REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202512231930
Tainara Suélen de Siqueira¹
Co-autor: Neemias Santos Carneiro¹
Co-autor: Gustavo Henrique Alves Zangirolami¹
RESUMO
Introdução: A surdez súbita (SS) é uma perda auditiva neurossensorial abrupta, geralmente ≥30 dB em três frequências consecutivas em até 72 horas, configurando uma urgência otorrinolaringológica. Apesar da variedade de tratamentos propostos, o uso de corticosteroides – sobretudo pela via intratimpânica – tem ganhado destaque devido à sua eficácia e segurança.
Objetivo: Avaliar, por meio de revisão sistemática da literatura, a eficácia da injeção intratimpânica de corticoides no tratamento da surdez súbita idiopática, bem como identificar fatores prognósticos associados à recuperação auditiva.
Métodos: Revisão sistemática realizada nas bases PubMed, SciELO, Cochrane Library e Embase, incluindo estudos publicados nos últimos 20 anos envolvendo pacientes com diagnóstico de surdez súbita tratados com corticosteroides intratimpânicos, isolados ou em combinação com terapia sistêmica.
Resultados: A maioria dos estudos demonstra que a terapia intratimpânica oferece taxas superiores de recuperação auditiva, especialmente em casos graves ou refratários ao tratamento sistêmico. A administração precoce (≤14 dias) está associada a melhores resultados.
Conclusão: A literatura evidencia que o uso de corticosteroides intratimpânicos é eficaz, seguro e desempenha papel central tanto como tratamento primário quanto de resgate na surdez súbita idiopática.
Palavras-chave: surdez súbita; perda auditiva neurossensorial; injeção intratimpânica.
INTRODUÇÃO
A surdez súbita (SS), também denominada perda auditiva neurossensorial súbita (PANS), caracteriza-se pela perda auditiva abrupta ≥30 dB em três frequências consecutivas no intervalo de até 72 horas. É considerada uma urgência otorrinolaringológica, com impacto significativo na qualidade de vida e incidência estimada entre 5 e 20 casos por 100.000 habitantes ao ano.
Embora diversas hipóteses etiológicas sejam consideradas – virais, vasculares, autoimunes e traumáticas – cerca de 80% dos casos permanecem idiopáticos. O manejo terapêutico precoce é apontado como o principal determinante prognóstico.
Os corticoides constituem a base do tratamento convencional, sendo administrados por via oral ou intravenosa. Contudo, a via intratimpânica tem expressiva relevância como alternativa terapêutica principal ou adjuvante, especialmente devido à alta concentração local e reduzidos efeitos sistêmicos.
Diante da crescente utilização dessa técnica e do número substancial de publicações recentes, torna-se necessária uma atualização contínua das evidências disponíveis sobre sua eficácia e seus fatores prognósticos.
MÉTODOS
Tipo de estudo
Revisão sistemática da literatura conduzida conforme as recomendações PRISMA.
Bases de dados
Foram consultadas as bases: PubMed/MEDLINE, SciELO, Embase e Cochrane Library
Estratégia de busca
Termos utilizados (MeSH e descritores livres): “sudden sensorineural hearing loss”, “sudden deafness”, “intratympanic injection”, “intracochlear steroids” e “hearing loss treatment”
Critérios de inclusão
Estudos clínicos, revisões sistemáticas e metanálises; Pacientes com surdez súbita idiopática; Uso de corticosteroide intratimpânico isolado ou combinado; Estudos publicados nos últimos 20 anos; Textos completos disponíveis em inglês, português ou espanhol.
Critérios de exclusão
Estudos com etiologia definida (trauma, tumores, infecções específicas); Relatos de caso isolados; Estudos não clínicos; Dados incompletos ou duplicados.
Seleção dos estudos
Dois revisores independentes selecionaram os artigos por título, resumo e texto completo. Os conflitos foram resolvidos por consenso.
