REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510131112
Simone Gonçalves Campos1
Rosangela da Silva Ferreira2
Eduarda Míglio Freire3
Larissa Maria Rabelo dos Anjos4
Guilherme Silva de Oliveira5
Thiago Ferreira Pessoa6
Ivina Rhaissy Ximenes de Mesquita7
Victória Régia Portela Duarte8
Maria Eliane Ramos9
Cristiano Almeida Silva10
Introdução
O atendimento em serviços de urgência e emergência constitui um dos maiores desafios enfrentados pelos profissionais de saúde, caracterizando-se por situações de alta complexidade, imprevisibilidade e necessidade de respostas imediatas. Nestes cenários, a atuação não pode se limitar à agilidade técnica, mas deve integrar princípios de humanização do cuidado, que considerem a dignidade, autonomia e necessidades emocionais do paciente. De acordo com Souza, Silva e Silva (2019), a humanização em contextos críticos é essencial para promover confiança, reduzir ansiedade e melhorar a percepção de qualidade do serviço.
A Política Nacional de Humanização (PNH), instituída em 2003 pelo Ministério da Saúde, estabelece diretrizes que orientam práticas de acolhimento, escuta qualificada e respeito à subjetividade do paciente, destacando a necessidade de equilibrar eficácia clínica e cuidado humanizado, mesmo em contextos de alta pressão (Radaelli, Costa e Pissaia, 2019). Este enfoque é particularmente relevante em unidades de urgência e emergência, onde a rapidez da intervenção e a pressão por resultados imediatos podem comprometer a atenção às necessidades emocionais e psicossociais dos pacientes.
Além disso, a humanização envolve múltiplas dimensões: a relacional, que contempla a comunicação eficaz e empática; a organizacional, que considera fluxos de trabalho e protocolos; a estrutural, que inclui conforto, privacidade e segurança; a ética, que garante respeito à autonomia e dignidade; e a emocional, que se refere ao manejo do sofrimento tanto do paciente quanto dos familiares (Anguita et al., 2019). Radaelli et al. (2019) destacam que, embora esses aspectos sejam reconhecidos como fundamentais, sua implementação enfrenta barreiras estruturais, institucionais e culturais, especialmente em serviços sobrecarregados e com recursos limitados.
Estudos recentes indicam que práticas humanizadas impactam positivamente não apenas a percepção do cuidado, mas também a adesão ao tratamento e desfechos clínicos, reforçando a importância de integrar esses princípios na rotina do atendimento emergencial (Reis, Santos e Jesus, 2022). Nesse contexto, torna-se necessário revisar a literatura atual para mapear práticas efetivas, identificar barreiras e estratégias institucionais, e discutir lacunas que ainda persistem no cuidado humanizado em serviços de urgência e emergência.
Metodologia
Esta revisão de literatura foi conduzida por meio de uma **revisão integrativa**, permitindo sintetizar evidências de diferentes tipos de estudo, incluindo qualitativos, quantitativos e revisões, a fim de oferecer uma visão ampla e crítica sobre o cuidado humanizado em situações críticas (Souza, Silva e Silva, 2019).
Foram incluídos estudos publicados entre 2019 e 2024, em português, inglês e espanhol, que abordassem práticas de humanização em serviços de urgência, emergência ou setores críticos correlatos, como unidades de terapia intensiva, pronto-socorro e atendimento móvel de urgência. Foram considerados artigos que descrevessem intervenções, percepções de pacientes e familiares, barreiras à humanização e estratégias institucionais.
A busca foi realizada nas bases de dados PubMed, Scopus, Web of Science, SciELO, LILACS e BDENF, utilizando os seguintes descritores: “humanização do cuidado”, “humanized care”, “emergency services”, “urgent care”, “critical care”, “patient-centered care”, “acolhimento”, “classificação de risco” e “estratégias institucionais”.
Após a triagem inicial de títulos e resumos, os artigos selecionados foram lidos na íntegra para extração de dados sobre autor, ano, local de estudo, tipo de estudo, práticas de humanização, barreiras, estratégias e impactos observados. Os resultados foram organizados em categorias temáticas e analisados qualitativamente para identificar tendências, lacunas e evidências consolidadas.
