TRATAMENTO E REABILITAÇÃO DAS LESÕES DO LIGAMENTO CRUZADO ANTERIOR: UMA REVISÃO NARRATIVA SOBRE PROTOCOLOS E A ATUAÇÃO DO MÉDICO ORTOPEDISTA

TREATMENT AND REHABILITATION OF ANTERIOR CRUCIATE LIGAMENT INJURIES: A NARRATIVE REVIEW ON PROTOCOLS AND THE ROLE OF THE ORTHOPEDIC PHYSICIAN

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511161948


Ian José Aragão Andrade¹
Antônio Mario Seixas Rollemberg¹
Thales José Atanazio de Lima Roque¹
Amanda Santos Alves Freire²


RESUMO

Introdução. As lesões do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) estão entre as principais causas de instabilidade articular do joelho, acometendo especialmente atletas e indivíduos fisicamente ativos. O LCA é responsável por controlar a translação anterior da tíbia e a rotação tibial, sendo essencial para a execução segura dos movimentos. Sua ruptura compromete a função articular, o desempenho esportivo e a qualidade de vida do paciente. Objetivos. O presente estudo teve como objetivo geral analisar os principais protocolos fisioterapêuticos aplicados ao tratamento das lesões do LCA, destacando o papel do médico ortopedista na condução e supervisão do processo de reabilitação. Como objetivos específicos, buscou-se compreender a relação entre a biomecânica do LCA e a reabilitação, identificar fatores que influenciam o retorno ao esporte e discutir a importância da abordagem multiprofissional na recuperação funcional. Metodologia. Trata-se de uma revisão narrativa de literatura realizada nas bases de dados SciELO, LILACS, PubMed, Cochrane Library e PEDro, abrangendo artigos publicados entre 2014 e 2024. Foram utilizados os descritores “Ligamento Cruzado Anterior”, “Medicina Esportiva”, “Ortopedia”, “Fisioterapia” e “Qualidade de Vida”, combinados por operadores booleanos AND e OR. Os estudos selecionados abordaram os protocolos fisioterapêuticos voltados à recuperação do LCA e a atuação do médico ortopedista durante o tratamento. Discussão. Os resultados demonstraram que a aplicação de protocolos estruturados, progressivos e individualizados é determinante para a restauração da estabilidade articular e funcionalidade do joelho. Observou-se que o treinamento de força, o controle neuromuscular e os exercícios proprioceptivos reduzem o risco de recidivas e aceleram a recuperação. O acompanhamento direto do ortopedista mostrou-se fundamental na supervisão dos protocolos e na integração da equipe multiprofissional, proporcionando maior segurança, adesão e eficácia terapêutica. Conclusão. Conclui-se que a associação entre protocolos fisioterapêuticos bem definidos e a atuação do médico ortopedista é indispensável para o sucesso da reabilitação das lesões de LCA, assegurando uma recuperação funcional mais eficiente e prevenindo novas lesões, o que reforça a importância de uma abordagem interdisciplinar na prática ortopédica contemporânea.

Palavras-chave: Ligamento cruzado anterior. Reabilitação. Fisioterapia. Ortopedia. Qualidade de vida.

ABSTRACT

Introduction. Anterior Cruciate Ligament (ACL) injuries are among the leading causes of knee instability, affecting primarily athletes and physically active individuals. The ACL is responsible for controlling tibial translation and rotation, being essential for safe joint movement. Its rupture compromises joint function, sports performance, and overall quality of life. Objectives. This study aimed to analyze the main physiotherapeutic protocols applied to ACL injury treatment, highlighting the orthopedic physician’s role in guiding and supervising the rehabilitation process. The specific objectives included understanding the relationship between ACL biomechanics and rehabilitation, identifying factors influencing return to sport, and discussing the importance of a multidisciplinary approach in functional recovery. Justification. The relevance of this study lies in the high incidence of ligament injuries, which represent a clinical and social challenge due to their functional, psychological, and occupational impacts. The integration between physical therapy and orthopedics is essential to ensure complete rehabilitation, safe return to activity, and recurrence prevention. Methodology. This research is a narrative literature review conducted through the SciELO, LILACS, PubMed, Cochrane Library, and PEDro databases, covering publications between 2014 and 2024. The descriptors “Anterior Cruciate Ligament,” “Sports Medicine,” “Orthopedics,” “Physiotherapy,” and “Quality of Life” were used, combined with Boolean operators AND and OR. The selected studies addressed physiotherapeutic protocols for ACL recovery and the orthopedic physician’s involvement in the rehabilitation process. Results and discussion. The findings showed that structured, progressive, and individualized protocols are key to restoring joint stability and functionality. Strength training, neuromuscular control, and proprioceptive exercises were associated with reduced recurrence and faster recovery. The orthopedic physician’s direct supervision proved essential for integrating multidisciplinary teams, ensuring safety, adherence, and therapeutic effectiveness. Conclusion. It is concluded that the combination of well-defined physiotherapeutic protocols and the orthopedic specialist’s guidance is crucial for successful ACL rehabilitation, ensuring efficient functional recovery and preventing recurrences, thereby reinforcing the importance of an interdisciplinary approach in modern orthopedic practice.. 

Keywords: Anterior cruciate ligament. Rehabilitation. Physiotherapy. Orthopedics. Quality of life.

1 INTRODUÇÃO

O Ligamento Cruzado Anterior (LCA) é uma estrutura ligamentar essencial para a estabilidade articular do joelho. Ele atua limitando a translação anterior da tíbia em relação ao fêmur e controlando a rotação tibial, o que a torna determinante para a execução de movimentos seguros e coordenados. Dessa maneira, as lesões a esse ligamento é a causa mais comum de instabilidade e limitação do movimento, principalmente em atletas de alta performance e indivíduos fisicamente ativos (Moore; Dalley; Agur, 2018; Gray’s Anatomy, 2020).

A crescente incidência de lesões de LCA tem sido atribuída ao aumento da prática esportiva, sobretudo em modalidades que envolvem aceleração, desaceleração, saltos e mudanças bruscas de direção — movimentos frequentemente associados a mecanismos de não contato (Tavares et al., 2024). Estudos epidemiológicos apontam que grande parte dessas lesões ocorre de forma combinada com outras estruturas ligamentares ou meniscais, o que aumenta a complexidade do tratamento e prolonga o tempo de recuperação (Dephrenes et al., 2022).

