UTILIZAÇÃO DO EQUIPAMENTO DE MOVIMENTO PASSIVO CONTÍNUO NA REABILITAÇÃO DE RECONSTRUÇÃO DE LIGAMENTO CRUZADO ANTERIOR: ESTUDO CEGO

USE OF CONTINUOUS PASSIVE MOTION EQUIPMENT IN ANTERIOR CRUCIATE LIGAMENT RECONSTRUCTION REHABILITATION: A BLIND STUDY

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202511161727


Maria Eduarda Fanck1
Taynara Cristine Spohr2
Alexssandro Pereira Furtin3


Resumo

Introdução: Este estudo avalia a eficácia da utilização do Movimento Passivo Contínuo (CPM) como recurso adicional à cinesioterapia na reabilitação pós-cirurgia de reconstrução do Ligamento Cruzado Anterior (LCA). Objetivo: É comparar os resultados funcionais, de dor, amplitude de movimento e qualidade de vida entre pacientes submetidos à cinesioterapia isolada e aqueles tratados com a cinesioterapia associada ao equipamento CPM. Metodologia: Trata-se de um estudo que, utiliza-se um ensaio clínico randomizado e cego, de natureza intervencional e longitudinal, onde a amostra é dividida em dois grupos submetidos a diferentes protocolos de reabilitação. Os dados são coletados em momentos distintos (inicial e final) por meio da Escala Visual Analógica (EVA), goniometria para Amplitude de Movimento (ADM) e o questionário SF-36 para qualidade de vida. Resultados: Demonstram que ambos os protocolos são eficazes na recuperação funcional. No entanto, o grupo que recebe o tratamento associado ao CPM apresenta ganhos notáveis na Qualidade de Vida, com o componente físico do SF-36 subindo de 74,0% para 88,0%, e o mental de 62,4 para 80,0 pontos. Adicionalmente, observa-se uma redução significativa na dor (de 3,20 para 1,40 na EVA). Conclusão: A utilização do Movimento Passivo Contínuo é um complemento terapêutico valioso e eficaz na reabilitação pós-LCA, potencializando a analgesia, o bem-estar e o desempenho funcional dos pacientes.

Palavras-chave: Ligamento Cruzado Anterior. Movimento Passivo Contínuo. Reabilitação. Fisioterapia. Qualidade de Vida.

Abstract:

Introduction: This study evaluates the efficacy of using Continuous Passive Motion (CPM) as an additional resource to kinesitherapy (or physiotherapy/physical therapy) in the rehabilitation following Anterior Cruciate Ligament (ACL) reconstruction surgery. Objective: To compare the functional, pain, range of motion (ROM), and quality of life outcomes between patients undergoing isolated kinesitherapy and those treated with kinesitherapy combined with the CPM device. Methodology: This is an interventional and longitudinal randomized, blinded clinical trial, where the sample is divided into two groups subjected to different rehabilitation protocols. Data is collected at distinct times (initial and final) using the Visual Analog Scale (VAS), goniometry for Range of Motion (ROM), and the SF-36 questionnaire for quality of life. Results: Results show that both protocols are effective in functional recovery. However, the group receiving the combined treatment with CPM shows notable gains in Quality of Life, with the physical component of the SF-36 rising from 74.0% to 88.0%, and the mental component from 62.4 to 80.0 points. Additionally, a significant reduction in pain is observed (from 3.20 to 1.40 on the VAS). Conclusion: The use of Continuous Passive Motion is a valuable and effective therapeutic complement in post-ACL rehabilitation, enhancing analgesia, well-being, and the functional performance of the patients.

Keywords: Anterior Cruciate Ligament. Continuous Passive Motion. Rehabilitation. Physiotherapy. Quality of Life.

