REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202601092027
Heloisa Silva de Melo1
Resumo
O letramento, conceito que transcende a mera decodificação de letras e palavras, é fundamental na formação de indivíduos críticos e autônomos. No contexto da Educação de Jovens e Adultos (EJA), as práticas de leitura, escrita e produção de textos assumem um papel central, não apenas como habilidades técnicas, mas como ferramentas de empoderamento e transformação social. As concepções de letramento variam significativamente, refletindo diferentes perspectivas teóricas e práticas pedagógicas. Enquanto a abordagem tradicional enfatiza a alfabetização como um processo mecânico, abordagens contemporâneas reconhecem o letramento como um fenômeno social e cultural. Nesse sentido, o letramento crítico se torna essencial na EJA, permitindo que os alunos compreendam e analisem as realidades em que estão inseridos. As práticas de leitura e escrita na EJA devem ser contextualizadas e significativas. A utilização de textos que dialoguem com a realidade dos alunos, como artigos, poesias e crônicas, promove um engajamento maior e estimula a reflexão crítica. Além disso, a produção de textos, seja em forma de relatos pessoais ou de análises sociais, permite que os alunos expressem suas vivências e opiniões, fortalecendo sua voz e identidade. Portanto, a integração das práticas de leitura, escrita e produção de textos na EJA não apenas favorece o desenvolvimento das habilidades linguísticas, mas também contribui para a formação de cidadãos conscientes e ativos. Essa abordagem multidimensional do letramento é crucial para a promoção da inclusão social e da justiça educacional. Neste sentido este artigo traz uma breve revisão de literatura do tema em foco.
Palavras chave: Educação de Jovens e Adultos. Letramento. Escrita. Leitura.
ABSTRACT
Literacy, a concept that transcends the mere decoding of letters and words, is fundamental in the formation of critical and autonomous individuals. In the context of Youth and Adult Education (EJA), reading, writing, and text production practices assume a central role, not only as technical skills but also as tools for empowerment and social transformation. Conceptions of literacy vary significantly, reflecting different theoretical perspectives and pedagogical practices. While the traditional approach emphasizes literacy as a mechanical process, contemporary approaches recognize literacy as a social and cultural phenomenon. In this sense, critical literacy becomes essential in EJA, allowing students to understand and analyze the realities in which they are immersed. Reading and writing practices in EJA should be contextualized and meaningful. The use of texts that engage with students’ realities, such as articles, poems, and short stories, promotes greater engagement and stimulates critical reflection. Furthermore, the production of texts, whether in the form of personal accounts or social analyses, allows students to express their experiences and opinions, strengthening their voice and identity. Therefore, the integration of reading, writing, and text production practices in adult education not only favors the development of linguistic skills but also contributes to the formation of conscious and active citizens. This multidimensional approach to literacy is crucial for promoting social inclusion and educational justice. In this sense, this article presents a brief literature review on the topic.
Keywords: Youth and Adult Education. Literacy. Writing. Reading
INTRODUÇÃO
Reconhece-se que a leitura é de grande importância para o desenvolvimento da inteligência humana, pois permite a expansão do conhecimento, possibilitando ao indivíduo evoluir constantemente e adquirir novos saberes. Por ser um tema importante no desenvolvimento humano, a leitura é fundamental e necessária para o público da educação de Jovens e Adultos (EJA), cuja maioria retorna à sala de aula apenas para fins de certificação, sem objetivos adicionais que conduzam a uma compreensão mais profunda.
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é um programa vinculado à Educação Básica que proporciona a jovens e adultos que, de outra forma, não teriam condições de concluir o processo educativo. A Resolução nº 03/2010, do Conselho Nacional de Educação (CNE) estabeleceu a idade mínima de ingresso no programa EJA para o Ensino Fundamental e Médio, respectivamente, prevendo que o programa seria aberto a jovens de 15 e 18 anos. Ao refletir sobre as políticas educacionais brasileiras, especificamente no que diz respeito à Educação de Jovens e Adultos, considera-se uma perspectiva ampla que aponta para o passado e o presente dessa modalidade educacional, no que se refere à alfabetização e à escrita.