Além das consequências biomecânicas e funcionais, as lesões do LCA têm impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes, afetando tanto o desempenho esportivo quanto as atividades de vida diária. Quadros de dor crônica, instabilidade, limitação de movimento e déficits de força são frequentemente acompanhados de repercussões psicológicas, como ansiedade e depressão, especialmente em atletas afastados de suas atividades (Oliveira, 2021).

O tratamento dessas lesões demanda uma abordagem multidisciplinar, em que a atuação do médico ortopedista é central, tanto na definição do diagnóstico e conduta terapêutica quanto no acompanhamento pós-operatório e no retorno gradual às atividades físicas. A integração entre ortopedia e fisioterapia é determinante para a reabilitação funcional e prevenção de recidivas, garantindo uma recuperação mais eficiente e segura (Grevnerts et al., 2021; Ma et al., 2022).

Nesse contexto, compreender os principais protocolos fisioterapêuticos aplicados ao tratamento das lesões do LCA e o papel do ortopedista na condução e supervisão do processo terapêutico é fundamental para otimizar os resultados clínicos e funcionais. Assim, este trabalho tem como objetivo revisar e analisar a literatura científica recente sobre a atuação médica e os métodos de reabilitação empregados em pacientes com lesão de Ligamento Cruzado Anterior, destacando seus efeitos sobre a recuperação funcional e a qualidade de vida.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

A anatomia ligamentar do joelho é composta por quatro principais ligamentos responsáveis pela estabilidade articular — o ligamento cruzado anterior (LCA), o ligamento cruzado posterior (LCP), o ligamento colateral medial (LCM) e o ligamento colateral lateral (LCL). Além desses, estruturas secundárias, como os ligamentos meniscofemorais, o ligamento patelar, os retináculos patelares e o ligamento transverso, também contribuem para a manutenção da estabilidade e do movimento controlado da articulação do joelho” (Moore; Dalley; Agur, 2023, p. 1058).

2.1 O Ligamento Cruzado Anterior

O Ligamento Cruzado Anterior (LCA) está dentro da cápsula articular, uma estrutura que envolve toda a articulação do joelho composta por uma cama externa fibrosa e interna sinovial. Essa camada externa produz o líquido sinovial, que reveste todas as áreas internas, exceto nos locais ocupados pelos ligamentos cruzados, com isso podemos classificar o LCA como intra-capsular e extra-sinovial (Moore, Dalley e Agur, 2018).

O Ligamento Cruzado Anterior (LCA) se estende da parte posterior do côndilo femoral até a área intercondilar anterior da fíbia, por meio de seus dois feixes: Feixe Anteromedial (AM) e o Feixe Posterolateral (PL). O feixe AM ocupa a porção mais proximal e anterior da superfície intercondilar medial do côndilo femoral lateral, se inserindo na área intercondilar anterior da tíbia, e traz ao joelho uma maior estabilidade anteroposterior, principalmente quando há uma flexão de grande ângulo (Gray’s Anatomy, 42ª edição, 2020). O feixe PL alcança a zona mais distal e posterior do côndilo femoral lateral, na área intercondilar anterior ocorre a inserção desse feixe que promove ao joelho uma maior estabilidade rotacional, principalmente próximo à extensão completa. Dessa forma, enquanto um está mais tenso, o outro está mais relaxado, permitindo uma estabilização contínua em movimentos em larga amplitude (Santos et al., 2022; Fonseca et al., 2023).

Dessa forma, o Ligamento Cruzado Anterior (LCA) age limitando o movimento anterior da tíbia em relação ao fêmur e a rotação excessiva da tíbia, sendo importante em movimentações que promove uma extensão completa, nos quais o fêmur e tíbia formam um ângulo de 180º (Silva Nazario et al., 2019).  Assim, o LCA previne lesões com as por hiperextensão, por exemplo, que ocorre quando a articulação excede a amplitude normal, limitando esse deslocamento que a tíbia poderia fazer em relação ao fêmur (Lopes, 2019).

2.2 Epidemiologia

Dentro das lesões ligamentares de joelho, é imprescindível entender sua epidemiologia, já que, tendo em vista sua anatomia, lesões combinadas são muito comuns. Um estudo prospectivo feito com 602 pacientes, revelou que apenas 24% apresentaram a lesão de Ligamento Cruzado Anterior (LCA) isolado, já 44% apresentaram uma lesão de LCA combinado com o ligamento Anterolateral (ALL), 13,28% tinham lesão do LCA, ALL e da Rampa do Menisco Medial (MMRL) e, por fim, 6% com o comprometimento da Raiz do Menisco Lateral (LMRT) (Dephrenes et al., 2022).

Por ser uma lesão altamente debilitante e, como dito, seu tratamento no contexto do esporte foca na evolução rápida e com qualidade, Sunbol e Alsuwaidan (2021) avaliaram os fatores de risco para a recorrência de lesões dentro do esporte, sendo eles:

O retorno ao esporte dentro de dois anos após a lesão: É importante salientar que, para o tecido articular se recuperar por completo, ele precisa de tempo para se integrar completamente e, na maioria dos casos, este período pode ser insuficiente.

Uso de aloenxertos: Os aloenxertos, que são os enxertos vindo de doadores, podem levar mais tempo para se integrar completamente ao corpo, quando comparado aos autoenxertos, que são os enxertos retirado de tecidos do próprio paciente. Isso leva a necessidade de um tempo de recuperação e, dessa forma, vulnerabilidade, maior.

A idade do paciente: Atletas jovens tendem a se envolver em atividades de alto risco, sendo menos cautelosos, bem como, na maioria dos casos, não utilizam técnicas de prevenção às lesões, tornando-se mais suscetível a primeiro evento.              

Alta Perfomance e exposição à atividade física: Em esportes de alta performance, a intensidade do calendário de jogos, leva ao atleta uma maior exposição as atividades, bem como a fadiga acumulada por conta dessa rotina aumentam a chance de lesão.

