TRABALHO VOLUNTÁRIO NO CONTEXTO DA ONCOLOGIA E  IMPLICAÇÕES NO AUTOCUIDADO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202507311114


Carine Ferreira Lopes1
Anna Cláudia Yokoyama dos Anjos2
Rosimár Alves Querino3


RESUMO

O estudo investigou as motivações e implicações do trabalho voluntário no contexto do tratamento de pacientes oncológicos, bem como as repercussões dessa prática no autocuidado dos voluntários. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, realizada em um hospital universitário de Minas Gerais com seis voluntários atuantes no setor de oncologia. Foram utilizadas entrevistas semiestruturadas, observações participantes e registros em diário de campo. Os resultados revelam que as motivações para o voluntariado são diversas, envolvendo: Gratidão a Deus e experiências pessoais com o câncer; Desejo de se sentir útil, preencher o tempo livre; Busca por bem-estar emocional e melhoria da saúde mental; Espiritualidade e religiosidade como pilares de engajamento; Ressignificação da vida, autoconhecimento e empatia. Quanto ao autocuidado, o estudo mostrou que a maioria dos voluntários relatou melhoras na saúde mental e espiritualidade. No entanto, poucos apontaram mudanças concretas em hábitos de saúde física. Alguns passaram a realizar exames com mais frequência e se tornaram mais atentos à alimentação e ao bem-estar geral, motivados pelo contato com pacientes oncológicos. Considera-se que o trabalho voluntário no contexto da oncologia é uma via de mão dupla: promove benefícios significativos tanto aos pacientes quanto aos próprios voluntários, que encontram propósito, identidade, e desenvolvimento pessoal através do ato de cuidar. 

PALAVRAS-CHAVE: Oncologia; Trabalho Voluntário; Autocuidado. 

INTRODUÇÃO

Toda pessoa que exerça uma atividade de trabalho, independentemente de estar inserido no mercado formal ou informal é considerado trabalhador (Brasil, 2018). Considera-se trabalhador formal  aquele com  relações empregatícias regidas pela Consolidação das Leis Trabalhistas ou o funcionalismo público. Por  sua vez,  o trabalhador informal é aquele que trabalha por conta própria e/ou não possui  relações de trabalho guiadas pelas leis trabalhistas como, por exemplo, o trabalho intermitente, o trabalho em plataformas digitais. Destarte,  o mercado informal tem crescido acentuadamente nos últimos anos e,  segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa (IBGE), a taxa de informalidade no Brasil, até agosto de 2023 era de 39,1% (IBGE, 2023).

Os trabalhadores voluntários são considerados informais (De Queiroz; Taguchi, 2023). A lei nº 9.608 de 18 de fevereiro de 1998, considera  como serviço voluntário a atividade não remunerada prestada por pessoa física à entidade pública, de qualquer natureza ou, a instituição privada de fins não lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência à pessoa. O voluntariado vem recebendo cada vez mais atenção em setores organizados da sociedade, suscitando um interesse renovado, por discussões de caráter acadêmico e científico (Pinto, 2022). 

Para Oliveira (2022), o trabalho voluntário é aquele realizado de forma espontânea, por vontade própria, que não tem obrigatoriedade para seu cumprimento e que, além disso, não possui remuneração financeira. No voluntariado em saúde, o estreito contato com pacientes e familiares pode proporcionar  a criação de vínculos e laços afetivos (Andrade, 2022).

A assistência à pessoa referida nesta lei se configura no âmbito da saúde como diferentes expressões do cuidado que pode ser entendido como um conjunto de atos, ou práticas sociais, emoções, padrões éticos, comportamentos e ações que envolvem o conhecimento, valores e habilidades, viabilizando melhorias no processo de viver ou mesmo, promovendo a sustentabilidade da vida humana e ainda sendo discutido como promotor de condições melhores no processo de morrer (Marcondes, 2020). Tal  definição,  permite a compreensão do  autocuidado e do  cuidado com o outro.

No contexto do tratamento do câncer, múltiplas dimensões da vida são afetadas quando a pessoa é acometida pela doença, desencadeando situações de fragilidade, sejam decorrentes da própria evolução da doença, dos tratamentos ou mesmo, das reações adversas.  Faz-se necessário o apoio, afeto, compreensão familiar, além de outros cuidados que podem ser oferecidos por familiares, amigos ou mesmo cuidadores, sejam estes remunerados ou não. O voluntário é um ator frequentemente presente neste contexto de cuidado cujas atividades não se  limitam ao manejo das condições físicas debilitantes da doença, envolvendo  o acolhimento de diferentes necessidades humanas básicas (Sena et al., 2011).

