CRIOULAS SEEDS: TRADITIONAL AND SUSTAINABLE WISDOM IN THE TEACHING OF NATURAL SCIENCES IN THE VILLAGE OF VÁRZEA DO MEIO, MUNICIPALITY OF PASTOS BONS, MARANHÃO
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509151554
Luciana da Conceição Silva1
Rosinete Carvalho dos Santos2
Rosana Mamede Alencar3
Rogerio da Costa Ferreira4
Raimunda Nonata Reis Lobão5
Nêuton da Silva Souza6
Jackson Ronie Sá-Silva7
Hernando Henrique Batista Leite 8
Resumo
As sementes crioulas, cultivadas e preservadas por agricultores familiares, comunidades tradicionais e povos indígenas, representam um patrimônio genético de grande relevância para a agrobiodiversidade e para a soberania alimentar. Partindo dessa conjectura, este trabalho teve como objetivo analisar o uso e a conservação dessas sementes no contexto escolar, especialmente no ensino de Ciências da Natureza. A pesquisa foi realizada na Escola Municipal Deputado Temístocles Teixeira, no povoado Várzea do Meio, em Pastos Bons, Maranhão, por meio de revisão bibliográfica, visitas de campo e aplicação de questionários com alunos do 6º ao 9º ano. A metodologia utilizada foi de natureza qualitativa, com abordagem da pesquisa-ação, e quantitativa, com uso da escala Likert. Os resultados demonstraram que a utilização de metodologias investigativas, a exemplo de palestras e feiras, despertou nos alunos maior interesse, senso crítico e valorização do conhecimento tradicional. A maioria dos participantes mostrou-se engajada e satisfeita com a proposta, evidenciando que a integração entre ciência e saberes populares pode enriquecer o processo de ensino-aprendizagem, fortalecendo a identidade cultural e a consciência ambiental dos estudantes.
Palavras-chave: Agricultura Familiar. Agrobiodiversidade. Banco de Sementes. Guardiões.
1. INTRODUÇÃO
As sementes crioulas, também conhecidas como variedades tradicionais, representam um importante patrimônio genético e cultural, sendo cultivadas, selecionadas e conservadas por gerações de agricultores familiares, comunidades quilombolas, indígenas e assentados da reforma agrária. Essas sementes possuem características específicas reconhecidas pelas comunidades que as manejam, constituindo-se como elementos fundamentais para a segurança alimentar, para a sustentabilidade dos sistemas produtivos e para a preservação do conhecimento tradicional (Trindade, 2006).
A agrobiodiversidade, conforme destaca Santilli (2009), compreende a variedade de espécies cultivadas, seus parentes silvestres, os animais domesticados, microrganismos, polinizadores e demais componentes que interagem nos ecossistemas agrícolas. Trata-se de uma fração essencial da biodiversidade, diretamente relacionada à produção de alimentos, ao equilíbrio ambiental e à manutenção de serviços ecossistêmicos. Nesse contexto, a conservação das sementes crioulas emerge como uma prática significativa, pois está associada à preservação da diversidade genética, à resiliência dos agroecossistemas e à valorização dos saberes locais.
Machado et al. (2008) reforçam que a conservação da agrobiodiversidade extrapola a dimensão ambiental, abrangendo questões sociais, econômicas e culturais. Assim, o cultivo e a preservação das sementes crioulas contribuem, significativamente, para o desenvolvimento rural sustentável, o combate à fome e à pobreza, a inclusão social e a promoção da soberania alimentar. Nesse sentido, compreender a realidade das sementes crioulas em comunidades rurais permite refletir sobre os desafios e potencialidades de sua preservação, considerando o acúmulo de experiências práticas e teóricas que podem subsidiar estratégias para fortalecer sua conservação e valorização.
Além disso, o conhecimento tradicional transmitido entre gerações torna-se peça-chave na continuidade do cultivo dessas variedades locais. Esse saber, construído ao longo do tempo, expressa-se nas técnicas de manejo da terra, na escolha das sementes, nos calendários agrícolas e nas práticas de cuidado com o ambiente. No Brasil, país detentor de ampla biodiversidade, as sementes crioulas desempenham uma função central no sustento das famílias agricultoras e na promoção da agricultura sustentável.