Para corroborar esses fatores, um estudo feito com a análise do prontuário de pacientes submetidos à cirurgia de reconstrução do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) no estado do Piauí, destaca que, dos 119 prontuários analisados, a média da idade dos pacientes era de 30,87 anos ± 8,81 anos, sendo 82,35% do sexo masculino e um tempo médio entre o diagnóstico e a cirurgia de 17,01 ± 12,89 meses (Santos, 2015).

Lu et al. (2020) como um grave fator de risco o impacto que adiantamento da cirurgia de reconstrução tem, quando ela passa de 6 meses após a lesão, o paciente em menor probabilidade de alcançar resultados satisfatórios e possuem uma probabilidade maior de necessitar de cirurgias subsequentes. Isso elucida que, o atraso da cirurgia pode trazer complicações adicionais ou o acometimento por lesões secundárias, as quais irão requerer uma nova intervenção cirúrgica.

2.3 Biomecânica do Ligamento Cruzado Anterior e Mecanismos de lesões

O joelho possui uma função insubstituível no movimento e, para que isso ocorra, o Ligamento Cruzado Anterior (LCA), assim como os outros ligamentos, possui características importantes. Bradshaw (2011) caracteriza esses ligamentos e, por mais que focado no ligamento interespinhoso, elucida que, no geral, eles possuem um comportamento de resposta constitutiva não-linear, não sendo proporcional a força aplicada e podendo se alongar muito em pequenas tensões, mas se tornar mais rígido com forças maiores, e anisotrópica, ou seja, apresentando propriedades mecânicas diferentes a medida que a direção da força aplicada muda, com isso eles podem ser mais resistentes em algumas direções e menos em outras.

A partir disso entendemos que a análise da cinemática e a dinâmica do movimento articular são importantes para entender os mecanismos de lesão, os quais são processos ou eventos que levam a um dano, envolvendo um movimento ou a aplicação de forças que excede a capacidade de resistência articular que levam a alterações anatômicas e/ou funcionais. (Moore, Dalley e Agur, 2018). Os mecanismos de lesões podem se classificados como por contato, quando há situações de contato com atletas e/ou objetos que geram a força necessária para lesar o ligamento, ou sem contato, que ocorrem em situações de movimentação sem a necessidade de uma força interna, geralmente associadas a saltos e mudança de direção. Isso é relevante dentro do contexto do esporte, já que o atleta está sempre sujeito a ambas as situações, o que torna a prevenção dessas lesões mais difícil (Tavares et al., 2024).

O principal mecanismo de lesão associado ao LCA dentro do esporte é a desaceleração, classificada como de não-contato, sua cinemática consiste na execução de movimentos opostos e seguidos, intercalados por mudança de direção brusca do movimento da perna, a qual causa uma rotação externa em valgo. Nesses casos, o atleta executa um movimento de desaceleração rápida associada a uma mudança de posição súbita seguida de uma aceleração rápida, com isso, após o impacto da desaceleração súbita, a perna sofre uma rotação externa forçada assumindo uma posição em valgo. Essa movimentação rápida, provoca uma sobrecarga súbita no LCA que resulta em sua ruptura. Esse mecanismo de lesão, particularmente, é um dos mais difíceis de serem evitados dentro do esporte, tendo em vista que atletas de alta performance estão frequentemente expostos a esse padrão de movimento. Outro ponto importante está associado a sua classificada que, por ser uma lesão com mecanismo de não-contato, o tratamento possui um foco associado, além da recuperação efetiva e de qualidade, na prevenção de novas lesões por meio do controle neuromuscular e ajuste dos movimentos. (Barbalho; Zoghbi; Fatarelli, 2010).

Além desse tipo de lesão, a hiperextensão está frequentemente associada a lesão do Ligamento Cruzado Anterior (LCA). A cinemática dessa lesão se caracteriza pela articulação excedendo a sua amplitude normal, ou seja, a tíbia em relação ao fêmur se estende além dos 180º, fazendo com que a perna “dobre para trás”. O LCA possui a função de limitar esse deslocamento excessivo da tíbia em relação ao fêmur, o qual, quando ocorre, tende a acontecer associado ao movimento de rotação externa da tíbia – o osso gira para fora em relação a linha média do corpo – com o pé fixo no solo, sendo esses outros mecanismos de lesão comum associado ao esporte (Lopes, 2019). Também, a aterrissagem inadequada é um mecanismo de não-contato frequente no esporte, principalmente vôlei e basquete, nela, a força decorrente da aceleração provocada pela queda do atleta após um salto vertical aplicada de maneira excessiva sobre o joelho gera um desequilibro entre as forças musculares, tendendo a lesar o LCA. Esse fator é considerado um fator de risco para atletas

Dentro dos mecanismos associados as lesões de contato, há relatos de lesões Impacto lateral ou medial e impacto na região anterior da tíbia, os quais não possuem uma descrição científica que permita um debate mais aprofundado.

2.4 Impacto das lesões de LCA na funcionalidade e qualidade de vida

Os pacientes com lesões no Ligamento Cruzado Anterior estão suscetíveis a impactos tanto na funcionalidade como na qualidade de vida. Após a lesão e durante o tratamento, os pacientes passam por quadros persistentes no joelho, associada à restrição na força dos músculos que dão suporte a articulação, diminuindo a estabilidade e a flexibilidade da articulação (Oliveira, 2021). Além disso, as alterações funcionais diminuem a capacidade do paciente de realizar atividades diárias e esportivas, passando a depender de terceiros para realizar atividades básicas.

Esse contexto traz ao paciente, em alguns casos, ansiedade e frustração que podem evoluir para depressão, principalmente atletas. Associado a isso, ocorre a diminuição da capacidade laboral, que pode levar a preocupações sobre o futuro e o medo de complicações (Oliveira, 2021).

Nesse contexto, o tratamento com uma abordagem multidisciplinar comandada pelo ortopedista, aborda, além dos fatores físicos da recuperação, os aspectos psicológicos, por meio de tratamentos personalizados. A American Academy of Orthopaedic Surgeons, traz critérios para o manejo adequado e especializado de pacientes com lesão de LCA, levando em conta fatores como idade dos pacientes, presença de lesões associadas e o nível da atividade física, trazendo, dessa forma, melhores resultados.

