SARCOPENIA AND ELDERLY WOMEN’S HEALTH: NUTRITIONAL APPROACH AND IMPACT ON QUALITY OF LIFE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510261210
Anna Francisca Oliveira Cossalter; Carla Francielen da Costa Melo; Fabiana Maurício Mateus Carvalho Basso; Fabiana Picinato Martins dos Santos okabe; Juliana de Lima Tavares; Layra Christina de Souza Rabelo; Melryenee Ferreira Dutra Belizario; Pedro Vitor das Neves Ramos; Uilian Sampaio Santiago; Francielle Alba Moraes
RESUMO
A sarcopenia é considerada como a perda progressiva de massa muscular, força e função física relacionada à idade, que é altamente prevalente entre mulheres idosas e está associada a piora da autonomia, aumento de quedas, hospitalizações e redução da qualidade de vida. A intervenção nutrológica é pilar no manejo: otimização do aporte proteico, garantia de energia adequada, atenção a micronutrientes (vitamina D, cálcio, ômega-3, vitamina B12) e suplementação quando indicada, sempre em conjunto com exercícios resistidos. Este artigo revisa definições atuais, fatores de risco específicos para mulheres, recomendações nutricionais práticas, evidência de suplementação e o impacto sobre qualidade de vida, integrando diretrizes internacionais e estudos recentes.
Palavras-chave: sarcopenia; mulher idosa; nutrologia; proteína; qualidade de vida.
ABSTRACT
Sarcopenia is considered the progressive age-related loss of muscle mass, strength, and physical function. It is highly prevalent among older women and is associated with decreased autonomy, increased falls, hospitalizations, and reduced quality of life. Nutritional intervention is a cornerstone of management: optimizing protein intake, ensuring adequate energy, attention to micronutrients (vitamin D, calcium, omega-3, vitamin B12), and supplementation when indicated, always in conjunction with resistance exercise. This article reviews current definitions, risk factors specific to women, practical nutritional recommendations, evidence of supplementation, and its impact on quality of life, integrating international guidelines and recent studies.
Key-words: sarcopenia; older women; nutrition; protein; quality of life.
1 INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional é um dos fenômenos mais marcantes do século XXI e representa um dos maiores desafios para as políticas públicas de saúde em escala global. O Brasil segue a tendência mundial de envelhecimento acelerado, com um crescimento expressivo da população idosa e, particularmente, da feminização da velhice — fenômeno em que as mulheres representam a maioria das pessoas com mais de 60 anos (IBGE, 2023).
Conforme Veras e Oliveira (2018), o envelhecimento feminino no contexto brasileiro é um processo social e biológico influenciado por desigualdades históricas de gênero, que repercutem na saúde, na autonomia e na qualidade de vida. As mulheres idosas vivem, em média, mais do que os homens, mas enfrentam maior incidência de doenças crônicas, menor renda e níveis mais elevados de solidão e dependência funcional (Souza et al., 2021).
Além das transformações fisiológicas decorrentes da menopausa e do declínio hormonal, o envelhecimento da mulher é marcado por mudanças psicossociais e culturais significativas. Santos e Mendes (2020) observam que muitas idosas vivenciam perdas múltiplas — do cônjuge, de familiares próximos e do papel social — o que pode gerar sentimentos de isolamento, tristeza e perda de identidade. A presença de apoio familiar, redes comunitárias e atividades sociais é, portanto, essencial para a manutenção do bem-estar emocional e da autoestima.
A literatura recente aponta que a qualidade de vida deve ser entendida como um conceito multidimensional, que abrange as dimensões física, psicológica, social, espiritual e ambiental(Fernandes et al., 2022; Pereira; Martins, 2020). A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022) define qualidade de vida como a percepção que o indivíduo tem da sua posição na vida, dentro do contexto cultural e do sistema de valores nos quais está inserido. Assim, no caso das mulheres idosas, fatores como autonomia, renda, moradia, participação social e bem-estar emocional tornam-se determinantes-chave.
