REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202508202116
Alizya Rodrigues Lomba; Isabelle Freitas dos Reis Corrêa; Marcicleide Sales Oliveira; Marcio Carvalho da Silva; Marcus Vinícius Santos Leal; Nícolas Tadashi de Oliveira Barbosa Kawase; Nicole Pereira da Silva; Raquel de Souza Faria; Vitória Lima da Silva Machado; Prof. Msc. Alexandro Alves Ribeiro – Orientador
RESUMO
As profilaxias antirretrovirais, como a Pré-Exposição (PrEP) e a Pós-Exposição (PEP), representam estratégias fundamentais para o controle da epidemia de HIV (Vírus da imunodeficiência humana). Contudo, a efetividade dessas ferramentas depende diretamente da adesão da população, que é influenciada por múltiplos fatores. Nesse cenário, o presente trabalho teve como objetivo avaliar o conhecimento, o uso e a adesão às profilaxias, investigando o impacto de barreiras sociais como o estigma e a desinformação. A metodologia consistiu em um relato de experiência, combinando uma pesquisa de campo, por meio de questionário online com 200 respondentes, a uma ação de educação em saúde realizada no campus universitário. Os resultados da pesquisa revelaram uma lacuna entre o conhecimento sobre a PrEP e sua baixa utilização, especialmente em um perfil de homens cisgêneros e heterossexuais. A ação educativa, por sua vez, demonstrou ser uma ferramenta potente para desmistificar tabus e promover um diálogo aberto sobre prevenção. Além disso, o estudo evidenciou que, para além do acesso ao medicamento, o maior desafio está na superação das barreiras sociais e culturais que dificultam o conhecimento correto sobre PrEP e PEP e o uso adequado dessas tecnologias. Grande parte dos participantes desconhecia as indicações, a forma de uso e a importância do acompanhamento clínico, o que reforça a necessidade de ações educativas contínuas e direcionadas, capazes de esclarecer dúvidas, corrigir informações equivocadas e estimular o interesse na adoção das medidas preventivas. Conclui-se que a baixa adesão está mais associada a barreiras sociais e ao desconhecimento do uso correto das profilaxias do que à falta de acesso, sendo essencial a ampliação das iniciativas de educação em saúde no contexto acadêmico e comunitário.
Palavras-chave: Profilaxia Pré-Exposição; Adesão; Prevenção Combinada; Educação em Saúde; Estigma; HIV; Enfermagem.
1 INTRODUÇÃO
A eficácia da profilaxia pré-exposição (PrEP) contra o HIV (vírus da imunodeficiência humana) é intrinsecamente dependente de sua utilização contínua e da adesão rigorosa à medicação. Não basta apenas que a população esteja ciente da existência dessa profilaxia; é imperativo que os indivíduos a integrem de maneira consistente em sua rotina de prevenção. Este é o ponto onde diversas iniciativas de saúde pública enfrentam seus maiores obstáculos. A falha na adesão pode comprometer severamente a efetividade da PrEP, expondo os usuários a um risco substancial de infecção pelo HIV, apesar de seu potencial protetor.
Diante desse panorama desafiador, a condução de pesquisas aprofundadas e, mais crucialmente, a implementação de ações estratégicas de educação em saúde, revelam-se não apenas necessárias, mas absolutamente vitais. Essas iniciativas são a espinha dorsal para a identificação precisa das barreiras que dificultam tanto o acesso quanto a adesão à PrEP. Com base nesse entendimento, é possível desenvolver e refinar estratégias de comunicação e engajamento que sejam mais eficazes e culturalmente sensíveis. A experiência de planejar e executar uma ação educativa específica, como a realizada no pátio da Universidade Veiga de almeida – campus tijuca, serve como um exemplar concreto desse esforço colaborativo na disseminação de informações essenciais e na facilitação do acesso a essa importante ferramenta de prevenção.
