THE USE OF SCIENCE TEXTBOOKS FOR TEACHING BIOLOGY IN ADULT AND YOUTH EDUCATION IN AMAZONAS
EL USO DEL MATERIAL DIDÁCTICO DE CIENCIAS PARA LA ENSEÑANZA DE BIOLOGÍA EN LA EDUCACIÓN DE JÓVENES Y ADULTOS EN AMAZONAS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509061133
Átila de Souza1
Francisca Martins dos Santos2
Isis da Silva Sousa3
Sandra Barbosa de Sousa4
Sandra de Oliveira Botelho5
Francenilce Lopes da Silva6
Resumo
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) representa um espaço de ressignificação das práticas pedagógicas, em especial no ensino de Ciências e Biologia, marcado por desafios que incluem a ausência de materiais específicos para esta modalidade. No Amazonas, tal realidade se torna ainda mais evidente devido à diversidade cultural, às barreiras geográficas e à escassez de políticas públicas voltadas para a produção de livros didáticos adaptados. Neste cenário, professores recorrem ao livro de Ciências, originalmente produzido para os anos finais do ensino fundamental, adaptando conteúdos e linguagens para o ensino de Biologia na EJA do ensino médio. Este artigo busca analisar esse processo, destacando os limites e as potencialidades dessa prática, com base em autores contemporâneos e na realidade amazônica.
Palavras-chave: Educação de Jovens e Adultos. Ensino de Biologia. Livro didático. Amazônia. Ciências.
Abstract
Adult and Youth Education (EJA) represents a space for the redefinition of pedagogical practices, especially in the teaching of Science and Biology, marked by challenges such as the absence of materials specifically designed for this modality. In Amazonas, this reality becomes even more evident due to cultural diversity, geographical barriers, and the scarcity of public policies aimed at producing adapted textbooks. In this context, teachers use Science textbooks, originally produced for the final years of elementary school, adapting content and language for teaching Biology in EJA at the high school level. This article seeks to analyze this process, highlighting the limitations and potentialities of this practice, based on contemporary authors and the Amazonian context.
Keywords: Adult and Youth Education. Biology Teaching. Textbook. Amazonas. Science.
Resumen
La Educación de Jóvenes y Adultos (EJA) representa un espacio para la resignificación de las prácticas pedagógicas, especialmente en la enseñanza de Ciencias y Biología, marcada por desafíos como la ausencia de materiales específicos para esta modalidad. En Amazonas, esta realidad se vuelve aún más evidente debido a la diversidad cultural, las barreras geográficas y la escasez de políticas públicas orientadas a la producción de libros de texto adaptados. En este contexto, los docentes recurren a libros de Ciencias, originalmente producidos para los últimos años de la educación primaria, adaptando contenidos y lenguajes para la enseñanza de Biología en la EJA de nivel secundario. Este artículo busca analizar este proceso, destacando los límites y las potencialidades de esta práctica, con base en autores contemporáneos y en la realidad amazónica.
Palabras clave: Educación de Jóvenes y Adultos. Enseñanza de Biología. Libro de texto. Amazonas. Ciencias.
1. Introdução
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil, e particularmente na região Norte, enfrenta dificuldades históricas relacionadas à infraestrutura escolar, à formação docente e, sobretudo, à ausência de materiais didáticos específicos (HADDAD; DI PIERRO, 2000; SOARES, 2020). No Amazonas, esse cenário é ainda mais acentuado, dadas as dimensões continentais do estado, as dificuldades de acesso às comunidades ribeirinhas e a diversidade sociocultural que caracteriza a região (OLIVEIRA; SANTOS, 2019).
No contexto da disciplina de Biologia, os professores da EJA, especialmente nos anos finais do ensino médio, frequentemente não dispõem de livros didáticos voltados à especificidade dessa modalidade. Como alternativa, recorrem ao material de Ciências produzido para o ensino fundamental, adaptando conteúdos e reorganizando linguagens para atender às demandas dos estudantes (BIZZO, 2012; CARVALHO, 2021).
A escolha por essa adaptação decorre do fato de que os livros de Ciências, em sua maioria, utilizam uma linguagem mais acessível, com recursos imagéticos e explicações contextualizadas, aspectos que dialogam com a realidade da EJA. Assim, este artigo propõe analisar criticamente como os professores da EJA no Amazonas utilizam tais materiais no ensino de Biologia, apresentando tanto os limites quanto às potencialidades dessa prática.