Resultados e Discussão
A análise da literatura revelou um conjunto de práticas, barreiras e estratégias associadas à humanização do atendimento em serviços de urgência e emergência.
Práticas de humanização
A recepção com classificação de risco é citada em diversos estudos como um elemento central do acolhimento humanizado. Pinho (2022) destaca que esse protocolo não apenas organiza o fluxo de atendimento, mas também permite a escuta inicial do paciente, oferecendo informações e reduzindo o estresse associado à espera. Segundo Reis, Santos e Jesus (2022), a aplicação correta da classificação de risco está associada à percepção de justiça no atendimento e à redução de ansiedade em pacientes e familiares.
A comunicação empática e efetiva é outro componente fundamental. Radaelli, Costa e Pissaia (2019) observam que profissionais que transmitem informações claras, explicam procedimentos e demonstram sensibilidade emocional favorecem a confiança e o vínculo terapêutico. Além disso, a presença de acompanhantes é considerada estratégica, pois contribui para o conforto emocional do paciente, fortalece o suporte familiar e melhora a experiência do atendimento (Anguita et al., 2019).
A literatura também enfatiza a importância da estrutura física adequada. Ambientes que garantem privacidade, conforto, iluminação apropriada e redução de ruídos favorecem a percepção de cuidado humanizado, especialmente em situações de alta vulnerabilidade emocional (Souza, Silva e Silva, 2019). Estudos internacionais corroboram essa evidência, indicando que melhorias na infraestrutura impactam positivamente na satisfação do paciente e na eficiência do atendimento (Busch et al., 2020).
Barreiras à humanização
Apesar das evidências, a implementação de práticas humanizadas enfrenta desafios significativos. A sobrecarga de trabalho e o grande volume de atendimentos limitam o tempo disponível para interações empáticas, tornando difícil atender às necessidades emocionais e psicossociais (Anguita et al., 2019).
A falta de capacitação profissional em habilidades interpessoais e comunicação humanizada é outro fator crítico. Radaelli, Costa e Pissaia (2019) apontam que treinamentos focados apenas em procedimentos técnicos negligenciam competências essenciais para o acolhimento e a escuta qualificada.
Além disso, limitações estruturais e institucionais, como ausência de protocolos claros, escassez de recursos materiais e resistência cultural à mudança, dificultam a consolidação de práticas humanizadas (Reis, Santos e Jesus, 2022). O estresse e o burnout dos profissionais em ambientes críticos também afetam a capacidade de oferecer cuidado empático e consistente (Souza, Silva e Silva, 2019).
Estratégias e dispositivos facilitadores
Estudos apontam que a humanização pode ser fortalecida por capacitação contínua, criação de protocolos de acolhimento, integração da equipe multidisciplinar e investimentos em infraestrutura física (Pinho, 2022; Radaelli, Costa e Pissaia, 2019). Políticas públicas, como a PNH, fornecem diretrizes importantes, mas sua implementação efetiva depende de comprometimento institucional, avaliação contínua e valorização do cuidado humanizado como prioridade estratégica (Souza, Silva e Silva, 2019).
A literatura também destaca que intervenções humanizadoras podem ter impactos mensuráveis, como aumento da satisfação do paciente, redução da ansiedade, melhora na adesão ao tratamento e maior engajamento familiar (Anguita et al., 2019; Busch et al., 2020). Para os profissionais, práticas humanizadas promovem maior satisfação no trabalho, sensação de propósito e menor desgaste emocional.
Lacunas e perspectivas futuras
Embora haja evidências consistentes sobre os benefícios da humanização, ainda existem lacunas significativas. A maior parte dos estudos são qualitativos ou revisões, com poucos ensaios controlados que avaliem efeitos quantitativos das intervenções. Além disso, há escassez de pesquisas que explorem a relação entre humanização e desfechos clínicos, custo-efetividade e indicadores organizacionais (Reis, Santos e Jesus, 2022).
