REUNIÃO DE EQUIPE E COORDENAÇÃO DO CUIDADO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE UMA RESIDENTE EM MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202601181801


Jordana Viana Torres Camelo de França
Orientador: Gabriela Miguel Vieira


RESUMO

A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui a porta de entrada preferencial e o centro de comunicação do Sistema Único de Saúde (SUS), tendo na Estratégia Saúde da Família (ESF) seu modelo prioritário de organização. Para a operacionalização das diretrizes de coordenação do cuidado e integralidade, a reunião de equipe emerge como um dispositivo indispensável para o planejamento local e a Educação Permanente em Saúde (EPS). O objetivo deste estudo é relatar a experiência de uma médica residente em Medicina de Família e Comunidade (MFC) acerca da realização de reuniões de equipe como estratégia de coordenação do cuidado em uma Unidade de Saúde da Família (USF) em Anápolis, Goiás. Trata-se de um estudo qualitativo do tipo relato de experiência, fundamentado na vivência de reuniões mensais iniciadas em março de 2024. Os instrumentos de coleta incluíram a observação participante e a pesquisa documental em livros-ata e no sistema de prontuário eletrônico municipal – Celk Saúde©. Os resultados demonstram que as reuniões favoreceram a integração multiprofissional e a construção coletiva de planos de cuidado. A participação ativa das Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) qualificou o diagnóstico do território e a busca ativa. Conclui-se que a reunião de equipe é uma ferramenta fundamental para a organização do processo de trabalho, fortalecendo o planejamento ascendente e consolidando a USF como cenário estratégico de formação em serviço.

Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Estratégia Saúde da Família; Processo de Trabalho em Saúde; Residência Médica.

ABSTRACT

Primary Health Care (PHC) is the preferred gateway and communication center of the Unified Health System (SUS), with the Family Health Strategy (FHS) as its priority organizational model. To operationalize the guidelines for care coordination and integrality, team meetings emerge as an indispensable tool for local planning and Permanent Education in Health (PEH). The objective of this study is to report the experience of a Family and Community Medicine resident regarding the implementation of team meetings as a care coordination strategy in a Family Health Unit in Anápolis, Goiás. This is a qualitative study, specifically an experience report, based on monthly meetings that began in March 2024. Data collection instruments included participant observation and documentary research in minute books and in the municipal electronic medical record system Celk Saúde©. The results demonstrate that the meetings favored multiprofessional integration and the collective construction of care plans, especially in complex cases of mental health and chronic conditions. The active participation of Community Health Agents (CHA) enhanced territory diagnosis and active screening. It is concluded that the team meeting is a fundamental tool for work process organization, strengthening bottom-up planning and consolidating the health unit as a strategic setting for in-service training.

Keywords: Primary Health Care; Family Health Strategy; Healthcare Work Process; Internship and Residency.

1 INTRODUÇÃO

A Atenção Primária à Saúde (APS), também denominada Atenção Básica (AB), constitui a porta de entrada preferencial e o centro de comunicação do Sistema Único de Saúde (SUS) e das Redes de Atenção à Saúde (RAS), sendo orientada pela Política Nacional de Atenção Básica (PNAB). Nesse contexto, a Estratégia Saúde da Família (ESF) configura-se como o modelo prioritário de organização e implementação desse nível de atenção no Brasil¹. Para atuação desse modelo, a PNAB prevê diversos arranjos de equipes, adotados de acordo com a realidade local e necessidade da população observada. Entre as equipes previstas, está a equipe de Saúde da Família (eSF), que conta minimamente com médico, enfermeiro, auxiliar ou técnico de enfermagem e Agente Comunitário de Saúde (ACS). Adicionalmente, podem estar vinculadas à eSF, Agente de Combate às Endemias (ACE), equipe de Saúde Bucal (eSB) e equipes multiprofissionais (eMulti).

No âmbito da AB, são desenvolvidas ações de promoção, prevenção, proteção, diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos, cuidados paliativos e vigilância em saúde, que devem estar alinhadas aos princípios doutrinários do SUS e às diretrizes que orientam a organização da APS1. Entre essas diretrizes, destacam-se a territorialização, a longitudinalidade, a coordenação do cuidado e a resolutividade, que buscam garantir o mapeamento de necessidades em saúde, a construção de vínculo, a ordenação da rede para promoção da integralidade e a eficácia do cuidado.

