam sobre o racismo policial, obras de outros artistas que denotam certa conexão com a proposta da Frente 3 de Fevereiro e as perspectivas das ações deste coletivo.
Palavras-chave: Frente 3 de Fevereiro, tipificação, racismo policial, respostas simbólicas.
Considerações iniciais
A Frente 3 de Fevereiro é um coletivo3 de arte baseado na cidade de São Paulo, que se intitula como um grupo de pesquisa e intervenção artística sobre o racismo na sociedade brasileira, formado por artistas plásticos, cineasta, historiador, designer gráfico, músicos, socióloga, dançarina, advogada, cenógrafo e atores (FRENTE 3 DE FEVEREIRO, 2006). O coletivo surgiu no ano de 2004, a partir de uma primeira mobilização deste grupo com um evento: na cidade de São Paulo, o jovem negro Flávio Sant’Ana, confundido com um assaltante, foi assassinado pela Polícia Militar daquele Estado, no dia 3 de fevereiro de 2004. Flávio participava do ciclo de amizade dos integrantes, de modo que tal dado de realidade se torna ponto de interesse para aquele grupo no momento em que o evento é caracterizado como a denúncia de uma contradição social: a morte de Flávio suscita a cotidiana tipificação do negro como “suspeito”, como “ameaça” (FRENTE 3 DE FEVEREIRO, 2006). Desde então, a Frente tem se organizado a fim de associar o legado artístico à luta contra a discriminação racial a partir de estratégias de resistência e de interação com o espaço urbano. Suas ações circulam pelas noções de monumento e de intervenção midiática que surgem de condições sociais da própria cidade. O uso do espaço público para realização de suas manifestações artísticas denota intenso diálogo com as questões raciais e sociais que se desenvolvem na cidade. Dito de outra forma, as fortes ações do coletivo transitam entre manifestos sociais e ações artísticas de temática contra o racismo com o foco direcionado para o espaço urbano justamente por se relacionar com ele e questioná-lo, bem como às relações sociais ali estabelecidas.
Igualmente forte é a poética motivadora do coletivo que se pauta numa concepção de cartografia, estabelecida no entendimento de que tal cartografia é advinda de uma postura de investigação e, em seguida, de ação artística e política diante do mundo em que se chocam as adversidades. A observação das situações de racismo e a organização destes eventos – isto é, um trabalho de acumular dados e fatos em torno de uma problemática a fim de compreendê-la –, somadas às angústias e desejos dos integrantes da Frente, mobilizam a expressão e a inscrição poética do grupo no social.
A ideia de cartografia executada pelo coletivo se volta para a tentativa de de decompor um fio histórico que tem se atualizado em novas práticas sociais, com intuito de compreender de que forma essas práticas estruturam-se, os limites da herança escravocrata na experiência social cotidiana e de que maneira é possível romper com esta lógica pela inscrição de outras formas de sociabilidade (FRENTE 3 DE FEVEREIRO, 2006, p. 9). O grupo desenvolve pesquisas multidisciplinares a fim de desenvolver ações de arte que dialogam em certo âmbito e, principalmente, questionam o racismo na sociedade brasileira, nutrindo-se de
Tudo o que der língua para os movimentos do desejo, tudo o que servir para cunhar matéria de expressão e criar sentido, para o grupo é bem-vindo. Todas as entradas são boas, desde que as saídas sejam múltiplas. Por isso o cartógrafo serve-se de fontes as mais variadas, incluindo fontes não só escritas nem só teóricas (FRENTE 3 DE FEVEREIRO, 2006, p. 9).
A declaração da Frente aporta-se teoricamente em Suely Rolnik (1989 apud FRENTE 3 DE FEVEREIRO, 2006, p. 9), quando a autora menciona que “o cartógrafo é um verdadeiro antropófago: vive de expropriar, se apropriar, devorar e desovar, transvalorado. Está sempre buscando elementos/alimentos para compor suas cartografias”. Relacionando à cartografia desenvolvida pelo coletivo, trata-se de elaborar ações artísticas representativas do olhar atento sobre o cotidiano e as relações ali estabelecidas, a partir de leituras de diversos níveis (literatura, produtos midiáticos, de mundo etc.) e da “absorção” do que mover a atenção e o interesse dos integrantes da Frente 3 de Fevereiro.
