USE OF ANABOLIC STEROIDS AND RESISTANCE TRAINING: RISKS AND PERFORMANCE IN PHYSICAL EDUCATION STUDENTS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510311317
Thalisson de Brito Batista
Walisson Fernandes dos Reis
Thales Bruno Oliveira dos Santos
Carlos Henrique da Costa Ferreira
Rodrigo Benevides Ceriani
Esequiel Costa dos Santos Guedes
Wellington Cavalcanti de Araújo
Jeane Odete Freire dos Santos Cavalcanti
Karelline Izaltemberg Vasconcelos Rosenstock
Luciano de Oliveira
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo analisar o impacto do uso de anabolizantes androgênicos-anabólicos (AAS) no desempenho físico e na saúde, com ênfase em estudantes de Educação Física durante o treinamento resistido. A investigação combinou uma pesquisa de campo, realizada através de questionário online, e uma análise bibliográfica crítica. Os dados indicam que a maioria dos usuários é do sexo masculino, com níveis de atividade física moderada a intensa, sendo o ganho de massa muscular e a melhora no desempenho os principais motivos do uso. Embora os AAS proporcionem ganhos rápidos, estão associados a riscos significativos, como alterações hormonais, comportamentais e problemas cardiovasculares. Observou-se ainda a ausência de acompanhamento médico em muitos casos e a falta de conhecimento prévio sobre os riscos. A pesquisa destaca também uma lacuna na formação acadêmica quanto à abordagem crítica sobre o uso de substâncias ergogênicas, o que pode comprometer a atuação ética dos futuros profissionais. São propostas medidas de educação permanente, promoção da saúde e estratégias preventivas, respeitando os princípios éticos e legais da profissão.
Palavras-chave: Anabolizantes. Educação Física. Treinamento Resistido.
ABSTRACT
This study aims to analyze the impact of the use of anabolic-androgenic anabolic steroids (AAS) on physical performance and health, with an emphasis on Physical Education students during resistance training. The research combined a field survey, conducted through an online questionnaire, and a critical literature review. The data indicate that most users are male, with moderate to intense levels of physical activity, with muscle mass gain and improved performance being the main reasons for use. Although AAS provide rapid gains, they are associated with significant risks, such as hormonal and behavioral changes and cardiovascular problems. The lack of medical monitoring was also observed in many cases and the lack of prior knowledge about the risks. The research also highlights a gap in academic training regarding the critical approach to the use of ergogenic substances, which may compromise the ethical performance of future professionals. Measures for continuing education, health promotion and preventive strategies are proposed, respecting the ethical and legal principles of the profession.
Keywords: Anabolic. Physical Education. Resistance Training.
1. INTRODUÇÃO
Com o crescente culto ao corpo e à estética, o uso de anabolizantes androgênicos- anabólicos (AAA) têm se tornado uma prática cada vez mais comum, principalmente entre indivíduos fisicamente ativos e praticantes de musculação. Esses compostos sintéticos, derivados da testosterona, são amplamente utilizados para promover o aumento da massa muscular, da força e do desempenho físico, sendo especialmente populares no contexto do treinamento resistido. No entanto, o uso indiscriminado dessas substâncias, sem prescrição ou acompanhamento médico, pode acarretar sérios efeitos colaterais físicos, psicológicos e sociais, como disfunções hormonais, problemas cardiovasculares, alterações comportamentais e até mesmo dependência química (Matsumoto, 2019; Pompeu et al, 2018).
O início do uso de anabolizantes frequentemente ocorre na adolescência ou no início da vida adulta — período em que muitos estudantes de Educação Física estão em fase de formação acadêmica e prática. Fatores como pressão estética, competitividade esportiva e desinformação contribuem significativamente para esse cenário. Estudos recentes apontam que uma parcela considerável da população jovem universitária já fez uso ou considera fazer uso dessas substâncias, muitas vezes influenciada por amigos, redes sociais ou orientações pouco confiáveis (Melo et al, 2019). Em resposta a essa crescente preocupação, entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência Mundial Antidoping (WADA) vêm reforçando alertas sobre os riscos do uso abusivo dos esteroides anabolizantes, destacando a importância de políticas de conscientização e educação (WADA, 2023).
Diante disso, esta pesquisa teve como objetivo analisar os efeitos do uso de esteroides androgênicos anabolizantes ( EAA ) sobre o ganho de massa muscular, o desempenho físico de intensidade e os possíveis impactos nos níveis de humor dos usuários.
