SÍNDROME DE BURNOUT E QUALIDADE DE VIDA ENTRE POLICIAIS MILITARES DO PARANÁ

BURNOUT SYNDROME AND QUALITY OF LIFE AMONG PARANÁ STATE MILITARY POLICE OFFICERS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601221910


Cícero Victor Belo Santana


Resumo

Este estudo analisa a relação entre a síndrome de Burnout e a qualidade de vida entre policiais militares do Estado do Paraná, considerando o contexto organizacional e as exigências inerentes à atividade policial. A pesquisa teve como objetivo compreender de que forma as condições de trabalho, a cultura organizacional militar e os fatores ocupacionais influenciam a saúde mental e os diferentes domínios da qualidade de vida desses profissionais. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, realizada a partir da análise de artigos científicos e documentos institucionais publicados entre 2020 e 2025. Os resultados indicam elevada prevalência de Burnout, associada à exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional, relacionadas a jornadas extensas, rigidez hierárquica, baixa autonomia e exposição contínua a riscos. O Burnout compromete os domínios físico, psicológico, social e laboral da qualidade de vida, além de gerar impactos institucionais. Conclui-se que o Burnout constitui um problema estrutural na Polícia Militar do Paraná, demandando políticas institucionais permanentes voltadas à promoção da saúde mental, à humanização das condições de trabalho e à melhoria da qualidade de vida dos policiais militares.

 Palavras-chave: Síndrome de Burnout. Qualidade de Vida. Policiais Militares. Saúde Mental. Polícia Militar do Paraná.

1 INTRODUÇÃO

No Estado Democrático de Direito, a atuação policial é essencial para a garantia dos direitos fundamentais e para a manutenção da ordem pública. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 atribui à Polícia Militar, conforme o artigo 144, §5º, as funções de policiamento ostensivo e preservação da ordem pública, o que coloca esses profissionais em contato direto e contínuo com conflitos sociais, situações de violência e riscos à integridade física e psicológica (Brasil, 1988).

A sociedade, de modo geral, espera que os policiais estejam permanentemente preparados para lidar com essas demandas, demonstrando controle emocional e resistência física. Entretanto, a realidade do trabalho policial revela um cenário marcado por elevada pressão, exposição frequente a eventos traumáticos, cobranças institucionais e sobrecarga laboral. Estudos nacionais e internacionais indicam que essas condições favorecem o surgimento de problemas relacionados à saúde mental entre policiais, decorrentes da convivência constante com agressividade, violência e exigências emocionais intensas (CARVALHO et al., 2020; EMSING et al., 2022).

O trabalho exerce influência direta sobre a saúde e o bem-estar dos indivíduos. Embora seja fonte de subsistência, identidade social e realização pessoal, quando desenvolvido em condições adversas pode tornar-se um fator de sofrimento e adoecimento. No caso dos policiais militares, as demandas ocupacionais são especialmente elevadas, incluindo risco permanente à vida, jornadas prolongadas, rígida hierarquia e contato contínuo com situações de tensão e perigo, o que contribui para o desenvolvimento de transtornos mentais relacionados ao estresse ocupacional (PEREIRA; SCATOLIN, 2020).

Entre esses transtornos, destaca-se a síndrome de burnout, compreendida como uma resposta ao estresse crônico no trabalho, caracterizada por exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional. Essa síndrome é recorrente em profissionais que atuam em serviços essenciais e de alta responsabilidade social, como a segurança pública (RIBEIRO et al., 2023). Pesquisas apontam que a prevalência de burnout entre policiais é significativa, impactando negativamente o desempenho profissional, aumentando o absenteísmo e gerando prejuízos tanto para os trabalhadores quanto para as instituições (CARVALHO et al., 2020).

Associada a esse contexto, a qualidade de vida se mostra essencial para entender a saúde dos profissionais. A Organização Mundial da Saúde define qualidade de vida como a forma como cada pessoa vê sua posição na vida, levando em conta os lados físico, mental, social e o ambiente, além da cultura e dos valores pessoais (RUIDIAZ-GOMEZ; CACANTE-CABALLERO, 2021). Entre policiais militares, fatores como condições precárias de trabalho, limitações estruturais, baixa valorização profissional e demandas emocionais constantes podem comprometer essa percepção, afetando diretamente a saúde mental e o bem-estar (SANTOS; SATURNINO, 2023).

