MENTAL HEALTH AND RETIREMENT: A STUDY WITH MILITARY POLICEMEN FROM THE PAID RESERVE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202601302008
Janete da Silva Brito1
Resumo:
Reserva Remunerada é o termo usado no âmbito militar, para referir-se a aposentadoria. Ao se aposentar o ser humano experimenta mudanças significativas nos campos físico, social e psicológico. Passar para a Reserva Remunerada (RR) é um momento ímpar na vida do policial militar e a transição do trabalho ativo para a RR deve ser tratada com a devida atenção, principalmente no que diz respeito aos impactos causados na Saúde Mental desses militares. A presente pesquisa contou com a participação de 38 Policiais Militares do Pará, os quais já se encontram na RR. No estudo, foram usados dois instrumentos de pesquisa, sendo um Interrogatório Sistemático e o SQR-20 – versão brasileira. No estudo foi identificado a presença de sintomas que apontam sofrimento psíquico entre os militares que estão na reserva remunerada, bem como a adoção de atividades substitutivas ao trabalho ativo, adotado como uma complementação de renda para uns e como uma forma de preencher o tempo ocioso. Os resultados da pesquisa mostram-se relevantes para fundamentar políticas institucionais e públicas, objetivando o planejamento de atividades de preparação do policial militar, durante e após a transição do trabalho ativo para a reserva remunerada.
Palavras-chave: Reserva Remunerada – Aposentadoria – Saúde mental – Polícia Militar
Abstract:
Remunerated Reserve is the term used in the military field to refer to retirement. Upon retiring, human beings experience significant changes in the physical, social and psychological fields. Moving to the Remunerated Reserve (RR) is a unique moment in the life of a military police officer and the transition from active work to RR must be treated with due attention, especially with regard to the impacts caused on the Mental Health of these soldiers. This research had the participation of 38 Military Police from Pará, who are already in the RR. In the study, two research instruments were used, being a Systematic Interrogation and the SQR-20 – Brazilian version. The study identified the presence of symptoms that point to psychological distress among military personnel who are in paid reserve, as well as the adoption of activities that replace active work, adopted as a supplement to income for some and as a way to fill idle time. The research results are relevant to support institutional and public policies, aiming at planning activities to prepare the military police, during and after the transition from active work to paid reserve
Keywords: Remunerated Reserve – Retirement – Mental Health – Military Police
INTRODUÇÃO
A máxima de que “o trabalho dignifica o homem” tem orientado a experiência humana ao longo de décadas, atribuindo ao labor um papel central na organização da vida social e na constituição da identidade individual. Por meio do trabalho, homens e mulheres alcançam reconhecimento social, satisfação pessoal e condições materiais para a subsistência. Entretanto, a depender de sua natureza, intensidade, excesso ou ausência, o trabalho também pode se constituir como fator desencadeador de adoecimento físico e mental.
Bogoni e Soares (2009) destacam que o trabalho ocupa uma posição central não apenas na organização da vida social, mas também na dimensão psicológica, sendo fundamental para os processos de autodescrição e autoavaliação. A vivência laboral estrutura o cotidiano, estabelece ritmos e rotinas, confere sentido à existência e possibilita a construção de projetos pessoais e profissionais. Nessa perspectiva, o trabalho contribui para a satisfação das necessidades humanas, desde as mais básicas até aquelas relacionadas à estima e à autorrealização, conforme a hierarquia proposta por Maslow.
Sob o ponto de vista psicossocial, o trabalho assume um duplo papel: ao mesmo tempo em que garante a subsistência, favorece o desenvolvimento da autoestima, do pertencimento social e da realização pessoal. Contudo, a interrupção da vida laboral, especialmente por meio da aposentadoria, implica mudanças significativas nos campos físico, social e psicológico. Zanelli (2012) assinala que, ao se aproximar do período de transição para a aposentadoria, os sentidos atribuídos ao trabalho podem oscilar entre a percepção de relevância social e pessoal e a sensação de substituibilidade, alívio ou, ainda, de perdas irreparáveis. A aposentadoria pode representar tanto a oportunidade de iniciar novos projetos e investir no desenvolvimento pessoal quanto o prenúncio de rupturas, perdas identitárias e sofrimento psíquico.
