REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202509032018
Helen Fernanda Bezerra Lycarião
Resumo: O propósito central desta pesquisa é aprofundar a compreensão da intrínseca influência da Arquitetura e Design na qualidade de vida, destacando como essas disciplinas podem ser conscientemente empregadas como ferramentas estratégicas para promover não apenas o conforto físico, mas de acordo com Paiva (2018), também o bem-estar emocional e a satisfação em diversas áreas, tais como, tornar ambientes de trabalho mais eficientes e produtivos, auxiliar na recuperação de pacientes em hospitais, reduzir o nível de stress e ansiedade nos ambientes habitados, gerar interação social e sentimento de pertencimento em comunidades.
Este estudo visa transcender a mera estética arquitetônica ou função física dos edifícios, reconhecendo a capacidade dessas disciplinas de moldar experiências humanas e criar ambientes que atendam com maior chances às necessidades multifacetadas das pessoas. O foco é explorar os diferentes aspectos desse estudo, conhecido como neuroarquitetura, para atender as necessidades humanas e construir espaços mais saudáveis e sustentáveis com o apoio de princípios fundamentados em descobertas neurocientíficas ao explorar as interconexões entre o ambiente construído e as respostas neurocognitivas. Como a arquitetura, ao moldar o espaço físico, poderia contribuir para abordagens holísticas, indo além das práticas tradicionais?
Palavras-chave: Neuroarquitetura, ambiente construído, comportamento, espaço, influência, cognitivo-emocional, gestalt, bem-estar.
1. Introdução
O ambiente impacta as pessoas e elas reagem tanto cognitiva quanto emocionalmente ao ambiente construído, de acordo com KK Rooney, RJ Condia, LC Loschky, (2017), esses dois aspectos operam por meio de sistemas altamente interconectados relacionados ao processamento e avaliação da informação percebida. A capacidade neural de registrar a atividade de indivíduos durante a exposição a situações ambientais, por meio de técnicas neurocientíficas e realidade virtual, estabelece uma base promissora para futuros estudos e projetos na área do ambiente construído. Essa área de estudo é conhecida como “neuroarquitetura”. Diversos ramos da neurociência, como a cognitiva, comportamental, neurofisiológica e sensorial, oferecem insights valiosos sobre a percepção em geral, com um foco especial no espaço arquitetônico. A aplicabilidade da neurociência à arquitetura possibilita a quantificação do impacto da estrutura física no ser humano. Essa abordagem pode resultar em designs que promovem significativamente a qualidade de vida dos usuários, destacando a potencial sinergia entre ciência cerebral e práticas arquitetônicas.
2. Neurociência em Arquitetura
Conforme Higuera-Trujillo, Llinares, Macagno, (2021), destaca-se a complexidade da interação entre o ser humano e o ambiente, enfatizando que o comportamento é moldado pela interseção entre fatores individuais (memórias, genética) e o ambiente (social e físico). A inclusão do ambiente físico, como parte integral desta equação, destaca a importância do design arquitetônico na influência do comportamento humano.
De acordo com Paiva (2018), muitos aspectos do comportamento humano são governados por processos automáticos e subconscientes, que podem ser influenciados pelo ambiente físico de maneiras que as pessoas não percebem conscientemente. Mesmo que as pessoas não estejam cientes das influências ambientais, essas influências têm um impacto significativo em seu comportamento e emoções.
A sugestão de que a combinação da neurociência e da arquitetura pode ser uma ferramenta valiosa para decifrar a relação entre o cérebro e o espaço destaca a promissora interdisciplinaridade entre essas áreas. A compreensão mais profunda dos processos cerebrais e das respostas subconscientes pode informar o design de ambientes que promovam o bem-estar, a produtividade e a satisfação.
Essa abordagem integrada pode ter implicações práticas, como criar ambientes de trabalho mais produtivos, espaços educacionais mais propícios à aprendizagem ou ambientes urbanos mais agradáveis. Ao considerar não apenas os aspectos visíveis e tangíveis do design, mas também as influências subconscientes, os arquitetos podem criar espaços mais holísticos e adaptados às necessidades humanas.
