EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM PERSPECTIVA HISTÓRICA: FUNDAMENTOS, TRILHAS METODOLÓGICAS E DESAFIOS PARA A CIDADANIA ECOLÓGICA 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202509300552


Edna Eufrazio de Almeida1


Resumo 

O artigo de revisão de literatura investiga os fundamentos históricos, políticos e pedagógicos  que moldaram a Educação Ambiental (EA) ao longo dos séculos. Partindo da questão-guia  sobre como a produção científica de 2000-2024 interpreta esses marcos, o estudo persegue  cinco objetivos que incluem a análise da proposta “Educação Ambiental: Aluno em Ação”,  a reconstrução do percurso protecionista-conservacionista-sustentabilista e a discussão do  papel da EA na edificação de sociedades sustentáveis. Metodologicamente, adota-se um  desenho qualitativo-interpretativo inspirado em Creswell: delimitação do foco, buscas em  bases nacionais e internacionais, aplicação de critérios de elegibilidade, codificação no  Zotero/MAXQDA e validação interpares. Dos 642 registros iniciais, 54 compuseram a  síntese, permitindo recompor os três macro-períodos históricos e suas reverberações  contemporâneas. A releitura histórica inicia na colonização portuguesa, atravessa o  surgimento dos protecionistas britânicos, a institucionalização dos parques nacionais e a  virada conservacionista norte-americana, culminando nos debates globais sobre limites do  crescimento e desenvolvimento sustentável. Esse itinerário evidencia continuidades e  rupturas na relação sociedade-natureza e mostra como conferências-chave — de Estocolmo 72 a Tbilisi-77 — redefiniram princípios, objetivos e estratégias da EA. No panorama  recente, destaca-se a expansão brasileira impulsionada por universidades, movimentos  sociais e redes virtuais, que projetam a EA como indutora de racionalidade ética-ecológica e  de uma agenda que articula prudência ambiental, justiça social e viabilidade econômica.  Conclui-se que a EA não atua como apêndice, mas como fio condutor de lutas  socioambientais. Ao conjugar ciência, valores e ação política, ela transforma cada sala de  aula em laboratório de cidadania crítica, convertendo memória histórica em esperança prática  para os desafios planetários que se adensam no século XXI. 

Palavras-chave: Educação Ambiental; Histórico;  

Abstract  

The literature review investigates the historical, political, and pedagogical foundations that  have shaped Environmental Education (EE) over the centuries. Guided by the question of  how scientific output from 2000-2024 interprets these milestones, the study pursues five  objectives: analysing the “Environmental Education: Student in Action” proposal;  reconstructing the protectionist-conservationist-sustainabilist trajectory; and discussing EE’s  role in building sustainable societies. Methodologically, it employs a qualitative-interpretive  design inspired by Creswell—defining the focus, searching national and international  databases, applying eligibility criteria, coding with Zotero/MAXQDA, and validating  findings through peer review. Of the initial 642 records, 54 were synthesised, enabling the  reconstruction of three historical macro-periods and their contemporary reverberations. The historical rereading begins with Portuguese colonisation, passes through the rise of British  preservationists, the institutionalisation of national parks, and the North-American  conservationist turn, culminating in global debates on growth limits and sustainable  development. This trajectory reveals continuities and ruptures in the society–nature  relationship and shows how key conferences—from Stockholm ’72 to Tbilisi ’77—redefined  EE’s principles, objectives, and strategies. In the recent panorama, Brazil’s expansion stands  out, driven by universities, social movements, and virtual networks that position EE as a  promoter of ethical-ecological rationality and an agenda linking environmental prudence,  social justice, and economic viability. The study concludes that EE is not an appendix but  the guiding thread of socio-environmental struggles. By weaving together science, values,  and political action, it transforms every classroom into a laboratory of critical citizenship,  converting historical memory into practical hope for the planetary challenges that deepen in  the twenty-first century. 

1 INTRODUÇÃO  

Os desafios socioambientais que se veem atualmente são tão complexos que já não  cabem mais nas tradicionais discussões a respeito das formas tradicionais de organização  social. Nesse quadro, a Educação Ambiental (EA) surge como um instrumento capaz de  semear consciência crítica e incentivar a participação cidadã na elaboração de políticas  públicas. Por isso, este artigo, por conseguinte, dedica-se a explorar, sob bases teóricas e  práticas, a proposta “Educação Ambiental. Parte-se do princípio de que o componente  educacional precisa ser alçado se quisermos enfrentar, com alguma eficácia, a crise ecológica  que se impõe. 

Percorrendo a linha do tempo, percebemos que certos episódios foram chave na  formação da paisagem socioambiental que herdamos (Oliveira, 2000). Quando os  portugueses fincaram presença no território que viria a ser o Brasil, em 1500, inauguraram  um ciclo de danos: devastação sistemática da Mata Atlântica, desestruturação cultural dos  povos originários, tráfico de espécies (a chamada biopirataria) e queimadas a perder de vista.  Não é à toa que muitas correntes de educação ambiental ainda carregam resquícios dessas  raízes históricas; por vezes, esse legado empurra o debate para leituras simplistas ou soluções  apressadas (Dias, 2001). 

Um dos primeiros ensaios de controle sobre a extração de recursos naturais foi a  Carta Régia de 1542, que tentou impor limites ao corte de madeira — tentativa tímida, pois  os abusos já se faziam sentir. Enquanto em outras partes do globo despontavam avanços  científicos notáveis, como o modelo heliocêntrico de Copérnico (1543) ou as leis da  gravitação formuladas por Isaac Newton (1667), o Brasil permanecia amarrado à lógica colonial da exploração imediatista, drenando suas riquezas naturais para atender a interesses  alheios e acelerar lucros rápidos (Dias, 2001). 

Nos séculos XVII e XVIII, os trabalhos de naturalistas estabeleceram os  fundamentos das ciências naturais, cultivando a simplicidade e a humildade para restabelecer  a convivência pacífica entre homem e natureza. Essa perspectiva influenciou pensadores  como Darwin e encontrou eco entre românticos e primitivistas que valorizavam o mundo  natural. A consciência biocêntrica começou a emergir gradualmente, moldando a proteção  contra abusos (Mccormic, 1992 apud Oliveira, 2000). No Brasil, em 1822, José Bonifácio de  Andrada e Silva, figura central no movimento pela independência, já propunha um discurso  inovador para a proteção dos recursos naturais, considerando-a um trunfo para o progresso  futuro do país. Ele defendia a criação de instituições científicas e a superação do modelo  agrícola colonial, monocultural e destrutivo. No entanto, suas ideias enfrentaram forte  oposição de interesses estabelecidos. 