Nesse processo, o indivíduo é convocado a aprender novas formas de reorganizar sua vida cotidiana, familiar e social, bem como a lidar com mudanças na rotina, nas atividades e na organização financeira. Para Bogoni e Soares (2009), a aposentadoria é frequentemente acompanhada por perdas de estratégias previamente consolidadas, afastamento de comportamentos habituais, redução do poder simbólico e do reconhecimento social, além da fragilização da identidade socioprofissional e dos vínculos construídos ao longo da trajetória laboral.
No contexto da Polícia Militar do Pará (PMPA), a aposentadoria é denominada Reserva Remunerada, condição destinada aos policiais que cumpriram o tempo mínimo de serviço de 35 (trinta e cinco) anos, para os militares que tenham ingressado a partir de 1° de janeiro de 2022 e 30 (trinta) anos, se homem, e 25 (vinte e cinco) anos, se mulher, para os militares que tenham ingressado até o dia 31 de dezembro de 2021 e passam a receber remuneração, podendo ser convocados para o retorno ao serviço ativo, por necessidade do Estado ou de forma voluntária. Tal especificidade confere à transição para a reserva características próprias, marcadas pela permanência simbólica do vínculo institucional.
A Polícia Militar do Pará integra o sistema constitucional de Segurança Pública, sendo uma instituição permanente, responsável pela preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, conforme preconiza a legislação vigente. Criada em 25 de setembro de 1818, a PMPA é uma instituição bicentenária, estruturada sob os pilares da hierarquia e da disciplina, desempenhando funções de prevenção e repressão à criminalidade.
O ingresso na PMPA ocorre por meio de concurso público, com duas carreiras distintas: Oficiais e Praças, conforme a Lei nº 8.342, de 14 de janeiro. Para o quadro de Praças, exige-se ensino médio completo, enquanto para o quadro de Oficiais é necessária formação superior em Direito. A idade mínima para ingresso é de 18 anos, com limite máximo de 30 anos. Além do quadro combatente, a PMPA conta com Oficiais da Saúde e do Quadro Complementar, conforme a Lei nº 7.784, de 09 de janeiro de 2014, abrangendo diversas especialidades, como Psicologia, Serviço Social, Enfermagem, entre outras, com exigência de formação superior específica e idade máxima de 35 anos.
Considerando a natureza da atividade policial militar, marcada pelo policiamento ostensivo, pela preservação da ordem pública e pela exposição contínua a situações de risco, torna-se imprescindível que esses profissionais apresentem não apenas preparo técnico e físico, mas também adequado equilíbrio emocional e saúde mental preservada. Ao longo da carreira, o policial militar enfrenta jornadas extenuantes, violência cotidiana, perda de colegas, afastamento familiar e constante estado de alerta, fatores que impactam diretamente sua saúde psíquica.
Ao serem transferidos para a Reserva Remunerada, muitos policiais vivenciam uma ruptura abrupta com uma rotina intensa e rigidamente estruturada, passando a enfrentar o desafio da reintegração familiar e social. Após 25, 30 ou 35 anos dedicados prioritariamente à profissão, não raras vezes esses militares não foram preparados para o desligamento do trabalho ativo, o que pode resultar em sentimentos de desorientação, perda de sentido, dificuldades financeiras e adoecimento físico e mental.
A Organização Mundial da Saúde define saúde mental como um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de reconhecer suas próprias habilidades, lidar com os estresses cotidianos, trabalhar de forma produtiva e contribuir com a comunidade. Embora seja possível manter a funcionalidade cotidiana mesmo diante de sofrimento psíquico, a médio e longo prazo, a negligência da saúde mental pode gerar consequências significativas e prejudiciais.