Em resumo, conforme T Karakas, D Yildiz, (2020), a abordagem combinada da neurociência e da arquitetura oferece uma perspectiva valiosa para entender e otimizar a relação entre o ser humano e o ambiente construído, resultando em espaços que não apenas atendem às necessidades funcionais, mas também promovem o bem-estar e a qualidade de vida.
3 .A Influência Arquitetônica: Explorando Pesquisas Diretamente Relacionadas ao Impacto nos Seres Humanos
A importância de ambientes equilibrados no desenvolvimento humano se destaca por Paiva (2018), associando-os a melhorias na criatividade e função cognitiva. Deficiências na estimulação ambiental são apontadas como impactantes no desenvolvimento cerebral. No âmbito do estresse, elementos como ruído e falta de vegetação são identificados como contribuintes para consequências negativas, como uma recuperação mais difícil para pacientes e uma expectativa de vida reduzida. Em contrapartida, estudos ressaltam os benefícios terapêuticos da arquitetura, alinhados ao conceito de “ambiente de cura”. Socialmente, o ambiente pode influenciar o coletivismo, a atração de candidatos para organizações, e aprimorar o sentimento de pertencimento e comportamento dos cidadãos. A variabilidade do impacto dos efeitos ambientais depende da sensibilidade do usuário, com a observação de que elementos não arquitetônicos também podem desempenhar papéis significativos.
De acordo com Higuera-Trujillo, Llinares, Macagno, (2021), a orientação, a luz e a acústica desempenham papéis cruciais na experiência humana nos espaços construídos, e a consideração desses elementos pode ter um impacto significativo no bem-estar e na eficácia dos ambientes arquitetônicos.
Orientação:
- A orientação dos edifícios pode afetar a forma como as pessoas interagem com o ambiente ao seu redor. Uma boa orientação pode otimizar a entrada de luz natural, a ventilação e até mesmo influenciar a eficiência energética do edifício.
- Estudos sobre orientação também podem contribuir para melhorar estratégias de navegação, tornando os espaços mais intuitivos e fáceis de serem compreendidos pelos usuários.
Luz:
- Além de considerações estéticas, a pesquisa na área de luz também se concentra em questões de saúde. A exposição adequada à luz natural pode regular os ritmos circadianos, influenciando o sono, o humor e o desempenho cognitivo.
- A aplicação dessas descobertas pode ser particularmente benéfica para grupos específicos, como trabalhadores em turnos noturnos, cujas rotinas podem ser impactadas pela exposição inadequada à luz.
Acústica:
- Estudos sobre acústica são essenciais para entender como o ruído afeta as pessoas em diferentes ambientes. Isso inclui não apenas o ruído externo, mas também considerações sobre a qualidade sonora interna dos espaços.
- A pesquisa sobre recuperação do estresse diante de diferentes qualidades sonoras destaca a importância de criar ambientes acusticamente agradáveis, especialmente em locais como hospitais, escritórios e residências.
Em resumo, o entendimento e a aplicação de pesquisas sobre orientação, luz e acústica na arquitetura não apenas melhoram a estética dos espaços, mas também têm implicações significativas na saúde, bem-estar e experiência global dos usuários. Essa abordagem holística é fundamental para o design eficaz e centrado no usuário.
4. Abordagens Fundamentais : Explorando a Dimensão Cognitivo-Emocional da Arquitetura
A utilização de proporções geométricas na arquitetura para abordar a dimensão cognitivo-emocional remonta a longa data e tem sido uma prática recorrente na busca por uma harmonia percebida pelos usuários. A ligação entre o corpo humano e a arquitetura através de regras geométricas matemáticas é uma tradição que foi explorada por renomados arquitetos como Palladio e Le Corbusier.
Conforme Higuera-Trujillo, Llinares, Macagno, (2021), arquitetos frequentemente recorrem a conceitos geométricos tradicionais, como o padrão de nove quadrados e a seção áurea, para criar proporções consideradas estéticamente agradáveis e harmoniosas. Esses padrões foram validados experimentalmente ao longo do tempo e continuam a ser explorados com o auxílio de tecnologias modernas, como realidade virtual, para entender melhor como as formas geométricas afetam a percepção emocional dos espaços.
