OFF-LABEL USE OF SEMAGLUTIDE AND NEW INCRETINOMIMETIC THERAPIES: AN APPROACH TO THEIR EFFECTS AND SAFETY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510212238
SILVEIRA, Tainah Rocha Maia1; ASSUNÇÃO, Diogo Anacleto Barbosa1; SILVA, Harrison Henrique Navarro1; PORTUGAL, Lara Oliveira1; SANTOS, Vitória de Andrade Matias dos1; Orientador: NASCIMENTO, Sales Silva2; Co-orientadora: OLIVEIRA, Évelin Santos3
RESUMO
Introdução. O uso do medicamento semaglutida vem sendo amplamente discutido atualmente, sobretudo, por conta do seu uso indiscriminado com o intuito de gerar um emagrecimento de forma mais rápida e satisfatória. Entretanto, este medicamento pertence à classe de agonistas do receptor de peptídeo-1 do tipo glucagon (GLP-1). A semaglutida, por exemplo, pode trazer diversos prejuízos para a saúde quando administrada de forma diferente do seu real objetivo terapêutico, que é o tratamento da Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2). Nesse contexto, é necessário analisar os riscos que podem ser adquiridos pela população não diabética. Além disso, novas terapias emergentes, como a tirzepatida – um agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1 – vêm sendo estudadas, mostrando resultados promissores tanto no controle glicêmico quanto na perda de peso. Estudos comparativos entre a tirzepatida e os agonistas clássicos de GLP-1 têm evidenciado diferenças relevantes em termos de eficácia e perfil de segurança, o que reforça a necessidade de aprofundar a discussão sobre os impactos do uso dessas medicações fora de suas indicações originais. Objetivos. Avaliar o uso dos agonistas de incretinas, especificamente Semaglutida e Tirzepatida, mais especificamente analisar as consequências, riscos e segurança para a população não-diabética, bem como descrever seu mecanismo de ação no uso para emagrecimento. Justificativa. O uso indiscriminado de agonistas de incretinas, como a semaglutida, e mais recentemente de novas terapias como a tirzepatida, tem se expandido além das indicações originais para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2, alcançando fins estéticos e de emagrecimento rápido. Esse fenômeno desperta preocupação pela ocorrência de efeitos adversos significativos, pelas incertezas quanto à segurança a longo prazo em indivíduos não diabéticos e pelos desafios éticos e sociais relacionados à medicalização do emagrecimento. Diante da rápida evolução do mercado farmacêutico e da crescente popularização dessas drogas, torna-se relevante compreender os riscos e implicações do seu uso off-label, tanto no âmbito científico quanto na saúde pública. Metodologia: Foi realizada uma revisão integrativa de literatura no período de 2021 a 2025. A pesquisa foi baseada nas seguintes bases de dados: SCIELO e PUBMED, através dos descritores em português “semaglutida” OR “ tirzepatida” AND “emagrecimento” AND “efeitos adversos” AND “obesidade”. E os mesmos descritores no idioma inglês. Resultados e discussão. Os benefícios desse uso superam os riscos em diferentes contextos. A comparação dos perfis de eficácia e segurança das novas terapias emergentes, como a Tirzepatida, e a Semaglutida, evidenciam uma concordância entre os autores quanto à eficácia das terapias incretinomiméticas, tanto no controle glicêmico de pacientes com diabetes mellitus quanto na promoção da perda ponderal em indivíduos obesos. Observa-se, ainda, a existência de benefícios adicionais relacionados à melhora de parâmetros cardiovasculares e renais. No entanto, os autores alertam para os riscos associados ao uso off label e indiscriminado dessas medicações por pessoas não diabéticas, especialmente na ausência de acompanhamento multiprofissional. Destacam-se, nesse contexto, os potenciais efeitos adversos metabólicos, como hipoglicemia e sintomas gastrointestinais, que podem comprometer a segurança e a saúde do indivíduo. Conclusão: Os agonistas de incretinas, como a semaglutida e a tirzepatida, representam um importante avanço terapêutico no tratamento do diabetes mellitus tipo 2 e, mais recentemente, no manejo da obesidade. A tirzepatida promove uma perda de peso expressiva e sustentada, além de melhorias significativas nos parâmetros metabólicos, consolidando-se como uma alternativa eficaz quando utilizada de forma contínua e supervisionada.