O avanço da conscientização sobre os impactos humanos ganhou tração. Em 1840,  a mortandade de um milhão de irlandeses por fome, devido à devastação de plantações de  batata geneticamente uniformes, revelou as consequências da monocultura e a importância  da diversidade (Dias, 2001). Segundo esse último autor mencionado, este episódio reforçou  a necessidade de uma percepção mais atenta sobre a relação homem-natureza. A  popularidade da história natural, aliada ao aperfeiçoamento de armas de fogo, intensificou a coleta indiscriminada de espécies, exemplificada pela biopirataria de Henry Wallace Bates  na Amazônia em 1849, que levou 8 mil espécimes para a Inglaterra e subsidiou os estudos  de Charles Darwin.  

A carnificina levou ao surgimento dos protecionistas, que acreditavam na proteção  dos animais como salvaguarda à sociedade. Campanhas contra a matança de aves para moda  feminina em 1860 resultaram em leis de proteção no Parlamento Inglês (Oliveira, 2000).  Contudo, a visão protecionista muitas vezes reduzia a educação ambiental a campanhas  pontuais de sensibilização, ignorando questões sociais e os direitos de territorialidade das  populações tradicionais. No Brasil, a Lei 601 de 1850, editada por D. Pedro II, proibiu a  exploração florestal em terras descobertas, mas foi amplamente ignorada, levando à  devastação da Mata Atlântica para o cultivo de café. 

Globalmente, pensadores como Thomas Huxley (1863) e George Perkin Marsh  (1864) alertavam sobre a interdependência entre o homem e a natureza e os perigos da  depleção de recursos, com Marsh afirmando que “o homem há muito esqueceu que a terra  lhe foi dada somente em usufruto, e não para consumo e menos ainda para desperdício despudorado” (Marsh, 1864 apud Oliveira 2000). Nos EUA, a corrida por terras via  “Homestead Act” (1862) resultou em destruição florestal e protestos de “amantes da  natureza”, sem considerar as populações indígenas (Oliveira, 2000). 

Nesse cenário, surgiram os preservacionistas, defendendo espaços para amenidades  e lazer, culminando na criação do primeiro grupo ambientalista privado do mundo em 1865  (Diegues, 2000). Em 1869, o biólogo alemão Ernst Haeckel cunhou o vocábulo “ecologia”,  definindo-o como o estudo das complexas relações entre os seres vivos e seu ambiente (Dias,  2001). Em 1872, foi criado o primeiro parque nacional do mundo, Yellowstone (EUA), numa  área reservada e proibida de colonização (Oliveira, 2000). A depressão de 1880 na Europa e  EUA reforçou a crença de que a indústria, promotora de progresso, também era “destruidora  da moral e da ordem social, da saúde humana, dos valores tradicionais, do ambiente físico e  da beleza natural” (Mccormic,1992 apud Oliveira, 2000). 

Segundo Dias (2001) Patrick Geddes, considerado o fundador da Educação  Ambiental (EA), revelou em 1889 que o contato com a realidade do ambiente favorece a  aprendizagem e o desenvolvimento de atitudes criativas. No final do século XIX, o  ambientalismo americano se dividiu entre preservacionistas (mais restritivos, focados no  ambiente não-humano e na apreciação estética) e conservacionistas, que propunham a  exploração racional e sustentável dos recursos naturais (Mccormick, 1992 apud Oliveira,  2000). 

Estes últimos são vistos como precursores do conceito de “desenvolvimento  sustentável”, embora suas estratégias muitas vezes se limitassem a mudanças de hábitos sem  questionar os processos de produção e consumo. No Brasil, a primeira Unidade de  Conservação, a Reserva Florestal do Acre, data de 1911, seguida pelo Parque Nacional de  Itatiaia em 1937. Ambos reproduziram, quase sem adaptações, o modelo norte-americano,  ignorando que as florestas brasileiras já abrigavam populações tradicionais; o resultado  foram conflitos fundiários persistentes (Oliveira, 2000).  

Avançando para o fim do século XX, a Política Nacional de Educação Ambiental  (1999) consolidou a EA como responsabilidade compartilhada entre Estado e sociedade,  contemplando os campos formal e não formal. A lei propõe cultivar valores, atitudes e  competências capazes de prevenir, identificar e enfrentar problemas ambientais. Entendida  como processo contínuo, a EA incentiva a compreensão das transformações globais, alimenta  reflexões sobre as práticas pedagógicas e fomenta o diálogo entre diferentes saberes. Essa  perspectiva desloca o ensino de uma postura passiva para outra investigativa: professores  convertem-se em pesquisadores, a sala de aula vira laboratório de inovação, e educadores e educandos assumem, conjuntamente, o compromisso de buscar soluções. Em síntese,  aprender e ensinar passa a requerer a permanente leitura crítica do ambiente e a  racionalização de seu uso, evitando reduzi-lo a temas isolados. 

Assim, a transdisciplinaridade é um caráter essencial da EA, exigindo uma  comunicação mais profunda entre as disciplinas e o reconhecimento da interdependência de  todos os aspectos da realidade. Ab’Saber (1994) destaca que a EA envolve uma filosofia de  vida e um ideário comportamental, tanto individual quanto coletivo, sendo uma “ação entre  missionária e utópica, destinada a reformular comportamentos humanos e recriar valores  perdidos ou jamais alcançados”.  

A EA exige sensibilidade com a natureza, melhoria da sociedade, uma aproximação  entre ciência e ética, e a redução de desigualdades sociais. Requer método, noção de escala,  percepção adequada das relações entre tempo, espaço e conjunturas, além de conhecimentos  sobre realidades regionais, revitalizando a pesquisa de campo e promovendo a  interdisciplinaridade como prévia da transdisciplinaridade, culminando na conquista da  cidadania. Rocha (2003) reforça que a interdisciplinaridade na EA é positiva por romper a  departamentalização universitária e promover o contato entre profissionais de diversas  formações, buscando compreender e resolver problemáticas socioambientais ao reunir as  Ciências Biológicas e Humanas. 

No Brasil, a EA tem se expandido nos últimos 20 anos, impulsionada por  universidades, movimentos sociais e redes de EA. Vasconcellos et al. (2009) a descrevem  como provocadora de mudanças políticas, estimuladora de uma racionalidade ética e  ecológica, e promotora de atitudes e valores pessoais e de práticas sociais compatíveis com  a sustentabilidade da vida na Terra.  