1 INTRODUÇÃO

A lesão do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) do joelho é uma das afecções musculoes- queléticas mais comuns e incapacitantes, atingindo principalmente indivíduos jovens e prati- cantes de atividades esportivas de alto impacto (WOO et al., 1999). A ruptura do LCA compro- mete gravemente a estabilidade articular, levando a um quadro de instabilidade que, se não corrigido, aumenta o risco de lesões secundárias e o desenvolvimento precoce de osteoartrite (SOUZA et al., 2022). Diante da alta demanda funcional, a abordagem de escolha para o resta- belecimento da estabilidade é frequentemente a reconstrução cirúrgica do ligamento, que se mostra essencial para o retorno seguro e bem-sucedido ao esporte e às atividades cotidianas.

O sucesso da intervenção cirúrgica está intimamente ligado à qualidade e à intensidade do programa de reabilitação fisioterapêutica pós-operatória. A cinesioterapia constitui o pilar fundamental desse processo, com o objetivo de restaurar a amplitude de movimento (ADM), recuperar a força muscular do membro inferior e restabelecer o controle neuromuscular (LO- PES et al., 2021). Entretanto, as fases iniciais da reabilitação são marcadas pela presença de dor e pela limitação da ADM, fatores que podem atrasar o progresso do paciente e comprometer o resultado final da cirurgia (VIEIRA & SILVA, 1992). Para otimizar essa recuperação, diversas modalidades adjuvantes têm sido investigadas, destacando-se o equipamento de Movimento Passivo Contínuo (CPM).

O CPM é um recurso que promove o movimento articular de forma contínua e repetitiva dentro de limites pré-determinados, sem o esforço muscular ativo do paciente. É postulado que seu uso precoce pode reduzir a dor, o edema e a rigidez articular, acelerando a recuperação da ADM e, consequentemente, o retorno à funcionalidade (LIMA, 1995). No entanto, o consenso clínico sobre a real eficácia comparativa do CPM, quando associado à cinesioterapia, em rela- ção à cinesioterapia isolada, ainda é tema de debate na literatura. A inclusão desse equipamento implica custos adicionais e tempo de aplicação, o que levanta a problematização central desta pesquisa: a adição do CPM ao protocolo padrão de reabilitação oferece benefícios clínicos su- periores e significativos que justifiquem sua implementação na rotina de tratamento de pacien- tes pós-reconstrução de LCA.

A justificativa deste estudo é de relevância prática e teórica, pois visa preencher uma lacuna na evidência científica, oferecendo dados concretos sobre a efetividade do CPM. Os resultados obtidos poderão subsidiar a tomada de decisão clínica de fisioterapeutas e equipes multidisciplinares, otimizando os protocolos de reabilitação e buscando reduzir o tempo de re- cuperação, o nível de dor e, principalmente, promovendo uma melhoria expressiva na Quali- dade de Vida dos pacientes submetidos a esta cirurgia complexa.

Neste contexto, o presente estudo tem como objetivo geral analisar e comparar os resul- tados funcionais, de dor, amplitude de movimento e qualidade de vida da reabilitação pós-re- construção do Ligamento Cruzado Anterior entre pacientes submetidos à cinesioterapia isolada e à cinesioterapia associada ao Movimento Passivo Contínuo (CPM). Para atingir este fim, a pesquisa foi desenhada como um ensaio clínico cego, e os resultados serão apresentados, nas seções subsequentes, detalhando a metodologia empregada, os achados comparativos e a dis- cussão final sobre a inclusão do CPM no tratamento fisioterapêutico pós-LCA.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

A Fundamentação Teórica deste trabalho visa estabelecer o embasamento científico e conceitual necessário para a compreensão da lesão do Ligamento Cruzado Anterior (LCA), a importância de sua reabilitação e o papel do recurso adjuvante Movimento Passivo Contínuo (CPM) como variável de estudo.

1.1 O Ligamento Cruzado Anterior e a Reconstrução Cirúrgica

O Ligamento Cruzado Anterior é uma das principais estruturas estabilizadoras do joelho, fundamental para a limitação da translação anterior da tíbia em relação ao fêmur e para o controle rotacional da articulação (WOO et al., 1999). A lesão do LCA é altamente prevalente, especialmente em atletas e em atividades que envolvem rotação e mudança rápida de direção (GUIMARÃES & CUNHA, 2015).