Observa-se que o trabalho voluntário é um importante componente do cuidado no cenário do tratamento oncológico. Caracteriza-se como um suporte social valioso e, muitas vezes, para pessoas de baixa renda ou para aquelas que vivem sozinhas ou mesmo para as que não têm familiares próximos, os voluntários são o único apoio recebido. A relação do voluntário com paciente e família, por vezes torna-se mais íntima e estreita do que com os profissionais de saúde envolvidos no tratamento. Estes trabalhadores voluntários oferecem atenção, escuta, conforto, convívio, esperança, incentivo para continuidade do tratamento, troca de informações e experiências, dentre outras formas de cuidado, expressando assim sentimentos positivos que influenciam no universo emocional dos pacientes e de seus familiares (Souza, 2003).

No  ambiente hospitalar, inclusive no âmbito da oncologia, o papel do voluntário torna-se muito relevante pois centra-se nas necessidades do indivíduo e da família que, por vezes negligenciadas  pelos  profissionais da saúde. Um dos objetivos dos voluntários que trabalham no  ambiente hospitalar é promover a sensação de bem-estar e colaborar para melhora da qualidade de vida do paciente e de sua família por meio  de apoio emocional, físico e social. Tais objetivos só podem ser alcançados graças  ao estabelecimento de vínculos (Bechara; Bernardino, 2021;  Diogo, 2016; Ramos, 2015; Tavares, 2014).

Estudos como o de Salci (2020) tem indicado que as motivações para o desenvolvimento do trabalho voluntário no contexto de oncologia abarcam múltiplas dimensões ), como a caridade, amor ao próximo, religiosidade e incentivo familiar, além de tratar-se de uma questão cultural.

O presente trabalho buscou compreender  as motivações de  voluntários para atuarem em serviços  de atendimento ao paciente oncológico, bem como  o trabalho desenvolvido e suas possíveis relações com a  construção do   autocuidado. 

A questão norteadora do estudo foi assim delineada: quais as motivações de voluntários para atuar no tratamento do paciente oncológico e as possíveis relações entre o trabalho desenvolvido e a construção do autocuidado? 

METODOLOGIA

Trata-se de pesquisa com abordagem metodológica qualitativa, descritiva, que utilizou a etnografia com as técnicas de observação participante, entrevista semiestruturada e registros em diário de campo para a  construção do conjunto dos dados (Geertz, 1989).

A equipe de pesquisa  foi composta por docentes e mestranda do Programa de Pós-Graduação de uma Universidade Federal do interior do estado de Minas Gerais, Brasil.

A construção  de dados ocorreu no setor de Oncologia de um Hospital Universitário no estado de Minas Gerais.  Participaram do presente estudo voluntários, inseridos no serviço de oncologia, maiores de 18 anos, com capacidade de compreensão e diálogo.  O convite para participação na pesquisa foi feito pela mestranda.  Mediante o aceite e após explicação sobre os objetivos do estudo, riscos e benefícios da pesquisa e sobre a forma de participação, aqueles que aceitaram conceder entrevista áudio-gravada, eram considerados potenciais participantes. A pesquisadora se colocou à disposição para responder a qualquer possível dúvida.O estudo seguiu as normas da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e  foi aprovado pelo  Comitê de Ética em Pesquisa.  Visando garantir o sigilo e a privacidade dos participantes, cada um deles recebeu um nome fictício. 

Todos os participantes registraram seu consentimento  mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).  Os TCLE foram assinados em duas vias e uma delas entregue ao participante.   Voluntários que exerciam suas atividades em seguimento não hospitalar e/ou fora do contato com pacientes atendidos no setor de oncologia, bem como aqueles que não aceitaram a gravação das entrevistas ou ainda, que desistiram de participar da pesquisa após já ter sido iniciada a coleta dos dados, foram excluídos.

Os pressupostos teóricos e epistemológicos da Antropologia e da Etnografia sustentaram   a construção e a discussão dos dados (Geertz, 1989). Desta forma, os temas foram construídos com base na escuta, diálogo, leitura e releitura do corpo de dados das entrevistas, das observações do contexto e,finalmente, dos registros feitos em diário de campo.

Tal abordagem permite  a compreensão do sujeito como ser social, biológico, histórico e cultural, através de suas experiências, construindo significados, oportunizando a legitimidade quanto ao processo de interpretação do objeto de estudo, pois somente assim é possível obter o real entendimento, no presente caso,  que tange a sua participação enquanto ator social  na atividade voluntária, e como isso influencia em sua vida, em sua construção de saberes sobre saúde e doença (Helman, 2003; Geertz, 1989).

Em diversos momentos nos quais a pesquisadora principal esteve no setor, participantes não puderam conceder as entrevistas, impedidos por diversos motivos, como por exemplo: falta de tempo, cobertura da escala de serviço, ou mesmo por se sentir desconfortável em relação à áudio gravação. Apesar desses contratempos, o momento de visita ao setor da oncologia, sempre foi muito oportuno para observação do contexto e da dinâmica de trabalho, os quais eram sempre registrados em diário de campo. Durante a busca ativa por voluntários dispostos a participar da pesquisa, conversas informais eram estabelecidas e contribuíram sobremaneira para a compreensão das atividades desenvolvidas pelos voluntários. 