Os estudos que investigam a relação entre trabalho e adoecimento mental têm se intensificado diante do aumento expressivo de trabalhadores acometidos por sofrimento psíquico. Nesse campo, Silva e Jardim (2000) ressaltam que a psicopatologia do trabalho se dedica a compreender a dinâmica geradora do sofrimento psíquico vinculado às condições e à organização do trabalho. No caso dos policiais militares, Minayo (2008) aponta que o sofrimento físico e mental decorre do conjunto de experiências vivenciadas no exercício da função, refletindo intensamente na vida social, associado à falta de reconhecimento, às condições insatisfatórias de trabalho e às vivências constantes de ansiedade e tensão.
Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar os impactos da aposentadoria na saúde mental dos Policiais Militares do Pará que se encontram na Reserva Remunerada, investigando a presença de sofrimento psíquico e a existência de atividades substitutivas ao trabalho ativo. O presente estudo resulta de uma pesquisa realizada no ano de 2021, no âmbito do curso de Psicologia da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), campus de Marabá.
O artigo está organizado em quatro seções: inicialmente, apresenta-se o referencial teórico sobre aposentadoria, saúde mental e a natureza do serviço policial militar; em seguida, descreve-se a metodologia adotada; posteriormente, são apresentados e discutidos os resultados; por fim, são tecidas as considerações finais.
2- MÉTODO
O estudo foi organizado em duas etapas, sendo a primeira, a elaboração do projeto de pesquisa e a segunda, a coleta dos dados. Tratou-se de um estudo qualitativo descritivo, uma vez que buscou identificar a presença de sofrimento psíquico, além da compreensão detalhada dos significados e características situacionais apresentados pelos policiais militares participantes da pesquisa.
Participantes
Participaram do estudo 38 policiais militares, sendo 20 homens e 18 mulheres, com idade entre 38 e 57 anos, todos da PMPA que estão na Reserva Remunerada (RR) ou no processo de transição para a RR. Os critérios de inclusão utilizados foram: ser policial militar do Pará, estar agregado (aguardado processo de transferência para a RR), estar na Reserva Remunerada há menos de quinze anos ou no quadro de convocados da Reserva. Foi excluído o participante que ainda se encontra no serviço ativo.
Instrumentos
A coleta dos dados ocorreu por meio da aplicação de dois questionários. O primeiro questionário foram perguntas com alternativas, sendo que em algumas, o participante deveria marcar apenas uma alternativa, em outras, poderia marcar duas ou mais alternativas, além de perguntas abertas, em que o pesquisando, poderia digitar livremente as respostas. O segundo instrumento de pesquisa aplicado, foi o questionário SQR-20 – Self Reporting Questionnaire, sendo este, um instrumento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde para detecção de transtorno mental comum na população.
Procedimentos de Coleta
Considerando o cenário da saúde mudial frente à pandemia de Covid-19 e observando as medidas sanitárias de Combate ao novo coronavírus, a coleta de dados ocorreu de forma online, usando a plataforma Google Forms entre os meses de fevereiro a maio de 2021.
3- RESULTADOS E DISCUSSÕES
3.1 A transição do trabalho ativo para a Reserva Remuerada
A aposentadoria é frequentemente compreendida como uma ruptura da vida laboral e um desligamento definitivo do trabalho. No entanto, os processos de aposentadoria ocorrem de formas diversas e estão profundamente relacionados a transformações na vida social, cultural e familiar do indivíduo. A interrupção do trabalho formal exige uma reorganização da rotina, a redefinição de papéis sociais e a construção de novos projetos de vida, mudanças que, inevitavelmente, impactam a saúde mental dos aposentados.
Quanto ao perfil sociodemográfico dos participantes, observou-se predominância de policiais militares casados ou em união estável, que representaram mais da metade da amostra 57,9%. Os participantes divorciados corresponderam a 34,2%, enquanto os solteiros totalizaram 7,9%.
No que se refere à escolaridade, verificou-se maior concentração no ensino médio completo, alcançando 55,3% dos respondentes. Aqueles com ensino fundamental completo corresponderam a 23,75%, seguidos pelos que possuíam curso superior completo 18,4%. Apenas um participante 2,6% encontrava-se cursando o ensino superior no momento da pesquisa.
Em relação à situação funcional, a maioria dos militares encontrava-se na Reserva Remunerada 68,4%. Um percentual menor estava na condição de agregado 10,5%, afastado do serviço ativo e aguardando os trâmites administrativos para a oficialização da Reserva, enquanto 18,4%, haviam sido convocados para o retorno ao serviço ativo na condição de voluntários.
