RISCOS DE QUEDAS E FRATURAS ASSOCIADOS AO USO DE BENZODIAZEPÍNICOS EM IDOSOS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA.

RISKS OF FALLS AND FRACTURES ASSOCIATED WITH BENZODIAZEPINE USE IN THE ELDERLY: AN INTEGRATIVE REVIEW.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511091436


Ana Laís Pereira Pedraça¹
Brunna Brum Caputo de Oliveira¹
Ícaro Mendes Pinheiro¹
João Pedro Segura Fróio¹
Laura Kailanny Vieira Veloso da Fonseca¹
Luiza Gabrielly Marques Borges¹


RESUMO

As quedas em idosos são um grave problema de saúde pública. Os benzodiazepínicos (BZD), embora classificados como Medicamentos Potencialmente Inadequados (MPIs) por aumentarem o risco de quedas, permanecem com alta prevalência de prescrição. Objetivo: Analisar e sintetizar as evidências científicas sobre os riscos de quedas e fraturas associados ao uso de benzodiazepínicos em idosos. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura com buscas nas bases de dados LILACS, BVS (SciELO) e PubMed/MEDLINE. Cinco estudos que atenderam aos critérios de inclusão (publicados entre 2016 e 2025) foram selecionados para análise. Resultados: A síntese dos estudos demonstrou uma associação robusta entre o uso de BZD e um risco aumentado de quedas (OR ajustado = 2,28) e fraturas de fêmur (OR ajustado = 3,45) em diferentes contextos de cuidado. O risco mostrou-se particularmente elevado em “novos usuários”, como idosos na alta hospitalar (OR ajustado ≈ 2,5). Em contrapartida, os estudos que avaliaram a desprescrição (descontinuação) de BZD como intervenção isolada não encontraram uma redução estatisticamente significativa no desfecho de quedas, apesar de demonstrarem benefícios na redução de outros eventos adversos a medicamentos. Conclusão: O uso de BZD é um fator de risco claro e modificável para quedas e fraturas em idosos. A evidência sugere que a principal implicação clínica é a priorização da não-iniciação de BZD em idosos vulneráveis. A desprescrição, embora importante, deve ser integrada a uma abordagem multifatorial de prevenção, pois sua eficácia isolada na redução de quedas não foi comprovada nos estudos analisados.

Palavras-chave: Idoso; Benzodiazepínicos; Acidentes por Quedas; Fraturas Ósseas; Revisão Integrativa.

ABSTRACT

Falls in older adults are a serious public health problem. Benzodiazepines (BZDs), although classified as Potentially Inappropriate Medications (PIMs) due to their increased risk of falls , remain highly prescribed. Objective: To analyze and synthesize the scientific evidence on the risks of falls and fractures associated with benzodiazepine use in older adults. Methodology: This is an integrative literature review based on searches in the LILACS, BVS (SciELO), and PubMed/MEDLINE databases . Five studies meeting the inclusion criteria (published between 2016 and 2025) were selected for analysis. Results: The synthesis of the studies demonstrated a robust association between BZD use and an increased risk of falls (adjusted OR = 2.28) and hip fractures (adjusted OR = 3.45) across different care settings. The risk was found to be particularly high in “new users,” such as older adults at hospital discharge (adjusted OR ≈ 2.5) . Conversely, studies evaluating BZD deprescribing as a standalone intervention did not find a statistically significant reduction in the outcome of falls , although they did show benefits in reducing other adverse drug events. Conclusion: BZD use is a clear and modifiable risk factor for falls and fractures in older adults. The evidence suggests the main clinical implication is prioritizing the noninitiation of BZDs in vulnerable older adults. Deprescribing, while important, should be integrated into a multifactorial prevention approach, as its isolated efficacy in reducing falls was not proven in the analyzed studies.

Keywords: Aged; Benzodiazepines; Accidental Falls; Bone Fractures; Integrative Review.

Introdução

O envelhecimento populacional é uma realidade global e, nesse contexto, as quedas e fraturas subsequentes representam um grave problema de saúde pública entre os idosos. No Brasil, por exemplo, estima-se que os custos diretos de internações hospitalares por quedas em idosos ultrapassaram os R$ 2,3 bilhões em um período de duas décadas, refletindo a alta morbidade associada (LIMA et al., 2022). Além do impacto econômico, as quedas estão diretamente ligadas à perda de autonomia e ao aumento da mortalidade nesta população (GONÇALVES et al., 2022). Embora as causas sejam multifatoriais, diversos fatores de risco modificáveis têm sido investigados, destacando-se o uso de determinados medicamentos psicotrópicos.