Ler e escrever sem aplicação prática não proporciona os meios para os indivíduos se tornarem cidadãos plenos, pois se necessita o emprego da prática da leitura e da escrita no dia a dia. É possível perceber, então, que ser alfabetizada não é determinante para que uma pessoa seja apta a usar os seus conhecimentos de leitura e escrita na sociedade e, por esse motivo, torna-se necessário refletir e redefinir o conceito de alfabetização criando o termo letramento.
A importância da leitura no Programa de Educação de Jovens e Adultos no Brasil se deve ao seu papel em inspirar o pensamento crítico nesses alunos, bem como em incentivá-los a reconsiderar sua perspectiva sobre a vida e o mundo ao seu redor. A falta de leitura pode ter um impacto significativo sobre os alunos e, consequentemente, sobre toda a população. Dessa perspectiva, enfatiza-se que o processo de leitura na Educação de Adultos e Jovens deve ser considerado verdadeiramente significativo e dinâmico, sempre buscando incutir nos alunos o valor da leitura em suas vidas, o que os ajudará a adquirir conhecimento e aprender. Como é comum, o público da Educação de Adultos e Jovens é diverso e geralmente apresenta múltiplas dificuldades que os desmotivam.
Essa concepção reitera o motivo desta investigação, voltada para a resolução do seguinte problema: Quais as estratégias que o professor da EJA pode utilizar para incentivar a prática da leitura e da escrita com vistas ao letramento no 8º ano do ensino fundamental II da turma de EJA na Escola Raimundo Paz, Município de Rio Preto da Eva/AM. Neste sentido a justificativa desse trabalho dar-se-á pela necessidade de se olhar para a Educação de Jovens e Adultos como uma modalidade de educação que apresenta uma singularidade, por ser composta por sujeitos jovens e por sujeitos adultos, com diferentes expectativas em relação à escola, conhecer quem são esses alunos, suas características e o que buscam nessa experiência escolar.
A LEITURA A ESCRITA E A PRODUÇÃO DE TEXTOS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
O exercício da leitura e da escrita pode nascer de uma necessidade de trabalho, seja acadêmico ou laboral. Assim, são inúmeras atividades que exigem leitura, compreensão de texto, e a escrita para se poder relacionar fatos cotidianos. É importante salientar que falar, ler e escrever, embora sejam realizações humanas relacionadas, são de naturezas distintas. Falar é possível pela genética da espécie humana, e o desenvolvimento da fala é uma construção social a partir dessa realidade, já a escrita é um produto cultural conforme já mencionado e vai depender do ensino, não sendo uma herança genética como o caso da fala.
Nesse víeis, escrever e ler envolvem aspectos de instintos, tanto que é possível ler uma língua e não ser capaz de escrevê-la, para isso acontecer, o ser humano deve passar por um processo de aprendizagem específico para cada uma dessas atividades. Ressalta- se que a linguagem oral e escrita, como criação cultural e humana, interfere no desenvolvimento cognitivo e nas relações sociais de cada indivíduo. É importante salientar nessa perspectiva, que a língua escrita, assim como a oral, possui graus de formalismos, ou seja, é possível ter textos. A língua escrita, conforme Pécora (2015, p.98), não apresenta as mesmas alternativas de uso da língua falada: “não existe, por exemplo, uma escrita caipira desenvolvida e utilizada por uma coletividade linguística ampla”.
Isso implica entender que há regras específicas ou convenções que governam o uso e a correta manipulação da escrita, ou seja, há de se aprender sobre as suas regras ou convenções para que a expressão por escrito se efetive de forma satisfatória. Todavia, a escrita também é uma habilidade cognitiva e metacognitiva, incluindo a habilidade motora. A escrita foi um artefato desenvolvido ao longo da história da humanidade para facilitar a comunicação entre os povos, transcendendo de tempo e de lugar. Onde iniciou com o homem primitivo desenvolvendo mecanismos através de objetos simbólicos e com sinais materiais, nos entalhes desenhos para a fixação da linguagem oral, dessa forma a escrita exerce um poder de transformar a cultura em uma possibilidade transmissível como as leis, a filosofia, o comércio, a religião, a poesia e a história.