No campo educacional, especialmente no ensino de Ciências da Natureza, as sementes crioulas podem se constituir como recurso pedagógico eficaz para a abordagem de temas como biodiversidade, ecologia, sustentabilidade e cultura local. A utilização dessas sementes no contexto escolar contribui para conectar os conteúdos científicos à realidade dos alunos, de maneira a valorizar os saberes comunitários e a promover uma aprendizagem significativa.
Diante disso, o presente estudo foi desenvolvido na Escola Municipal Deputado Temístocles Teixeira, situada no povoado Várzea do Meio, município de Pastos Bons, Maranhão. A pesquisa envolveu estudantes do 6º ao 9º ano, professores, gestores, pais e demais servidores da escola, buscando promover uma reflexão crítica sobre a importância das sementes crioulas e sua relação com a agrobiodiversidade, a soberania alimentar e a sustentabilidade ambiental.
Ademais, a investigação sobre as sementes crioulas assume grande relevância tanto para o fortalecimento do conhecimento tradicional quanto para a construção de práticas educativas comprometidas com a conservação ambiental. Ao promover o estudo etnobotânico dessas variedades no ensino de Ciências, busca-se, também, fomentar a consciência ecológica e o protagonismo dos estudantes na valorização do patrimônio genético e cultural de suas comunidades.
2. SABERES TRADICIONAIS E SUSTENTÁVEIS
Atualmente, torna-se fundamental refletir sobre a preservação e a divulgação dos saberes tradicionais integrados à cultura e à sustentabilidade, com vistas à valorização da identidade local e à promoção do desenvolvimento sustentável. Nesse contexto, as práticas culturais devem incentivar a conservação dos recursos naturais, das heranças ancestrais e dos territórios ocupados pelas populações tradicionais.
Esses saberes, transmitidos de geração em geração, refletem a preocupação dos agricultores em cuidar da terra e em preservar as sementes crioulas. Trata-se, assim, de uma prática sustentável, ainda que desvinculada do conhecimento científico formal, que envolve preparo do solo, escolha do local, tempo de plantio e armazenamento adequado das sementes.
A esse respeito, Buarque (2002) diferencia sustentabilidade de desenvolvimento sustentável, caracterizando este último como a proposta capaz de atender às necessidades do presente sem comprometer o futuro. Em consonância, Santos (2017) observa que as comunidades tradicionais, por meio do manejo de sementes da paixão, preservam o meio ambiente com base em critérios de sustentabilidade, conferindo às sementes valor nutricional, histórico, cultural e social.
Somado a isso, ao analisar a sustentabilidade sob a perspectiva do tripé econômico, ambiental e socialmente justo, percebe-se que as sementes crioulas se enquadram nesses critérios, haja vista que promovem o respeito ao ambiente, fortalecem o legado alimentar e garantem sua permanência ao longo de gerações.
Ainda segundo Santos (2017), essa valorização e manutenção das sementes garante às comunidades maior autonomia frente ao mercado e às oscilações da agricultura industrial, embora possam ser impactadas por sementes artificiais contaminadas por pesticidas. Complementarmente, Pereira e Sogllio (2020) destacam que as sementes representam a continuidade da vida, sendo essenciais para a agricultura, com significados simbólicos e culturais resultantes da relação entre humanos e espécies domesticadas ao longo da história.
Embora os aspectos biológicos, como diversidade genética e produção de alimentos, ainda predominem nos debates, a relação entre sementes e sociedade é complexa e multidimensional. Por isso, o desenvolvimento das populações tradicionais e das variedades crioulas exige abordagens sistêmicas, que considerem suas práticas, saberes e interações com o ambiente.
Nesse sentido, o manejo das sementes crioulas demonstra como o ser humano pode ser um agente da conservação, desde que haja interesse por parte dos agricultores. Conforme ressaltam Pereira e Sogllio (2020, p. 34), é difícil separar os aspectos material e imaterial dessas sementes, o que reforça a urgência de sua conservação, já que tal cuidado raramente se aplica às sementes comerciais.
Além disso, essas sementes garantem autonomia aos agricultores, pois são adaptadas ao território e permitem práticas agroecológicas, reduzindo os custos e a dependência do mercado, ou de políticas públicas, muitas vezes, inacessíveis. Assim, segundo Machado, Santilli e Magalhães (2008), ao garantir sementes para o plantio, preservam-se, também, a cultura e a tradição das comunidades, especialmente os quilombolas e as de base familiar.