Embora se observe um avanço considerável no conhecimento sobre as diversas formas de prevenção ao HIV ao longo dos anos, com uma parcela significativa da população já familiarizada com os métodos empregados em saúde pública, a realidade do uso efetivo ainda apresenta lacunas. Uma pesquisa recente, por exemplo, revelou um perfil predominante de respondentes homens, cisgêneros, pardos, com acesso a rede de saúde privada e idade jovem, que demonstraram conhecer a profilaxia, considerar o uso da PrEP e saber onde obtê-la. Contudo, em contrapartida a esse conhecimento, a maioria dessas pessoas ainda não faz uso efetivo da prevenção. Essa discrepância nos resultados, aliada à segregação demográfica dos participantes (predominantemente pardos, jovens e com plano de saúde privado), sinaliza uma defasagem persistente na inclusão social dentro das políticas públicas, indicando que, apesar do conhecimento e do acesso potencial, o alcance universal ainda é um desafio.
A concepção e execução de pesquisas e ações de educação em saúde reafirmam a necessidade premente de projetos contínuos que consigam atingir um público-alvo cada vez mais amplo. A infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) permanece como uma questão de saúde pública global, exigindo estratégias de prevenção robustas e acessíveis. Nesse contexto, a incorporação da PrEP pelo sistema único de saúde (SUS) em 2017 foi um marco fundamental, visando garantir a eficácia na prevenção do hiv quando utilizada de forma correta e consistente. A continuidade e a adesão adequada à PrEP, aliadas ao esforço colaborativo de informação e acesso, foram as motivações centrais para o planejamento da ação educativa na Universidade Veiga de almeida – campus tijuca, focada em orientar alunos e visitantes sobre a importância do uso correto da medicação.
O objetivo dessas intervenções é multifacetado e claro: orientar estudantes e visitantes sobre o uso correto da medicação, desmistificar tabus arraigados e oferecer um espaço seguro para o esclarecimento de dúvidas. Essas ações educativas são cruciais porque o conhecimento isolado, por si só, não é suficiente para catalisar a mudança de comportamento. É imperativo transcender a mera transmissão de informações, abordando de forma abrangente os fatores sociais, econômicos e culturais que moldam a decisão de iniciar e, sobretudo, manter a adesão à PrEP a longo prazo. Isso inclui discussões aprofundadas sobre a regularidade do uso, o manejo de possíveis efeitos colaterais, a importância do acompanhamento médico contínuo e a integração da PrEP em uma estratégia de prevenção combinada, que pode englobar o uso consistente de preservativos e a realização de testagens regulares para o HIV.
2 METODOLOGIA
Como metodologia foram adotados dois meios de pesquisa de campo, sendo uma delas uma ação de educação em saúde de prevenção do HIV (Vírus da Imuno Deficiência Humana), onde foi abordado as ferramentas medicamentosas sobre o PrEP e PEP (Profilaxia Pré-exposição e Pós-exposição). Essa ação em saúde serviu de conhecimento dos alunos e visitantes a importância do uso de preservativos para evitar não somente o HIV como outras IST´S (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e gravidez indesejada, houve uma distribuição gratuita de preservativos femininos e masculinos para incentivar o uso deles, aliado a esse tema também foi apresentado a história do HIV, em que já haviam mortes pelo vírus da imunodeficiência que não eram diagnosticados, quando iniciou-se em 1980 o primeiro caso de AIDS (Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida) registrado no Brasil que era conhecido como “doença gay”, pois a maior incidência de casos era pelos homossexuais. Dessa maneira foi possível retratar a história de como a doença começou a ser conhecida pela população.
Ainda no contexto da apresentação informativa sobre o HIV, foi realizado um muro interativo com mitos e verdades sobre o vírus da imunodeficiência, distribuição de folders educativos sobre prevenção e tratamento após o contato com o HIV.
No âmbito da apresentação foi abordado o assunto de exposição pré e pós ato sexual, aonde foi possível repassar a importância, informar a relevância em como essa ferramenta impacta a educação em saúde sexual. Em tratando-se da pesquisa online foi analisado os seguintes tópicos: Idade de 25 a 34 anos; Raça: parda; Orientação sexual: Heterossexual; Identidade de gênero: cisgênero; homem; como conheceu a PrEP: em aulas ou projetos de saúde; sabe onde é possível pegar a PrEP: sim; se utiliza a PrEP: não; usaria a PrEP: sim; Uso de plano privado ou público: privado. como conclusão é possível analisar que apesar do conhecimento em saúde o homem, heterossexual, pardo, cisgênero, e com idade entre 25 e 30 anos não utiliza a profilaxia.