Palavras-chave: Tirzepatida; Agonistas de GLP-1; Incretinas; emagrecimento; Obesidade;
ABSTRACT
Introduction. The use of the drug Ozempic has been widely discussed recently, especially due to its indiscriminate use aimed at achieving faster and more satisfactory weight loss. However, this medication belongs to the class of glucagon-like peptide-1 (GLP-1) receptor agonists. Semaglutide, for example, can cause various health harms when administered differently from its intended therapeutic purpose, which is the treatment of Type 2 Diabetes Mellitus (T2DM). In this context, it is necessary to review and analyze the risks that may be incurred by the non diabetic population. Additionally, emerging therapies, such as tirzepatide—a dual agonist of GIP and GLP-1 receptors—have been studied, showing promising results in both glycemic control and weight loss. Comparative studies between tirzepatide and classical GLP-1 agonists have evidenced relevant differences in terms of efficacy and safety profiles, which reinforces the need to further discuss the impacts of using these medications outside their original indications. Objectives. To evaluate the use of incretin agonists, specifically semaglutide and tirzepatide, analyze the consequences, risks, and safety for the non-diabetic population, as well as describe their mechanism of action in weight loss. Justification. The indiscriminate use of incretin agonists, such as semaglutide, and more recently new therapies like tirzepatide, has expanded beyond their original indications for the treatment of Type 2 Diabetes Mellitus, reaching aesthetic purposes and rapid weight loss. This phenomenon raises concerns due to the occurrence of significant adverse effects, the uncertainties regarding long-term safety in non diabetic individuals, and the ethical and social challenges related to the medicalization of weight loss. Given the rapid evolution of the pharmaceutical market and the growing popularity of these drugs, it is important to understand the risks and implications of off-label use, both in the scientific context and in public health. Methodology. An integrative literature review will be conducted based on the main publications from 2021 to 2025. The research was performed using the SCIELO and PUBMED databases, employing the following descriptors in Portuguese: “semaglutida” OR “tirzepatida” AND “emagrecimento” AND “efeitos adversos” AND “obesidade,” as well as the corresponding descriptors in English. Result and discussion. The benefits of this use outweigh the risks in different contexts. Comparing the efficacy and safety profiles of emerging therapies such as Tirzepatide and Semaglutide shows a general agreement among authors regarding the effectiveness of incretin-based treatments, both in glycemic control for patients with diabetes mellitus and in promoting weight loss in obese individuals. Additional benefits have also been observed, including improvements in cardiovascular and renal parameters. However, authors caution against the off-label and indiscriminate use of these medications by non-diabetic individuals, especially in the absence of multidisciplinary medical supervision. In this context, potential metabolic adverse effects, such as hypoglycemia and gastrointestinal symptoms, stand out as possible threats to individual safety and overall health. Conclusion. Based on the reviewed studies, incretin agonists such as semaglutide and tirzepatide represent a significant therapeutic advancement in the treatment of type 2 diabetes mellitus and, more recently, in obesity management. Findings from the SURMOUNT studies demonstrate that tirzepatide promotes substantial and sustained weight loss, along with significant improvements in metabolic parameters, establishing it as an effective therapeutic option when used continuously and under proper medical supervision.
Keywords: Tirzepatide ; GLP-1 agonists; Incretins; Weight loss; Obesity.
1. INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, observou-se um crescimento expressivo no uso de medicamentos originalmente destinados ao tratamento de doenças crônicas, como a semaglutida, por indivíduos que buscam emagrecimento rápido e eficaz. Desenvolvida para o manejo do Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2), a semaglutida atua como agonista do receptor de GLP-1 (Peptídeo-1 Semelhante ao Glucagon), promovendo redução da glicemia e aumento da saciedade. No entanto, seu uso off-label para fins estéticos tem se expandido de forma preocupante, impulsionado por fatores socioculturais e pelo fácil acesso a esses fármacos. Essa prática, quando dissociada de acompanhamento médico e multiprofissional, pode gerar efeitos adversos importantes, sobretudo gastrointestinais e metabólicos, além de representar um risco à saúde pública ao normalizar o uso indiscriminado de terapias farmacológicas para o controle do peso.
No que se refere ao tratamento medicamentoso, o termo off-label é empregado quando esses fármacos são destinados para condutas diferentes daquelas descritas na bula ou quando não são regulamentados. Dessa forma, a semaglutida administrada por via intradérmica é indicado inicialmente para o tratamento de pacientes portadores de Diabetes Mellitus tipo 2, entretanto, por ter como um dos principais efeitos adversos o emagrecimento, vem sendo comercializado de forma abundante, sobretudo, pela população obesa (MAGNO et al, 2024).
Em um panorama geral, a obesidade é doença crônica causada pela interação de fatores genéticos, metabólicos e ambientais, agregando diversos riscos para a saúde, caracterizada pelo acúmulo de gordura corporal e classificada em um Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 30kg/m². Sua terapia abrange uma conduta multifatorial centrada na nutrição, prática de exercícios físicos e até mesmo intervenções psicológicas. Contudo, observa-se a tendência atual no consumo da semaglutida para diminuição do peso e tratamento da obesidade pelo fato de ser classe medicamentosa que induz a hipoglicemia produzindo o efeito adverso da perda de peso (SILVA et al, 2024).
O mecanismo de ação da semaglutida consiste basicamente em inibir a ação do hormônio produzido pelas células alfa-pancreáticas, o glucagon, produzindo uma importante hipoglicemia. Define-se como um análogo do GLP-1, que seletivamente se liga ao receptor GLP-1r inviabilizando a sua ação fisiológica no metabolismo corporal. Em conjunto, estimula a secreção de insulina pelo pâncreas quando os níveis de glicose estão elevados, retarda a velocidade com que o estômago esvazia os alimentos no intestino aumentando a sensação de saciedade e, por fim, age no sistema nervoso central (SNC) diminuindo o apetite (LIMA et al, 2024).
Estudos atuais demonstram que a semaglutida possui de fato seus benefícios para quem busca a perda ponderal de forma mais eficaz e rápida. A eficácia da semaglutida para a perda de peso em indivíduos obesos sem diabetes é inegável, com estudos demonstrando uma redução média de até 14,9% do peso corporal ao longo de 68 semanas de tratamento, mas sempre quando associada a um acompanhamento multidisciplinar realizado por médicos, apoio nutricional, psicológico e com o auxílio de exercícios físicos resistivos. No entanto, a busca pelo emagrecimento e corpo perfeito é algo comum na sociedade atual, e tendo como fator o uso abusivo dessas medicações e seu acesso facilitado, pode-se evidenciar sérios problemas em pacientes não diabéticos (RODRIGUES, SILVA, 2024).