2. METODOLOGIA
O presente trabalho trata-se de uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa e quantitativa. A pesquisa descritiva é uma categoria de pesquisa científica cujo objetivo principal é fornecer uma descrição detalhada das características, fenômenos ou experiências de uma determinada população estudada. Essa abordagem pode incluir a identificação de possíveis relações entre variáveis. Já uma abordagem qualitativa se concentra nas propriedades subjetivas do objeto de estudo, examinando as particularidades e experiências individuais associadas ao fenômeno em questão. Por outro lado, a abordagem quantitativa utiliza dados numéricos e estatísticos para analisar e compreender fenômenos, se concentrando na quantificação de informações, como resultados de questionários com perguntas fechadas, para identificar padrões (Gil, 2010). O estudo foi elaborado a partir dos registros obtidos por meio da aplicação de um questionário online estruturado com questões fechadas junto a trinta e oito (38) estudantes do curso de Educação Física que relataram ter utilizado anabolizantes androgênicos- anabólicos durante o treinamento resistido e aceitaram participar do estudo de livre espontânea vontade.
Os dados coletados foram organizados e submetidos a um processo analítico, transformando-os em informações significativas por meio de uma abordagem quanti qualitativa, utilizando-se a estatística descritiva para o tratamento das informações objetivas e a técnica de análise de conteúdo para a interpretação dos dados subjetivos, conforme proposta por Bardin (2016), e em seguida foi usado o teste estatístico qui- quadrado para analisar a associação entre os dados coletados . Em seguida, uma análise teórica foi conduzida utilizando referências científicas pertinentes ao tema, permitindo observações críticas e comparativas com base na literatura, discutindo aspectos como definição, efeitos fisiológicos, riscos à saúde e as responsabilidades éticas do profissional de Educação Física diante do uso de anabolizantes.
A presente pesquisa seguiu todos os princípios éticos exigidos em estudos científicos envolvendo seres humanos, incluindo a participação voluntária, a garantia de privacidade dos participantes e a confidencialidade das informações obtidas, em conformidade com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Antes da coleta de dados, o projeto foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa da UNIESP para análise, sendo aprovado sob o CAAE nº 87005425.0.0000.5184, com o Parecer Consubstanciado do CEP n° 7.441.134/2025.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A pesquisa de campo foi realizada com trinta e oito (38) indivíduos que praticam atividades físicas revelou aspectos importantes sobre o uso de anabolizantes androgênicos-anabólicos. A Tabela 1 apresenta os dados relacionados à caracterização dos participantes do estudo.
Tabela 1 – Caracterização dos participantes da pesquisa (n = 38)

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Os dados da Tabela 1 indicam que a maior parte dos respondentes são homens (68,42%), com faixa etária entre 26 e 40 anos observando cada uma das faixas etárias prevalentes (34,21% cada), o que reforça a ideia de que o uso dessas substâncias está fortemente associado a um público jovem-adulto, geralmente mais preocupado com estética e desempenho físico. A prática de atividade física intensa ou moderada também foi comum entre os usuários, o que sugere uma ligação direta entre o uso de anabolizantes e o desejo de potencializar resultados obtidos em academias ou esportes. A maioria dos participantes investigados não recebeu acompanhamento médico (57,89%) e considerou ter informações prévias suficientes (71,05%) sobre o uso de anabolizantes.
A análise dos dados evidencia padrões que merecem atenção, sobretudo no que diz respeito ao perfil e comportamento dos usuários de anabolizantes. A predominância masculina e a concentração entre adultos jovens sugerem não apenas uma preocupação estética, mas também uma possível influência de padrões socioculturais que valorizam corpos hipertrofiados como sinônimo de sucesso e atratividade. A prática intensa ou moderada de atividade física, associada ao consumo de substâncias anabolizantes, revela uma tentativa de acelerar ou maximizar resultados, o que pode indicar uma pressão por performance que ultrapassa os limites saudáveis da prática esportiva.