O uso de benzodiazepínicos (BZD) em idosos é uma prática comum na medicina geriátrica, especialmente para o tratamento de condições como insônia, ansiedade e distúrbios do humor. Esses medicamentos atuam no sistema nervoso central, potencializando os efeitos do neurotransmissor inibitório ácido gamaaminobutírico (GABA), o que resulta em propriedades ansiolíticas, sedativas e hipnóticas (SANTOS, 2025). No entanto, a farmacocinética dos BZD em idosos é alterada devido a mudanças fisiológicas relacionadas à idade, como diminuição da função hepática e renal, o que pode levar a uma maior sensibilidade e risco de efeitos adversos, como sedação, ataxia e comprometimento cognitivo (MENDES et al., 2022). Devido a esses riscos elevados, os benzodiazepínicos são classificados como “Medicamentos Potencialmente Inadequados” (MPIs) para a população idosa por diversos consensos internacionais, sendo o mais proeminente os Critérios de Beers, atualizados pela Sociedade Americana de Geriatria (AMERICAN GERIATRICS SOCIETY, 2019). Esses critérios desaconselham fortemente o uso de BZD em idosos justamente pela associação inequívoca com comprometimento cognitivo, delirium e, crucialmente, um aumento significativo no risco de quedas e fraturas. Apesar dessas diretrizes claras, estudos de utilização de medicamentos demonstram que a prevalência de prescrição de BZD para idosos permanece elevada na prática clínica, caracterizando um hiato entre a evidência científica e a conduta terapêutica (COSSA et al., 2024).

É nesse contexto de alta prescrição, apesar dos alertas, que a investigação se aprofunda. Estudos primários (CARMO JÚNIOR et al., 2023) e revisões anteriores (BARBOSA et al., 2024) sugerem uma forte associação entre o uso desses medicamentos e a ocorrência de quedas. Contudo, a evidência disponível ainda se mostra fragmentada, com diferentes metodologias e populações (idosos na comunidade vs. institucionalizados), demandando uma síntese atualizada para clarificar a magnitude desse risco. Fatores como a polifarmácia, comum na geriatria, e o uso concomitante de outros depressores do sistema nervoso central, reforçam a necessidade de uma análise integrada (MAUST et al., 2022; O’REILLY et al., 2025).

Diante disso, o objetivo desta revisão integrativa é analisar e sintetizar as evidências científicas sobre os riscos de quedas e fraturas associados ao uso de benzodiazepínicos em idosos, promovendo uma compreensão integrada para orientar práticas clínicas seguras.

Metodologia

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, conduzida em seis etapas metodológicas: 1) elaboração da pergunta norteadora; 2) busca ou amostragem na literatura; 3) coleta e seleção dos estudos; 4) análise crítica dos estudos incluídos; 5) síntese e interpretação dos resultados; e 6) apresentação da revisão (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2008).

A pergunta norteadora foi estruturada com base na estratégia PICO (População, Intervenção, Comparação, Outcome): “Quais evidências científicas indicam que o uso de benzodiazepínicos (I), quando comparado ao não uso (C), aumenta o risco de quedas ou fraturas (O) em idosos acima de 60 anos (P)?”

A busca pelos estudos foi realizada no mês de outubro de 2025 nas seguintes bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO), acessadas via portal da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS); e na National Library of Medicine (PubMed/MEDLINE).

Para a estratégia de busca, foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e seus correspondentes no Medical Subject Headings (MeSH), combinados com operadores booleanos (AND e OR). A estratégia de busca utilizou as seguintes combinações: (“Idoso” OR Aged) AND (“Benzodiazepínicos” OR Benzodiazepines) AND (“Acidentes por Quedas” OR “Accidental Falls” OR “Fraturas Ósseas” OR “Fractures, Bone”).

Os critérios de inclusão definidos foram: artigos originais; que abordassem a associação entre o uso de BZD e a ocorrência de quedas ou fraturas em idosos (população com 60 anos ou mais). Os critérios de exclusão foram: artigos de revisão, editoriais, cartas ao leitor ou resumos de congresso; artigos publicados antes de 2016 (respeitando o recorte temporal dos últimos 10 anos); artigos nos idiomas diferentes do português, inglês ou espanhol; e artigos indisponíveis para leitura na íntegra.