RESULTADOS

O setor onde a construção de dados ocorreu  conta com 24 leitos de internação para adultos, 31 consultórios médicos e 10 salas para consultas e  procedimentos da equipe multiprofissional. Possui, também, duas  salas amplas para administração de quimioterapia para adultos e uma sala de quimioterapia pediátrica. Em média, 740 quimioterapias mensais são realizadas. O serviço de radioterapia conta com dois aparelhos aceleradores lineares, um aparelho de braquiterapia e serviço de diagnóstico por imagem que atende em conjunto, em média, 150 pacientes por dia.

O grupo de voluntários  iniciou seus trabalhos em 1990 e  foi oficialmente instituído em  1996. Desde o início das atividades teve como objetivo mobilizar a sociedade para que as urgências e necessidades do tratamento oncológico para que fossem atendidas de forma 100% gratuita e humanizada. Conta hoje com aproximadamente 400 membros, divididos em diferentes equipes de trabalhos, intra e extra-hospitalares.    

O acompanhamento das atividades dos voluntários permitiu o mapeamento de suas diferentes ações. O Acolhimento  atua junto ao serviço social na recepção de novos pacientes, orientando e promovendo conhecimento acerca do tratamento e dos serviços oferecidos pelo hospital. A equipe de acompanhamento de pacientes durante a quimioterapia ou durante a internação, atua na ausência de familiar ou acompanhante.  A Amizade, Motivação e Embelezamento (AME) promove bem estar físico e mental, com serviço de manicure, massagem, reiki, dentre outras atividades. O apoio administrativo organiza todo o processo de recebimento e repasse das doações; apoio às cidades vizinhas, que consiste na presença de voluntários nas cidades que possuam um número significativo de pacientes em tratamento. 

O apoio espiritual encoraja a todos, independente da escolha religiosa a buscar dentro de si o ânimo para o enfrentamento à doença e tratamento. A equipe de  artesanato é  dividida em duas frentes: uma na captação de recursos através da venda de produtos confeccionados pelos voluntários, bem como ensinar a atividade artesã para os pacientes e familiares que se interessarem. A equipe do  viveiro de mudas de plantas recebe doações de plantas e itens de jardinagem para que possam cultivar e vender tais itens, arrecadando fundos para o hospital. Os voluntários do Bazar  recebem, organizam e promovem a venda dos itens para arrecadar fundos. A equipe do  Centro de Cuidado Paliativo Oncológico (CCPO) se ocupa das visitas aos pacientes e familiares tanto em casa, quanto no centro de internação para ouvir suas queixas, seus desejos, apoiar os familiares e assistir às famílias no contexto pós-óbito.

A  Brinquedoteca é voltada às crianças em tratamento, desenvolvendo atividades lúdicas e apoio pedagógico tanto no hospital quanto no contexto domiciliar. O entretenimento  faz com que o tempo de espera dentro do ambiente hospitalar passe de forma suave com brincadeiras, jogos, músicas, cantigas e histórias. Os voluntários se dedicam, também, ao preparo e distribuição de lanches e alimentos aos pacientes e seus acompanhantes. A equipe da  Recepção que visa oferecer atendimento humanizado aos pacientes e acompanhantes no saguão do hospital juntamente com os funcionários da portaria, além de se responsabilizar pela seleção, treinamento e encaminhamento de candidatos a vagas compatíveis com seu perfil. 

A caracterização dos participantes é apresentada no Quadro 1. 

Quadro 1 – Caracterização dos participantes do estudo segundo idade, estado civil, tempo de voluntariado, profissão e atividade desenvolvida.

Dentre os seis voluntários participantes da pesquisa, apenas um era  do sexo masculino;  somente duas participantes tinham menos que 60 anos. Quatro encontram-se aposentados. Em relação ao tempo de atuação como voluntário, houve uma diversidade sendo dois anos o mínimo e dezesseis o máximo. 

Com  essa primeira aproximação aos participantes, passamos a  indagar sobre o que desperta o interesse e motivação para o trabalho voluntário e qual a relação com o autocuidado nessa pluralidade de  pessoas com características e histórias de vida tão diferentes?

Motivações para o trabalho voluntário

Conforme apresentado no quadro 1,  Maria  exerceu a profissão de técnica em enfermagem por muitos anos, prestando assistência aos pacientes com doenças oncológicas, no mesmo local onde hoje atua como voluntária. Ainda durante o período do exercício da enfermagem, buscou meios de tornar-se voluntária e devido a esta escolha pessoal, enfrentou algumas dificuldades com sua chefia imediata, que reprovava a  o vínculo profissional e voluntário concomitantes, no mesmo setor. Ainda assim, Maria se manteve firme em seu propósito, demonstrando a valorização de sua experiência profissional e de outra atividade que também lhe trouxesse a realização pessoal; algo que pudesse preencher seu lado humanitário e altruísta – o trabalho voluntário. A gratidão à Deus e sentir-se favorecida diante de múltiplas situações de adoecimento, vividas por outras pessoas naquele ambiente de tratamento oncológico, foi destacado como a principal motivação para atividade voluntária, no discurso de Poliana: 