No que diz respeito à vivência da aposentadoria, especialmente em relação à falta do trabalho ativo, constatou-se que 39,5% dos participantes relataram sentir falta da atividade policial de forma constante. Outros 28,9% afirmaram sentir falta ocasionalmente, enquanto 18,4% indicaram que esse sentimento ocorre raramente.
Esse sentimento pode ser compreendido à luz de Papalia e Feldman (2013), que concebem a aposentadoria como um processo de ajustamento, permeado por fatores econômicos e sociorrelacionais, no qual o indivíduo precisa administrar uma nova rotina e o gradual desapego do trabalho.
No que se refere à idade de passagem para a Reserva Remunerada, constatou-se que os policiais militares do Pará se aposentam relativamente jovens: os homens com média de 54,4 anos e as mulheres com aproximadamente 49 anos. Quando comparada a outras categorias profissionais no Brasil, essa antecipação pode favorecer o surgimento de sentimentos de inutilidade ou perda de função social. Historicamente, o termo “inatividade” era utilizado na corporação para designar os policiais na RR, o que gerava desconforto por remeter à ideia de improdutividade. Atualmente, esses profissionais passaram a ser denominados “veteranos”, vinculados ao Centro de Veteranos e Pensionistas (CVP) da Polícia Militar do Pará (PMPA), mudança simbólica que contribui para a ressignificação da identidade profissional.
Considerando a faixa etária em que ocorre a aposentadoria, investigou-se se os militares exerciam alguma atividade em substituição ao trabalho ativo. Os resultados indicaram que 73,7% afirmaram desempenhar alguma atividade laboral, enquanto 26,3% relataram não exercer nenhuma. Entre as atividades mencionadas, destacaram-se aquelas sem vínculo com a função policial e o retorno ao serviço ativo na condição de convocado da Reserva Remunerada.
Quando indagados sobre os motivos que os levam a permanecer ou retornar ao exercício de atividades laborais, 78,9% afirmaram que o salário de reservista não é suficiente para suprir integralmente as necessidades pessoais e familiares, tais como moradia, lazer, cultura, saúde, transporte, alimentação e vestuário. Os participantes destacaram que, ao passar para a RR, o militar deixa de receber determinadas vantagens pecuniárias e gratificações, como diárias, auxílio-alimentação e abono por emprego em jornada de serviço extraordinário, equivalente às horas extras.
No que diz respeito ao preparo para a Reserva Remunerada e à reorganização da rotina pós-aposentadoria, os respondentes puderam assinalar mais de uma alternativa. Verificou-se que 55,3% não se prepararam previamente para a aposentadoria; 23,7% investiram em um negócio próprio; 18,4% passaram a realizar viagens com maior frequência; 73,7% dedicaram-se a outra atividade laboral; e 21,1% passaram a atuar em serviços voluntários, como em organizações não governamentais, igrejas e instituições afins.
Nesse contexto, Kegle e Macedo (2015) ressaltam que a percepção de sentimentos como insegurança, vazio existencial, culpa e a fantasia de ser esquecido após a passagem para a reserva pode ser amenizada pela continuidade do exercício de atividades laborais. A inserção em uma nova rotina e em atividades substitutivas ao trabalho ativo mostra-se, portanto, uma estratégia relevante para preenchimento do tempo, complementação de renda e manutenção do sentimento de utilidade social.
Corroborando essa perspectiva, Macêdo, Bendassolli e Torres (2017) destacam que, embora muitos militares já tenham adquirido o direito à aposentadoria, continuam a se perceber como pessoas jovens, ativas e capazes de contribuir social e profissionalmente, o que reforça a importância de políticas institucionais e estratégias de apoio que favoreçam uma transição mais saudável para a Reserva Remunerada.