Além das alterações funcionais, Ma et al. (2022) pontua que as lesões de LCA podem trazer alterações degenerativas, o que fomenta a necessidade de um acompanhamento contínuo com foco em prevenção da evolução deletéria do quadro e recorrência da lesão, agravando o quadro e o fator psicológico dos pacientes. Com isso, Grevnerts et al. (2021) fala sobre a colaboração multidisciplinar no tratamento é fundamental, o médico ortopedista deve levar em conta todos esses fatores e contextos a hora de decidir qual melhor via de tratamento. Dessa forma, a supervisão médica mais segurança ao paciente, por meio da supervisão direta, provemtno uma maior adesão ao tratamento, bem como resultados mais efetivos.

3 MATERIAIS E MÉTODOS

Este estudo consiste em uma revisão de literatura narrativa, com o objetivo de analisar e resumir as evidências acerca dos principais protocolos fisioterapêuticos aplicados ao tratamento de lesões do Ligamento Cruzado Anterior (LCA). A pesquisa tem foco em pacientes adultos e no impacto da atuação do ortopedista dentro da recuperação funcional e da qualidade de vida do paciente, sendo ela conduzida em bases de dados como PubMed, SciELO, LILACS, Cochrane Library e PEDro abrangendo artigos publicados de 2014 a 2024.

Para selecionar os artigos, a base de dados foi estruturada em palavras-chave como “Ligamento Cruzado Anterior”, “Medicina Esportiva”, “Ortopedia”, “Fisioterapia” e “Qualidade de vida”, combinados por operadores booleanos (AND e OR). Os estudos foram organizados e selecionados qualitativamente, considerando os principais protocolos e o como eles impactam positivamente na qualidade de vida do paciente a partir da atuação do médico ortopedista.

A questão chave para iniciar a pesquisa foi: “Como se dá o tratamento da lesão de Ligamento Cruzado Posterior e quais os efeitos positivos do acompanhamento contínuo do ortopedista, bem como sua atuação na elaboração de protocolos?”. A partir daí, estruturamos uma pesquisa com base em uma triagem de artigos que contemplem os métodos de inclusão, tais quais: preferencialmente publicados nos últimos 10 anos (2014-2025); estudos que abordem protocolos aplicados a pacientes com lesão de LCA; amostra do estudo envolvendo pacientes adultos (18 – 60 anos). Adicionalmente, alguns trabalhos que apresentassem análises específicas, fora do critério tempo, mas que acrescentassem de maneira singular ao debate, foram adicionados.

Dessa maneira, foram excluídos artigos que focassem apenas na intervenção cirúrgica; voltados para população pediátricas ou geriátricas; revisões sistemáticas e meta-análises; estudos sem relevância para os objetivos do trabalho. Por fim, o objetivo dessa revisão é compilar estudos que mostrem o protocolo mais efetivo na recuperação e devolução da funcionalidade do paciente pós lesão de LCA. Além disso, entender como o médico ortopedista tem efeito positivo em uma atuação direta dentro do tratamento.

4 RESULTADOS

A pesquisa gerou um total de 45 artigos científicos foram encontrados no PubMed, SciELO, LILACS, Cochrane Library e PEDro abrangendo artigos publicados de 2014 a 2024,por meio das palavras-chave “Ligamento Cruzado Anterior”, “Medicina Esportiva”, “Ortopedia”, “Fisioterapia” e “Qualidade de vida”, combinados por operadores booleanos (AND e OR). Os estudos foram organizados por meio de uma planilha e selecionados qualitativamente, considerando os principais protocolos e o como eles impactam positivamente na qualidade de vida do paciente, bem como a atuação do médico ortopedista no manejo da lesão.

Um total de 20 artigos foram aceitos, por contemplarem todos os pré-requisitos adotados e, portanto, utilizados na construção desse estudo sobre “Tratamento e Reabilitação das Lesões do Ligamento Cruzado Anterior: Uma Revisão Narrativa Sobre Protocolos e a Atuação do Médico Ortopedista”. Dentro da análise, separarmos os artigos científicos focados em protocolos de recuperação da lesão de LCA, totalizando 16 artigos científicos, daqueles que traziam o papel e a atuação do médico ortopedista, somando 4 artigos científicos, com o objetivo de entender o impacto desse profissional dentro da seleção de protocolos.

5 DISCUSSÃO

As evidências reunidas no presente trabalho apontam de forma consistente que o processo de reabilitação após lesão e/ou reconstrução do ligamento cruzado anterior (LCA) não pode ser entendido apenas como uma sequência técnica de exercícios, mas sim como uma intervenção complexa, progressiva e multidisciplinar, que envolve recuperação biomecânica, readaptação funcional, preparação para retorno seguro às atividades e manutenção de fatores psicossociais e comportamentais favoráveis. Esse entendimento é sustentado pelos achados descritos por Santana, Lima e Alves (2024), Rabelo et al. (2023), Matos Junior et al. (2023), Brito, Soares e Rebelo (2018) e Carvalho, Freitas e Cunha, os quais tratam de etapas complementares de um mesmo processo contínuo: preservar a integridade do joelho, devolver função e permitir reintegração plena do indivíduo ao esporte e/ou às atividades de vida diária.

No âmbito fisioterapêutico, Santana, Lima e Alves (2024) apontam que o treinamento proprioceptivo e neuromuscular tem mostrado resultados promissores em termos de melhora da função articular e do equilíbrio em pacientes submetidos à reconstrução de LCA, por restaurar a sensação de estabilidade do joelho. Os autores descrevem que o fortalecimento muscular é um aspecto importante tanto para restaurar estabilidade e funcionalidade, quanto para prevenir novas lesões. Segundo esses mesmos autores, grupos musculares como isquiotibiais e quadríceps devem ser trabalhados de maneira uniforme, pois o desequilíbrio de força entre eles compromete a recuperação e aumenta o risco de lesões recorrentes (Santana; Lima; Alves, 2024). Ainda de acordo com Santana, Lima e Alves (2024), protocolos que incluem exercícios de alta intensidade e resistência aceleram a recuperação e antecipam o retorno às atividades, dentro de uma proposta multifacetada que não se restringe a fortalecimento isolado, mas incorpora controle neuromuscular e progressão funcional. Esses autores também reforçam que, na fase final da reabilitação, a elaboração de treinos voltados especificamente para os movimentos exigidos pela atividade esportiva ou cotidiana do paciente é essencial para preparar o joelho para suportar cargas e movimentos complexos, garantindo um retorno mais seguro às atividades físicas e reduzindo o risco de nova lesão. Nessa mesma linha, os autores defendem que abordagens modernas e individualizadas, com intervenções precoces e programas de reabilitação bem estruturados, minimizam os impactos negativos a longo prazo, como degeneração de cartilagem e osteoartrite (Santana; Lima; Alves, 2024).

