ANTIVIRAL THERAPY FOR COVID-19
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511141054
Mikaelly Iasmim de Oliveira Ferreira¹
Luís Antônio Moraes de Vasconcelos¹
Mariana da Silva Santos²
Orientadora: Profa. Dra. Mariana da Silva Santos3
RESUMO
A COVID-19 é uma infecção respiratória aguda potencialmente grave, de elevada transmissibilidade e distribuição global. Seu agente etiológico, SARS-CoV-2, é um vírus de RNA envelopado pertencente ao gênero Betacoronavirus, o qual apresenta uma forma esférica com picos em sua superfície que se assemelham a uma coroa solar, sua proteína Spike (S) é essencial para a entrada nas células hospedeiras ao se ligar aos receptores da enzima conversora de angiotensina (ECA2). A pandemia de COVID-19 impulsionou uma intensa busca por terapias antivirais eficazes para o controle da infecção. Este trabalho teve como objetivo investigar os fármacos em fase de estudo clínico para o tratamento da COVID-19, por meio de uma revisão integrativa da literatura. A pesquisa foi realizada com estudos publicados entre os anos de 2020 e 2025, nas bases PubMed, ClinicalTrials, BVS, Scopus, Revista Nature e Revista Science, incluindo ensaios clínicos randomizados e controlados de fase III, com amostras adultas e fármacos com atividade antiviral comprovada. Conclui-se que os antivirais avaliados apresentam benefícios clínicos variados, com destaque para Azvudine, Molnupiravir, Nirmatrelvir, Remdesvir, os quais se mostraram promissores na redução da carga viral e progressão da doença.
Palavras-chave: Tratamento antiviral. Antiviral. COVID-19.
ABSTRACT
COVID-19 is a potentially serious acute respiratory infection that is highly transmissible and has spread globally. Its etiological agent, SARS-CoV-2, is an enveloped RNA virus belonging to the Betacoronavirus genus, which has a spherical shape with spikes on its surface that resemble a solar corona. Its Spike (S) protein is essential for entry into host cells by binding to angiotensin-converting enzyme (ACE2) receptors. The COVID-19 pandemic has prompted an intense search for effective antiviral therapies to control the infection. This study aimed to investigate drugs in clinical trials for the treatment of COVID-19 through an integrative literature review. The research was conducted using studies published between 2020 and 2025 in the PubMed, ClinicalTrials, BVS, Scopus, Nature, and Science databases, including phase III randomized controlled clinical trials with adult samples and drugs with proven antiviral activity. It was concluded that the antivirals evaluated have varied clinical benefits, with emphasis on Azvudine, Molnupiravir, Nirmatrelvir, and Remdesvir, which have shown promise in reducing viral load and disease progression.
Keywords: Antiviral treatment. Antiviral. COVID-19.
1. INTRODUÇÃO
A COVID-19 é uma infecção respiratória aguda causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, potencialmente grave, de elevada transmissibilidade e de distribuição global. O SARS-CoV-2 foi descoberto em amostras de lavado bronco alveolar obtidas de pacientes com pneumonia de causa desconhecida na cidade de Wuhan, província de Hubei, China, em dezembro de 2019. (Brasil, Ministério da Saúde, 2020). Diante desse cenário, a Organização Mundial de Saúde declarou o novo coronavírus como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) (OPAS, 2020).
O SARS-CoV-2 é um vírus de RNA de fita simples sentido positivo, envelopado, pertencente à família Coronaviridae e ao gênero Betacoronavirus. Esse grupo viral inclui outros coronavírus conhecidos por causar infecções respiratórias em humanos, como o SARS-CoV-1, responsável pelo surto de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) em 2002-2003, e o MERS-CoV, causador da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) em 2012. No entanto, o SARSCoV-2 se destacou devido à sua elevada transmissibilidade e capacidade de adaptação ao organismo humano (Morais et al., 2020; Araujo et al., 2020).
Apresenta uma forma esférica com muitos picos em sua superfície, similar a uma coroa solar. O SARS-CoV-2 é composto por 16 proteínas não estruturais e 4 proteínas estruturais principais, responsáveis pelos processos de replicação e pela entrada na célula, a proteína do envelope, a proteína de membrana, a proteína do nucleocapsídeo e a proteína S, ou proteína Spike, que possui alta afinidade com receptores da enzima conversora de angiotensina (ACE2) presente na superfície celular, o vírus utiliza a ressonância plasmônica de superfície para entrar nas células hospedeiras (Güler, 2021).
Foi relatada recentemente a caracterização bioquímica e biofísica da principal protease na clivagem para o processamento da poliproteína replicase (P0C6U8), a 3-chymotrypsinlike protease (3CLpro) do SARS-CoV-2. Sua descoberta tem alta relevância para o desenvolvimento de medicamentos que possuam sua estrutura como alvo, inibindo essa protease (Güler, 2021).
Um dos principais desafios no combate à COVID-19 é a alta taxa de mutação do SARS-CoV-2. Por ser um vírus de RNA, ele apresenta um mecanismo de replicação mais propenso a alterações genômicas, o que favorece o surgimento de variantes. Essas variantes podem alterar a transmissibilidade, a gravidade da infecção e a eficácia das vacinas e tratamentos. Atualmente, diversas sublinhagens do vírus já foram identificadas, sendo as principais as variantes Alfa, Beta, Gamma, Delta e Ômicron, cada uma com mutações específicas na proteína Spike que podem impactar a resposta imune (Harvey et al., 2021).
A doença da COVID-19 compreende um amplo espectro de sintomas, principalmente respiratórios, sendo facilmente confundida com outras doenças como gripes sazonais e pneumonia. Os sintomas relatados mais comuns são febre, dispneia ou fadiga, tosse seca, cefaleia, alterações de olfato e paladar, sintomas gastrointestinais, sintomas neurológicos e mialgia (Wang et al., 2020).
Por conseguinte, os tratamentos da COVID-19, em sua maioria, são sintomáticos e variam conforme a gravidade dos sintomas. Em casos leves, o tratamento é realizado em casa, seguindo orientação médica. Já em casos mais graves, que envolvem comprometimento respiratório e complicações severas, é recomendado o internamento hospitalar, podendo haver necessidade de cuidados intensivos em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) (Bezerra, 2024; Conitec, 2021).
Diversos medicamentos foram autorizados pela ANVISA para uso emergencial durante a pandemia de COVID-19, com base em critérios de eficácia preliminar e segurança observada em estudos clínicos. A Anvisa reforça que decisões de aprovação ou suspensão se baseiam em evidências científicas consolidadas. O uso desses medicamentos deve sempre seguir orientação médica e protocolos oficiais, visando a segurança do paciente e a efetividade terapêutica (BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2023).
O constante surgimento de variantes reforça a importância da vigilância epidemiológica e da atualização contínua das estratégias de prevenção e tratamento. Pesquisas continuam sendo conduzidas para compreender melhor os mecanismos de mutação e adaptação do vírus (Oliveira, 2020; Silva, 2021).