Sauvé (2005) a considera não apenas uma forma de educação, mas uma dimensão  que traduz nossa relação com o ambiente, buscando um acréscimo qualitativo na forma como  cada pessoa identifica e inter-relaciona os aspectos físico-biológicos, político-sociais e  econômico-sociais dos problemas ambientais. 

Diante do exposto, este artigo de revisão de literatura propõe-se a explorar a  trajetória e a evolução conceitual da Educação Ambiental, analisando como ela se tornou  uma peça fundamental na construção de uma consciência crítica e na promoção de ações  transformadoras. 

Com base na proposta apresentada, este artigo de revisão de literatura busca alcançar  os seguintes objetivos: 1) Analisar os pressupostos teórico-práticos da Educação Ambiental  com enfoque na participação ativa do aluno, conforme a proposta “Educação Ambiental: 

Aluno em Ação”. 2) Revisitar o contexto histórico da Educação Ambiental, traçando a  evolução do pensamento ambientalista desde suas origens, incluindo os movimentos  protecionistas, preservacionistas e conservacionistas, e sua influência nas concepções atuais  de EA. 3) Discutir a definição e o desenvolvimento do conceito de Educação Ambiental,  destacando a contribuição decisiva da Conferência de Tbilisi (1977) e a incorporação da  dimensão social e da complexidade das interrelações ecológicas e sociais. 4) Explorar o  caráter interdisciplinar e transdisciplinar da Educação Ambiental, bem como suas  implicações para a reformulação das práticas pedagógicas e para o fomento de uma  aprendizagem ativa, crítica e transformadora. 5) Refletir sobre o papel da Educação Ambiental na construção de sociedades  sustentáveis, abordando a necessidade de conciliar a prudência ecológica com a viabilidade  econômica, a justiça social, a diversidade cultural, a suficiência territorial e a atuação política. 

2 METODOLOGIA  

Inspirados no percurso metodológico para revisões de literatura proposto por  Creswell (2014), estruturamos um desenho qualitativo-interpretativo que sustenta e dialoga  com o recorte histórico-teórico apresentado na dissertação que originou este estudo. Tivemos  como ponto de partida irmos em busca de artigos que abordassem movimentos protecionistas,  conservacionistas e sustentabilistas da EA. O procedimento foi organizado em cinco etapas  complementares, descritas a seguir. 

1) Delimitação do foco e formulação da questão de revisão 

Definiu-se a seguinte pergunta orientadora: como a produção científica brasileira e  internacional (2000-2024) interpreta os marcos históricos, políticos e pedagógicos da  Educação Ambiental (EA) descritos no artigo? A partir dela, estabeleceram-se como eixos  analíticos os três macro-períodos destacados pelo capítulo (protecionista, conservacionista e  sustentabilista), permitindo manter a coerência interna da revisão. 

2) Localização e seleção da literatura 

Entre fevereiro e abril de 2025 foram interrogadas as bases SciELO, ERIC, Web of  Science, Google Scholar e Catálogo de Teses da CAPES. Utilizaram-se descritores  combinados em português, inglês e espanhol, tais como “educação ambiental”, “história da  EA”, “políticas públicas ambientais” e “formação docente”. Além disso, a busca manual em anais de congressos e legislações complementou o corpus. Dos 642 registros recuperados,  118 passaram para a triagem detalhada. 

3) Critérios de elegibilidade e avaliação de qualidade 

Incluíram-se estudos empíricos, teóricos ou de revisão que: (a) tratassem explicitamente de  EA; (b) dialogassem com aspectos históricos ou de políticas públicas; (c) estivessem  publicados entre 2000 e 2024; e (d) apresentassem rigor metodológico (parecer por pares,  clareza analítica). Excluíram-se artigos duplicados, notas técnicas e textos sem acesso  integral. A checklist foi adaptada para avaliar qualidade, resultando em 54 trabalhos  elegíveis. 

4) Extração, categorização e síntese dos dados 

As referências selecionadas foram importadas para o Zotero e, posteriormente, analisadas  no MAXQDA 24. Seguindo Creswell, empregou-se uma codificação inicial aberta, seguida  de agrupamentos axiais que reconstituíram os três períodos históricos empregados no  artigo. Os códigos analíticos permitiram comparar narrativas sobre a evolução da EA,  identificar convergências (ex. ênfase na formação crítica do cidadão) e lacunas (ex. pouca  investigação em contextos amazônicos). 

5) Procedimentos de validação e considerações éticas 

Para aumentar a confiabilidade, dois pesquisadores codificaram 20 % do material  independentemente, alcançando acordo de 0,87 (Kappa). Divergências foram solucionadas  por consenso. Todas as fontes são de domínio público ou de acesso institucional – não  havendo coleta de dados com seres humanos, o parecer ético não foi requerido. 

3 EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM PERSPECTIVA: HISTÓRIA, POLÍTICAS E  AÇÃO CIDADà

As próximas subseções introduzem uma linha do tempo na qual a Educação  Ambiental se reconfigura diante de diferentes contextos sociais, políticos e científicos.  Partindo dos primeiros movimentos protecionistas, atravessando o debate conservacionista e  alcançando a agenda sustentabilista contemporânea, cada etapa revelará como conceitos,  práticas pedagógicas e políticas públicas foram se entrelaçando para moldar a forma como  hoje entendemos o cuidado com o meio ambiente. Esse itinerário histórico não apenas  ilumina continuidades e rupturas, mas também oferece pistas para compreendermos os  desafios atuais e as possibilidades de ação coletiva que se abrem quando educação e ecologia  caminham lado a lado.

3.1 Contexto histórico da Educação Ambiental  

Quando tratamos de EA, há alguns fatos marcantes, inseridos no contexto de cada período  histórico-político-social, cujos movimentos e acontecimentos situaram-se na busca de significação e  ressignificação das formas de relações com o meio ambiente. Segundo Oliveira (2000), algumas das  tendências da educação ambiental ainda presentes carregam lastros históricos da origem do  ambientalismo. Tal fato permeia os relatos que se sucedem, demonstrando que essas raízes históricas  e sociais profundas habitam as diversas concepções de Educação Ambiental, justificando  interpretações muitas vezes reducionistas. O primeiro maior impacto no meio ambiente iniciou-se  durante o descobrimento do Brasil. 

Em 1500, com a chegada dos portugueses ao Brasil – cerca de 1.100  homens em 12 naus – iniciaram-se alguns de nossos maiores problemas  ambientais: exploração predatória da floresta atlântica (a primeira a ser  invadida); aculturação, morte e desagregação dos povos indígenas (eram 4  milhões); contrabando da flora e fauna (biopirataria) para Portugal;  queimadas6, entre outros (Dias, 2001, p. 23). 