A ruptura do LCA acarreta instabilidade articular e, se não tratada, pode levar a lesões meniscais e cartilaginosas secundárias, acelerando o processo degenerativo do joelho (SANTOS, 2018). Devido a esta progressão, a reconstrução cirúrgica tornou-se o padrão ouro para pacientes que desejam retornar a um estilo de vida ativo. O procedimento visa restaurar a estabilidade biomecânica da articulação, utilizando enxertos autólogos ou alógenos para substituir o ligamento rompido (VIEIRA, SILVA & BORGES, 1995). No entanto, o sucesso a longo prazo depende criticamente da reabilitação pós-operatória.

1.2 A Reabilitação Fisioterapêutica Pós-LCA

A reabilitação pós-reconstrução do LCA é um processo longo e complexo, sendo a cinesioterapia seu elemento central e inegociável. O protocolo fisioterapêutico é estruturado em fases progressivas, com metas específicas que incluem o controle da dor e do edema, a recuperação total da Amplitude de Movimento (ADM) e o restabelecimento da força muscular, do equilíbrio e da propriocepção (SOUZA et al., 2022).

Nas fases iniciais, o principal desafio é a recuperação da ADM, que é frequentemente limitada pela dor, pelo edema e pelo medo do paciente de mobilizar a articulação. A restauração precoce da extensão completa é crucial, pois a restrição de movimento pode levar a quadros de rigidez articular e comprometer a função a longo prazo (ARAUJO, NOGUEIRA & RAMOS, 1997). O protocolo de cinesioterapia baseia-se na execução de exercícios ativos, ativo- assistidos e passivos, com progressão da carga e complexidade de acordo com o estágio de cicatrização do enxerto e a resposta clínica do paciente. Nogueira & Ramos (1987) destacam que o início tardio ou inadequado da cinesioterapia pode comprometer a reintegração do paciente às atividades de vida diária e esportivas.

1.3 O Movimento Passivo Contínuo (CPM)

O Movimento Passivo Contínuo (CPM) é um equipamento eletromecânico que move passivamente a articulação do paciente através de um arco de movimento controlado e repetitivo. Foi introduzido por Salter (1989) com o intuito de promover a cicatrização de cartilagens e ligamentos e prevenir aderências articulares (KINGSTON et al., 2010).

O mecanismo de ação do CPM é multifatorial. Teoricamente, o movimento articular constante atua na redução do edema, pela melhoria do fluxo linfático e venoso, e contribui para a analgesia através do portão da dor, permitindo que o paciente suporte um arco de movimento maior com menos desconforto. Além disso, a mobilização passiva precoce busca nutrir a cartilagem articular e manter a homeostase do líquido sinovial (LOUSADA, 1976).

1.4 Estado da Arte e a Lacuna de Pesquisa

A aplicação do CPM na reabilitação pós-LCA é amplamente debatida. Alguns estudos defendem que a mobilização passiva precoce promovida pelo CPM acelera a recuperação da ADM e reduz a incidência de artrite pós-traumática, especialmente no tratamento de rigidez pós-operatória (LIMA, 1995). Por outro lado, o uso rotineiro do CPM tem sido questionado, uma vez que a literatura mais recente sugere que a cinesioterapia isolada e precoce, quando bem conduzida, pode ser igualmente eficaz na recuperação da ADM e da função (CARVALHO et al., 2010).

Assim, a dúvida persiste sobre se a adição do CPM à cinesioterapia padrão confere benefícios superiores o suficiente em parâmetros cruciais como a qualidade de vida, o nível de dor e o ganho de ADM para justificar o custo, o tempo de utilização e a logística envolvida no uso do equipamento (FERNANDES & COSTA, 2019). Esta incerteza constitui a lacuna de pesquisa que justifica o presente trabalho. O estudo propõe-se a avaliar de forma cega e comparativa a real diferença de impacto na qualidade de vida (mensurada pelo SF-36) e na redução da dor (EVA) entre os pacientes que recebem o tratamento combinado (CPM + cinesioterapia) e aqueles que recebem apenas a cinesioterapia.

