TUBERCULOSIS AND HIV: EPIDEMIOLOGICAL ANALYSIS OF COINFECTION IN RESIDENTS OF PORTO VELHO-RO IN THE PERIOD FROM 2019 TO 2023
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510222111
Gabriel Sampaio Duran1
Endrio Neander Chaves Salton2
Maria do Carmo Lacerda Nascimento3
RESUMO
A tuberculose é uma doença infecciosa e contagiosa transmitida de pessoa para pessoa por meio de gotículas de aerossóis expelidas principalmente pela tosse, cujo agente etiológico é o Mycobacterium tuberculosis. O intuito da pesquisa é analisar a situação epidemiológica da tuberculose associada à coinfecção pelo HIV no município de Porto Velho-RO, no período compreendido de 2019 a 2023. Neste trabalho foi aplicado um estudo descritivo de dados epidemiológicos secundários, retrospectivo, quantitativo de todos os casos de tuberculose com coinfecção de HIV de indivíduos residentes no município de Porto Velho/RO, diagnosticados, notificados e registrados no período compreendido de 2019 a 2023 no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e no banco de dados disponível no Departamento de informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS-TabNet). Foram notificados 294 casos no período analisado. A maior incidência se encontra no sexo masculino, na faixa etária ajustada entre 20 e 39 anos e na raça parda. A forma pulmonar predominou entre os casos registrados. Observou-se uma tendência de redução na taxa de cura, que se encontra abaixo do recomendado, e um aumento na taxa de abandono do tratamento. Conclui-se que os padrões de incidência e proporção dos casos de tuberculose com coinfecção por HIV estão acima do esperado, evidenciando a necessidade de estratégias mais eficazes de controle e acompanhamento
Palavra-chave: Incidência, Mycobacterium tuberculosis, TB/HIV coinfecção, epidemiologia, Porto Velho.
ABSTRACTS
Tuberculosis is an infectious and contagious disease transmitted from person to person through aerosol droplets expelled primarily by coughing. The etiological agent is Mycobacterium tuberculosis. This study aims to analyze the epidemiological situation of tuberculosis associated with HIV coinfection in the municipality of Porto Velho, Rondônia, from 2019 to 2023. This study involved a descriptive, retrospective, and quantitative study of secondary epidemiological data on all cases of tuberculosis with HIV coinfection among individuals residing in the municipality of Porto Velho, Rondônia, diagnosed, notified, and recorded from 2019 to 2023 in the Notifiable Diseases Information System (SINAN) and in the database available at the Unified Health System’s Information Technology Department (DATASUS-TabNet). A total of 294 cases were reported during the analyzed period. The highest incidence is found in males, in the adjusted age range between 20 and 39 years, and in mixed race. The pulmonary form predominated among the registered cases. A downward trend in the cure rate was observed, which is below the recommended level, and an increase in the treatment abandonment rate. It is concluded that the incidence patterns and proportion of tuberculosis cases with HIV coinfection are higher than expected, highlighting the need for more effective control and monitoring strategies.
Keyword: Incidence, Mycobacterium tuberculosis, epidemiological profile, secondary data, Porto Velho.
1. INTRODUÇÃO
Tuberculose (TB), é uma doença altamente contagiosa transmitida pelo ar e uma das principais causas de morte em todo o mundo. Embora a doença normalmente afete os pulmões (conhecida como tuberculose pulmonar), ela também pode se espalhar para outras partes do corpo, conhecida como tuberculose extrapulmonar (Alsyed, Gunosewoyo, 2023).
Em 2023, foram identificados 80.012 casos novos de TB no Brasil, correspondendo a uma incidência de 37,0 casos por 100 mil habitantes. Dentre as populações em situação de vulnerabilidade, a proporção de casos novos de coinfecção TB-HIV passou de 8,6% em 2022 para 9,3% em 2023 (Brasil, 2024a).