No contexto brasileiro, os desafios enfrentados pelos policiais militares são intensificados por limitações de recursos, políticas institucionais restritivas e, frequentemente, pela hostilidade social. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam índices preocupantes de adoecimento mental e mortalidade entre esses profissionais, incluindo um número expressivo de suicídios, o que evidencia a gravidade do sofrimento psíquico presente na categoria (FÓRUM BRASILEIRO DE  SEGURANÇA PÚBLICA, 2021).

Apesar do cenário preocupante, muitos policiais resistem a procurar apoio psicológico, temendo estigma, discriminação ou danos na carreira militar. A cultura organizacional, que associa emoções à fraqueza, também promove a negação do sofrimento psíquico, dificultando a prevenção (SANTOS et al., 2021; TROMBKA et al., 2021).

No âmbito da Polícia Militar do Paraná, os profissionais exercem diversas funções, como policiamento ostensivo, comunitário, ambiental, de trânsito e operações especiais, o que amplia a exposição a diferentes fatores estressores. Essa multiplicidade de atribuições reforça a necessidade de investigar de forma sistemática a saúde mental e a qualidade de vida desses trabalhadores (FARIA; OLIVEIRA, 2024).

Embora a literatura reconheça a relevância da síndrome de Burnout entre profissionais da segurança pública, ainda são escassos os estudos que analisam sua relação com a qualidade de vida, bem como a aplicação de estratégias preventivas, como a psicoeducação, nesse contexto. A psicoeducação pode favorecer o reconhecimento precoce de sinais de adoecimento mental, promover a regulação emocional e contribuir para a redução do estigma relacionado ao sofrimento psíquico, impactando positivamente a qualidade de vida (VIANA; VIEIRA, 2024).

Diante desse contexto, o problema de pesquisa que orienta este estudo consiste em investigar: qual é a prevalência da síndrome de Burnout entre os policiais militares do Estado do Paraná e de que forma essa condição se relaciona com a qualidade de vida nos domínios físico, psicológico, social e ambiental?

Assim, o objetivo geral desta pesquisa é analisar a relação entre a síndrome de burnout e a qualidade de vida em policiais militares do Paraná, buscando compreender como as condições de trabalho influenciam a saúde mental e o bem-estar desses profissionais. Justifica-se a realização deste estudo pela relevância social e científica do tema, uma vez que seus resultados podem subsidiar a implementação de estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde, à prevenção do adoecimento mental e à melhoria das condições de trabalho no âmbito da segurança pública.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

2.1- SÍNDROME DE BURNOUT EM POLICIAIS MILITARES 

O termo Burnout foi introduzido em 1974 pelo psicanalista Herbert Freudenberger, psicólogo alemão radicado nos Estados Unidos, para descrever um estado de esgotamento físico e emocional decorrente do estresse crônico no trabalho. A síndrome de Burnout, também conhecida como síndrome do esgotamento profissional, refere-se a um distúrbio emocional associado a demandas laborais excessivas. O termo tem origem inglesa e pode ser traduzido como “queimar-se por completo” (TELES; SILVA, 2024).

Vários profissionais podem desenvolver essa síndrome. No caso dos policiais militares, a pressão é grande devido a vários fatores ligados ao serviço. Ribeiro (et al, 2023) apontam que há muitos estudos sobre a Síndrome de Burnout em policiais militares, mencionando um estudo de 2016 que observou que, desde o treinamento, os policiais militares passam por rituais com violação de direitos e submissão extrema. A Polícia Militar é organizada com base na hierarquia e disciplina, conforme o artigo 42 da CF/88.

Teles e Silva (2024) apontam que o desenvolvimento do Burnout ocorre em etapas: dedicação excessiva ao trabalho, negligência das necessidades pessoais, negação de problemas, mudanças de comportamento, fadiga, despersonalização, depressão e, em casos graves, colapso.

A síndrome em questão pode ser entendida como uma resposta prolongada do corpo a fatores de estresse emocional no ambiente de trabalho, manifestando-se por meio de desmotivação, falta de energia e abandono das atividades laborais.