A Frente, nestas circunstâncias, direciona-se para o estudo do espaço político a fim de entender seus fluxos e intervir estrategicamente na desconstrução das verticalidades, para horizontalizar as diferenças causadas pelo racismo. A prática desconstrutiva por meio de estratégias flutuantes, híbridas e de distintos campos e áreas do conhecimento encontra certo apoio na proposta da transversalidade explicitada por Félix Guattari, implicado em “uma oposição à verticalidade de uma estrutura hierárquica ou piramidal e busca ir além de uma simples horizontalidade, realizando uma comunicação máxima entre diferentes níveis, disciplinas e, sobretudo, entre diferentes grupos, movimentos autônomos e atores sociais” (GUATTARI, 1985, p. 96 apud MESQUITA, 2011, p. 47). Essas novas práticas sociais sugeridas se compõem em obras-manifestos que cobrem determinados lugares do espaço urbano, entre ações permanentes e performances munidas de uma ânsia questionadora e de ação política.
A realização de ações pressupõe estudo e pesquisa sobre a temática, graduando aproximações com as teorias que permeiam tais assuntos. Torna-se visível a base teórica infiltrada nos manifestos artísticos da Frente 3 de Fevereiro que se relacionam com o urbano e as relações sociais e raciais ali estabelecidas, especialmente no que tangem às situações de exclusão e discriminação. Tal aprofundamento teórico parece fazer parte, pois, da cartografia executada pelo coletivo, em busca da compreensão do que é dado e comprovado “no mundo”. Ou seja, a imersão feita por aquele grupo nos temas auxilia o entendimento e o reconhecimento das adversidades raciais e sociais do contemporâneo.
A partir da compreensão das circunstâncias que marcam o início da constituição do grupo e que conduzem a feitura de algumas de suas obras, partimos para a análise das ações do coletivo Frente 3 de Fevereiro Monumento Horizontal, Racismo Policial e Racismo Policial: Quem Policia a Polícia?, entendendo que a recorrente tipificação feita pela polícia ao negro como “elemento suspeito cor padrão” constitui-se como fator provocador dessas obras.
Monumento Horizontal
Tendo este escopo e urgindo por uma “resposta” à morte de Flávio Sant’Ana pela Polícia Militar (PM) do Estado de São Paulo, os integrantes da Frente 3 de Fevereiro constroem o Monumento Horizontal no local exato do assassinato do jovem, em abril do ano de 2004. Esta configura-se como a primeira ação do coletivo, um ato simbólico em que a família do jovem assassinado e representantes de outros grupos comprometidos com a mesma luta política também participaram. O Monumento Horizontal marca o enterro simbólico de Flávio por meio da construção de uma lápide, que estampa um corpo delineado – ao modo como é representado em ocorrências policiais – sobre uma placa com as informações acerca daquela morte (DOSSIN, 2009).
Conforme aponta o coletivo em seu site5, Monumento Horizontal é “uma ação para lembrar os muitos Flávios que são executados pela polícia de São Paulo”. O anseio de que se perdurassem a presença e a lembrança do ocorrido naquele local é nítido, assim como o senso de denúncia do que o coletivo viria a classificar como “racismo policial”. Este último, então, reflete-se não apenas no evento de Flávio Sant’Ana, mas configura-se como ato constante da corporação na visão da Frente 3 de Fevereiro e de alguns autores que debatem a temática e que serão introduzidos nas discussões ao longo deste artigo.
É preciso, antes, pensar na violência cotidiana exercida por órgãos do Estado – judiciais e não judiciais – sobre os setores mais vulneráveis da população (BATISTA, 2003a, p. 56), constituídos atualmente pela jovem massa urbana marginalizada. Posto de outra maneira, é possível afirmar que os atos violentos da polícia são dirigidos preferencialmente a jovens negros e pobres que moram nas periferias das cidades brasileiras.
Essa população marginal, que reside hoje nas periferias, vive a expressão e a cristalização de um projeto de urbanização que, em linhas gerais, segue os processos econômico-sociais em curso. Vera Malaguti Batista (2003a, p. 38-40) nota que, assim como as reformas urbanísticas de Haussmann em Paris no período pós-Revolução Francesa interferiram, desarticularam e desmontaram os cenários das lutas e da Comuna de Paris, no Brasil foi criado o “Haussmann tropical” (BENCHIMOL, 1990 apud BATISTA, 2003a, p. 39). Segundo Batista (2003a), no começo do século XX, empreendeu-se no Brasil um conjunto de mudanças urbanas, baseadas em exigências de ordem sanitária e da circulação urbana, inspirados no modelo de Paris como metrópole industrial. Essas alterações do espaço urbano serviam a dois campos: ao lado do progresso, da civilização e da regeneração e ao outro lado da cidade suja, doente e atrasada.