Vieira et al. (2020) destacam que o envelhecimento feminino deve ser analisado de forma interseccional, levando em consideração as desigualdades de gênero, classe e território. Mulheres de áreas rurais ou com baixa escolaridade apresentam piores indicadores de saúde e maior vulnerabilidade social, o que impacta diretamente a percepção de qualidade de vida. Já Borges e Almeida (2021) reforçam que o envelhecimento saudável requer políticas públicas específicas, que considerem as necessidades singulares das mulheres e promovam a equidade no acesso aos serviços de saúde.
Sob a ótica da Geriatria e Gerontologia, a atenção à mulher idosa demanda estratégias de cuidado integral, que combinem promoção da saúde, prevenção de doenças, suporte psicossocial e reabilitação funcional (Braga; Ribeiro, 2023). Tais estratégias devem valorizar o protagonismo feminino, o fortalecimento da autonomia e o estímulo à participação social, aspectos fundamentais para a manutenção da saúde mental e da autoestima nessa fase da vida.
A sarcopenia foi reconhecida como uma condição clínica específica pela European Working Group on Sarcopenia in Older People (EWGSOP2), sendo definida como a perda progressiva e generalizada de massa e força muscular associada à idade (Cruz-Jentoft et al., 2018). Entre as mulheres idosas, a sarcopenia é ainda mais prevalente devido à redução dos níveis de estrogênio após a menopausa, à menor massa muscular basal e à maior tendência à ingestão proteica inadequada (Volkert et al., 2019).
De acordo com Beaudart et al. (2023), a sarcopenia afeta diretamente a qualidade de vida relacionada à saúde (HRQoL), aumentando o risco de quedas, fraturas, hospitalizações e d,ependência funcional. Além disso, o envelhecimento feminino está frequentemente acompanhado de outras condições, como osteopenia e obesidade sarcopênica, que intensificam os impactos negativos da perda de massa muscular (Calvani et al., 2023).
Assim, o presente artigo tem por objetivo revisar a evidência científica e as recomendações nutrológicas para prevenção e tratamento da sarcopenia em mulheres idosas, e sintetizar o impacto dessas intervenções na qualidade de vida.
2 METODOLOGIA
Na metologia de estudo, este é um artigo de revisão narrativa que integra: (a) consensos e diretrizes internacionais sobre sarcopenia e nutrição geriátrica; (b) revisões sistemáticas e metanálises sobre intervenções nutricionais; e (c) estudos observacionais que relacionam sarcopenia e qualidade de vida em idosos, com foco em achados aplicáveis à população feminina. Fornece recomendações práticas baseadas nas melhores evidências disponíveis até 2025. As principais fontes incluem EWGSOP2 (Cruz-Jentoft et al., 2018), diretrizes ESPEN (Volkert et al., 2019/2022), revisões recentes sobre dieta e suplementação (Calvani 2023; Song 2023) e meta-análises sobre qualidade de vida (Beaudart 2023).
3 REVISÃO DE LITERATURA
3.1 Envelhecimento e contexto demográfico
O envelhecimento populacional tem se acelerado nas últimas décadas, com reflexos diretos sobre a organização dos serviços de saúde e sobre as demandas sociais por políticas públicas de cuidado. No Brasil, a transição demográfica apresenta características singulares, como a feminização da velhice — ou seja, a predominância das mulheres entre os idosos — o que impõe desafios específicos para a atenção à saúde e para as estratégias de promoção da qualidade de vida (IBGE, 2023; Veras; Oliveira, 2018).
Essa realidade demográfica exige que os estudos sobre envelhecimento considerem diferenciações por gênero, região geográfica e classe social, uma vez que essas variáveis modulam o risco de fragilidade, doença crônica e isolamento social (Vieira et al., 2020).
3.1.1 Conceito multidimensional de qualidade de vida na velhice
A qualidade de vida em idosos é um constructo multifatorial que incorpora dimensões físicas, psicológicas, sociais, funcionais e espirituais. As diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) enfatizam a percepção subjetiva do indivíduo sobre seu bem-estar em contexto cultural e social, o que torna imprescindível utilizar abordagens que integrem medidas objetivas (capacidade funcional, índices clínicos) e subjetivas (satisfação com a vida, sensação de autonomia) (Fernandes et al., 2022; Pereira; Martins, 2020).