Os avanços no tratamento da COVID-19 têm se concentrado principalmente em medicamentos antivirais, que buscam combater o vírus em fases iniciais da doença. Embora os tratamentos convencionais sejam, em sua maioria, voltados para o alívio dos sintomas, a pesquisa científica contínua visa identificar terapias mais eficazes para reduzir a carga viral e melhorar o prognóstico em pacientes com a infecção (Wang et al., 2020; Araújo et al., 2020).
O presente trabalho tem como objetivo compreender de forma detalhada os principais aspectos biológicos, estruturais e clínicos relacionados ao SARS-CoV-2, agente causador da COVID-19 e o desenvolvimento de terapias e vacinas. Além disso, busca-se analisar os avanços científicos no diagnóstico e tratamento da doença, destacando a importância do uso racional de medicamentos aprovados pela ANVISA. Dessa forma, o estudo visa contribuir para o entendimento do impacto do vírus na saúde pública e da necessidade contínua de pesquisas para o controle eficaz da COVID-19 e de suas variantes.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão de integrativa de literatura com análise dos artigos publicados nas bases de dados e fontes científicas PubMed, ClinicalTrials, BVS, Scopus, Revista Nature e Revista Science no período de 2020 a 2025. A pergunta norteadora deste trabalho segue: “Quais os fármacos antivirais estão sendo utilizados para o tratamento da COVID-19?”.
Para aquisição da amostragem na literatura foram usados Descritores em Saúde e termos para composição da revisão integrativa. Foram selecionados os seguintes descritores nos idiomas de português e inglês: “COVID-19” OR “SARSCOV-2” AND “Antivirais/ Antivirals” OR “Tratamento antiviral/ Antiviral treatment“ OR “Agentes antivirais/ Antiviral agents” AND “Ensaios clínicos/ Clinical trial”.
A seleção dos artigos foi feita em etapas. Na primeira etapa os estudos clínicos foram filtrados quanto à compatibilidade do título com o objetivo desta revisão, visando selecionar estudos relevantes à área de interesse. Neste processo foram excluídas duplicatas.
A amostragem iniciou com 128 artigos condizentes com a temática deste estudo. Os estudos foram organizados quanto à base de dados: PubMed (60), ClinicalTrials (32), BVS (21), Scopus (13), Nature (1), Science (1).
Na segunda etapa foi avaliada a elegibilidade dos estudos quanto à sua amostragem, como a quantidade de participantes, faixa etária do público além da evidência e tipo de estudo, visando filtrar estudos randomizados, com duplo cego, grupo placebo e com uso de medicamentos antivirais ou associações com antivirais.
A terceira etapa se refere à descrição e interpretação dos estudos e artigos selecionados e aprovados. A descrição dos resultados foi formulada em quadros organizados em nome dos autores, título e periódico, objetivo, amostra, local e ano e os principais resultados.
3. RESULTADOS
Após as buscas nas bases de dados foram selecionados 127 estudos, durante a avaliação dos estudos foram removidos os estudos filtrados por título (n=56), permanecendo 71 artigos. Sequentemente, os estudos foram criteriosamente filtrados quanto aos critérios de elegibilidade (n=34), contabilizando um total de 37 artigos para avaliação no presente estudo.
Os resultados se basearam nos artigos selecionados, que foram publicados entre os anos de 2020 e 2025, conduzidos em diversos países, incluindo Brasil, China, Japão e Estados Unidos. Os estudos relatam os seguintes fármacos:
Azvudine, Ensitrelvir, Favipiravir, Lopinavir, Molnupiravir, Nirmatrelvir e Remdesvir.
Figura 1: Fluxograma da seleção de material bibliográfico

Fonte: Autor, 2025
Gráfico 1: Distribuição de artigos por medicamento.

Fonte: Autor, 2025.
3.1. Azvudine
A Azvudine é um análogo de nucleosídeo (análogo de Citidina) com ação antiviral. É descrito como um “duplo-alvo” nucleosídeo inibidor, que pode interferir na replicação viral por incorporação em RNA viral e possivelmente também impactar outras etapas relacionadas ao ciclo viral.
Sua descoberta foi direcionada para o tratamento de Hepatite C, mas ao decorrer dos tempos tem sido reposicionado para doenças como AIDS e COVID-19. Na China, Azvudine foi aprovada para uso no tratamento de COVID-19 leve a moderada, foi autorizada condicionalmente em 25 de julho de 2022 pela agência reguladora chinesa (NMPA).
Quadro 1: Distribuição dos estudos sobre Azvudine.
| Autores | Título/ Periódico | Objetivo(s) | Amostra | Local/ Ano | Principais resultados |
| WANG, Luo; WANG, Yaqi; XU, Yan; et al. | Impacto da administração precoce e tardia da Azvudine na mortalidade por COVID-19: um estudo retrospectivo | Avaliar a eficácia e segurança do medicamento oral Azvudine em pacientes hospitalizados com COVID-19, comparando-o ao tratamento padrão. | 604 participantes, 302 fizeram uso precoce e 302 usos tardios. | Pequim, China, 2022 – 2023. | Administrar Azvudine precocemente está associado a redução da mortalidade e diminuição da taxa de progressão da doença para formas graves em 28 dias, quando comparado com administração tardia. |
| DE SOUZA, Sávio Bastos; CABRAL, Paula Gebe Abreu; DA SILVA, Renato Martins; et al. | Estudo clínico de fase III , randomizado, duplo-cego e controlado por placebo: um estudo sobre a segurança e eficácia clínica do Azvudine em pacientes com COVID-19 moderada | Avaliar a segurança e a eficácia clínica do Azvudine em pacientes com COVID 19 moderada. | 180 participantes. | Brasil, 2021 -2022. | O grupo que recebeu Azvudine apresentou uma redução significativa na carga viral em comparação ao grupo placebo, tendo uma conversão para carga indetectável. Além disso, a duração da hospitalização foi reduzida no grupo tratado com Azvudine. O perfil de segurança foi considerado aceitável, com eventos adversos principalmente não graves. |
| SUN, Yuming; JIN, Liping; DIAN, Yating; et al | Azvudine oral para pacientes hospitalizados com COVID-19 e condições preexistentes: um estudo de coorte retrospectivo. | Avaliar os efeitos do tratamento com Azvudine oral em pacientes hospitalizados com COVID-19. | 841 participantes. | China, 2023. | Após pareamento por escore de propensão, 245 pacientes tratados com Azvudine foram comparados com 245 controles. A taxa de incidência bruta do desfecho foi menor no grupo com Azvudine em comparação com o grupo controle. A mortalidade por todas as causas foi reduzida no grupo com Azvudine, embora os dados específicos não tenham sido fornecidos no resumo do estudo. |
Foram registrados eventos adversos relacionados ao uso do Azvudine, mas esses eventos não causaram mudança na segurança do medicamento. Os resultados indicaram que os eventos adversos mais comuns foram sintomas gastrointestinais leves, como diarreia e náusea.