Para Higounet (2015, p.67), “a escrita faz de tal modo parte da nossa civilização que poderia servir de definição dela própria, dividindo a história da humanidade em duas imensas eras, antes e a partir da escrita” (apud REIS, 2019, p.15). A escrita cuneiforme foi o mais antigo sistema de escrita até hoje conhecido, teve a sua origem na Suméria, região da Mesopotâmia e foi utilizada até a era cristã por vários povos que habitavam o antigo Oriente Médio. Iniciou-se com os comerciantes contadores, era feita através de desenhos uma imagem estilizada de um objeto significava o próprio objeto, marcados em placas de argila o ato de pressionar uma cunha na argila mole, deu esse nome a esse sistema de escrita, e contava com 2.000 sinais (REIS, 2019).
Segundo Lyons (2016, p.87):
No segundo milênio a. C., existiam escolas para escribas, voltadas para o ensino da esotérica arte de escrever, entretanto, na Mesopotâmia, como em muitas sociedades antigas, esse ofício era restrito a uns poucos profissionais e os sacerdotes tinham o monopólio da interpretação dos livros sagrados, além de serem os únicos que podiam “ler” as mensagens reveladas nas entranhas dos animais sagrados.
Por intermédio da escrita cuneiforme, iniciou a literatura e os textos literários mais antigos do mundo apareceram em tabuletas sumerianas, em forma de poemas e narrativas, no entanto, a grande maioria das inscrições cuneiformes reveladas na Mesopotâmia são de registros contábeis e administrativos. Usada por cerca de três mil anos, a mesma extensão de tempo que nosso alfabeto é conhecida, a escrita cuneiforme é hoje apreciada como uma das principais escrituras. Segundo Vygotsky (1988), a escrita não estar separada da linguagem, ela é constituída por um sistema de símbolos e signos, no qual a criança atribui significado, que determinam os sons e as palavras da linguagem oral, é nas relações com a linguagem falada que o sujeito vai construindo para si um conceito de escrita (REIS, 2019).
Conforme Leontiev (1978, p. 34), “o sentido consciente, psicologicamente concreto, é criado pela relação objetiva, que se reflete na mente do sujeito, daquilo que o impulsiona a agir com aquilo para o que está orientada sua ação como resultado imediato desta”. (apud REIS, 2019, p. 22). Visto dessa forma, o sentido estabelecido vai se expressar no motivo da atividade e tem como finalidade imediata da ação.
Assim, nas palavras de Leffa:
A escrita é reconhecida como um sistema de comunicação e complemento da linguagem oral, que permite representar o pensamento e a intenção do indivíduo, por meio de sinais convencionais, ideográficos, capazes de transcrever sons verbais, graças ao agrupamento de letras, cuja forma e correspondência fônica, onde cada um ou fonema corresponde a uma letra ou grafem, constituindo-se no alfabeto de uma língua (LEFFA, 2016, p.56).
Outro aspecto, trata da fala e da escrita, que possui aspectos próprios, voltado ao tamanho e tipo de letras, cores e formatos, elementos pictóricos, dentre outros, além da disposição no papel. Estes traços trazem informações extras que conferem uma maior compreensão sobre o que está sendo apresentado no texto escrito, marcas que simbolizam algumas das características próprias da fala (REIS, 2013). A partir dessa informação, entende-se que o processo de relacionar unidades de som a símbolos escritos e também de expressar ideias na forma de organizar o pensamento em língua escrita, englobando desde habilidades de transcrever a fala, via ditado e /ou ortografia, no uso adequado de pontuação, e também na capacidade de selecionar informações, se traduz em formas para a compreensão da escrita.
Conforme Marcuschi (2015).
A escrita seria um modo de produção textual-discursiva para fins comunicativos com certas especificidades materiais e se caracterizaria por sua constituição gráfica, embora envolva também recursos de ordem pictórica e outros (situa-se no plano dos letramentos). Pode manifestar-se, do ponto de vista de sua tecnologia, por unidades alfabéticas (escrita alfabética), ideogramas (escrita ideográfica) ou unidades iconográficas, sendo que no geral não temos uma dessas escritas puras. Trata-se de uma modalidade de uso da língua complementar à fala. (MARCUSCHI 2015, p.26).
A escrita seria um modo de produção textual-discursiva para fins comunicativos com certas especificidades materiais e se caracterizaria por sua constituição gráfica, embora envolva também recursos de ordem pictórica e outros (situa-se no plano dos letramentos). Pode manifestar-se, do ponto de vista de sua tecnologia, por unidades alfabéticas (escrita alfabética), ideogramas (escrita ideográfica) ou unidades iconográficas, sendo que no geral não temos uma dessas escritas puras. Trata-se de uma modalidade de uso da língua complementar à fala. (MARCUSCHI 2015, p.26).