Segundo a organização mundial da saúde, estima-se que 39,9 milhões de pessoas viviam com HIV no final de 2023, que 630.000 pessoas morreram de causas relacionadas ao HIV e cerca de 1,3 milhão de pessoas adquiriram o HIV (Organização Mundial da Saúde, 2024). Especificamente em 2023, foram notificados 46.495 casos de infecção pelo HIV no Brasil, representando um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior. Ademais, foi visto no estado de Rondônia mediante dados do SINAN, que foram notificados 388 casos de HIV. (Brasil, 2024b)
A relação entre tuberculose e HIV é forte devido à maior suscetibilidade das pessoas afetadas pelo vírus ao desenvolvimento da forma ativa e desfechos desfavoráveis da tuberculose, tornando-os um grupo prioritário para ações de prevenção, tratamento e controle. Em 2021, foram registrados 6,4 milhões de casos de tuberculose em todo o mundo, sendo 6,7% em pessoas vivendo com HIV e, destes, 187.000 resultaram em óbito, reiterando a alta mortalidade dessas infecções (Lima et al., 2024). Em todo o mundo, a tuberculose é a principal causa de morte em HIV positivos, representando um terço das mortes em decorrência da aids. As pessoas HIV positivas têm 28 vezes mais chances de se infectar com a tuberculose e essa coinfecção representa quase 29% das mortes no Brasil (Gioseffi; Batista; Brignol, 2022)
O Brasil integra a lista de países prioritários da OMS para a tuberculose, por ter um elevado número de pessoas afetadas pela TB e pela coinfecção TB-HIV. No nosso país, cerca de 72,6 mil pessoas adoeceram por TB e 4,7 mil indivíduos morreram por causa da doença em 2021. Como parte do esforço global para redução do coeficiente de incidência e mortalidade, o Ministério da Saúde, decidiu elaborar o plano nacional pelo fim da tuberculose com o objetivo de reduzir o coeficiente de incidência para menos de 10 casos por 100 mil habitantes até o ano de 2035 e reduzir as mortes por TB para menos de 230 óbitos por ano até 2035 (Brasil, 2021).
Está preconizado pelo Programa Nacional de Controle da Tuberculose/MS cura de 85% para os casos novos de tuberculose pulmonar, com comprovação laboratorial, entretanto ainda se encontra longe do recomendado, visto que obteve 69,6% de cura em 2022 (Brasil, 2019).
Diante dessa realidade é de fundamental importância que se tenha estudos com objetivo de analisar e conhecer a situação epidemiológica da tuberculose em pessoas soropositivas para HIV, criando um perfil epidemiológico visando contribuir com ações específicas e efetivas de controle da doença no município de Porto Velho/RO. Ademais, a pesquisa possui o intuito de auxiliar no conhecimento de todos os agentes de saúde sobre a perspectiva epidemiológica da tuberculose, e informar dados para o desenvolvimento de estratégias destinadas a melhorar o tratamento de pacientes com TB em risco de coinfecção TB/HIV e promover o estado de saúde ideal para pacientes com TB.
Assim, o presente trabalho teve como objetivo analisar a situação epidemiológica da tuberculose em Porto Velho/RO em pessoas convivendo com o HIV, com ênfase na incidência da doença, formas clínicas, fatores de risco e a situação dos casos no período em questão. Através dessa análise, buscou-se construir um perfil epidemiológico mais abrangente da tuberculose no município de Porto Velho/RO, destacando a interação entre as duas condições e suas implicações para o controle da doença na região
2. METODOLOGIA
A pesquisa apresentada se trata de um estudo observacional descritivo populacional de dados epidemiológicos secundários, retrospectivo, quantitativo que utiliza dados extraídos do sistema DATASUS, acessados em 23 de julho de 2025 referente aos casos de tuberculose em indivíduos que contraíram a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), em residentes de Porto Velho/RO, diagnosticados, notificados e registrados no período compreendido de 2019 a 2023.
O presente estudo foi realizado em Porto Velho, sendo este um município brasileiro e capital do estado de Rondônia, situado na margem leste do Rio Madeira, na Região Norte do Brasil. Porto Velho é o município mais populoso do estado de Rondônia, se destacando também por ser a capital brasileira com maior área territorial, estendendo-se por 34.090,952 km².