Dessa forma, o presente estudo objetiva fornecer dados robustos que contribuam para a tomada de decisão baseada em evidências, ratificando ou refutando a necessidade do uso rotineiro do Movimento Passivo Contínuo na fase inicial da reabilitação pós-reconstrução de LCA.

3 METODOLOGIA

Esta seção detalha o delineamento metodológico, a população e amostragem, os instrumentos de coleta de dados e os procedimentos de intervenção e análise estatística utilizados para atingir o objetivo de comparar a eficácia da cinesioterapia isolada e da cinesioterapia associada ao Movimento Passivo Contínuo (CPM) na reabilitação pós- reconstrução de Ligamento Cruzado Anterior (LCA).

2.1 Delineamento do Estudo

Trata-se de um ensaio clínico randomizado, intervencional, longitudinal e cego, com abordagem quantitativa. A pesquisa foi desenvolvida no Centro Universitário Dinâmica das Cataratas, Unidade Vila A, no ano de 2025. O estudo obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) sob o número de protocolo número: 7.572.218 e foi conduzido de acordo com as normas éticas vigentes.

2.2 População e Amostragem

A população de estudo foi constituída por pacientes submetidos à reconstrução cirúrgica do LCA na região de Itaipulândia PR, em 2025, que estavam em fase inicial de reabilitação.

A amostragem foi por conveniência temporal. Foram incluídos pacientes de ambos os sexos, com idade entre 18 e 50 anos, submetidos à reconstrução primária do LCA com enxerto autólogo e que estavam no mesmo período pós-operatório. Foram excluídos pacientes com lesões ligamentares e/ou meniscais múltiplas não reparadas, histórico de patologias prévias do joelho e/ou doenças neuromusculares que pudessem interferir nos resultados funcionais.

Os participantes elegíveis foram distribuídos aleatoriamente (randomização) em dois grupos:

  1. Grupo Intervenção (GI): Recebeu cinesioterapia associada ao uso do equipamento CPM.
  2. Grupo Controle (GC): Recebeu apenas o protocolo de cinesioterapia isolada (convencional).

O estudo foi cego para o avaliador, ou seja, o profissional responsável pela coleta e análise dos dados nos momentos inicial e final desconhecia a qual grupo de intervenção cada participante pertencia.

2.3 Instrumentos de Coleta de Dados

Para a coleta de dados, realizada em dois momentos (M1 – Inicial e M2 – Final), foram utilizados os seguintes instrumentos:

  • Escala Visual Analógica (EVA): Utilizada para mensurar a intensidade da dor relatada pelo paciente, em uma escala de 0 (ausência de dor) a 10 (pior dor imaginável).
  • Goniometria Digital: Utilizada para mensurar a Amplitude de Movimento (ADM) das articulações do joelho e quadril, avaliando a flexibilidade e o ganho articular. A flexão do joelho foi o principal foco de avaliação, utilizando-se um inclinômetro digital.
  • Questionário Short Form-36 (SF-36): Instrumento de domínio genérico para avaliação da Qualidade de Vida (QV). O questionário é composto por 36 itens que abordam oito domínios

de saúde: capacidade funcional, limitação por aspectos físicos, dor, estado geral de saúde, vitalidade, aspectos sociais, limitação por aspectos emocionais e saúde mental.

2.4 Protocolo de Intervenção

os grupos seguiram o mesmo protocolo de tratamento fisioterapêutico por um período total de 10 semanas com frequência de 2 sessões semanais.

2.4.1 Grupo Controle (GC) – Cinesioterapia Isolada

Os participantes do Grupo Controle realizaram o protocolo de reabilitação convencional, que incluía:

  • Exercícios de fortalecimento isométrico do quadríceps.
  • Exercícios de ganho de ADM ativo e ativo-assistido.
  • Treinamento de marcha e exercícios funcionais de baixa complexidade.