Para mulheres idosas, em particular, a qualidade de vida é fortemente impactada por fatores históricos de desigualdade de gênero, trajetória ocupacional e condições econômicas acumuladas ao longo da vida (Souza et al., 2021).
3.1.2 Determinantes físicos e funcionais
A literatura demonstra consistente associação entre doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) e redução da qualidade de vida em idosas. Hipertensão, diabetes, doenças osteoarticulares e dor crônica são preditores de limitação funcional e perda de independência, influenciando atividades de vida diária e mobilidade (Gonçalves et al., 2020; Fernandes et al., 2022).
Intervenções baseadas em exercícios físicos regulares e programas de fisioterapia preventiva mostram melhora na força muscular, equilíbrio e capacidade funcional, além de efeitos positivos sobre humor e sono (Braga; Ribeiro, 2023; Menezes et al., 2022).
Adicionalmente, a nutrição adequada é apontada como pilar da manutenção da massa magra e prevenção de sarcopenia, com repercussões diretas na autonomia funcional (Castro et al., 2023).
3.1.3 Determinantes psicossociais e saúde mental
A carga psicossocial da velhice feminina envolve aspectos como viuvez, solidão, perdas sociais e menor acesso a recursos econômicos, fatores que elevam a prevalência de sintomas depressivos e transtornos de ansiedade entre idosas (Costa et al., 2021; Almeida; Reis, 2019).
A participação em grupos de convivência, redes comunitárias e engajamento social tem efeito protetor sobre a saúde mental, favorecendo sentido de pertencimento e utilidade social (Borges; Almeida, 2021).
A oferta de serviços de atenção psicossocial, incluindo psicoterapia adaptada ao idoso (por exemplo, TCC em idosos), tem sido associada à melhora da autoimagem, resiliência e adesão ao autocuidado (Freitas; Nogueira, 2024).
3.2 Fisiopatologia e Fatores de Risco na Mulher Idosa
A sarcopenia é multifatorial, resultando da interação entre o envelhecimento fisiológico, a inatividade física, a redução hormonal e a ingestão alimentar inadequada.
Segundo Song et al. (2023), a inflamação crônica de baixo grau, o estresse oxidativo e a resistência anabólica contribuem para a degradação das proteínas musculares.
Nas mulheres, a queda dos níveis de estrogênio no período pós-menopausa leva a uma redução significativa na síntese proteica muscular, alterando a distribuição de gordura e massa magra corporal (Volkert et al., 2022).
Outros fatores importantes incluem deficiências de vitamina D, B12 e cálcio, além da ingestão calórica e proteica insuficiente (Deutz et al., 2014). A somatória desses fatores pode resultar em declínio funcional acelerado e maior risco de incapacidade (Goes-Santos et al., 2024).
3.3 Diagnóstico e Avaliação da Sarcopenia
O diagnóstico da sarcopenia segue os critérios da EWGSOP2 (Cruz-Jentoft et al., 2018), que prioriza a força muscular como principal indicador. O uso de testes como handgrip strength, velocidade de marcha e o questionário SARC-F é recomendado para triagem inicial (Calvani et al., 2023).
Para confirmação diagnóstica, exames de composição corporal como DEXA ou bioimpedância elétrica são indicados para mensurar massa muscular. A classificação da severidade leva em conta o desempenho físico, sendo considerada grave quando há baixa força e mobilidade comprometida (Volkert et al., 2022).
3.4. Abordagem Nutrológica na Sarcopenia Feminina
Quadro 1: Sarcopenia e Saúde da Mulher Idosa: Abordagem Nutrológica e Impacto na Qualidade de Vida


Fonte: Autores, 2025
3.4.1 Aporte proteico, Suplementação, aminoácidos e micronutrientes e compostos bioativos
A ingestão adequada de proteínas é o principal fator dietético para manutenção da massa magra. Segundo Deutz et al. (2014)e Volkert et al. (2019), o consumo de 1,0 a 1,5 g/kg/dia de proteínaé recomendado para mulheres idosas com sarcopenia. Essa ingestão deve ser distribuída ao longo do dia, em doses de 25–35 g por refeição, para otimizar a síntese proteica muscular (Song et al., 2023).