3.2 Os impactos na Saúde Mental
A rotina laboral do policial militar é diferente de outras profissões, a começar pela carga horária, que não é definida; eles trabalham em regime de dedicação exclusiva e tempo integral. Porém, a jornada de trabalho é definida em plantões de 6, 8, 12. A escala de 6 horas de trabalho, é destinada para jornada de trabalho extraordinária; Os militares que desempenham atividades administrativas (serviço interno nos quarteis) trabalham 8 horas diárias; o serviço operacional (serviço nas viaturas, guardas ou permanências dos prédios) da Polícia Militar do Pará segue o padrão de jornada de trabaho de 12 horas por 24 horas e/ou 12 horas por 48 horas de folga. Há exceções a esses horários, os quais são autorizados pelo chefe do Estado-Maior Geral. Todavia, as horas de folgas podem ser suprimidas por necessidade do serviço ou a interesse do militar para cumprir jornada de trabalho extraordinária remunerada .
Além disso, pela natureza do serviço, os militares trabalham dia e noite, finais de semanas e feriados. É comum os policiais não estarem presentes nos aniversários dos filhos, das esposas; estarem ausentes do convívio familiar em datas comemorativas. Acompanhar de perto o crescimento e desenvolvimento dos filhos (nascimento, primeiras palavras, primeiros passos) é quase impossível. E quando o militar passa para a Reserva Remunerada, muitos se ocupam com a criação de netos e sobrinhos, o que pode ser percebido quando perguntado aos entrevistados em quais atividades eles tem se dedicado após se aposentarem, 52,6% dos respondentes assinalaram que passaram a cuidar de netos e sobrinhos e dedicarem-se mais à família.
Esse retorno ao ambiente interno familiar é um dos primeiros passos dado pelo policial militar quando passa para a RR, momento que ocorre uma readaptação ao novo ambiente. Quando falamos novo ambiente, não é exatamente o espaço físico, mas sim, ao ambiente psicológico, os novos comportamentos e retomada da rotina diária com essa família. Geralmente nessa fase, os filhos jão são adultos, ou já saíram da casa dos pais e a família muitas vezes se resume ao militar e ao cônjuge.
Aos poucos, essse militar vai se reintegrando a sociedade civil, aos vizinhos da rua, do bairro, aos amigos. Mas essa ressocialização não ocorre com facilidade. Primeiro, que pela natureza da profissão e da jornada de trabalho, o ciclo de amigos geralmente se restringe a outros policiais militares; segundo, que em maior ou menor grau, esse profissional é visto, lembrado e respeitado pela farda que usa e quando ele é aposentado, acaba sendo uma pessoa “comum”.
A nova realidade do policial militar ao passar para a Reserva Remunerada, trás consigo não só o bônus do descompromisso com cumprimento de horário, da tranquilidade e o conforto do lar ao lado da família, mas tambem o ônus da invisibilidade. Aos poucos, esse militar se torna invisivel perante a sociedade e cai no esquecimento perante os antigos companheiros de serviço. A aposentadoria apresenta dois lados de uma mesma moeda, conforme aponta Panozzo e Monteiro (2013) destacam que de um lado, ocorre o rompimento do ciclo da produtividade com o trabalho, de outro, o direito ao descanso, ao usufruto do tempo livre e mais tempo para realizar atividades com a família e os amigos.
Considerando que durante o serviço ativo, esse militar trabalhou cotidianamente no combate aos mais diferentes tipos e formas de violência, havendo uma possibilidade de naturalização da violência, assim, como uma internalização de todos os tipos de problemas enfrentados no trabalho. A atividade do profissional de segurança pública, o expõe a situações contínuas de risco, capazes de propiciar condutas que podem resultar na sobrecarga de ansiedade, estresse, depressão, síndrome de burnout e outros transtornos.
Durante o serviço ativo, esse profissional já começa a sentir essa sobrecarga, mas com a dinâmica do trabalho, ele acaba não percebendo os riscos que essa sobrecarga podem lhe trazer futuramente. E quando ele passa para a reserva, com a junção da ruptura do trabalho ativo, sem a devida preparação para a reserva com a sobrecarga de estressores, a Sáude Mental desse policial estará possivelmente comprometida.