A operacionalização desses preceitos no cotidiano das unidades exige ferramentas de gestão e organização do trabalho eficazes. Nesse cenário, a reunião de equipe emerge como um dispositivo indispensável para o planejamento local, permitindo que o conjunto de profissionais avalie as ações desenvolvidas, discutam casos complexos e planejem intervenções baseadas nas necessidades reais da população adscrita. Esses encontros periódicos favorecem a integração entre as diferentes categorias profissionais, qualificam o cuidado centrado na pessoa e fortalecem a coordenação do cuidado.

Além disso, as reuniões de equipe constituem um espaço privilegiado de Educação Permanente em Saúde (EPS), no qual os processos de ensinar e aprender se incorporam ao cotidiano do trabalho, ampliando a capacidade da equipe de responder aos desafios sanitários e sociais do território².

Assim, considerando o papel da reunião de equipe no processo de trabalho das eSFs, este estudo relata a experiência de uma equipe da ESF na realização regular de reuniões compostas pelos profissionais responsáveis pelo território, sob a perspectiva de uma médica residente em Medicina de Família e Comunidade (MFC), cujo cenário é o município de Anápolis, no estado de Goiás.

2 OBJETIVOS

O objetivo geral do estudo é relatar a experiência de uma residente em MFC acerca da realização de reuniões de equipe como estratégia de coordenação do cuidado na ESF. Esse relato será abordado por meio de objetivos específicos, como descrever a organização e a dinâmica das reuniões de equipe, analisar o papel das reuniões de equipe na coordenação do cuidado e na articulação entre os profissionais da equipe, refletir sobre os impactos das reuniões de equipe na integralidade e na resolutividade do cuidado prestado à população adscrita, identificar desafios e potencialidades da realização regular de reuniões de equipe no cotidiano da ESF.

3 MATERIAIS E MÉTODO(S)

Este estudo caracteriza-se como um estudo qualitativo do tipo relato de experiência. Baseia-se na vivência das reuniões programadas e na percepção da equipe e da autora, utilizando a análise e a inserção no campo como instrumentos de estudo. O local do qual se oriunda o relato trata-se de uma USF localizada no município de Anápolis, estado de Goiás, na qual se desenvolvem atividades do Programa de Residência Médica em MFC, sendo as USFs cenário reconhecido pela PNAB como potencial espaço de educação, formação e ensino em serviço¹.

A USF opera de segunda a sexta-feira, contando com quatro eSFs. Cada equipe possui composição completa, integrando médico, enfermeiro, técnico de enfermagem e odontólogo, auxiliar de saúde bucal e ACS, conforme as diretrizes preconizam¹. As reuniões, com periodicidade mensal iniciadas em março de 2024, contavam com a participação ativa de uma médica residente em MFC, além de uma enfermeira, um técnico de enfermagem, um odontólogo, uma auxiliar de saúde bucal e cinco ACSs e tinham como duração o período de uma hora.

Todos os encontros foram registrados em um livro-ata e no sistema de prontuário eletrônico local. Nos registros, eram pactuados os objetivos, as dificuldades, as estratégias para o alcance de metas e discussão de casos complexos.

Para a coleta de informações e análise da experiência, utilizaram-se como dispositivos a observação participante, dada pela percepção da residente ao longo dos encontros e das mudanças nas práticas de cuidado, e a pesquisa documental, por meio do estudo sistemático dos registros das reuniões.

4 RESULTADOS

As reuniões de equipe ocorreram com periodicidade mensal, com bloqueio prévio nas agendas e pactuação entre os profissionais, sendo realizadas no auditório da USF. Participavam dos encontros a médica residente em MFC, a enfermeira, o técnico de enfermagem, o odontólogo, a auxiliar de saúde bucal e as ACSs responsáveis pelo território. A condução das reuniões era realizada de forma compartilhada, com definição prévia de pauta, contemplando a avaliação das ações desenvolvidas no mês anterior, o planejamento das atividades subsequentes e a discussão de demandas emergentes do território. Os encontros eram registrados em livro-ata e no prontuário eletrônico, possibilitando o acompanhamento das decisões pactuadas e das ações propostas.