“ … Ela (mãe de Poliana) veio a falecer devido a [complicações e evolução] do câncer e, assim, com o passar dos anos, por mais que eu tive uma experiência ruim, eu tive a necessidade de agradecer a Deus, além das palavras, sabe? Fazer algo para o próximo, como a minha mãe fazia. Ela fazia quando eu era criança e a sensação é muito boa de poder ver pessoas felizes, por aquele pouco que a gente faz, ver a gratidão. A gente mais recebe do que dá, na verdade!” (Poliana)

No discurso de Maria foi observada a motivação para o voluntariado frente à necessidade de doar-se, sem esperar algo em troca disso: 

“Mas eu queria aposentar; o que eu tinha que fazer eu fiz, fiz bem feito, fiz com amor; fiz porque queria fazer mesmo… Eu tenho 70 anos, então saí de lá com 65 (anos) e pensei: o que eu tinha que dar já dei.  O que de tinha que fazer eu fiz e agora, vou fazer sem remuneração, sem esperar retorno [financeiro](…)”(Maria)

Cada um tem uma vocação!

Os  seis participantes,  desenvolviam diferentes  atividades.  Poliana fazia parte do grupo que auxiliava no preparo e distribuição  de alimentos,  – servindo o café da manhã. 

Então, a gente é responsável pela equipe do lanche da quarta feira de manhã, né? A gente é responsável por preparar o lanche, organizar a cozinha, servir o paciente, né? E levar conforto da maneira possível que a gente conseguir.” (Poliana)

Maria dedicava-se principalmente aos pacientes e familiares acompanhados pela equipe de cuidados paliativos prestando orientações básicas sobre este serviço. 

Eu vou ajudar escutando o que eles querem falar, não posso dar opinião nas perguntas que eles fazem mas, posso… é … “está sentindo dor ?” Se responder que está, eu vou lá chamar a enfermagem e a enfermagem vai lá e resolve tudo na hora, tudo bonitinho. Então, eu sou tipo uma agente, um voluntário aqui é como se fosse uma extensão né? Não do cuidado mas, do bom atendimento; porque se não for bom, não tiver boa vontade no atender, não fica.” (Maria)

Neste setor, como norma institucional, é requerida a presença de um acompanhante,  que seja maior de idade, durante a infusão dos medicamentos, considerando algumas necessidades do paciente, tais como: ir ao sanitário; avisar a equipe de enfermagem sobre qualquer necessidade ou alteração que fosse observada durante a infusão dos medicamentos. Quando qualquer paciente chega desacompanhado no hospital, um voluntário, como era o caso de Sebastião, acompanhava o paciente durante as horas de tratamento. 

“(…) às vezes  a família tem uma atividade que impede de estar presente com eles. É nessa hora que a gente, que é voluntário, entra na sala e ali, você fica durante um período; ele (o paciente) recebendo a medicação e você acompanhando. Tem alguns pacientes, não são todos mas, no controle da medicação tem algumas bombas, né? E onde tem a bomba é fácil de controlar; mas aquele paciente que está sem a bomba, a gente tem que prestar atenção porque no final da medicação tem que fechar a torneirinha  (…)” (Sebastião)

Três participantes do estudo atuavam no bazar da instituição. O bazar recebe doações de vestuário, calçados, acessórios e itens de  decoração, artesanato dentre outros, novos e usados, que são vendidos continuamente na sede do hospital, e também em datas e locais específicos com ampla divulgação para a população em geral, oferecendo preços acessíveis nos itens supracitados. Trata-se de uma ação com grande visibilidade social, que recebe atenção de estilistas e lojistas da região, os quais doam peças de roupas e calçados novos, de marcas respeitadas, para fomentar o comércio e arrecadação de fundos para o hospital. 

Significados do trabalho voluntário: um novo olhar para vida

Como descrito no tópico anterior, a gratidão foi apresentada  como motivação  para as atividades voluntárias.  Entretanto, tal aspecto corresponde não somente ao fator motivacional mas, para além de demonstrar gratidão, é uma forma de ressignificar a própria vida – seja no aspecto social, biológico ou mesmo espiritual. 

“…sabe tem dia que você fala assim: gente eu tenho tanto e a gente reclama tanto da vida sabe? Nem precisava ver uma situação dessas; estar aqui, faz você ver a vida com um olhar muito diferente…” (Poliana)

“ A troca de amor né? Troca de amor entre o voluntário e o paciente, o paciente e o voluntário. …você doa o seu tempo, mas a troca (de amor) é muito gratificante. É importante tirar do seu tempo, da sua atividade semanal para vir… em prol de fazer alguma coisa para o próximo. Essa  é a intenção.” (Maria)

Durante a convivência com os participantes, seja durante as entrevistas, na roda de conversa ou ainda realizando as observações em campo, muitos foram os relatos sobre recomendações médicas para o exercício do trabalho voluntário, com diferentes objetivos e graus de importância, para prevenção  ou mesmo auxiliar na resolução  dos problemas de saúde mental, tais como a depressão, estresse e ansiedade. 