Sobre a Síndrome de Burnout, podemos citar:

A síndrome de Burnout afeta profissionais em saúde, educação, serviço social e justiça. Essas áreas, focadas no contato humano, podem levar ao desgaste por salários baixos, falta de reconhecimento, desmotivação e relações interpessoais ruins, entre outros motivos. Quando esses elementos levam ao Burnout, sentimentos como tristeza, apatia, falta de energia e exaustão emocional podem surgir (RIBEIRO et al, 2023, p. 4).

O crescimento dos índices de violência tem sido associado à ampliação das jornadas de trabalho dos policiais militares. A exposição constante a situações violentas, aliada a cargas horárias prolongadas e a dificuldades nas relações interpessoais, contribui para a vivência de elevados níveis de estresse entre esses profissionais (SILVA, 2024).

O medo vivenciado pelos policiais militares constitui um fator relevante para a compreensão do aumento do estresse ocupacional. No enfrentamento cotidiano de conflitos, esses profissionais estão constantemente expostos ao risco de violência, uma vez que as abordagens realizadas no exercício da função podem colocar suas vidas em perigo. Essa realidade exige elevado controle emocional, atenção contínua e estrita observância dos preceitos legais. Dessa forma, tanto as exigências inerentes à atividade policial quanto a insegurança e a tensão permanentes do ambiente de trabalho podem contribuir para o desenvolvimento da síndrome de Burnout entre esses profissionais (SANTOS, 2023).

2.2- FATORES ASSOCIADOS AO RISCO DE DESENVOLVIMENTO DO BURNOUT EM POLICIAIS

O trabalho de policiais militares está entre as profissões com mais chances de ter a Síndrome de Burnout. Isso acontece por causa da função em si e da forma como o trabalho é organizado, o que aumenta o estresse.

Entre os motivos principais, estão as longas horas de trabalho e os horários irregulares, principalmente à noite. Eles atrapalham o ritmo natural do corpo e podem aumentar problemas do coração, alterações no metabolismo e problemas de saúde mental, como traumas e a própria Síndrome de Burnout (FARIA; OLIVEIRA, 2024). A exposição constante a situações perigosas, como violência e ameaças, junto com a pressão da hierarquia, cria um ambiente de trabalho tenso, que diminui a capacidade de resistência psicológica desses profissionais (RIBEIRO et al., 2024).

Além das necessidades do trabalho, aspectos da organização têm um grande impacto no desenvolvimento da Síndrome de Burnout. De acordo com Chaves (2024), o que causa estresse na polícia pode ser separado em quatro áreas: os perigos do trabalho policial, como enfrentar tiroteios; os problemas da instituição, como falta de dinheiro e muita burocracia; a pressão de fora, incluindo o que a sociedade espera e críticas na mídia; e problemas internos ligados a muita cobrança e pouco reconhecimento no trabalho. Peçanha et al. (2025) corroboram essa perspectiva ao evidenciar que a baixa autonomia no trabalho, associada à elevada pressão psicológica e à falta de clareza quanto às expectativas institucionais especialmente o descompasso entre as exigências da organização e as condições reais de trabalho constitui um fator preditor de exaustão emocional e despersonalização.

Aspectos sociodemográficos e traços individuais da personalidade pesam muito na chance de desenvolver Burnout. Policiais com neuroticismo alto, mostrando mais emoções ruins como ansiedade e irritação, parecem mais propensos ao esgotamento no trabalho. Ao contrário disso, características tipo amabilidade e conscienciosidade são ligadas a uma melhor adaptação, lidar com o estresse, e mais resiliência mental (PEÇANHA et al., 2025).

Observa-se que fatores como o avanço da idade, o sexo masculino em razão da maior participação em atividades de maior risco em determinados setores e o tempo de serviço podem potencializar o desenvolvimento do Burnout, sobretudo quando associados à ausência de apoio familiar e social (PEÇANHA et al., 2025). Além disso, Penedo et al. (2022) destacam que os primeiros anos de atuação na polícia configuram um período especialmente vulnerável, uma vez que muitos profissionais ainda estão em processo de adaptação às exigências da função, o que pode favorecer o surgimento de ansiedade, depressão e comportamentos de risco, como o consumo de álcool e outras substâncias, utilizados como estratégias inadequadas de enfrentamento do estresse ocupacional.