Ainda sobre esse aspecto, os autores reforçam que o desenvolvimento sustentável implica atender às necessidades humanas sem comprometer os ecossistemas e os recursos naturais. Ademais, discutem a identidade dos guardiões de sementes como expressão do resgate ou da reinvenção de tradições, considerando que muitos agricultores só passaram a conservar sementes após o contato com práticas agroecológicas.
Nesse cenário, Da Cunha (2019, p. 1) destaca que “os cultivos com sementes crioulas contribuem para o desenvolvimento de uma agricultura sustentável, além da preservação da memória e identidade cultural.” Por fim, conforme Meirelles (2006), a agricultura tradicional representa a união entre técnicas desenvolvidas por povos tradicionais e o uso intensivo de recursos naturais, com mão de obra, familiar ou comunitária, voltada à domesticação e à manutenção das variedades crioulas.
3. AGROBIODIVERSIDADE E O ENSINO DE CIÊNCIAS
O ensino de Ciências enfrenta dificuldades em sua prática, sobretudo pela necessidade de metodologias e ferramentas que possibilitem a mediação de conhecimentos significativos em contextos sociais, políticos, econômicos e culturais. Nesse sentido, a educação no campo é demasiado significativa, porque se ocupa de promover um ensino de qualidade, que respeite as especificidades dos sujeitos e de seus territórios. A esse propósito, destaca-se a importância da agrobiodiversidade, conceito que envolve a diversidade entre espécies, dentro das espécies e entre os ecossistemas.
Diante dos impactos ambientais negativos provocados pelos sistemas agrícolas convencionais, surge a urgência de promover práticas sustentáveis. A sustentabilidade, especialmente na agricultura familiar, está fortemente ligada aos saberes tradicionais transmitidos entre gerações. Assim, o ensino de Ciências torna-se um aliado na formação de estudantes, tornando-os capazes de compreender a relevância da agrobiodiversidade para a conservação dos saberes locais e para a valorização da cultura camponesa.
De acordo com a Food and Agriculture Organization (1999), a agrobiodiversidade é um complexo que envolve a variedade de plantas, animais e microrganismos utilizados, direta ou indiretamente, na alimentação, bem como os agroecossistemas em que se inserem. Essa diversidade é, portanto, produto da criatividade das comunidades locais em interação com o meio, englobando aspectos biológicos, ecológicos, culturais, políticos, econômicos e tecnológicos (Santilli, 2009).
Nesse contexto, observa-se que o Brasil, por sua diversidade biológica e pluralidade cultural, tornou-se referência internacional, uma vez que abriga povos tradicionais com modos próprios de manejo dos recursos naturais (Fé et al., 2015). Conforme Diegues (2004), essas populações estabelecem uma relação de interdependência com a natureza, assegurando a conservação dos recursos para gerações futuras.
Portanto, o ensino de Ciências associado à cultura tradicional pode contribuir para a valorização do conhecimento herdado dos ancestrais. Isso possibilita melhorias na qualidade de vida dos agricultores e o fortalecimento de ações como a conservação das sementes crioulas, práticas que são fundamentais para a soberania alimentar. Como reforça a própria prática educativa, a ciência está presente no cotidiano, facilitando a compreensão do mundo e das relações entre os seres vivos.
Em consequência dessas reflexões, observa-se o crescimento de modelos agrícolas mais sustentáveis, como a agricultura orgânica, que, além de reduzir o uso de agroquímicos, propõe o fortalecimento da agricultura familiar e a formulação de políticas públicas coerentes com a realidade dos pequenos produtores (Moreira; Carmo, 2004).
Dessa maneira, a agroecologia emerge como uma alternativa consistente, integrando conhecimentos de diversas áreas, a exemplo: Ecologia, Antropologia, Geografia e Sociologia. Segundo Caporal e Costabeber (2002), ela propõe a transição de modelos convencionais para sistemas agrícolas sustentáveis e éticos, promovendo relações equilibradas entre sociedade e natureza.