Em outros termos, não se aprende a escrever de imediato e erros estão implícitos nesse processo, visto que os erros fazem parte da aprendizagem, podendo revelar hipóteses de que esses jovens e adultos que frequentam a EJA que gradativamente vão se construindo para se chegar a conhecimentos mais aprofundados sobre a escrita e a produção textual.
ESCRITA NA TESSITURA TEXTUAL NA EJA
Para escrever um texto torna-se necessário entender o contexto, não basta somente a leitura do texto, mas delinear a escrita do texto a partir da leitura e do entendimento do texto. A produção e recepção de um texto estão condicionadas à situação; daí a importância de o leitor conhecer as circunstâncias e ambiente que motivaram a seleção e a organização dos signos.
O contexto pode adentrar pelo fato imediato ou ligado a situação. Ambos se relacionam com os elementos que caminham pelo texto imediatamente, e no contexto.
Para Ribeiro (2019, p.87), “o contexto situacional envolve os elementos do texto que são exteriores ao próprio texto, acrescentando informações, sejam históricas, geográficas, sociológicas, ou literárias, imprimindo assim o contexto que o texto está vinculado”. Nessa ótica, a escrita do texto perpassa por contexto vivenciados pelos alunos da EJA, fixando a palavra e, consequentemente, o mundo para além daquele que a profere. A palavra antes da escrita, se cria uma ligação de um suporte vivo que a pronúncia vai repetindo e fixando aos acontecimentos vivenciados por meio da memória pessoal de cada um.
A escrita, ao contrário, aparece como uma possibilidade maior de abstração, uma reflexão da palavra, que tenderá a modificar a própria estrutura do pensamento.
Filho (2016, p.512) ressalta que “um texto não é uma unidade construída por uma soma de sentenças, mas pelo encadeamento semântico delas, criando, assim, uma trama semântica a que damos o nome de textualidade.” No entanto, torna-se necessário entender que a escrita não é o espelho da fala, mas segundo Ribeiro (2019, p.89), “a relação entre as letras e os sons da fala é sempre muito complicada, porque se pode ler o que está escrito de várias maneiras”. Assim, pode-se se criar uma tessitura que costures uma correspondência entre o fonema-grafema, que nem sempre é unívoca.
QUADRO 01: RELAÇÕES BIUNÍVOCAS.

Verifica-se, no quadro acima, os fonemas consonantais com seus respectivos exemplos e grafemas que ilustram algumas das posições das letras nas palavras e nas sílabas, e que as mesmas podem ser encontradas, como: no início e no meio da palavra, em sílabas simples e em encontros consonantais.
QUADRO 02: UMA LETRA REPRESENTANDO DIFERENTES SONS, SEGUNDO A POSIÇÃO.

As relações apresentadas no quadro acima, entre sons e letras, são uma forma de poligamia, em que o som depende da combinação com as letras segundo sua posição na palavra. Exemplo: a letra E. No meio de uma palavra, o som pronunciado será da sua própria letra, ou seja, [e], contudo, se for apresentada no final da palavra, terá o som de [i].
QUADRO 03: UM SOM REPRESENTADO POR DIFERENTES LETRAS, SEGUNDO A POSIÇÃO

No quadro, a relação linguística apresentada entre os sons e letras, segundo Lemle (2014), é denominado de poliandria, sendo considerado, assim, nos casos em que o mesmo som pode ser apresentado por diferentes letras segundo a sua posição.
Como exemplo tem o fonema [k], que, diante das vogais “a”, “o” e “u”, é representado pela letra C (come, bicudo), e diante das vogais “e” e “i”, é representado pelas letras QU (pequeno, esquina). Essas situações, para o aluno da EJA principalmente no processo do aprendizado da escrita, trazem muitos problemas de escrita nesse caso é de fundamental importância que os professores que com eles trabalham tenham bem claro essas variações de correspondência entre sons e letras.
QUADRO 4: LETRAS QUE REPRESENTAM FONES IDÊNTICOS SEM CONTEXTOS IDÊNTICOS.