Esse entendimento dialoga diretamente com os achados qualitativos apresentados por Rabelo et al. (2023), que analisam o retorno ao esporte após reconstrução do LCA e demonstram que o processo de reabilitação não se limita à recuperação mecânica do joelho, mas envolve dimensões funcionais e sociais. Rabelo et al. (2023) destacam que o esporte, para muitos indivíduos, especialmente atletas, ultrapassa o caráter de lazer ou competição e passa a atuar como meio de inclusão social, promoção de saúde e até prevenção de doenças crônico-degenerativas. Ao mesmo tempo, esse aumento da participação esportiva gera maior ocorrência de lesões, traumas mecânicos e sobrecargas articulares, incluindo rupturas do LCA, frequentemente associadas a mudanças abruptas de direção em alta velocidade ou movimentos de desaceleração que impõem sobrecarga ao joelho (Rabelo et al., 2023). Assim, a reabilitação pós-LCA não atua apenas na restauração da capacidade física do atleta, mas também na tentativa de devolver ao indivíduo sua posição social, seu senso de identidade e sua autonomia. Isso torna o retorno ao esporte um desfecho complexo.

Rabelo et al. (2023) discutem ainda que a decisão entre a realização de cirurgia reconstrutiva ou o manejo conservador é influenciada por múltiplos fatores, como extensão da lesão, nível de instabilidade, prática de atividade física e demanda funcional do paciente. Esses autores mostram que o retorno ao esporte no mesmo nível de desempenho prévio não é universal: apenas 65% dos indivíduos retornam ao esporte com nível de rendimento semelhante ao anterior. Além disso, uma parcela relevante de pacientes não alcança o resultado funcional desejado mesmo após a cirurgia, especialmente no que diz respeito à participação social (Rabelo et al., 2023). Isso indica que o sucesso do tratamento não pode ser medido exclusivamente por critérios cirúrgicos ou articulares objetivos, mas também deve considerar reinserção esportiva e social, satisfação do paciente e recuperação da sensação de segurança durante o movimento.

Um ponto central levantado por Rabelo et al. (2023) é a dimensão psicológica no retorno ao esporte após reconstrução do LCA. Esses autores relatam que fatores psicológicos têm sido investigados como potenciais variáveis capazes de favorecer ou impedir o retorno esportivo. O medo de sofrer uma nova lesão surge como um elemento decisivo, atuando inclusive como barreira para que o atleta reassuma padrões de esforço e exposição semelhantes aos anteriores. As experiências emocionais negativas vividas após a lesão inicial e no período de recuperação também interferem no processo de retorno (Rabelo et al., 2023). Há ainda a influência de fatores pessoais de natureza psicológica, incluindo a autopercepção do paciente sobre sua própria condição e sua prontidão para voltar ao esporte. Rabelo et al. (2023) observam que instrumentos padronizados de avaliação têm sido usados para investigar esses aspectos psicológicos. No entanto, tais instrumentos capturam percepções subjetivas e muitas vezes não alcançam a profundidade necessária para compreender totalmente o impacto emocional e motivacional do processo de reabilitação, evidenciando uma limitação importante.

A presença e a atuação direta do médico ortopedista aparecem, então, como elemento de mediação entre reabilitação física e segurança emocional do paciente. Segundo Rabelo et al. (2023), a atuação do ortopedista transmite confiança ao paciente, mostra cuidado e auxilia especificamente no componente psicológico da recuperação. Essa confiança oferecida pelo ortopedista parece funcionar como ponte entre as orientações clínicas objetivas e a percepção subjetiva do paciente sobre sua própria capacidade de retorno. Esse dado se articula com a análise de Matos Junior et al. (2023), que destacam que a reabilitação eficaz de pacientes ortopédicos exige uma equipe multiprofissional, comandada principalmente pelo médico ortopedista. Segundo Matos Junior et al. (2023), essa condução amplia a chance de efetividade do tratamento porque gera um fator de confiança e centraliza o cuidado em um profissional que coordena abordagem, timing de intervenções e acompanhamento.

Matos Junior et al. (2023) também reforçam que a presença dessa equipe multiprofissional bem articulada produz benefícios relevantes: cuidado de melhor qualidade; abordagem mais abrangente e personalizada; recuperação mais rápida; menores complicações; e prevenção de complicações. Ou seja, há impacto direto não apenas na velocidade da recuperação, mas também na segurança desse processo. Para que essa articulação funcione de modo adequado, Matos Junior et al. (2023) indicam que são necessários alguns requisitos operacionais: comunicação clara e eficaz entre os profissionais; capacitação técnica; desenvolvimento de uma educação que promova entendimento mútuo das competências de cada área; e uma equipe integrada e colaborativa, capaz de evitar conflitos nas abordagens terapêuticas. Esses achados reforçam a ideia de que o sucesso da reabilitação pós-LCA depende tanto da qualidade técnica dos protocolos aplicados quanto do modo como esses protocolos são implementados e coordenados no contexto clínico real.