A falta ou a ineficiência de estratégias internas dedicadas ao cuidado da saúde mental piora consideravelmente a situação. Como demonstrado por Fagundes e Freitas (2024), a pouca importância dada ao bem-estar psicológico, juntamente com um ambiente de trabalho que impede e discrimina a busca por ajuda especializada, restringe o acesso dos agentes a serviços apropriados de apoio à saúde mental. Além disso, Ribeiro et al. (2024) destacam que, embora a Síndrome de Burnout tenha sido incluída recentemente na Classificação Internacional de Doenças (CID-11 – QD85) como uma condição ligada ao trabalho, sua identificação e tratamento no meio policial ainda são muito básicos, o que impede a aplicação de medidas preventivas e de intervenção eficientes.

Por outro lado, existem fatores que ajudam a diminuir o Burnout em policiais. São eles: fazer exercícios regularmente, ter apoio da família e amigos, usar métodos para lidar com problemas (como mindfulness e terapia cognitivo-comportamental) e participar de atividades religiosas ou espirituais (PEÇANHA et al., 2025; FARIA; OLIVEIRA, 2024).

Acredita-se que valorizar esses pontos e fazer mudanças nas instituições (como horários de trabalho melhores, programas de saúde no trabalho e treinos para melhorar o controle das emoções) são ações importantes para reduzir o Burnout nesses profissionais (CHAVES, 2024).

O risco de policiais militares desenvolverem a Síndrome de Burnout surge de uma série intrincada de causas, unindo pressões do trabalho, entraves da instituição e traços de cada um. A compreensão profunda desses elementos é crucial para criar políticas públicas e aplicar ações psicossociais que funcionem, focando não só no tratamento, mas principalmente na prevenção da doença. Visto que o bem-estar mental desses agentes impacta diretamente a excelência do serviço e a proteção da população, é fundamental apostar em táticas de prevenção voltadas a essa categoria profissional (CHAVES, 2024; FARIA; OLIVEIRA, 2024).

2.3 O IMPACTO DO BURNOUT NA QUALIDADE DE VIDA E NO TRABALHO DO POLICIAL MILITAR

As atividades associadas ao trabalho policial são caracterizadas por altos níveis de estresse, incluindo o emocional, psicológico e cognitivo, com a necessidade de uma preparação mental contínua e o enfrentamento de situações de risco, violência e pressão social. Dentro do contexto da Polícia Militar do Paraná (PMPR), esses desafios são exacerbados pela exposição a incidentes críticos, longas horas, trabalho em turnos e altos níveis de estresse social, o que impacta significativamente a saúde mental desses profissionais e a qualidade de vida (FARIA; OLIVEIRA, 2024; PEÇANHA et al., 2025).

O trabalho policial, de forma geral, traz, por si, desafios que envolvem o enfrentamento de situações jurídicas, recorrentes, que trazem medo, ansiedade, privação de sono e cansaço extremo. Além disso, pelo trauma de morte ou suicídios de colegas de trabalho, o sofrimento e a dor psíquica que é recorrente, atinge e contamina policiais e suas famílias e a própria segurança pública. (QUEIRÓS et al, 2020).

As estruturas militares e a forma como o trabalho é organizado também impactam a saúde dos policiais. Em relação à estrutura militar, há uma forte rigidez vertical, disciplina estrita, um alto nível de controle institucional e baixa autonomia, o que contribui para a sobrecarga funcional e o aumento do estresse no trabalho, levando à síndrome de Burnout e a outros transtornos mentais. (FARIA; OLIVEIRA, 2024)

A constante pressão por resultados, o perigo iminente de perder a vida, o trabalho durante a noite, a sonos desregulados, e a desvalorização profissional, juntamente com o acúmulo de tarefas e o desrespeito aos direitos trabalhistas, compõem um cenário propício ao Burnout em policiais militares. Estas condições impactam diretamente a qualidade de vida no trabalho, o bem-estar físico e mental e, sem dúvida, o desempenho profissional (CARVALHO et al., 2020; SANTOS et al., 2021).

O Burnout está relacionado ao estresse ocupacional crônico, quando as demandas do trabalho superam os recursos de enfrentamento do indivíduo. Esse processo inclui respostas fisiológicas, emocionais e comportamentais, resultando em exaustão, despersonalização e diminuição do sucesso profissional, bem como danos à saúde mental e à produtividade. (CHEN et al., 2022).

