REPERCUSSÃO DA PANDEMIA DA COVID-19 NO DIAGNÓSTICO DOS PRINCIPAIS TIPOS HISTOLÓGICOS DO CÂNCER DE COLO UTERINO NOS ANOS DE 2019 A 2021 NA CIDADE DE ARAGUAÍNA – TOCANTINS

REPERCUSSION OF THE COVID-19 PANDEMIC ON THE DIAGNOSIS OF THE MAIN HISTOLOGICAL TYPES OF CERVICAL CANCER IN THE YEARS 2019 TO 2021 IN THE CITY OF ARAGUAÍNA – TOCANTINS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202510170740


Ana Clara Filatier; Victor Eduardo Carvalho Sousa; Ana Carolina Ribeiro Goulart; Reinaldo Bernardino Teixeira Guimarães; Flávio Júnior Soares Godoi; Lucas Monteiro Leite; Marília Silva do Couto; Beatriz Vieira Rodrigues; Maria Eduarda Barros Exaltação; Victor Hugo Caetano de Morais; Macilon Nonato Irene


RESUMO

Objetivos: verificar o impacto da pandemia da COVID-19 no diagnóstico de CA de colo de útero e alterações na quantidade de exames histopatológicos realizados nos anos de 2019 a 2020 na cidade de Araguaína-Tocantins. Métodos: estudo epidemiológico transversal, descritivo e quantitativo acerca dos números registrados de câncer de colo uterino na cidade de Araguaína – Tocantins no período de 2019 a 2021 da pandemia de COVID-19.  A coleta de dados foi realizada em abril de 2022, através do INCA e DATASUS. As variáveis analisadas de inclusão foram: número de novos casos por ano e tipo histológico de neoplasia maligna (carcinoma epidermóide e adenocarcinoma). Resultados: entre o período de 2019 a 2021 houve uma queda de 33,5% no número de exames histopatológicos realizados na cidade de Araguaína-TO, em contrapartida, ocorreu uma importante diminuição dos números registrados de lesões severas de colo uterino (NIC III) durante o mesmo período. Se tratando dos subtipos histológicos, houve apenas um caso de cada tipo de adenocarcinoma e uma queda de 75% do tipo epidermóide invasivo em comparação a época antes da pandemia. Conclusão: percebe-se, portanto, que a disseminação da COVID-19 alterou os cuidados a saúde e diagnóstico de câncer de útero na população Araguainense. 

Palavras-chave: Estudo Epidemiológico. Câncer. Colo Uterino. 

ABSTRACT

Objectives: to verify the impact of the COVID-19 pandemic on the diagnosis of cervical cancer and changes in the number of histopathological exams performed in the years 2019 to 2020 in the city of Araguaína-Tocantins. Methods: cross-sectional, descriptive and quantitative epidemiological study about the registered numbers of cervical cancer in the city of Araguaína – Tocantins in the period from 2019 to 2021 of the COVID-19 pandemic. Data collection was carried out in April 2022, through INCA and DATASUS. The analyzed inclusion variables were: number of new cases per year and histological type of malignant neoplasm (squamous cell carcinoma and adenocarcinoma). Results: between the period from 2019 to 2021, there was a 33.5% drop in the number of histopathological exams performed in the city of Araguaína-TO, on the other hand, there was a significant decrease in the recorded numbers of severe lesions of the uterine cervix (NIC III) during the same period. When it comes to histological subtypes, there was only one case of each type of adenocarcinoma and a 75% drop in the invasive epidermoid type compared to the time before the pandemic. Conclusion: it is clear, therefore, that the spread of COVID-19 changed health care and diagnosis of uterine cancer in the Araguainense population.

Keywords: Epidemiological Study. Cancer. Cervix. 

INTRODUÇÃO

O câncer de colo uterino é considerado um problema de saúde pública que compromete a saúde das mulheres, modificando a qualidade de vida em um momento que, muitas vezes, estão organizando sua vida profissional, social e familiar. Quando diagnosticado na fase inicial, as chances de cura chegam a 100% e existem evidências que comprovam formas fáceis e eficazes para o rastreamento desse tipo de câncer, bem como processos para a detecção das lesões precursoras (SOARES et. al, 2011)

As transformações sociais e econômicas ocorridas nos últimos anos causaram importantes mudanças no perfil de morbimortalidade da população brasileira, sobretudo no contexto da COVID – 19, em virtude da mudança no panorama de prevenção e rastreio no público mais afetado (THULER LCS et. al, 2012). 