A população estimada do município de Porto Velho, conforme o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de 460.434 habitantes. A amostra do estudo compreende 294 casos notificados de tuberculose em pacientes infectados pelo vírus HIV, sendo estes dados obtidos por meio do sistema de informações do DATASUS no referido município durante o período analisado.
Estão incluídas informações dos casos de tuberculose em HIV positivos residentes no município de Porto Velho – Rondônia, entre os anos de 2019 e 2023 diagnosticados e notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e consultados a partir do banco de dados disponível no Departamento de informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS-TabNet), sendo considerados indivíduos de todas as faixas etárias, sexos e raça/cor.
Estão excluídos os registros que apresentavam dados inconsistentes ou ausentes nas variáveis essenciais para a análise epidemiológica, bem como os casos notificados fora do período delimitado ou cuja área de residência não correspondia ao município definido. Ademais, foram desconsiderados os casos que apresentaram alteração no diagnóstico final da patologia.
Este estudo não foi submetido a um Comitê de Ética em Pesquisa por se tratar da utilização de dados obtidos de fonte secundária, sem a identificação nominal dos indivíduos.
Para estimar a incidência dos casos de tuberculose em cidadãos com HIV no município de Porto Velho, foi selecionado as variáveis: sexo e os casos totais. A variável “tipo de entrada” foi considerada para identificar os casos novos, os quais compuseram o numerador utilizado no cálculo da incidência. O denominador considerou as estimativas populacionais anuais do IBGE para o município analisado nos anos de 2019, 2020, 2021, 2022 e 2023, no cálculo da incidência. Os dados foram organizados em tabelas e submetidos à análise estatística descritiva.
Para a análise da distribuição dos casos segundo a faixa etária, foi utilizada a variável “Faixa Etária” sendo feita adaptação específica nesta variável, que foi agrupada nos seguintes intervalos: 0 a 19 anos, 20 a 39 anos, 40 a 59 anos, 60 a 69 anos, 70 a 79 anos e ≥ 80 anos, a fim de otimizar a interpretação dos dados. Calculou se a proporção de casos em cada grupo etário ao longo do período do estudo (2019 a 2023), com a organização dos resultados em tabelas e gráficos para fins de análise descritiva.
Para a variável “raça/cor”, os casos foram analisados de forma proporcional, considerando a distribuição dos indivíduos notificados segundo a categoria registrada no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).
Para a análise das formas clínicas da tuberculose em indivíduos com coinfecção por HIV, foi utilizada a variável “Forma Clínica”, categorizada em pulmonar, extrapulmonar e pulmonar + extrapulmonar. Foi calculada a proporção de casos conforme a forma clínica e o período do estudo (2019 A 2023), com os dados organizados em tabelas para análise descritiva.
Para descrever a situação de encerramento dos casos de tuberculose em indivíduos com HIV no período analisado, foi escolhido as categorias da variável “situação de encerramento”, classificadas como cura, abandono e óbito, os demais desfechos foram classificados em outros. A proporção de casos em cada categoria foi calculada com base no total de notificações, e os resultados foram apresentados em tabelas para análise estatística descritiva, possibilitando a avaliação do desfecho dessa população específica.
A extração dos dados foi realizada em 10 de julho de 2025 do sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), acessado pela plataforma TABNET, disponibilizada pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), utilizando filtros específicos para o município de Porto Velho – RO, abrangendo o período de 2019 a 2023, com seleção dos casos notificados de tuberculose em indivíduos infectados pelo HIV. Os dados extraídos foram organizados em planilhas eletrônicas no software Microsoft Excel®, onde foram realizadas a limpeza, categorização e padronização das variáveis de interesse, conforme a terminologia oficial do SINAN.