2. A Educação de Jovens e Adultos no Amazonas: desafios e especificidades
A EJA no Amazonas é marcada por profundas desigualdades estruturais. Segundo o IBGE (2022), o estado apresenta uma das maiores taxas de analfabetismo funcional do país, o que reflete na baixa escolarização da população adulta. Além disso, os desafios logísticos para acesso às comunidades ribeirinhas e áreas rurais dificultam a distribuição de materiais e a continuidade dos processos educativos (MENEZES, 2021).
Autores como Paiva (2019) e Di Pierro (2010) destacam que a EJA no Brasil ainda carece de políticas públicas efetivas de valorização, permanecendo à margem das prioridades do sistema educacional. No caso do Amazonas, pesquisas apontam que o ensino sofre ainda com a alta rotatividade docente, a carência de formação continuada e a inexistência de materiais didáticos adaptados para jovens e adultos (SILVA; SANTOS, 2020).
Essa realidade evidencia a necessidade de práticas pedagógicas criativas e adaptativas, nas quais os professores reinventam estratégias para tornar o processo de ensino-aprendizagem significativo.
3. O papel do material didático na EJA: limites e possibilidades
O material didático constitui uma ferramenta essencial para o ensino, mas na EJA sua função é ampliada: ele atua como mediador entre os conhecimentos científicos e as vivências dos estudantes (ROJO, 2013; OLIVEIRA, 2023). No caso da Biologia, a ausência de livros específicos para a EJA leva à utilização de materiais de Ciências, mais simples em termos de linguagem e organização temática.
Para Arroyo (2017), a EJA deve partir das experiências dos sujeitos, reconhecendo suas trajetórias como ponto de partida para a aprendizagem. Os livros de Ciências, ao trazer exemplos cotidianos e recursos visuais, tornam-se mais próximos desse ideal pedagógico do que muitos livros de Biologia destinados ao ensino regular.
Contudo, há limites. Como aponta Bizzo (2012), o ensino de Biologia demanda aprofundamento conceitual, necessário à compreensão de processos vitais. A adaptação feita pelos professores, portanto, exige criatividade e domínio didático para que não haja simplificação excessiva.
4. A adaptação do livro de Ciências para o ensino de Biologia
Na prática cotidiana da EJA no Amazonas, professores utilizam o livro de Ciências como suporte para ensinar conteúdos de Biologia no ensino médio. Essa adaptação se dá por meio da reorganização de capítulos, do uso de imagens ilustrativas e da inserção de exemplos regionais, como a biodiversidade amazônica (CARVALHO, 2021; COSTA, 2022).
Mantoan (2003) defende que a flexibilização curricular é necessária para atender às especificidades dos diferentes contextos escolares. Nesse sentido, a adaptação do livro de Ciências para o ensino de Biologia na EJA é um exemplo de flexibilização didática, ainda que não prevista pelas políticas oficiais.
Exemplos práticos incluem a utilização de capítulos de Ciências sobre ecossistemas para introduzir discussões de Biologia sobre relações ecológicas, ou o uso de textos sobre corpo humano para explorar fisiologia e saúde. Os professores, assim, tornam-se mediadores ativos do conhecimento, recontextualizando o material de acordo com as necessidades da turma.
5. A linguagem acessível como estratégia pedagógica
A linguagem empregada nos livros de Ciências, mais simples e objetiva, mostra-se mais adequada à realidade da EJA (ROJO, 2013; KLEIMAN, 2008). Muitos estudantes retornam à escola após longos períodos afastados e apresentam dificuldades de leitura e interpretação (SOARES, 2020).
Nesse contexto, a acessibilidade linguística dos livros de Ciências permite maior engajamento dos alunos. Coscarelli e Ribeiro (2021) destacam que a presença de imagens, gráficos e esquemas atua como suporte à compreensão, reduzindo barreiras cognitivas. Além disso, Santos (2024) enfatiza que a construção de sentidos em sala de aula depende de materiais que dialoguem com o repertório cultural dos estudantes.
Assim, ao adotar o livro de Ciências, os professores da EJA não apenas adaptam conteúdos, mas também promovem a inclusão linguística e cognitiva.
6. Experiência docente como prática coletiva
A adaptação dos livros de Ciências para o ensino de Biologia não é um fenômeno isolado, mas uma prática recorrente entre os professores da EJA no Amazonas. A ausência de materiais específicos leva esses profissionais a desenvolverem estratégias criativas para mediar o conhecimento (SILVA; SANTOS, 2020).
