VARIAÇÕES CLIMÁTICAS, PRECIPITAÇÃO E TEMPERATURA COMO PREDITORES DE CASOS DE DENGUE NO BRASIL (2001–2023): ANÁLISE ECOLÓGICA COM SÉRIES TEMPORAIS E DEFASAGENS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510260853


Lucas Matheus Bispo Césped1
Maria Fernanda Vianna Marvulo2


RESUMO

A dengue, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, é uma doença de grande impacto social e econômico, sendo que em 2019 o Brasil notificou 1,5 milhão de casos, havendo uma tendência crescente nas últimas décadas, principalmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. A doença apresenta sintomas diversos, desde manifestações leves até graves, contudo, é subnotificada devido a casos assintomáticos e dificuldades diagnósticas. Sua transmissão está ligada a fatores climáticos, como chuvas e temperatura, visto que o mosquito se desenvolve em áreas com acúmulo de água, podendo ser alavancada por mudanças climáticas globais. Este estudo teve como objetivo coletar dados de dengue do SINAN/DATASUS e dados climáticos do INMET para relacionar as variáveis. A coleta de dados abrangeu o período de 2001 a 2023 e foi realizada análise estatística correlacionando o número de casos de dengue com variáveis climáticas, mediante a aplicação de testes de normalidade e correlação. Os principais resultados nos meses em que as médias de precipitação e temperatura superaram a normal para o período, para temperatura versus casos dengue no Brasil, apresentaram que a correlação máxima foi alcançada no 2° mês de lag (0,85; IC: 0,64 – 0,94; p<0,001) e para a precipitação no 1° mês de lag (0,65; IC: 0,51 – 0,76; p<0,001). Para o estado de São Paulo, a máxima correlação para a temperatura foi alcançada no 4° mês de lag (0,93; IC: não-calculável; p<0,07) e para precipitação no 3° mês de lag (0,62; IC: 0,49 – 0,72; p<0,001). Os resultados indicam que as variáveis climáticas estão significativamente correlacionadas com os casos de dengue em contexto nacional. Esses achados apontam para a viabilidade de utilizar esses dados na previsão dos efeitos das condições climáticas e possíveis alterações nos padrões sazonais na propagação da dengue contribuindo para ações de prevenção e controle.

Palavras-chave: Dengue. Chuvas. Sazonalidade. Estudos de Séries Temporais. Vigilância em Saúde.

INTRODUÇÃO

A dengue é uma arbovirose transmitida pelo mosquito Aedes, sendo considerada uma doença de grande importância pública devido seu efeito social e econômico proeminente (GUZMAN & HARRIS, 2015). No ano de 2019, houve cerca de 1,5 milhão de casos notificados no Brasil, com a tendência de aumento observada nos últimos 20 anos, verificando-se picos de infecções coincidentes em países vizinhos ao território nacional (JUNIOR et al, 2022). A distribuição geográfica de incidência de dengue aponta o Sudeste do Brasil como a região de maior número de notificações, contudo, o Centro-Oeste possui a maior taxa de infecções (JUNIOR et al, 2022). 

As características clínicas dessa arbovirose se apresentam como um amplo espectro de sintomas que variam desde manifestações leves até condições graves, sendo eritema cutâneo, mialgia, artralgia e dor retro orbital ocorrências comuns na infecção (HARAPAN, MICHIE; IMRIE, 2020). Apesar desta gama de apresentações, ainda se considera uma morbidade subnotificada, devido ao alto número de pacientes assintomáticos, ao autogerenciamento de sintomas ou à dificuldade na suspeição diagnóstica (JUNIOR et al, 2022). 

Classificada como uma doença disseminada por vetor endêmica-epidêmica, os vírus da dengue (DENVs), são transmitidos pela fêmea do mosquito Aedes aegypti, que ao picar um indivíduo em fase febril e virulenta da infecção adquire o patógeno o qual se aloca em suas glândulas salivares. Após o período de incubação, o artrópode se torna infectante, transmitindo o vírus para o próximo indivíduo do qual se alimentar (GUZMAN et al, 2016). O número de casos se relaciona com o índice pluviométrico, temperatura e o número de dias de chuva de cada região (SILVA et al, 2016), motivado pelo fato do vetor se desenvolver em ambiente de acúmulo de água e clima tropical, geralmente em regiões urbanas densamente povoadas (HAUKELBACH et al, 2001).