A seleção dos artigos foi realizada em duas etapas, por dois revisores independentes, para garantir o rigor metodológico. Primeiramente, foram lidos os títulos e resumos de todos os artigos identificados. Os artigos que pareceram relevantes ou geraram dúvidas foram selecionados para a segunda etapa, de leitura do texto completo. As discordâncias entre os revisores foram resolvidas por consenso.

Para a extração dos dados, foi elaborado um instrumento padronizado para coletar as seguintes informações dos estudos incluídos: autor(es) e ano, país de origem, tipo de estudo (delineamento metodológico), características da amostra (n, idade média), e principais resultados/conclusões sobre o risco (ex: Odds Ratio, Risco Relativo).

A síntese dos resultados foi realizada de forma descritiva e narrativa, com os dados apresentados em tabelas-resumo para permitir a comparação e a análise crítica das evidências encontradas.

Resultados

A estratégia de busca, aplicada nas bases de dados PubMed, LILACS (via BVS) e SciELO com um recorte temporal dos últimos 10 anos (janeiro de 2016 a dezembro de 2025), identificou inicialmente um total de 25 referências (10 do PubMed, 15 da BVS/LILACS e 0 do SciELO direto). Não foram identificadas duplicatas entre as bases.

A triagem inicial foi realizada por dois revisores independentes com base na leitura dos títulos e resumos. Nesta etapa, 9 artigos foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão preliminares, sendo os principais motivos: tipo de estudo inadequado (revisões, erratum) ou data de publicação fora do período estabelecido.

Assim, 16 artigos foram selecionados para avaliação do texto completo quanto à elegibilidade. Após a leitura na íntegra por ambos os revisores, 11 artigos foram excluídos pelas seguintes razões específicas: Não abordavam quedas ou fraturas como desfecho (n = 9); População do estudo não atendia aos critérios de idade (idosos 60+) (n = 2). Ao final do processo de seleção, 5 estudos preencheram todos os critérios de elegibilidade e foram incluídos na presente revisão integrativa.

A análise detalhada dos 5 estudos que atenderam aos critérios de inclusão é apresentada a seguir. A Tabela 1 sumariza as principais características de cada estudo, incluindo autoria e ano de publicação, país de origem, objetivo, desenho metodológico, características da população estudada, tipo de exposição ou intervenção avaliada (uso de benzodiazepínicos), os desfechos relevantes medidos (quedas e/ou fraturas) e os principais resultados encontrados relativos à associação investigada. Esta caracterização permite uma visão geral da evidência selecionada para responder à pergunta desta revisão.

Tabela 1 Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa.

Os cinco estudos incluídos nesta revisão foram publicados entre 2018 e 2025, abrangendo populações de idosos (idade ≥ 60 ou 65 anos) em diferentes contextos de cuidado: hospitalizados (DESORMEAU et al., 2025; GOTO et al., 2025), institucionalizados (BAIXINHO et al., 2019), em ambulatório de geriatria (CARMO JÚNIOR et al., 2023) e residentes na comunidade (OLIVEIRA et al., 2018). Os estudos foram conduzidos no Canadá (DESORMEAU et al., 2025), Europa (multicêntrico (GOTO et al., 2025) e Portugal (BAIXINHO et al., 2019; OLIVEIRA et al., 2018)) e Brasil (CARMO JÚNIOR et al., 2023), utilizando desenhos metodológicos variados, incluindo análises secundárias de ensaios clínicos randomizados (RCTs) (DESORMEAU et al., 2025; GOTO et al., 2025), estudo longitudinal (CARMO JÚNIOR et al., 2023), estudo correlacional (BAIXINHO et al., 2019) e estudo transversal descritivo (OLIVEIRA et al., 2018). Todos investigaram a relação entre o uso de benzodiazepínicos (BZD) ou classes de medicamentos que os incluem (sedativos, FRIDs) e a ocorrência de quedas e/ou fraturas.

Três estudos apontaram uma associação positiva entre o uso de BZD e um maior risco ou ocorrência de quedas ou fraturas. O estudo longitudinal brasileiro de Carmo Júnior et al. (2023) encontrou que o uso de BZD na consulta inicial se associou a um risco significativamente maior de quedas (OR ajustado = 2,28) e de fratura de fêmur (OR ajustado = 3,45) nos 30 dias subsequentes em idosos de um ambulatório de geriatria. De forma semelhante, o estudo transversal português de Oliveira et al. (2018), apesar de descritivo e com amostra pequena, observou uma alta prevalência de quedas (64,5%) em idosos da comunidade e destacou que metade dos que caíram utilizavam BZD regularmente. O estudo correlacional de Baixinho et al. (2019), realizado em idosos institucionalizados em Portugal, também encontrou uma associação significativa entre o uso de BZD e a ocorrência de quedas, mas especificamente no subgrupo de idosos com declínio cognitivo (p<0,05).