No mundo, o câncer de colo do útero é o segundo mais comum entre mulheres e a maior causa de morbidade e mortalidade, com cerca de 500 mil novos casos por ano. Quase 80% desses casos ocorrem em países em desenvolvimento e em populações com pior condição socioeconômica (MULLER EV et. al, 2011). No Brasil, o câncer de colo de útero é o terceiro tumor com maior prevalência na população feminina e como quarta causa de morte em mulheres por câncer no Brasil, segundo a base de dados do Instituto Nacional do Câncer. No Tocantins, ocupa o primeiro lugar como tumor mais comum entre as mulheres (INCA, 2020). 

Um relevante fator de risco para o desenvolvimento do câncer uterino é a infecção pelo papiloma vírus humano, uma infecção sexualmente transmissível, pois está ligeiramente associado aos casos de lesão precursora dessa patologia. A infecção genital por esse vírus é muito frequente e não causa doença na maioria das vezes. Contudo, em alguns casos, em associação com outros fatores de risco como o tabagismo, multiplicidade de parceiros sexuais, multiparidade, uso de contraceptivos orais, baixa ingestão de vitaminas, início sexual precoce  ou  coinfecção  por  agentes  infecciosos  como  o  Vírus  da  Imunodeficiência  Humana (HIV) e Chlamydia Trachomatis, ocorrem alterações celulares que podem evoluir para o câncer (SOUZA; COSTA, 2015). A faixa etária mais afetada é 30-50 anos (INCA, 2020). A relação com a condição socioeconômica condiz com as dificuldades de acesso aos serviços de saúde, traçando perfis de morbimortalidade evitáveis que culminam com a iniquidade em saúde. 

Para o rastreamento do câncer de colo uterino, o Ministério da Saúde preconiza a realização do exame citopatológico do colo do útero (Papanicolau), em mulheres na faixa etária de 25 a 64 anos, anualmente no início e, após dois exames consecutivos negativos, a cada três anos. Essa faixa etária atende interesses da gestão em saúde pública e está em concordância com a baixa incidência de lesões precursoras nas pacientes mais jovens, assim como na evolução lenta da neoplasia conforme observado na sua história natural (SILVA et. al, 2021).

Se tratando de prevenção do câncer de colo uterino, a vacina Quadrivalente para o HPV foi adotada em 2006 pelo Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde como estratégia por oferecer proteção contra os vírus oncogênicos responsáveis por 70% dos cânceres cervicais. O intuito é atingir uma cobertura de 80% da população feminina na faixa etária de 9 a 14 anos e masculina na faixa etária de 11 a 14 anos (SILVA, et. al, 2021).

Nesse sentido, levando em conta a realidade do problema na Região Norte e, em particular, no Estado do Tocantins, este estudo tem como objetivo verificar o impacto da pandemia da COVID 19 no diagnóstico de CA de colo de útero e alterações na quantidade de exames histopatológicos que foram realizados nos anos de 2019 a 2021 na cidade de Araguaína-Tocantins.

REFERENCIAL TEÓRICO

O conceito de Neoplasia Intraepitelial Cervical (NIC) foi introduzido em 1968 por Richart, quando sugeriu o potencial de avanço de todas as displasias, divididas em NIC I, NIC II e NIC III. A maioria das lesões NIC 1 e algumas NIC II não tratadas regridem espontaneamente; no entanto, se a lesão NIC de alto grau não receber tratamento, pode avançar para carcinoma invasor. A evolução da infecção pelo HPV para o câncer de colo de útero envolve quatro passos: infecção do epitélio metaplásico da zona de transformação cervical, persistência da infecção viral, progressão do epitélio persistentemente infectado a pré-câncer cervical, invasão através da membrana basal do epitélio. O câncer de colo de útero tem histologia epidermóide em 70 a 90% dos casos, enquanto os adenocarcinoma, originados das células colunares endocervicais, ocorrem em cerca de 25% dos casos. Os sinais e sintomas clínicos geralmente são escassos, o que dificulta o diagnóstico da patologia nas fases iniciais. 

METODOLOGIA

Realizou-se um estudo epidemiológico transversal, descritivo e quantitativo acerca dos números registrados de câncer de colo de útero na cidade de Araguaína – Tocantins no período de 2019 a 2021 da pandemia da Covid-19.  A coleta de dados foi realizada em abril de 2022, através do INCA (Instituto Nacional de Câncer), base de dados do Ministério da Saúde, disponível no endereço https://www.inca.gov.br/ e no DATASUS, disponível no endereço https://datasus.saude.gov.br, os quais são de domínio público. As variáveis analisadas de inclusão foram: número de novos casos por ano e tipo histológico de neoplasia maligna (carcinoma epidermóide e adenocarcinoma). Para os critérios de exclusão, foram desconsiderados a ocorrência de mais de um tumor, faixa etária, ocupação, consumo de drogas lícitas e ilícitas e história familiar de câncer benigno. 