3.2. Ensitrelvir
Ensitrelvir é um medicamento inibidor de protease 3CL do SARS-CoV-2, impedindo a clivagem de poliproteínas e a formação de proteínas virais de replicação. É um fármaco que possui biodisponibilidade oral, em tecidos pulmonares e metabolismo controlado.
No Japão, o Ensitrelvir é aprovado para uso emergencial e tratamento de COVID-19 leve/moderada desde novembro de 2022.
Quadro 2: Distribuição dos estudos sobre Ensitrelvir
| Autores | Título/ Periódico | Objetivo(s) | Amostra | Local/ Ano | Principais resultados |
| LUETKEMEYER, Anne F; CHEW, Kara W; LACEY, Stuart; et al. | Ensitrelvir para o tratamento de adultos não hospitalizados com COVID- 19: resultados do SCORPIOHR, ensaio clínico de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. | Avaliar a eficácia e segurança do Ensitrelvir em adultos não hospitalizados com COVID- 19 de gravidade leve a moderada, iniciando tratamento dentro de 5 dias após o início dos sintomas. | 2.093 participantes de 16 países na África, Asia, Europa, América do Norte e América do Sul. | Ásia, 2025. | O uso de Ensitrelvir em adultos não hospitalizados com COVID-19 não alcançou significância estatística no desfecho primário de tempo até resolução sustentada de 15 sintomas por pelo menos dois dias quando iniciado dentro de três dias do início dos sintomas, embora tenha ocorrido uma redução numérica em relação ao placebo. O perfil de segurança foi semelhante ao do placebo, sem registros de mortes ou hospitalizações atribuíveis ao fármaco. |
| YOTSUYANAGI, Hiroshi; OHMAGARI, Norio; DOI, Yohei; et al. | Eficácia e segurança do Ensitrelvir oral durante 5 dias em pacientes com COVID-19 leve a moderada: o ensaio clínico randomizado. | Avaliar se o tratamento com Ensitrelvir por 5 dias reduz o tempo para resolução dos 5 sintomas típicos da COVID-19 em pacientes com doença leve a moderada, comparado ao placebo. | 1.821 participantes. | Japão, 2024. | O grupo tratado com Ensitrelvir teve tempo mediano até a resolução de cinco sintomas típicos de COVID-19 significativamente menor do que o placebo. Houve redução mais acentuada no RNA viral no dia 4 e o tempo até positividade viral foi também mais curto. Não foram relatados eventos adversos graves relacionados ao tratamento. |
| OHMAGARI, Norio; YOTSUYANAGI, Hiroshi; DOI, Yohei; et al. | Eficácia e segurança do Ensitrelvir para COVID-19 assintomática ou leve: uma análise exploratória de um ensaio clínico multicêntrico, randomizado, de fase 2b/3 | Avaliar eficácia e a segurança do antiviral Ensitrelvir em pacientes com infecção por SARS-CoV-2 sem sintomas ou com sintomas leves COVID-19. | 572 participantes. | Japão, 2024 | Observou uma redução em 77 % o risco de desenvolvimento de qualquer dos 14 sintomas típicos de COVID-19 ou febre, e em 29 % o risco de agravamento desses sintomas. As reduções nos níveis de RNA viral, na carga viral cultivável e no tempo até a obtenção de cultura viral negativa foram estatisticamente superiores no grupo tratado com Ensitrelvir em relação ao placebo. |
| Mukae H, et al. | Estudo randomizado de fase 2/3 de Ensitrelvir, um novo inibidor oral da protease 3Clike do SARS- CoV-2, em pacientes japoneses com COVID-19 leve a moderada ou infecção assintomática por SARS- CoV-2: resultados da parte fase 2a. | Avaliar a eficácia e segurança do Ensitrelvir oral em pacientes japoneses com COVID19 leve a moderada ou infecção por SARS-CoV-2 assintomática. | 69 participantes | Japão, 2022 | O Ensitrelvir reduziu rapidamente a carga viral de SARS-CoV-2 até o quarto dia em comparação ao placebo, e os pacientes tratados eliminaram o vírus infeccioso mais rapidamente, cerca de dois dias antes do grupo placebo. O medicamento foi bem tolerado, com efeitos adversos leves a moderados, demonstrando eficácia e segurança em pacientes com COVID-19 leve a moderada ou assintomática. |
3.3. Favipiravir
Favipiravir é um análogo de nucleosídeo guanina que atua como inibidor da RNA-polimerase dependente de RNA, ele é incorporado no RNA viral em substituição aos nucleotídeos naturais, resultando em erro de replicação ou terminação de cadeia, impedindo o ciclo viral. A relação exposição–resposta é importante, pois doses mais altas são necessárias para atingir concentrações eficazes contra SARS-CoV-2.
Seu uso inicial é para o tratamento de Influenza e diversos vírus com atividade de RNA, recentemente ele foi reposicionado para testes no tratamento da COVID-19. No Brasil e muitos países, seu uso contra COVID-19 é experimental ou parte de estudos clínicos, em alguns contextos o uso foi combinado com outras terapias.
Quadro 3: Distribuição dos estudos sobre Favipiravir .