Nessa relação existente entre a letra e os sons, para escrever corretamente, o único mecanismo que pode auxiliar na escrita é o dicionário, sendo que, adquirindo o prazer pela leitura, o aluno acaba decorando a palavra e recorrendo ao dicionário em apenas alguns casos. Cabe ao professor da EJA, a partir dessas noções básicas de linguísticas, sistematizar as complicadas relações entre os sons e as letras, através de uma metodologia de ensino que promova a aprendizagem dessas relações.
Além disso, o sistema de escrita não é totalmente alfabético, pois são utilizados para escrever, além das letras, outros caracteres de natureza ideográfica como os sinais de pontuação e os números. Para Filho (2023, p.76), “o texto vai além da superfície, do seu artefato textual e busca uma relação com os usuários numa situação comunicativa”. Entende-se, então, que uma sequência de frases com coesão e coerência, são fatores necessários, mas não suficientes para garantir a eficiência da textualidade, já que há textos que não parecem ser totalmente coesivos ou até mesmo coerente.
ADENTRANDO NOS GENÊROS TEXTUAIS
O trabalho com os gêneros textuais em sala de aula possibilita a compreensão transdisciplinar nas salas de EJA. Segundo Barros (2012, p.76) a transdisciplinaridade é:
[…] uma teoria do conhecimento, é uma compreensão de processos, é um diálogo entre as diferentes áreas do saber e uma aventura do espírito. […] é uma nova atitude, é a assimilação de uma cultura, é uma arte, no sentido da capacidade de articular a multirreferencialidade e a multidimensionalidade do ser humano e do mundo. […] Implica, também, em aprendermos a decodificar as informações provenientes dos diferentes níveis que compõem o ser humano e como eles repercutem uns nos outros. A transdisciplinaridade transforma nosso olhar sobre o individual, o cultural e o social, remetendo para a reflexão respeitosa e aberta sobre as culturas do presente e do passado, do Ocidente e do Oriente, buscando contribuir para a sustentabilidade do ser humano e da sociedade. […].
Explicando a transdisciplinaridade e sua função no processo de aprendizagem, pode-se afirmar que ela é formada e construída de saberes tão individuais quanto o sujeito que os traz, podendo ser elencado através da relação entre disciplinas, levando o aluno a ler; Matemática em Literatura e Literatura em Matemática, podendo com essa leitura desenvolver textos a partir da utilização dos gêneros textuais.
De acordo com Marcuschi (2015), o gênero textual engloba os níveis cultural, cognitivo, social, textual, de organização social e retórico, uma vez que representa a língua nas variadas formas de uso no dia a dia. Essa abrangência do conceito de gênero textual o torna inerente ao entendimento da língua. Assim, a natureza discursiva do gênero se constitui como instrumento para a ação comunicativa, pois, conforme a visão bakhtiniana:
A problemática dos gêneros primários e secundários e sua importância para a natureza do enunciado perpassa pelo seguinte. Ao gênero primário, também chamado de gênero simples, inclui a réplica do diálogo cotidiano ou a carta. Os gêneros primários inserem-se nos secundários, perdendo a sua característica particular. Por outro lado, os gêneros secundários, também chamados de complexos, o romance, o teatro, o discurso científico, inserem-se numa comunicação cultural mais ampla, mais complexa e mais evoluída (BAKHTIN, 2000, p.281).
Nesse contexto, o conceito de gênero se torna cada vez mais usual no estudo da língua pelo fato de valorizar a funcionalidade em detrimento da forma, pois não constitui modelos rígidos; pelo contrário, é dinâmico, gerando escolhas direcionadas pelo léxico, pelo grau de formalidade ou pelos temas. Visto que o gênero agrega, ao mesmo tempo, o aspecto de padronização e de escolhas/criatividade. Essa característica de funcionalidade é um dos principais pontos que diferencia gênero de tipo textual, termos que muitas vezes são usados erroneamente como sinônimos.
Destaca-se, porém, que tipos e gêneros textuais não formam uma dicotomia, pelo contrário, complementam-se, visto que o tipo está relacionado a questões estruturais presentes num texto que são: léxico, estrutura sintática, já o gênero, ao contexto comunicativo, à finalidade do texto.
