TRANSIÇÃO PARADIGMÁTICA:  DA RACIONALIDADE ECONÔMICA TRADICIONAL À ECONOMIA VERDE NO CONTEXTO DO INTERESSE COLETIVO ÉTICO GLOBAL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202506051217


Rogério Galvão de Carvalho


RESUMO:  

Este artigo discute a transição paradigmática da racionalidade econômica tradicional – que pressupõe a maximização do auto-interesse dos agentes – para uma Economia Verde que prioriza o interesse coletivo ético. Baseando-se na Teoria da Escolha Racional (BACKER, 1990) e nas análises dos vieses comportamentais (KAHNEMAN; TVERSKY, 1979), o estudo integra os conceitos das revoluções paradigmáticas (KUHN, 2010; POPPER, 1999) e da destruição criativa (SCHUMPETER, 1967) com as contribuições recentes, notadamente as ideias de Rogério Galvão de Carvalho acerca do “nível de racionalidade econômica”. Ademais, analisa-se o impacto dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 (ONU, 2015), enfatizando a necessidade de internalizar os custos ambientais e sociais nas políticas públicas. Os resultados indicam que a incorporação de uma visão sistêmica e de longo prazo é essencial para enfrentar os desafios ambientais e sociais contemporâneos, promovendo uma transformação sustentável e ética da economia.

Palavraschave: Economia Verde; Racionalidade Econômica; Escolha Racional; Agenda 2030; Objetivos de Desenvolvimento Sustentável; Sustentabilidade; Destruição Criativa; Paradigmas Econômicos.

ABSTRACT  

This article discusses the paradigmatic transition from traditional economic rationality, which assumes the maximization of self-interest, to a Green Economy that emphasizes collective ethical interests. By drawing on rational choice theory (BACKER, 1990) and behavioral bias research (KAHNEMAN; TVERSKY, 1979), the study integrates the ideas of paradigm shifts (KUHN, 2010; POPPER, 1999) and creative destruction (SCHUMPETER, 1967) with recent contributions – notably those of Rogério Galvão de Carvalho on the “economic rationality level.” Furthermore, it examines the impact of the 17 United Nations Sustainable Development Goals (SDGs) of Agenda 2030 (ONU, 2015), emphasizing the need to internalize environmental and social costs into public policies. The findings underline that adopting a systematic and long-term perspective is vital to address contemporary environmental and social challenges, thereby promoting a sustainable and ethical economic transformation.

Keywords: Green Economy; Economic Rationality; Rational Choice; Agenda 2030; Sustainable Development Goals; Creative Destruction; Economic Paradigms.

INTRODUÇÃO 

A hipótese da racionalidade econômica, que postula a maximização do auto-interesse dos agentes, tem sido o alicerce de modelos teóricos e práticos na economia. Embora essa abordagem, fundamentada na Teoria da Escolha Racional (BACKER, 1990), permita predições em contextos de curto prazo, evidências oriundas dos estudos de KAHNEMAN e TVERSKY (1979) demonstram que as decisões reais dos indivíduos são permeadas por vieses e heurísticas. Nesse sentido, o pensamento econômico tradicional revela suas limitações ao desconsiderar a complexidade dos processos decisórios.

Paralelamente, concepções como as de KUHN (2010) e POPPER (1999) destacam que os paradigmas científicos – inclusive os econômicos – devem estar abertos a revisões e à falsificação, sobretudo quando acumulam anomalias que dificultam a explicação da realidade. As inovações disruptivas, conforme preconiza SCHUMPETER (1967) por meio do conceito de destruição criativa, aliadas às modernas críticas comportamentais, apontam para a necessidade de uma abordagem que transcenda o tradicional “homo economicus”.

Dentro desse panorama, as ideias de Rogério Galvão de Carvalho (2024) propõem o constructo do “nível de racionalidade econômica das escolhas”, enfatizando que a hipótese da racionalidade deve ser considerada uma hipótese testável e não um axioma incontestável. Ao integrar elementos da Escolha Racional com conceitos de racionalidade limitada e da Teoria do Prospecto, Carvalho oferece bases para uma análise mais realista do comportamento dos agentes econômicos. Ademais, a incorporação dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 (ONU, 2015) fornece um framework para reorientar as políticas públicas, internalizando os custos ambientais e sociais e promovendo uma Economia Verde — caracterizada por práticas circular, climática, regenerativa e resiliente.