Quando a dieta não é suficiente, suplementos à base de whey protein ou aminoácidos essenciais (especialmente leucina) podem ser utilizados para potencializar a resposta anabólica (Calvani et al., 2023). O uso de leucina isolada mostrou resultados positivos em força e massa muscular em estudos com mulheres idosas (Song et al., 2023).
A vitamina Ddesempenha papel crucial na função muscular, e sua deficiência está associada à fraqueza e ao risco aumentado de quedas (Volkert et al., 2022). O ômega-3, por sua vez, possui efeito anti-inflamatório e pode aumentar a sensibilidade anabólica do músculo ao estímulo proteico (Beaudart et al., 2023). A reposição de vitamina B12e cálciotambém é recomendada quando houver deficiência documentada (Goes-Santos et al., 2024).
3.4.2 Integração com exercício físico
A combinação de exercício resistido eintervenção nutricionalé a estratégia mais eficaz no manejo da sarcopenia. Meta-análises recentes indicam que o treinamento de força aliado à suplementação proteica promove aumento significativo da massa magra e da força muscular (Yang et al., 2025).
Como reforça Volkert et al. (2019), a associação entre dieta equilibrada e estímulo mecânico é indispensável para a reabilitação funcional da mulher idosa.
3.4.3 Impactos da Sarcopenia na Qualidade de Vida da Mulher Idosa
Estudos demonstram que a sarcopenia está associada a redução da independência funcional, queda da autoestimae aumento da fragilidade física (Beaudart et al., 2023).
A perda de massa muscular reduz a capacidade de realizar atividades básicas da vida diária, como caminhar, vestir-se e alimentar-se, além de elevar o risco de quedas e fraturas (Cruz-Jentoft et al., 2018).
A abordagem nutrológica contribui não apenas para a melhora dos parâmetros físicos, mas também para o bem-estar psicológico e social, uma vez que o aumento da força e mobilidade impacta positivamente a autoconfiança e o convívio social (Calvani et al., 2023).
De acordo com Goes-Santos et al. (2024), programas multidisciplinares envolvendo nutrologia, fisioterapia e educação alimentar têm demonstrado melhora significativa na percepção de qualidade de vida entre mulheres idosas com sarcopenia.
Assim, estudos recentes apontam que a sarcopenia é multifatorial, envolvendo fatores endócrinos, inflamatórios, nutricionais e de inatividade física (Keller & Fiatarone Singh, 2020). Em mulheres idosas, o declínio estrogênico pósmenopausa acelera a degradação proteica muscular e compromete a regeneração das fibras musculares (Kwon et al., 2021). Além disso, a ingestão inadequada de proteínas e vitamina D agrava o quadro clínico, aumentando a fragilidade e o risco de hospitalizações (Beaudart et al., 2022).
A avaliação funcional por testes como o handgrip strength e o gait speed tem sido essencial para o diagnóstico precoce e monitoramento da sarcopenia (Chen et al., 2020). Intervenções baseadas em exercícios resistidos e suplementação proteica demonstram melhora significativa da força e da independência funcional (Tsekoura et al., 2021).
Segundo Kim e Lee (2023), programas de treinamento multicomponente, associados à nutrição adequada, reduzem em até 40% a progressão da sarcopenia em mulheres acima de 65 anos.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos estudos selecionados evidencia que a qualidade de vida da mulher idosa está fortemente associada à autonomia funcional, apoio social, condições econômicas, nível educacional e estado emocional (FERNANDES et al., 2022).
Conforme Gonçalves et al. (2020), as doenças crônicas não transmissíveis (como hipertensão, diabetes e osteoartrite) são fatores limitantes para a independência e mobilidade. O exercício físico regular, mesmo em intensidade leve, é apontado como ferramenta eficaz para reduzir dores, melhorar o humor e preservar a capacidade funcional (Braga; ribeiro, 2023).
