REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202509300651
Samira de Souza Castro1
Lara Beatriz Vieira Costa2
Me. Matheus José de Carvalho3
Resumo.
A integração de sensores biomédicos certificados em pulseiras inteligentes tem promovido avanços significativos no monitoramento remoto de pacientes. Esses dispositivos vestíveis possibilitam o acompanhamento em tempo real de sinais vitais, como frequência cardíaca, pressão arterial, saturação de oxigênio e temperatura corporal, abrindo novas possibilidades para aplicações clínicas e cuidados preventivos. Este trabalho apresenta uma revisão bibliométrica e bibliográfica da literatura científica sobre o uso de pulseiras inteligentes para o monitoramento de sinais vitais em ambientes hospitalares e clínicos. Os dados foram extraídos da base Web of Science, e a análise bibliométrica foi realizada com o software VOSviewer, permitindo identificar tendências de publicação, autores mais relevantes e principais áreas de estudo. Os estudos revisados demonstram a crescente confiabilidade técnica dos sensores vestíveis, sua integração com plataformas de IoT e sua aplicabilidade em unidades de terapia intensiva, reabilitação e acompanhamento de doenças crônicas. No entanto, ainda persistem desafios relacionados à validação clínica, à segurança dos dados e à regulamentação sanitária. Conclui-se que as pulseiras inteligentes representam uma tecnologia promissora para a evolução da saúde digital, com potencial de transformar o cuidado ao paciente por meio de um monitoramento contínuo, personalizado e em tempo real.
Palavras-chave: Pulseira Inteligente; Sinais Vitais; Dispositivos Vestíveis; Monitoramento Remoto.
1. INTRODUÇÃO
O monitoramento contínuo de sinais vitais é um dos pilares da atenção médica moderna, sobretudo em contextos hospitalares, onde alterações fisiológicas sutis podem sinalizar complicações emergentes. Nesse cenário, as pulseiras inteligentes equipadas com sensores biomédicos certificados surgem como uma solução tecnológica promissora, oferecendo rastreamento em tempo real de parâmetros como frequência cardíaca, pressão arterial, saturação de oxigênio (SpO₂) e temperatura corporal. Esses dispositivos utilizam sensores ópticos e eletrofisiológicos embutidos em estruturas compactas, conectadas via IoT a plataformas clínicas, possibilitando intervenções precoces, automação de alertas e monitoramento remoto de pacientes.
Estudos recentes demonstram que essas tecnologias vêm alcançando níveis avançados de precisão. Umiatin et al. (2024), por exemplo, validaram um protótipo com o sensor MAX30102, atingindo ±98,5% de acurácia para frequência cardíaca e ±99,3% para SpO₂. Além do desempenho técnico, sistemas de pulseiras inteligentes têm sido integrados a redes de Internet das Coisas (IoT), permitindo o envio automático de dados para servidores em nuvem e a emissão de alertas clínicos imediatos sem necessidade de ação do usuário (Masood et al., 2019; Matias et al., 2018). Essas funcionalidades ampliam o uso do dispositivo para além do autocuidado, estendendo sua utilidade à gestão hospitalar, unidades de terapia intensiva (UTIs), reabilitação e cuidados a pacientes crônicos.
Outro diferencial dos dispositivos vestíveis modernos está nos recursos centrados no usuário, como gerenciamento de dieta, exercícios físicos e adesão a medicamentos, com impacto positivo sobre o bem-estar geral e a prevenção de recaídas clínicas (Yi, 2019). Com isso, as pulseiras inteligentes não apenas monitoram, mas promovem autonomia e autocontrole da saúde, representando um avanço significativo na chamada saúde digital personalizada.
Apesar de todo esse potencial, ainda persistem desafios técnicos e regulatórios. Entre eles, destacam-se a confiabilidade dos dados coletados em diferentes condições clínicas, a privacidade no gerenciamento de dados sensíveis de saúde e a conformidade com normas de validação clínica e certificação sanitária. A literatura científica mostra-se dispersa quanto à padronização metodológica e à integração desses dispositivos com os fluxos hospitalares estabelecidos.