Nosso documento mais antigo restritivo à depleção de recursos naturais – a primeira Carta  Régia do Brasil – surgiu mais de quarenta anos depois, precisamente em 1542, estabelecendo normas  disciplinares para o corte de madeira e determinando punições para os abusos que vinham sendo  cometidos (Dias, 2001; Querol, 2010; Maioli et al., 2020; Gomes; Silva; Oliveira, 2024). 

No cenário mundial, Copérnico prova matematicamente, em 1543, que a Terra gira em torno  do sol (teoria heliocêntrica), começo de uma revolução na astronomia, com a publicação do livro:  “De Revolutionibus Orbium Coelestium” (Sobre a Revolução dos Orbes Celestes). Esta afirmação  quase custou a vida de Galileu Galilei pela Inquisição no século XVII (Johns, 2002; Romer, 1999;  Mosley, 2003; Gleiser, 2008; Kelly, 2016; Zanatta, 2017).  

Com a publicação na Alemanha do livro de Hans Staden, em 1557, o autor responsabiliza os  índios brasileiros pela devastação da natureza, citando os seguintes manejos adotados: derrubada de  mata e uso de fogo (Dias, 2001), além de suas práticas de subsistência. Tais argumentos foram  implantados para velar a real situação do opressor sobre o oprimido e justificar o que os colonizadores  sempre fizeram com os colonizados: exaurir as riquezas existentes em função do lucro imediato ( Pivello, 2011). 

Em 1667, Isaac Newton desenvolve e publica suas ideias sobre Gravitação Universal, as leis  básicas da Mecânica e da Ótica, além dos métodos de cálculo integral e diferencial. Inicia-se então o período de percepção de que leis regiam o universo (Dias, 2001). Enquanto o mundo evoluía  cientificamente, fruto de processos sociais que assim o permitiram, o Brasil experimentava um  retrocesso em função do domínio imposto pela colonização (Maioli et al., 2020; Gomes; Silva;  Oliveira, 2024). 

3.2 Surgem os Protecionistas  

A voga de colecionar, associada ao aperfeiçoamento das armas de fogo, foi se ampliando,  principalmente entre naturalistas amadores (Birkhead, 2012). Um dos episódios marcantes de  biopirataria veio a acontecer em 1849, quando o naturalista inglês Henry Wallace Bates veio à  Amazônia Brasileira, de onde recolheu 8 mil espécimes de plantas e animais, e as levou para  Inglaterra (Dias, 2001). A popularidade da história natural causou à depleção de espécies animais e  vegetais pelo exercício da coleta indiscriminada, cuja prática se tornou comum (Oliveira, 2000;  Egerton, 2012). Esta coleção de Bates subsidiou os estudos de Charles Darwin para sua “A Origem  das Espécies” (1859).  

A carnificina desenfreada pelo ato de colecionar conduziu à cruzada contra a crueldade com  os animais, e as obras de Darwin como indícios da ascendência humana e sua participação na  natureza, corroboraram para a aproximação dos movimentos emergentes. Os protecionistas  acreditavam na proteção dos animais como salvaguarda à sociedade e se conjugaram aos naturalistas  nesta batalha (Oliveira, 2000; Cowles, 2012).  

Em 1860, a “cruzada protecionista” concentrou seus esforços contra a matança de aves para  fornecer plumagem para as modas femininas, unindo protecionismo à história natural e culminando  com o surgimento de quatro leis de proteção no Parlamento Inglês (Oliveira, 2000).  

Os homens eram considerados como atrasados, selvagens e cruéis. Nesse cenário, os  protecionistas defendiam por meio de campanhas, associações e mediações políticas, espécies  animais mais afetadas pela ação antrópica, tal como hoje se observam ideários semelhantes em  iniciativas como  Projeto TAMAR, Mico Leão Dourado, Urso Panda, entre outros, onde exemplares isolados  da fauna são foco de sensibilização popular. Oliveira (2000) atribui a tais iniciativas uma concepção  banalizante da educação, restrita ao propósito do projeto em si.  

Similarmente, remete ao caráter ludibriante que algumas empresas como a Petrobrás e o INB,  com atividades reconhecidamente impactantes e de risco, utilizam a mídia para passar uma mensagem  de “ambientalmente correta”, apadrinhando e financiando projetos ambientais (Oliveira, 2000). Na atualidade, outro recurso de imagem positiva é utilizado por instituições diversas perante o uso do  termo “responsabilidade social” ao atrelarem seus nomes a projetos ditos sociais. 

No Brasil, em 1850, D. Pedro II edita a Lei 601, com finalidades protecionistas, proibindo a  exploração florestal em terras descobertas, delegando às províncias poderes para sua aplicação.  Entretanto, como ainda se verifica na atualidade, foi ignorada e observou-se uma grande devastação  de florestas para instalação de monocultura de café para exportação. Segundo Dean (1996, p. 193),  para a Mata Atlântica, a introdução dessa planta exótica, nativa da Etiópia, “significaria uma ameaça  mais intensa que qualquer outro evento dos trezentos anos anteriores”. E sentencia: 

[…] ainda não existe ferramenta melhor que a caixa de fósforos para estabelecer  uma plantação de café. A floresta primária sobrevive, na região da Mata Atlântica  ou em qualquer outro lugar do Brasil […] onde alguma parte dela encontre solos  adequados para se disseminar, continua a ser uma enorme tentação para qualquer  um que, mediante um ganho, se disponha a administrar à espécie humana sua dose  diária de cafeína (Dean, 1996, p. 205). 

Na Inglaterra, em 1862, ocorre uma campanha extensa contra a indústria de álcalis que  representava uma ameaça à saúde humana e às condições de vida dignas dos trabalhadores das cidades  industriais deste país. Tal movimento resultou na aprovação, pelo Congresso Britânico, em 1863, da  Lei do Álcalis de proteção da poluição do ar por vapores nocivos. 

Neste mesmo ano, Thomas Huxley, em seu ensaio “Evidence as to man’s place in nature”  (Evidências sobre o lugar do homem na natureza), relata sobre a interdependência entre o homem e  os demais seres vivos. No ano seguinte, o diplomata americano George Perkin Marsh faz uma  primeira análise detalhada da agressão humana à natureza em seu livro: “Man and nature: or physical geography as modified by human action” (Homem e natureza: ou geografia física modificada pela  ação humana). Nesta obra, ele faz uma analogia das causas do declínio das civilizações antigas com  uma previsão semelhante para as civilizações modernas, na ótica de depleção dos recursos naturais.  E lança um alerta: “o homem há muito esqueceu que a terra lhe foi dada somente em usufruto, e não  para consumo e menos ainda para desperdício despudorado” (Marsh, 1864 apud Oliveira 2000). 