REVISÃO DA LITERATURA 

No que se refere à Hipótese da Racionalidade Econômica e a Escolha Racional. A fundamentação clássica da racionalidade econômica, ancorada na maximização do auto-interesse, tem sido crucial para a teoria da escolha racional (BACKER, 1990). Todavia, evidências recentes apontadas por KAHNEMAN e TVERSKY (1979) indicam que os agentes frequentemente se desviam do comportamento ideal, influenciados por vieses cognitivos. Nesse contexto, Carvalho (2024) propõe uma abordagem diferenciada, sugerindo que a hipótese da racionalidade seja tratada como uma variável passível de avaliação empírica – um “nível de racionalidade” que integre tanto os pressupostos da escolha racional quanto os conceitos da racionalidade limitada.

No tange as Limitações e Críticas ao Modelo Tradicional, embora tenha uma sólida aplicação teórica, o modelo tradicional falha em internalizar externalidades ambientais e sociais, limitando-se a ganhos imediatos. KUHN (2010) observa que paradigmas consolidados persistem mesmo na presença de evidências adversas, enquanto POPPER (1999) argumenta que a ciência só avança quando os modelos são submetidos a testes que possam rejeitá-los. Assim, a aplicação exclusiva do auto-interesse para explicar os comportamentos econômicos se mostra insuficiente para abordar os desafios contemporâneos.

Com relação às Contribuições Integradoras, ou seja, Inovação, Narrativas e 17 ODS da ONU, a Teoria da Destruição Criativa (SCHUMPETER, 1967) demonstra que o progresso econômico se efetua pela substituição de práticas obsoletas por inovações disruptivas. Em paralelo, as reflexões de HARARI (2015) e SEN (1999) enfatizam a necessidade de repensar as narrativas culturais e ampliar as capacidades humanas. Ao incorporar os 17 ODS (ONU, 2015), objetiva-se traçar metas claras que orientem a transformação sistêmica e a internalização dos custos ambientais e sociais, apontando para uma Economia Verde pautada por valores éticos e coletivos.

ANÁLISE  CRÍTICA

Há inércia paradigmática e resistência institucional, porque os modelos tradicionais são sustentados tanto por bases teóricas quanto por estruturas institucionais consolidadas. KUHN (2010) evidencia que paradigmas resistem a mudanças, mesmo quando confrontados com evidências de suas limitações, e POPPER (1999) reforça a necessidade de testes críticos. Carvalho (2024) acrescenta que tratar a racionalidade como um constructo variável permite capturar melhor a complexidade dos processos decisórios, superando a noção inabalável do “homo economicus”. Essa resistência é agravada por interesses que se beneficiam do status quo, dificultando a transição para modelos que priorizam o interesse coletivo.

No contexto, da complexidade dos problemas globais e a reforma dos paradigmas: a degradação ambiental, as mudanças climáticas e as desigualdades apontam para a insuficiência dos fundamentos do modelo tradicional. 

A integração dos vieses comportamentais (KAHNEMAN; TVERSKY, 1979) com as críticas epistemológicas de KUHN (2010) e POPPER (1999) reforça a necessidade de novos paradigmas. As contribuições de SEN (1999) e HARARI (2015) promovem a ressignificação das narrativas sociais e a expansão das capacidades humanas, enquanto os 17 ODS (ONU, 2015) fornecem metas concretas para a internalização dos custos ambientais e sociais.

Os Dados empíricos, por sua vez, têm demonstrado que políticas públicas orientadas à Economia Verde promovem ganhos em eficiência energética e reduzem externalidades negativas. Estudos apontam para o sucesso de inovações alinhadas à destruição criativa (SCHUMPETER, 1967) e à aplicação dos 17 ODS, os quais, ao integrar políticas sustentáveis, facilitam a transição para um modelo econômico mais ético. A abordagem de Carvalho (2024) tem se mostrado útil na avaliação do “nível de racionalidade econômica” em investigações de campo e projetos de desenvolvimento regional.

ESTRATÉGIAS PRÁTICAS PARA A IMPLEMENTAÇÃO DA ECONOMIA VERDE 

Para efetivar a transição paradigmática, propõe-se a adoção de estratégias integradas: como Políticas Públicas e Incentivos Governamentais, com a criação de subsídios para energias renováveis, incentivos fiscais para práticas sustentáveis e a implementação de impostos sobre carbono, promovendo a substituição de práticas obsoletas por inovações (SCHUMPETER, 1967).