OS GÊNEROS SOCIAIS DISCURSIVOS PRESENTES NA VIDA COTIDIANA DOS JOVENS E ADULTOS
Marcuschi (2015) ressalta que “os gêneros textuais não surgem do nada, pois possuem um embasamento em outros gêneros preexistentes” discorrendo a respeito dos gêneros textuais / discursivos. Consideramos que esses tipos de gênero textual devem ser amplamente trabalhados com os alunos da EJA, tendo em vista a necessidade das leituras de mundo, como enfatiza Paulo Freire:
Após a invenção da escrita alfabética por volta do século VII A. C., multiplicam-se os gêneros, surgindo os típicos da escrita. Numa terceira fase, a partir do século XV, os gêneros expandem-se com o florescimento da cultura impressa para, na fase intermediária de industrialização iniciada no século XVlII, dar início a uma grande ampliação. Hoje, em plena fase da denominada cultura eletrônica, com o telefone, o gravador, o rádio, a TV e, particularmente o computador pessoal e sua aplicação mais notável, a internet, presenciamos uma explosão de novos gêneros e novas formas de comunicação, tanto na oralidade como na escrita onde aponta que os novos gêneros sugerem o encurtamento da dicotomização entre fala e escrita (FREIRE, 2015, p.65).
Em vista disso, no caso de outros gêneros emergentes, como os vinculados às mídias, é a nova relação que instauram com os usos da linguagem utilizada por eles, que não podem ser ignoradas, uma vez que elas possibilitam uma redefinição de alguns aspectos centrais na observação da linguagem em uso, como, por exemplo, a relação entre a oralidade e a escrita, desfazendo ainda mais as suas fronteiras de compreensão. Destacam-se alguns tipos de gêneros textuais/discursivos que se fazem presente na atualidade, através das mídias como micro blogs, memes, stories (pequenos vídeos ou fotos que as pessoas utilizam para registrar seus momentos de forma rápida), postagens em redes sociais e vídeos em canais do YouTube. Importante salientar aqui as mídias fazem parte da vida do sujeito contemporâneo.
Dentro do grande universo de informações que circulam na sociedade atualmente, devido aos modernos meios de comunicação, uma vasta produção e difusão do conhecimento, que contribui como já mencionado na vida do jovem e do adulto que frequenta a sala de EJA, que se destacam os diferentes textos materializados em gêneros textuais, os quais veiculam nos jornais e revistas da mídia impressa e eletrônica. As práticas dessa linguagem estão relacionadas à busca conhecimentos específicos para diversos fins, que sejam características de uma organização social que se interage por meio da comunicação, seja ela oral, ou escrita, com seus interlocutores inseridos nos mais diversos contextos sociais, como diz Marcuschi (2015,p.43),“para possibilitar a comunicação, toda sociedade elabora formas relativamente estáveis de textos que funcionam como intermediários entre o enunciador e o destinatário, a saber, gêneros”.
Nessa linha, entende-se que, os gêneros textuais discursivos possibilitam aos indivíduos a interpretação comunicativa e a interação social em diversas situações. PCNs (1997) de Língua Portuguesa, enfatizam um ensino da língua como o instrumento formador de um leitor/reprodutor de textos, que tenha uma visão crítica, que saiba construir textos e reconstruí-los, enfim, saiba ler e produzir textos. Pinto (2010) diz que:
A visão de leitor/reprodutor de textos presente nos PCN é a de um usuário eficaz e competente da linguagem escrita, imerso em práticas sociais e em atividades de linguagem letradas que, em diferentes situações comunicativas, utiliza-se dos gêneros do discurso para construir, ou reconstruir, os sentidos de textos que lê ou produz (PINTO, 2010, p.25).
Assim, compreende-se que os gêneros são utilizados como modelos, de uma representação de norteamento para práticas sociais, integrando as atividades de linguagem em uma comunidade, para ocorrer a interação dos indivíduos entre si.
Por isso, o Professor (a) da EJA deve usar os gêneros para o ensino, com vistas a tornar o Jovem e o Adulto que a frequenta capaz de praticar a linguagem, de compreender e produzir textos diversos em sala de aula, ou em qualquer atividade social. Quando os trabalhos são realizados com textos que circulam na sociedade e visam à contextualização ao ensino da língua, os métodos de escolarização são mais eficazes, como ler uma reportagem numa revista, e dar sua opinião se adentra nos gêneros discursos que implicam na oralidade e argumentação, no fazer um bolo seguindo uma receita, envolvem letramento e os gêneros textuais.