Um aspecto particular foi investigado por Desormeau et al. (2025) em idosos hospitalizados no Canadá. A análise secundária do RCT MedSafer mostrou que iniciar o uso de sedativos (BZD/Z-drugs) na alta hospitalar (novos usuários) esteve associado a um risco substancialmente maior de quedas nos 30 dias pós-alta (OR ajustado ≈ 2,5) quando comparado tanto aos que continuaram o uso que já faziam em casa quanto aos não usuários.

Em contrapartida, os estudos que avaliaram o impacto da descontinuação dos BZD apresentaram resultados menos conclusivos em relação à redução de quedas.

Goto et al. (2025), na análise secundária do RCT europeu OPERAM com idosos hospitalizados multimórbidos, não encontraram associação significativa entre a descontinuação de BZD/Z-drugs (ou FRIDs em geral) e uma redução na ocorrência de quedas (HR 0,91) ou quedas recorrentes (OR 1,13) no seguimento de 10 meses. No entanto, esse mesmo estudo encontrou uma associação significativa para a descontinuação de antipsicóticos em pacientes com histórico de quedas, que tiveram menor ocorrência de quedas (GOTO et al., 2025). Desormeau et al. (2025), no mesmo estudo que mostrou risco no novo uso, encontraram que a desprescrição de BZD/Zdrugs reduziu eventos adversos a medicamentos (EAMs) em geral, mas não demonstrou uma diferença estatisticamente significativa na ocorrência de quedas quando comparada ao grupo que continuou o uso.

Em resumo, a evidência dos estudos incluídos sugere uma associação consistente entre o uso de benzodiazepínicos (particularmente o uso crônico ou o início recente) e um risco aumentado de quedas (CARMO JÚNIOR et al., 2023; OLIVEIRA et al., 2018; BAIXINHO et al., 2019; DESORMEAU et al., 2025) e, em um estudo, de fraturas de fêmur (CARMO JÚNIOR et al., 2023), em diferentes populações de idosos (comunidade (OLIVEIRA et al., 2018), hospitalizados (DESORMEAU et al., 2025), institucionalizados (BAIXINHO et al., 2019), ambulatório (CARMO JÚNIOR et al., 2023)). No entanto, a evidência sobre o benefício da descontinuação desses medicamentos especificamente na redução de quedas foi inconsistente ou não significativa nos estudos analisados (GOTO et al., 2025; DESORMEAU et al., 2025), apesar de um estudo apontar redução em outros eventos adversos a medicamentos (DESORMEAU et al., 2025).

Discussão

A presente revisão integrativa sintetizou evidências que, em conjunto, confirmam uma associação robusta entre o uso de benzodiazepínicos (BZD) e um risco aumentado de quedas e fraturas em idosos, abrangendo múltiplos contextos de cuidado. Os achados dos estudos incluídos, que apontaram riscos significativamente elevados tanto para quedas (OR ajustado de 2,28) quanto para fraturas de fêmur (OR ajustado de 3,45) em pacientes ambulatoriais, estão em ampla concordância com a literatura científica recente. Pesquisas de base populacional de grande escala, não incluídas nesta revisão, corroboram essa magnitude; por exemplo, um estudo de coorte nacional coreano (KANG et al., 2012) encontrou que o uso de BZD/Z-drugs aumentou o risco de fraturas em idosos em 31%, reforçando que o risco observado no Brasil por Carmo Júnior et al. (2023) não é um achado isolado. Essa associação é tão consolidada que os BZD são pilares na definição de “Medicamentos Potencialmente Inadequados” (MPIs) e em ferramentas de triagem de risco de queda, como os critérios STOPP/START (O’MAHONY et al., 2023).