Paralelamente, a rápida evolução do mercado farmacêutico introduziu novas terapias incretinomiméticas, como a tirzepatida, que é considerada uma precursora farmacológica na categoria das incretinas, chamadas co-agonistas, por realizar função agonista dupla dos receptores de GIP (Polipeptídeo Insulinotrópico Dependente de Glicose) e GLP-1, que vem despertando crescente interesse clínico e comercial. O seu mecanismo de ação consiste na liberação de análogos hormonais intestinais, regulando o nível de glicose. Dessa forma, o GIP inibe a atividade das secreções gástricas, estimula a liberação da insulina, reduz a lipólise e induz a lipogênese, enquanto o GLP-1, por sua vez, é capaz de estimular a liberação de insulina, inibir a secreção de glucagon e reduzir o esvaziamento gástrico promovendo a sensação de saciedade. Estudos apontam que essa classe pode apresentar maior eficácia na redução ponderal e no controle metabólico, mas ainda carece de evidências robustas quanto à segurança e aos efeitos de longo prazo, especialmente em populações não diabéticas (RAIMUNDO, 2024).
Em relação aos efeitos adversos da Tirzepatida, os mais recorrentes estão relacionados à sintomas gastrointestinais como náuseas, vômitos, diarreia, constipação, dispepsia, dores abdominais, falta de apetite, alopecia e eructações. Outrossim, outro efeito colateral que pode ocorrer em menor frequência é o estágio hipoglicêmico, uma condição que necessita de intervenção médica de emergência. Todos os efeitos listados apresentam uma evolução clínica espontânea após o escalonamento de doses e um caráter variável a cada paciente. No entanto, mesmo com a resolução dos sintomas, existe uma problemática no que se refere ao seu uso off label sem o devido acompanhamento e indicação médica o que pode agravar os quadros e gerar sintomas indesejáveis à população em geral (GHUSN, 2024).
Dessa maneira, este medicamento surge para o tratamento da diabetes mellitus como uma droga revolucionária e constantemente vem sendo alvo de estudos que revelam a segurança e os seus potentes efeitos, sobretudo, por agir diretamente na fisiopatologia da doença com melhora dos níveis glicêmicos, adequação do peso, e redução de lesão em órgão-alvo. Nesse sentido, pesquisas comprovam ainda a melhora da taxa de filtração glomerular e redução da prevalência de doença renal crônica, melhor controle da pressão arterial e diminuição da incidência de doenças oftalmológicas. Entretanto, chamam a atenção para alguns efeitos colaterais graves tanto para a população diabética como para a não diabética, contribuindo para o abandono do tratamento principalmente durante a fase de escalonamento da droga durante 8 a 16 semanas (SHI et al., 2023).
Logo, torna-se necessário compreender os riscos e benefícios do uso off-label da semaglutida, bem como comparar sua segurança e eficácia em relação a novas terapias incretinomiméticas, como a tirzepatida. É necessário, nesse âmbito, reconhecer os benefícios das terapias farmacológicas como um forte aliado para a manutenção e redução do peso corporal, além de melhorias significativas em múltiplos fatores de risco cardiometabólico, função física e complicações relacionadas à obesidade. No entanto, surge a premissa de aliar os agonistas dos receptores GLP-1, assim como os agonistas duais dos receptores GLP-1 e GIP, a um plano terapêutico multifatorial com uma abordagem profissional, a fim de evidenciar a melhora nos resultados clínicos esperados e mitigar os efeitos adversos associados ao tratamento. (HAMZA; PAPAMARGARITIS; DAVIES, 2025).
O presente estudo tem como objetivo geral compreender o uso off-label da semaglutida e de novas terapias incretinomiméticas, com a finalidade de analisar suas consequências, riscos e segurança para a população diabética e não diabética. Especificamente, propondo descrever o mecanismo de ação da Semaglutida e da Tirzepatida no organismo, explorando o uso dessas terapias para fins de emagrecimento em indivíduos sem diagnóstico de diabetes mellitus. Além disso, pretende-se identificar as implicações do uso desses medicamentos com fins de emagrecimento e no tratamento da obesidade, avaliando se os benefícios obtidos superam os riscos potenciais. O estudo também tem como propósito comparar a eficácia e a segurança da semaglutida em relação à tirzepatida, considerando seus resultados clínicos e metabólicos. A compreensão crítica dos pontos relacionados é fundamental para orientar uma prática clínica mais segura, individualizada e eficaz, ajudando na prevenção de complicações na qualidade de vida da população.