Na pesquisa, foi disposto um Interrogatório Sistemático, dividido em Sintomas gerais, Neurológicos e Neurocomportamental. Para responder, o militar deveria assinalar se nos últimos dez dias anteriores à pesquisa, ele havia apresentado os sintomas listados. Para os Sintomas Gerais, 78,8% (26) afirmaram ter tido aumento de peso; 57,6% (19) assinalaram apresentar episódios de mal estar geral; 42,4% (14) declararam sentir fadiga; 24,2% (8) relataram sentir sudorese; 81,8% (27) afirmaram sentir insônia e 60,6% (20) apresentam frequentemente quadros de cefaleia.
Os Sintomas Neurológicos compreendia os sintomas: tremores, vertinges/tonturas, perda de consciencia e convulsão. Para esses sintomas, nao foram assinalados nenhum dos ítens.
Na averiguação dos Sintomas Neurocomportamentais, os militares responderam da seguinte forma. 21,2% (7) afirmaram ter dificuldade de memorização; 51,5% (17) relataram a dificuldade de socialização/interação com outras pessoas; 42,4% (14) assinalaram a frequência de irritabilidade; 18,2% (6) destacaram a dificuldade de concentração; 10,3% (10) afirmaram apresentar episódios de agressividade; 60,6% (20) responderam sentirem-se tristes e desanimados.
Os sintomas acima avaliados, aproximam-se dos transtornos mentais comuns (TMC), os quais são caracterizados por sintomas não psicóticos, tais como mal estar geral, fadiga, insônia, estado de irritabilidade, agressividade, dificuldade de concentração, triteza e desânimo.
Para complementar nosso estudo, analisamos os resultados do questionário SQR-20, no qual adotamos a média de resposta de sete ou mais respostas “sim”, dentre as 20 perguntas. Para nossa análise, adotamos a divisão das perguntas em quatro fatores, conforme Guirado e Pereira (2016): Humor depressivo-ansioso, Sintomas somáticos, Decréscimo de energia vital e Pensamentos depressivos.
No eixo humor depressivo-ansioso, observaram-se os maiores percentuais de respostas afirmativas nas questões “Sente-se nervoso, tenso ou preocupado?” e “Sente-se triste ultimamente?”, ambas com 73,3% de respostas positivas. O elevado índice de nervosismo, tensão e preocupação pode estar associado às experiências vivenciadas durante o período de serviço ativo, uma vez que, pela própria natureza da atividade policial, o militar permanece em constante estado de alerta. Mesmo após a passagem para a Reserva Remunerada (RR), esse padrão de vigilância tende a se manter, refletindo a permanência de comportamentos de autoproteção.
O sentimento de tristeza, por sua vez, pode relacionar-se à ruptura com o trabalho ativo, ao afastamento dos colegas de profissão e à ausência de atividades que preencham o tempo anteriormente ocupado pela rotina laboral, fatores que podem intensificar vivências de perda de identidade profissional e de sentido existencial.
No fator sintomas somáticos, as maiores frequências foram observadas nos itens “Dores de cabeça frequentes”, com 57,9%, e “Dormir mal”, com 76,3%. Esses achados indicam a presença significativa de queixas físicas, especialmente cefaleia e insônia, sintomas que comprometem tanto o bem-estar físico quanto o equilíbrio emocional dos policiais militares avaliados.
Em relação ao fator decréscimo de energia vital, destacou-se o item “Você se cansa com facilidade?”, com 60,5% de respostas afirmativas, seguido de “Tem dificuldades de ter satisfação em suas tarefas?”, assinalado por 52,6% dos participantes. Tais resultados sugerem redução da vitalidade, da motivação e da capacidade de experimentar prazer nas atividades cotidianas.
No quarto fator, referente aos sintomas característicos de pensamentos depressivos, foram obtidas as seguintes frequências: “Tem perdido o interesse pelas coisas?” 52,6%; “Sente-se uma pessoa inútil, sem préstimo?” 42,1%; “É incapaz de desempenhar um papel útil em sua vida?” 39,5%; e “Tem tido ideias de acabar com a vida?” 26,3%. Esses dados evidenciam a presença de pensamentos autodepreciativos, perda de interesse e ideação suicida em parcela significativa da amostra, o que demanda atenção clínica e institucional.