Esse aspecto organizacional e integrativo da reabilitação também está presente no trabalho de Carvalho, Freitas e Cunha, que abordam a reabilitação e o retorno à prática esportiva de atletas submetidos à reconstrução de LCA. Esses autores descrevem que a perda pós-operatória de força muscular compromete a estabilidade dinâmica do joelho. Por isso, defendem que treinamentos específicos e adequados são necessários no processo de reabilitação pós-cirúrgica, com ênfase em um treinamento de força muscular adequado e individualizado, principalmente dos músculos extensores, que desempenham papel crucial na estabilidade do LCA (Carvalho; Freitas; Cunha; 2023). Ainda segundo Carvalho, Freitas e Cunha, a escolha do enxerto na cirurgia de LCA historicamente envolve tendões patelar e isquiotibiais, mas o uso do tendão do quadríceps tem ganhado adesão devido aos bons resultados funcionais e à baixa taxa de complicações. Os autores apontam também que o diâmetro do enxerto está relacionado às complicações cirúrgicas e reforçam que o principal objetivo da reconstrução é restaurar a estabilidade estática e dinâmica e a integridade mecânica da articulação por meio da reconstrução do ligamento.

Carvalho, Freitas e Cunha descrevem que o retorno à prática esportiva depende não só da técnica cirúrgica adequada, mas de um processo rigoroso de reabilitação que respeite as limitações e o tempo de cicatrização. Ou seja, a pressa em expor precocemente o joelho a alta carga sem respeitar esse tempo biológico pode comprometer o desfecho. Esses autores reforçam que a reabilitação deve ser conduzida a partir de protocolos estruturados e individualizados para evitar novas lesões. Esse ponto converge com Santana, Lima e Alves (2024), que também defendem abordagens modernas, individualizadas e progressivas. Há um consenso entre os dois trabalhos de que os protocolos não são “genéricos”: eles precisam se adaptar ao estágio do paciente, ao tipo de demanda funcional que ele terá no futuro e ao padrão de movimento que precisa ser restabelecido.

Outro elemento de destaque em Carvalho, Freitas e Cunha é o papel da equipe multidisciplinar. Segundo esses autores, o treinamento correto, passado por uma equipe multidisciplinar comandada por ortopedista, resulta em melhora significativa da articulação do joelho, aumento da função articular e recuperação da capacidade para atividades básicas de vida diária. Eles afirmam que a reabilitação pós-operatória consolidada de forma eficaz não apenas potencializa o efeito da cirurgia, como também promove a recuperação funcional do joelho. Esse ponto dialoga com Matos Junior et al. (2023), que apresentaram a figura do ortopedista como coordenador técnico e emocional do cuidado. Ao mesmo tempo, isso também reforça o achado de Rabelo et al. (2023) de que a presença do ortopedista durante todo o processo transmite segurança subjetiva para o paciente, reduz medo e melhora adesão.

Ainda dentro do estudo de Carvalho, Freitas e Cunha, há dois fatores críticos que interferem diretamente nos resultados pós-operatórios e na capacidade de retorno esportivo: o ganho de peso corporal e o medo da dor. Os autores relatam que o ganho de peso se mostrou um fator considerável que dificulta a volta e a recuperação efetiva do ligamento. Esse aumento de peso estaria associado a um período de recuperação marcado por sedentarismo e alta ingestão calórica, levando a desequilíbrio energético. O aumento do peso corporal, portanto, precisa ser reconhecido como componente do plano terapêutico, e não tratado apenas como consequência secundária. Esse ponto tem correspondência com Rabelo et al. (2023), que identificam que o ganho de peso se torna um problema de saúde relevante durante a recuperação, estando associado ao sedentarismo e ao aumento do índice de massa corporal. Segundo esses autores, o aumento do IMC está ligado a menor taxa de retorno ao esporte. Ou seja, peso corporal e capacidade funcional não estão desconectados: eles interagem de forma bidirecional e acabam influenciando o desfecho final.

Além disso, Carvalho, Freitas e Cunha afirmam que muitos pacientes temem a dor e possuem compreensão limitada sobre a importância dos exercícios ativos, o que pode comprometer a adesão às etapas críticas da reabilitação. Por isso, os autores reforçam que o apoio psicológico e o suporte social são importantes para reduzir o estresse associado ao tratamento. Essa visão converge diretamente com Rabelo et al. (2023), que relatam que fatores psicológicos, como medo de sofrer nova lesão, experiências emocionais negativas após a lesão inicial e até o nível de autodisciplina e resiliência psicológica, interferem na decisão de voltar ao esporte. Rabelo et al. (2023) também destacam o papel tanto da motivação intrínseca (prazer em praticar esporte, autodisciplina) quanto de fatores externos, como suporte social, para a retomada da prática esportiva. Esse conjunto mostra que a reabilitação eficaz pós-LCA exige necessariamente manejo das barreiras emocionais e comportamentais do paciente, e não se restringe aos componentes físicos convencionais de força, equilíbrio e controle motor.

Em relação à prevenção, Brito, Soares e Rebelo (2018) afirmam que a prevenção da lesão do LCA deve ser encarada como prioridade constante e estruturada. Esses autores descrevem que o treino proprioceptivo e o treino neuromuscular atuam como ferramentas centrais tanto para prevenção de ruptura de LCA quanto para redução do risco de recorrência. Segundo Brito, Soares e Rebelo (2018), o treino neuromuscular visa aumentar a resposta motora involuntária por meio da estimulação de sinais aferentes e dos mecanismos centrais responsáveis pelo controle articular dinâmico. Esse tipo de treino melhora a habilidade do sistema nervoso em gerar padrões rápidos de resposta muscular, aumenta a estabilidade articular, diminui forças articulares deletérias e favorece a recuperação de padrões de movimento e habilidades. Os autores apontam que os componentes fundamentais do treino neuromuscular incluem o desenvolvimento de força muscular (resistência e potência) e a melhoria dos movimentos de ativação neuromuscular, sendo descrito como vital para manutenção de velocidade, potência e controle corporal (Brito; Soares; Rebelo, 2018).

Ainda no trabalho de Brito, Soares e Rebelo (2018), os autores ressaltam que os músculos isquiotibiais têm papel relevante na prevenção ao frearem o deslocamento anterior da tíbia, contribuindo para a estabilidade do joelho. Eles observam que, na presença de déficit de força dos isquiotibiais, os extensores do joelho passam a ser excessivamente recrutados. Por isso, esses autores defendem que o fortalecimento seja global, envolvendo também musculatura como flexores plantares do tornozelo e gastrocnêmio, que contribuem para estabilização do joelho. Para maximizar a prevenção de lesão de LCA, o desequilíbrio entre grupos musculares flexores e extensores do joelho precisa ser corrigido (Brito; Soares; Rebelo, 2018). Essa ênfase na correção de desequilíbrios musculares reforça o ponto de Santana, Lima e Alves (2024), que também defendem que desequilíbrios entre isquiotibiais e quadríceps aumentam risco de recorrência.