Nos EUA, o “Homestead Act”, decreto também de 1862, permitindo ao cidadão americano a  requisição de até 160 acres – correspondente a 70 na – de terras devolutas que tivesse cultivado,  ocasiona uma corrida para a posse das terras (Wilm, 2020; Leonard; Kogelmann, 2022). 

Consequentemente houve o domínio de uma agricultura moderna e de uma indústria  expansiva, fruto do trabalho de milhões de capitalistas e transformação radical do espaço, às custas  da destruição florestal (Williams, 1982; Oliveira, 2000). Tal condição levantou protestos dos amantes  da natureza. Na ocasião, as populações tradicionais, representadas pelas nações indígenas, não eram  consideradas, inclusive por seu caráter migratório e entendimento comunal da terra. Assim, quando os seus últimos representantes foram deslocados para as reservas (Ross, 1975; Diegues, 2000;  Mitchell, 2015), os colonos se sentiram no direito de ocupar as terras vazias.  

3.3 Ganham espaço os preservacionistas  

Neste contexto, diversos setores da população, começaram a reivindicar espaços para  amenidades e lazer no cenário urbano. Surge então, em 1865, o primeiro grupo ambientalista privado  do mundo: Commons, Open Spaces, and Footpaths Preservation Society (Oliveira, 2000). Quatro  anos depois, em 1869, nasce o vocábulo “ecology”, seu criador: o biólogo alemão Ernst Haeckel  (Dias, 2001, p. 28) que o define como sendo o estudo das complexas relações entre os seres vivos e  o seu ambiente, referidas por Darwin em “A origem das espécies” como a luta pela sobrevivência.  Darwin, em sua obra, insere o embrião do conceito moderno de ecossistema – a economia da natureza  – assim estabelecendo a noção de conectividade entre seus componentes, pavimentando o caminho  para o surgimento da ecologia como ciência e definindo consciência ambiental. A própria noção da  ecologia recolocava o homem em seu lugar na natureza (Oliveira, 2000).  

Passados três anos, na linha preservacionista, em 1872, é criado o primeiro parque nacional  do mundo: Yellowstone (EUA), numa área de 800 mil na, determinando que a área fosse reservada e  proibida de ser colonizada, ocupada ou vendida, segundo as leis estabelecidas (idem).  

Com o advento da depressão de 1880, na Europa e EUA, e a crise intelectual deflagrada pela  era pós-Darwin, reforçou-se a crença de que a indústria (tida como fonte de poder político-econômico  e promotora de progresso) revelava-se então como “destruidora da moral e da ordem social, da saúde  humana, dos valores tradicionais, do ambiente físico e da beleza natural” (Mccormic,1992 apud  Oliveira, 2000).  

Em 1889, o fundador da Educação Ambiental, o escocês Patrick Geddes, revela em seu livro  “Insight into enviromental education” o que mais tarde se confirmou: que o contato com a realidade  de seu ambiente favorece não só a aprendizagem da criança (Dias, 2001) como também o  desenvolvimento de atitudes criativas em relação ao mundo em sua volta.  

Na virada do século XIX para o século XX, houve então uma divisão em dois campos do  ambientalismo americano: preservacionistas (mais restritivos) e conservacionistas. Os primeiros  (mais próximos do protecionismo britânico) defendiam a proteção das áreas virgens de qualquer outro  uso que as desvinculasse do cunho recreativo (lazer) ou educacional (Mccormick, 1992 apud Oliveira,  2000). 

Reverenciavam a natureza no sentido tanto de apreciação estética da vida selvagem quanto  espiritual. O desenvolvimento industrial configurava-se numa ameaça e locais intocados, de relevante  beleza cênica, deveriam ser salvos. O foco era o ambiente não humano (físico) e a educação, um  instrumento de sensibilização frente à natureza, que buscava criar “bons comportamentos” de  preservação do espaço sagrado (morada do espírito humano) (Cronon, 1995; Barnett, 2012). 

Os conflitos e os direitos de territorialidade das populações tradicionais indígenas eram  ignorados, pois as questões sociais eram irrelevantes (Spencer, 1999; Oliveira, 2000; Kantor, 2007).  As ciências naturais povoavam os discursos a favor da preservação e alertando quanto ao  desconhecimento dos princípios da ecologia, o que gerava “maus comportamentos”, ou seja,  comportamentos a serem modificados em prol de outros mais “adequados”. Tal visão, de acordo com  Oliveira (2000) identifica-se com a de Unidades de Conservação (Ucs), onde o valor da  biodiversidade sobrepõe a esfera cultural e as populações locais (Mahalwal, 2023; Knox, 2025). 

3.4 Espaço Dividido: os Conservacionistas 

Os conservacionistas (seguindo a tradição alemã) propunham a exploração dos recursos  naturais de forma racional e sustentável (Mccormick, 1992 apud Oliveira, 2000). Contrapondo-se à  radicalidade dos preservacionistas, os conservacionistas permitiam o uso criterioso (utilitarista) dos  recursos naturais, baseados nos princípios da racionalidade e do equilíbrio. Nesta concepção, o caráter  lento atribuído à natureza poderia ser revertido por processos de manejo que a tornariam “eficiente”.  Baseava-se em três princípios: uso dos recursos naturais pela geração presente; prevenção de  desperdícios; e a promoção dos recursos naturais para muitos.  

Segundo Oliveira (2000), foram ideias precursoras do que se conhece hoje como  “desenvolvimento sustentável”.  

Os conservacionistas também se voltaram para a “mudança de hábito se costumes frente ao consumo, aos desperdícios e aos maus comportamentos  das pessoas” (Oliveira, 2000, p. 17). 

Estratégias, na opinião do autor, utilizadas por secretarias, políticas de governo, Ucs, em  campanhas de convencimento, não reflexivas de processos de produção e consumo, tais como:  mutirões de limpeza, produção de mudas, reciclagem e outras, sem envolver questionamentos das problemáticas socioambientais. 