A ausência de acompanhamento médico em mais da metade dos casos (57,89%) expõe esses indivíduos a riscos sérios, uma vez que o uso desassistido compromete a detecção precoce de efeitos colaterais. Ademais, o fato de 71,05% dos participantes considerarem possuir informações suficientes denota uma falsa sensação de segurança, muitas vezes baseada em fontes não científicas, como redes sociais, influenciadores ou relatos informais. Esses dados reforçam a urgência de ações educativas voltadas não apenas para o esclarecimento sobre os riscos, mas também para a desconstrução de ideais corporais irreais que contribuem para o uso indiscriminado dessas substâncias.
Dentre os diversos aspectos investigados nesta pesquisa, buscou-se compreender os principais motivos que levam os indivíduos ao uso de anabolizantes androgênicos- anabólicos. Essa análise é essencial para identificar os fatores que influenciam essa prática, permitindo uma abordagem mais direcionada em ações de prevenção e educação em saúde. A seguir, apresenta-se a Figura 1 com a distribuição dos motivos mencionados pelos participantes.
Figura 1 – Distribuição dos motivos relatados para o uso de anabolizantes androgênicos- anabólicos

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
O principal motivo relatado para o uso foi o ganho de massa muscular, seguido por melhorias na performance esportiva, evidenciando que o apelo estético e o rendimento continuam sendo fatores decisivos nessa escolha. Esses achados evidenciam que tanto o apelo estético quanto o rendimento físico continuam sendo fatores decisivos na escolha pelo uso dessas substâncias, refletindo padrões culturais e expectativas relacionadas ao corpo e ao desempenho.
Quadro 1 – TESTE QUI-QUADRADO ( Teste de associação entre intensidade de treino e o uso de EAA )
| Intenso | Não Intenso | Total | |
| Usa EAA | 19 | 15 | 34 |
| Não usa EAA | 0 | 4 | 4 |
| Total | 19 | 19 | 38 |
Qui-quadrado (X²): 4,471
Pvalor= 0.0345
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
O dado de que a maioria pratica atividades físicas em nível moderado ou intenso na Tabela 1 indica uma relação direta entre o uso de anabolizantes e a busca por resultados rápidos e visíveis, como o aumento da massa muscular observado na Figura 1. Essa motivação foi confirmada pelos respondentes, sendo o ganho muscular o principal objetivo relatado, seguido pela melhora no desempenho esportivo. Esses resultados dialogam com o que autores como Santos e Silva (2021) destacam: o culto ao corpo idealizado e o apelo à performance têm impulsionado práticas arriscadas mesmo entre amadores.
Com o objetivo de aprofundar a compreensão sobre os comportamentos, percepções e impactos relacionados ao uso de anabolizantes androgênicos-anabólicos, foram incluídas no questionário diversas questões sobre informação prévia, acompanhamento médico, efeitos percebidos e histórico de uso. A seguir, apresenta-se a Figura 2 com a distribuição das respostas dos participantes a essas questões, que fornecem uma visão abrangente sobre os riscos percebidos e o contexto do uso dessas substâncias.
Figura 2 – Respostas dos participantes sobre informações, efeitos e acompanhamento no uso de anabolizantes

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
A análise da Figura 2 revela aspectos críticos relacionados ao uso de anabolizantes androgênicos-anabólicos pelos participantes da pesquisa. Observa-se que, embora a maioria dos usuários (27) tenha afirmado possuir informações prévias sobre os riscos associados ao uso dessas substâncias, um número expressivo (37) relatou ter desenvolvido complicações de saúde decorrentes do consumo. Adicionalmente, um contingente significativo (22) declarou não ter realizado acompanhamento médico durante o uso, evidenciando a vulnerabilidade dos usuários frente aos possíveis efeitos adversos.
Mudanças de humor e comportamento foram identificadas por 23 respondentes, apontando para impactos que transcendem a dimensão física e alcançam a esfera emocional. Ressalta-se também que 14 participantes relataram ter sofrido lesões, enquanto 35 notaram alterações corporais significativas. Tais achados indicam que, apesar da existência de informação, ela não é suficiente para desencorajar práticas de risco, sugerindo a necessidade de estratégias de educação em saúde mais integradas, que considerem não apenas o acesso à informação, mas também os fatores sociais, culturais e psicológicos que influenciam o comportamento dos usuários.
