REVISÃO SISTEMÁTICA DA EFICÁCIA DO EXERCÍCIO FÍSICO COMO ESTRATÉGIA TERAPÊUTICA NA INSUFICIÊNCIA VENOSA CRÔNICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511112158


Henrique Prates Baraldi; Thaís de Lima Brosco; Letícia Andrade Tunes; Leonardo de Araújo Monteiro; Milena Carolino Freitas; Luana dos Santos Ribeiro; Pedro Leonardo Santos; Mariana Soares Vendrameto


Resumo 

A Insuficiência Venosa Crônica (IVC) é uma condição progressiva que compromete o retorno venoso nos membros inferiores, sendo altamente prevalente e associada a impactos físicos, emocionais e socioeconômicos significativos. A prática de exercício físico tem sido investigada como uma estratégia terapêutica eficaz no manejo da IVC, por atuar diretamente no fortalecimento da bomba muscular da panturrilha, na melhora do retorno venoso e na redução de sintomas como dor, edema e fadiga. Esta revisão sistemática, conduzida conforme o protocolo PRISMA, analisou estudos publicados nos últimos cinco anos, selecionando oito artigos relevantes nas bases de dados PubMed, MEDLINE, LILACS, IBECS e BDENF. Os resultados evidenciam que a atividade física supervisionada, especialmente quando associada à terapia compressiva, promove melhorias funcionais, hemodinâmicas e na qualidade de vida em estágios leves e moderados da doença (C1 a C5). No entanto, em estágios mais avançados (C6), os efeitos são limitados, e ainda há escassez de evidências quanto à eficácia do exercício físico como intervenção isolada. Conclui-se que o exercício físico é uma ferramenta valiosa no tratamento da IVC, mas sua prescrição deve ser individualizada e adaptada à gravidade da doença, destacando-se a necessidade de novas pesquisas para populações com quadros mais graves. 

Palavras-chave: 

Insuficiência Venosa Crônica; Atividade Física; Exercício Terapêutico; Qualidade de Vida; Retorno Venoso; Revisão Sistemática. 

Introdução 

A Doença Venosa Crônica (DVC) afeta o sistema venoso das pernas e pode causar anormalidades morfológicas e funcionais. Alguns fatores de risco incluem gênero feminino, idade avançada, obesidade, longos períodos em pé, histórico familiar e paridade. A progressão da DVC é mais comum em pessoas com sobrepeso e histórico de trombose venosa profunda, sendo o refluxo venoso (profundo e superficial) associado ao desenvolvimento de novas varizes. (Kikuchi, R; 2023) 

A Insuficiência Venosa Crônica dos Membros Inferiores (IVCMI) é uma condição comum, associada à alta morbidade. Ela ocorre quando há dificuldade em manter o equilíbrio entre o fluxo sanguíneo que chega às pernas e o retorno venoso, devido a problemas nos sistemas venosos superficial e profundos. A doença é causada principalmente por dois mecanismos: obstrução do fluxo sanguíneo e refluxo venoso devido a válvulas defeituosas. Além dos efeitos pessoais, a IVCMI também gera impactos sociais e prejuízos financeiros. Os sintomas incluem desconforto nas pernas, varizes, inchaço, alterações na pele e úlceras, mas alguns indivíduos podem não apresentar sinais. Sua origem é multifatorial, envolvendo obstrução venosa profunda, falhas nas válvulas, refluxo e disfunção da bomba muscular da panturrilha. A prevalência aumenta com a idade, provavelmente devido à menor eficácia da bomba muscular e alterações no fluxo sanguíneo das pernas. (Alberti, L. R; 2010) 

O sedentarismo é um problema global de saúde e envolve várias causas, como o desconhecimento sobre como se exercitar, os objetivos de cada atividade, as limitações de certos grupos e percepções equivocadas sobre os benefícios do movimento. Aumentar a atividade física na população é fundamental para melhorar a saúde pública e reduzir os custos com tratamentos, incluindo os hospitalares, relacionados ao sedentarismo. O exercício físico tem se mostrado eficaz no tratamento das doenças vasculares periféricas (DVP), especialmente na redução da claudicação intermitente e na melhoria do metabolismo muscular. Isso facilita a adesão à prática de atividades físicas supervisionadas. O exercício aumenta o tônus muscular das pernas, o que pode melhorar a função do sistema venoso, reduzindo a pressão ao caminhar e promovendo um melhor retorno venoso. (CÉSAR, J.; 2011) 

Dessa forma, entende-se que existe uma relevância na associação entre a insuficiência venosa crônica e sua prevenção por meio do exercício físico, de maneira que a prática dessas atividades pode diminuir de forma importante a prevalência da doença, especialmente entre as populações e grupos de risco. A avaliação dessa relação se mostra crucial para o sistema de saúde como um todo, já que é fundamental criar estratégias e planos para educação e prevenção da IVCMI na sociedade, além de melhorar outras áreas do organismo com esses hábitos. 