Os fatores avaliados pelo instrumento Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20) apresentam correspondência com critérios diagnósticos do Transtorno Depressivo Maior, conforme descrito no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Entre esses critérios, destacam-se: humor deprimido na maior parte do dia, diminuição acentuada do interesse ou prazer em atividades anteriormente valorizadas, alterações do sono, fadiga, sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva, prejuízo da capacidade de concentração e presença de ideação suicida.
Os itens avaliados, tanto no Interrogatório Sistemático, quanto no SQR-20 apontam a presença de sofrimento mental entre os policiais militares da RR. Uma das possíveis explicações é que entre os participantes da pesquisa, 55,3% (21) afirmaram que não se preparam para a reserva.
A interrupção do trabalho e o ingresso na aposentadoria é uma mudança significativa. Mas é importante que essa transição seja trabalhada, planejada, de forma que facilite a tomada de decisões e a adaptação a uma nova rotina pós-encerramento do ciclo do trabalho ativo e que essa nova fase seja prolífera e com qualidade de vida.
Nesse sentido, há de falar na importância de criação e implementação do Programa de Preparação para a Reserva Remunerada, visando minimizar ansiedades e dúvidas do policial militar comuns nesta nova etapa de vida, assim como estimular o sentimento de realização e de autoestima e principalmente propor projetos de vida futuros, por meio de atividades planejadas a partir de interesses e motivações dos militares.
A devida preparação do Policial Militar para a Reserva Remunerada, com orientação para nova rotina, buscando minimizar ou evitar a depressão, isolamento, dificuldades de relacionamento com a família, inclusão em novos ciclos de amizade, propiciando-lhe o completo estado de bem-estar, para que possa desenvolver suas habilidades pessoais, consiga liar com os estresses da vida, viva de forma produtiva e esteja apto a contribuir para sua comunidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa teve como objetivo analisar os impactos da aposentadoria na saúde mental de Policiais Militares do Estado do Pará, especificamente aqueles inseridos na reserva remunerada, buscando identificar a presença de sofrimento psíquico e a existência de atividades substitutivas ao trabalho ativo.
Os resultados evidenciaram a ocorrência significativa de sofrimento mental entre os policiais militares aposentados, com destaque para sintomas como humor deprimido na maior parte do dia, redução acentuada do interesse ou prazer nas atividades, alterações no peso corporal, distúrbios do sono, agitação psicomotora, fadiga, sentimentos de inutilidade, prejuízos na capacidade de concentração e presença de ideação suicida. Tais achados sinalizam a vulnerabilidade psicológica associada ao processo de transição da vida laboral ativa para a reserva remunerada.
O estudo aponta uma preocupação relevante quanto à saúde mental dos policiais militares aposentados. Como limitações da pesquisa, destaca-se o reduzido número de participantes, bem como a impossibilidade de aprofundamento clínico dos sintomas identificados, o que indica a necessidade de avaliações psicológicas e psiquiátricas mais detalhadas em investigações futuras.
Os achados revelam-se relevantes para subsidiar a formulação de políticas institucionais e públicas voltadas ao planejamento de ações preventivas e interventivas, especialmente no que se refere à preparação do policial militar para a transição do serviço ativo à reserva remunerada. Ressalta-se a importância de considerar a saúde mental de forma integrada às relações de trabalho estabelecidas durante a carreira, à ruptura do vínculo institucional, bem como às dimensões familiares, sociais e financeiras que atravessam esse processo.
Compreende-se, portanto, a necessidade de aprofundamento das investigações no campo da Psicologia, recomendando-se a realização de estudos com amostras ampliadas, incluindo policiais militares de diferentes regiões do estado, a fim de possibilitar um diagnóstico mais abrangente da realidade vivenciada por esse público.
Por fim, espera-se que os resultados deste estudo sirvam como incentivo para o desenvolvimento de novas pesquisas e para a implementação de estratégias que promovam a melhoria da saúde física e mental dos Policiais Militares do Estado do Pará, contribuindo para uma aposentadoria mais saudável, digna e humanizada.
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1 Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). E-mail: janetebrito@unifesspa.edu.br