Outra estratégia é o fomento de novas tecnologias e Inovação, como por exemplo, investir em soluções que fomentem a economia circular, como materiais biodegradáveis e processos regenerativos, contribuindo para a redução do consumo desenfreado de recursos.

Além disso, Parcerias e Colaboração Interdisciplinar para promover a integração entre setor público, iniciativa privada e academia para incorporar críticas e aprimorar práticas, alinhando-se à perspectiva de mudanças paradigmáticas (KUHN, 2010).

Outro ponto relevante seria a internalização das Externalidades: Redefinir os indicadores de sucesso econômico para incluir custos ambientais e sociais, promovendo uma análise ética e sustentável.

Também seria a educação e Conscientização Social: com o desenvolvimento campanhas e programas de capacitação que disseminem uma nova cultura voltada para a sustentabilidade, conforme os princípios defendidos por SEN (1999) e HARARI (2015).

Além do mais, a integração com os ODS da Agenda 2030, ao incorporar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no planejamento e na execução de políticas públicas, assegurando metas claras para a erradicação da pobreza, justiça social e preservação ambiental (ONU, 2015).

DISCUSSÃO E PERSPECTIVAS FUTURAS

A análise comparativa entre a racionalidade econômica tradicional e a Economia Verde evidencia que a busca pelo auto-interesse, por si só, não é suficiente para enfrentar os complexos desafios ambientais e sociais do presente. A conjugação das críticas à hipótese da escolha racional (BACKER, 1990) com os vieses comportamentais revelados por KAHNEMAN e TVERSKY (1979) e a necessidade de constante teste teórico, conforme defendido por POPPER (1999) e KUHN (2010), reforça a importância de repensar os fundamentos econômicos.

Nesse contexto, a abordagem de Carvalho (2024) acerca do “nível de racionalidade econômica” oferece uma perspectiva prática para aprimorar a formulação de políticas e a análise dos processos decisórios. Aliada à integração dos 17 ODS (ONU, 2015), essa perspectiva aponta para o desenvolvimento de modelos empíricos que avaliem comparativamente os benefícios das iniciativas orientadas à Economia Verde em diferentes contextos.

CONCLUSÃO 

O presente artigo evidenciou que a lógica da maximização do auto-interesse, central à racionalidade econômica tradicional (BACKER, 1990), mostra-se limitada para os desafios ambientais e sociais atuais. A necessidade de revisão dos paradigmas, conforme defendido por KUHN (2010) e POPPER (1999), aliada às contribuições teóricas e empíricas – incluindo os vieses comportamentais identificados por KAHNEMAN e TVERSKY (1979) e o constructo do “nível de racionalidade” proposto por CARVALHO (2024) – fundamenta a urgência de adotar uma Economia Verde. A integração com os 17 ODS (ONU, 2015) amplia essa discussão, provendo um framework global para a internalização dos custos ambientais e sociais e a promoção de políticas éticas e sustentáveis. Conclui-se que a transformação do modelo econômico passa pela implementação de estratégias inovadoras, investimentos em tecnologias disruptivas e o fortalecimento da educação e da conscientização social, elementos essenciais para a construção de um futuro sustentável e equitativo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

– BACKER, Gary. Teoria da Escolha Racional: Fundamentos e Aplicações. Nova York: Oxford University Press, 1990.

– CARVALHO, Rogério Galvão de. O constructo do nível de racionalidade econômica das escolhas. Revista FT, 2024. Disponível em: <https://revistaft.com.br/o-constructo-do-nivel-de-racionalidade-economica-das-escolhas/>. Acesso em: 31 maio 2025.

– CARVALHO, Rogério Galvão de. The Economic Decision-Making Process in the Context of Artificial Intelligence. Editora, 2024. p. 318-337.

– HARARI, Yuval Noah. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.

– KAHNEMAN, Daniel; TVERSKY, Amos. Prospect Theory: An Analysis of Decision Under Risk. Econometrica, v. 47, n. 2, p. 263-291, 1979.

– KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010.

– ONU. Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova York: ONU, 2015.

– POPPER, Karl. A Lógica da Pesquisa Científica. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

– SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, Socialismo e Democracia. São Paulo: Nova Cultural, 1967.

– SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.