OBJETIVO: Avaliar a eficácia do Exercício Físico como Estratégia Terapêutica na Insuficiência Venosa Crônica 

-METODOLOGIA 

Trata-se de uma revisão sistemática que seguiu as recomendações do protocolo PRISMA(Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses). Os critérios de elegibilidade foram: artigos publicados nos últimos 5 anos, nos idiomas português e inglês: artigos não pagos e disponíveis na íntegra, indexados nas seguintes bases de dados: PubMed, MEDLINE, LILACS, IBECS e BDENF- Enfermagem. Foram utilizados os descritores “physical activity” e “chronic venous insufficiency”. 

Inicialmente, foram encontrados 130 resultados. Os títulos e resumos foram lidos e descartados aqueles cujo tema principal não correspondia aos descritores selecionados, os que não abordavam assuntos pertinentes, ou que não apresentavam resultados relevantes para a temática. Após a seleção, restaram 8 artigos que foram lidos na íntegra e incluídos na revisão. 

-Metodologia em fluxograma 

-DISCUSSÃO 

-Benefícios da Atividade Física na Qualidade de Vida e Aspectos Fisiológicos 

A atividade física é um pilar fundamental para a qualidade de vida, especialmente quando adaptada às necessidades de indivíduos com condições específicas, como a Insuficiência Venosa Crônica (IVC) (Thibert et al., 2022). A prática regular de exercícios promove uma melhora significativa na capacidade funcional, fortalecendo a bomba muscular da panturrilha – essencial para o retorno venoso – e aumentando a amplitude do tornozelo e a força muscular (Silva et al., 2021). Estudos demonstram a eficácia do treinamento físico tanto em quadros leves quanto avançados de IVC (Silva et al., 2021). Quando a atividade física é associada à terapia compressiva (com meias ou bandagens), os resultados são ainda mais notáveis, resultando em maior funcionalidade e mobilidade, o que impacta diretamente na capacidade de realizar atividades e na independência dos pacientes (Aydin et al., 2022). 

Além disso, a redução de sintomas como dor, edema e fadiga, frequentemente presentes em pacientes com IVC, é um benefício direto dos programas de atividade física e exercício terapêutico (Leite et al., 2021). Essa diminuição dos sintomas melhora substancialmente a qualidade de vida (Thibert et al., 2022; Leite et al., 2021).

Consequentemente, a melhora dos sintomas e da funcionalidade impacta positivamente o bem-estar emocional e a autoestima. A percepção de autonomia, o alívio da dor e a capacidade de realizar as atividades diárias geram maior satisfação com a própria saúde, o que se reflete no engajamento com o autocuidado (Aydin et al., 2022; Leite et al., 2021). Por fim, com o aumento da força e da mobilidade, a atividade física proporciona ao paciente uma maior capacidade de desempenhar suas atividades diárias e uma maior disposição para interações sociais, promovendo inclusão social e uma melhor qualidade de vida geral. 

O fortalecimento da bomba muscular da panturrilha e a melhora do retorno venoso são cruciais para a saúde circulatória. A musculatura da panturrilha, ao comprimir as veias intramusculares profundas, direciona eficientemente o fluxo de sangue dos membros inferiores para o átrio direito do coração, via veia cava inferior. A eficácia deste mecanismo depende da boa funcionalidade do movimento talocrural e da contração dos músculos da panturrilha (Thibert et al., 2022). Em indivíduos com desequilíbrio no fluxo sanguíneo dos membros inferiores, o retorno venoso é comprometido pelo aumento da pressão, que gera resistência ao fluxo e estase (Thibert et al., 2022). No entanto, a quantidade de atividade física recomendada para fortalecer a musculatura da panturrilha e proporcionar uma melhora estrutural ainda não está bem definida (Béliard et al., 2023). 

Adicionalmente, a melhora da função endotelial e da circulação sanguínea é um alvo importante no manejo da doença venosa. A disfunção venosa, resultante da insuficiência das válvulas, da incapacidade muscular de bombear o sangue e do alargamento da parede dos vasos, acarreta um tempo de enchimento venoso mais curto e, consequentemente, um aumento da pressão venosa nas extremidades dos membros inferiores. Esse cenário estabelece um ciclo que agrava progressivamente o quadro com a cronificação da doença (Thibert et al., 2022). Embora as adaptações crônicas de alto grau de atividade física estejam presentes principalmente nas artérias, promovendo vasos de maior complacência e calibre, acredita-se que o sistema venoso também seja afetado por essas adaptações. Contudo, ainda faltam evidências sobre como o treinamento da musculatura da panturrilha, de forma isolada, pode promover a melhoria direta da função endotelial (Béliard et al., 2023). 