Observou-se que as reuniões de equipe favoreceram a coordenação do cuidado ao possibilitar a construção coletiva de planos de cuidado, especialmente em situações que demandavam acompanhamento longitudinal e atuação multiprofissional. A troca sistemática de informações entre os profissionais permitiu maior alinhamento das condutas e melhor articulação entre as ações clínicas, de vigilância em saúde e de promoção da saúde. A participação ativa das ACSs contribuiu para qualificar a compreensão das necessidades da população adscrita, ao trazerem informações do território e do contexto familiar e social dos usuários, ampliando a capacidade da equipe de planejar intervenções mais adequadas à realidade local. Além disso, a atuação das ACSs favoreceu a aproximação entre equipe e usuários, por meio da busca ativa e da comunicação direta, reduzindo barreiras no acesso ao cuidado.

A dinâmica dos encontros permitiu a incorporação de tecnologias de gestão da clínica, entendidas como ferramentas de microgestão voltadas à promoção da qualidade assistencial. Entre esses dispositivos, destacou-se a construção de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) para usuários em situações de maior complexidade ou vulnerabilidade social. A análise coletiva desses casos favoreceu a definição de estratégias compartilhadas de cuidado, evitando condutas fragmentadas e fortalecendo a integralidade da atenção. Complementarmente, a equipe sistematizou o uso de planilhas de vigilância em saúde e o monitoramento de indicadores, transformando a coleta sistemática de dados em subsídio para o planejamento de ações preventivas, redefinição de fluxos internos, pactuação de responsabilidades e realização de busca ativa no território. O uso dessas tecnologias facilitou a organização das linhas de cuidado prioritárias e fortaleceu a capacidade resolutiva da equipe frente aos problemas identificados.

Ao longo do período analisado, percebeu-se o fortalecimento do trabalho em equipe, com maior integração entre as diferentes categorias profissionais. Os encontros favoreceram o compartilhamento de conhecimentos, a escuta qualificada e a corresponsabilização pelo cuidado, refletindo positivamente na organização do processo de trabalho da unidade e na oferta de cuidado integral à saúde. Além disso, as reuniões possibilitaram a análise de dados assistenciais e de indicadores pactuados, subsidiando a tomada de decisões, o redirecionamento das ações no território e o planejamento local em saúde.

As sessões também se consolidaram como espaço de EPS, ao promoverem reflexões críticas sobre a prática cotidiana e a atualização de conhecimentos a partir das situações vivenciadas no território. O processo de ensinar e aprender mostrou-se integrado ao trabalho, fortalecendo a autonomia profissional e ampliando a capacidade da equipe de responder aos desafios sanitários, sociais e assistenciais da população adscrita.

5 DISCUSSÃO

5.1 A Reunião de Equipe como Dispositivo de Planejamento Local

Os resultados demonstram que as reuniões mensais na Unidade de Saúde da Família (USF) de Anápolis funcionam como um dispositivo indispensável para o planejamento local, ao possibilitarem a organização e estruturação do processo de trabalho. A literatura reforça que a reunião de equipe é uma atribuição comum a todos os profissionais, visando a avaliação sistemática das ações a partir de dados disponíveis e da realidade do território. A prática de manter um livro-ata e registros em plataforma digital (Celk Saúde©) é fundamental, uma vez que tais instrumentos preservam as decisões e pactuações, garantindo a memória institucional e servindo de respaldo para os profissionais em situações de dúvidas ou necessidade de reavaliação. Esse processo caracteriza o planejamento ascendente, onde a programação dos serviços parte das necessidades reais da população adscrita, fortalecendo a capacidade da equipe de responder de forma adequada às demandas do território¹.

5.2 Educação Permanente em Saúde (EPS) e Transformação das Práticas

A consolidação das reuniões como espaço de educação contínua corrobora a definição do Ministério da Saúde, que entende a EPS como a aprendizagem que se desenvolve no trabalho, na qual os processos de ensinar e aprender se incorporam ao cotidiano das organizações¹,². A reflexão crítica sobre os casos complexos, bem como sobre as dificuldades enfrentadas no território, permite a aprendizagem significativa, capaz de transformar as práticas profissionais e a gestão do cuidado1,2. Ao promover esses encontros, a equipe supera o modelo tradicional de gestão verticalizada, migrando para relações horizontais que ampliam a autonomia, o protagonismo e o compromisso dos trabalhadores com o cuidado prestado1. Dessa forma, as reuniões de equipe assumem papel central na qualificação do processo de trabalho e no fortalecimento da cultura de educação em serviço na Atenção Primária à Saúde (APS).