Em 1908 foi criada uma Comissão Nacional de Conservação objetivando um primeiro  levantamento dos recursos naturais dos EUA. Em seis meses esta comissão concluiu seu inventário,  servindo como proposta de base para legislação futura (Oliveira, 2000). A partir do Congresso  Conservacionista norte-americano, realizado em 1909, com a presença de dez delegados de quatro países (EUA, Canadá, Terra Nova10 e México), onde se chegou ao consenso de que “os problemas  de conservação eram mais amplos que as fronteiras de uma nação”, houve a proposta de convocação  para uma Conferência Mundial sobre Conservação em Haia (Holanda), que acabou por ser cancelada  na troca da presidência dos EUA. 

Estas ideias fruto de debates entre “desenvolvimentistas” (dos 44 estados americanos) e  “conservacionistas” (liderados por Pinchot), segundo Oliveira (2000), talvez tenham se constituído  no estágio embrionário de enfoques como as ideias de sustentabilidade e de Ecodesenvolvimento,  lapidados posteriormente na Conferência de Estocolmo e na Rio-92. De acordo com o autor, a  corrente preservacionista que impulsionou o movimento conservacionista americano via nos parques  nacionais a única opção para salvar pedaços da natureza, de grande beleza cênica, dos efeitos  deletérios do desenvolvimento urbano-industrial em profusão, onde a interferência humana na  natureza era vista sempre com uma conotação negativa, desconsiderando a experiência vivida pelos  índios americanos, em harmonia com a natureza. Esse modelo de conservacionismo se expandiu  rapidamente mundo afora, recriando a dicotomia entre “povos” e “parques” (Diegues, 2000).  

No Brasil, terras foram adquiridas do filho herdeiro do Visconde de Mauá em 04 de junho de  1908 e vendidas, pelo governo federal, a colonos, através de pagamento parcelado. De acordo com  informações da Academia Itatiaiense de História, foram escolhidas por assemelharem-se aos Alpes e  vendidas aos colonos que nelas plantaram frutas (macieiras e pereiras, entre outras), além de cereais.  Os imigrantes eram subvencionados pelo governo com passagem e um auxílio provisório, além de  instrumentos e sementes, até que conseguissem produzir.  

A terra era a maior ambição dos colonos e na década de vinte, o que hoje se chama Parque  Nacional do Itatiaia (parte baixa) constitui o que era Núcleo Colonial de Itatiaia: um núcleo, segundo  os mesmos relatos, de colonização predominantemente holandesa, suíça, alemã e austríaca. Foi um  projeto cujo objetivo inicial não avançou, ocorrendo emancipação em 1916, mas que deu origem às  primeiras pousadas da região de Itatiaia (Núcleo Colonial de Itatiaia) e Visconde de Mauá (Núcleo  Colonial de Visconde de Mauá).  

Por ocasião da XXVI Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1971, é proposta pelos países  desenvolvidos (Dias, 2001) a administração dos recursos naturais do planeta por meio de um fundo  mundial (World Trust), uma demonstração de “ajuda” exercida pelo domínio financeiro. Segue a  publicação A blueprint for survival (Um esquema para a sobrevivência), na Grã-Bretanha, com  propostas de medidas para obtenção de um ambiente ecologicamente saudável. No mesmo país, é  lançada a publicação do primeiro exemplar do Bulletin of Environmental Education (BEE). Surgem  programas europeus de desenvolvimento da Educação Ambiental (European Conservation Year),  originando, na opinião de Dias (2001), a maior parte das técnicas de ensino (jogos e simulações) sobre  o ambiente humano.

3.5 Ganham força os Sustentabilistas  

Em 1972, o Clube de Roma publica The limits of growth (Os limites do crescimento), um  relatório contendo modelos globais baseados nas técnicas de análise de sistemas, com previsões  desastrosas, caso não houvessem mudanças futuras nos modelos de desenvolvimento econômico  adotados. Este documento alerta sobre a busca desmedida do crescimento econômico e,  consequentemente, do consumo, prevendo a possibilidade de um colapso.  

Uma das propostas lançadas no livro era a “teoria do crescimento zero”,  polêmica principalmente para os países em desenvolvimento, dada a sua  inviabilidade perante a ânsia de crescimento, e para os mais ricos, por falta  de vontade política e supremacia na questão de dominação dos mais pobres  (Dias, 2001, p. 35-36). 

O conceito de desenvolvimento sustentável é alimentado por essa corrente que propõe o  congelamento do crescimento da população global, assim como do capital industrial e por outra,  difundida em sequência, relacionada com a crítica ambientalista ao modo de vida contemporâneo  (Jacobi, 2003), pressupondo a necessidade de existência de sustentabilidade social, econômica e  ecológica. 

Neste ano acontece também a Conferência de Estocolmo / Conferência da ONU sobre o  Ambiente Humano (1972) – marco histórico e político internacional no gerenciamento do ambiente  – contando com a presença de 113 países, entre eles o Brasil (Rodrigues, 1997), a qual estabelece  princípios comuns, dentro de uma visão global, para preservação e melhoria do ambiente humano.  Lança o Plano de Ação Mundial; oferece orientação aos governos e recomenda um Programa  Internacional de EA, visando à educação do cidadão para controle e manejo de seu ambiente.  Reconhece a EA como ferramenta crítica para o combate da crise ambiental mundial.  

No evento em questão, são debatidas também as ideias de sustentabilidade e  ecodesenvolvimento, conforme pressuposto acima mencionado. Entretanto, gera, por parte dos países  em desenvolvimento, críticas por se julgarem cerceados em seus direitos quanto ao crescimento  econômico. O Brasil, assim como a Índia, clama por poluição (estimulando a vinda de multinacionais)  em troca do desenvolvimento predatório: sinônimo de empregos e riqueza, à revelia das “mazelas  socioambientais”. 

Nesse ano de grandes controvérsias, Mclnnis, pioneiro da EA nos EUA,  formula que nosso dilema ambiental se origina da forma como aprendemos  a PENSAR O MUNDO: “dividindo-o em pedaços” (Dias, 2001, p. 37,  grifo nosso).

Em 1973, é criada no Brasil a SEMA (Brasil, 1973) – Secretaria Especial do Meio Ambiente  – primeiro órgão brasileiro de ação nacional orientado para a gestão integrada do ambiente. Dirigida,  de 1974 a 1986, pelo professor Paulo Nogueira-Neto, o qual recebe o prêmio Paul Getty – a mais alta  honra mundial no campo da conservação da natureza – e deixa estruturadas as bases das leis  ambientais que temos até hoje.  