Institui-se o “bota-abaixo” e surgem os deserdados da urbe renovada. Uma grande força segregadora se articula através de um conjunto notável de obras e regulamentações jurídicas, executadas nos moldes de uma operação militar. […] A urbanização do Rio de Janeiro (e do Brasil) é o retrato fiel de sua visão de cidadania: a exclusão permanente das classes subalternas (BATISTA, 2003a, p. 40).
A autora (2003a) localiza sua análise na cidade do Rio de Janeiro; no entanto, suas colocações podem ser direcionadas para o âmbito nacional. Desse modo, compreende-se como a urbanização e a constituição de grande parte das cidades brasileiras segrega a população mais vulnerável: excluindo, gentrificando. Expulsa-se, então, esse contingente – classes subalternas que seriam descartáveis caso não interessasse à máquina que trabalhassem e consumissem – dos centros das cidades para as regiões periféricas.
À gentrificação, soma-se o ponto de vista das elites brasileiras que enxergam as massas urbanas de trabalhadores, em sua maioria negros, vivendo nos morros, como contingentes perigosos (BATISTA, 2003a, p. 36). O medo branco impera neste sentido. Isto é, o receio que as elites têm de que essa massa negra rebele-se. Este medo branco surgiu também a partir da situação escravista que, obviamente, “criou” cidades potencialmente negras, constituídas de escravos e libertos, como era a cidade do Rio de Janeiro no fim do século XIX. Segundo Batista (2003b, p. 36), “no censo de 1849, o Rio de Janeiro tem a maior população escrava urbana das Américas. A preocupação com a segurança se traduz em todos os níveis”.
Ainda de acordo com a autora (2003a), a elite brasileira contemporânea herdou a preocupação com a segurança que afligia as elites do século XIX. Um medo constante de que algo – um inimigo determinado –, a qualquer momento, pode atingir a propriedade e a integridade física da burguesia. Atualmente, os meios de comunicação ajudam na construção do estereótipo desse novo inimigo interno, que se veste de determinada forma, ouve um específico tipo de música, apresenta-se de certa maneira, transitando pela cidade sendo sempre uma ameaça em potencial.
A mídia se encarrega de esculpir o novo inimigo público número um […], que reproduziria táticas de guerrilha, já que se difundiu que em algum momento da história ele se cruzou na prisão com a militância de esquerda. […] a disseminação do medo e da sensação de insegurança diante de um Estado corrupto e ineficaz vai despolitizando as massas urbanas brasileiras, transformando-as em multidões desesperançadas, turbas linchadoras a esperar e desejar demonstrações de força. […] O estereótipo do bandido vaise consumando na figura de um jovem negro, funkeiro, morador de favela, próximo do tráfico de drogas, vestido com tênis, boné, cordões, portador de algum sinal de orgulho ou de poder e de nenhum sinal de resignação ao desolador cenário de miséria e fome que o circunda. A mídia, a opinião pública destacam seu cinismo, a sua afronta. São camelôs, flanelinhas, pivetes e estão por toda parte, até em supostos arrastões na praia. Não merecem respeito ou trégua, são os sinais vivos, os instrumentos do medo e da vulnerabilidade, podem ser espancados, linchados, exterminados ou torturados. Quem ousar incluí-los na categoria cidadã estará formando fileiras com o caos e a desordem, e será também temido e execrado (BATISTA, 2003a, p. 35-36).
Ademais, a cobertura midiática sobre a vida da população marginalizada favorece o entendimento de que se vive uma constante guerra nos morros e favelas. Os conteúdos de reportagens e matérias jornalísticas sobre essas comunidades raramente estão desassociados de assuntos relativos ao tráfico de drogas e à criminalidade. “A cultura, o esporte, a economia e as dificuldades cotidianas enfrentadas pelos moradores desses locais aparecem muito pouco em jornais e revistas, especialmente quando se considera o imenso número de reportagens e notas sobre operações policiais, tiroteios, invasões, execuções etc” (RAMOS; PAIVA, 2007, p. 77). Nota-se, então, um favorecimento à imagem degradante do morador da periferia das cidades brasileiras. Pela opinião pública, construída também pelos meios de comunicação, este morador da zona periférica é tido como algo a ser temido, suspeito em potencial, podendo ser considerado como menos que humano; é, pois, algo como um ser demonizado.