Desse modo, a diversidade das sementes crioulas se revela como um elemento central para a conservação da agrobiodiversidade. A terra, ao oferecer as condições para o cultivo, e o agricultor, ao selecionar e conservar as sementes, estabelecem uma relação frutífera em aprendizado e continuidade. Enquanto as sementes melhoradas visam produtividade e resistência, as crioulas preservam a diversidade genética e cultural. Por fim, entende-se que a semente foi o elo original entre a humanidade e a produção vegetal, e, por isso, preservar essa diversidade é preservar também a história da agricultura e da vida.
4. DIVERSIDADE ECOLÓGICA E GENÉTICA DAS SEMENTES CRIOULAS E MELHORADAS
As sementes melhoradas comercialmente são o resultado direto de pesquisas científicas sistemáticas e, por isso, são amplamente promovidas como ideais para uma agricultura produtiva e competitiva. No entanto, conforme aponta Fernandes (2017), milhões de agricultores em todo o mundo seguem selecionando sementes com base em seus próprios critérios, preservando variedades crioulas adaptadas aos contextos locais, que representam a base genética da biodiversidade agrícola.
Em complemento a isso, segundo Floriani (2020), práticas tradicionais de manejo e cultivo têm contribuído para a manutenção de agroecossistemas diversos e sustentáveis, pois muitos agricultores reinventam seus saberes com base na observação e na adaptação ao ambiente. Assim, a retomada de práticas agroecológicas e a seleção de sementes com atributos específicos vêm fortalecendo a variabilidade genética nas propriedades familiares.
Nesse sentido, a agroecologia, ao adotar a pesquisa participante sob uma perspectiva dialética, rompe com as hierarquias das ciências convencionais e valoriza o saber empírico dos agricultores. Para Santos (2017), essa valorização da tradição na transmissão de sementes e conhecimentos garante maior autonomia às comunidades frente ao mercado e contribui para a manutenção da diversidade genética.
De fato, ainda conforme Santos (2017, p. 13), “a semente é a base do alimento, da multiplicação, do crescimento, da sobrevivência; é elemento básico da agricultura como estratégia social”. Preservá-las é, portanto, preservar também a cultura. Por outro lado, Bové (2001) destaca que, enquanto variedades tradicionais são de livre acesso, às sementes melhoradas tornaram-se objeto de propriedade intelectual, reforçando a dependência econômica e técnica dos agricultores.
Nesse contexto, Santilli (2009, p. 20) reforça que a relação entre terra e semente é natural e simbiótica: “a terra, ao germinar a semente, oferece o necessário à vida”, demonstrando a interdependência fundamental para a existência. Por isso, a conservação dos recursos genéticos, de acordo com o que ressaltam Pereira e Sogllio (2020, p. 88), exige atenção tanto à diversidade genética atual quanto ao conhecimento associado a ela, considerando-se, também, a interação com os agroecossistemas.
Entretanto, os autores alertam para a perda contínua da diversidade genética, causada pela substituição das variedades crioulas por cultivares comerciais. Tal perda é preocupante, pois genes únicos podem desaparecer de forma irreversível. Nesse ínterim, torna-se necessário que os sistemas agrícolas considerem, com seriedade, a conservação das sementes crioulas não apenas por sua produtividade, mas por seu papel histórico e ecológico.
Além disso, como afirmam Pereira e Sogllio (2020), variedades só podem ser consideradas nativas após ao menos cinco ciclos de cultivo no mesmo território. Nesse processo, as sementes crioulas podem ser melhoradas, desde que preservem sua base genética, sem a inserção de genes externos. Diante disso, ressalta-se que valorizar essas variedades é também valorizar a coevolução entre os seres humanos e seus agroecossistemas, consoante propõe Gliessman (2000), ao afirmar que a diversidade dos sistemas sustentáveis é fruto da interação entre organismos e seus ambientes.
Complementarmente, Santilli (2009) define a biodiversidade agrícola como um subconjunto da biodiversidade global, incluindo todas as espécies e ecossistemas diretamente ligados à agricultura e à alimentação, a exemplo de plantas, animais, microrganismos e seus habitats. Isso inclui, ainda, os elementos não cultivados: predadores naturais e polinizadores, que são fundamentais para a produtividade e equilíbrio ecológico dos agroecossistemas.