Entre as estratégias observadas estão:
O uso de exemplos do cotidiano amazônico, como o ciclo da mandioca ou a pesca, para explicar conteúdos de ecologia;
A construção de comparações simples, como relacionar o funcionamento do coração a uma bomba d’água, prática comum nas comunidades ribeirinhas;
A ênfase em temas de saúde e meio ambiente, que possuem relevância imediata para a vida dos estudantes.
Tais práticas revelam como os professores da EJA se tornam verdadeiros autores de seus materiais, adaptando recursos para garantir a aprendizagem significativa dos estudantes.
7. Análise crítica dos autores
Ao refletir sobre o papel dos materiais didáticos de Ciências na EJA, observa-se que a literatura acadêmica dialoga com as vivências cotidianas do professor, que muitas vezes se vê desafiado a adaptar os conteúdos de Biologia aos diferentes perfis de estudantes. Como lembra Arroyo (2017), o trabalho docente na EJA está permeado por improvisos criativos, construídos a partir do reconhecimento das trajetórias de vida dos jovens e adultos que retornam à escola.
Na prática, o professor enfrenta a carência de livros específicos para a modalidade e, diante disso, faz escolhas que vão além da teoria: seleciona, simplifica, reorganiza e traduz os conteúdos dos livros de Ciências. Oliveira e Ferreira (2019) descrevem esse movimento como uma “adaptação por necessidade”, em que o docente reelabora a linguagem científica para torná-la mais próxima da realidade dos alunos. Essa prática também dialoga com a minha própria experiência como professor, em que muitas vezes precisei transformar textos densos de Biologia em esquemas visuais, metáforas ou exemplos do cotidiano amazônico — como comparar a fotossíntese ao processo de “cozinhar” alimentos com a luz do sol, algo perceptível nas roças locais.
Candau (2012) e Rojo (2013) reforçam que essa adaptação não significa simplificação pobre, mas sim ressignificação das linguagens, incorporando recursos gráficos, narrativos e multimodais. Do ponto de vista do professor em sala, esse processo exige sensibilidade para equilibrar acessibilidade e rigor, evitando tanto o tecnicismo quanto a banalização. Nesse sentido, os livros de Ciências oferecem uma vantagem, já que sua organização visual e textual costuma facilitar a mediação, mas é a ação docente que determina se esse material será de fato significativo.
Além disso, autores como Kress (2010) e Coscarelli & Ribeiro (2021) chamam atenção para a multiplicidade de linguagens nos materiais. O professor da EJA, no entanto, muitas vezes vai além do livro, incorporando desenhos feitos pelos próprios alunos, fotografias do cotidiano, músicas e até narrativas orais da comunidade. Essa prática, que vivi intensamente em minhas aulas, cria um ambiente em que os alunos não apenas recebem informações, mas também se veem representados no processo de aprendizagem.
No contexto amazônico, como apontam Souza (2020) e Costa (2022), a experiência docente é atravessada por barreiras geográficas e culturais. Ensinar Ciências em comunidades ribeirinhas, por exemplo, exige articular os conteúdos do livro com o conhecimento empírico sobre os ciclos da floresta, as técnicas de pesca ou os cuidados tradicionais com plantas medicinais. Nesse ponto, Dussel (2015) contribui com a ideia de uma pedagogia da alteridade: o professor não apenas transmite o conhecimento científico, mas cria pontes entre o livro didático e os saberes locais, valorizando a diversidade de formas de compreender o mundo.
Portanto, ao analisar criticamente os autores, é possível afirmar que há consenso sobre a insuficiência de materiais didáticos específicos para a EJA, mas a solução passa necessariamente pela mediação docente. O professor se torna o elo entre teoria e prática, entre ciência e vida, entre livro e experiência. Minha trajetória confirma que essa mediação não é apenas uma estratégia pedagógica, mas um ato político de reconhecimento dos estudantes da EJA como sujeitos de saber e de direito à educação de qualidade.
8. Considerações finais
O ensino de Biologia na EJA do Amazonas enfrenta desafios significativos, sobretudo pela ausência de materiais didáticos específicos para essa modalidade. A adaptação dos livros de Ciências, embora marcada por limites, representa uma estratégia pedagógica potente, sustentada pela criatividade docente e pela busca por acessibilidade linguística.