Em relação aos efeitos subjetivos, um número relevante de participantes relatou alterações de humor, sendo a ansiedade o sintoma mais citado, o que corrobora com estudos que associam o uso de anabolizantes a distúrbios emocionais (Santos; Silva, 2021). Por outro lado, a percepção de mudanças físicas foi amplamente relatada, especialmente no que se refere ao aumento de massa muscular e alterações dermatológicas, evidenciando que os resultados visíveis continuam sendo um dos principais motivadores para o uso. Por fim, o dado de que muitos participantes já fizeram uso de anabolizantes confirma a prevalência significativa dessa prática no grupo estudado, indicando a urgência de estratégias educativas mais efetivas e abrangentes.
QUADRO 2 – Associação entre uso de EAA e mudança de humor
| Mudou humor | Não mudou humor | Total | |
| Usa EAA | 21 | 13 | 34 |
| Não usa EAA | 2 | 2 | 4 |
| Total | 23 | 15 | 38 |
Qui-quadrado (X²): 0,207
Valor de p: 0,6489
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Outra questão abordada pela pesquisa foi acerca das mudanças percebidas pelos participantes após o uso de anabolizantes. As respostas estão representadas na Figura 3.
Figura 3 – Respostas dos participantes acerca da percepção de mudanças após o uso de anabolizantes.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
A análise dos dados apresentados na Figura 3 revelou que os participantes perceberam diversas mudanças após o uso de anabolizantes androgênicos-anabólicos, sendo as alterações corporais visíveis como o ganho de massa muscular as mais frequentemente relatadas. O aumento da massa muscular e a redução do percentual de gordura corporal foram apontados como os efeitos mais desejados e atingidos, refletindo o forte apelo estético que impulsiona o consumo dessas substâncias.
QUADRO 3 – Associação entre uso de EAA e ganho de massa muscular (MM)
| Ganho de MM | Não Ganho de MM | Total | |
| Usa EAA | 28 | 8 | 34 |
| Não usa EAA | 0 | 4 | 4 |
| Total | 28 | 12 | 38 |
Qui-quadrado (X²): 9,686
Valor de p: 0,0019
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Além das mudanças físicas, alterações comportamentais e emocionais também foram relatadas, ainda que em menor proporção, como mostrado no quadro 2 que não houve uma associação estatisticamente significativa, para essa amostra, entre o uso de EAA e alterações de humor. A ansiedade foi o sintoma mais citado entre as alterações emocionais, corroborando estudos que associam o uso de anabolizantes a transtornos de humor, como irritabilidade, agressividade, labilidade emocional e sintomas ansiosos. Esses efeitos, embora reconhecidos, muitas vezes são subestimados pelos usuários, o que pode dificultar a identificação precoce de quadros psiquiátricos associados ao uso dessas substâncias.
Entretanto, os efeitos psicológicos também merecem destaque. A pesquisa de campo realizada para este trabalho identificou que, entre os participantes que relataram alterações após o uso de anabolizantes, o efeito mais mencionado foi o aumento da agressividade. Esse resultado é consistente com a literatura científica, que reconhece o desenvolvimento de comportamentos agressivos, impulsivos e até violentos entre usuários de EAA — um fenômeno conhecido como roid rage (Souza, 2018).
A agressividade induzida pelos anabolizantes pode comprometer os relacionamentos interpessoais e afetar negativamente o convívio social, familiar e profissional dos usuários. Ferreira e Andrade (2020) alertam que esses comportamentos muitas vezes não são prontamente reconhecidos pelo próprio indivíduo, dificultando intervenções terapêuticas e o abandono do uso.
Além disso, Marques et al. (2022) destacam que a interrupção abrupta do uso de EAA pode desencadear sintomas de abstinência, como irritabilidade, depressão, ansiedade e perda da massa muscular adquirida, o que favorece a reincidência do consumo e estabelece um ciclo de dependência psicológica.
Outro ponto relevante é a percepção, por parte de alguns participantes, de alterações dermatológicas, como o surgimento de acne, que também são efeitos colaterais comuns em usuários de anabolizantes devido às mudanças hormonais induzidas. Apesar dessas alterações serem visíveis e, em alguns casos, incômodas, elas parecem ser minimizadas frente aos benefícios estéticos percebidos. Dessa forma, é possível afirmar que os efeitos dos anabolizantes extrapolam os prejuízos físicos, afetando significativamente a saúde mental e o comportamento dos indivíduos. Torna-se urgente o fortalecimento de ações educativas e preventivas que esclareçam a população, sobretudo jovens frequentadores de academias, sobre os riscos reais e frequentemente subestimados do uso dessas substâncias.