Como pesquisa de campo foi realizado um questionário que foi obteve 200 respostas referentes as perguntas que revelassem quais públicos estão melhor ou mal-informados sobre a questão do vírus; de acordo com sua raça, gênero, questão de acessibilidade ao serviço público ou privado, fator idade, orientação sexual, identidade de gênero, qual meio conheceu a PrEP, se a utiliza e se conhece seu direito de onde obter a medicação.
Foi de grande impacto na realização do trabalho e pesquisa de campo a desmistificar o tabu de que o antiretroviral só pode ser utilizado por homossexuais, onde hoje na sociedade pode se adquirir o conhecimento de que todo indivíduo pode utilizar a PrEP e PEP, pois a imunodeficiência não atinge a somente uma classe social seletiva, e sim a todas as pessoas que realizam o ato sexual, sem deixar de entender também que o uso de preservativos podem prevenir muitas outras comorbidades advindas do contato sexual ou por secreção.
Foi apresentado no final de cada apresentação para todos os assistentes um vídeo demonstrativo que gerou uma grande comoção por parte dos participantes. Esse vídeo retratava a vida de um homem homossexual que tem um canal no Youtube específico para esse assunto, onde ele conta sobre o dia que ele completou 10 anos do seu diagnóstico, em como ele se sentiu sem vida, totalmente preso ao rótulo do tabu.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os gráficos que compõem esta análise serão apresentados a seguir, tendo como base os dados coletados por meio de uma pesquisa realizada via Google Forms com o público da Universidade Veiga de Almeida. Tais resultados são uma demonstração legítima da realidade, interesse, opinião, experiência e identificação de cada indivíduo que aceitou fazer parte da pesquisa em que foi detalhado as variáveis sociais e excepcionais. Sabendo disso, a pesquisa supracitada sobre “A Utilização e Aderência da PrEP” (profila pré-exposição) foi direcionada a esse público na intenção de resgatar informações e demonstrativos capazes de entregar um embasamento social, com o objetivo de reforçar a importância do tema abordado.
Sendo assim, nos gráficos serão especificados um desempenho da pesquisa em torno de questões como a acessibilidade da PrEP, o entendimento da profilaxia, as características pessoais de cada indivíduo, acesso a saúde que o individuo tem e identificações de gênero, sexo e raça. Dessa forma, os tópicos “Idade”, “Raça de Identificação”, “Orientação Sexual”, “Identidade de Gênero”, ‘Identificação de Gênero”, “Meio de Conhecimento da PrEP”, “Onde é Possível Pegar PrEP”, “Uso da PrEP”, “Usaria a PrEP?”, “Uso de Plano de Saúde ou Unidade Básica de Saúde”, são os itens expostos. Os temas abordados para a pesquisa foram selecionados na intenção de conseguir ter uma visão mais próxima de como cada grupo social, de acordo com suas variantes, conseguem ter ingresso na aderência da PrEP, trazendo assim, um demonstrativo do que a PrEP têm ou não de influência na vida dessas pessoas. (Gráfico 1)
Gráfico 1 – Análise idade

Gráfico idade: Distribuição dos participantes segundo a idade. Observa-se que 25 a 34 anos corresponde a 40,8% do total, seguido por 19 a 24 anos com 31,1%, seguido por 45 a 59 anos com 13,6%, seguido por 35 a 44 anos com 10,1%, seguido 60 anos ou mais com 2,6% e seguido por 15 a 18 anos com 1,8%.
Gáfico 2 – Análise raça

Gráfico raça de identificação: Distribuição dos participantes segundo a raça que se identificam. Observa-se que corresponde “Branca” com 45,2% do total, seguido por “Parda” com 32,9%, seguido por “Preta” com 21,1%, seguida por “Amarela” e “Indígena”, ambas com 0,4%.