Além das abordagens tradicionais, novas tentativas buscam quantificar propriedades geométricas para captar a dimensão cognitivo-emocional. A análise isovista, que mede o volume do espaço visível de um ponto específico, e o uso de inteligência artificial para distinguir categorias formais são exemplos dessas abordagens inovadoras. A base neurocientífica é incorporada para entender como padrões geométricos podem influenciar a resposta emocional das pessoas aos ambientes construídos.
A abordagem geométrica continua relevante na análise matemático-geométrica de imagens arquitetônicas. Métricas espaciais, como densidade de borda, dimensão fractal, entropia e métricas de cor, são utilizadas para quantificar características específicas das formas arquitetônicas. O uso de tecnologia permite uma análise mais precisa e aprofundada, contribuindo para uma compreensão mais refinada da interação entre geometria e emoção na arquitetura.
A aplicação dessas métricas e abordagens reflete uma busca contínua por compreender como a geometria influencia a experiência emocional na arquitetura. A incorporação de inteligência artificial e tecnologias avançadas sinaliza uma evolução na forma como os arquitetos exploram e aplicam princípios geométricos para criar ambientes que ressoem com as emoções dos usuários.
Em resumo, a abordagem geométrica na arquitetura não apenas tem uma história rica, mas também continua a evoluir, integrando novos métodos, tecnologias e insights neurocientíficos. Essa busca pela compreensão da interação entre geometria e emoção contribui para o desenvolvimento de espaços arquitetônicos mais significativos e emocionalmente impactantes.
5. Design Baseado em Evidências (EBD): Uma Abordagem Prática na Arquitetura
De acordo com Higuera-Trujillo, Llinares, Macagno, (2021), o Design Baseado em Evidências (EBD) é definido como o processo de tomar decisões sobre o ambiente construído com base em pesquisas confiáveis. Originado na área médica como uma extensão da medicina baseada em evidências para o projeto arquitetônico, o EBD encontra aplicação em análises de plano e avaliações pós-ocupação. Notavelmente, tem sido amplamente utilizado em espaços de saúde, aproveitando a influência do ambiente na recuperação do paciente, demonstrada por Ulrich.
A versatilidade do EBD é evidente, sendo acessível a qualquer organização. Diversos aspectos foram estudados, incluindo redução da dor e estresse, melhoria do descanso, orientação espacial, vagando, privacidade e segurança, coesão social, bem-estar geral e satisfação, e design de ambientes adaptados às crianças.
Os tópicos seguintes apresentam efeitos gerados por variáveis ou aspectos do projeto arquitetônico frequentemente estudados na psicologia ambiental e na abordagem Evidence-Based Design (EBD). A seguir estão os principais pontos mencionados:
Altura do Teto:
- Tetos altos inspiram liberdade, enquanto tetos baixos acalmam.
- Tetos altos estão associados a maior criatividade e sensação de conforto.
- A altura do teto afeta positivamente a orientação das pessoas no espaço.
Presença de Vegetação:
- A vegetação, como árvores, reduz o estresse e a ansiedade.
- Em parques, o prazer aumenta com a densidade das árvores, e a excitação aumenta com a densidade das ervas daninhas.
- A hipótese da biofilia sugere uma preferência por formas naturais, e a teoria da restauração destaca características restaurativas em ambientes naturais.
Complexidade:
- Há uma preferência por níveis moderados de complexidade, semelhantes a um ambiente de savana.
- A teoria prospecto-refúgio indica preferência por ambientes que ofereçam controle visual e locais para se esconder.
Iluminação:
- A temperatura da cor e a iluminância estão relacionadas ao conforto.
- A luz natural reduz as internações hospitalares.
- Paredes e tetos influenciam a percepção da luminosidade, com salas parecendo maiores com mais luz indireta.
- A valência do humor e o desempenho cognitivo são afetados por parâmetros de luz.
Cor:
- A cor tem efeitos iniciais no processamento visual e uma variedade de efeitos nas preferências estéticas.