-Estágios da Insuficiência Venosa Crônica (IVC)) 

A Insuficiência Venosa Crônica (IVC) é uma condição que se manifesta em diferentes estágios clínicos, refletindo a progressão da doença. A classificação varia desde o estágio C0, que indica a ausência de sinais visíveis ou palpáveis, passando por C1 (telangiectasias ou veias reticulares), C2 (veias varicosas com diâmetro igual ou superior a 3 mm) e C3 (edema relacionado à doença). Em estágios mais avançados, o C4 é subdividido em C4a (alterações cutâneas), C4b (lipodermatoesclerose) e C4c (corona phlebectatica). Os casos mais graves incluem o C5, que representa uma úlcera venosa cicatrizada, e o C6, caracterizado por uma úlcera venosa ativa (Araújo et al., 2023). 

-A Eficácia da Atividade Física Conforme a Gravidade da IVC

A eficácia da atividade física em pacientes com IVC apresenta nuances importantes, variando conforme a gravidade da doença. Em estágios menos avançados, de C1 a C5, a atividade física adaptada – tanto em ambiente aquático quanto em solo – mostra-se uma estratégia benéfica para a melhora dos sintomas e da qualidade de vida. Exemplos incluem o fortalecimento da panturrilha, a mobilidade articular e a prática de caminhadas (Thibert et al., 2022). De fato, estudos indicam que em pacientes com IVC leve, o treinamento físico é eficaz na melhora do refluxo venoso, da força muscular, da amplitude de movimento do tornozelo e da própria qualidade de vida (Silva et al., 2021). No entanto, essa eficácia pode ser diferente em quadros mais complexos. Para casos de IVC avançada, embora o treinamento físico possa aumentar a fração de ejeção, reduzir a fração de volume residual e aprimorar a força muscular e a amplitude de movimento do tornozelo, não há evidências de que ele altere os índices de refluxo venoso ou a qualidade de vida quando usado como única intervenção (Silva et al., 2021). 

É crucial reconhecer as limitações da atividade física em pacientes com úlceras ou alterações cutâneas graves. Embora o treinamento físico seja fundamental no manejo da IVC, promovendo melhorias funcionais, musculares e hemodinâmicas, e, em casos mais leves, aprimorando a qualidade de vida (Silva et al., 2021), sua aplicação em estágios muito avançados, como o C6 (úlcera venosa ativa), possui restrições significativas. Há uma lacuna na literatura para comprovar uma melhora direta do refluxo venoso ou da qualidade de vida atribuível exclusivamente ao treinamento físico nesses pacientes (Silva et al., 2021). Nesses cenários, a prioridade terapêutica se desloca para o tratamento da úlcera em si. 

Essa distinção ressalta a necessidade de adaptações no tipo e na intensidade do exercício conforme a gravidade da doença. A abordagem terapêutica deve ser individualizada para cada estágio da IVC. Em estágios avançados, como o C6, a educação terapêutica do paciente assume um papel central para promover a qualidade de vida, com um foco primordial na cicatrização da úlcera (Thibert et al., 2022). Programas de atividade física adaptada para pacientes com úlceras ativas ainda estão sob investigação, exigindo mais pesquisas para determinar sua real eficácia e segurança (Thibert et al., 2022). A falta de estudos robustos que comprovem a melhora do refluxo venoso ou da qualidade de vida em casos graves aponta para a clara necessidade de mais pesquisas, utilizando instrumentos e metodologias específicas para essa população (Silva et al., 2021). 

CONCLUSÃO 

A atividade física emerge como um pilar fundamental na promoção da qualidade de vida e no manejo da Insuficiência Venosa Crônica (IVC). Sua prática regular se correlaciona diretamente com a melhora da capacidade funcional, o fortalecimento da bomba muscular da panturrilha e, consequentemente, a otimização do retorno venoso. Além dos benefícios fisiológicos, o exercício terapêutico contribui para a redução de sintomas como dor, edema e fadiga, impactando positivamente o bem-estar emocional, a autoestima e a inclusão social dos pacientes. Esses efeitos combinados ressaltam a importância de integrar a atividade física adaptada nos protocolos de tratamento da IVC. 

No entanto, a eficácia da atividade física demanda uma abordagem individualizada, sendo crucial considerar a gravidade da IVC. Enquanto pacientes em estágios iniciais e moderados (C1 a C5) demonstraram benefícios significativos, há uma notável lacuna na literatura e limitações na aplicação do exercício em casos mais avançados, como o estágio C6 (úlcera venosa ativa). Essa distinção aponta para a necessidade premente de mais pesquisas que investiguem metodologias e intensidades de treinamento específicas para essas populações, garantindo que as intervenções sejam seguras e eficazes em todos os espectros da doença e promovam, de fato, uma melhoria abrangente na qualidade de vida. 

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