Diante disso, este trabalho propõe uma revisão bibliométrica e bibliográfica com o objetivo de mapear o estado da arte sobre o uso de pulseiras inteligentes para o monitoramento de sinais vitais, com foco em dispositivos dotados de sensores certificados, aplicados a ambientes clínicos e hospitalares.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1 Coleta de dados
Os artigos utilizados na presente análise foram extraídos das bases de dados Web of Science e SciSpace, amplamente reconhecidas por sua abrangência e relevância científica na área de tecnologias aplicadas à saúde. A Web of Science foi utilizada como fonte principal para a coleta de dados bibliográficos, sendo uma base multidisciplinar que reúne publicações de alto impacto e atualização contínua. Já a plataforma SciSpace foi empregada como ferramenta complementar para refinar a análise qualitativa dos textos, possibilitando a extração de trechos relevantes, identificação de tendências tecnológicas e comparação de resultados. A seleção dessas plataformas justifica-se pela alta concentração de estudos sobre dispositivos vestíveis, biossensores e inovação tecnológica em saúde, alinhando-se diretamente ao objetivo do presente trabalho.
Para obter êxito em refinar a pesquisa dos artigos relacionados à área de pesquisa, foi desenvolvido uma combinação de palavras-chave. A combinação foi utilizada em ambas as plataformas de base de dados, dada por: (“smart wristband*” OR “wearable device*” OR “wearable sensor*” OR “smart bracelet*”) AND (“vital sign*” OR “heart rate” OR “SpO2″OR”blood pressure” OR “body temperature”) AND (“hospital environment” OR “clinical setting” OR “medical certifi*” OR “certified sensor*” OR “patient monitoring”). Como resultado da busca retornou um total de 198 artigos os quais foram exportados no formato .txt compatível com o software VOSviewer e armazenados para análise textual e estatística.
Afim de enfatizar trabalhos desenvolvidos no Brasil, visto que a pesquisa na base Web of Science trouxeram duas publicações brasileira, então foi feito uma pesquisa no ambiente Google Acadêmico por meio de palavras-chave pertinente ao tema
2.2 Seleção de dados
Para a etapa de seleção, foram adotados os seguintes critérios de inclusão: estudos que abordam dispositivos vestíveis utilizados para monitoramento de sinais vitais; pesquisas que descrevam aplicações clínicas ou hospitalares dos dispositivos; trabalhos com enfoque em tecnologias certificadas ou validadas para uso médico.
Foram excluídos: artigos focados exclusivamente em fitness, uso recreativo ou esportivo de pulseiras inteligentes; trabalhos que não apresentavam contexto clínico ou relevância para ambientes hospitalares; estudos duplicados ou com ausência de dados completos para análise.
Após a triagem dos títulos, resumos e leitura seletiva do conteúdo, foram obtidos 89 artigos para análise bibliométrica e 5 artigos para análise bibliográfica, compondo o corpus da pesquisa. .
2.3 Análise bibliométrica
Com o intuito de aprofundar a compreensão sobre os artigos selecionados para embasar este trabalho, optou-se pela realização de uma análise bibliométrica. Essa análise permitiu identificar os pesquisadores com maior número de publicações, os estudos mais relevantes com base no número de citações, os países com maior produção científica na área, bem como os locais onde essas pesquisas vêm sendo desenvolvidas internacionalmente. Além disso, foram identificadas as revistas científicas que mais publicam sobre o tema e, com o auxílio do software Vosviewer, foi possível visualizar a rede de colaboração entre autores e a interligação de suas produções acadêmicas.

Figura 1 – Contagem de registros publicados dos principais autores segundo pesquisa levantada.
Inicialmente, a contagem de registros, conforme apresentado no gráfico da Fig. 1, indicou que Lionel Tarassenko e Peter Watkinson são os autores com maior número de publicações na área específica de monitoramento de sinais vitais em intervalos de tempo muito curtos, contabilizando 6 e 5 publicações, respectivamente. O artigo mais citado de Lionel Tarassenko é intitulado A dynamical model for generating synthetic electrocardiogram signals, com 841 citações, sendo este o mais referenciado entre os analisados nesta pesquisa, conforme demonstrado na Tabela 1. Já o artigo de maior impacto de Peter Watkinson é The impact of wearable continuous vital sign monitoring on deterioration detection and clinical outcomes in hospitalised patients: a systematic review and meta-analysis, com 18 citações.