2. MATERIAL E MÉTODOS
Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, cuja finalidade é reunir informações atualizadas e relevantes condizentes com os objetivos do estudo. Este estudo permitirá identificar e sintetizar informações dos estudos existentes, explorando o mecanismo de ação da Semaglutida em populações não-diabéticas e investigando os efeitos adversos e potenciais riscos à saúde associados ao seu uso indiscriminado. Além de abordar e comparar novas terapias emergentes que têm se popularizado com intuito de atingir o mesmo objetivo: emagrecimento. Este método visa não só verificar se há consenso ou divergências entre os autores quanto aos riscos e benefícios do uso off-label da semaglutida e da tirzepatida, mas também buscar evidências científicas quanto ao uso seguro destes medicamentos. Com isso, será possível fornecer uma base científica que contribua para a educação da população quanto ao uso indiscriminado destes e ressalte a importância do acompanhamento profissional. Além disso, o estudo pretende contribuir com o campo científico ao explorar a segurança e eficácia da semaglutida em uso off-label e das terapias de emagrecimento emergentes. Para isso, foram selecionados artigos científicos nas seguintes bases de dados: PubMED ( National Library of Medicine) e SciELO (Scientific Electronic Library Online). Para seleção dos artigos foram utilizados os descritores em português “semaglutida” OR “Tirzepatida” AND “emagrecimento” AND “efeitos adversos” AND “obesidade”. E os mesmos citados no idioma inglês. Foram excluídos artigos publicados antes do ano de 2021, que não estavam disponíveis na íntegra ou que abordavam o uso dos agonistas de incretinas apenas na população diabética, e os incluídos englobam aqueles publicados entre 2021-2025, de revistas indexadas, disponíveis on-line nos idiomas inglês e/ou português.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 MECANISMOS DE AÇÃO DA SEMAGLUTIDA E TIRZEPATIDA NO ORGANISMO HUMANO
A semaglutida é um análogo sintético do peptídeo-1 semelhante ao glucagon, desenvolvido para mimetizar a ação fisiológica deste hormônio incretínico com maior estabilidade e duração de ação. Ao se ligar seletivamente ao receptor de GLP-1, a semaglutida estimula a secreção de insulina dependente da glicose e inibe a liberação de glucagon, promovendo melhora no equilíbrio glicêmico sem risco significativo de hipoglicemia. O fármaco também retarda o esvaziamento gástrico, reduzindo a velocidade de absorção da glicose pós-prandial e aumentando a sensação de plenitude gástrica. Em nível central, a ativação dos receptores de GLP-1 em núcleos hipotalâmicos e vias mesolímbicas está associada à supressão do apetite e à modulação de comportamentos alimentares, resultando em perda de peso clinicamente relevante. Sua estrutura molecular contém uma modificação com ácido graxo que confere alta afinidade pela albumina, prolongando a meia-vida plasmática e permitindo administração semanal. Assim, a semaglutida atua de forma integrada sobre múltiplos mecanismos metabólicos – pancreáticos, gastrointestinais e neuroendócrinos – que justificam seu papel terapêutico tanto no Diabetes Mellitus tipo 2 quanto na obesidade (FDA, 2025)
Já a tirzepatida é um agonista duplo dos receptores do peptídeo inibidor gástrico e do peptídeo-1 semelhante ao glucagon, representando uma nova classe de agentes incretínicos com ação metabólica sinérgica. Sua atividade dual permite potencializar a secreção de insulina de forma dependente da glicose e reduzir simultaneamente os níveis de glucagon durante estados hiperglicêmicos, contribuindo para um controle glicêmico mais eficiente e seguro. Além disso, a ativação concomitante dos receptores de GIP e GLP-1 atua sobre o sistema nervoso central, principalmente em núcleos hipotalâmicos e áreas de recompensa, promovendo saciedade e diminuindo o apetite. Estudos também demonstram que a tirzepatida exerce efeitos diretos sobre o tecido adiposo, aumentando a oxidação de ácidos graxos e melhorando a sensibilidade periférica à insulina, o que resulta em expressiva redução ponderal. A farmacocinética da molécula é favorecida por modificações estruturais que prolongam sua meia-vida, permitindo administração semanal e sustentação de efeitos metabólicos contínuos (FDA, 2025).
3.2 USO DE TERAPIAS BASEADAS EM AGONISTAS DE INCRETINAS EM PESSOAS NÃO DIABÉTICAS PARA FINS DE EMAGRECIMENTO E SEUS EFEITOS ADVERSOS
O uso da semaglutida se mostra promissor no tratamento da obesidade, porém os efeitos adversos potenciais, especialmente gastrointestinais e metabólicos, nos indivíduos sem perfil diabético e a falta de estudos longitudinais para esse tipo de paciente apontam para a necessidade de uma análise cuidadosa antes de prescrever esse medicamento para indivíduos sem DM2. Sua dosagem inadequada e a longo prazo tem sido objetivo de estudo nos últimos anos, mas já sabe-se de suas implicações adversas que devem ser revisadas (SAGRATZKI et al, 2023).
É válido ressaltar os efeitos adversos mais comuns como: náuseas, vômitos, diarreia e dores abdominais. Esses sintomas estão relacionados ao mecanismo de ação da semaglutida, que retarda o esvaziamento gástrico, aumentando a sensação de saciedade e inibindo o apetite (WILDING et al., 2021). Essa desaceleração no trânsito gastrointestinal causa acúmulo temporário de alimentos no estômago, o que pode levar a desconforto gástrico, náuseas e episódios de vômito, especialmente em doses mais altas, frequentemente utilizadas para intensificar a perda de peso (DAVIES et al., 2021).
Além dos efeitos gastrointestinais, a semaglutida está associada ao desenvolvimento de colelitíase e pancreatite, efeitos adversos mais graves. A formação de cálculos biliares pode ser explicada pela rápida perda de peso induzida pelo medicamento, que altera a composição da bile e favorece a precipitação de cristais de colesterol na vesícula biliar. Enquanto que a pancreatite aguda, por sua vez, ocorre devido ao aumento da atividade enzimática pancreática associada ao agonismo dos receptores de GLP-1, que podem, em certos casos, promover inflamação pancreática, especialmente em pacientes com predisposição genética ou histórico de problemas biliares (SABBÁ et al., 2022; SAGRATZKI et al., 2023).