Esse indivíduo demonizado é instrumento do medo midiático e objeto final descartável, passível de ser executado em diversos níveis – na carne e no trato social – e pelas diversas instâncias do sistema de justiça penal. Analisando o sistema de controle social em que se vive, cujo marco é o genocídio dessa população marginalizada, Batista (2003b) afirma que
Na atual conjuntura da revolução tecno-científica, observamos o enfraquecimento do Estado com o colapso das políticas públicas, o aumento do desemprego e do subemprego, o rebaixamento dos salários e da renda per capita. Todo esse quadro neoliberal atinge níveis ainda mais dramáticos na marginalização profunda das classes urbanas. Estas massas urbanas empobrecidas num quadro de redução da classe operária, de pobreza absoluta, sem um projeto educacional, sem condições sanitárias, sem moradia, são a clientela de um sistema penal que reprime através do aumento de presos sem condenação, dos fuzilamentos sem processo, da atuação constante dos grupos de extermínio (BATISTA, 2003b, p. 102).
A descrição, feita pela autora (2003b), do estereótipo desse novo inimigo e de sua construção pela mídia, e sua análise do panorama do sistema de controle social servem aqui para entender o perfil das vítimas da letalidade violenta. Diversas pesquisas (BATISTA, 2003a; WAISELFISZ, 2012; CERQUEIRA; MOURA, 2013) têm apontado que esse inimigo abatido é pobre e negro.
Nessas ações policiais, muitos “Flávios” tornam-se vítimas do racismo institucionalizado. Esses cidadãos brasileiros, vitimados, conhecem apenas o que Nilo Batista (1996, p. 71 apud BATISTA, 2003a, p. 57) chama de “cidadania negativa” – a concepção de que esses jovens somente conhecem o exercício dos limites formais devido à coação do Estado. Isto é, os jovens negros barbarizados pela polícia, “esses setores vulneráveis […] conhecem a cidadania pelo seu avesso, na ‘trincheira auto defensiva’ da opressão dos organismos do nosso sistema penal” (BATISTA, 2003a, p. 57). Nesse sentido, cabe a afirmação de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães (2005) ao discutir o racismo, que “se perpetua por meio de restrições fatuais da cidadania, por meio da imposição de distâncias sociais criadas por diferenças enormes de renda e de educação, por meio de desigualdades sociais que separam brancos de negros, ricos de pobres” (GUIMARÃES, 2005, p. 59).
Tratando do racismo policial, essa primeira ação do Coletivo subverte a lógica da verticalidade concernente ao monumento ao trabalhar com a horizontalidade, tanto no nome da obra quanto no manejo de sua feitura. Franciely Dossin (2009, p. 111-112) conclui que “a horizontalidade nesse monumento que representa o corpo morto aponta justamente para a necessidade de horizontalizar o trato dito ‘civilizado‘ – que na verdade é destinado a apenas tipos específicos – nas relações sociais”.

Figura 1 – Frente 3 de Fevereiro, “Monumento Horizontal”, 2004. Fonte: <http://casadalapa.blogspot.com.br/2009/02 /frente-3-de-fevereiro-monumento.html> . Acesso em: 15 ago. 2025.
Tal aspecto horizontal também aparece na intervenção urbana Monumento Mínimo, em que a artista Néle Azevedo posiciona pequenas estátuas de corpos humanos feitas de gelo, medindo 20 centímetros de altura, sentadas em locais públicos, postas a derreter. A escolha pela escala mínima denuncia uma transgressão do imponente, do “gigantesco”, bem como evidencia a ligação com a população, com o social, retratado em cada estatueta que compõe o grupo de esculturas da intervenção. Essa ação, realizada em distintos locais e países, conecta-se também com diversos fatores concernentes à subversão das características dos monumentos oficiais. Acerca da quebra que sua obra propõe, Azevedo esclarece-nos4:
No lugar da escala grandiosa, monumental, largamente utilizada como ostentação de grandeza e poder, propus uma escala mínima.