A análise da literatura evidencia que a qualidade de vida da mulher idosa está relacionada a fatores como autonomia, suporte familiar, prática de atividades físicas, estabilidade emocional e rede de apoio social (Fernandes et al., 2022; Braga; Ribeiro, 2023). Esses elementos interagem de maneira complexa, exigindo uma abordagem interdisciplinar para o cuidado integral da mulher idosa.
Vieira et al. (2020) ressaltam que o envelhecimento feminino no Brasil ainda é marcado pela desigualdade de gênero, especialmente em regiões com menor acesso à saúde e à educação. Isso afeta diretamente o bem-estar e a percepção subjetiva de qualidade de vida. Mulheres com menor escolaridade e renda tendem a apresentar maior incidência de doenças crônicas e sintomas depressivos.
Menezes et al. (2022) apontam que a prática regular de exercícios, aliada a programas de fisioterapia preventiva, melhora a força muscular, a autoestima e a percepção de bem-estar geral. Segundo as autoras, o incentivo à atividade física deve ser parte permanente das políticas de atenção primária voltadas à terceira idade.
O componente emocional e afetivo também é essencial. Pereira e Martins (2020)demonstraram que a perda do cônjuge e a distância familiar afetam profundamente o humor e a vitalidade, principalmente em mulheres que não possuem rede de apoio sólida. Nesses casos, a atuação dos profissionais de saúde mental e dos grupos de convivência torna-se indispensável.
Outro ponto relevante é o papel da alimentação saudável. Castro et al. (2023) mostraram que idosas com dieta equilibrada — rica em frutas, fibras e proteínas — apresentam maior energia, melhor sono e menor prevalência de sintomas depressivos. Assim, a nutrição adequada é um pilar determinante na promoção da longevidade saudável.
Santos et al. (2025) defendem que o conceito de qualidade de vida deve ser entendido como um processo dinâmico e multidimensional, que vai além da ausência de doenças e envolve bem-estar subjetivo, autonomia, suporte social e aceitação das transformações corporais e emocionais próprias da velhice.
A literatura contemporânea converge para o entendimento de que a intervenção nutricional personalizada é um componente essencial na prevenção e no tratamento da sarcopenia feminina. A ingestão proteica insuficiente é uma das principais causas de progressão da doença, sendo necessário promover educação alimentar e suplementação adequada (Volkert et al., 2022).
O papel do médico nutrólogo é fundamental na avaliação global, ajustando o plano alimentar às necessidades individuais e considerando comorbidades, limitações motoras e preferências alimentares. Além disso, a integração de programas comunitários que incentivem a prática de exercícios resistidos e o acompanhamento nutricional regular é determinante para a manutenção da funcionalidade (Yang et al., 2025).
O impacto da sarcopenia ultrapassa o campo físico, alcançando dimensões emocionais e sociais. Assim, a abordagem deve ser multidimensional e interdisciplinar, considerando aspectos nutricionais, psicológicos e sociais (Beaudart et al., 2023).
Os resultados de estudos clínicos e revisões sistemáticas apontam que a combinação de estratégias nutricionais e exercício físico promove melhora significativa na força e no desempenho funcional de mulheres idosas com sarcopenia. Yang et al. (2025) demonstraram, em uma revisão com mais de 1.200 participantes, que o treinamento resistido combinado com suplementação proteica aumentou a força de preensão manual em até 22% e a velocidade de marcha em 15%, resultados que se mantiveram por mais de seis meses após o término das intervenções. Esses achados reforçam que o estímulo nutricional isolado, embora benéfico, apresenta melhores resultados quando associado à atividade física regular, o que confirma a necessidade de abordagens integradas.