Por fim, estudos como os de Santilli (2009) reforçam que compreender o conhecimento das comunidades sobre os recursos naturais é essencial para a adaptação de estratégias sustentáveis de produção e conservação. Dessa forma, a valorização das sementes crioulas ultrapassa os limites da agricultura; trata-se de preservar um patrimônio biológico, cultural e social, essencial para a soberania alimentar e para a sustentabilidade do planeta.
5. METODOLOGIA
A pesquisa que subsidiou a construção da proposta pedagógica caracterizou-se como uma investigação de natureza qualitativa, por meio da abordagem da pesquisa-ação, e também de natureza quantitativa, com a aplicação de entrevistas realizadas durante a palestra e a oficina para obtenção dos resultados.
O estudo foi realizado em uma Escola Municipal, localizada no povoado Várzea do Meio, no município de Pastos Bons, Maranhão. Os participantes da coleta de dados foram 100 alunos das turmas do 6º ao 9º ano, 20 pais de alunos e um professor de Ciências.
Os instrumentos de investigação foram elaborados com o objetivo de apurar informações e comprovar a problemática levantada. Utilizou-se a observação participante, com o registro das informações em caderno de anotações e em arquivos do Microsoft Word.
Também foi elaborada uma entrevista com 11 questões semiestruturadas sobre as sementes crioulas, dirigida ao professor de Ciências. As perguntas foram redigidas no Word e aplicadas com o uso de gravação de áudio via celular para registro das respostas.
O último instrumento diz respeito à análise de documentos, incluindo o Planejamento Bimestral e o livro didático do professor de Ciências, além de registros fotográficos da execução da proposta pedagógica, realizados com a câmera do celular do pesquisador. Todos os instrumentos foram organizados e compilados em planilhas do Microsoft Excel e documentos do Word, onde foi construído o banco de dados utilizado para a elaboração das ilustrações.
Para a análise dos dados das entrevistas, foi empregada a técnica de análise do discurso, cujos resultados foram organizados em um quadro síntese. Além disso, realizou-se a análise documental do Planejamento Bimestral, do livro didático de Ciências e das imagens registradas durante a execução da proposta pedagógica, com o objetivo de identificar os objetivos de cada material e as possíveis fontes de dados relacionados ao objeto da investigação. Essa análise permitiu estabelecer conexões entre os documentos analisados e as respostas obtidas por meio dos questionários, contribuindo para a formulação de hipóteses posteriormente confirmadas ao longo do trabalho.
Dessa forma, as análises discursivas e documentais (a partir dos quadros e imagens) foram discutidas com base nos autores do referencial teórico que fundamenta esta proposta. Esse processo permitiu levantar as principais conclusões do estudo, bem como identificar suas descobertas e limitações, sempre considerando a relação entre os participantes da pesquisa, o investigador e o corpo teórico adotado. Por fim, foi possível argumentar criticamente sobre os resultados obtidos.
6. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Com base nas pesquisas realizadas na Escola e por meio de uma ampla revisão bibliográfica, constatou-se que a conservação da agrobiodiversidade das sementes crioulas, bem como a sabedoria transmitida de geração em geração, constitui um conhecimento essencial para os alunos. Tal aprendizado possibilita que eles compreendam melhor a tradição da agricultura familiar e reconheçam a importância do trabalho dos agricultores para a sociedade.
Nesse sentido, a proposta consiste em levar para o ambiente escolar os conhecimentos, os saberes e as práticas sustentáveis cultivados pelos ancestrais. Tal ação se dará por meio de palestras, feiras e cartilhas digitais, e visarão mostrar como a valorização da cultura tradicional é fundamental para a construção de uma sociedade mais consciente e comprometida com um futuro melhor para os agricultores e seus descendentes.
No dia 27 de maio de 2023, foi realizada uma palestra na Escola Municipal Deputado Temístocles Teixeira, com o objetivo de apresentar aos alunos o significado do termo “sementes crioulas”, bem como de destacar sua importância para a agrobiodiversidade e para a sustentabilidade. Durante o evento, foram abordadas as formas de conservação e os processos de cultivo dessas sementes. Para enriquecer a atividade, contou-se com a participação de alguns pais, alunos, professores e da gestora da escola.