Os participantes da pesquisa também foram questionados sobre onde obtiveram informações sobre o uso de anabolizantes, foi questionado quais fontes eles utilizaram antes ou durante o uso dessas substâncias, conforme observado na Figura 4.
Figura 4 – Respostas dos participantes sobre as fontes de informação sobre anabolizantes.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
A decisão pelo uso de esteroides anabolizantes androgênicos (EAA) está diretamente relacionada às fontes de informação às quais os usuários têm acesso. Os dados obtidos na pesquisa de campo indicaram que a maioria dos participantes relatou ter se informado sobre o uso de anabolizantes por meio de amigos, internet e respostas genéricas como “outras”. Em menor proporção, alguns usuários afirmaram ter recorrido a profissionais da saúde, sendo esta, no entanto, a fonte considerada mais confiável.
De acordo com Ferreira e Andrade (2020), grande parte dos usuários inicia o uso de EAA com base em informações provenientes de ambientes informais, como academias, redes sociais, fóruns online e grupos de amigos, onde o conhecimento é geralmente superficial e carente de embasamento científico. A internet, em especial, tem se consolidado como uma das principais ferramentas de disseminação de conteúdos relacionados ao uso de anabolizantes, porém, nem sempre oferece informações confiáveis ou seguras (Moraes et al., 2021).
Marques et al. (2022) destacam que essas fontes informais, além de acessíveis, frequentemente apresentam os anabolizantes de forma atrativa, focando nos resultados estéticos e ignorando os riscos. Esse cenário favorece a normalização do consumo e o estímulo à automedicação, principalmente entre jovens que buscam resultados rápidos em termos de hipertrofia muscular.
Apesar disso, os profissionais da saúde — como médicos, nutricionistas e educadores físicos — representam fontes mais qualificadas para orientar sobre os riscos e benefícios do uso dos EAA. No entanto, o acesso a esses profissionais ainda é limitado, seja por fatores econômicos, culturais ou pela própria resistência dos usuários em buscar orientações que possam desencorajar o uso da substância (Lima et al., 2020).
Esse distanciamento entre o usuário e a informação científica contribui para a desinformação e para a continuidade do uso inadequado de anabolizantes. Por isso, torna- se essencial a implementação de estratégias de educação em saúde, com campanhas informativas e ações preventivas que atuem diretamente nos espaços onde essas decisões são tomadas, como academias, escolas e ambientes virtuais. Compreender as fontes de informação como elementos determinantes no comportamento do usuário é fundamental para subsidiar políticas públicas e programas de prevenção ao uso indiscriminado dos EAA, promovendo o uso consciente e respaldado por orientação profissional adequada.
Buscando compreender a percepção dos usuários em relação à sua experiência com anabolizantes, foi investigado se os participantes se arrependem do uso dessas substâncias. A Figura 5 a seguir apresenta a distribuição das respostas sobre o sentimento de arrependimento.
Figura 5 – Distribuição dos participantes quanto ao arrependimento pelo uso de anabolizantes

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
A Figura 5 mostra claramente a ausência de arrependimento entre a maioria dos usuários de esteroides anabolizantes androgênicos (EAA) participantes da pesquisa, mesmo diante dos riscos e efeitos adversos relatados, revela um dado preocupante no que se refere à percepção dos impactos do uso dessas substâncias. Os dados obtidos na pesquisa de campo evidenciaram que a maioria dos usuários não se arrepende do uso de anabolizantes, o que pode estar relacionado à satisfação com os resultados estéticos alcançados ou à falta de consciência sobre os efeitos colaterais a longo prazo.
Souza e Andrade (2021) explicam que o reforço social, a valorização estética e a elevação da autoestima contribuem significativamente para essa percepção positiva. O corpo hipertrofiado é frequentemente associado a disciplina, força e admiração social, o que faz com que os efeitos negativos sejam relativizados frente ao reconhecimento obtido. Tal contexto favorece a continuidade do uso e reduz a autocrítica quanto às decisões tomadas.
Além disso, conforme apontam Ferreira, Andrade e Pontes (2020), a minimização dos riscos é muitas vezes reforçada por informações equivocadas ou incompletas disseminadas nas redes sociais, fóruns virtuais e ambientes de treino. Isso contribui para a falsa sensação de segurança e eficácia no uso dos EAA, retardando ou até mesmo impedindo o surgimento de arrependimento.