Marcelina, que tem a profissão de bancária, trouxe em seu discurso que, após se afastar do trabalho devido a síndrome de Burnout e síndrome do pânico, recebeu a sugestão médica para complementação da terapêutica com medicamentos e psicoterapia, que buscasse por uma atividade laboral voluntária, na qual se sentisse bem em realizar. Ela relatou  que, após seguir tal orientação, sentiu significativa melhora em seu estado de saúde mental, pois, diante do que tem vivenciado em seu trabalho voluntário, encontra vários motivos para continuar com este trabalho e para agradecer sempre mais por sua vida e por ter inserido o voluntariado em sua vida (Anotações de diário de campo). 

Fabíola, por sua vez, após aposentar-se, relatou sentimentos de inutilidade, tristeza, ociosidade e que, cada vez mais, sentia vontade de isolar-se da comunidade e até mesmo de familiares. Ao perceber o problema, seus filhos sugeriram que seria importante buscar apoio terapêutico e assim ela o fez. Antes de iniciar o tratamento medicamentoso, lhe foi proposta a experiência de buscar uma atividade voluntária e frequentar a psicoterapia. A mesma relatou colher muitos frutos das orientações recebidas, com melhora substancial após o início das atividades (Anotações de diário de campo).

Duas das participantes citaram o trabalho voluntário como uma alternativa para a melhora de sintomas depressivos. Maria, após a aposentadoria e em meio a pandemia, relatou em sua entrevista que estes dois fatos em particular, a deixaram emocionalmente abalada, fazendo-a com que procurasse retornar minimamente às atividades que se aproximavam ao trabalho formal que exerceu em sua vida pregressa. Por sua vez, Marcelina ainda atua como bancária, mas relata estar afastada de suas atividades devido a depressão e síndrome de Burnout e que o aconselhamento psiquiátrico, foi de buscar uma atividade voluntária, na tentativa de que ela pudesse se encontrar, se conhecer e buscar significado a vida. 

Sentir-se ajudado, também fez parte dos discursos dos participantes deste estudo. Nas  observações e em conversas informais com alguns voluntários, além da sensação de oferecer ajuda, existe também a percepção de ocupar o papel de beneficiário de tal atividade. Outros fatores associados ao trabalho voluntário, destacados como importantes e que traziam significados positivos para vida pessoal dos participantes foram: evolução/crescimento no âmbito pessoal; aprender a ser empático; evolução espiritual/religiosa, buscar maior aproximação de Deus e/ou de suas crenças religiosas.  Percebemos que estes participantes tinham em comum a possibilidade de ter um novo olhar para a própria vida a partir da experiência de dor vivida pelo outro. Os trechos  abaixo exemplificam tal compreensão: 

“A gente evolui todo dia aqui; e é pra melhor.” (Poliana)

“É um crescimento pessoal, onde a gente sente a dor do outro, sabe?” (Sebastião)

“Então, a gente vê coisa desse tipo e não é assim, é… grosseria; você tem que ter empatia…” (Maria)

“Com essas pessoas (pacientes) a gente… você aprende mais. Você vê o melhor da vida e de que está tudo lá fora. Me aproxima mais de Deus. Eu acho … que a gente está tão vazia… aqui pra mim é uma forma  completa de estar um pouco mais perto de Deus, sabe?” (Poliana)

Trabalho voluntário e  repercussões no autocuidado

Ante os diversos sentidos atribuídos ao trabalho voluntário, procuramos perceber  relações entre a experiência do trabalho voluntário no  setor de oncologia e com as pessoas que alí são assistidas e o  autocuidado.. O  que se sobressaiu nesta abordagem foi: melhora na saúde mental, possibilidade de sentir-se ativo e  fortalecimento da  espiritualidade/religiosidade. 

O voluntariado foi considerado como uma maneira prazerosa de preencher um tempo que antes, para quase todos participantes, era ocupado  pelo trabalho profissional e  foi sendo substituído pelo cuidado com os netos, ou mesmo com algum familiar já falecido (acometido ou não pelo câncer). O trabalho voluntário trouxe, também, a manutenção do sentimento de utilidade, de melhora dos sintomas depressivos, do sentimento de gratidão pela vida e pela própria saúde.  

Em alguns discursos foi possível perceber a ligação do voluntariado com graças recebidas de Deus, tais como ter saúde; a própria oportunidade de exercer a atividade voluntária ou mesmo, uma forma de aproximar-se Dele, fazendo o bem e doando-se a quem necessita. 