No lugar do rosto do herói da história oficial, uma homenagem ao observador anônimo, ao transeunte, que se identifica com o processo, numa espécie de celebração da vida, do reconhecimento do trágico, do heróico que há em cada trajetória humana. No lugar de materiais duradouros, propus as esculturas em gelo que duram cerca 4 Entrevista realizada pelo autor deste artigo com a artista em 6 de fevereiro de 2013 por email. de trinta minutos – não cristalizam a memória, nem separam a morte da vida. Elas ganham fluidez, movimento e resgatam uma função original do monumento: lembrar que morremos. Além de desaparecer, ao se contrapor à fruição pública permanente da escultura tradicionalmente estática, o Monumento Mínimo pode ser entendido como arte que se constitui na presença – é preciso estar no lugar e na hora do acontecimento. A experiência com a colocação e com o derretimento das esculturas em gelo é pública, porém, pessoal, presencial, intransferível. A memória fica inscrita no sujeito que viu.

Figura 2 – Néle Azevedo. Monumento Mínimo, 2012, Santiago – Chile. Fonte: <http://www.neleazevedo.com.br>. Acesso em: 24 jan. 2025.
No sentido de permanência simbólica em Monumento Horizontal, Dossin (2009, p. 107) ainda nota que o artifício da lápide pode estar relacionado com as “representações nos cemitérios ocidentais, que, de forma simbólica, perduram a presença dos mortos entre os vivos. A ideia era de que esse ‘túmulo’ ficaria ali e serviria de alerta para a população sobre os crimes praticados pela polícia”. No entanto, a placa em memória a Flávio foi retirada pela PM no dia seguinte ao da sua feitura. O coletivo retornou ao local após uma semana a fim de reconstruir o monumento, na ocasião em que o fizeram apenas utilizando concreto e pigmentos, alcançando um resultado visual ainda mais forte (FRENTE 3 DE FEVEREIRO, 2006, p. 20).

Figura 3 – Frente 3 de Fevereiro, Monumento Horizontal refeito, 2004, cimento sobre asfalto e tinta, São Paulo. Fonte: < http://casadalapa.blogspot.com.br/2009/02/frente-3-de-fevereiro monumento.html>. Acesso em: 15 dez. 2024.
Assim, o que o Monumento Horizontal acrescenta no cenário citadino é como um grito denunciativo do que a cartografia elaborada pelo coletivo estabelece: a clara verticalidade exposta no assassinato de Flávio Sant’Ana pela Polícia Militar. Este crime9ocorrido no dia 3 de fevereiro de 2004 demonstra-se como central no trabalho do coletivo ainda naquele ano, tendo também sido tratado como um episódio de racismo policial. Algumas outras intervenções foram também realizadas pela Frente nesta direção, levantando a questão como um problema social de diversas amplitudes.
Racismo Policial
Nessa perspectiva, a Frente carimba em algumas cédulas da moeda corrente no Brasil com dados sobre o racismo a inscrição “RACISMO POLICIAL: 91% dos jovens negros já foram parados pela Polícia”. Trata-se de uma estratégia de intervenção adotada em 2004. Os dados apresentados na cédula são integrantes de uma pesquisa realizada pelo Datafolha também no ano em que a ação do coletivo foi produzida.

Figura 4 – Frente 3 de Fevereiro, Racismo Policial, 2004, intervenção realizada sobre cédulas da moeda corrente no país, carimbo sobre papel-moeda. Fonte: <http://casadalapa.blogspot.com.br/2009/02/frente-3-de-fevereiro-zona-de-acao_19.html>. Acesso em: 15 dez. 2024.
Conforme Dossin (2009, p. 84-85) nos sugere, esta ação da Frente, ainda que sem intenção declarada, faz menção à famosa série artística Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Cédula, em que Cildo Meireles carimbou frases em notas de cruzeiro em alusão à morte do jornalista Vladimir Herzog na cidade de São Paulo no ano de 1974. Meireles fez circular as cédulas que indagavam sobre a identidade dos assassinos de Herzog, questionando as atrocidades cometidas nos porões da ditadura militar no Brasil.

Figura 5 – Cildo Meireles, Inserções em Circuitos Ideológicos, 1970-1975, intervenção realizada sobre cédulas da moeda corrente no país, carimbo sobre papel-moeda. Fonte: < http://www.bolsadearte.com/public/2011/realizados/dezembro2011/146.htm>. Acesso em: 22 jan. 2025.