| Autores | Título/ Periódico | Objetivo(s) | Amostra | Local/Ano | Principais resultados |
| GHASEMNEJAD BERENJI, Morteza; PASHAPOUR, Sarvin. | Favipiravir e COVID-19: Um resumo simplificado. | Revisar e resumir os ensaios clínicos que estudaram a eficácia e segurança do Favipiravir em pacientes com COVID-19. | 120 participantes. | Irã, 2020. | O Favipiravir demonstrou atividade antiviral contra o SARS CoV-2, inibindo a RNA polimerase dependente de RNA viral. Ensaios clínicos indicaram que o Favipiravir pode reduzir a carga viral e melhorar os sintomas em pacientes com COVID-19. No entanto, os resultados variaram entre os estudos, e a segurança do medicamento requer mais investigação. |
| LUVIRA, Viravarn; SCHILLING, William H. K.; JITTAMALA, Podjanee; et al. | Eficácia antiviral clínica do Favipiravir na COVID-19 precoce. (PLATCOV): um ensaio clínico randomizado, controlado, aberto e adaptativo. | Avaliar a eficácia antiviral do Favipiravir em pacientes adultos com COVID-19 precoce e sintomática leve, utilizando a taxa de eliminação viral como principal desfecho. | 240 participantes. | Tailândia e Brasil, 2023 | Não houve diferença significativa na taxa de eliminação viral entre os pacientes que receberam Favipiravir e os que não receberam tratamento, indicando que o Favipiravir não acelerou a eliminação viral na COVID-19 precoce. |
| BOSAEED, Mohammad; ALHARBI, Ahmad; MAHMOUD, Ebrahim; et al. | Eficácia do Favipiravir em adultos com COVID 19 leve. | Avaliar se o Favipiravir reduz o tempo para a eliminação viral (documentada por RT-PCR negativa) em casos leves de COVID-19, comparado ao placebo. | 231 participantes. | Arábia Saudita, 2022. | A primeira quinzena não mostrou diferenças significativas entre os grupos. Quanto às hospitalizações ou necessidade de cuidados intensivos, não houve diferença estatisticamente relevante. |
| SHAH, Pallav L; ORTON, Christopher M; GRINSZTEJN, Beatriz; et al. | Favipiravir em pacientes hospitalizados com COVID 19 (ensaio PIONEER): um ensaio clínico randomizado, multicêntrico, aberto, de fase 3, de intervenção precoce. | Avaliar a eficácia e segurança do Favipiravir oral em adultos hospitalizados com COVID 19, iniciando o tratamento dentro de 5 dias após o início dos sintomas. | 1.070 participantes. | Índia, 2022. | O tratamento com Favipiravir não reduziu significativamente o tempo até a recuperação clínica em comparação com o placebo. No entanto, foi associado a uma menor taxa de progressão para ventilação mecânica invasiva ou morte. |
| LOWE, David M.; BROWN, Li-An K.; CHOWDHURY, Kashfia; et al. | Favipiravir , Lopinavir Ritonavir ou terapia combinada (FLARE): Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, fatorial 2 × 2, controlado por placebo, de terapia antiviral precoce na COVID-19. | Avaliar se a terapia antiviral precoce com Favipiravir , Lopinavir Ritonavir ou a combinação de ambos, administrada a pacientes ambulatoriais com COVID 19, resulta em redução da carga viral do SARS-CoV-2 em comparação com placebo. | 841 participantes. | Reino Unido, 2020. | O Favipiravir isolado reduziu significativamente a carga viral em pacientes ambulatoriais com COVID-19, com 46,3% apresentando carga viral indetectável no dia 5, contra 26,9% no grupo placebo. O Lopinavir Ritonavir isolado não teve efeito significativo, e a combinação dos dois medicamentos não trouxe benefício adicional. |
| SMITH, Tania; HOYO-VADILLO, Carlos; ADOM, Akosua Agyeman; et al. | Favipiravir e/ou nitazoxanida: um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, com desenho 2×2, controlado por placebo, de terapia precoce na COVID-19 em profissionais de saúde, seus familiares e pacientes tratados no IMSS. | Avaliar se a terapia antiviral precoce com Favipiravir + nitazoxanida está associada a uma diminuição da carga viral em comparação com o Favipiravir sozinho. Além de verificar taxas e dados de hospitalização, morbidade e mortalidade graves, farmacocinética e impacto da terapia antiviral na taxa de mutação genética viral. | 120 participantes. | México, 2022. | A priori a carga viral no trato respiratório superior no dia 5, apresentou negativação viral. O protocolo propõe que a combinação das drogas, com diferentes mecanismos de ação, possa oferecer efeito aditivo ou sinergético, diminuindo a carga viral mais rapidamente e potencialmente impedindo progressão da doença. |
| MCMAHON, James H.; LAU, Jillian S.Y.; COLDHAM, Anna; et al. | Favipiravir no tratamento precoce de COVID-19 sintomática: um ensaio clínico randomizado controlado por placebo. | Avaliar a eficácia e segurança do Favipiravir em adultos com COVID-19 sintomática precoce. | 200 participantes. | Austrália, 2022. | O tratamento com Favipiravir não mostrou redução significativa na duração dos sintomas ou na carga viral em comparação com o placebo. |
Eventos adversos relatados mais comuns após o uso de Lopinavir – Ritonavir (Favipiravir) foram distúrbios gastrointestinais, e os níveis plasmáticos de Favipiravir foram menores quando usado em combinação, possivelmente devido à absorção reduzida.
3.4. Lopinavir
O Lopinavir é um antirretroviral inibidor de protease viral. Comumente utilizado em combinação com outros fármacos como o Ritonavir, com objetivo de gerar um efeito sinérgico, pois o Ritonavir é capaz de retardar seu metabolismo aumentando o tempo de meia-vida do fármaco. Originalmente usado no HIV e em alguns casos de Papiloma Virus Humano (HPV).
Quadro 4: Distribuição dos estudos sobre Lopinavir
| Autores | Título/ Periódico | Objetivo(s) | Amostra | Local/Ano | Principais resultados |
| CAO, Bin; WANG, Yeming; WEN, Danning; et al. | Um ensaio clínico com Lopinavir Ritonavir em adultos hospitalizados com COVID-19 grave. | Avaliar a eficácia e segurança do Lopinavir em adultos hospitalizados com COVID-19. | 199 participantes. | China, 2020. | O tratamento com Lopinavir não demonstrou variação no tempo de recuperação em relação ao grupo controle. Os níveis de RNA viral detectável seguiram padrões semelhantes nos dois grupos. |
| LI, Yueping; XIE, Zhiwei; LIN, Weiyin; et al. | Eficácia e segurança de Lopinavir /Ritonavir ou arbidol em pacientes adultos com COVID-19 leve/moderada: um ensaio clínico randomizado exploratório. | Avaliar a eficácia e segurança de Lopinavir /Ritonavir ou arbidol em pacientes adultos com COVID-19 leve a moderada. | 86 participantes. | China, 2020. | Não houve diferença significativa na taxa de eliminação viral entre os grupos tratados com Lopinavir /Ritonavir ou arbidol, sugerindo que ambos os tratamentos não tiveram eficácia superior ao placebo. Além disso, os efeitos adversos foram semelhantes entre os grupos. |
| RECOVERY Collaborative Group. | Lopinavir Ritonavir em pacientes hospitalizados com COVID-19: um ensaio randomizado, controlado, aberto, do tipo plataforma. | Avaliar se o tratamento com Lopinavir Ritonavir melhora os desfechos em pacientes hospitalizados com COVID-19. | 5.040 pacientes. | Reino Unido, 2020. | O tratamento com Lopinavir Ritonavir não reduziu a mortalidade por todas as causas em 28 dias em comparação com o tratamento usual (23% vs. 22%; razão de risco 1,03; IC 95% 0,91–1,17; p=0,60). Não houve diferença significativa na duração da hospitalização ou na necessidade de ventilação mecânica. Apenas um evento adverso grave foi atribuído ao medicamento: elevação da ALT sem icterícia, que se resolveu após a interrupção do tratamento. |
3.5. Molnupiravir
Molnupiravir é um pró-fármaco que leva à mutagênese letal do RNA viral, ao ser incorporado no RNA em forma de ribonucleosídeo causa mutações excessivas.
A polimerase viral é enganada, resultando em erros de replicação viral consecutivos. No Brasil, o Molnupiravir foi aprovado pela Anvisa como uso emergencial em 4 de maio de 2022. O medicamento é indicado para o tratamento da Covid-19 em adultos que não requerem oxigênio suplementar e que apresentam risco aumentado de progressão da doença para casos graves.