Além disso, Calvani et al. (2023) observaram que mulheres idosas suplementadas com aminoácidos essenciais enriquecidos com leucina apresentaram aumento da massa magra corporal e da força muscular em relação ao grupo controle, independentemente do nível de atividade física. Esses efeitos foram potencializados em indivíduos com consumo proteico total acima de 1,2 g/kg/dia. Tal evidência demonstra que o limiar proteico ideal para estímulo anabólico em idosas é superior às recomendações tradicionais (0,8 g/kg/dia), conforme também destacado por Volkert et al. (2022) e Deutz et al. (2014). Assim, a adequação do consumo proteico diário é um fator determinante para o sucesso terapêutico da abordagem nutrológica.
As diretrizes EWGSOP2 (2019) e ESPEN (2022) convergem quanto à importância da avaliação funcional, mas divergem na abordagem e no foco clínico. A EWGSOP2 propõe um algoritmo diagnóstico baseado em três etapas: detecção de baixa força muscular (probable sarcopenia), confirmação por baixa massa muscular e gravidade avaliada pelo desempenho físico. Essa estrutura é prática e aplicável em contextos clínicos e epidemiológicos.
Por outro lado, a ESPEN, em parceria com a European Geriatric Medicine Society (EuGMS), enfatiza a integração entre sarcopenia, desnutrição e fragilidade, defendendo o uso de ferramentas como o Global Leadership Initiative on Malnutrition (GLIM) para avaliação nutricional. Essa abordagem mais ampla permite uma visão holística do idoso, mas sua aplicação é limitada em ambientes com poucos recursos diagnósticos (ESPEN, 2022).
No entanto, ambas as diretrizes apresentam limitações quando aplicadas à população brasileira, especialmente feminina. Os valores de referência para massa e força muscular são baseados em amostras europeias e asiáticas, o que pode gerar viés diagnóstico em mulheres idosas brasileiras com diferentes padrões corporais, étnicos e nutricionais (Pereira et al., 2020). Além disso, há escassez de estudos longitudinais nacionais que correlacionem sarcopenia com indicadores de qualidade de vida, nutrição e saúde mental (Lima et al., 2023).
Essas lacunas dificultam a elaboração de protocolos clínicos adaptados à realidade brasileira, especialmente considerando que a mulher idosa enfrenta dupla vulnerabilidade: o impacto fisiológico do envelhecimento e a desigualdade de acesso a cuidados e diagnósticos preventivos (Souza & Oliveira, 2021).
No aspecto de qualidade de vida, Beaudart et al. (2023) relataram que intervenções combinadas de nutrição e exercício melhoraram os escores de autonomia, vitalidade e satisfação pessoal em mulheres acima de 70 anos. Paralelamente, Goes-Santos et al. (2024) verificaram redução significativa na frequência de quedas e na dependência para atividades básicas da vida diária após 12 semanas de reeducação alimentar e suplementação com whey protein.
Tais resultados indicam que o manejo da sarcopenia vai além da recuperação muscular: ele restitui independência funcional e autoestima, impactando positivamente a saúde mental e social da mulher idosa. Portanto, os dados atuais confirmam que o tratamento nutrológico integrado à atividade física representa uma intervenção efetiva, segura e custo-eficiente para promover envelhecimento ativo e saudável.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A sarcopenia representa uma condição de alta relevância na saúde da mulher idosa, comprometendo sua independência, bem-estar e qualidade de vida.
A abordagem nutrológica, baseada em dieta rica em proteínas, adequada em calorias e suplementada conforme necessidade, associada a exercícios de resistência, constitui o pilar fundamental da prevenção e tratamento.
Intervenções integradas, com acompanhamento de profissionais de nutrologia, fisioterapia e geriatria, são determinantes para retardar a progressão da sarcopenia e promover um envelhecimento mais ativo, autônomo e saudável.
Assim, a qualidade de vida da mulher idosa é influenciada por múltiplos fatores, que envolvem dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais. O fortalecimento da atenção primária à saúde, o incentivo à prática de atividades físicas, o suporte psicossocial e o estímulo à autonomia são estratégias fundamentais para promover um envelhecimento saudável.
Dessa forma, políticas públicas e investigações nacionais são urgentes para adaptar os critérios internacionais à realidade brasileira e promover o envelhecimento ativo, saudável e com autonomia entre mulheres idosas.
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