Mudanças e/ou benefícios proporcionados à saúde física ou alterações na percepção sobre o autocuidado foram pouco citados.  Após este contato intimista e em larga escala com pacientes acometidos pela doença oncológica, apenas dois participantes pontuaram que  o trabalho voluntário provocou mudanças positivas no autocuidado da saúde:

“Eu já fui uma pessoa assim, né…, mas hoje em dia eu sou uma pessoa bem cuidadosa com a minha saúde, faço exames de rotina, sabe? Eu me alimento muito bem, graças a Deus. Sabe, eu procuro sempre uma coisa mais saudável pra fazer!”(Poliana)

“Eu tinha disciplina,  minha característica pessoal, né? Agora, com a doença da mamãe  eu me atentei que era necessário acrescentar mais isso,  o acompanhamento. Porque é importante você estar sempre em busca de um tratamento, de um acompanhamento profissional para poder colher os resultados dentro do tempo hábil.” (Sebastião)

DISCUSSÃO 

São inúmeras as atividades realizadas pelos voluntários no hospital, e sem dúvidas, sua participação torna-se fundamental para a boa prestação do cuidado aos pacientes oncológicos. Os voluntários estão inseridos em várias frentes de trabalho, desenvolvendo suas atividades de forma organizada, assistida e sempre acompanhados do relato de amor ao trabalho desenvolvido. Podemos citar a participação dos voluntários desde o recrutamento de novos voluntários, angariação de recursos (financeiros, médico hospitalares, têxtil, de alimentos ou de qualquer ordem que seja demandado pelos  pacientes assistidos), preparo e distribuição de alimentos, acompanhamento e orientação de pacientes e familiares, visitas domiciliares dentre outras inúmeras atividades que fazem com que os pacientes assistidos pela instituição sintam-se notados, cuidados e amparados principalmente frente à fragilidade em que se encontram no diagnóstico, tratamento e acompanhamento do câncer. 

No tocante ao gênero, buscamos a compreensão do fato de haver mais mulheres que homens envolvidos em atividades voluntárias. Geralmente, as mulheres trabalham (formalmente) 15% menos tempo (em anos) que os homens e possuem cerca de 10% a mais de expectativa de vida. Existe, também, a discussão sobre o “ocupar o tempo” o qual, antes era preenchido pelo marido, filhos e/ou cuidados com o lar e que agora, por algum motivo, não fazem mais sentido (Nogueira-Martins; Berusa; Siqueira, 2010). Magalhães (2021), numa perspectiva histórica, destaca que nas sociedades ocidentais, o cuidado, nas suas múltiplas dimensões, sempre foi atribuído ao gênero feminino, enquanto os homens garantiam o suprimento das necessidades básicas da família, do lar, tais como alimentação, moradia e segurança.  Numa mescla histórico e religiosa, a autora ainda indica o quanto a esta construção de gênero   “(…) é fundada numa moralidade cristã e coloca a mulher e o cuidar no lugar da devoção e da submissão.” (Magalhães, 2021, p. 24).   

Quanto à idade, é sabido que a maioria das pessoas que exercem atividade voluntária possui mais de 60 anos. Segundo Yamashita, et al. (2019), em consonância com Nogueira-Martins, Berusa e Siqueira (2010), tal fato está associado ao estágio da vida no qual o voluntário está. Neste contexto, os mais jovens buscam  atividades voltadas principalmente com fins profissionais, enquanto pessoas idosas buscam realinhamento de suas metas pessoais, já que possuem maior maturidade e mais experiências de vida. Neste caso,  a busca que se faz  é para além de realizações materiais, por  experiências que proporcionem crescimento de ordem pessoal e que sejam emocionalmente significativas. Somado a isso, Figueiredo (2005) sugere considerar que aposentados buscam atividades voluntárias com objetivos de se sentirem úteis à sociedade bem como preencher o tempo livre advindo da aposentadoria. O trabalho voluntário pode, ainda, não ser somente decorrente da ociosidade produzida pela aposentadoria, mas sim, uma continuação de suas atividades desempenhadas em outras fases da vida como no caso da participante Maria. 

Múltiplas dimensões são requeridas na análise das motivações do exercício do trabalho voluntário. Trata-se de uma trama complexa que entrelaça  o contexto social, pessoal e psicológico, além considerar a subjetividade aplicada ao processo proveniente da individualidade humana e dentre os possíveis ganhos que podem advir desta atividade, tem-se o conhecimento e autoconhecimento, habilidades, formação de vínculos dentre outros inúmeros, provenientes das experiências individuais (Silva; Macêdo, 2022).

Silva e Macêdo (2022) detalham a relevância do trabalho voluntário realizado com pacientes oncológicos e demonstram a demanda relacionada preparo emocional, e até mesmo físico, diante das necessidades apontadas por esse perfil de paciente, que neste momento faz-se de extrema importância o apoio e o cuidado despendidos de forma generosa, transformando o processo do adoecimento mais leve, encorajando pacientes e familiares a continuarem na busca pelo tratamento e recuperação da saúde. 