Pesquisas futuras devem também considerar a perspectiva do profissional, avaliando estratégias de suporte emocional, prevenção de burnout e promoção de resiliência em ambientes críticos, para que a humanização seja efetiva tanto para pacientes quanto para equipes de saúde.
Considerações Finais
A revisão evidencia que o cuidado humanizado em serviços de urgência e emergência é um componente essencial para garantir qualidade do atendimento, dignidade, respeito e bem-estar dos pacientes. Práticas como acolhimento com classificação de risco, comunicação empática, presença familiar, suporte emocional e melhoria da infraestrutura são fundamentais para a humanização.
Embora desafios estruturais, institucionais e profissionais persistam, estratégias como capacitação contínua, protocolos claros, integração multidisciplinar e políticas públicas de apoio podem contribuir significativamente para superar essas barreiras. A humanização não é apenas uma exigência ética, mas um elemento estratégico para o aprimoramento do cuidado, satisfação dos pacientes e eficiência dos serviços de saúde.
Para consolidar a humanização em serviços de urgência e emergência, é necessário investimento em pesquisas rigorosas que avaliem quantitativamente os efeitos das práticas humanizadoras, bem como em políticas e protocolos que integrem técnicas clínicas com atenção às necessidades emocionais e sociais dos pacientes. O compromisso com o cuidado humanizado deve ser contínuo, envolvendo todos os níveis da organização e promovendo uma cultura de atenção centrada no ser humano, mesmo nas situações mais críticas.
Referências
ANGUITA, M. et al. Humanização nos serviços de urgência e emergência: contribuições para o cuidado de enfermagem. Revista Gaúcha de Enfermagem, v. 40, e20180263, 2019.
BUSCH, I. M.; MORETTI, F.; TRAVAINI, G.; WU, A. W. Humanization of care: key elements identified by patients and stakeholders. BMC Health Services Research, v. 20, p. 1-12, 2020.
PINHO, C. D. S. Método Canguru no pré-natal: construção de uma tecnologia educativa para orientação das gestantes e acompanhantes. 2022.
RADAELLI, C.; COSTA, A. E. K.; PISSAIA, L. F. O cuidado humanizado no ambiente de urgência e emergência: uma revisão integrativa. Research, Society and Development, v. 8, n. 6, e37861057, 2019.
REIS, A.; SANTOS, J. L. D.; JESUS, M. D. Papel do enfermeiro no processo de acolhimento com classificação de risco na urgência e emergência. Revista Gaúcha de Enfermagem, v. 43, e20220102, 2022.
SOUZA, K. H. J. F.; SILVA, M. D. F.; SILVA, M. G. Humanização nos serviços de urgência e emergência: análise das evidências. Revista Gaúcha de Enfermagem, v. 40, e20180324, 2019.
1Graduanda em enfermagem pela Universidade Paulista. E-mail: simoneg.campos@hotmail.com
2Graduanda em enfermagem pela UNAMA. E-mail: herreirafrosangela0@gmail.com
3Graduanda em medicina pela Universidade de Rio Verde. E-mail: miglioeduarda@gmail.com
4Graduanda em enfermagem pela Universidade Católica de Pernambuco. E-mail: larissa_anjos11@hotmail.com
5Graduando em enfermagem pela Faculdade Wenceslau Braz. E-mail: guioliver193@gmail.com
6Graduanda de farmácia do Centro Universitário INTA – UNINTA email: thiagofp183@gmail.com
7Graduanda de farmácia do Centro Universitário INTA – UNINTA email: ivinarha@gmail.com
8Graduanda de farmácia do Centro Universitário INTA – UNINTA. E-mail: victoriaportela4@gmail.com
9Enfermeira pela UNINTA/CENTRO. E-mail: 2004eliane@gmail.com
10Enfermeiro pela Faculdade de Tecnologia e Ciência – FTC – Polo Jequié- Ba. Especialista em Saúde Coletiva, Monitoramento e Avaliação pela Universidade Federal da Bahia. E-mail: cristianosalmeida13@gmail.com