RESULTADOS

Durante o período analisado, 235 exames histopatológicos foram registrados na cidade de Araguaína -TO, sendo que destes, 34% (80) ocorreram durante o ano de 2019, seguido de 36% (85) no ano de 2020. O ano de 2021 foi o ano com menor quantidade de exames registrados, representando apenas 30% (70) dos registros conforme mostra a tabela 1.

Tabela 1. Número de exames histopatológicos realizados no SUS (2019-2021).

Fonte: Dados do DATASUS (2020).

Figura 1. Número de exames histopatológicos realizados no SUS (2019-2021).

Fonte: Dados do DATASUS (2020).

Ao analisar os dados de acordo com o tipo de lesão (tabela 2), observa-se que o número registrado de lesões mais severas (NIC III), diminuíram no período abordado, ao contrário do número de lesões mais leves (NIC 1), a qual sofre um aumento de mais de 100% no ano de 2021.

Tabela 2. Número de exames conforme o tipo de lesão (2019-2021).

Fonte: Dados do DATASUS (2020).

Na tabela 3, ao analisar o subtipo histológico maligno mais comum do câncer de colo uterino, é possível observar apenas 2 casos registrados do tipo epidermóide microinvasivo, enquanto o tipo epidermóide invasivo apresenta 8 registros, sendo a metade em 2019, ano anterior ao início da pandemia da COVID-19 do Brasil.  

Tabela 3. Número de casos registrados por tipo histológico epidermóide (2019-2021).

Fonte: Dados do DATASUS (2020).

Figura 2. Número de casos registrados por tipo histológico epidermóide (2019-2021).

Fonte: Dados do DATASUS (2020).

Na tabela 4, em consonância com os tipos histológicos mais comuns, é possível analisar a quantidade de casos registrados dos dois tipos de adenocarcinoma. Foi registrado apenas um caso de cada tipo no ano de 2019.

Tabela 4. Número de casos registrados por tipo histológico adenocarcinoma (2019-2021).

Fonte: Dados do DATASUS (2020).

DISCUSSÃO

A pandemia da Covid – 19 afetou direto e indiretamente diversos setores da sociedade, em várias esferas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostraram a correlação entre os níveis de interrupção dos serviços eletivos de doenças não COVID-19 e a evolução da pandemia de coronavírus. Tais serviços são interrompidos à medida que um país passa de casos esporádicos para transmissão comunitária do COVID-19 (INCA, 2020).  

Este panorama foi a realidade brasileira em grande parte da pandemia, pois o número de casos da COVID-19 cresceu de forma acelerada desde o primeiro caso, em fevereiro de 2020. O país foi considerado epicentro da pandemia um mês depois, além de as metrópoles terem permanecido em quarentena até meados de 2021 (INCA, 2022). 

Este cenário conduziu esforços para o controle da infecção, orientados pelo Ministério da Saúde, de forma a mudar as prioridades em todos os níveis de atenção à saúde, realocar recursos e interromper os serviços considerados não emergenciais. Além do impacto da pandemia em si, a procura pelos serviços de saúde torna-se de menor prioridade, a fim de evitar a contaminação. Nesse sentido, alguns órgãos de saúde como o Conselho Federal de Medicina e a Agência Nacional de Saúde pronunciaram-se aconselhando que consultas, exames e procedimentos que não possuíssem caráter de urgência, fossem postergados (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2021).

CONCLUSÃO

A pandemia por COVID-19 impactou o programa de rastreamento e diagnóstico de câncer do colo do útero no Brasil, uma vez que houve diminuição de 46,5% dos exames citopatológicos, de 33,5% dos exames histopatológicos, de 25% no diagnóstico de câncer do colo do útero e de 35% no diagnóstico de NIC II em histopatológico entre os anos 2019 e 2020 no Brasil. Contudo, o que ficou evidenciado nos dados relatados anteriormente foi um aumento de 6,25% do número de exames histopatológicos realizados em 2020 em relação ao ano de 2019 na cidade de Araguaína, o que contraria as expectativas no âmbito da pandemia. Em 2021, houve uma queda de 12,5% no número de exames realizados em relação ao período da pré-pandemia em 2019. Em relação a neoplasia intraepitelial cervical (NIC) nos exames histopatológicos, foi observada uma queda de 50% nos casos registrados de NIC III em 2021 e um aumento de 87,5% de NIC I no mesmo período observado. Se tratando dos subtipos histológicos, os dados registrados são pouco conclusivos, com apenas um caso de cada tipo de adenocarcinoma e uma queda de 75% do tipo epidermóide invasivo em comparação a época antes da pandemia. 

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