A ação – realizada no pátio da escola – foi marcada por uma troca de conhecimentos e integração da comunidade escolar. A feira contou com uma ampla variedade de sementes crioulas: milho, arroz, feijão, fava, abóbora, entre outras, que foram expostas durante a apresentação do projeto, reforçando a valorização da cultura local e da agricultura familiar. As Figuras 5 e 6 ilustram as atividades desenvolvidas na execução da proposta pedagógica na escola onde foi realizada a pesquisa:
Figura 5 – Exposição das sementes crioulas

Fonte: Autores (2023)
Durante o processo, buscou-se, constantemente, levar aos alunos o conhecimento sobre as sementes crioulas. Desse modo, eles responderam a questões como: “O que são sementes crioulas?”, “Como é feita a sua conservação?” e “Como os agricultores realizam o manejo e o cultivo dessas sementes?”. Em um dos momentos da atividade, um aluno compartilhou sua experiência com o tema, relatando a importância de ajudar o pai nas plantações e como isso contribuiu para seu aprendizado. Ele disse: “Quero estudar para ser agrônomo e ajudar meu pai nas plantações. Eu sei o que ele passa no sol quente.” Esse tipo de vivência representa aprendizados que se levam para a vida.
O intuito da proposta é, justamente, resgatar a tradição dos agricultores, que consiste em um saber passado de pais para filhos. Mesmo que não seja a herança prática do manejo ou cultivo, trata-se da herança do conhecimento: como conservar as sementes e entender sua importância para a vida e para o ambiente.
Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a preservação e a conservação da biodiversidade constituem uma habilidade específica da Unidade Temática das Ciências da Natureza e suas Tecnologias, no eixo “Vida, Terra e Cosmos”. Também integram as análises econômicas e socioambientais da cadeia agropecuária no componente de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (BNCC, 2020).
Além disso, os conhecimentos adquiridos, durante a palestra e a feira, proporcionaram uma via de mão dupla entre a ciência e a tradição dos ancestrais. As variedades de sementes apresentadas despertaram hipóteses, curiosidades e diversas perguntas por parte dos alunos, de modo a fortalecer o vínculo entre conhecimento científico e saber popular.
Figura 6 – Apresentação das sementes crioulas

Fonte: Autores (2023)
A presença de situações cotidianas tem um papel fundamental no ensino por investigação, pois possibilita a análise de contextos reais, integrando conhecimentos e práticas científicas ao processo de ensino-aprendizagem (Trivelato; Tonidandel, 2015; Villardi et al., 2015). Com todas as informações adquiridas durante a apresentação sobre as sementes crioulas, ficou evidente que o projeto “Sementes Crioulas: Tradição e Sabedoria” se tornou um ponto de partida para que alunos, professores e demais colaboradores se identificassem com cada palavra dita. Assim, cada pequena semente exposta na mesa despertou grande interesse e curiosidade nos participantes.
Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o estudo das sementes crioulas está inserido no campo da Biodiversidade, dentro da área de Ciências da Natureza e suas Tecnologias. Esse estudo mantém fortes relações com os temas de Evolução, Genética, Ecologia, Saúde e Políticas Ambientais. Especificamente, encontra-se na Unidade Temática “Vida, Terra e Cosmos”, conforme a Competência Específica 2 e a Habilidade 206 (Brasil, 2020).
Diante do exposto, ressalta-se, ainda, que a palestra apresentou formas alternativas de abordar a tradição da agricultura familiar e a conservação das sementes crioulas, defendendo um modelo de agricultura sustentável que considera dimensões sociais, políticas, ambientais, culturais, organizacionais e econômicas.
Optou-se por organizar a palestra junto com a feira para que os alunos pudessem vivenciar o conhecimento por meio de todos os sentidos: audição, tato, visão e paladar, uma vez que foi oferecido um lanche com produtos feitos a partir de determinadas sementes, a saber: o milho. Após o evento, foi disponibilizado, nas redes sociais da escola, um e-book (cartilha digital), a fim de que todos os participantes pudessem tirar dúvidas remanescentes. O material contém informações complementares e didáticas, o que facilita o entendimento dos conteúdos abordados. O link do e-book compartilhado foi: https://www.canva.com/design/DAFk4gCjPsU/n90Rn3BVajcNbZvb1t2d7Q/view?utm_content=DAFk4gCjPsU&utm_campaign=designshare&utm_medium=link&utm_source=publishsharelink
Dessa forma, o projeto permitiu não apenas a construção de novos saberes, mas também a valorização de conhecimentos transmitidos por gerações.