Gráfico 3 – Análise orientação sexual

Gráfico orientação sexual: Distribuição dos participantes segundo a orientação sexual. Observa-se que “Heterossexual” corresponde a 72,8% do total, seguido por “Bissexual” com 14,9%, seguido por “Homossexual” com 11%, seguido por “Outro” com 3%.
Gráfigo 3 – Análise indentidade de gênero

Gráfico Identidade de gênero: Distribuição dos participantes segundo a identidade de gênero. Observa-se que “Cisgênero” corresponde a 94,3% do total, seguido por “Outro” com 4,4%, seguido por “Transgênero” com 1,3%.
Gráfico 4 – Ánalise como você se identifica

Gráfico como você se identifica: Distribuição dos participantes segundo a identificação de gênero. Observa-se que “Mulher” corresponde a 68,9% do total, seguido por “Homem” com 29,8%, seguido com “Não-Binário” com 1,3%.
Gráfico 5 – Análise meio de conhecimento

Gráfico meio de conhecimento da PrEP: Distribuição dos participantes segundo o meio de conhecimento da PrEP. Observa-se que “Aulas e/ou palestras de saúde” correspondem a 31,6% do total, seguido por “Não conhecia até o momento dessa pesquisa” com 27,2%, seguido por “Redes Sociais” com 23,2%, seguido por “Outro” com 13,2%, seguido por “Panfletos” com 3,5%, seguido por “Televisão” com 1,3%.
Gráfico 6 – Análise de conhecimento sobre onde adquirir a medicação

Gráfico onde é possível adquirir a PrEP: Distribuição dos participantes segundo onde é possível pegar a PrEP. Observa-se que “Sim” corresponde a 59,6% do total, seguido por “Não” com 40,4%.
Gráfico 7 – Ánalise utilização da PrEP

Gráfico uso da PrEP: Distribuição dos participantes segundo o uso da PrEP. Observa-se que “Não” corresponde a 94,7% do total, seguido por “Sim” com 5,3%.
Gráfigo 8 – Ánalise se utilizaria a PrEP

Gráfico se usaria a PrEP: Distribuição dos participantes segundo a possibilidade de uso da PrEP. Observa-se que “Sim” corresponde a 53,9% do total, seguido por “Talvez” com 34,6%, seguido de “Não” com 11,4%.
Gráfico 9 – Ánalise forma de acesso à saúde

Gráfico uso de plano de saúde ou unidade básica de saúde: Distribuição dos participantes segundo usuários de plano privado ou público. Observa-se que “Plano de Saúde” corresponde a 50% do total, seguido por “Unidade Básica de Saúde” com 46,1%, seguido de “Outro” com 3,9%.
Este estudo teve como foco principal analisar o uso da PrEP mostrando seu potencial para apoiar estratégias de implementação e adesão. Os resultados revelam desafios e facilitadores ligados a fatores individuais, sociais e institucionais presentes nos mais diversos grupos aderentes à profilaxia. Observa-se que o debate sobre PrEP cresce globalmente, ultrapassando ambientes acadêmicos. A conscientização sobre a PrEP tem avançado nos mais diversos meios de comunicação, que favorecem a troca de informações e a formação de redes de apoio. Os grupos chaves, como trabalhadores do sexo e homens que fazem sexo com homens (HSH), reconhecem a importância da PrEP, buscando conteúdos e debates relacionados.
A prevenção combinada, que inclui o uso da PrEP, preservativos, testes de HIV (vírus da imunodeficiência humana), PEP e outras estratégias, é vista como a melhor forma de proteger contra o HIV e outras ISTs (infecções sexualmente transmissíveis). Contudo, práticas como o sexo sem preservativo desafiam o controle da infecção e requerem mais estudos. A PrEP é especialmente importante em relacionamentos sorodiscordantes, reduzindo o medo de falhas no uso do preservativo. No entanto, a sensação de segurança da PrEP pode levar à redução do uso do preservativo, o que pode aumentar outras ISTs, um fenômeno já observado no Brasil antes da PrEP, sobretudo quando se realiza um recorte dos primeiros anos do surgimento da Aids e seus altos índices de letalidade.