Entre a polícia militar, os efeitos se tornam ainda mais sérios, uma vez que o esgotamento compromete a atenção, a tomada de decisão e a eficácia das ações na segurança pública, o que afeta o profissional, a organização e a população atendida (GOMES; RIBEIRO; GOMES, 2022). No contexto brasileiro, o sofrimento e a doença mental no trabalho têm sido mais intensos, sendo atribuídos à pressão por produtividade, longas jornadas de trabalho, ausência de intervalos, assédio moral e violência organizacional, o que aumenta os riscos psicossociais e os transtornos mentais relacionados ao trabalho (CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE, 2024).

A cultura organizacional militar com rigidez, silenciamento emocional e estigmatização da busca de apoio psicológico piora o reconhecimento e o acesso a cuidados adequados, favorecendo a cronificação do Burnout (BRASIL, 2021). As manifestações do Burnout são abrangentes e incidem sobre diversas dimensões da qualidade de vida dos policiais, tais como: fadiga crônica, distúrbios do sono, depressão, ansiedade, irritabilidade, comprometimento das relações familiares e insatisfação com as condições de trabalho (RIBEIRO et al., 2023). Esses efeitos geram erros operacionais, absenteísmo, presenteísmo e, preocupantemente, suicídio entre a polícia militar no país (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2023).

Em suma, o Burnout na PM tem repercussão que extrapola da esfera individual, afetando a organização policial e se espalhando para a sociedade. A superação da problemática por meio de políticas públicas e ações institucionais é de vital importância para a garantia não somente da saúde dos trabalhadores, mas também da prestação de um serviço de qualidade e segurança à população paranaense.

3 METODOLOGIA 

Neste capítulo, são apresentados os procedimentos metodológicos que foram utilizados para o desenvolvimento da pesquisa, descrevendo, de forma sistemática, o tipo de estudo, as fontes de dados, critérios de seleção, instrumentos utilizados e formas de análise, possibilitando o entendimento e, eventualmente, a replicação do estudo.

Trata-se de uma revisão descritiva da literatura, com abordagem qualitativa e exploratória, cujo objetivo foi analisar a relação entre a Síndrome de Burnout e a qualidade de vida de policiais militares do Paraná. Essa abordagem permite organizar, interpretar e discutir criticamente os conhecimentos já produzidos sobre o tema, possibilitando a identificação de padrões, lacunas e tendências na produção científica.

A pesquisa bibliográfica foi realizada em bases de dados científicas nacionais e internacionais, com destaque para o Portal de Periódicos da CAPES e o Google Acadêmico, por serem amplamente reconhecidas pela abrangência e confiabilidade das produções científicas disponibilizadas. Também foram consultados documentos institucionais e publicações oficiais de órgãos governamentais e entidades ligadas à saúde e à segurança pública. Os descritores utilizados na busca foram: síndrome de Burnout, qualidade de vida, policiais militares, estresse ocupacional e saúde mental, combinados por meio dos operadores booleanos “AND” e “OR”, a fim de ampliar e refinar os resultados obtidos. O percurso metodológico consistiu em uma revisão integrativa da literatura, conduzida de forma sistemática, que serviu como base para a construção da análise e da discussão dos achados. Foram selecionados artigos científicos publicados nos últimos cinco anos, entre 2020 e 2025, disponíveis nas bases de dados mencionadas, que abordassem a temática do Burnout e da qualidade de vida no contexto da segurança pública.

Como critérios de inclusão, foram considerados artigos científicos publicados em português e inglês, disponíveis na íntegra, que abordassem a Síndrome de Burnout, a qualidade de vida e/ou a saúde mental de policiais militares ou de profissionais da segurança pública. Foram excluídos estudos duplicados, publicações que não se relacionassem diretamente ao tema, bem como materiais sem rigor científico, tais como opiniões, editoriais e relatos não acadêmicos.

A análise dos estudos selecionados ocorreu de forma descritiva e interpretativa, buscando identificar evidências sobre a prevalência do Burnout, os fatores associados ao seu desenvolvimento e seus impactos nos diferentes domínios da qualidade de vida dos policiais militares. As informações extraídas da literatura permitiram a construção de uma síntese crítica, contribuindo para a compreensão do fenômeno estudado e para o atendimento dos objetivos da pesquisa.