As informações obtidas junto às pessoas que convivem diretamente com as sementes crioulas, cultivando-as e conservando-as de um ano para outro, revelaram que, além de garantirem a alimentação das famílias, essas sementes também constituem uma importante fonte de renda para diversas necessidades do cotidiano rural.
Dessa forma, elaboraram-se duas perguntas abertas com o objetivo de correlacionar as respostas dos alunos, cujas análises estão apresentadas nos Quadros 1 e 2. As questões buscaram compreender a percepção dos estudantes sobre o tema, considerando o contexto em que estão inseridos. Segundo Toledo (2001, p. 461), é importante ressaltar que o manejo sustentável dos recursos naturais, proporcionado pelos conhecimentos tradicionais das populações locais, não deve ser compreendido a partir de uma visão romantizada da realidade.
Na ocasião, observou-se que a maioria dos alunos da referida instituição escolar são filhos de agricultores que mantêm seu sustento por meio do cultivo de sementes crioulas. Vale destacar, também, que a escola está localizada em uma comunidade rural, onde a maior parte dos moradores vive da agricultura. No entanto, constatou-se que muitos desses estudantes desconhecem a relação entre o agricultor e as sementes crioulas, tendo contato apenas com os produtos finais, a exemplo de hortaliças, sem reconhecer ou identificar as sementes tradicionais utilizadas nesse processo. Abaixo, evidenciam-se os quadros supracitados:
Quadro 1 – Seu pai é um agricultor? O que cultiva?
| Alunos | Respostas diagnóstica | Resposta avaliativa |
| 12 alunos | Sim, arroz, feijão, milho | Sim, arroz, feijão, milho |
| 15 alunos | Sim, arroz, milho, abóbora, fava e feijão | Sim, arroz, milho, abóbora, fava e feijão |
| 2 alunos | Sim, milho e soja | Sim, milho e soja |
| 35 alunos | Sim, arroz, feijão, milho, fava | Sim, arroz, feijão, milho, fava |
| 2 alunos | Sim, não sei o que ele cultiva | Sim, não sei o que ele cultiva |
| 9 alunos | Sim, arroz e feijão | Sim, arroz e feijão |
| 25 alunos | Não, meu pai não é agricultor | Não, meu pai não é agricultor |
Fonte: Autores (2023)
Quadro 2 – Você já teve interesse em saber como são cultivadas as sementes (feijão, arroz, milho, fava) que você consome? Porquê?
| Alunos | Respostas diagnóstica | Resposta avaliativa |
| 11 | Sim, é muito interessante. | Sim, é muito interessante |
| 5 | Sim, acompanho sempre que posso e pergunto o processo. | Sim, acompanho sempre que posso e pergunto o processo. |
| 2 | Sim, meu pai já me falou o processo | Sim, meu pai já me falou o processo |
| 12 | Sim, ele trabalha muito | Sim, ele trabalha muito |
| 10 | Sim, é sempre bom saber | Sim, é sempre bom saber |
| 4 | Não, já vou com o meu pai | Não, já vou com o meu pai |
| 20 | Não gosto | Não gosto |
| 15 | Não, eu estudo | Não, eu estudo |
| 7 | Não, não acho interessante | Não, não acho interessante |
| 14 | Não, meu pai não me leva | Não, meu pai não me leva |
Fonte: Autores (2023)
Na entrevista com os pais, foram elaboradas duas perguntas. O intuito disso foi saber como é feito o manejo, o cultivo e a conservação das sementes, buscando a compreensão da tradição dos agricultores, conforme é possível notar nos quadros a seguir:
Quadro 3 – Você faz o uso de agrotóxicos nas suas sementes? Porquê?
| Pais | Respostas diagnóstica | Respostas avaliativa |
| 13 | Sim, porque é necessário | —– |
| 5 | Sim, porque os insetos comem as plantações | Sim, porque os insetos comem as plantações |
| 1 | Sim, sempre usei | ——- |
| 1 | Planto pouco | —— |
Fonte: Autores (2023)
Quadro 4 – Você acha importante que seus filhos saibam de onde e como vêm as sementes que eles consomem em casa? porque você acha que é importante?