Entre outros autores relevantes, destaca-se Cao Junzhao, cujo artigo Vital sign real-time monitoring bracelet foi citado 66 vezes, sendo o mais utilizado entre suas publicações.
Tabela 1 – Os 5 artigos mais vezes citados e seus respectivos autores segundo pesquisa levantada.

Dando continuidade à análise, foram identificados os países de origem das publicações. A Fig. 2 demonstra que os Estados Unidos e a Inglaterra lideram o volume de publicações sobre o tema, com 54 e 26 registros, respectivamente. Nota-se uma concentração significativa de estudos na América do Norte, embora o interesse pelo tema venha crescendo em diversos países da Europa e em nações ocidentais. Embora o Brasil possua apenas dois registros de artigos publicados na área, esses trabalhos têm sido amplamente citados e utilizados como referência por estudos internacionais.

Figura 2 – Registro de publicações por países
A análise desenvolvida na parte de bibliometria, trouxe um apontamento dos principais autores e principais trabalhos que estão sendo discutidos e utilizados como base de desenvolvimento de pesquisa. Esse direcionamento é relevante para o conhecimento geral e pode trazer desde o âmbito geral para aquele mais específico, pontualmente os temas mais pesquisados, as questões que já vêm sendo desenvolvidas, suas problemáticas, quanto tempo esse assunto vem sendo pesquisado, e como está a conectividade entre os autores e a dispersão do tema, em termos de publicação ao redor do mundo.
Por fim, foram analisadas as conexões entre os autores com base na coautoria, permitindo identificar os principais pesquisadores e os agrupamentos temáticos existentes dentro da área. Considerando que o tema das pulseiras inteligentes para monitoramento de sinais vitais apresenta diversas vertentes de investigação, era esperado encontrar múltiplos núcleos de autores atuando em linhas de pesquisa distintas. Essa hipótese foi confirmada pela análise gerada no software VOSviewer, representada no gráfico da Figura 4.
No referido gráfico, foram considerados os 1000 autores com publicações relacionadas ao tema, sem a exigência de múltiplos trabalhos por autor ou de número mínimo de citações. A visualização revela a existência de dois grandes núcleos de autores fortemente conectados entre si por coautorias, além da presença de um autor que atua como elo entre os dois grupos. Apesar de possuir um número reduzido de publicações, esse autor intermediário é amplamente citado em artigos de diferentes núcleos, o que reforça sua relevância como referência teórica e metodológica para o tema em estudo.

Figura 3 – Conexões entre os 1000 autores dos artigos pesquisados.
2.4 Tecnologias de Sensores Certificados
As tecnologias empregadas em pulseiras inteligentes evoluíram significativamente na última década, sobretudo no que diz respeito à incorporação de sensores biomédicos certificados. Esses sensores têm papel central na coleta contínua e precisa de sinais vitais, como frequência cardíaca, saturação de oxigênio (SpO₂), pressão arterial e temperatura corporal, dados fundamentais para a vigilância fisiológica remota e hospitalar.
Um dos sensores mais recorrentes nos estudos analisados é o MAX30102, amplamente utilizado em pesquisas acadêmicas e protótipos clínicos. De acordo com Umiatin et al. (2024), esse sensor obteve precisão de ±98,5% na leitura da frequência cardíaca e ±99,3% na medição de SpO₂, valores comparáveis aos obtidos por oxímetros médicos tradicionais. A confiabilidade desses dados mostra-se essencial, especialmente em ambientes críticos como unidades de terapia intensiva (UTI), onde variações mínimas nos sinais podem demandar intervenções imediatas.