Nos EUA é estabelecido o World Directory of Environmental Education Programs – Registro  Mundial de Programas em Educação Ambiental – contendo 70 países e 660 programas (Dias, 2001).  Realiza-se em Haia (Holanda), no ano subsequente (1974), 65 anos após a primeira proposta, o I  Congresso Internacional de Ecologia. Organismos internacionais sinalizam a possibilidade de  redução da camada de ozônio pelo uso dos compostos cloro-fluorcarbonos (CFC’s). Neste mesmo  ano, realiza-se em Jammi (Finlândia) o Seminário sobre EA, com apoio da UNESCO – Organização  das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Dias, 2001).  

Em 1975, respondendo às recomendações da Conferência de Estocolmo e organizado pela  UNESCO, ocorre na Iugoslávia The Belgrado Workshop on Environmental Education (Workshop de  Belgrado em Educação Ambiental), com a presença de especialistas de 65 países, onde são finalizados  os princípios e orientações para um Programa Internacional de Educação Ambiental (PIEA). O  encontro gera a “Carta de Belgrado” e correm reuniões simultâneas em vários continentes,  estabelecendo-se uma rede internacional de informações sobre a EA (Dias, 2001). A carta deixa  evidente a necessidade de um programa mundial de EA e apresenta uma expressão nova: “qualidade  de vida” (Rodrigues, 1997).  

No ano de 1976, em Chosica (Peru), ocorre a Reunião Sub-Regional de EA para o ensino  secundário, onde a questão ambiental na América Latina é vinculada às necessidades elementares de  sobrevivência da espécie humana e aos direitos humanos. No mesmo ano realiza-se um Curso de  Extensão para Profissionais de Ensino de 1º grau, baseado na reformulação curricular, com a  capacitação de 4 mil pessoas. São criados também cursos de pós-graduação em Ecologia em várias  universidades brasileiras e firmado Protocolo de Intenções entre o Ministério da Educação (MEC) e  o Ministério do Interior (MINTER) para inclusão de temas ecológicos no currículo das escolas de 1º  e 2º graus (Dias, 2001). Nota-se uma clara restrição à Ecologia descritiva.  

Em 1977, é criada The International Society for Environmental Education (Sociedade  Internacional para EA) com o propósito de desenvolver atividades de educação ambiental na School  of Nature Resources (Escola de Recursos Naturais) em Ohio (EUA). Nesse mesmo ano é assinado no  Brasil mais um protocolo de intenções entre o MEC e o MINTER/SEMA, prevendo a implantação  de uma ação integrada referente ao ensino e pesquisa em Ecologia, visando atender à política nacional  do meio ambiente. A SEMA constitui um grupo de trabalho para definição do papel da EA no contexto da realidade socioeconômico educacional brasileira. Passa a ser obrigatória, nos cursos de  engenharia brasileiros, a disciplina de Ciências Ambientais.  

Surgem propostas similares para o ensino de 1º e 2º graus, centrados em  Ciências Ambientais e Ecologia, respectivamente, e a criação de cursos  focados na área ambiental em várias universidades brasileiras (Dias, 2001,  p. 39). 

Paralelamente, ocorrem vários seminários, encontros e debates sobre a temática ambiental,  oferecidos pelos órgãos estaduais da área (CETESB, FEEMA), instituições afins (FBCN) e órgãos da  federação (IBDF, SEMA).  

Marco para a Educação Ambiental, de 14 a 26 de outubro de 1977, realiza-se em Tbilisi  (Geórgia) a I Conferência Intergovernamental sobre EA (IBAMA, 1997), organizada pela UNESCO,  em colaboração com o Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), considerada  prolongamento da Conferência de Estocolmo de 1972 (idem, 2001). É o ponto culminante da primeira  fase do Programa Internacional de EA, iniciado em Belgrado (1975) e, ao mesmo tempo, seu ponto  de partida, contribuindo para precisar a natureza da EA, suas características, objetivos e estratégias  quanto aos planos nacional e internacional (Dias, 2001; IBAMA, 1997; Rodrigues, 1997). 

3.6 Educação Ambiental  

Conforme Leff (2003), a Educação Ambiental (EA) ocupa cada vez mais os espaços de  reflexão e de atuação, permitindo o conhecimento e a compreensão das mudanças globais de nosso  tempo. A educação ambiental gera, portanto, reflexões sobre as práticas educativas e, deste modo,  abre novos caminhos para o diálogo entre saberes e para a aprendizagem no campo social.  

Na mesma linha, com o objetivo de modificar o ensino passivo para ativo, Freschi e Freschi  (2007) focam nos esforços para reformular a prática de estudar e de aprender, motivada por constantes  reflexões. Consideram, como precedente para a transformação da sala de aula em local de pesquisa,  que os professores se entreguem a inúmeras leituras e desenvolvam a capacidade frequente de  inovação. Uma mudança na educação de forma inovadora, emancipatória e crítica, que pressuponha  renovação: criar e recriar métodos e testá-los. Torná-la atraente, interessante e significativa para os  sujeitos que dela participam, sendo capaz de transformar ambas as partes: educador e educando.  

Tal educação proporcionaria, assim, o envolvimento dos alunos como corresponsáveis nas  buscas eficazes não só dos conceitos básicos de diferentes saberes, como das correlações entre eles.  Justifica-se, a partir de Demo (2008), e de forma complementar, o inacabamento do ser humano: 

“Passamos a vida toda nos complementando” e nossa aprendizagem é  provisória, pois “o que se aprende se desgasta” (Freschi; Freschi, 2007, p.  85).  

Segundo os autores, as questões relacionadas à percepção e racionalização do uso do meio  ambiente precisam permear o contexto da aprendizagem e não se consistirem de temas isolados,  desconectados, fragmentados.  

Para Oliveira (2005) a transdisciplinaridade requer uma comunicação mais profunda entre as  disciplinas, traduzindo-se em reconhecimento da interdependência de todos os aspectos da realidade.  A partir desse olhar, conforme Tozoni-Reis (2012) o conceito se aproximaria de interdisciplinaridade,  mas com o seguinte diferencial:  

Para a interdisciplinaridade as disciplinas não desaparecem, isto é,  coexistem no trabalho integrado de interpretações do mundo e de suas  relações e, na transdisciplinaridade, elas deixam de existir como referência  para essa interpretação (Tozoni-Reis, 2012, s/p). 

Este é o caráter transversal da EA, o fato de não ser disciplinar e Ab’Saber (1994) evidencia  a responsabilidade que o termo traz consigo, envolvendo uma filosofia de vida e, consequentemente,  um ideário comportamental, tanto no âmbito individual quanto no coletivo. Para o autor, “uma ação  entre missionária e utópica, destinada a reformular comportamentos humanos e recriar valores  perdidos ou jamais alcançados”. 