Quadro 5: Distribuição dos estudos sobre Molnupiravir.
| Autores | Título/ Periódico | Objetivo(s) | Amostra | Local/Ano | Principais resultados |
| CARACO, Yoseph; CROFOOT, Gordon E.; MONCADA, Pablo Andres; et al. | Estudo de Fase 2/3 do Molnupiravir para Tratamento da COVID-19 em Adultos Não Hospitalizados | Avaliar a eficácia e segurança do Molnupiravir em adultos não hospitalizados com COVID-19 de risco elevado para progressão para formas graves da doença. | 1.433 participantes. | Vários países (Estudo multinacional ), 2022. | O Molnupiravir reduziu significativament e o risco de hospitalização ou morte em adultos não hospitalizados com COVID-19 de risco elevado. Não foram observados efeitos adversos graves relacionados ao tratamento. |
| FISCHER, William A.; ERON, Joseph J.; HOLMAN, Wayne; et al. | Ensaio clínico de fase 2a de Molnupiravir em pacientes com COVID-19 não hospitalizados | Avaliar a eficácia e segurança do Molnupiravir em pacientes adultos não hospitalizados com COVID-19, com o objetivo de reduzir a carga viral e acelerar a recuperação clínica. | 202 participantes. | Estados Unidos, 2021. | O estudo mostrou que o tratamento com Molnupiravir em pacientes adultos não hospitalizados com COVID‑19 reduziu significativament e a carga viral, com 92,5% dos participantes do grupo que recebeu 800 mg alcançando eliminação do RNA viral em comparação com 80,3% no grupo placebo ao final de quatro semanas. Além disso, o medicamento foi bem tolerado, apresentando efeitos adversos leves e semelhantes aos observados no grupo placebo. |
| ARRIBAS, José R.; BHAGANI, Sanjay; LOBO, Suzana M.; et al. | Molnupiravir para o tratamento oral da COVID-19 em adultos não hospitalizados com risco elevado de progressão para doença grave: um estudo randomizado, duplo-cego, controlado por placebo. | Avaliar a eficácia e segurança do Molnupiravir em adultos não hospitalizados com COVID-19 e risco elevado de progressão para doença grave. | 1.433 participantes. | Vários países (Estudo multinacional), 2021. | O tratamento com Molnupiravir reduziu significativamente o risco de hospitalização ou morte em comparação com o placebo, especialmente quando administrado dentro de 5 dias após o início dos sintomas. |
| JAYK BERNAL, Angélica; GOMES DA SILVA, Monica M.; MUSUNGAIE, Dany B.; et al. | Molnupiravir para Tratamento Oral da Covid-19 em Pacientes Não Hospitalizados. | Avaliar a eficácia e segurança do Molnupiravir em adultos não hospitalizados, não vacinados, com COVID-19 leve a moderada, iniciando o tratamento até 5 dias após o início dos sintomas. | 1433 participantes. | Vários países (Estudo multinacional), 2021. | O tratamento com Molnupiravir reduziu a taxa de hospitalização ou morte em pacientes não hospitalizados com COVID‑19 leve a moderada, sendo 6,8% no grupo tratado versus 9,7% no grupo placebo. O medicamento apresentou perfil de segurança semelhante ao placebo, com efeitos adversos leves e transitórios, e sua eficácia foi mais evidente em pacientes com maior risco de progressão para formas graves da doença. |
| CHAWLA, Akshita; BIRGER, Ruthie; MAAS, Brian M.; et al. | Comparação das relações exposição resposta do Molnupiravir para biomarcadore s de resposta virológica e mecanismo de ação com resultados clínicos no tratamento da COVID-19. | Examinar a relação entre níveis plasmáticos do fármaco e desfechos redução de carga viral. Comparar medidas como tempo de recuperação, progressão da doença e hospitalização. | 1553 participantes. | Estados Unidos, 2025. | Uma redução robusta na carga viral foi observada nos dias 5 e 10, com a dose de 800 mg a cada 12 horas. É afirmado que esta dose é suficiente para alcançar o efeito máximo do medicamento. |
| HARRIS, Victoria; HOLMES, Jane; GBINIGIE THOMPSON, Oghenekome; et al. | Resultados de saúde 3 meses e 6 meses após o tratamento com Molnupiravir para COVID 19 em pessoas com maior risco na comunidade: um ensaio clínico randomizado controlado. | Avaliar os desfechos de saúde em pacientes que utilizaram Molnupiravir para COVID-19, com acompanhamento de 3 e 6 meses após o tratamento. | 1.234 participantes. | Reino Unido, 2025. | O estudo observou que o uso de Molnupiravir foi associado a uma redução significativa nos desfechos adversos de saúde em 3 e 6 meses após o tratamento, em comparação com grupos que não utilizaram o medicamento. |
3.6. Nirmatrelvir
Nirmatrelvir é um inibidor de protease 3CL do SARS-CoV-2, atua interrompendo o processamento das poliproteínas virais de replicação. É associado com Ritonavir devido ao efeito sinérgico dos medicamentos, prolongando a meia vida do Nirmatrelvir. É uma das principais terapias orais adotadas em guidelines.
O medicamento é comercializado como “Paxlovid” (Nirmatrelvir + Ritonavir). Recebeu autorização emergencial ou aprovação. No Brasil, a Anvisa lista Paxlovid entre os medicamentos aprovados para tratamento de COVID-19.
Quadro 6: Distribuição dos estudos sobre Nirmatrelvir.