Pode-se citar também outros efeitos adversos potenciais, os quais incluem uma leve diminuição da pressão arterial diastólica e um risco aumentado de hipoglicemia, especialmente quando a semaglutida é usada em combinação com outros agentes hipoglicemiantes. Nesse contexto, a hipoglicemia ocorre devido à potente ação insulinotrópica da semaglutida, que promove liberação de insulina de forma independente dos níveis de glicose em algumas circunstâncias (GAL et al., 2022).
Sob mesma ótica, dados sintetizados indicam que os eventos adversos associados ao uso de tirzepatida são dominados por manifestações gastrointestinais transitórias, que tendem a ocorrer de forma dependente da dose. Revisões sistemáticas e meta-análises recentes mostraram que náusea, diarreia, vômito e dispepsia são os eventos mais frequentes, com incidência crescente (variando de 39 a 49%) conforme aumento da dose de 5mg para 15mg. Estudos apontam que a maioria desses sintomas ocorreu principalmente durante a fase de escalonamento posológico e diminuiu com a continuação do tratamento, o que sugere uma fase de adaptação em muitos pacientes. Essa taxa elevada de efeitos gastrointestinais também foi a principal causa de interrupção do tratamento em subgrupos que receberam as doses mais altas (CAI et al., 2024; ZILE et al., 2025).
Além dos sinais gastrointestinais, os achados compilados apontam para um risco baixo a moderado de hipoglicemia sintomática quando a tirzepatida é usada em combinação com secretagogos de insulina ou insulina exógena; por outro lado, em monoterapia (ou quando comparada a placebo e a alguns GLP-1RAs) episódios graves são incomuns (FIGURA 1). Eventos relacionados à vesícula biliar (colelitíase/colecistite) e pancreatite ocorreram em frequência muito baixa (em menos de 0,5% dos participantes) nas séries clínicas avaliadas, sem evidência consistente de aumento substancial do risco absoluto, mas merecem vigilância clínica, especialmente em pacientes com história prévia de doença biliar ou pancreática. (CAI et al., 2024; BOSCH et al., 2023).

Figura 01. Efeitos gastrointestinais semelhantes como efeito adverso ao uso da Tirzepatida e Semaglutida. Fonte: autores e adaptado de Wilding et al (2021); Davies et al (2021); Sabbá et al (2022); Sagratzky et al (2023); Cai et al (2024) e Zile et al (2025).
3.3 EFEITOS POSITIVOS DAS TERAPIAS INCRETINOMIMÉTICAS NO CORPO HUMANO
Em contraponto, pode-se afirmar a potencial ação nefroprotetora como um dos principais efeitos positivos das terapias incretinomiméticas nos indivíduos. No entanto, grande parte das evidências disponíveis ainda se baseia em estudos realizados com modelos animais ou in vitro, o que limita a generalização dos resultados e não traduz as mesmas condições fisiológicas em humanos. Desse modo, o GLP-1r foi identificado em diferentes partes da unidade tubuloglomerular, assim, os agonistas parecem induzir um aumento na excreção de sódio e no volume urinário por meio de ação direta no túbulo proximal. Outro fator, é o papel vascular, através da supressão da endotelina-1, um potente vasoconstritor, melhorando o fluxo renal. Outrossim, temos a redução da expressão dos receptores AT1, favorecendo a função dos AT2 nos capilares renais e contribuindo com uma menor atividade de fibrose induzida pela angiotensina 2 (FONTALVO et al, 2024).
De maneira convergente, estudos mais recentes e análises exploratórias da Tirzepatida têm mostrado reduções favoráveis em marcadores de risco (por exemplo, albuminúria e inclinação da taxa de perda de TFG em alguns ensaios), mas também relatam um fenômeno hemodinâmico inicial – uma “queda” transitória da taxa de filtração glomerular estimada (TGFe) em alguns pacientes – que lembra o efeito visto com outras classes cardiorrenoprotetoras. Esse comportamento exige atenção clínica: embora a tendência geral parece benéfica a médio prazo (menor progressão para macroalbuminúria e desaceleração do declínio da TGFe em certas populações), recomenda-se monitorização da função renal no início do tratamento e durante os ajustes posológicos, especialmente em pacientes com doença renal pré-existente ou uso concomitante de fármacos que alteram a hemodinâmica renal. (BOSCH et al., 2023).
Assim, além do impacto sobre o peso corporal, o uso prolongado da tirzepatida mostrou melhora consistente em parâmetros metabólicos, incluindo controle glicêmico, sensibilidade à insulina, redução da pressão arterial e melhora do perfil lipídico. Esses achados indicam que a perda de peso sustentada está acompanhada de benefícios metabólicos que podem reduzir o risco de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2 (JASTRZEBSKA et al., 2023).
3.3.1 UMA ANÁLISE DOS MÉTODOS SURPASS E SURMOUNT ACERCA DA TIRZEPATIDA
Ao avaliar os estudos relevantes acerca da Tirzepatida evidenciou-se que diante do seu efeito duplo incretinomimético, métodos de estudos denominados de SURPASS (que objetivam avaliar a segurança e eficácia da Tirzepatida em pacientes diabéticos tipo 2) iniciados em 2020 comprovaram seu efeito seguro no tratamento da diabetes, tendo como resultado uma redução de até 10% do peso corporal e 2% na hemoglobina glicosilada em ação dose dependente (FORZANO, 2022).