Em razão das mudanças climáticas, o número de eventos extremos, como chuvas em grandes proporções e o aumento da temperatura média global têm visto um crescimento sem precedentes de casos de dengue (WU et al, 2016). Vetores transmissores de doenças tendem a ser afetados por estas mudanças, aumentando a proporção de eventos epidêmicos ao redor do mundo à medida que se instalam as alterações no clima (SEMENZA, ROCKLÖV & EBI, 2022). A dengue mostrou um comportamento condizente com este padrão, havendo elevação no número de casos, ao passo que há acréscimo de temperatura global (LIU-HELMERSSON et al, 2019).

Pelas progressivas mudanças climáticas por vezes com eventos extremos, houve aumento da incidência de doenças transmitidas por vetores, visto que estes dependem de fatores climáticos para sua reprodução sendo que o aumento da temperatura está associado a um maior número de casos.

Com base nesse contexto, a pesquisa visou relacionar as variáveis pluviométricas mensais e anuais e as temperaturas médias mensais e anuais ao número de casos notificados de dengue nos estados de São Paulo e do território brasileiro.

METODOLOGIA

A pesquisa se baseou no levantamento de dados obtidos pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) fornecidos pela plataforma DATASUS, no período de janeiro de 2001 até julho de 2023, utilizando-se do número de notificações mensais a partir do momento dos primeiros sintomas. 

A obtenção dos valores de temperatura média mensal e pluviosidade média mensal acumulada foi realizada pelos dados de estações automáticas e convencionais disponibilizados pelo INMET, no período de janeiro de 2001 até julho de 2023, observados os meses nos quais as médias ultrapassaram as normais climáticas esperadas para este período.

A análise estatística se obteve por meio da correlação do número de casos dengue com as variáveis climáticas, aplicando-se teste de normalidade e correlação como medidas de associação, observando o impacto da temperatura e pluviosidade versus nº de casos notificados de dengue nos cinco meses subsequentes (lag), a fim de compreender o comportamento destes fatores e sua temporalidade.

ANÁLISE DOS DADOS

Os dados obtidos ao longo do período do estudo demonstraram que nos meses que ocorreu um aumento no número de precipitações e temperaturas acima da normal esperada, houve uma correlação importante com o número de casos nos meses subsequentes. Este comportamento permite inferir que alterações climáticas interferem ativamente na dinâmica de reprodução dos vetores da dengue, relacionando-se de maneira sensível a quantidade de casos notificados, principalmente após o 2° e 3° mês das análises, sobretudo no contexto nacional.

Os dados obtidos através das plataformas estatais (Tabelas 1, 2, 3 e 4) revelam as correlações esperadas quanto à precipitação e temperatura versus número de casos de dengue, no estado de SP e no Brasil. 

Tabela 1: Meses com casos de dengue segundo a correlação entre número de casos versus Temperatura, intervalo de confiança e valor de p, no estado de São Paulo.

Tabela 2: Meses com casos de dengue segundo a correlação entre número de casos versus Precipitação, intervalo de confiança e valor de p, no estado de São Paulo. 

Tabela 3: Meses com casos de dengue segundo a correlação entre número de casos versus Temperatura, intervalo de confiança e valor de p, no Brasil.

Tabela 4: Meses com casos de dengue segundo a correlação entre número de casos versus Precipitação, intervalo de confiança e valor de p, no Brasil. 

Com base nesses resultados verifica-se que é possível promover um modelo preditivo para compreender o comportamento endêmico e organizar formas de enfrentamento do sistema de saúde e dos demais responsáveis a este agravo.