Extração dos dados
Foram coletados dados referentes a amostra, tempo até início do tratamento, tipo e dose de corticosteroide, métodos audiológicos, taxa de recuperação auditiva e fatores prognósticos associados.
Resultados da busca
A busca inicial identificou 421 estudos. Após remoção de duplicatas (n = 87), restaram 334 artigos para triagem de título e resumo. Destes, 52 foram avaliados integralmente e 19 preencheram todos os critérios de inclusão.
Os estudos incluídos consistiram em ensaios clínicos randomizados, coortes retrospectivas e metanálises recentes avaliando eficácia dos corticosteroides intratimpânicos
REVISÃO DE LITERATURA
Conceito e definição
A surdez súbita (SS), também denominada perda auditiva neurossensorial súbita (PANS), é definida como a perda abrupta da audição em uma ou ambas as orelhas, usualmente ≥ 30 dB em três frequências consecutivas, ocorrida em até 72 horas, sem causa aparente ou traumática (Stachler et al., 2012; Chandrasekhar et al., 2019).
Trata-se de uma condição clínica considerada urgência otorrinolaringológica, com impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes, uma vez que compromete a comunicação, a interação social e as atividades profissionais (Kuhn et al., 2011). A perda auditiva neurossensorial que ocorre de forma abrupta sem uma causa clara é um fator determinante no diagnóstico de SS.
Epidemiologia
A incidência da SS varia entre 5 e 20 casos por 100.000 habitantes por ano (Nosrati-Zarenoe et al., 2010; Gergely et al., 2022). Ocorre em todas as idades, mas é mais comum entre 30 e 60 anos, com pico entre 40 e 50 anos e discreta predominância no sexo masculino (Kuhn et al., 2011; Byl, 1984). Na maioria dos casos, apresenta-se de forma unilateral, enquanto a ocorrência bilateral é rara e associada a etiologia de base mais grave, como desordens autoimunes (Rauch, 2008).
Fatores de risco frequentemente associados incluem hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, doenças autoimunes, infecções virais e barotrauma (Lin et al., 2018; Gergely et al., 2022). Contudo, em até 80–90% dos casos, a SS permanece idiopática (Nosrati-Zarenoe et al., 2010).
Fisiopatologia e Etiologias Associadas
A fisiopatologia da SS é multifatorial e ainda pouco compreendida. As hipóteses envolvem mecanismos virais, vasculares, autoimunes e traumáticos. Estudos sugerem que infecções virais, como herpesvírus e influenza, podem acometer a cóclea, desencadeando inflamação e apoptose celular (Suzuki et al., 2018). Outra teoria é a de insuficiência vascular, em que microtromboses na artéria auditiva comprometeriam o fluxo sanguíneo coclear (Merchant et al., 2005).
As causas autoimunes também têm relevância, sobretudo em pacientes com doenças sistêmicas como lúpus eritematoso ou síndrome de Cogan (Mürbe et al., 2018). Apesar da diversidade de hipóteses, aproximadamente 85% dos casos permanecem sem etiologia definida, sendo classificados como idiopáticos (Patel et al., 2023).
Diagnóstico Clínico
O diagnóstico é clínico e audiométrico. O paciente tipicamente relata perda auditiva súbita, unilateral, por vezes associada a plenitude auricular, zumbido ou vertigem. A audiometria tonal liminar é o padrãoouro: define-se SS como perda ≥ 30 dB em três frequências consecutivas no intervalo de 72 horas (Stachler et al., 2012).
Na avaliação diagnóstica, é crucial excluir causas otológicas e retrococleares, como neurinoma do acústico, otite média e traumatismos (Kuhn et al., 2011).
Exames Complementares
Exames de imagem como ressonância magnética com contraste auxiliam na exclusão de schwannoma vestibular ou outras lesões centrais (Rauch, 2008). O potencial evocado auditivo de tronco encefálico (PEATE) pode ser útil para avaliar o nervo auditivo.
Exames laboratoriais são indicados quando há suspeita de doença autoimune, infecciosa ou metabólica (Speets et al., 2020), incluindo sorologias virais, autoanticorpos e perfil glicêmico.