Portanto, os variados gêneros que circulam na sociedade, são importantes para que o aluno da EJA tenha conhecimento, domínio de habilidade ao utilizar estes gêneros em suas práticas sociais.
CONSIDERAÇÕES REFLEXIVAS
A educação de jovens e adultos (EJA) tem sido um campo de estudo e prática pedagógica que se depara com desafios e oportunidades singulares. Neste contexto, as concepções de letramento tornam-se fundamentais, uma vez que envolvem não apenas a capacidade técnica de ler e escrever, mas também a compreensão crítica e a produção de sentidos a partir dos textos. O conceito de letramento transcende a mera alfabetização, englobando a habilidade de utilizar a leitura e a escrita em contextos sociais e culturais diversos. O letramento refere-se à capacidade de interpretar e produzir textos em diferentes gêneros e situações. Essa visão amplia a compreensão do ato de ler e escrever, inserindo-o em um contexto de práticas sociais que envolvem poder, identidade e cultura. Na EJA, essa concepção é ainda mais relevante, uma vez que os educandos frequentemente trazem experiências de vida e saberes que precisam ser reconhecidos e valorizados.
As práticas de leitura e escrita na EJA devem ser contextualizadas e significativas para os educandos. A escolha de textos deve considerar a realidade dos alunos, abordando temas que dialoguem com suas vivências e interesses. Além disso, é essencial que as atividades de leitura não se limitem à decodificação, mas promovam uma análise crítica do conteúdo, a leitura crítica permite que os alunos desenvolvam habilidades de argumentação e reflexão, fundamentais para a formação de cidadãos conscientes. A escrita, por sua vez, deve ser entendida como um processo de construção de sentidos. As atividades de produção textual devem incentivar a expressão das ideias dos alunos, permitindo que eles se posicionem sobre temas relevantes. A prática da escrita colaborativa, por exemplo, pode ser uma estratégia eficaz, pois promove a troca de experiências e o aprendizado coletivo.
A produção de textos na EJA não é apenas um exercício técnico, mas uma oportunidade de expressão e afirmação da identidade dos alunos. Ao produzir textos, os educandos têm a chance de narrar suas histórias, refletir sobre suas realidades e participar ativamente do espaço social. O uso de diferentes gêneros textuais, como crônicas, poesias e relatos autobiográficos, pode enriquecer o processo de letramento, permitindo que os alunos explorem diversas formas de expressão.
Além disso, a produção textual deve ser acompanhada de feedback construtivo, que valorize as contribuições dos alunos e os ajude a aprimorar suas habilidades. O diálogo entre educador e educandos é fundamental nesse processo, pois possibilita a construção conjunta do conhecimento. Apesar das potencialidades das práticas de letramento na EJA, existem desafios significativos a serem enfrentados. A formação dos educadores é um fator crucial, uma vez que muitos profissionais ainda adotam práticas tradicionais que não favorecem o desenvolvimento crítico dos alunos. É necessário que os educadores estejam abertos a novas metodologias e enfoques que valorizem a experiência dos alunos e promovam um letramento significativo.
Ademais, as condições socioeconômicas dos alunos muitas vezes interferem no processo de aprendizagem. Muitos educandos enfrentam dificuldades que vão além da sala de aula, como a falta de tempo para estudar devido a múltiplas responsabilidades. Portanto, é fundamental que as políticas públicas de educação considerem essas realidades e busquem criar condições que favoreçam a inclusão e a permanência dos jovens e adultos na EJA.
As concepções e práticas de letramento na educação de jovens e adultos são fundamentais para a formação de sujeitos críticos e autônomos. A leitura, a escrita e a produção de textos devem ser abordadas de maneira contextualizada e significativa, reconhecendo a diversidade das experiências dos educandos. Ao superar os desafios existentes e valorizar as potencialidades dos alunos, a EJA pode contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, onde todos tenham acesso ao conhecimento e à expressão de suas vozes.
REFERÊNCIAS
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1Professora Graduada em Letras, Mestre em Ciência da Educação pela Universidad de La Integración De Las Américas – UNIDA/PY.
*Artigo extraído, da dissertação de Mestrado apresentado a Facultad de Posgrado em Maestría en Ciencias de la Educación em la Universidad de la Integración de las Américas – UNIDA, Localizada na Cidad del Este – Paraguai, para obtenção do título de Mestre em Ciência da Educação no ano de 2023.