Ainda, surgiu o programa SURMOUNT que constitui um conjunto de ensaios clínicos multicêntricos que avaliam o papel da tirzepatida no controle do peso corporal e nos desfechos metabólicos associados à obesidade em pacientes com ou sem DM2. Através deste, evidenciou-se essa molécula inovadora que atua de forma agonista dupla nos receptores de GIP e GLP-1, hormônios intestinais relacionados à regulação da insulina e do apetite. Essa dupla ação potencializa a liberação de insulina dependente da glicose, reduz o esvaziamento gástrico e promove maior sensação de saciedade, mecanismos que explicam sua expressiva eficácia na perda ponderal (LILJESTRAND et al., 2023).
Nos estudos do programa SURMOUNT, o foco principal é avaliar não apenas a redução inicial de peso, mas também a capacidade de manter os resultados a longo prazo, aspecto crítico no manejo da obesidade. Em geral, terapias baseadas apenas em dieta e atividade física tendem a apresentar recidiva de peso dentro de um a dois anos, o que reforça a importância de abordagens farmacológicas sustentáveis (WILDING et al., 2023).
O ensaio SURMOUNT-4, conduzido com adultos com obesidade ou sobrepeso, analisou a eficácia da manutenção do tratamento com tirzepatida em comparação à sua suspensão. Após um período inicial de 36 semanas de uso aberto do medicamento, observou-se uma redução média de 20,9% do peso corporal em relação ao valor basal. Em seguida, os participantes foram randomizados para continuar o uso da tirzepatida ou receber placebo por mais 52 semanas. Os resultados demonstraram que o grupo que manteve o tratamento teve redução adicional média de 5,5%, enquanto o grupo placebo apresentou reversão de aproximadamente 14% do peso perdido. A diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa, evidenciando que a continuidade da terapia é fundamental para evitar o reganho de peso (JASTRZEBSKA et al., 2023).
No SURMOUNT-3, o delineamento buscou avaliar a eficácia da tirzepatida em indivíduos que já haviam alcançado perda de peso inicial por meio de intervenção intensiva de estilo de vida. Durante as 72 semanas subsequentes, o grupo tratado com a partida obteve perda média adicional de 18,4%, enquanto o grupo placebo apresentou ganho médio de 2,5%. Mais de 87% dos participantes tratados alcançaram perda de peso adicional significativa, em comparação com 16% dos que receberam placebo. Ademais, cerca de 94% dos indivíduos sob tirzepatida conseguiram preservar ao menos 80% da perda de peso inicial, contrastando com 43% no grupo controle (WILDING et al., 2023). Esses resultados reforçam que a tirzepatida não apenas potencializa os efeitos das mudanças de estilo de vida, mas também mantém o peso reduzido ao longo do tempo, prevenindo o efeito sanfona característico de outras abordagens.
A partir das evidências reunidas nos ensaios SURMOUNT, é possível observar que a tirzepatida apresenta eficácia clínica superior às terapias farmacológicas previamente disponíveis, com reduções médias de peso superiores a 20% em um ano. Esses dados fortalecem a visão da obesidade como uma condição crônica e recidivante, que demanda manejo contínuo e integrado entre modificações de estilo de vida e terapias medicamentosas (LILJESTRAND et al., 2023).
Entretanto, é necessário cautela na interpretação dos resultados. Em alguns estudos, apenas os participantes que toleraram as doses mais elevadas foram incluídos na fase randomizada, o que pode representar uma amostra mais sensível ao tratamento. Além disso, a ausência de titulação de dose após a randomização limita a aplicação prática dos resultados a populações heterogêneas (JASTRZEBSKA et al., 2023). Ainda assim, a magnitude dos efeitos observados e o perfil de segurança favorável sugerem que a tirzepatida se configura como uma opção terapêutica promissora para o tratamento sustentado da obesidade.
3.4 O QUE PONDERAR FRENTE ÀS TERAPIAS INCRETINOMIMÉTICAS
Em resumo, a eficácia da semaglutida e da tirzepatida para perda de peso em pessoas obesas não diabéticas deve ser ponderada em relação aos riscos envolvidos. Esses efeitos adversos, somados a falta de dados robustos sobre os impactos de longo prazo em indivíduos não diabéticos, enfatizam a necessidade de acompanhamento médico rigoroso e farmacêutico, que podem auxiliar na conscientização dos pacientes quanto aos riscos e benefícios, e o mecanismos fisiológico subjacente ao uso da semaglutida para fins de emagrecimento em contextos fora do indicado (SAGRATZKI et al., 2023; TRABULSI et al, 2023).
Por fim, julgamentos clínicos práticos emergem diante destas análises 1) adotar escalonamento gradual da dose e titulação individualizada para conter efeitos gastrointestinais; 2) reforçar educação ao paciente sobre sintomas esperados e medidas de autocuidado; 3) revisar concomitância medicamentosa (para reduzir risco de hipoglicemia, quando aplicável); e 4) acompanhar parâmetros laboratoriais relevantes (glicemia capilar em pacientes tratados com insulina/secretagogos, função renal e sinais de doença biliar ou pancreática). Essa abordagem equilibrada permite aproveitar o potencial terapêutico dos agonistas de incretinas enquanto minimiza riscos previsíveis e facilita intervenções precoces caso ocorram eventos adversos. (CAI et al., 2024; ZILE et al., 2025; BOSCH et al., 2023).