Por se tratar de uma revisão bibliográfica, sem envolvimento direto de seres humanos ou acesso a dados primários, não houve necessidade de submissão a um Comitê de Ética em Pesquisa, conforme as normas vigentes para esse tipo de estudo.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES 

Este capítulo apresenta e discute os principais achados identificados na literatura científica acerca da relação entre a síndrome de Burnout e a qualidade de vida de policiais militares, com ênfase no contexto brasileiro e aplicabilidade à realidade da Polícia Militar do Estado do Paraná

Os resultados foram organizados com base na análise dos estudos publicados entre 2020 e 2025, selecionados conforme critérios metodológicos pré-definidos. A sistematização dos dados permitiu identificar padrões recorrentes referentes à magnitude do Burnout, ao perfil de fatores de risco ocupacionais e organizacionais, além dos impactos desta síndrome de acordo com cada domínio da qualidade de vida físico, psicológico, social e ambiental.

Os resultados são apresentados de maneira descritiva e comparativa, visando destacar as semelhanças e diferenças existentes entre os estudos que foram analisados. Em seguida, estes achados são discutidos de acordo com a literatura e relacionados às condições de trabalho, à cultura organizacional militar e às particularidades da atividade policial, especialmente no campo da segurança pública estadual. Essa estratégia permite uma melhor compreensão do fenômeno, possibilitando reflexões críticas sobre o necessário desenvolvimento de estratégias institucionais de prevenção e promoção da saúde mental dos policiais militares.

Os principais resultados foram organizados de forma sintética em tabelas, destacando os estudos mais relevantes, seus objetivos, principais resultados e contribuições para a compreensão da relação entre Burnout e qualidade de vida entre policiais militares, com ênfase na aplicabilidade ao contexto da PMPR.

Tabela 1 – Síntese dos estudos sobre Síndrome de Burnout e Qualidade de Vida em Policiais Militares (2020–2025)

Autor/AnoTipo de EstudoPopulação / ContextoPrincipais Resultados sobre BurnoutImpactos na Qualidade de Vida
Carvalho et al. (2020)Estudo descritivoPoliciais militares brasileirosAlta prevalência de exaustão emocional e despersonalização associadas à sobrecarga de trabalhoRedução da qualidade de vida no trabalho, fadiga, insatisfação profissional
Santos et al. (2021)Estudo transversalPoliciais militaresEstresse ocupacional elevado relacionado a longas jornadas e pressão institucionalPrejuízos nos domínios físico e psicológico da qualidade de vida
Queirós et al. (2020)Revisão + estudo empíricoPoliciais operacionaisBurnout associado a eventos traumáticos e estresse crônicoComprometimento do bem-estar emocional e social
Ribeiro et al. (2023)Estudo qualitativoPoliciais militares brasileirosBurnout relacionado à cultura organizacional e silenciamento emocionalImpactos nas relações familiares, sono e saúde mental
Penedo et al. (2022)Estudo descritivoPoliciais militaresMaior vulnerabilidade nos primeiros anos de carreiraAnsiedade, depressão e prejuízos à qualidade de vida psicológica
Faria; Oliveira (2024)Revisão integrativaSegurança públicaBurnout associado à rigidez hierárquica e baixa autonomiaRedução da qualidade de vida laboral e ambiental
Peçanha et al. (2025)Revisão sistemáticaForças policiaisFatores organizacionais e individuais como preditores de BurnoutComprometimento global da qualidade de vida
Gomes; Ribeiro; Gomes (2022)Estudo quantitativoPoliciaisBurnout associado à queda de desempenho e intenção de evasãoImpacto indireto na qualidade de vida e satisfação profissional
TromBka et al. (2021)Ensaio clínico randomizadoPoliciaisIntervenções psicológicas reduzem BurnoutMelhora significativa da qualidade de vida psicológica
Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2023Relatório nacionalPoliciais militares brasileirosAssociação entre sofrimento psíquico, burnout e suicídioPrejuízos severos à qualidade de vida e à saúde mental

Fonte: elaborado pelo autor, 2026.

O fenômeno do Burnout revela que os Policiais Militares se configuram como um grupo profissional altamente potencializado a desenvolver a referida síndrome, não de um fator isolado, mas do escopo da interseção das elevadas demandas ocupacionais com a insipiência organizacional que exacerba o estresse crônico (Faria; Oliveira, 2024; Ribeiro et al, 2024). Os estudos que analisamos, de forma uníssona, indicam que o Burnout é um fenômeno que se repete no sistema de segurança pública brasileiro, com diagnóstico e aspectos institucionais diversos, mas com elementos estruturais comuns.