Ambas ações comunicam em silêncio sobre tratamentos cruéis. A perversidade do preconceito racial dialoga em certas instâncias com a crueldade do assassinato – ainda que haja versão sobre possível suicídio – do jornalista. Estabelecem-se assertivas e questionamentos simbólicos que carregam valores distintos, o da obra e o do dinheiro, em prol de causas para além do disposto no papel-moeda. O que é apontado pelas informações carimbadas pela Frente 3 de Fevereiro parece evocar a reflexão para a condição da “atitude suspeita” apontada por Vera Malaguti Batista, quando a autora analisa a fala dos policiais em casos sobre o estudo de drogas e juventude pobre no Rio de Janeiro.
(…) o que se vê é que a “atitude suspeita” não se relaciona a nenhum ato suspeito, não é atributo do “fazer algo suspeito”, mas sim de ser, pertencer a um determinado grupo social; é isso que desperta suspeitas automáticas.
Jovens pobres pardos ou negros estão em atitude suspeita andando na rua, passando num táxi, sentados na grama (…) ou reunidos num campo de futebol (BATISTA, 2003, p. 103).
Racismo Policial: Quem Policia a Polícia?
Com foco no debate do preconceito de raça, o coletivo ainda produziu no ano de 2004 outra ação. Os grupos de arte A Revolução Não Será Televisionada, BijaRi, Cobaia, Contrafilé, Frente 3 de Fevereiro e Grupo de Arte Callejero, em parceira com o Sesc em São Paulo, desenvolveram o projeto intitulado Zona de Ação (FRENTE 3 DE FEVEREIRO, 2006, p. 32). Consistia numa espécie de laboratório de investigação, reflexão e ação coletiva no espaço urbano. Com base em levantamento de dados, mapeamentos, entrevistas, intervenções junto à comunidade, tensões e confrontos diretos com a polícia, foi desenvolvida a ideia para um cartaz impresso, que teve tiragem de 500 exemplares feitos em serigrafia. Os cartazes levavam a inscrição “RACISMO POLICIAL: quem policia a Polícia?”, tendo sido colados em torno do 1° Batalhão da Polícia Militar de São Paulo, localizado no Jardim São Luiz, zona sul da cidade de São Paulo, por ser “responsável pelo terceiro maior número de mortes de civis em ocorrências policiais” (idem) da capital paulista. Segundo o informativo disponibilizado no site da Frente, a Zona de Ação aconteceu nas 5 zonas daquela cidade – a saber, norte, sul, leste, oeste e centro –, estabelecendo relações próximas com assuntos pertinentes às áreas em que atuaram.

Figura 6 – Frente 3 de Fevereiro, Racismo Policial: Quem Policia a Polícia?, 2004, serigrafia sobre papel. Fonte: < http://casadalapa.blogspot.com.br/2009/02/frente-3-de-fevereiro-zona de- acao_19.html>. Acesso em: 15 dez. 2024.

Figura 7 – Cartazes Racismo Policial: Quem Policia a Polícia? colados em torno do 1° Batalhão da Polícia Militar de São Paulo, Jardim Luiz, zona sul da capital paulista. Fonte: FRENTE 3 DE FEVEREIRO. Zumbi somos nós: cartografia do racismo para o jovem urbano. São Paulo: Programa de Valorização de Iniciativas Culturais, 2006, p. 32.
A pergunta presente nesta obra da Frente remete-nos a uma das placas utilizadas na difundida série de ações do coletivo nova-iorquino Surveillance Camera Players intitulada Você está sendo vigiado para sua própria segurança (“You are being watched for your own safety”). O grupo posiciona placas que contêm frases como “Quem está vigiando?” (“Who is watching?”), “Chega de definição racial” (“No more racial profiling”) e “Quem vigia os vigilantes?” (“Who watches the watchers?”) na direção das câmeras de vigilância espalhadas pela cidade para questionar o abusivo controle exercido pelos equipamentos de monitoramento. O que se tem demonstrado pelo coletivo é o total desgosto pela prática vigilante e pela busca da polícia, que gerencia e executa o monitoramento, por uma tipificação racial do elemento suspeito.

Figura 8 – Surveillance Camera Players. Foto de parte da ação You are being watched for your own safety, Nova Iorque, 1999-2001. Fonte: <http://www.notbored.org/scp performances.html>. Acesso em: 25 jan. 2025.