Este estudo não apresenta riscos à integridade física ou moral dos participantes, uma vez que utiliza exclusivamente dados secundários, provenientes de bases públicas de livre acesso, disponibilizadas pelo Ministério da Saúde, por meio do DATASUS. As informações analisadas são agregadas e anonimizadas, não sendo possível a identificação de indivíduos, domicílios ou qualquer informação sensível; os resultados podem contribuir para o aprimoramento das estratégias de vigilância e controle da coinfecção tuberculose/HIV no âmbito dos serviços públicos de saúde.
3. RESULTADOS
Segundo os dados coletados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), foram registrados 294 casos de tuberculose em pessoas vivendo com HIV no município de Porto Velho/RO, no período de 2019 a 2023. Desses, 192 foram classificados como casos novos, correspondendo a 65,30% do total. Além disso, foram notificados 71 casos de reingresso após abandono, 24 casos de recidiva, 6 transferências e 1 caso pós-óbito. Por meio da Figura 1, observa-se que, entre 2019 e 2023, houve variação na taxa de incidência, com queda acentuada em 2020 (5,41/100.000 hab.) em relação a 2019 (8,10/100.000 hab.), possivelmente influenciada pela pandemia de COVID-19. A partir de 2021, verificou-se aumento progressivo, culminando em 2023 com o maior valor da série (11,14/100.000 hab.)
Figura 1 – Taxa de incidência de tuberculose com HIV positivo, segundo ano de diagnóstico, em residentes de Porto Velho/RO, período de 2019 a 2023.

Entre os 294 casos de coinfecção TB/HIV notificados no período de 2019 a 2023, 225 ocorreram em indivíduos do sexo masculino e 69 no sexo feminino. A Figura 2 apresenta a distribuição da incidência segundo o sexo e o ano de diagnóstico. Observou-se maior concentração de casos novos no sexo masculino, com 148 notificações, em comparação a 44 casos no sexo feminino. Em relação à incidência, verificou-se tendência de aumento em ambos os sexos ao longo do período analisado, mais expressiva no sexo masculino, cuja taxa passou de 13,36/100.000 habitantes em 2019 para 17,31/100.000 em 2023. No sexo feminino, a incidência evoluiu de 2,83/100.000 em 2019 para 5,05/100.000 em 2023.
Figura 2 – Taxa de incidência da coinfecção tuberculose e HIV, de acordo com o sexo e ano de diagnóstico, em residentes de Porto Velho/RO, período de 2019 a 2023.

Quanto à faixa etária dos casos notificados, dos 294 casos totais de coinfecção TB/HIV, verificou-se que a maior concentração de casos ocorreu entre adultos jovens de 20 a 39 anos, com 179 registros, correspondendo a 60,88% do total. Em relação às demais proporções por faixa etária, a Figura – 3 apresenta os dados obtidos. A segunda faixa mais acometida foi a de 40 a 59 anos, com 95 casos (32,3%). As demais faixas apresentaram proporções reduzidas entre os anos estudados, sendo 0,68% entre 10 a 19 anos, 4,08% entre 60 e 69 anos, 1,70% entre 70 e 79 anos e 0,34% entre 80 e mais anos.
Figura 3 – Percentual de casos confirmados de tuberculose com HIV, de acordo com faixa etária e ano de diagnóstico em residentes de Porto Velho/RO período de 2019 a 2023.

Na análise dos casos de tuberculose em indivíduos vivendo com HIV no município de Porto Velho, no período de 2019 a 2023, a Figura – 4 informa sobre o percentual dos casos segundo raça/cor no período estudado. Verificou-se predomínio da raça/cor parda nos casos de tuberculose em pessoas vivendo com HIV em Porto Velho, representando 81,63% (n=240) do total de notificações. Os percentuais desse grupo variaram de 71,66% (2019) a 90,90% (2022), mantendo-se elevados em todo o período. Em seguida, observaram-se indivíduos de raça/cor branca, que totalizaram 10,20% (n=30), com maior proporção em 2019 (15,00%) e menor em 2022 (5,45%). A raça/cor preta representou 4,08% (n=12), variando de 6,97% em 2020 a 3,65% em 2023. Os casos em indivíduos de raça/cor amarela foram pouco expressivos (0,68%; n=2), restritos aos anos de 2019 e 2021, enquanto os registros classificados como ignorado/branco corresponderam a 3,40% (n=10).