Nesse sentido, os resultados da literatura sugerem que as condições de trabalho, a estrutura hierárquica, a sobrecarga de funções e a exposição contínua a situações de risco são fatores fundamentais para entender o adoecimento psíquico desses profissionais. Esses fatores se encaixam perfeitamente no contexto da Polícia Militar do Estado do Paraná, o que reforça a relevância dos resultados para essa instituição. Dessa forma, o Burnout se apresenta como um problema estrutural e duradouro, demandando uma análise que vá além da responsabilização individual e leve em conta o papel das instituições na geração do sofrimento psíquico no trabalho policial.

Os estudos descritivos e transversais (CARVALHO et al., 2020; SANTOS et al., 2021; PENEDO et al., 2022) apontam a alta prevalência de exaustão emocional e despersonalização, componentes centrais do Burnout, principalmente ligados à sobrecarga de trabalho, turnos longos e pressão institucional. Esses fatores se refletem em perdas significativas nos domínios físico e psicológico da qualidade de vida, marcadas por fadiga persistente, distúrbios do sono, sintomas ansiosos e depressivos, e insatisfação no trabalho. No contexto da PMPR, tais achados são particularmente relevantes, pois o policiamento de linha de frente, o trabalho em turnos e a operação em áreas de maior vulnerabilidade social aumentam a exposição ao estresse crônico.

A influência da cultura militar organizacional é um elemento emergente na relação entre Burnout e qualidade de vida. Ribeiro et al. (2023) e Faria e Oliveira (2024) apontam as dificuldades que o reconhecimento do sofrimento mental e as estratégias de enfrentamento do cuidado estão fechadas devido ao sofrimento e ao silêncio emocional, somadas à rigidez hierárquica, baixa autonomia e ao silêncio emocional. Esses aspectos impactam a saúde mental, as relações familiares e as relações sociais, além do bem-estar geral dos policiais. A realidade paranaense, caracterizada por uma forte disciplina institucional e um alto nível de controle organizacional, tais características podem amplificar o desgaste emocional e reduzir a qualidade de vida no trabalho.

Os estudos de revisão (QUEIRÓS et al., 2020; PEÇANHA et al., 2025) aprofundam essa compreensão ao mostrar que o Burnout resulta da combinação de fatores organizacionais e individuais, que incluem vivência de eventos traumáticos, demandas emocionais constantes e traços pessoais, como estratégias de enfrentamento pouco adaptativas. Esses elementos afetam as esferas física, psicológica, social e ambiental, levando a uma deterioração geral da qualidade de vida. Para os policiais militares do Paraná, que enfrentam diariamente situações de violência, risco à vida e pressão social, essa interação acentua a susceptibilidade ao desenvolvimento de problemas mentais.

Os resultados da literatura mostram que a Síndrome de Burnout vai além do sofrimento pessoal, causando impactos consideráveis no funcionamento das instituições policiais e, por consequência, na sociedade. Gomes, Ribeiro e Gomes (2022) demonstraram que altos níveis de Burnout estão ligados à diminuição do desempenho profissional, ao crescimento do absenteísmo e presenteísmo, além de intensificar a intenção de deixar a carreira. Esses fatores afetam a satisfação no trabalho e prejudicam a qualidade de vida dos policiais.

No âmbito da Polícia Militar do Estado do Paraná, essas implicações ganham uma importância especial, pois o comprometimento do bem-estar psicológico dos profissionais pode impactar diretamente a eficácia das operações de policiamento e a habilidade de atender às necessidades da população. Ademais, os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2023) destacam a seriedade da questão ao revelarem taxas preocupantes de suicídio entre policiais militares no país, um fenômeno geralmente associado ao sofrimento psicológico persistente e à falta de medidas preventivas e de suporte institucional adequado. Esses achados enfatizam a importância de estratégias organizacionais focadas na promoção da saúde mental, prevenção do Burnout e melhoria da qualidade de vida no trabalho policial.

Em contraste com os fatores de risco amplamente documentados na literatura, os resultados de Trombka et al. (2021) mostram que intervenções psicológicas estruturadas, particularmente as fundamentadas em mindfulness, têm efeitos benéficos na diminuição dos níveis de Burnout e no aprimoramento da qualidade de vida psicológica dos policiais. Esses resultados mostram que o adoecimento mental não é um fenômeno irreversível, podendo ser prevenido e tratado com ações institucionais apropriadas.