Também contornando o social, filtrando-o, a Frente 3 de Fevereiro desenrola fios ideológicos do poder, que evidenciam certo controle da polícia exercido sobre a população negra. Tal constatação advém dos gritos imagéticos manifestados nas ações daquele coletivo, em que questiona-se o poder. Noção essa que entra em conformidade também com o discurso do historiador Nicolau Sevcenko que diz:
Desde o começo, a polícia trouxe essa ênfase fortemente repressiva, muito mais do que agir como elemento assegurador da ordem pública e, obviamente, do bem-estar, da qualidade de vida. (…) No princípio, era repressiva, era essa de perseguir gente que tinha determinados perfis. O perfil do anarquista europeu e o perfil do quilombola do período final do século XIX (apud FRENTE 3 DE FEVEREIRO, 2006, p. 38).
A explanação de Sevcenko reafirma a concepção de uma corporação policial racista, com base em um relato histórico. É justamente a partir deste entendimento que se configuram as afirmações de Julita Lemgruber, que corroboram com o cerne do pensamento explicitado nestas obras da Frente 3 de Fevereiro. Lembruger aponta que “a polícia é racista e o policial é racista. […] ele vai funcionar como um integrante de uma instituição que, historicamente, sempre trabalhou com um viés racista. […] O negro é mais morto do que o branco. A diferença não é a questão do estado socioeconômico” (apud FRENTE 3 DE FEVEREIRO, 2006, p. 36).
Considerações finais
Interessante notar que o coletivo se baseia em casos reais, dados da experiência cotidiana e teorias para, então, avançar na luta antirracista por meio de seus gritos simbólicos. Torna-se claro que o confronto com o caráter racista da ação policial possibilitou, ainda que oriundo de um evento trágico, a realização de alguns manifestos pelo coletivo. Ao combater simbolicamente a violência, a Frente 3 de Fevereiro questiona as relações sociais e o tratamento manifestado pela corporação policial aos negros.
Essas ações denunciam uma corporação racista que tipifica e estereotipa o negro como “elemento suspeito”, categorizando-o como possível ameaça à sociedade e à ordem social potencialmente em qualquer situação. Neste sentido, as obras assumem um papel importante na luta antirracista. Ao alertarem para a prática policial, servem como guia para o jovem negro urbano – público-alvo para quem as ações artísticas se dirigem, uma vez que foram expostas no espaço da cidade. Servem, pois, como aviso e denúncia de uma prática racista.
Enxergamos, então, as ações Monumento Horizontal, Racismo Policial e Racismo Policial: Quem Policia a Polícia? como respostas simbólicas à tipificação racista da polícia que corroboram para a luta antirracista advogada pela Frente 3 de Fevereiro.
Referências
BATISTA, Vera Malaguti. Difíceis ganhos fáceis: droga e juventude pobre no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revan, 2003a.
O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história. Rio de Janeiro: Revan, 2003b.
DOSSIN, Francielly Rocha. Reflexões sobre o Monumento Horizontal: o corpo negro além do racismo e da negritude. 2009. 144p. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Centro de Artes, Universidade do Estado de Santa Catarina. 2009.
FRENTE 3 DE FEVEREIRO. Zumbi somos nós: cartografia do racismo para o jovem urbano. São Paulo: Programa de Valorização de Iniciativas Culturais, 2006.
MESQUITA, André. Insurgências poéticas: arte ativista e ação coletiva. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2011.
ZUMBI somos nós. Produção de Frente 3 de Fevereiro. [S. l.]: DOC TV, 2006. 1 videodigital (51:30min.): DVD.
1Doutorando em Letras: Linguagens e Representações pela Universidade Estadual de Santa Cruz, Mestre em Letras: Cultura, Educação e Linguagenas pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Email: iuloalmeida@gmail.com.
2Doutora em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília. Professora Titular de Cultura Brasileira do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas, e Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras: Cultura, Educação e Linguagem da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Email: marilia.flores.seixas@gmail.com.
3O grupo é composto por Achiles Luciano, André Montenegro, Cássio Martins, Cibele Lucena, Daniel Lima, Daniel Oliva, Eugênio Lima, Felipe Brait, Felipe Teixeira, Fernando Alabê, Fernando Coster.
4Entrevista realizada pelo autor deste artigo com a artista em 6 de fevereiro de 2013 por email.