5.3 Interprofissionalidade e Coordenação do Cuidado

A participação ativa de diferentes categorias, especialmente das ACSs, evidencia a relevância do trabalho em equipe multiprofissional para a coordenação do cuidado. As ACSs constituem o principal vínculo entre a comunidade e o serviço de saúde, trazendo informações fundamentais sobre o território e os determinantes sociais que influenciam o processo saúde- doença, subsidiando o diagnóstico local e o planejamento das ações¹. Essa integração de conhecimentos facilita a implementação da clínica ampliada, permitindo intervenções mais efetivas, humanizadas e centradas na pessoa, e não apenas na doença1. Tal articulação é essencial para que a AB cumpra seu papel de ordenadora das RASs e de centro de comunicação entre os diferentes pontos de atenção, conforme preconizado pelas diretrizes do SUS1,2.

5.4 O Papel da Residência em Medicina de Família e Comunidade (MFC)

A inserção da médica residente como elemento estratégico na condução das reuniões reafirma a USF como um potencial espaço de educação, formação e ensino em serviço1. A residência médica é reconhecida como uma estratégia de reorientação do modelo assistencial, beneficiando tanto o profissional em formação quanto a população, que passa a contar com cuidados mais qualificados e sintonizados com os princípios do SUS1. A experiência relatada demonstra que a presença da residente favorece a incorporação de novas tecnologias de gestão e cuidado, estimula a reflexão crítica sobre o processo de trabalho e fortalece a resolutividade da equipe. Assim, a residência em MFC mostra-se potente não apenas como dispositivo formativo, mas também como indutora de mudanças positivas na organização do cuidado na APS¹.

6 CONCLUSÕES

O presente relato de experiência evidencia que a reunião de equipe configura-se como um dispositivo fundamental para a organização do processo de trabalho na ESF, contribuindo de forma significativa para o planejamento local em saúde, a EPS e a coordenação do cuidado na AB. A realização regular desses encontros possibilita a construção coletiva de decisões, o aumento dos indicadores de qualidade do serviço, o alinhamento das ações desenvolvidas no território e a qualificação das práticas assistenciais, em consonância com os princípios e diretrizes do SUS1.

A experiência demonstra que a estruturação das reuniões, com participação multiprofissional e utilização de instrumentos de registro, fortalece o planejamento ascendente, permitindo que as intervenções sejam orientadas pelas necessidades reais da população adscrita1. Ademais, os encontros favorecem a integração entre os profissionais, a discussão de casos complexos e o acompanhamento das linhas de cuidado prioritárias, promovendo maior resolutividade e integralidade do cuidado prestado.

Destaca-se, ainda, o papel das reuniões como espaço privilegiado de EPS, ao incorporar a reflexão crítica e a troca de saberes ao cotidiano do trabalho, potencializando o desenvolvimento profissional e a melhoria contínua do cuidado¹. A atuação das ACSs mostra-se essencial para a qualificação do planejamento e da coordenação do cuidado, ao aproximar a equipe da realidade social e territorial dos usuários.

Por fim, a inserção da médica residente em MFC reafirma a USF como cenário estratégico de formação em serviço, evidenciando a potência da residência médica como indutora de mudanças positivas na organização do cuidado e na consolidação dos atributos da APS1. Assim, reforça-se a relevância das reuniões de equipe como ferramenta indispensável para a qualificação da atenção à saúde e para o fortalecimento da ESF.

REFERÊNCIAS

1. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prt2436_22_09_2017.ht ml. Acesso em: 13 dez. 2025.

2. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Política Nacional de Educação Permanente em Saúde: o que se tem produzido para o seu fortalecimento? 1. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_educacao_perm anente_saude_fortalecimento.pdf. Acesso em: 13 dez. 2025.

3. MACEDO, Jessica Fernanda Souza de; OLIVEIRA, Philipp Rosa de. Potencialidades da reunião de equipe no território: um relato de experiência de uma residente de Medicina de Família e Comunidade no Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, v. 18, n. 45, p. 3878, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.5712/rbmfc18(45)3878. Acesso em: 20 dez. 2025.

4. VOLTOLINI, Bruna Carla et al. Reuniões da estratégia saúde da família: um dispositivo indispensável para o planejamento local. Texto & Contexto – Enfermagem, v. 28, e20170477, 2019. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1980-265X-TCE-2017-0477. Acesso em: 22 dez. 2025.


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