- Matiz e saturação estão relacionados ao estado emocional.
- Tons quentes têm valores de excitação mais altos, e tons mais frios têm valores mais baixos.
Uso e Coerência:
- A utilização dada a um espaço influencia sua avaliação psicológica.
- Em ambientes naturais, a coerência de móveis de madeira é maior do que com móveis de metal, mas menor do que um ambiente sem móveis.
Esses resultados destacam a complexidade das interações entre o design arquitetônico e as respostas psicológicas e emocionais das pessoas, evidenciando a importância de considerar esses fatores na concepção de ambientes construídos.
As novas ferramentas de pesquisa proporcionam estímulos artificiais mais próximos da realidade nos espaços representados e avaliações mais objetivas das respostas cognitivo-emocionais. De acordo com Higuera-Trujillo, Llinares, Macagno, (2021), a Realidade Virtual (VR) é frequentemente utilizada para criar estímulos que simulam ambientes de forma realista, imersiva e interativa em condições laboratoriais controladas. Quanto à avaliação, a neurociência e suas tecnologias associadas permitem o registro e interpretação de reações comportamentais, fisiológicas e neurológicas humanas, oferecendo altos níveis de objetividade e monitoramento contínuo. Apesar de estar disponível há décadas, a aplicação dessas técnicas neurocientíficas está atualmente em expansão.
6. Conclusões
Embora a implementação completa de princípios derivados da neurociência na concepção de projetos leve tempo, ações imediatas podem ser tomadas para melhorar a resposta cognitivo-emocional humana em ambientes arquitetônicos existentes e na concepção de novos espaços. A combinação de avanços na neurociência e simulação ambiental tem o potencial de ampliar o impacto da neuroarquitetura. Os futuros arquitetos que abraçarem essas novas possibilidades, sem preconceitos, podem se destacar, tornando o desafio emocionante e promissor.
A integração da neurociência na arquitetura não busca reduzir o design a padrões universais, mas complementar as ferramentas existentes dos arquitetos. Entender os fundamentos da dimensão cognitivo-emocional não diminui a relevância da arquitetura nem elimina a necessidade de arquitetos, mas enriquece o conjunto de ferramentas disponíveis. A neuroarquitetura oferece conhecimentos que podem atender mais amplamente às necessidades dos usuários, melhorando a resposta cognitivo-emocional no ambiente construído.
Concluindo, uma das maiores contribuições da neurociência para outros campos do conhecimento – incluindo a arquitetura – é a compreensão de que os humanos estão programados para apresentar comportamentos e percepções muito mais impulsivos, instintivos e emotivos do que os racionais e conscientes. Com isso em mente, surge uma questão importante: os arquitetos têm projetado seus edifícios para qual sistema de percepção?
7. REFERÊNCIAS:
KARAKAS, T.; YILDIZ, D. Frontiers of Architectural Research, 2020 .Exploring the influence of the built environment on human experience through a neuroscience approach: A systematic review. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2095263519300810
ROONEY, KK.; Condia, RJ.; Loschky, LC. Frontiers in psychology, 2017, frontiersin.org. Focal and ambient processing of built environments: intellectual and atmospheric experiences of architecture. Disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2017.00326/full
HIGUERA-TRUJILLO, JL.; LLINARES, C.; MACAGNO, E.; 2021. The Cognitive-Emotional Design and Study of Architectural Space: A Scoping Review of Neuroarchitecture and Its Precursor Approaches.Disponivel em: https://sciprofiles.com/profile/1311867?utm_source=mdpi.com&utm_medium=websit e&utm_campaign=avatar_name
PAIVA, A. Journal of Civil Engineering and Architecture, 2018. Neuroscience for architecture: How building design can influence behaviors and performance.
Disponível em:
https://www.researchgate.net/profile/Andrea-De-Paiva/publication/325016082_Neuroscience_for_Architecture_How_Building_Design_Can_Influence_Behaviors_and_Per formance/links/5b97d438299bf14ad4cdbdb5/Neuroscience-for-Architecture-How-Buil ding-Design-Can-Influence-Behaviors-and-Performance.pdf