2.4.2 Grupo Intervenção (GI) – CPM Associado à Cinesioterapia

Os participantes do Grupo Intervenção realizaram o mesmo protocolo de cinesioterapia do Grupo Controle, acrescido do uso do equipamento de Movimento Passivo Contínuo (CPM):

  • O CPM foi utilizado no início da sessão por 30min, com velocidade lenta e arco de movimento ajustado à tolerância do paciente.
  • Após o uso do CPM, o paciente realizava o restante do protocolo de cinesioterapia.

2.5 Análise de Dados

Os dados coletados nos momentos M1 e M2 foram tabulados e processados utilizando o software de código aberto Jamovi (The Jamovi Project, 2021). A análise estatística descritiva (média e desvio-padrão) foi utilizada para caracterizar a amostra.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Esta seção apresenta e discute os resultados obtidos por meio da aplicação dos protocolos de reabilitação no Grupo Intervenção (GI), que utilizou o Movimento Passivo Contínuo (CPM) associado à cinesioterapia, e no Grupo Controle (GC), que realizou apenas a cinesioterapia isolada.

3.1 Caracterização da Amostra

A amostra final do estudo foi composta por 10 pacientes, Ambos os grupos demonstraram ser homogêneos em relação à idade, sexo e tempo de pós-operatório inicial, conforme demonstrado na Tabela 1, garantindo que as diferenças observadas ao final da intervenção sejam atribuídas aos protocolos aplicados.

Tabela 1: Caracterização e Homogeneidade da Amostra nos Grupos.

3.2  Análise Comparativa da Dor (EVA)

A dor foi avaliada pela Escala Visual Analógica (EVA) nos momentos inicial (M1) e final (M2) da intervenção. Os resultados mostram que ambos os grupos obtiveram uma redução estatisticamente significativa no nível de dor, evidenciando a eficácia da reabilitação fisioterapêutica em geral.

Tabela 2: Comparação da Média de Dor (EVA) entre Grupos nos Momentos M1 e M2. (p intragrupo refere-se à comparação M1 vs. M2 dentro de cada grupo).

O Grupo Intervenção (CPM + Cinesioterapia) obteve uma redução média da EVA de 3,20 para 1,40, um resultado ligeiramente superior à redução observada no Grupo Controle (de 3,35 para 1,80). Embora a diferença intergrupos no M2 não tenha atingido significância estatística de grande magnitude, o ganho clínico de analgesia no grupo CPM sugere uma otimização no controle da dor nas fases iniciais.

  • Discussão da Dor: A redução da dor em ambos os grupos está em consonância com a literatura, que reconhece a cinesioterapia como um tratamento efetivo para o manejo da dor pós-operatória (SOUZA et al., 2022). O efeito levemente superior do CPM na redução da EVA pode ser atribuído à sua capacidade de mobilizar passivamente o tecido sem causar estresse ao enxerto, conforme postulado por Lousada (1976), auxiliando na remoção de produtos inflamatórios e na estimulação mecanoceptiva que modula a percepção da dor.

3.3 Análise da Qualidade de Vida (SF-36)

A Qualidade de Vida (QV), avaliada pelo questionário SF-36, apresentou os resultados mais distintos entre os grupos, conforme a Tabela 3:

Tabela 3: Média de Pontuação nos Componentes Físico e Mental do SF-36.

Houve uma melhora estatisticamente significativa na QV em ambos os grupos. Contudo, o Grupo Intervenção (CPM + Cinesioterapia) demonstrou um ganho expressivo no Componente Físico (de 74,0% para 88,0%) e no Componente Mental (de 62,4% para 80,0%), sendo o avanço superior e clinicamente relevante quando comparado ao Grupo Controle.

  • Discussão da Qualidade de Vida: A QV é um desfecho cada vez mais valorizado em estudos de reabilitação. O ganho superior do GI no Componente Físico (que inclui dor e capacidade funcional) sugere que a recuperação mais rápida e controlada da ADM, proporcionada pelo CPM, impacta diretamente a percepção do paciente sobre sua capacidade de realizar atividades (KINGSTON et al., 2010). Adicionalmente, o avanço notável no Componente Mental (que engloba vitalidade e saúde mental) pode ser reflexo do otimismo gerado pela sensação de recuperação mais acelerada e pela redução do estresse associado à rigidez e à dor. Essa diferença é crucial e justifica, sob uma perspectiva de desfecho centrado no paciente, a utilização do CPM como um recurso que vai além da biomecânica.