Tratamento Médico
O tratamento da SS é motivo de debate, principalmente pela natureza idiopática da maioria dos casos. Os glicocorticoides sistêmicos continuam sendo a terapia de primeira linha, administrados preferencialmente nas primeiras 48–72 horas (Chandrasekhar et al., 2019; Rauch, 2008).
A eficácia de antivirais isolados não foi confirmada em revisões sistemáticas (Speets et al., 2020). Já a oxigenoterapia hiperbárica apresenta resultados promissores, quando associada ao tratamento convencional, em pacientes com quadros graves ou refratários (Wei et al., 2023).
Tratamento Intratimpânico
Em casos onde a terapia sistêmica com corticoides não é eficaz, ou quando o tratamento precoce não foi possível, o uso de injeção intratimpânica de corticoides tem se mostrado uma alternativa eficaz. A injeção intratimpânica é indicada para pacientes com surdez súbita grave, que não apresentaram melhora com o tratamento oral, ou quando a condição persiste por mais de uma semana.
A injeção permite maior concentração local do medicamento com menos efeitos colaterais sistêmicos (Bourgault et al., 2021).
Metanálises apontam que pacientes tratados precocemente com corticoides intratimpânicos apresentam taxas de recuperação auditiva superiores às observadas com terapia sistêmica isolada, especialmente em casos graves ou quando há falha no tratamento oral (Patel et al., 2023; Wei et al., 2023). A dose e o número de aplicações de corticoides intratimpânicos variam de acordo com o protocolo de cada serviço, mas normalmente incluem uma série de aplicações semanais.
A eficácia do tratamento intratimpânico em surdez súbita tem sido bem documentada, com diversos estudos mostrando que a maioria dos pacientes que recebem esse tipo de tratamento apresenta alguma melhora na audição. Estudos clínicos randomizados e revisões sistemáticas têm demonstrado que os corticoides intratimpânicos são mais eficazes que os tratamentos sistêmicos em certos grupos de pacientes, principalmente quando administrados nas primeiras semanas após o início dos sintomas (Patel et al., 2023).
Prognóstico e Fatores de Recuperação
O prognóstico da surdez súbita é bastante variável e depende de múltiplos fatores clínicos e terapêuticos. Em linhas gerais, apenas uma parte dos pacientes atinge recuperação completa, sendo que a maioria apresenta melhora parcial da audição. Estudos apontam que entre 30% e 60% dos casos têm algum grau de recuperação auditiva, com taxas menores de restituição total da função auditiva (Kuhn et al., 2011; Chandrasekhar et al., 2019).
Entre os fatores mais relevantes, destaca-se o tempo decorrido até o início do tratamento, considerado o principal determinante prognóstico. A intervenção precoce, especialmente nas primeiras 72 horas, associa-se a melhores taxas de recuperação auditiva, bem como ao controle de sintomas como vertigem e zumbido (Stachler et al., 2012; Davis et al., 2021; Chandrasekhar et al., 2019).
Outro aspecto crítico é o grau inicial da perda auditiva. Pacientes com perdas leves a moderadas apresentam maior chance de recuperação, ao passo que perdas graves ou profundas tendem a evoluir com sequelas auditivas mesmo após terapia adequada (Bourgault et al., 2021; Patel et al., 2023).
A idade também exerce influência: indivíduos mais jovens demonstram resultados mais favoráveis, possivelmente devido à maior plasticidade neural e capacidade de regeneração das estruturas cocleares. Em contrapartida, pacientes idosos apresentam recuperação mais limitada (Mürbe et al., 2018; Davis et al., 2021).
A presença de sintomas associados, sobretudo vertigem intensa ou zumbido persistente, está relacionada a um prognóstico menos favorável, pois esses sinais podem refletir lesão mais extensa do sistema auditivo e vestibular (Lin et al., 2018; Patel et al., 2023).