Figura 4 – Percentual dos casos de todas as formas clínicas da tuberculose em indivíduos convivendo com o HIV de acordo com raça/cor e ano de diagnóstico em residentes de Porto Velho/RO no período de 2019 a 2023.

Em relação às formas clínicas da doença, dentre os tipos notificados a Tabela– 1 mostra o quantitativo e o percentual dos casos de tuberculose em coinfecção ao HIV que foram registrados. Foi notado que a forma pulmonar predominou em todos os anos do estudo, totalizando 202 casos (68,7%), com variação anual entre 66,6% em 2019 e 70,9% em 2022, mantendo-se como a principal apresentação clínica. A forma extrapulmonar correspondeu a 62 casos (21,08%), com discreto aumento proporcional ao longo do período, passando de 15% em 2019 para 28,04% em 2023. Já a forma pulmonar + extrapulmonar representou 30 casos (10,2%), apresentando declínio progressivo, especialmente em 2023, quando foi observada a menor proporção (2,4%).
Tabela 1 – Casos confirmados de tuberculose em coinfecção com HIV e percentual segundo as Formas clínicas e Ano Diagnóstico em residentes de Porto Velho/RO no período de 2019 a 2023.

Fonte: Brasil, 2025.
A Tabela – 2 contém os dados encontrados sobre as situações de encerramento da tuberculose em coinfecção com o HIV no período analisado. Observou-se que a situação de encerramento mais prevalente foi a cura, correspondendo a 43,53% dos casos, seguida do abandono do tratamento em 39,11%. A categoria “outros”, que inclui transferências, mudanças de diagnóstico e óbitos por outra causa, representou 16,32% enquanto os óbitos por tuberculose foram menos frequentes, totalizando apenas 1,02%. Ao longo dos anos, verificou-se variação nas proporções, o percentual de cura, que atingiu 51,66% em 2019, apresentou queda progressiva, chegando a 37,80% em 2023; de forma oposta, o abandono manteve-se elevado e relativamente estável, oscilando entre 38,18% e 40,24%. O grupo “outros” mostrou crescimento importante, de 10% em 2019 para 21,95% em 2023. Já os óbitos ocorreram apenas em 2020 e 2021, não sendo registrados nos demais anos.
Tabela 2 – Percentual de cura e abandono de acordo com o número de casos novos de tuberculose em coinfecção com o HIV segundo a situação de encerramento e por ano de diagnóstico em residentes de Porto Velho/RO no período de 2019 a 2023.


4. DISCUSSÃO
A análise dos dados da coinfecção TB/HIV permitiu observar as taxas de incidência e os percentuais conforme as variáveis selecionadas, possibilitando um estudo detalhado dos casos registrados no município de Porto Velho ao longo de um período de cinco anos. As variações identificadas durante o período analisado foram destacadas e comparadas com os achados descritos em outros estudos da literatura, contribuindo para uma compreensão mais ampla do comportamento epidemiológico observado.
De modo geral, no período analisado foi percebido crescimento na incidência da coinfecção tuberculose e HIV no município estudado. Em paralelo com outros estudos acerca da incidência, conforme Lima et al. (2024) elencou que coeficientes mais elevados foram encontrados em municípios das regiões Sul, Centro-Oeste e Norte, com importantes aglomerados de alto risco nas capitais, entretanto, em âmbito global segundo a Organização Mundial da Saúde (2024), de todos os casos de tuberculose em 2023, apenas 6,1% foram pessoas vivendo com HIV e que mortes por tuberculose entre pessoas com HIV vêm caindo de forma constante há muitos anos.