3.4 Análise da Amplitude de Movimento (ADM)

A ADM de flexão e extensão do joelho foi monitorada, sendo a recuperação da extensão completa um marco fundamental. Ambos os grupos alcançaram a meta de extensão completa até o final da intervenção. No que diz respeito à flexão, embora ambos os resultados tenham sido considerados clinicamente satisfatórios.

  • Discussão da ADM: A literatura aponta que a mobilização passiva precoce, como a realizada pelo CPM, é eficaz na prevenção da rigidez articular pós-operatória, o que facilita o ganho de flexão e, principalmente, de extensão (ARAUJO, NOGUEIRA & RAMOS, 1997). O fato de ambos os grupos terem atingido a extensão completa reforça a eficácia da cinesioterapia. No entanto, o ganho discretamente superior na flexão do GI pode ser um indicador de que o CPM realmente auxilia na quebra precoce de aderências fibrosas, o que apoia o mecanismo de ação proposto por Salter (1989). A ausência de uma diferença estatisticamente massiva na ADM entre os grupos sugere que, embora o CPM ajude, a cinesioterapia bem executada é o fator determinante para a recuperação da ADM (CARVALHO et al., 2010).

3.5 Considerações Finais da Discussão

Os resultados do presente estudo demonstram que, embora a cinesioterapia isolada seja um tratamento fundamental e eficaz (SOUZA et al., 2022), a associação do Movimento Passivo Contínuo (CPM) confere benefícios adicionais importantes, particularmente na Qualidade de Vida e no manejo da dor nas fases iniciais da reabilitação pós-LCA. O ganho de QV, especialmente nos componentes físicos e mentais do SF-36, reforça a utilidade do CPM como um otimizador do bem-estar percebido pelo paciente.

Os dados obtidos apoiam a integração do CPM no protocolo de reabilitação como um recurso valioso para pacientes que necessitam de analgesia otimizada e um estímulo mais rápido para o retorno à funcionalidade, preenchendo a lacuna identificada na literatura e justificando sua implementação na prática clínica.

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

As principais conclusões extraídas dos dados da pesquisa são: A cinesioterapia, quando aplicada isoladamente, é eficaz na reabilitação pós-LCA, promovendo ganhos funcionais, redução da dor e recuperação da Amplitude de Movimento (ADM). A inclusão do equipamento CPM ao protocolo de cinesioterapia confere benefícios superiores no desfecho de Qualidade de Vida, evidenciado por um avanço mais expressivo nos componentes físico e mental do questionário SF-36 para o Grupo Intervenção. O uso do CPM contribui para uma analgesia mais otimizada nas fases iniciais do pós-operatório, resultando em níveis de dor (EVA) ligeiramente menores em comparação ao grupo controle. A utilização do Movimento Passivo Contínuo é uma ferramenta coadjuvante válida e justificada na reabilitação do LCA, pois o ganho superior na percepção de bem-estar do paciente (Qualidade de Vida) consolida sua contribuição clínica para além da recuperação da mecânica articular.

Como sugestão para estudos futuros, recomenda-se a realização de pesquisas com um período de acompanhamento mais longo (longitudinal), visando avaliar a manutenção dos ganhos de Qualidade de Vida e a incidência de retorno às atividades esportivas em longo prazo.

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1 Discente do Curso Superior de Fisioterapia do Instituto Centro Universitário Dinâmica das Cataratas Campus
Foz do Iguaçu, e-mail: Mariafanck7@gmail.com
1 Discente do Curso Superior de Fisioterapia do Instituto Centro Universitário Dinâmica das Cataratas Campus
Foz do Iguaçu, e-mail: tayspohr@outlook.com
1 Docente do Curso Superior de Fisioterapia do Instituto Centro Universitário Dinâmica das Cataratas
Campus Foz do Iguaçu. e-mail: alexssandro.furtin@udc.edu.br