Lima et al. (2020) complementam que os efeitos adversos mais graves tendem a se manifestar em médio ou longo prazo, como problemas cardiovasculares, infertilidade e transtornos psiquiátricos. Dessa forma, o usuário pode não associar imediatamente os prejuízos à substância, o que dificulta a construção de uma percepção crítica sobre sua escolha. Ainda segundo Costa e Menezes (2022), a pressão estética imposta por padrões corporais idealizados contribui para a manutenção do uso dos anabolizantes, mesmo diante de consequências negativas. Em muitos casos, os indivíduos preferem manter os resultados obtidos a abrir mão de um padrão físico socialmente valorizado, demonstrando que a busca por aceitação pode superar os riscos à saúde.
Assim, a ausência de arrependimento sinalizada por muitos usuários não deve ser interpretada como ausência de efeitos negativos, mas como resultado de uma cultura que prioriza a estética corporal em detrimento da saúde. Nesse cenário, torna-se urgente o desenvolvimento de estratégias de educação em saúde, que promovam a consciência crítica sobre os riscos reais do uso de anabolizantes e incentivem escolhas mais seguras e saudáveis.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para compreender melhor esse fenômeno do uso indiscriminado de anabolizantes entre estudantes de Educação Física, esta pesquisa realizou um estudo de campo por meio da aplicação de um formulário online, com o objetivo de identificar o perfil destes estudantes usuários de anabolizantes androgênicos-anabólicos, os principais motivos que os levam ao uso, bem como suas percepções sobre os efeitos e os riscos associados. Com base nos dados analisados e nas evidências encontradas, foi possível observar que o uso de EAA demonstrou influência significativa no aumento de massa muscular e na melhora do desempenho físico, especialmente em atividades de alta intensidade. Esses efeitos justificam, em parte, a procura por tais substâncias por indivíduos que buscam resultados rápidos na estética corporal e na performance atlética.
No entanto, no que se refere à alterações nos níveis de humor, os resultados não apontaram uma mudança significativa. Embora existam relatos isolados sobre variações emocionais, como irritabilidade ou euforia, os dados gerais não evidenciaram uma associação estatisticamente relevante entre o uso de EAA e alterações consistentes no humor dos usuários.
Dessa forma, conclui-se que, apesar dos efeitos fisiológicos perceptíveis no desempenho e na composição corporal, os impactos psicológicos – especificamente sobre humor – ainda necessitam de investigações mais amplas e aprofundadas. É fundamental considerar que o uso de EAA envolve riscos à saúde e deve ser constantemente discutido sob uma perspectiva ética, educativa e preventiva, tanto no ambiente esportivo quanto no contexto social mais amplo.
Apesar de poucos participantes mencionarem complicações de saúde atribuídas ao uso dessas substâncias, chamou a atenção o fato de que a maioria iniciou o uso sem acesso prévio a informações confiáveis, baseando-se principalmente em orientações de amigos, conteúdos da internet ou até mesmo de alguns profissionais da saúde. Ainda assim, muitos afirmaram não se arrepender da prática, o que pode indicar uma subestimação dos riscos ou a normalização do uso em certos ambientes sociais, como academias e grupos esportivos.
A ausência de acompanhamento médico em grande parte dos casos reforça a preocupação com o uso desinformado e potencialmente prejudicial dessas substâncias. A confiança em fontes informais, que frequentemente carecem de respaldo técnico ou científico, contribui para decisões baseadas em desinformação ou expectativas irreais. A percepção limitada sobre os riscos e a baixa adesão a práticas seguras evidenciam uma lacuna significativa em termos de educação em saúde.
Essas constatações revelam um cenário preocupante, no qual o apelo estético e o desejo de melhoria na performance física se sobrepõem ao cuidado com a saúde e à segurança individual. A carência de políticas públicas voltadas à conscientização, somada à dificuldade de acesso a profissionais capacitados, contribui para a perpetuação desse comportamento de risco. Diante disso, torna-se imprescindível ampliar o debate sobre o uso de anabolizantes, promovendo estratégias educativas, campanhas informativas e oferta de suporte profissional qualificado. Tais medidas são fundamentais para que os indivíduos possam fazer escolhas mais conscientes e seguras, reduzindo os danos associados ao uso indiscriminado dessas substâncias.
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