Adicionalmente, comorbidades sistêmicas como hipertensão arterial, diabetes mellitus e doenças autoimunes comprometem a microcirculação coclear e reduzem a resposta ao tratamento, resultando em piores desfechos audiológicos (Patel et al., 2023).
Em relação às estratégias terapêuticas, o tratamento com corticoides intratimpânicos tem mostrado resultados superiores à monoterapia sistêmica em determinadas populações, sobretudo em casos graves ou refratários ao tratamento oral. Ensaios clínicos e metanálises demonstram que essa via de administração aumenta as taxas de recuperação auditiva e, quando combinada a outras modalidades terapêuticas, potencializa os desfechos (Bourgault et al., 2021; Patel et al., 2023).
Por outro lado, há fatores claramente associados à falha terapêutica, como a presença de perda auditiva profunda no diagnóstico inicial, refratariedade ao tratamento convencional e persistência de sintomas vestibulares. Nesses cenários, a chance de recuperação completa é significativamente menor, mesmo com o uso de corticoides intratimpânicos (Davis et al., 2021; Patel et al., 2023).
Em síntese, o prognóstico da surdez súbita está fortemente relacionado ao tempo de início do tratamento, ao grau da perda auditiva inicial, à idade do paciente, à presença de comorbidades e aos sintomas associados. A conduta precoce e individualizada permanece a chave para otimizar as chances de recuperação.
Conclusões
A surdez súbita continua sendo um desafio clínico, pois sua etiologia permanece em grande parte desconhecida, e o tratamento ideal ainda está em debate. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado, especialmente com o uso de corticoides, têm mostrado melhores resultados em termos de recuperação auditiva. A injeção intratimpânica de corticoides é uma alternativa eficaz, especialmente em pacientes com surdez súbita grave que não responderam ao tratamento oral.
Apesar dos avanços no tratamento, a recuperação auditiva completa não é garantida para todos os pacientes, e a identificação de fatores prognósticos ainda é uma área de pesquisa ativa. Com a contínua investigação e o desenvolvimento de novas terapias, espera-se que os resultados para pacientes com surdez súbita melhorem nos próximos anos.
REFERÊNCIAS
- BOURGAULT, C. et al. Intratympanic corticosteroids. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 2021.
- CHANDRASEKHAR, S. S. et al. Clinical Practice Guideline: Sudden Hearing Loss, 2019.
- CRUZ, O. L. M. et al. Sudden deafness. RBO, 2007.
- DAVIS, L. et al. Prognostic factors in SSNHL. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 2021.
- GERGELY, L. et al. Epidemiology of SSNHL. Eur Arch ORL, 2022.
- KUHN, M. et al. Sudden hearing loss: review. Trends in Hearing, 2011.
- LAZARINI, P. R.; CAMARGO, A. C. Surdez súbita. RBO, 2006.
- LIN, R. J. et al. Systemic diseases and SSNHL. Laryngoscope, 2018.
- MERCHANT, S. N. et al. Is sudden deafness viral? ORL, 2005.
- MÜRBE, D. et al. Autoimmune-related hearing loss. HNO, 2018.
- NOSRATI-ZARENOE, R. et al. Sudden hearing loss characteristics. Laryngoscope, 2010.
- PATEL, M. et al. Update on SSNHL management. Otology & Neurotology, 2023.
- RAUCH, S. D. Idiopathic SSNHL clinical practice. NEJM, 2008.
- RAYMUNDO, I. T. et al. Metilprednisolona intratimpânica. RBO, 2010.
- SPEETS, A. et al. Treatment for SSNHL. Cochrane, 2020.
- STACHLER, R. et al. Clinical guideline: SSNHL, 2012.
- SUZUKI, M. et al. Viral involvement in SSNHL. Acta Otolaryngol, 2018.
- WEI, B. et al. Hyperbaric therapy for SSNHL. Ear and Hearing, 2023.
¹Hospital CASSEMS (Caixa de Assistência dos Servidores do Estado do Mato Grosso do Sul)