A Prevenção Combinada integra diversas abordagens para prevenção da infecção pelo HIV, incluindo estratégias biomédicas, comportamentais e estruturais, aplicadas em níveis individual, relacional, comunitário e social. Destacam-se as intervenções biomédicas, que incluem métodos de barreira física, como preservativos masculinos e femininos, além de medidas antirretrovirais como o Tratamento para Todas as Pessoas (TTP), a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) e a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). O uso de Truvada sem acompanhamento médico e exames periódicos é uma preocupação, assim como o alto custo do medicamento, que leva usuários a buscar farmácias internacionais, com receios sobre a autenticidade do produto. A regulação pela Anvisa e a venda em farmácias brasileiras enfrentam desafios culturais relacionados à sexualidade.
O regime padrão da PrEP no (sistema único de saúde) SUS utiliza a dose fixa combinada (DFC) de fumarato de tenofovir desoproxila (TDF) 300 mg e emtricitabina (FTC) 200 mg, administrada em comprimido diário, com eficácia e segurança comprovadas e poucos eventos adversos. A emtricitabina é rapidamente absorvida e eliminada principalmente pelos rins, com meia-vida de aproximadamente 10 horas. O fumarato de tenofovir desoproxila, também eliminado pelos rins, atinge concentração máxima no sangue cerca de uma hora após a ingestão, com meia-vida de eliminação de aproximadamente 17 horas.
Discussões sobre a eficácia da PrEP são constantes, apoiadas em estudos publicados em revistas científicas internacionais. Os participantes debatem a relação entre eficácia e adesão, a dose diária necessária e a importância de manter hábitos saudáveis. Os efeitos colaterais são tema recorrente, gerando amplas discussões. Muitos que planejam iniciar a PrEP manifestam receios sobre efeitos adversos, principalmente aqueles visíveis. No entanto, as queixas são geralmente mínimas, limitando-se a sintomas como cefaleia e tontura, ou inexistentes na maioria dos casos.
Enquanto alguns usuários relatam sentir-se bem com o uso diário, outros demonstram preocupação de que a dosagem possa ser agressiva ou cansativa. Isso abre espaço para debates sobre ajustes na dose, frequência, uso ocasional e reflexões sobre adesão, custos, disponibilidade e até resistência ao medicamento.
As preocupações levantadas pelos participantes dos principais grupos de vulnerabilidade analisado podem contribuir para o planejamento de futuras pesquisas com usuários ou potenciais usuários da PrEP, fundamentadas nas características descritas neste estudo. Ressalta-se também que a realização de pesquisas online merece maior exploração, especialmente com o avanço de metodologias dinâmicas e intervenções em ambientes virtuais.
Estudos indicam que os benefícios individuais e populacionais da PrEP aumentam conforme o risco de infecção dos usuários. Indivíduos de baixo risco poderiam obter maior benefício com outros métodos preventivos (preservativos, PEP, testes) e estariam expostos a riscos desnecessários por efeitos adversos ou menor motivação para adesão.
Por isso, diretrizes de diferentes países e instituições recomendam a PrEP principalmente para populações de alto risco. As diretrizes da OMS (Organização mundial de saúde) ;(2015) definem alto risco como incidência de HIV igual ou superior a 3%. No Brasil, em 2017, o Ministério da Saúde priorizou grupos como gays e outros HSH, pessoas transexuais, trabalhadores do sexo e parcerias sorodiferentes com comportamentos de risco.
A eficácia da PrEP depende do contexto e das circunstâncias das práticas sexuais, bem como da possibilidade de adotar estratégias preventivas. O uso planejado antes da relação sexual e com independência da negociação de parceiros aumenta a proteção em situações em que essa negociação é difícil ou indesejada, como quando há consumo de álcool e drogas. Facilita também a prevenção em contextos de violência ou trabalho sexual, onde a autonomia para negociar métodos é limitada.