Um dos achados mais críticos destacados nesta revisão foi o risco particular associado ao início do uso de BZD, especificamente no vulnerável período pós-alta hospitalar. O estudo de Desormeau et al. (2025) demonstrou que “novos usuários” tiveram um risco de quedas 2,5 vezes maior, o que é biologicamente plausível. O risco de BZD é frequentemente dose-dependente e mais pronunciado nos primeiros dias ou semanas de uso (SUN et al., 2025), antes que o idoso desenvolva tolerância (parcial) aos efeitos sedativos e atáxicos. Este achado ecoa o estudo de Maust et al. (2022), que identificou a prescrição inicial como um período de alto risco para lesões por queda. Isso sugere que a prática de prescrever BZD como uma solução “temporária” para a ansiedade ou insônia durante a transição hospital-casa, como visto por Desormeau et al. (2025), pode, paradoxalmente, estar criando um risco agudo de readmissão hospitalar devido a uma queda subsequente.

Além do uso isolado, a complexidade da polifarmácia, um fator comum nos idosos hospitalizados e na comunidade, foi um tema implícito nos estudos. O risco de quedas não advém apenas do BZD isoladamente, mas de sua interação com outras drogas de ação no Sistema Nervoso Central (SNC). O estudo de Wang et al. (2024), por exemplo, demonstrou que o uso concomitante de opioides e BZD está associado a um risco de quedas com lesão significativamente maior do que o uso de qualquer uma das classes isoladamente. Embora os estudos incluídos nesta revisão (com exceção de Goto et al. (2025)) não tenham focado na descontinuação de outros Fatores de Risco de Queda (FRIDs), o achado de Baixinho et al. (2019) — de que a associação BZD-queda foi significativa apenas no grupo com declínio cognitivo — sugere uma “carga” de vulnerabilidade. É provável que o BZD atue como um “gatilho” em um paciente já vulnerável por outras condições (declínio cognitivo, polifarmácia, fragilidade), um conceito que a literatura mais ampla sobre risco de quedas suporta (SEPPÄLÄ et al., 2022).

O ponto mais complexo e contraintuitivo que emerge desta revisão é o aparente “paradoxo da desprescrição”. Os estudos de Goto et al. (2025) e Desormeau et al. (2025) falharam em demonstrar uma redução estatisticamente significativa no desfecho específico de quedas após a descontinuação de BZD/Z-drugs, apesar de Desormeau et al. (2025) ter mostrado um benefício claro na redução de Eventos Adversos a Medicamentos (EAMs) em geral. Este achado, embora surpreendente, é consistente com uma literatura mais ampla que tem lutado para provar o benefício da desprescrição de BZD no desfecho de quedas. Um grande estudo de coorte retrospectivo (SCHINDLER et al., 2024) também não encontrou associação entre a descontinuação de BZD/Z-drugs e uma mudança nas taxas de quedas ou fraturas nos 6 meses seguintes. Da mesma forma, uma revisão sistemática com meta-análise (SEPPÄLÄ et al., 2022) concluiu que a revisão de medicamentos e a desprescrição, quando usadas como uma intervenção isolada, não se associam a uma redução significativa nas quedas.

Existem múltiplas hipóteses para essa inconsistência. Primeiro, as quedas são síndromes geriátricas multifatoriais; remover um único fator de risco (o BZD) pode ser insuficiente para alterar o risco geral do paciente se outros fatores potentes (fraqueza muscular, polifarmácia, déficits visuais) não forem abordados concomitantemente (SEPPÄLÄ et al., 2022). Segundo o próprio processo de retirada pode induzir sintomas (ansiedade, insônia, tontura) que, a curto prazo, podem mimetizar os fatores de risco para quedas, mascarando o benefício da descontinuação (NICE, 2022). Terceiro, pode haver “confundimento residual por indicação”; ou seja, os idosos que recebem BZD podem ter uma vulnerabilidade de base (ex: ansiedade severa, fragilidade) que os predispõe a quedas, e a descontinuação do medicamento não reverte essa vulnerabilidade subjacente (SCHINDLER et al., 2024). Portanto, o achado de Desormeau et al. (2025) de que a desprescrição reduziu EAMs (mas não quedas) é clinicamente relevante, sugerindo que o benefício da descontinuação é real (provavelmente na redução de sedação diurna ou delirium), mas pode não ser suficiente, por si só, para prevenir um evento mecânico complexo como uma queda. 