Ademais, na pesquisa é notável o declínio substancial de incidência no ano pandêmico da COVID-19. Houve o mesmo relato em outros estudos neste período como constatado na pesquisa de Kessel et al. (2023), mostrando que o impacto colateral das medidas pandêmicas nos serviços de TB se manifestou imediatamente, visto que, as interrupções nos serviços superam a redução da transmissão devido às medidas de distanciamento social, o que resulta em TB não detectada e não tratada com uma duração prolongada de infecciosidade, levando a um aumento tardio e prolongado na incidência e mortes. Além disso, Jeong e Min (2023) destacam que a redução nas notificações de tuberculose durante o período pandêmico também pode estar relacionada à diminuição da cobertura vacinal por BCG, consequência da queda na procura por serviços de saúde e do receio da população em se expor ao risco de infecção pela COVID-19.
De maneira diferente aos achados na literatura, foi encontrado o predomínio do sexo masculino nos casos de coinfecção tuberculose/HIV na região estudada, entrando em discordância com pesquisas como a de Sossen et al. (2025) que demonstra que em âmbito global, as mulheres carregam uma carga desproporcionalmente maior de TB-VIH do que os homens. Igualmente, este achado foi descrito no estudo de Zhang et al. (2024), afirmando que foi relatado maior incidência da coinfecção em mulheres do que em homens, mas ressaltou que houve aumento da incidência em ambos os sexos.
Foi constatado no estudo realizado na cidade de São Paulo por Bastos et al. (2020) que a maior proporção dos casos de coinfecção TB/HIV é registrada em pessoas brancas em idade adulta, sendo distinto do achado deste estudo realizado em Porto Velho que exibiu esta maior concentração em indivíduos de cor/raça parda, porém a idade é semelhante ao do estudo citado. Além disso, há outros achados que trazem a população parda como a maioria nos casos de coinfecção, porém sendo estes relatados como sem residência fixa no estudo de Cavalin et al. (2020) realizado no município de São Paulo, certificando que as desigualdades raciais são determinantes da desigualdade em saúde, uma vez que afetam as relações sociais, a autoestima e o acesso aos cuidados de saúde.
De acordo com a literatura, a forma pulmonar da tuberculose é a mais frequentemente observada entre indivíduos coinfectados pelo HIV. Neste estudo, realizado em Porto Velho/RO, verificou-se comportamento semelhante, com predominância da forma pulmonar em 68,70% dos casos analisados, o que reforça a tendência observada em diferentes contextos nacionais e internacionais. Reforçando este dado o estudo de Magnabosco et al. (2019) aponta que a forma pulmonar foi predominante na sua pesquisa com pacientes coinfectados, sendo desta forma mais de 60% dos casos. Além disso, o relatório da Organização Mundial da Saúde (2024) elenca a forma pulmonar como mais comum nessa população e salienta que as formas extrapulmonares também estão mais evidentes em pessoas vivendo com HIV devido a condição de imunossupressão.
Em última análise, a respeito do desfecho no tratamento foi obtido na pesquisa uma redução constante na taxa de cura enquanto ocorria aumento da taxa de abandono estando em concordância com achados na literatura como a pesquisa de Magnabosco et al. (2019) que diz em relação ao desfecho dos casos e o número de tratamentos realizados, que houve, em geral, diminuição da cura e aumento de abandono à medida que expandia a quantidade de tratamentos realizados, podendo ser atribuída à vários aspectos: psicossociais, econômicos, ausência de vínculo com a equipe, toxicidade dos fármacos, efeitos colaterais e/ou alcoolismo e drogadição. Somando estes dados, O Boletim Epidemiológico de Tuberculose (Brasil, 2024c) evidencia variação negativa no desfecho de cura em pacientes coinfectados a partir de 2019 até os dados preliminares de 2022, e de forma geral segundo O Plano Nacional de Saúde (Brasil, 2024c) os dados preliminares da TB apresentaram 60,8% de cura estando abaixo da meta preconizada enquanto houve ligeiro crescimento no abandono sendo relatado. Concluindo sobre mortalidade e óbitos, nesta pesquisa não foi elencado números significativos, porém, em outros estudos há maior correlação entre as características clínicas como gravidade da doença e infecção pelo HIV de estarem associados à morte e falha do tratamento sendo tal dado visto na análise de Ridolfi et al. (2023), que observou desfechos malsucedidos, além de que órgãos nacionais como a Organização mundial da Saúde também observam esta correlação.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da análise dos dados apresentados, constatou-se que a coinfecção tuberculose e HIV ainda constitui um importante desafio para a saúde pública no Brasil, especialmente em regiões como Porto Velho/RO. Ao longo do período avaliado, observou-se variação nas taxas de incidência, com destaque para a redução registrada durante a pandemia de COVID-19 e o subsequente aumento significativo no período pós-pandêmico.