3.5 COMPARAÇÃO ENTRE A SEMAGLUTIDA E A TIRZEPATIDA, QUANTO EFICÁCIA E SEGURANÇA
Dado o exposto, e devido a consolidação dessas medições na sociedade como abordagem farmacológica eficaz no controle da obesidade, emergiu a necessidade de realizar estudos comparativos entre elas (QUADRO 1). Enquanto a semaglutida atua exclusivamente sobre o receptor de GLP-1, a tirzepatida apresenta dupla ação nos receptores de GLP-1 e GIP, o que potencializa sua ação sobre o metabolismo energético e a regulação do apetite (O’KEEFE et al., 2025).
Em um estudo multicêntrico envolvendo mais de 41 mil indivíduos com sobrepeso ou obesidade, a tirzepatida demonstrou superioridade significativa em relação à semaglutida na redução do peso corporal, utilizando dados clínicos provenientes de registros eletrônicos de saúde dos Estados Unidos. Em sequência ao pareamento por escore de propensão, 18.386 pacientes foram analisados de forma equilibrada entre os grupos. Após 12 meses de acompanhamento, os pacientes tratados com tirzepatida apresentaram uma redução média de peso aproximadamente 6,9% maior do que aqueles tratados com semaglutida, além de uma maior proporção de indivíduos atingindo metas de perda de 5%, 10% e 15% do peso inicial. Além disso, a análise temporal mostrou que os efeitos da tirzepatida foram mais expressivos em todos os períodos avaliados: aos três, seis e doze meses, as reduções médias de peso foram consistentemente superiores às da semaglutida. Esses achados foram consistentes tanto em pacientes com diabetes tipo 2 quanto naqueles sem a doença, reforçando a eficácia metabólica ampliada do duplo agonismo GLP-1/GIP (RODRIGUEZ et al. , 2024)
Nesse ínterim, os resultados dos estudos da Tirzepatida evidenciam uma potência relativamente maior em comparação com a semaglutida, sobretudo, em reduzir a glicemia, melhorar a resistência insulínica e reduzir o peso corporal, atrelado, ainda, à melhora de doenças crônicas como dislipidemia e hipertensão (RAIMUNDO, 2024).
Em termos de segurança, ambos os medicamentos exibiram perfis semelhantes, com predomínio de eventos gastrointestinais leves a moderados, como náuseas, diarreia e constipação. A taxa de descontinuação terapêutica foi relativamente alta em ambas as coortes, cerca de 54%, o que reforça a importância de estratégias de adesão e acompanhamento clínico contínuo durante o uso prolongado desses fármacos. Ainda assim, o estudo destacou que as diferenças em eventos adversos graves foram mínimas e sem significância clínica relevante, o que reforça o perfil de segurança favorável dessas terapias (RODRIGUEZ et al., 2024).
Do ponto de vista cardiometabólico, os dois estudos convergem ao demonstrar benefícios expressivos na redução de risco cardiovascular e melhora de parâmetros metabólicos, como perfil lipídico, resistência à insulina e marcadores inflamatórios sistêmicos. Entretanto, a tirzepatida se destaca por proporcionar efeitos mais amplos sobre o metabolismo energético e pelo potencial de prolongar a expectativa de vida em indivíduos com obesidade e doenças associadas (O’KEEFE et al., 2025). Tais evidências corroboram dados prévios dos programas clínicos SURMOUNT e SURPASS, que consolidaram a tirzepatida como uma alternativa de maior eficácia na perda de peso e no controle glicêmico, sem comprometer a segurança cardiovascular.
Complementarmente, um novo paradigma foi introduzido ao classificar esses agentes como “anti-consumption agents”, isto é, fármacos que reduzem padrões de consumo compulsivo, não apenas alimentar, mas também de substâncias como álcool, nicotina e drogas recreativas. Os autores discutem mecanismos neurobiológicos que sustentam esse efeito, evidenciando que a modulação dos receptores GLP-1 e GIP impacta os circuitos de recompensa mesolímbicos – especialmente o núcleo accumbens e a área tegmental ventral – reduzindo a motivação por comportamentos de consumo excessivo. Essa observação amplia o potencial terapêutico dessas moléculas, aproximando-as de abordagens voltadas também à saúde mental e à prevenção de dependências químicas (O’KEEFE et al., 2025).