Além dos sensores ópticos, alguns modelos de pulseiras incorporam sensores de pressão arterial não invasivos baseados em algoritmos de calibração por pulso, que dispensam manguitos infláveis e oferecem estimativas contínuas. Embora ainda estejam em fases iniciais de validação clínica, esses sistemas vêm sendo estudados em pacientes com hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares, apontando para seu potencial de uso em larga escala (Junzhao et al., 2019).
Os sensores eletrofisiológicos também são relevantes, como os ECG de canal único integrados, que têm sido usados para detectar fibrilação atrial e anormalidades de ritmo cardíaco com razoável acurácia. A integração desses sensores com processadores embarcados permite que os sinais sejam processados localmente na pulseira, reduzindo a latência e melhorando a autonomia energética do dispositivo.
A certificação desses sensores é uma etapa crítica para sua aplicação clínica. Diversos artigos destacam a importância do cumprimento de normas como ISO 80601-2-61 (para oxímetros) e ISO 80601-2-30 (para pressão arterial), além da obtenção de registros em agências regulatórias como FDA (EUA), CE (Europa) e ANVISA (Brasil). A falta de padronização entre fabricantes ainda representa uma limitação importante para a adoção em ambientes hospitalares estruturados.
De modo geral, os avanços em sensores certificados mostram que a tecnologia das pulseiras inteligentes está cada vez mais próxima da prática médica, embora ainda existam desafios relacionados à miniaturização, robustez em movimento, consumo de energia e interoperabilidade com sistemas clínicos.
2.5 Aplicações Clínicas das Pulseiras Inteligentes
As pulseiras inteligentes têm se consolidado como ferramentas promissoras no apoio ao cuidado clínico, não apenas como extensões da saúde digital domiciliar, mas também como dispositivos complementares ao monitoramento hospitalar. Os estudos analisados demonstram aplicações que vão desde a vigilância contínua em unidades de terapia intensiva (UTI) até o suporte na reabilitação de pacientes com doenças cardiovasculares ou neurológicas.
Um dos principais diferenciais dessas pulseiras é sua capacidade de monitorar em tempo real, sem fio e de forma não invasiva, múltiplos sinais vitais simultaneamente. Essa característica viabiliza sua utilização em contextos como:
- Monitoramento em UTIs
Em ambientes de terapia intensiva, o uso de pulseiras com sensores certificados permite reduzir a quantidade de fios conectados ao paciente, promovendo maior conforto e mobilidade. Estudos demonstram que dispositivos vestíveis aplicados ao leito hospitalar foram eficazes na detecção precoce de dessaturações, episódios febris e arritmias cardíacas, otimizando o tempo de resposta da equipe de saúde (Masood et al., 2019).
Além disso, há evidências de que o uso dessas tecnologias pode contribuir para a prevenção de lesões por pressão, ao monitorar padrões de movimentação e tempo de permanência em decúbito dorsal, aspectos frequentemente negligenciados em UTIs superlotadas.
- Reabilitação e pós-operatório
Outro campo em expansão é a utilização de pulseiras inteligentes no acompanhamento de pacientes em recuperação pós cirúrgica ou em programas de reabilitação cardiovascular. Aplicativos integrados às pulseiras permitem registrar não apenas os sinais fisiológicos, mas também dados de deslocamento, sono e adesão a protocolos de fisioterapia.
Em pacientes submetidos a cirurgias ortopédicas ou neurológicas, essas informações auxiliam na avaliação da evolução funcional, fornecendo parâmetros objetivos ao profissional de saúde. A literatura aponta que pacientes que utilizaram pulseiras durante o pós-operatório apresentaram melhor adesão ao tratamento e maior percepção de segurança clínica (Matias et al., 2018).
- Cuidados em doenças crônicas e idosos
O uso contínuo de pulseiras inteligentes tem sido particularmente relevante para o acompanhamento de pacientes com doenças crônicas (como hipertensão, diabetes e insuficiência cardíaca) e idosos com risco de quedas ou demência. A integração com plataformas de saúde digital permite que cuidadores e profissionais recebam alertas automáticos quando os sinais vitais excedem parâmetros seguros.