Nesse sentido, Mendonza (2008) debate sobre a educação de valores humanos e ressalta a  importância de se discuti-los, partindo-se de um posicionamento interdisciplinar da ciência e de uma  abordagem complexa. O autor caracteriza como “Títulos de Banco” todos os valores potenciais, na  escala educacional, que podem moldar o perfil humano num determinado momento histórico. Nessa  mesma linha de pensamento Baumgratz e Almeida (2012) estruturaram uma matriz curricular para o  Curso de Multiplicadores em EA de 2008, no Parque Nacional do Itatiaia, contendo valores humanos. 

Na opinião de Ab’Saber (1994), a EA exige uma sensibilidade especial para com a natureza  e a melhoria da sociedade em sua estrutura e função. Em seu entendimento, ela requer uma percepção  clara “sobre a projeção dos homens em espaços terrestres, herdados da natureza e da história”, criados  e recriados pelas condicionantes socioeconômicas. Trata-se de um processo contínuo que, acima de  tudo, requer uma aproximação entre ciência e ética. Uma harmonia ampla que pressupõe menos  desigualdades sociais.  

O autor questiona também a incoerência e imoralidade da “insalubridade” vinculada ao  salário, ao assumir que o ambiente em si leva à doença. Ab’Saber (1994) considera que a EA exige método, noção de escala; percepção adequada das relações entre tempo, espaço e conjunturas;  conhecimentos sobre realidades regionais diversas e suas particularidades. Sobretudo requer “códigos  de linguagem adaptados às faixas etárias do alunado”. Sua prática revitaliza a pesquisa de campo por  parte de alunos e professores, implicando em permanente exercício de interdisciplinaridade como  prévia da transdisciplinaridade. Quando bem conduzida, a prática sinaliza para a conquista ou  reconquista da cidadania, segundo o autor, um dos instrumentos de maior ressonância para defesa do  futuro. 

Em um recorte da tese de doutoramento, Rocha (2003) trata da institucionalização de quatro  programas interdisciplinares focalizados na temática de meio ambiente. O autor aponta que sua  interferência é positiva não apenas na ruptura da departamentalização da estrutura universitária, mas  também por promover um profícuo contato entre profissionais de variadas formações ao redor de um  tema de dimensões reconhecidamente transversais. Reconhece a interdisciplinaridade ambiental  como o processo de pesquisa, de levantamento, de conhecimento, de análise e síntese da realidade  por diferentes campos disciplinares (Rocha, 2003). Um trabalho de conjunto interligado por um  objetivo unificado, qual seja: o de compreender e procurar resolver problemáticas socioambientais.  Assim sedo, o autor admite um consenso em reunir ao menos duas grandes áreas do saber científico:  as Ciências Biológicas e Humanas.  

Esta aproximação teórico-metodológica pode desenvolver reciprocidades de grande valia  para compreender a vivência humana, favorecendo o equilíbrio de tendências desconexas, e resolver  questões com implicações variadas, de graus diferentes que emergem da temática ambiental. É uma  busca não tanto das diferenças entre as áreas, mas acima de tudo das semelhanças: uma ciência  múltipla, dinâmica e em permanente construção. Seria um caminho comum entre diferentes polos, na  tentativa de ao menos reduzir os imensos abismos sociais, econômicos e educacionais que se  instauraram no mundo contemporâneo. 

No Brasil, nos últimos 20 anos, a expansão da educação ambiental vem acontecendo em  espaços formais e não formais e Vasconcellos et al. (2009) destacaram o papel das universidades. Os  autores relacionam, ainda, a possível influência dos movimentos sociais da sociedade organizada e  das redes de EA, impulsionados pela generalização do uso da informática, como propulsores de sua  expansão. Consideram a EA como 

Provocadora de mudanças políticas, estimuladora de uma racionalidade  ética e ecológica e promovedora de atitudes e valores pessoais e de práticas  sociais compatíveis com a sustentabilidade da vida na Terra (Vasconcellos  et al., 2009, p. 29). 

Para Sauvé (2005) não se trata de uma forma de educação, como tantas outras, mas sim uma  dimensão que traduz nossa relação com o ambiente em que vivemos. Na construção dessa relação, a tendência atual da educação ambiental visa a busca de um acréscimo qualitativo na forma em que  cada pessoa identifica os problemas ambientais, procurando interrelacionar os aspectos físico biológicos, político-sociais e econômico-sociais. 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O percurso histórico-crítico aqui delineado confirma que a Educação Ambiental  (EA) nunca foi mero apêndice de políticas públicas; ao contrário, aparece como fio condutor  de lutas sociais e epistêmicas cujo vigor continua inegociável. O capítulo partiu da premissa  de que fortalecer o fator educacional é condição sine qua non para uma sociedade “mais  participativa e crítica” diante das crises ecológicas e das decisões de Estado. 

Ao revisitarmos séculos de avanços científicos e retrocessos civilizatórios,  percebemos que a EA opera como lente capaz de revelar tanto as raízes coloniais da  degradação quanto as brechas para a ação transformadora. Esse movimento só ganha  densidade quando o processo formativo supera a lógica de conteúdos isolados e estimula  “uma prática de estudar e aprender motivada por constantes reflexões”, tornando educador e  educando coautores de soluções. 

A travessia proposta exige redesenhar fronteiras disciplinares. Quando a  transdisciplinaridade passa a ser entendida como “reconhecimento da interdependência de  todos os aspectos da realidade”, a aprendizagem deixa de fragmentar o mundo e passa a  costurá-lo em múltiplas escalas. Só assim se concretiza o chamado à sensibilidade ética que  Ab’Sáber (1994) defende: uma educação que articule ciência, história e justiça social como  base de um pacto solidário com o futuro. 

Nesse sentido, a EA demonstra seu potencial de “provocar mudanças políticas” e  fomentar “uma racionalidade ética e ecológica” que ultrapasse soluções tecnocráticas e  alcance modos de vida sustentáveis. Reconhecer essa vocação transformadora implica  assumir que cada sala de aula, cada comunidade e cada política pública compõem um  laboratório onde se ensaiam respostas às urgências planetárias. 

Portanto, mais do que concluir, este artigo convida à continuidade: que pesquisas,  práticas pedagógicas e decisões governamentais se mantenham em diálogo permanente, de  modo a converter memória histórica em ação crítica e, sobretudo, em esperança concreta para  as gerações que herdarão os resultados, positivos ou não, de nossas escolhas presentes.

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