O impacto da pandemia de COVID-19 na redução dos casos notificados de tuberculose evidencia a priorização das ações voltadas ao enfrentamento do novo coronavírus em detrimento de outras doenças endêmicas. Esse declínio nas notificações reflete um cenário preocupante, marcado pela interrupção ou limitação dos serviços de saúde voltados à tuberculose, pela redução da vigilância e pelo receio da população em buscar atendimento médico durante o período pandêmico. Além disso, tais fatores contribuíram para o atraso nos diagnósticos, a subnotificação de casos e o aumento potencial da transmissão comunitária não detectada, acarretando consequências negativas para o controle da doença nos anos subsequentes. Assim, reforça-se a necessidade de fortalecer a vigilância epidemiológica, garantir a continuidade dos serviços essenciais e implementar estratégias de recuperação pós-pandemia, a fim de minimizar os impactos prolongados sobre o controle da tuberculose no país.
Fatores socioeconômicos, que historicamente já exerciam grande influência, continuam a desempenhar papel determinante na incidência e nos desfechos da tuberculose. Observa-se a predominância de casos entre homens jovens, indivíduos de cor parda e pessoas com menor nível de escolaridade, refletindo desigualdades sociais persistentes. No contexto da coinfecção TB/HIV, esses fatores se tornam ainda mais relevantes, pois a vulnerabilidade socioeconômica e educacional contribui para o atraso no diagnóstico, o aumento da transmissibilidade e os piores desfechos clínicos.
As baixas taxas de cura e as elevadas taxas de abandono do tratamento observadas são preocupantes, pois evidenciam falhas na efetividade das políticas públicas e na adesão terapêutica, comprometendo o controle da tuberculose e da coinfecção TB/HIV. Esse cenário reforça a urgência de fortalecer estratégias que abordem não apenas os determinantes sociais da saúde, mas também os desafios específicos enfrentados por pessoas vivendo com HIV, que apresentam maior vulnerabilidade clínica e social. A ampliação do acesso aos serviços de saúde, o acompanhamento contínuo dos pacientes, a integração entre os programas de controle da TB e do HIV e as ações educativas voltadas à prevenção e ao tratamento são medidas fundamentais para promover resultados mais efetivos e sustentáveis no enfrentamento dessas doenças.
Portanto, conclui-se que os padrões de incidência e a proporção dos casos de tuberculose e da coinfecção TB/HIV no município permanecem elevados, evidenciando a necessidade de intensificar as ações de controle. A identificação e compreensão dos fatores que contribuem para esse aumento são essenciais para fortalecer os esforços de enfrentamento, com ênfase na implementação de políticas públicas integradas, no investimento em recursos e infraestrutura de saúde, e na capacitação contínua de profissionais preparados para atuar de forma resolutiva. Somente por meio de uma abordagem ampla e articulada será possível avançar de maneira efetiva rumo à redução da incidência e ao controle sustentável da tuberculose e da coinfecção TB/HIV.
REFERÊNCIAS
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1Discente do Curso Superior de medicina do Instituto Centro universitário Aparício Carvalho Campus Fimca e mail: gabrielsduran@hotmail.com
2Discente do Curso Superior de medicina do Instituto Centro Universitário Aparício Carvalho Campus Fimca e mail: endriochavessalton@gmail.com
3Docente do Curso Superior de medicina do Instituto Centro Universitário Aparício Carvalho Campus Fimca. Mestre em zootecnia e saúde pública e-mail: prof.Nascimento.maria@fimca.com