| Autores | Título/ Periódico | Objetivo(s) | Amostra | Local/Ano | Principais resultados |
| HAMMOND, Jennifer; LEISTER TEBBE, Heidi; GARDNER, Annie; et al. | Nirmatrelvir oral para adultos de alto risco não hospitalizado s com Covid 19. | Avaliar a eficácia e segurança do uso oral de Nirmatrelvir + Ritonavir em adultos sintomáticos, não hospitalizados e com alto risco de progressão para COVID-19 grave. | 2.246 participantes. | Estudo multinacional , 2021. | Foram relatadas diminuições na incidência de hospitalização ou morte por Covid A carga viral em dia 5 foi menor no grupo tratado com Nirmatrelvir. |
| CAO, Zhujun; GAO, Weiyi; BAO, Hong; et al. | VV116 versus Nirmatrelvir Ritonavir para o tratamento oral da Covid 19 | Comparar a eficácia e segurança de VV116, um agente antiviral oral, com Nirmatrelvir Ritonavir em adultos com COVID-19 leve a moderada e risco de progressão à forma grave, durante o surto da variante Ômicron. | 771 participantes | China, 2022. | VV116 demonstrou não inferioridade em relação ao Nirmatrelvir Ritonavir quanto ao tempo até a recuperação clínica. incidência de eventos adversos foi menor no grupo VV116. Não houve mortes nem progressão para forma grave da COVID-19 até o dia 28 em nenhum dos grupos. |
| DRYDEN PETERSON, Scott; KIM, Andy; KIM, Arthur Y.; et al. | Nirmatrelvir Ritonavir para COVID 19 em estágio inicial em um grande sistema de saúde dos EUA: um estudo de coorte baseado na população. | Avaliar, em condições reais (observacionais) , se o tratamento com Nirmatrelvir Ritonavir em pacientes ambulatoriais com COVID-19 precoce reduz o risco de hospitalização ou morte. | 44.551 participantes | Estados Unidos, 2022. | O risco ajustado de hospitalização ou morte foi aproximadament e 44% para aqueles que receberam Paxlovid. Em populações com alta cobertura vacinal, o benefício ainda foi observado, embora em magnitude menor do que em populações não vacinadas. |
| HAMMOND, Jennifer; YUNIS, Carla; FOUNTAINE , Robert J.; et al. | Nirmatrelvir Ritonavir oral como profilaxia pós exposição para a Covid 19. | Avaliar se a administração oral de Nirmatrelvir + Ritonavir como profilaxia pós exposição (PEP) pode prevenir o desenvolvimento de infecção sintomática por SARS-CoV-2 em adultos expostos. | 2.736 participantes | Estudo multinacional , 2022. | As diferenças entre cada grupo de tratamento e placebo não foram estatisticamente significativas. A incidência de infecção sintomática confirmada por SARS-CoV-2 até 14 dias foi de 2,6 % no grupo de 5 dias, 2,4 % no de 10 dias e 3,9 % no grupo placebo. |
| GENG, Linda N.; BONILLA, Hector; HEDLIN, Haley; et al | Nirmatrelvir Ritonavir e sintomas em adultos com sequelas pós agudas da infecção por SARS-CoV-2: o ensaio clínico randomizado STOP-PASC. | Avaliar se um curso de 15 dias de Nirmatrelvir Ritonavir pode reduzir a gravidade de sintomas selecionados de sequelas pós agudas de SARS-CoV-2 em adultos que já apresentam esses sintomas. | 155 participantes | Estados Unidos, 2022. | A gravidade de 6 sintomas de PASC (fadiga, confusão mental, falta de ar, dores no corpo, sintomas gastrointestinais e sintomas cardiovasculares) não apresentaram diferença significativa entre o grupo tratado e o placebo. Em termos de segurança, os eventos adversos foram semelhantes entre os grupos e em sua maioria leves. |
| ANDERSON, Annaliesa S.; CAUBEL, Patrick; RUSNAK, James M. | Nirmatrelvir Ritonavir e rebote da carga viral na Covid-19. | Descrever a frequência de aumento da RNA viral após término do tratamento em participantes que receberam Nirmatrelvir + Ritonavir no ensaio EPIC-HR e compará-la com o placebo. | 2.216 participantes | Estados Unidos, 2022. | O aumento de RNA viral ocorreu em taxas similares em ambos os grupos. Ocorreram hospitalizações no grupo Nirmatrelvir (1,3%) e no grupo placebo (5,7%). Os autores informam que não foi possível demonstrar uma associação consistente entre o uso de Nirmatrelvir /Ritonavir e o recuo de RNA viral. |
Os eventos adversos relatados foram disgeusia, alteração no sabor de alimentos e bebidas, e diarreia.
3.7. Remdesivir
Remdesivir é um pró-fármaco que atua como inibidor da RNA polimerase dependente de RNA. É um análogo de adenosina que ao ser convertido na forma ativa compete com o ATP na cadeia de RNA viral, causando terminação prematura da síntese de RNA.
É um medicamento reposicionado para COVID-19, seu desenvolvimento foi voltado para tratamento da Ebola e o vírus de Marburg. No Brasil, Remdesivir está aprovado pela Anvisa para uso em COVID-19. Em muitos países, é um dos primeiros antivirais aprovados para uso hospitalar em COVID-19.
Quadro 7: Distribuição dos estudos sobre Remdesvir.
| Autores | Título/ Periódico | Objetivo(s) | Amostra | Local/Ano | Principais resultados |
| SPINNER, Christoph D.; GOTTLIEB, Robert L.; CRINER, Gerard J.; et al. | Efeito do Remdesivir versus tratamento padrão no estado clínico após 11 dias em pacientes com COVID-19 moderada: um ensaio clínico randomizado. | Comparar a atividade antiviral e segurança de duas dosagens de Remdesivir EV em pacientes hospitalizados com COVID 19 moderada. | 600 participantes. | Estudo multinacional , 2020. | A aplicação de Remdesivir por 5 dias demonstrou razão de probabilidade de 1,65 de melhora clínica. Não foram observadas diferenças significativas nas alterações da função renal ou nas enzimas hepáticas entre os grupos estudados. |
| MOHIUDDIN CHOWDHUR Y, Abu Taiub Mohammed; KAMAL, Aktar; ABBAS, Kafil Uddin; et al. | Eficácia e resultados da combinação de Remdesivir e tocilizumab contra a dexametasona no tratamento da COVID-19 grave: um ensaio clínico randomizado controlado. | Investigar a eficácia e segurança da terapia combinada de Remdesivir + tocilizumab em pacientes com COVID 19 grave, comparada ao uso de dexametasona como controle, com desfechos clínicos. | 205 participante | Bangladesh, 2020. | O grupo Remdesivir + tocilizumab apresentou taxa de mortalidade de 25,49 %, enquanto o grupo controle (dexametasona) apresentou 30,77%. O grupo sob medicação teve tempo mais favorável de melhora clínica. Também apontaram que o grupo tratado com Remdesivir + tocilizumab teve menor proporção de necessidade de oxigênio adicional. |
| Consórcio do Ensaio Solidário da OMS. | Medicamentos antivirais reaproveitados para a Covid 19 — Resultados provisórios do Consórcio do Ensaio Solidário da OMS. | Avaliar o efeito dos antivirais reaproveitados : Remdesivir, Lopinavir e interferon beta-1a no desfecho de mortalidade hospitalar, início de ventilação e duração de internação em pacientes hospitalizados com COVID 19. | 11.330 participante s. Foram considerados 2750 participantes. | Estudo multinacional , 2020. | O antiviral não demonstrou reduzir mortalidade, necessidade de ventilação ou tempo de internação em pacientes hospitalizados com COVID-19. As taxas de redução de mortalidade não foram estatisticamente significativas. |