Brito, Soares e Rebelo (2018) também descrevem o papel do treino proprioceptivo, destacando sua contribuição para o controle corporal, a estabilidade articular e a consciência de posição e movimento. Segundo os autores, os proprioceptores presentes em músculos, tendões e cápsulas articulares estão associados a funções táteis e de proteção. Eles afirmam que o LCA possui diferentes terminações sensitivas, incluindo corpúsculos de Ruffini (relacionados à adaptação a estímulos suaves), corpúsculos de Pacini (resposta a estímulos bruscos) e corpúsculos de Golgi (resposta a estímulos externos), e que, quando o músculo é colocado em estresse, esses receptores atuam para proteger a integridade mecânica da articulação (Brito; Soares; Rebelo, 2018). Esses autores descrevem ainda que indivíduos com lesão de LCA podem desenvolver padrões motores adaptativos caracterizados pelo aumento da ativação dos isquiotibiais antes do joelho ser carregado, mantendo o joelho em maior flexão antes da carga.

Esse padrão é descrito como controle por “feedforward” e atua prevenindo a translação anterior da tíbia (Brito; Soares; Rebelo, 2018). Os autores também especificam que os programas preventivos devem ter duração entre 6 e 12 semanas, com três sessões diárias de 15 a 30 minutos, divididas em etapas: aquecimento; treino neuromuscular (focado em potência, ativação neuromuscular e resistência de força); e treino proprioceptivo (focado em equilíbrio unipodal e execução ligada ao objetivo de recuperação do LCA). Os mesmos autores relatam que incluir treinos que simulem as atividades reais do indivíduo promove melhor recuperação e integração do paciente ao meio no qual ele já estava inserido, de maneira mais efetiva (Brito; Soares; Rebelo, 2018).

Quando se observam em conjunto os achados de prevenção descritos por Brito, Soares e Rebelo (2018) e os achados de reabilitação descritos por Santana, Lima e Alves (2024), é possível identificar uma continuidade conceitual entre prevenção e reabilitação. Em ambos os casos, há ênfase em fortalecimento muscular global, correção de desequilíbrios, treino neuromuscular e treino proprioceptivo. Em ambos os casos, também aparece a necessidade de especificidade funcional: na prevenção, para reduzir o risco de ruptura inicial; na reabilitação, para permitir retorno seguro à atividade física e à rotina do paciente. Do ponto de vista clínico, essa convergência reforça que não existe uma barreira rígida entre “prevenir” e “reabilitar”: trata-se de um mesmo raciocínio aplicado em momentos diferentes do ciclo do atleta/paciente, com as mesmas bases de controle motor, estabilidade dinâmica e treino progressivo.

Considerando todos os estudos avaliados, emergem alguns pontos integradores. Primeiro, a reabilitação do LCA não é apenas física, mas biopsicossocial. A estabilidade objetiva do joelho precisa ser acompanhada de segurança subjetiva do paciente para executar movimentos intensos e de alta exigência, e isso depende de fatores como confiança no ortopedista, suporte psicológico e suporte social (Rabelo et al., 2023; Matos Junior et al., 2023; Carvalho; Freitas; Cunha). Segundo força muscular e controle neuromuscular aparecem de forma repetida como eixo central tanto para prevenir lesão inicial e recorrente (BRITO; Soares; Rebelo, 2018), quanto para acelerar a recuperação e preparar retorno com menor risco (Santana; Lima; Alves, 2024). Terceiro, peso corporal e adesão comportamental não são detalhes periféricos: ganho de peso durante o período de recuperação está associado a pior retorno e menor taxa de reintegração esportiva (Rabelo et al., 2023; Carvalho; Freitas; Cunha). Quarto, a coordenação multiprofissional liderada pelo ortopedista, com comunicação clara entre os profissionais e educação do paciente, é descrita como determinante na qualidade do desfecho clínico, na velocidade de recuperação e na prevenção de complicações (Matos Junior et al., 2023; Carvalho; Freitas; Cunha).

Dessa forma, os estudos analisados reforçam que a recuperação após lesão e reconstrução do LCA deve ser entendida como um percurso contínuo que começa na prevenção, passa pela reabilitação imediata pós-lesão e se estende até o retorno pleno à prática esportiva e às atividades da vida diária. Esse percurso depende de protocolos estruturados de fortalecimento, treino neuromuscular e proprioceptivo (Santana; Lima; Alves, 2024; Brito; Soares; Rebelo, 2018), de acompanhamento multiprofissional com liderança do ortopedista e comunicação integrada (Matos Junior et al., 2023; Carvalho; Freitas; Cunha) e do reconhecimento ativo de fatores psicossociais e comportamentais, como medo de nova lesão, autodisciplina, suporte social e controle de peso corporal (Rabelo et al., 2023; Carvalho; Freitas; Cunha). Em resumo, os achados apontam que o sucesso terapêutico após lesão do LCA não depende apenas de uma boa técnica cirúrgica ou de um protocolo de fortalecimento isolado, mas da integração consistente entre prevenção, reabilitação física estruturada, monitoramento multiprofissional e suporte psicológico contínuo.

6 CONCLUSÃO

A partir da análise dos estudos reunidos, observa-se que o sucesso no tratamento e reabilitação das lesões do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) depende diretamente da aplicação de protocolos fisioterapêuticos bem estruturados, individualizados e conduzidos sob a supervisão do médico ortopedista. Esses protocolos, quando aplicados de forma progressiva e integrativa, são fundamentais para restaurar a estabilidade articular, recuperar a força muscular e restabelecer a funcionalidade do joelho, reduzindo significativamente o risco de recidivas e complicações a longo prazo.

A atuação do ortopedista, além de técnica, tem papel estratégico na coordenação do cuidado, na orientação das etapas do tratamento e na segurança emocional do paciente, garantindo adesão, confiança e continuidade terapêutica. Assim, o envolvimento ativo desse profissional na elaboração, acompanhamento e ajuste dos protocolos de reabilitação potencializa os resultados clínicos e funcionais, reforçando a importância de uma abordagem multidisciplinar centrada no paciente e baseada em evidências científicas.