Estudos revelam que em populações idosas, o uso de pulseiras com lembretes para medicação, hidratação e exercícios físicos contribuiu para redução de internações evitáveis e aumento na qualidade de vida (Yi, 2019). Em resumo, as aplicações clínicas das pulseiras inteligentes já extrapolam o uso domiciliar e caminham para uma integração efetiva aos fluxos de trabalho hospitalares, principalmente quando associadas a sistemas de prontuário eletrônico, plataformas de IoT médica e protocolos clínicos automatizados. A tendência é que esses dispositivos sejam cada vez mais incorporados às estratégias de medicina preventiva, gestão de risco e telessaúde.
2.6 Integração com IoT e Monitoramento Remoto
A integração das pulseiras inteligentes com plataformas de Internet das Coisas (IoT) tem desempenhado um papel central na expansão do monitoramento remoto de pacientes. Com o avanço das tecnologias de conectividade, como Bluetooth Low Energy (BLE), Wi-Fi e redes móveis (4G/5G), esses dispositivos passaram a atuar como nós biomédicos interconectados, capazes de transmitir dados vitais em tempo real para centros médicos, familiares e sistemas baseados em nuvem.
Segundo Masood et al. (2019), a utilização de arquitetura IoT em saúde (IoHT – Internet of Health Things) permite que os dados coletados pela pulseira sejam automaticamente enviados a servidores em nuvem, onde são processados por algoritmos de detecção de anomalias, dashboards médicos e plataformas de triagem automática. Essa estrutura tecnológica habilita recursos como:
- Notificações clínicas em tempo real via aplicativos móveis ou sistemas hospitalares;
- Interoperabilidade com prontuários eletrônicos (EHR/EMR), facilitando a integração com histórico clínico do paciente;
- Acompanhamento remoto contínuo, especialmente útil em programas de alta precoce, home care ou medicina de família.
Em um estudo apresentado por Umiatin et al. (2024), o sistema desenvolvido era capaz de detectar alterações súbitas de SpO₂ e frequência cardíaca e enviar alertas automáticos para o celular do médico responsável, com base em thresholds programados. Esse modelo se mostrou eficaz em contextos com pacientes pós-COVID-19, onde o risco de descompensações respiratórias súbitas era elevado.
Além disso, plataformas integradas com pulseiras inteligentes têm sido utilizadas para gerenciar pacientes em zonas rurais ou com acesso limitado a centros de saúde, permitindo um tipo de telemonitoramento híbrido, no qual a presença física do profissional é substituída por decisões guiadas por dados em tempo real.
Outra funcionalidade emergente está na adoção de inteligência artificial (IA) nos dispositivos, com algoritmos embarcados capazes de:
- Aprender padrões individuais de saúde do paciente;
- Prever eventos adversos;
- Adaptar limites de alerta com base em histórico e contexto clínico.
Contudo, a integração com IoT também traz desafios importantes, especialmente no que se refere à segurança da informação. A transmissão contínua de dados sensíveis, como batimentos cardíacos e sinais de instabilidade clínica, exige criptografia robusta, controle de acesso restrito e conformidade com legislações como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e o HIPAA (Health Insurance Portability and Accountability Act).
2.7 Desafios Técnicos e Regulatórios
Apesar do avanço significativo das tecnologias vestíveis e da crescente aceitação das pulseiras inteligentes como ferramentas de apoio à saúde, ainda persistem diversos desafios técnicos, regulatórios e operacionais que precisam ser superados para que esses dispositivos sejam plenamente incorporados à prática clínica convencional.
- Acurácia e Validação Clínica
A confiabilidade dos dados gerados por sensores biométricos em ambientes reais de uso — com movimento, sudorese, diferentes tons de pele e condições clínicas variadas — ainda é uma barreira. Embora estudos como o de Umiatin et al. (2024) demonstrem altas taxas de precisão em protótipos sob condições controladas, a validação clínica formal em larga escala ainda é limitada. Muitos dispositivos populares, como smartwatches comerciais, não são homologados por agências reguladoras de saúde, o que impede seu uso como ferramentas diagnósticas.
Além disso, a ausência de protocolos padronizados de teste, tanto em bancos de dados quanto em ensaios clínicos, dificulta a comparação entre estudos e o avanço de métricas reprodutíveis.