Nesse contexto, o debate indica a importância de que a Polícia Militar do Estado do Paraná integre políticas duradouras de promoção da saúde mental em sua organização. Estratégias eficazes para reduzir o Burnout incluem programas de psicoeducação, suporte psicológico constante, desenvolvimento de habilidades socioemocionais, incentivo à prática de exercícios físicos e fortalecimento das redes de apoio social. Essas ações não só ajudam a melhorar a qualidade de vida dos policiais, mas também promovem um ambiente de trabalho mais saudável, o que tem um impacto positivo no desempenho profissional e na prestação de serviços à sociedade.

Em resumo, as pesquisas examinadas mostram que a síndrome de Burnout causa efeitos amplos e significativos na vida dos policiais militares, afetando sua saúde física e mental, suas relações interpessoais e seu desempenho profissional. No contexto da Polícia Militar do Estado do Paraná, esses resultados destacam a necessidade urgente de políticas institucionais focadas na promoção da saúde mental, melhoria das condições de trabalho e fortalecimento de medidas preventivas, visando reduzir o Burnout e melhorar a qualidade de vida desses profissionais.

Nesse cenário, é fundamental reconsiderar a estrutura do trabalho policial, adotando jornadas mais equilibradas, valorizando os profissionais e enfrentando o estigma associado ao sofrimento mental. A aplicação dessas estratégias provavelmente resultará em benefícios tanto para o bem-estar dos policiais militares do Paraná quanto para a eficácia e qualidade dos serviços de segurança pública prestados à população.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo evidencia que a síndrome de Burnout é um problema importante e estrutural entre os policiais militares do Paraná, impactando significativamente a saúde mental e a qualidade de vida desses profissionais. A literatura examinada indica que as condições de trabalho, a cultura organizacional militar e as demandas da atividade policial contribuem para o surgimento do Burnout. Isso afeta os aspectos físico, psicológico, social e laboral, além de ter efeitos prejudiciais no desempenho institucional.

Observa-se que longas jornadas, hierarquias rígidas, pouca autonomia e o estigma em torno de problemas mentais no ambiente de trabalho podem aumentar o risco de adoecimento. A falta de programas contínuos de apoio à saúde mental dificulta a prevenção e o tratamento. Em contrapartida, iniciativas preventivas nas instituições, como a psicoeducação, o acompanhamento psicológico e o reforço das redes de apoio, podem ser eficientes para diminuir o Burnout e melhorar a qualidade de vida.

Como contribuição teórica, este estudo amplia a compreensão sobre a inter-relação entre síndrome de Burnout e qualidade de vida no contexto policial militar, com foco na realidade paranaense. No campo prático, os resultados reforçam a urgência da implementação de políticas públicas e institucionais que priorizem a saúde mental, a valorização profissional e a humanização das condições de trabalho, reconhecendo o cuidado psicológico como elemento essencial da gestão da segurança pública.

Entre as limitações do estudo, destaca-se o fato de se tratar de uma revisão de literatura, o que inviabiliza a análise empírica direta das condições vivenciadas pelos policiais militares do Estado do Paraná. Assim, sugere-se que pesquisas futuras realizem estudos de campo, com abordagens quantitativas e qualitativas, a fim de mensurar a prevalência da síndrome de Burnout, aprofundar a compreensão de seus impactos sobre a qualidade de vida e analisar a efetividade de estratégias específicas de prevenção e enfrentamento do adoecimento mental no contexto policial.

Diante desse cenário, conclui-se que a promoção da saúde mental e a humanização dos ambientes de trabalho dos policiais militares do Paraná constituem ações indispensáveis para a melhoria do bem-estar desses profissionais, para o fortalecimento institucional e para o aprimoramento da segurança pública. A ampliação de pesquisas empíricas e a implementação de ações contínuas de cuidado psicológico mostram-se fundamentais para a consolidação de políticas efetivas de saúde mental no âmbito da Polícia Militar do Paraná.

REFERÊNCIAS

BRASIL, Presidência da República. Constituição da República Federativa do Brasil. São Paulo: Saraiva, 1988.

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde mental e trabalho: desafios e perspectivas no contexto contemporâneo. Brasília: Ministério da Saúde, 2021.

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