É comum no discurso de trabalhadores voluntários, quando questionados sobre suas motivações para o exercício de tal atividade, a presença da religiosidade/ espiritualidade. Tal fato está relacionado de forma intrínseca à questões de cunho histórico. Além disso, a igreja cristã em seus primórdios, enquanto se consolidava como instituição, trouxe a ideia de caridade como alternativa para redenção dos pecados, fortalecendo a ideia de doar-se ao próximo, independente do objetivo envolvido em tal ação (Benedetti, 2017).

Embora não exista ganho material, os ganhos pessoais relacionados ao exercício da atividade voluntária se manifestam da seguinte forma: desenvolvimento pessoal e espiritual, aprendizado e experiência; reconhecimento social; mudança nos valores pessoais; sentir-se útil e importante; satisfação; relação afetiva prazerosa com o atendido e com os pares; alcance de ideais religiosos, minoração e superação dos próprios problemas e dificuldades, aprimoramento de experiências anteriores, realização de projeto de vida, conquista e ampliação do círculo social (Moniz; De Araújo, 2006). Tais resultados são  condizentes com os  deste estudo, visto que todos os participantes citam ao menos um dos pontos supracitados.

Ainda, de acordo com estudo de Marques (2016),  as principais motivações para o exercício do trabalho voluntário envolvem a experiência desenvolvida naquela determinada atividade; diz ainda a respeito de crenças e valores  que esses trabalhadores possuem e  alcançam objetivos como crescimento e desenvolvimento pessoal, autoestima e bem-estar, reafirmando os achados do presente estudo, bem como o que foi encontrado no estudo de Moniz e De Araújo (2006).

Outro importante fator motivacional relacionado ao trabalho voluntário, em especial na contexto da assistência em oncologia, foi  o de se sentir,  de alguma forma, favorecido em diversos aspectos da vida, fazendo com que o trabalho voluntário seja ainda uma forma de demonstrar gratidão (Salci et al., 2020; Souza, 2018; Pugliero; Souza; Melo, 2018).  Estes estudos apontam, também, que diversos voluntários possuíam experiências pregressas relacionadas ao câncer, seja com a própria saúde, de familiares ou amigos próximos, o que vem ao encontro com as motivações dos participantes deste estudo. Sebastião e Poliana tiveram familiares acometidos pelo câncer e relataram em suas entrevistas que servir no contexto de oncologia, foi a forma encontrada por eles para agradecer todo atendimento e atenção recebidos durante o tratamento da doença em seu familiar. Apontamentos semelhantes foram registrados no diário de campo. 

Em contrapartida, Maria, mesmo com o intrínseco contato com pacientes oncológicos em sua jornada profissional de trabalho, optou por permanecer próxima a esse público no trabalho voluntário, não somente pela experiência profissional,  mas também como forma de autoajuda, num cenário de depressão. Ao encontro com o presente estudo e utilizando dos pressupostos da etnografia e antropologia, Anjos e Zago (2006) trazem que quando as pessoas relatam sua experiência com o câncer em seus diversos aspectos, elas constroem um recordatório de suas experiências pregressas com a doença em suas múltiplas facetas, trazendo para o tempo presente a reconstrução do tempo pretérito. Utilizam-se da memória como importante processo cognitivo na construção de um meio interpretativo para a experiência vivida no presente, em nosso caso, o trabalho voluntário. 

Alguns estudos apontam que o trabalho voluntário pode assumir um lado altruísta, no qual voluntários se sentem motivados a doar seu tempo, considerando a percepção que têm da necessidade de outras pessoas em sua comunidade. Além disso, o altruísmo também pode ser compreendido como auto-sacrifício, consciência social, preocupação com o próximo, sendo o trabalho voluntário realizado com a finalidade de auxílio no enfrentamento dos problemas humanos, no contexto biopsicossocial, espiritual e qualquer outro que gere comoção (Pereira; Capelle; Rezende, 2020; Silva; Macêdo, 2022). Tais achados vão ao encontro do que os participantes da pesquisa citaram enquanto trabalhadores voluntários. Discursos no sentido de qualificar o trabalho voluntário como o momento em que você se dispõe a fazer algo para alguém, sem nenhum benefício próprio palpável, mas com uma percepção individual subjetiva dos benefícios adquiridos por meio de tal atividade.

O desempenho das atividades voluntárias no contexto social, quando possui significado para o colaborador, faz com que ele tenha o sentimento de autorrealização, pois ele se concretiza como um ser humano envolvido na construção de sua própria obra. O ambiente socioeconômico pode, por vezes,  empobrecer a essência humana (Balsan, et al. 2011; Rodrigues; Rodrigues;  Pinho, 2020). Buscar desenvolver o seu melhor, tornar-se uma pessoa com qualidades imateriais, construir uma bagagem única, com experiências, construção de saberes, promoção de laços que em outras ocasiões não seriam formados compõem o rol de registros  de campo deste estudo.  