Quadro 1. Comparação entre semaglutida e Tirzepatida: aspectos fármaco cinéticos, farmacodinâmicos e clínicos
| Semaglutida | Tirzepatida | |
| Mecanismo de ação | estímulo à secreção de insulina e inibe glucagon de forma dependente de glicose, além de retardar o esvaziamento gástrico e aumentar saciedade | atua de forma sinérgica nos receptores GLP-1 e GIP, aumentando a liberação de insulina e promove maior redução glicêmica e perda ponderal |
| Meia-vida | aproximadamente 7 dias, permitindo administração semanal | aproximadamente 5 dias, também com administração semanal |
| Biodisponibilidade | subcutânea: cerca de 89%; oral: entre 0,4-1% (formulações com SNAC) | subcutânea: alta biodisponibilidade (aproximadamente 80%), independente do local de aplicação |
| Ligação a proteínas plasmáticas | elevada (>99%), principalmente a albumina | elevada, favorecida por modificação estrutural com ácido graxo (prolonga a ação) |
| Metabolismo e eliminação | degradação proteolítica e β-oxidação excreção por urina e fezes. | metabolismo por clivagem proteolítica e β oxidação; excreção por urina e fezes. |
| Efeito sobre controle glicêmico | reduz HbA1c em média de 1,2 a 1,9%, melhora glicemia de jejum e pós prandial | reduz HbA1c de 2 a 2,4%, mostrando superioridade em ensaios diretos |
| Efeitos sobre peso corporal | redução em média de 10 a 15% em obesos não diabéticos | reduz média de 15-22% em ensaios clínicos com DM2 e obesos |
| Efeitos adversos | náuseas, vômitos e diarréias leves, baixo risco de hipoglicemia isolada | náuseas, vômitos e diarreia mais intensa em doses elevadas |
| Efeitos adicionais | benefícios comprovados em desfechos cardiovasculares em DM2, melhora leve em parâmetros renais | dados emergentes sugerem benefícios cardiovasculares e renais semelhantes ou superiores, ainda em avaliação |
| Forma de administração | subcutânea (Ozempic, Wegovy) ou oral (Rybelsus) | subcutânea (Mounjaro, Zepbound) |
| Indicações aprovadas (2025) | diabetes tipo 2 e obesidade (IMC ≥ 30 kg/m², ou ≥ 27 com comorbidades | diabetes tipo 2 e obesidade (IMC ≥ 30 kg/m², ou ≥ 27 com comorbidades |
| Situações em estudo | uso para esteato-hepatite não alcoólica e doença cardiovascular sem diabetes | uso em síndrome metabólica, esteato hepatite não alcoólica e IC-FER em investigação |
Por fim, os autores convergem na discussão de aspectos éticos e de equidade de acesso. A despeito dos avanços farmacológicos, os altos custos e a disponibilidade limitada desses medicamentos representam barreiras significativas, especialmente em países em desenvolvimento. Há também um alerta para o aumento da comercialização irregular e manipulação não supervisionada dessas substâncias, o que eleva riscos à segurança e à eficácia terapêutica. Assim, a incorporação desses fármacos no tratamento dos pacientes deve considerar não apenas sua superioridade clínica, mas também sua viabilidade econômica e a necessidade de uso racional e seguro.
4. CONCLUSÃO
Em síntese, é inegável salientar as significativas melhorias terapêuticas que a semaglutida e a tirzepatida trouxeram para o tratamento da obesidade, bem como para a remissão e diminuição de doenças crônicas no mundo. Ainda assim, torna-se necessário rever os potenciais efeitos adversos decorrentes do uso off-label desses medicamentos e seus potenciais riscos relacionados à saúde, que podem ser minimizados com o devido acompanhamento multiprofissional.
Neste contexto, é fundamental reconhecer que todos os medicamentos estão sujeitos a causar efeitos adversos, sobretudo quando utilizados de forma indiscriminada pela população. A realidade não é diferente para as terapias farmacológicas voltadas para a redução do peso corporal, sendo imprescindível um acompanhamento médico rigoroso para garantir a segurança e a eficácia terapêutica.
Nesse ínterim, a utilização e a prescrição adequadas desses medicamentos convém de uma integração contínua entre médico e paciente, de forma a integrar suas necessidades de maneira individualizada. Essa abordagem deve atender às demandas nutricionais, metabólicas e cardiorrenais do paciente, por meio da avaliação de exames laboratoriais e de imagem, com o intuito de fomentar a produção de um tratamento focado no indivíduo e não em padrões estéticos e sociais advindos das sociedades capitalistas atuais. Dessa forma, torna-se indispensável a esquematização da escolha do fármaco mais apropriado às condições clínicas do paciente, bem como a titulação adequada da dose, o monitoramento de efeitos adversos e a integração com outras abordagens terapêuticas, como mudanças no estilo de vida e suporte psicológico.
Por conseguinte, estudos responsáveis por ministrar os riscos e benefícios das novas drogas no mercado, como o SURMOUNT e SURPASS, reiteram a tirzepartida como um aliado não apenas na perda de peso expressiva, mas também na manutenção dessa perda a longo prazo, na melhora dos parâmetros cardio renais, metabólicos e lipídicos, propondo uma diminuição de eventos cardiovasculares a médio e a longo prazo. Esses resultados representam um avanço significativo na terapêutica da obesidade, consolidando a tirzepatida como um agente eficaz e seguro quando utilizada de forma contínua e supervisionada.
Ainda é válido ressaltar que atualmente os eventos cardiovasculares constituem a principal causa de morte no mundo, configurando-se como um grave problema de saúde pública. A redução dos fatores de risco associados a essas condições – como a obesidade, o diabetes e a hipertensão arterial – contribui significativamente para a diminuição da mortalidade global. Nesse cenário, destaca-se o papel fundamental da semaglutida e, sobretudo, das novas terapias incretinomiméticas, como a tirzepatida, na promoção de melhorias clínicas relevantes. No entanto, o uso supervisionado e especializado é inegociável, apenas neste cenário, essas terapias representam um avanço promissor na qualidade de vida dos pacientes e no enfrentamento das comorbidades associadas à obesidade.
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1Graduando em Medicina pela Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itabuna.
2Médico da Família e Comunidade, pós graduado em endocrinologia – Docente do curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itabuna.
3Doutora em Imunologia– Docente do curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itabuna.