Nossos achados reproduzem o padrão descrito na literatura: incrementos de temperatura e chuva precedem aumentos de casos de dengue por poucas semanas a meses (RIBEIRO et al., 2006; Meira et al., 2021). O lag curto (1–3 meses) é biologicamente plausível, dado o ciclo de vida do vetor e o período de incubação extrínseco/ intrínseco (GUZMAN et al., 2016). Em São Paulo, o lag 4 para temperatura sugere um deslocamento sazonal regional — possivelmente ligado à dinâmica urbana e à heterogeneidade climática intraestadual —, coerente com análises subnacionais (RIBEIRO et al., 2006).

Em termos de implicação prática, esses lags são valiosos para sistemas de alerta precoce e alocação programada de ações (controle vetorial, manejo clínico e comunicação de risco), alinhando-se às Diretrizes Nacionais recentes para arboviroses urbanas (BRASIL, 2025). Além disso, a literatura atual reforça que mudanças climáticas e expansão urbana tendem a ampliar janelas de transmissão do A. aegypti no Brasil, o que corrobora o uso de variáveis climáticas em modelos preditivos integrados (SEMENZA, ROCKLÖV, EBI, 2022; HEATH et al., 2025).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Temperatura e precipitação são marcadores úteis e precoces para antecipar picos de dengue no Brasil, com defasagens curtas (1–3 meses no âmbito nacional). Recomendamos integrar séries climáticas aos painéis de predição nas secretarias de vigilância, priorizando janelas de ação preventiva antes dos meses críticos.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes nacionais para prevenção e controle das arboviroses urbanas: vigilância entomológica e controle vetorial. Brasília: SVS/MS, 2025. Disponível em: gov.br/saude. Acesso em: 3 out. 2025

GUZMAN, Maria G. et al. Dengue infection. Nature reviews Disease primers, v. 2, n. 1, p. 1-25, 2016.

GUZMAN, Maria G.; HARRIS, Eva. Dengue. The Lancet, v. 385, n. 9966, p. 453-465, 2015.

HARAPAN, Harapan et al. Dengue: a minireview. Viruses, v. 12, n. 8, p. 829, 2020. HEATH K, MUNIZ ALVES L, BONSALL MB. Climate change, urbanisation and transmission potential: Aedes aegypti mosquito projections forecast future arboviral disease hotspots in Brazil. PLOS Neglected Tropical Diseases , v. 19, n. 9, 2025.

HEUKELBACH, Jörg et al. Risk factors associated with an outbreak of dengue fever in a favela in Fortaleza, north‐east Brazil. Tropical Medicine & International Health, v. 6, n. 8, p. 635-642, 2001.

JUNIOR, João Bosco Siqueira et al. Epidemiology and costs of dengue in Brazil: a systematic literature review. International Journal of Infectious Diseases, 2022.

LIU-HELMERSSON, Jing et al. Estimating past, present, and future trends in the global distribution and abundance of the arbovirus vector Aedes aegypti under climate change scenarios. Frontiers in public health, v. 7, p. 148, 2019.

SEMENZA, Jan C.; ROCKLÖV, Joacim; EBI, Kristie L. Climate change and cascading risks from infectious disease. Infectious Diseases and Therapy, v. 11, n. 4, p. 1371-1390, 2022.

SILVA, Fabrício Drummond et al. Temporal relationship between rainfall, temperature and occurrence of dengue cases in São Luís, Maranhão, Brazil. Ciencia & Saúde Coletiva, v. 21, p. 641-646, 2016.

WU, Xiaoxu et al. Impact of climate change on human infectious diseases: Empirical evidence and human adaptation. Environment international, v. 86, p. 14-23, 2016.


1Egresso do Curso Superior de medicina do Centro Universitário Max Planck (UniMAX), Indaiatuba, SP; Residente de Infectologia da UNESP/Botucatu. e-mail: lucas.cesped187@al.unieduk.com.br;
2Docente do Curso Superior de medicina do Centro Universitário Max Planck (UniMAX), Indaiatuba, SP. Doutora em Epidemiologia aplicada às zoonoses (PPG-FMVZ/USP). e-mail: maria.marvulo@prof.unieduk.com.br