O trabalho voluntário pode ter efeitos variados no autocuidado. Participar de atividades voluntárias pode proporcionar um senso de propósito, conexões sociais significativas e oportunidades de aprendizado, contribuindo para o bem-estar emocional e psicológico, o que corrobora com os achados do presente trabalho. No entanto, desafios como compromissos excessivos, interações sociais estressantes ou exigências físicas podem impactar negativamente o autocuidado. Encontrar um equilíbrio adequado entre o voluntariado e outros compromissos é essencial para garantir que a experiência seja benéfica para a saúde global do indivíduo (Moniz, De Araújo, 2006; Salazar; Da Silva;  Fatiniel,2015).

Os participantes deste estudo indicaram  a importância de investigar as contribuições do trabalho voluntário à saúde mental. Segundo O’neil, Morrow-Howell, Wilson (2011), o trabalho voluntário está diretamente relacionado com a satisfação pela vida, benefícios à auto-estima, melhora e manutenção da saúde física e mental, com melhora significativa dos sintomas depressivos.  Aqui  observa-se  o entrelace entre as principais temáticas abordadas no trabalho: a motivação, a importância/significado e como ele influencia no autocuidado. O trabalho voluntário se projeta como uma troca mútua entre o beneficiário/receptor das atividades advindas do voluntariado e os múltiplos, porém, individuais (levando em conta os objetivos e a percepção de cada um) benefícios obtidos através da atividade.   

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De forma geral, o presente estudo  proporcionou respostas às  indagações da  pesquisa e  foi ao encontro da literatura.  

As motivações para o trabalho voluntário perpassam várias vertentes como por exemplo, a empatia, a auto realização, o sentimento de utilidade, questões relacionadas à saúde mental, gratidão, entre outros, sendo então uma atividade de benefício múltiplo e mútuo.

De forma geral, a maioria dos participantes entende que o trabalho voluntário é uma atividade de troca mútua no contexto de oncologia.  Compreendem os limites profissionais que devem ser respeitados dentro de uma instituição hospitalar e se dispõem a realizar seu trabalho de acordo com o que lhe compete, tendo inclusive conhecimento legal da parte prática vivenciada pelo paciente oncológico em sua trajetória de tratamento e buscando cada vez mais conhecimento para pautar a atividade voluntária e enriquecendo-se de forma a somar no dia-a-dia daqueles que são assistidos.

Por sua vez, a construção do autocuidado ocorre de forma individual e  independente.  Alguns voluntários utilizam-se das experiências prévias dos próprios pacientes acompanhados no setor de oncologia (diagnóstico precoce devido à frequência e rotinas médicas,  ou diagnóstico tardio com prejuízo no prognóstico devido ao descaso com a própria saúde) para tomar como exemplo para si a necessidade do controle regular da saúde, dos exames, da rotina médica, da prática de atividades físicas, dentre outras. Já outros participantes, utilizam-se da atividade voluntária como um meio de recuperação e manutenção da própria saúde, especialmente a saúde mental. 

O fato de a maior parte dos participantes ser aposentada , levanta a possibilidade de problematizar o quanto o trabalho pode inferir na recuperação e/ou manutenção da qualidade de vida, Além disso, o trabalho voluntário permite a realização de uma atividade que em outro momento da vida não  foi possível  ou não lhe conveio realizar; a formação de novos laços e experiências, enquanto aos olhos da sociedade muito já havia sido construído por essas pessoas, gerando a sensação de finitude; e a reconstrução de sentidos de utilidade frente a sociedade. 

Cabe, pois, a desconstrução de  preconceitos e pré-noções sobre  as atividades voluntárias e avaliação das singularidades,  buscando entender o real motivo que leva cada pessoa a executar aquele trabalho. Sabe-se ainda que em alguns locais do país, as atividades voluntárias enfrentam dificuldades relacionadas ao processo de regulamentação em determinadas instituições (hospitalares, instituições de longa permanência e outras instituições filantrópicas)  por diversos motivos como: limites de atuação do voluntário, a formação de um vínculo profissional formal, a falta de treinamento adequado à esses trabalhadores, dentre outros aspectos. 

O caráter qualitativo deste estudo não permite generalizações. Destarte, revela as potências da etnografia para a compreensão do voluntariado e das dinâmicas presentes nas instituições hospitalares. As trocas informais e a observação do cotidiano trouxeram para o processo analítico dimensões não verbalizadas nas entrevistas, o que pode inspirar sua incorporação em outros estudos. 

O olhar cuidadoso para as características dos participantes deste estudo sugere  futuras pesquisas explorando  os impactos do trabalho voluntário no cotidiano  de pessoas inseridas no mercado de trabalho e que  que exercem concomitantemente a atividade voluntária.

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1Enfermeira, Especialista e Mestre em Saúde do Trabalhador pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). ORCID: 0000-0002-8054-466X Email: carinelopesenf@gmail.com

2Professora Associada IV da Universidade Federal de Uberlândia – Doutora e Pós Doutora em Ciências e Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto.
ORCID: 0000-0001-6984-4381 Email: annaclaudia1971@gmail.com

3Professora Titular do Departamento de Saúde Coletiva do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Triângulo Mineiro – Doutora em Ciências Sociais pela UNESP.
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