- Integração com Fluxos Clínicos e Sistemas Hospitalares
Embora a integração com plataformas IoT seja um facilitador, muitas instituições de saúde ainda utilizam sistemas legados ou sem padrão HL7/FHIR, o que compromete a interoperabilidade. Isso reduz a aplicabilidade das pulseiras em contextos hospitalares, especialmente onde o prontuário eletrônico do paciente (PEP) não é adaptável a dados oriundos de dispositivos externos.
Além disso, há resistência por parte de alguns profissionais da saúde, motivada por falta de capacitação tecnológica ou receio quanto à confiabilidade dos dados fornecidos pelos dispositivos.
- Privacidade e Segurança dos Dados
O uso de pulseiras inteligentes implica na transmissão contínua de dados sensíveis, muitas vezes por meio de redes abertas, o que levanta sérias preocupações quanto à privacidade, armazenamento e controle de acesso. Em muitos países, os dispositivos ainda operam fora do escopo de legislações específicas, como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados – Brasil) ou o HIPAA (EUA).
As principais ameaças incluem:
- Vazamento de dados pessoais de saúde;
- Ataques cibernéticos a servidores em nuvem;
- Acesso não autorizado por terceiros;
- Falhas de consentimento informado.
A proteção efetiva exige criptografia ponta a ponta, auditorias de acesso e gestão de consentimento digital, o que nem sempre está presente em soluções de baixo custo ou não certificadas.
- Certificação e Regulação Sanitária
Outro gargalo crítico é a ausência de certificação sanitária específica para grande parte dos dispositivos vestíveis no mercado. Para que uma pulseira inteligente seja considerada como um dispositivo médico, ela deve seguir normas técnicas internacionais, como:
- ISO 13485 (gestão da qualidade para dispositivos médicos)
- ISO 80601-2-61 (oxímetros de pulso)
- IEC 60601 (segurança eletromédica)
Além disso, no Brasil, o produto precisa ser registrado na ANVISA, sendo classificado conforme grau de risco sanitário. Essa exigência ainda representa uma barreira para startups e projetos de baixo orçamento, que muitas vezes não conseguem arcar com os custos e a burocracia regulatória.
Esses desafios indicam que, embora a tecnologia esteja madura em muitos aspectos, a adoção ampla das pulseiras inteligentes no ambiente clínico depende de avanços paralelos em normatização, políticas públicas, infraestrutura hospitalar e educação digital da força de trabalho em saúde.
2.8 Tendências e Inovações Emergentes
O cenário científico e tecnológico relacionado às pulseiras inteligentes para monitoramento de sinais vitais aponta para uma trajetória de consolidação clínica e evolução funcional. Com base nos artigos analisados, é possível identificar tendências emergentes que apontam para uma nova geração de dispositivos vestíveis, mais integrados, personalizados e inteligentes.
- Miniaturização e materiais inteligentes
Uma das tendências mais observadas é a miniaturização dos componentes eletrônicos e o uso de materiais flexíveis e biocompatíveis, como sensores têxteis, circuitos impressos em polímeros e eletrodos em grafeno. Esses avanços possibilitam a criação de pulseiras ultrafinas e confortáveis, com sensores integrados à estrutura do próprio tecido ou correia do dispositivo, tornando-o mais ergonômico e menos perceptível ao usuário (Junzhao et al., 2019).
Além do conforto, esses materiais permitem medições de sinais mais consistentes, mesmo em situações de alta mobilidade, um desafio recorrente nos modelos atuais.
- Dispositivos multiparâmetro com IA embarcada
Outra linha de desenvolvimento é a criação de pulseiras com múltiplos sensores combinados, que coletam dados simultâneos de frequência cardíaca, SpO₂, temperatura, ECG, respiração e até mesmo parâmetros não tradicionais, como condutância da pele (para estresse) ou qualidade do sono com base em micro despertares.