| WANG, Yeming; ZHANG, Dingyu; DU, Guanhua; et al. | Remdesivir em adultos com COVID-19 grave: um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e multicêntrico. | Avaliar se o tratamento intravenoso com Remdesivir por 10 dias apresenta melhora clínica, redução mortalidade e redução de carga viral em adultos hospitalizados com COVID 19 grave, em comparação ao placebo. | 237 participantes. | China, 2020. | O tempo até melhora clínica não foi estatisticamente significativo. Em subgrupo de pacientes tratados até 10 dias do início dos sintomas, houve tendência numérica de benefício. Mortalidade foi semelhante entre os grupos, 14% no grupo Remdesivir e 13% no placebo. redução de RNA não apresentou diferença entre os grupos. |
| BEIGEL, John H.; TOMASHEK, Kay M.; DODD, Lori E.; et al. | Remdesivir para o tratamento da Covid-19 — Relatório final. | Avaliar se o uso de Remdesivir intravenoso por 10 dias em adultos hospitalizados com COVID 19 e evidência de envolvimento do trato respiratório inferior é superior ao placebo em reduzir o tempo de recuperação e melhorar desfechos clínicos. | 1.062 participantes. | Estudo multinacional , 2020. | Os pacientes tratados com Remdesivir tiveram uma taxa de recuperação 29% maior que os tratados com placebo. O grupo Remdesivir teve 50% mais chance de apresentar melhora clínica em comparação ao placebo. O Remdesivir pode ter reduzido o risco de morte, mas sem significância estatística. |
| GOTTLIEB, Robert L.; VACA, Carlos E.; PAREDES, Roger; et al. | Remdesivir precoce para prevenir a progressão para Covid-19 grave em pacientes ambulatoriais. | Avaliar se um curso de 3 dias de Remdesivir administrado em pacientes não hospitalizados com COVID 19 sintomática e com risco de progressão reduz a hospitalização ou morte. | 562 participantes. | Estudo multinacional , 2020. | Nenhum óbito foi registrado até o dia 28 em nenhum dos grupos. Hospitalização relacionada à COVID-19 ou morte até o dia 28: ocorreu em 2 pacientes no grupo Remdesivir versus 15 pacientes no grupo placebo. Eventos adversos: ocorreram em números similares em ambos os grupos. |
| ADER, Florence; BOUSCAMB ERT DUCHAMP, Maude; HITES, Maya; et al. | Remdesivir mais tratamento padrão versus tratamento padrão isolado para o tratamento de pacientes internados no hospital com COVID-19: um ensaio clínico de fase 3, randomizado, controlado e aberto. | Avaliar a eficácia clínica de Remdesivir tratamento padrão versus SoC isolado em pacientes hospitalizados com COVID 19, que exigem suplementação de oxigênio. | 857 participantes. | Europa, 2020. | Após o dia 15 os dados mostraram valores muito semelhantes entre os grupos em relação à redução de hospitalização, uso de oxigênio e mortalidade. A diferença global entre os grupos não foi estatisticamente significativa. |
| GOLDMAN, Jason D.; LYE, David C.B.; HUI, David S.; et al. | Remdesivir por 5 ou 10 dias em pacientes com Covid-19 grave. | Avaliar se um curso de 5 dias ou 10 dias de Remdesivir intravenoso melhora o status clínico em pacientes hospitalizados com COVID 19 grave | 584 participantes. | Estudo multinacional , 2020. | O regime de 5 dias de Remdesivir mostrou benefício estatisticamente significativo, por outro lado, o regime de 10 dias não apresentou significância estatística. Isso sugere que estender o uso não trouxe adicional. benefício A mortalidade similar nos dois grupos de Remdesivir. |
Os eventos adversos mais comuns foram náusea e diarreia. O risco de efeitos adversos aumenta com o uso prolongado sem ganho proporcional em eficácia.
Dentre os resultados selecionados, destacou-se a eficácia de Azvudine, Molnupiravir, Nirmatrelvir, Remdesvir, com resultados positivos. Além dos resultados pouco promissores Ensitrelvir (em pacientes não hospitalizados), Favipiravir, Lopinavir. Os eventos adversos se apresentaram similares entre os medicamentos, apresentando sintomas intestinais devido à absorção dos fármacos
Os idiomas da maioria dos artigos selecionados se encontram em língua inglesa e raros artigos em língua portuguesa ou latino-americana.
4. DISCUSSÃO
Os medicamentos analisados demonstram benefícios variados na redução da carga viral, na melhoria clínica, risco de hospitalização e redução de mortalidade. A COVID-19 é uma infecção respiratória aguda potencialmente grave, de elevada transmissibilidade, que compreende um amplo espectro de sintomas respiratórios. Os tratamentos comuns eram voltados para sintomatologia, enquanto os tratamentos mais modernos possuem o objetivo de reduzir a carga viral que tem como consequência reduzir os sintomas provocados pelo vírus (Desidera et al., 2022; Wang et al., 2020).
4.1. Azvudine
A análise dos resultados apresentados revela uma convergência significativa entre os diferentes grupos de pesquisa no que tange à eficácia do Azvudine, embora cada um aborde aspectos distintos do seu benefício terapêutico. O estudo de WANG (2025) estabelece uma premissa fundamental de manejo clínico ao focar na importância do tempo da intervenção, associando a administração precoce a desfechos cruciais, como a redução da mortalidade e a diminuição da taxa de progressão para formas graves da doença em 28 dias. Em complementaridade, SUN (2023) fornece uma validação robusta desses desfechos clínicos, utilizando o pareamento por escore de propensão para comparar 245 pacientes tratados com 245 controles, corroborando a redução da mortalidade por todas as causas no grupo com Azvudine.
SOUZA (2023) em seu estudo fornece uma base virológica, prática e de segurança do tratamento. Enquanto Wang (2025) e Sun (2023) validam o impacto na progressão e na mortalidade, Souza (2025) demonstra a potente atividade do fármaco, observando uma redução significativa na carga viral e a conversão para carga indetectável no grupo Azvudine em comparação ao placebo.
4.2. Ensitrelvir
O Autor 1 (Luetkemeyer et al.) observou que o uso de Ensitrelvir, quando iniciado dentro de três dias do início dos sintomas, não alcançou significância estatística no desfecho primário, definido como o tempo até a resolução sustentada de 15 sintomas por pelo menos dois dias. Embora tenha havido uma redução numérica no tempo de resolução, essa redução não foi estatisticamente significativa.
Em contrapartida, o Autor 2 (Yotsuyanagi et al.) reportou resultados significativamente mais otimistas em seu desfecho clínico. O grupo tratado com Ensitrelvir apresentou um tempo mediano até a resolução de cinco sintomas típicos de COVID-19 significativamente menor em comparação ao placebo. Autor 3 (Ohmagari et al.) complementa a visão positiva, indicando uma redução expressiva de 77 % no risco de desenvolvimento de qualquer dos 14 sintomas típicos, demonstrando claramente que o tratamento está associado a uma melhora significativa em desfechos sintomáticos mais focados (5 sintomas) e a uma redução substancial no risco de desenvolvimento ou agravamento de sintomas.
4.3. Favipiravir
O Favipiravir é reconhecido por sua atividade antiviral contra o SARS-CoV-2, atuando especificamente pela inibição da RNA polimerase dependente de RNA viral. Contudo, a tradução dessa atividade in vitro para um impacto virológico consistente in vivo é o ponto central da discórdia científica entre os autores.