A principal implicação clínica desta revisão, portanto, não reside apenas na desprescrição, mas na prevenção da prescrição inicial. O achado de Desormeau et al. (2025) sobre o risco 2,5 vezes maior para “novos usuários” na alta hospitalar é alarmante. Isso sugere que o uso de BZD como uma medida “temporária” para insônia ou ansiedade situacional em idosos (como no período pós-hospitalar) é uma prática de alto risco. A literatura corrobora que as barreiras para a desprescrição, uma vez que o uso crônico está estabelecido, são imensas, tanto por parte do paciente quanto do prescritor (SHAPOVAL et al., 2025). Portanto, evitar a primeira dose em idosos vulneráveis emerge como a estratégia de segurança mais eficaz. Além disso, a falha dos estudos de desprescrição (GOTO et al., 2025; DESORMEAU et al., 2025) em reduzir quedas por si só reforça a natureza multifatorial da síndrome de queda. A evidência atual, incluindo diretrizes globais (MONTERO-ODASSO et al., 2022), aponta que intervenções isoladas são menos eficazes. A desprescrição de BZD deve ser, idealmente, parte de um pacote de cuidados que inclua fisioterapia, revisão ambiental (como sugerido pelos riscos encontrados por Oliveira et al. (2018) ) e otimização de outros fatores, como visão e polifarmácia.

É imperativo reconhecer as limitações metodológicas dos estudos incluídos, que afetam a força das conclusões. O estudo de Oliveira et al. (2018), por exemplo, embora tenha destacado a alta prevalência do uso de BZD entre os que caíram , possui um desenho transversal e uma amostra pequena, o que impede o estabelecimento de causalidade. O achado de Baixinho et al. (2019) foi específico para idosos com declínio cognitivo, limitando sua generalização para idosos cognitivamente intactos. O estudo de Carmo Júnior et al. (2023), apesar de longitudinal e robusto, avaliou o desfecho em apenas 30 dias. Embora isso capture o risco agudo (semelhante a Desormeau et al. (2025) ), pode não refletir o risco de uso crônico. Finalmente, os estudos de maior nível de evidência (GOTO et al., 2025; DESORMEAU et al., 2025) foram análises secundárias de RCTs, não desenhados primariamente para avaliar quedas, e focados em populações hospitalizadas muito específicas (multimórbidas, polifarmácia), o que pode limitar a generalização dos achados de desprescrição para a população idosa geral da comunidade.

Em síntese, os estudos analisados fornecem um panorama consistente de que o uso de BZD é um fator de risco significativo para quedas e fraturas em idosos. O risco parece ser particularmente agudo no início da terapia. Por outro lado, o benefício da desprescrição isolada para a prevenção de quedas não foi conclusivamente comprovado, sugerindo que a remoção do BZD deve ser integrada a uma abordagem multifatorial. Futuras pesquisas, idealmente Ensaios Clínicos Randomizados (RCTs) desenhados primariamente para avaliar quedas como desfecho principal da desprescrição, são necessários para preencher essa lacuna na literatura.

Conclusão

O objetivo desta revisão integrativa foi analisar e sintetizar as evidências científicas sobre os riscos de quedas e fraturas associados ao uso de benzodiazepínicos (BZD) em idosos. A análise dos cinco estudos incluídos permitiu responder à pergunta norteadora, confirmando que o uso de BZD está consistentemente associado a um risco aumentado de quedas e, em menor grau, de fraturas de fêmur.

A síntese dos resultados destacou duas vertentes principais: o risco da exposição e a incerteza da descontinuação. O risco de quedas mostrou-se particularmente elevado no início da terapia (“novos usuários”), especialmente no vulnerável período pós-alta hospitalar. Em contrapartida, os estudos que avaliaram a desprescrição de BZD como intervenção isolada não demonstraram uma redução estatisticamente significativa no desfecho específico de quedas , embora um benefício tenha sido notado na redução de outros eventos adversos a medicamentos.

Conclui-se que, embora o uso de BZD seja um fator de risco claro e modificável, sua remoção isolada pode ser insuficiente para reverter o risco de quedas em idosos, que se caracteriza como uma síndrome geriátrica multifatorial. A principal implicação para a prática clínica é a necessidade de priorizar a não-iniciação de BZD em idosos vulneráveis, buscando alternativas não farmacológicas para o manejo da insônia e ansiedade. Para pacientes em uso crônico, a desprescrição permanece uma meta de segurança importante para reduzir eventos adversos gerais, mas deve ser integrada a uma abordagem multifatorial de prevenção de quedas.

As limitações metodológicas dos estudos incluídos, que variaram de desenhos transversais a análises secundárias de RCTs, sugerem a necessidade de futuros ensaios clínicos randomizados, desenhados primariamente para avaliar a desprescrição de BZD tendo as quedas como desfecho principal.

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¹Graduanda em Medicina, Faculdade Metropolitana de Rondônia, Porto Velho, RO, Brasil.