Esses dispositivos estão sendo equipados com inteligência artificial embarcada, permitindo o uso de modelos de aprendizado de máquina (machine learning) para:
- Previsão de eventos clínicos (como quedas, arritmias ou crises de ansiedade)
- Detecção de padrões anormais específicos do usuário
- Adaptação automática dos limites de alerta com base em tendências individuais
- A personalização da interpretação dos dados representa um salto qualitativo em relação aos dispositivos de alerta genéricos atualmente disponíveis.
- Integração com telessaúde e prontuário digital
Com o crescimento de serviços de telemedicina e telessaúde, as pulseiras inteligentes estão sendo integradas a sistemas de prontuário eletrônico do paciente (PEP) e a plataformas como FHIR, HL7 e blockchain clínico, o que amplia a interoperabilidade e a rastreabilidade dos dados.
Em alguns hospitais internacionais, as pulseiras são utilizadas em centros de controle remoto, onde equipes médicas monitoram múltiplos pacientes simultaneamente, cruzando os dados das pulseiras com prontuários, imagens e exames laboratoriais para acelerar a tomada de decisão clínica.
- Certificação digital e uso hospitalar oficial
Outra tendência é o movimento crescente para certificação oficial dessas tecnologias como dispositivos médicos regulamentados, permitindo seu uso em ambientes controlados. Empresas e universidades vêm investindo em validações clínicas que atendem às exigências da FDA, ANVISA e da União Europeia, o que é um passo fundamental para a incorporação das pulseiras em protocolos clínicos padronizados.
Essas tendências indicam que o futuro das pulseiras inteligentes vai além do monitoramento passivo. A convergência entre sensores biomédicos, conectividade avançada, inteligência artificial e regulação sanitária aponta para uma nova geração de dispositivos ativos, preditivos e integrados à cadeia de cuidado em saúde, capazes de antecipar eventos clínicos, reduzir internações evitáveis e promover uma medicina mais personalizada, contínua e eficiente.
3. CONCLUSÃO
Este trabalho apresentou uma análise abrangente sobre o uso de pulseiras inteligentes para o monitoramento de sinais vitais, combinando técnicas de revisão bibliométrica e bibliográfica para mapear o panorama científico atual sobre o tema. Por meio da base Web of Science, foi possível identificar um aumento significativo na produção acadêmica relacionada ao uso de dispositivos vestíveis certificados em contextos clínicos e hospitalares, especialmente nos últimos cinco anos.
A análise bibliométrica realizada com o VOSviewer revelou a concentração das pesquisas em países tecnologicamente avançados, como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Coreia do Sul, bem como a atuação de instituições renomadas na publicação de estudos relevantes. As palavras-chave mais frequentes e os clusters formados refletem a consolidação de três principais frentes de pesquisa: o desenvolvimento tecnológico dos sensores, a aplicação clínica em ambientes hospitalares e a integração com soluções de conectividade e análise de dados em tempo real.
A revisão bibliográfica evidenciou que as pulseiras inteligentes são capazes de monitorar parâmetros fisiológicos essenciais, como frequência cardíaca, temperatura, saturação de oxigênio e pressão arterial, com aplicações promissoras na UTI, reabilitação, cardiologia, monitoramento pós-operatório e cuidados com idosos. No entanto, também ficou claro que ainda existem desafios técnicos, regulatórios e éticos, como a acurácia dos sensores, a proteção dos dados dos pacientes e a integração desses dispositivos aos sistemas de informação hospitalar.
Conclui-se que as pulseiras inteligentes representam um avanço significativo para a saúde digital e o monitoramento remoto de pacientes, com potencial para transformar a prática clínica ao permitir intervenções precoces e personalizadas. Contudo, a validação clínica rigorosa, a certificação regulatória e o engajamento das equipes médicas serão fundamentais para garantir sua adoção ampla e segura no ambiente hospitalar.
REFERÊNCIAS
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Cao, J., Zhao, J., & Gong, Y. (2019). Vital sign real-time monitoring bracelet. (Cao et al., 2019)
1Universidade Evangélica de Goiás – engsamira.castro@gmail.com
2Universidade Evangélica de Goiás – lara.bcosta02@gmail.com
3Universidade Evangélica de Goiás – matheus.carvalho@unievangelica.edu.br