Alguns estudos apresentaram evidências de que o Favipiravir é eficaz na redução da carga viral. Especificamente, o Autor 5 (LOWE et al.) demonstrou que o Favipiravir isolado reduziu significativamente a carga viral em pacientes ambulatoriais, resultando em 46,3 % dos pacientes com carga viral indetectável no dia 5, em comparação com 26,9 % no grupo placebo. O Autor 6 (SMITH et al.) também observou a negativação viral no trato respiratório superior até o dia 5
Alguns estudos apresentaram evidências de que o Favipiravir é eficaz na redução da carga viral. Especificamente, o Autor 5 (LOWE et al.) demonstrou que o Favipiravir isolado reduziu significativamente a carga viral em pacientes ambulatoriais, resultando em 46,3 % dos pacientes com carga viral indetectável no dia 5, em comparação com 26,9 % no grupo placebo. O Autor 6 (SMITH et al.) também observou a negativação viral no trato respiratório superior até o dia 5.
4.4. Lopinavir
Os achados clínicos são unânimes em apontar a falta de impacto do Lopinavir/Ritonavir nos desfechos primários da doença, incluindo tempo de recuperação e sobrevivência.
O Autor 1 (CAO et al.) observou que o tratamento com Lopinavir não demonstrou variação no tempo de recuperação em comparação ao grupo controle. Esta conclusão é suportada pelo estudo em larga escala do Autor 3 (RECOVERY Collaborative Group), que fornece a evidência mais robusta contra o uso do medicamento. Este grupo concluiu que o tratamento com Lopinavir/Ritonavir não reduziu a mortalidade por todas as causas em 28 dias.
A identificação de eventos adversos graves, ainda que raros (apenas um evento grave foi atribuído ao medicamento no estudo RECOVERY), somada à completa falta de benefício clínico (Autor 3) e virológico (Autores 1 e 2), fortalece a conclusão crítica de que o risco-benefício do uso do Lopinavir/Ritonavir é desfavorável no tratamento da COVID-19.
4.5. Molnupiravir
Os estudos realizados sobre o molnupiravir apontam resultados consistentes quanto à sua eficácia em reduzir a progressão da COVID-19 quando administrado nos estágios iniciais da infecção. O ensaio clínico de Jayk Bernal et al (2022), conduzido em vários países com 1.433 pacientes não hospitalizados, demonstrou que o uso de molnupiravir reduziu a taxa de hospitalização ou morte em comparação ao placebo (6,8 % vs. 9,7 %), mantendo um perfil de segurança semelhante entre os grupos.
Resultados semelhantes foram observados por Caraco et al (2022), em um estudo de fase 2/3 com adultos não hospitalizados e com risco elevado para formas graves da doença. O tratamento iniciado até cinco dias após o início dos sintomas diminuiu significativamente o risco de hospitalização e morte, reforçando o potencial clínico do fármaco.
De forma complementar, Fischer et al (2021) verificaram que o molnupiravir promoveu uma redução expressiva da carga viral, com 92,5 % dos pacientes atingindo eliminação do RNA viral após quatro semanas, em comparação a 80,3 % no grupo placebo. Os efeitos adversos relatados foram leves e transitórios.
4.6. Nirmatrelvir
A análise dos resultados sobre o Nirmatrelvir, demonstra evidências consistentes quanto à sua eficácia e segurança no tratamento precoce da COVID19. O estudo de Hammond et al (2022) mostrou redução aproximada de 89% no risco de hospitalização ou morte entre adultos sintomáticos de alto risco, além de queda significativa da carga viral no quinto dia de tratamento. De forma complementar, Dryden-Peterson et al (2023) confirmaram esses achados em um cenário de prática clínica real, com redução de 44% no risco de hospitalização ou óbito, mesmo em indivíduos vacinados, reforçando a aplicabilidade do fármaco em contextos populacionais diversos.
Quanto à segurança, os eventos adversos relatados foram predominantemente leves, como disgeusia e diarreia, sem registros de toxicidades graves (Hammond et al., 2022). Já Anderson et al (2022) investigaram o fenômeno do “rebote viral” e não identificaram associação significativa entre o uso do medicamento e o retorno da carga viral detectável, sugerindo estabilidade do efeito antiviral.
4.7. Remdesvir
A análise dos resultados indica que o Remdesivir apresenta eficácia clínica moderada no tratamento da COVID-19, com melhor desempenho quando administrado nas fases iniciais da doença. Estudos como o de Beigel et al. (2020) evidenciaram redução do tempo médio de recuperação e tendência de melhora clínica, enquanto Spinner et al. (2020) e Goldman et al. (2020) reforçaram a eficácia do tratamento em curto prazo, com poucos eventos adversos. Esses achados sugerem que o medicamento pode contribuir para o controle da progressão viral e melhora sintomática em pacientes hospitalizados com quadro moderado.
Contudo, resultados divergentes foram apresentados no Ensaio Solidarity da Organização Mundial da Saúde (2021), que não constatou diminuição significativa na mortalidade, ventilação mecânica ou tempo de hospitalização, apontando limitações no impacto global do fármaco.
O conjunto das evidências demonstra que o medicamento se mantém como uma alternativa segura e com papel relevante no manejo clínico da COVID-19 em contextos hospitalares. Dessa forma, conclui-se que o Remdesivir tem um papel importante, embora restrito, na terapêutica antiviral, atuando principalmente na redução do tempo de recuperação.
4.8. Desfecho
Essa inconsistência nos resultados virológicos sugere a necessidade de padronização nos protocolos de ensaio, incluindo a fase da doença, a população estudada (ambulatorial versus hospitalizada) e a metodologia de quantificação viral, para determinar a verdadeira magnitude do efeito virológico dos fármacos.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise conclui que o cenário terapêutico é marcado por uma eficácia heterogênea: fármacos como Nirmatrelvir, Molnupiravir e Azvudine demonstraram de forma consistente a maior eficácia, com evidências robustas na redução da progressão da doença, hospitalização e mortalidade, especialmente sob intervenção precoce. Em oposição direta, o Lopinavir/Ritonavir foi conclusivamente refutado pelos principais ensaios, comprovando sua ineficácia clínica e virológica. Outros medicamentos, como o Remdesivir, Ensitrelvir e Favipiravir, ocupam um espectro intermediário, apresentando eficácia moderada. Estes achados consolidam a intervenção antiviral precoce com os fármacos de eficácia comprovada (notadamente Nirmatrelvir, Molnupiravir e Azvudine) como a estratégia terapêutica mais robusta validada pela literatura recente.
Destaca-se a importância de monitoramento contínuo da eficácia frente às novas variantes virais, garantindo que sua utilização permaneça alinhada às evidências mais recentes e às recomendações de saúde pública.
REFERÊNCIAS
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1Graduando(a) do Curso de Biomedicina. mikaellyyasmim12@gmail.com / luisantonio.m.vsc@gmail.com
2Doutora em Ciências da Saúde mariana.santos@cesmac.edu.br