REFERÊNCIAS

BRADSHAW, R. J. Mechanical Characterization of the Interspinous Ligament using Anisotropic Small Punch Testing. 2011. 98 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Mecânica) – Brigham Young University, Provo, Utah, 2011.

BRITO, J; SOARES, J; REBELO, A. N. Prevenção de lesões do ligamento cruzado anterior em futebolistas. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, Rio de Janeiro, v. 14, n. 4, p. 304–309, jul./ago. 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbme/. Acesso em: 29 out. 2025.

CARVALHO, G. de A. P de; FREITAS, M. S de; CUNHA, M. G. de S. A reabilitação e o retorno à prática esportiva de atletas submetidos à reconstrução de ligamento cruzado anterior: uma revisão de literatura. In: Congresso Acadêmico do UniFOA, Volta Redonda, 2023. Anais […]. Volta Redonda: UniFOA, 2023.

CIRNE, B. G. et al. Retorno ao esporte após reconstrução do ligamento cruzado anterior: uma análise qualitativa. Fisioterapia em Movimento, Curitiba, v. 36, e36124, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1590/fm.2023.36124.0. Acesso em: 14 nov. 2024.

GRACIA, G; CAVAIGNAC, M; MAROT, V; MOUARBES, D; LAUMONERIE, P; CAVAIGNAC, E. Epidemiology of Combined Injuries of the Secondary Stabilizers in ACL-Deficient Knees: Medial Meniscal Ramp Lesion, Lateral Meniscus Root Tear, and ALL Tear: A Prospective Case Series of 602 Patients With ACL Tears From the SANTI Study Group. The American Journal of Sports Medicine, v. 50, n. 7, p. 1843-1849, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35416066/.

GRAY, H. Gray’s Anatomy: The Anatomical Basis of Clinical Practice. 42ª ed. Elsevier, 2020.

MA, R; GUESS, T; ECHELMEYER, D; STANNARD, J. P. Bench to Bedside: A Multidisciplinary Approach toward the Unknowns after ACL Injuries to Drive Individual Success. Missouri Medicine, v. 119, n. 2, p. 136-143, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36036042/.

MATOS JUNIOR, W da. M. et al. Articulação entre médico e fisioterapeuta no cuidado com pacientes ortopédicos. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação – REASE, São Paulo, v. 9, n. 8, p. 1191–1207, ago. 2023. DOI: 10.51891/rease.v9i8.10966.

MATOS JUNIOR, W da M; MENEZES, M. B. de; ALMEIDA, M. L. C de; et al. Articulação entre médico e fisioterapeuta no cuidado com pacientes ortopédicos. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 9, n. 8, p. 1191–1198, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.51891/rease.v9i8.10966. Acesso em: 15 nov. 2024.

QUINN, R. H.; SANDERS, J. O.; BROWN, G. A; MURRAY, J; PEZOLD, R. The American Academy of Orthopaedic Surgeons Appropriate Use Criteria on the Management of Anterior Cruciate Ligament Injuries. The Journal of Bone and Joint Surgery. American Volume, v. 98, n. 2, p. 153-155, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26791036/.

MOORE, K. L.; DALLEY, A. F.; AGUR, A. M. R. Anatomia orientada para a clínica. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.

MOORE, K. L.; DALLEY, A. F.; AGUR, A. M. R. Anatomia orientada para a clínica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018.

OLIVEIRA, R. C. A. Abordagem fisioterapêutica no tratamento da osteoartrite de joelho em idosos. 2021. 17 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Fisioterapia) – Faculdade Pitágoras, São Luís, 2021. Disponível em: https://repositorio.pgsscogna.com.br/bitstream/123456789/39281/1/RAIMUNDO_OLIVEIRA.pdf.

RABELO, L. M. et al.Retorno ao esporte após reconstrução do ligamento cruzado anterior: uma análise qualitativa. Revista Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Belo Horizonte, v. 58, n. 3, p. 221–229, jun. 2023.

SANTANA, L. M; LIMA, L. A de; ALVES, É. D. Lesão de Ligamento Cruzado Anterior e Fisioterapia: Caminhos para uma Recuperação Otimizada. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, Brasília, 2023.

SANTOS, C. E. S; OLIVEIRA NETO, M. D de. Atuação do fisioterapeuta na amplitude de movimento no pós-operatório de ligamento cruzado anterior. Research, Society and Development, v. 12, n. 14, p. e445101214, 2023. DOI: 10.33448/rsd-v12i14.44510.

SANTOS, J. R. T. Perfil epidemiológico de pacientes submetidos à reconstrução do ligamento cruzado anterior em um hospital público de referência da cidade de Teresina/PI. Fisioterapia Brasil, v. 16, n. 2, p. 129-136, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.33233/fb.v16i2.272.

SILVA NAZARIO, M. P; PINTO BERGAMIM, J. S. S; NASRALA, M. L. S; NASRALA NETO, E; FELIPPE, L. A; PLETSCH, A. H. M. Ligamento Cruzado Anterior: Anatomia e Biomecânica. Journal of Health Sciences, v. 21, n. 2, p. 166-169, 2019. DOI: 10.17921/2447-8938.2019v21n2p166-169.

SUNBOL, M. A.; ALSUWAIDAN, S. I. Epidemiology of recurrent anterior cruciate ligament injuries according to type of sport. Saudi Medical Journal, v. 42, n. 8, p. 872-877, 2021. Disponível em: https://www.semanticscholar.org/paper/Epidemiology-of-recurrent-anterior-cruciate-to-type-Sunbol-Alsuwaidan/029422516b60e93d38fbd841a40fb45ad8ce7a0b.

TAVARES, B. da S; CORRÊA, M. da C; LIMA, R. F. de S. A lesão do ligamento cruzado anterior e suas consequências na vida dos praticantes de esportes. Revista Eletrônica Acervo Médico, v. 24, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.25248/reamed.e14784.2024.


¹Graduando em Medicina pela Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itabuna;
²Mestre. Docente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itabuna.;