Nesse processo, os professores atuam como autores e mediadores de conhecimento, promovendo aprendizagens contextualizadas que dialogam diretamente com a realidade amazônica e com os saberes locais. Essa prática evidencia a necessidade de repensar políticas públicas, reconhecendo e valorizando o papel do professor na construção de materiais didáticos adaptados, bem como incentivando a produção de recursos pedagógicos voltados à EJA, capazes de respeitar as trajetórias e experiências de vida dos estudantes.
Para pesquisas futuras, este estudo aponta a importância de investigar:
O impacto da adaptação dos livros de Ciências na aprendizagem de Biologia, por meio de estudos empíricos com turmas de EJA no Amazonas;
A construção de materiais didáticos colaborativos, em que professores, alunos e comunidades locais participem da elaboração de conteúdos contextualizados e culturalmente significativos;
A formação continuada docente, voltada especificamente para estratégias de mediação de linguagem e interdisciplinaridade, fortalecendo a capacidade de adaptação e ressignificação dos materiais;
A diversidade de linguagens nos materiais didáticos, incluindo recursos multimodais, vídeos, infográficos e experiências práticas que possam ampliar a compreensão científica sem perder a acessibilidade.
Essas perspectivas indicam que a temática do uso de livros de Ciências no ensino de Biologia para a EJA não apenas possui relevância imediata, mas também oferece um campo fértil para novos estudos e publicações, contribuindo para a construção de práticas pedagógicas mais inclusivas e efetivas na região amazônica.
9. Referências
ARROYO, M. G. Ofício de mestre: imagens e autoimagens. Petrópolis: Vozes, 2017.
BIZZO, N. Ciências: fácil ou difícil? São Paulo: Ática, 2012.
CARVALHO, A. M. P. de. Ensino de Ciências por investigação: condições para implementação em sala de aula. São Paulo: Cengage, 2021.
COSCARELLI, C. V.; RIBEIRO, A. M. D. M. Leitura e escrita na educação básica. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
COSTA, M. A. Educação científica e diversidade cultural. Belém: EDUFPA, 2022.
DI PIERRO, M. C. A Educação de Jovens e Adultos no Brasil: a trajetória de construção de uma política pública. Educação & Sociedade, v. 31, n. 114, p. 939-960, 2010.
HADDAD, S.; DI PIERRO, M. C. Educação de Jovens e Adultos: direito e diversidade. Brasília: MEC/UNESCO, 2000.
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KLEIMAN, A. B. Modelos de letramento e as práticas de alfabetização na escola. Campinas: Mercado de Letras, 2008.
LIMA, A. P.; COSTA, M. A. Ensino de Ciências e cidadania. Manaus: EDUA, 2020.
MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar: o que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.
MENEZES, R. Educação no interior do Amazonas: desafios e perspectivas. Revista Amazônia, v. 27, n. 3, p. 45-62, 2021.
OLIVEIRA, M. R. Educação e diversidade linguística. São Paulo: Cortez, 2023.
OLIVEIRA, J. F.; SANTOS, J. B. Educação e território na Amazônia: desigualdades e resistências. Manaus: EDUA, 2019.
PAIVA, J. Educação de Jovens e Adultos: dilemas e desafios. Rio de Janeiro: Lamparina, 2019.
ROJO, R. H. R. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola, 2013.
SANTOS, D. L. Linguagens e multiletramentos no ensino de Ciências. Revista Brasileira de Educação em Ciências, v. 19, n. 2, p. 87-104, 2024.
SILVA, L. A.; SANTOS, M. C. Formação docente e práticas na EJA amazônica. Revista Educação & Amazônia, v. 15, n. 1, p. 112-129, 2020.
SOARES, L. Educação de Jovens e Adultos: políticas e práticas. São Paulo: Cortez, 2020.
1Doutorando em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: atilabio@hotmail.com
2Doutoranda em Ciências da Educação, Faculdad interamericana de Ciências Sociales (FICS). E-mail:martinsfrancisca64@gmail.com
3Especialista em Metodologia do Ensino de Biologia e Química, Centro Universitário Internacional -UNINTER, Curitiba-PR. E-mail: isissilva89@gmail.com
4Doutora em Biotecnologia, Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Manaus-AM. E-mail: sanbsousa@gmail.com
5Mestra em Educação em Ciências na Amazônia, Universidade do Estado do Amazonas (UEA). E-mail: botsandra123@gmail.com
6Mestranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: francenilce.silva@prof.am.gov.br