| Pais | Respostas diagnóstica | Respostas avaliativa |
| 13 | Sim, acho importante que saibam | ——- |
| 3 | Sim, pra dar valor | Sim, pra dar valor |
| 2 | Sim, pra saber de onde vem o que comem | Sim, pra saber de onde vem o que comem |
| 2 | Sim, para não achar que as coisas caem do céu | ——- |
Fonte: Autores (2023)
O que se observa, entretanto, é a compreensão de que homem e natureza não são entidades independentes, uma vez que o vínculo entre ambos constitui uma relação simbiótica, na qual cada parte desempenha funções essenciais para a manutenção do meio. As ações humanas, nesse contexto, são permeadas por valores, normas e práticas que fazem parte da cultura na qual estão inseridas (Diegues, 2008, p. 63).
Constatou-se que os pais buscam resgatar e preservar a tradição da agricultura familiar, transmitindo seus saberes aos filhos. No entanto, muitos desses pais trabalham arduamente na lavoura, no cultivo de sementes crioulas, com o desejo de que seus filhos não precisem seguir o mesmo caminho de esforço físico intenso sob o sol, apenas para garantir o sustento da família. Nessa perspectiva, eles sonham com um futuro melhor para seus filhos, no qual possam alcançar uma formação educacional que lhes proporcione melhores condições de vida e, assim, possam retribuir ajudando suas famílias de outra forma.
Deve-se considerar, ainda, que, embora essas práticas tradicionais promovam a conservação dos recursos naturais, o conservacionismo, fortemente difundido na sociedade urbana, não está presente de forma explícita nas concepções das populações tradicionais (Gadgil et al., 1993). Dessa forma, mesmo reconhecendo a importância da tradição e dos saberes herdados, essas famílias almejam um futuro diferente para seus filhos, pautado na educação, mas sem romper completamente com suas raízes culturais.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante a realização deste trabalho, foi possível perceber a importância da preservação das sementes crioulas e a necessidade urgente de que as escolas repassem aos alunos o valor que essas sementes possuem na vida dos nossos ancestrais. Com o passar do tempo, esse conhecimento foi sendo esquecido, principalmente em razão da mecanização da agricultura e do crescimento da população mundial, que exige uma produção cada vez maior de alimentos. Esse cenário intensificou o uso de sementes geneticamente modificadas, por sua maior tolerância a fatores abióticos e bióticos, como pragas, o que fez com que essas variedades passassem a ocupar um espaço cada vez maior na vida dos agricultores ao longo dos anos.
Observou-se, também, o quanto ainda é necessário aprender sobre essas sementes e, principalmente, valorizar os seus guardiões, agricultores e agricultoras que, além de preservar e resgatar essas variedades, mantêm vivas práticas e saberes tradicionais, buscando transmiti-los às futuras gerações. Compreende-se, portanto, que conservar essa biodiversidade implica cuidar de todas as formas de vida, incentivando a multiplicação das variedades crioulas e promovendo uma agricultura mais sustentável, culturalmente enraizada e socialmente justa.
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1Discente do Curso Superior de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Maranhão Programa Ensinar Polo Paraibano e-mail: luciannasilvakyk@gmail.com
2Discente do Curso Superior de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Maranhão Programa Ensinar Polo Paraibano e-mail: batista-leite@hotmail.com
3Discente do Curso Superior de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Maranhão Programa Ensinar Polo Paraibano e-mail: rosana.mamede@gmail.com
4Discente do Curso de Pós-graduação em Sustentabilidade da Universidade Estadual do Maranhão Campus Coelho Neto e-mail: costarogerio896@gmail.com
5Docente do Curso Superior de Letras da Universidade Estadual do Maranhão Campus Coelho Neto. Mestre em Letras /Língua Portuguesa (PROFLETRAS / UERJ). e-mail: didi.uema@hotmail.com
6Docente do Curso Superior de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Maranhão. Doutor Biotecnologia (PPGBiotec / UECE). e-mail: neutonsouza@cecen.uema.br
7Docente do Curso Superior de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Maranhão. Doutor em Educação (PPG Educação /UNISINOS). e-mail: jacksonsilva@professor.uema.br
8Docente do Curso Superior de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Maranhão. Doutorando Educação (ULHT / Lusófona). e-mail: hernandoleite@cescn.uema.br