A PrEP representa uma alternativa para quem não consegue ou não deseja usar métodos tradicionais. No Brasil, apesar de 94% reconhecerem o preservativo como a melhor forma de prevenção, apenas 19,9% o usam com parceiros fixos e 54,9% com parceiros casuais. Assim, a PrEP oferece proteção tanto em relações estáveis quanto ocasionais. Pode ainda ser combinada com outros métodos, especialmente para quem usa preservativos de forma inconsistente ou tem parceiros com risco elevado ou HIV positivo com carga viral detectável ou desconhecida.
Ao definir estratégias para oferta da PrEP, é importante lembrar que pertencer a grupos considerados de risco não implica necessariamente maior risco individual. Isso exige que serviços e profissionais avaliem práticas sexuais e riscos de forma detalhada e individualizada, considerando aspectos sociais, programáticos e pessoais.
A avaliação do risco para indicação da PrEP deve considerar três aspectos principais: Práticas sexuais: penetrações anal e vaginal sem preservativo são indicativas prioritárias, com risco maior para quem é penetrado. Ejaculação no ânus e vagina, penetração com objetos que causem fissuras, histórico de IST e busca repetida de PEP também indicam risco; Tipo de parceiros: relações eventuais geralmente expõem mais ao HIV, mas parcerias estáveis também são responsáveis por um terço das infecções, inclusive entre gays e HSH. Relações sorodiferentes geram discussões, pois pessoas com HIV sob tratamento eficaz têm risco desprezível de transmissão, mas parceiros soronegativos podem desconhecer essa informação, dificultando a prevenção; contextos sexuais: uso de álcool e drogas, estigma e violência associada a práticas sexuais, e condições precárias do trabalho sexual aumentam o risco e dificultam a prevenção.
Vale destacar que o risco de exposição ao HIV é variável ao longo da vida, requerendo avaliações contínuas para indicar ou suspender a PrEP conforme as necessidades individuais, sempre com diálogo aberto sobre autocuidado. Do ponto de vista da política nacional, há lacunas a serem preenchidas. Por exemplo, adolescentes, usuários de drogas e heterossexuais com maior exposição ao HIV não foram incluídos nas diretrizes atuais por falta de evidências. Estudos e marcos legais para acesso de adolescentes à PrEP sem consentimento parental estão em andamento. Para usuários de drogas, a oferta segura da PrEP é um desafio, principalmente pela escassez de serviços de redução de danos no país.
A introdução da PrEP traz desafios como promoção da adesão e manejo de IST, que devem ser enfrentados no âmbito dos serviços de saúde, com foco especial em grupos vulneráveis. A PrEP surge em um contexto cultural de transformação nas relações de gênero e sexualidade, especialmente entre jovens, influenciando a forma de buscar parceiros e estabelecer acordos sexuais. O uso crescente de aplicativos georreferenciados, principalmente entre homens que fazem sexo com outros homens, abre possibilidades para prevenção e uso da PrEP, refletindo novas configurações sexuais que as estratégias de prevenção precisam acompanhar. Esses aplicativos têm se mostrado fontes aceitas de informação em saúde sexual e motivação para o vínculo com serviços e adesão à PrEP.
Dados do UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS) AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) indicam que, atualmente, cerca de 39 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o mundo, das quais 29,8 milhões recebem tratamento adequado para a infecção. Ao longo dos anos, foram desenvolvidos tratamentos eficazes com o objetivo de controlar a epidemia por meio da terapia antirretroviral e do controle viral em pacientes indetectáveis, considerados intransmissíveis. No entanto, garantir o tratamento antirretroviral a todos os infectados não tem sido suficiente para reduzir a incidência do HIV globalmente, pois a pandemia continua a impactar sobretudo populações vulneráveis, como travestis, transexuais, gays, homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, pessoas privadas de liberdade e usuários de drogas.
Em 2022, a prevalência do HIV entre homens gays e outros homens que fazem sexo com homens foi 11 vezes maior que na população geral adulta (15 a 49 anos); entre trabalhadores do sexo, quatro vezes maior; entre usuários de drogas injetáveis, sete vezes maior; e entre pessoas trans, 14 vezes maior. Entre jovens do sexo masculino de 25 a 29 anos, a taxa de casos era de 52 por 100 mil habitantes, comparada a 17,8 na população geral.
Em setembro de 2017, o Departamento de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde apresentou o modelo estratégico de “Prevenção Combinada”, que destaca o princípio da equidade no (SUS). Essa estratégia prioriza ações preventivas em populações-chave, que possuem prevalência de HIV/Aids acima da média nacional de 0,4%. Simultaneamente, desenvolvem-se ações direcionadas a grupos prioritários, como jovens, população negra, indígena e pessoas em situação de rua.
Com a disponibilização gratuita da PrEP pelo SUS, observa-se uma redução significativa nas taxas de infecção e transmissão do HIV nos grupos-alvo, contribuindo para as metas de erradicação da epidemia. No entanto, a adesão e a retenção dos usuários nos serviços de referência ainda representam desafios importantes para a plena efetividade da estratégia.
A PrEP é indicada para pessoas em situação de vulnerabilidade, tais como aquelas que frequentemente deixam de usar preservativo, fazem uso repetido da PEP, têm histórico de infecções sexualmente transmissíveis, participam de relações sexuais em troca de bens ou serviços, ou praticam chemsex (uso de drogas psicoativas para potencializar a experiência sexual.
Entre os benefícios da PrEP, destaca-se a maior autonomia na proteção durante relações sexuais, inclusive em contextos em que o uso consensual do preservativo não é possível ou em situações envolvendo uso excessivo de álcool, drogas ilícitas ou abuso sexual. Além disso, a PrEP é alternativa para quem não utiliza métodos convencionais, seja por escolha ou dificuldade de adaptação. Pesquisa no Brasil revela que, embora haja consenso sobre a importância do preservativo, apenas 19,9% dos indivíduos o utilizam com parceiros fixos e 54,9% com parceiros casuais.
Como alternativa ao uso diário, existe a PrEP sob demanda, recomendada para pessoas que podem planejar suas relações sexuais de risco, utilizando a profilaxia antes e depois da exposição. Essa modalidade é indicada para homens cisgêneros heterossexuais, bissexuais, gays, pessoas não binárias designadas como do sexo masculino ao nascer, travestis e mulheres transexuais que não utilizam estradiol, desde que tenham relações sexuais anais com frequência inferior a duas vezes por semana e possam planejar a dosagem entre 2 e 24 horas antes da exposição.
A PrEP sob demanda não é recomendada para pessoas que não atendam a esses critérios, incluindo aquelas em uso de hormônios à base de estradiol, mulheres transexuais e travestis em uso hormonal, ou para indivíduos com dificuldade de compreensão do regime posológico. Os benefícios desse regime incluem a redução da quantidade de comprimidos ingeridos e a otimização de custos, embora a complexidade do esquema possa dificultar a adesão e aumentar o risco de uso incorreto.
Este estudo visa evidenciar a importância da PrEP como um dos pilares da prevenção combinada ao HIV, revisando suas características e reunindo evidências científicas sobre a eficácia de seu uso, que fundamentaram a incorporação desses medicamentos no programa nacional de prevenção às infecções sexualmente transmissíveis, desenvolvido pelo ministério da saúde desde 2017.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho alcançou seu objetivo ao demonstrar a relevância das estratégias de prevenção ao HIV e analisar os fatores que impactam a adesão à PrEP. Conclui-se que garantir a efetividade da profilaxia exige mais do que a disponibilização do medicamento; é fundamental superar barreiras estruturais e sociais. A experiência demonstrou que ações educativas são essenciais para combater o estigma e a desinformação, que impactam diretamente a adesão. A desmistificação do uso de antirretrovirais como uma prática restrita a certos grupos foi um dos resultados de maior impacto, promovendo o conhecimento de que toda pessoa pode e deve ter autonomia sobre sua saúde sexual.
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