CASE REPORT: ENDODONTIC TREATMENT IN PATIENT WITH OSTEOGENESIS IMPERFECTA.
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202508072345
Ana Beatriz Corá De Oliveira1; Beatriz Aparecida De Oliveira1; Gabriela Palhano De Souza1; Laura Camilly Vilaça1; Profª. Dra. Simone Barone Salgado Marques2
RESUMO
A osteogênese imperfeita (OI) é uma doença genética rara caracterizada por mutações nos genes responsáveis pela produção do colágeno tipo I, resultando em fragilidade óssea e manifestações sistêmicas variadas, inclusive na cavidade bucal. Dentre as alterações orais, destacam-se a dentinogênese imperfeita, hipoplasia do esmalte e maior risco de fraturas dentárias, o que torna o tratamento endodôntico mais complexo. Este trabalho tem como objetivo relatar o caso clínico de três irmãos diagnosticados com OI tipo I, com foco na abordagem endodôntica de um deles, do sexo masculino, 10 anos, que apresentava fístula entre os elementos 21 e 22 após trauma leve. O tratamento envolveu abertura coronária, drenagem do exsudato, antibioticoterapia, instrumentação manual e uso de hidróxido de cálcio como medicação intracanal, seguido de obturação com cimento endodôntico Selaplex®. A resposta clínica foi satisfatória, com regressão da fístula e estabilização dos elementos. O caso evidencia que, apesar dos desafios impostos pelas alterações anatômicas e estruturais causadas pela OI, é possível alcançar bons resultados no tratamento endodôntico por meio de planejamento individualizado, seleção criteriosa de materiais e acompanhamento rigoroso.
Palavras-chave: osteogênese imperfeita; dentinogênese imperfeita; tratamento endodôntico; caso clínico; colágeno tipo I.
ABSTRACT
Osteogenesis imperfecta (OI) is a rare genetic disorder caused by mutations in the genes responsible for the production of type I collagen, leading to bone fragility and various systemic manifestations, including oral alterations. Among the dental findings, dentinogenesis imperfecta, enamel hypoplasia, and an increased risk of dental fractures are commonly observed, making endodontic treatment more complex. This study aims to report the clinical case of three siblings diagnosed with type I OI, focusing on the endodontic management of a 10-year-old male patient presenting with a fistula between teeth 21 and 22 after a minor trauma. Treatment included coronal access, drainage of purulent exudate, antibiotic therapy, manual instrumentation, and calcium hydroxide as intracanal medication, followed by obturation with cimento endodôntico Selaplex®. The clinical outcome was satisfactory, with fistula regression and stabilization of the affected teeth. This case highlights that, despite the anatomical and structural challenges imposed by OI, successful endodontic outcomes are achievable through individualized planning, careful selection of materials, and close clinical monitoring.
Keywords: osteogenesis imperfecta; dentinogenesis imperfecta; endodontic treatment; case report; type I collagen.
INTRODUÇÃO
A osteogênese imperfeita (OI), também conhecida como “doença dos ossos de vidro”, é uma condição genética rara que se caracteriza por mutações nos genes COL1A1 e COL1A2, responsáveis pela produção do colágeno tipo I, proteína essencial para a integridade do tecido ósseo. (MARINI et al., 2006). Como consequência, há fragilidade esquelética e múltiplos comprometimentos sistêmicos, incluindo manifestações na cavidade bucal. De acordo com a classificação de Sillence (SILLENCE, 1979), a OI divide-se inicialmente em quatro tipos: Tipo I: forma mais leve e comum, de transmissão autossómica dominante. Apresenta clinicamente: fraturas leves na infância, que diminuem após a puberdade, estatura geralmente normal ou levemente reduzida, escleras azuladas, dentinogênese imperfeita ausente ou leve; Tipo II: forma mais grave, geralmente letal no período intrauterino, com herança recessiva. Com ossos extremamente frágeis e malformados, escleras muito azuladas; Tipo III: severa, mas compatível com a vida, apresenta fraturas múltiplas e baixa estatura, com deformidades ósseas graves, escleras podem ser azuladas na infância e esbranquiçadas com o tempo. Apresenta dentinogênese imperfeita presente;
Tipo IV: forma moderada, com fraturas frequentes, mas menos graves que no tipo III, estatura baixa moderada, escleras geralmente normais ou discretamente azuladas e dentinogênese imperfeita possível.
Mais recentemente, foram identificados três novos tipos V, VI e VII com base em características clínicas do tipo IV. Apesar de também causarem fraturas, estas variantes são compatíveis com a sobrevivência, especialmente durante a infância. A prevalência da OI é estimada em 1/15.000 a 1/20.000 nascidos vivos, com o tipo I sendo responsável por cerca de 60% a 70% dos casos. (MENDES,2019)
Dentre as alterações bucais da OI, destacam-se a dentinogênese imperfeita, hipoplasias do esmalte e um maior risco de fraturas dentárias, o que torna o atendimento odontológico particularmente desafiador. No contexto endodôntico, pacientes com essa anomalia podem apresentar dentes frágeis, coloração anormal, alterações morfológicas nos canais radiculares, além de dentina friável, dificultando a instrumentação, irrigação e obturação. (PRADO et al., 2023).
A dentinogênese imperfeita (DI) é uma anormalidade do desenvolvimento dentário caracterizada por um traço autossômico dominante de expressividade variável. Essa condição afeta a dentina de ambas as dentições, decídua e permanente.
A classificação atual da DI, proposta por Shields et al. (1973), baseia-se em características clínicas e radiográficas. A DI é dividida em três tipos: tipo I, associada à osteogênese imperfeita (OI); tipo II, que se manifesta apenas nos dentes, também conhecida como Dentina Opalescente Hereditária; e tipo III, isolada em uma população com miscigenação de três tipos étnicos (caucasiano, negro e indígena americano), habitante do sul de Maryland, Estados Unidos, e denominada “Brandywine”. (SHIELDS; BIXLER; EL-KAFRAWY, 1973).
Diante dessas particularidades, torna-se crucial compreender como o tratamento endodôntico se comporta em pacientes diagnosticados com osteogênese imperfeita, considerando suas particularidades sistêmicas e estruturais ósseas.
O tratamento da osteogênese imperfeita (OI) frequentemente inclui o uso de bifosfonatos, especialmente o pamidronato dissódico, um medicamento de segunda geração. Esse fármaco atua inibindo a reabsorção óssea mediada pelos osteoclastos, promovendo aumento da densidade mineral óssea e, consequentemente, redução na frequência de fraturas. Além disso, o pamidronato tem demonstrado melhorar a dor óssea, a capacidade funcional e a qualidade de vida dos pacientes, principalmente em crianças submetidas a ciclos intravenosos do medicamento. Dessa forma, o pamidronato dissódico é atualmente uma das principais estratégias terapêuticas no manejo clínico da OI. (GLORIEUX et al., 1998) e (LAND et al., 2007). O presente trabalho tem como propósito relatar o caso de três irmãos que apresentam a alteração, descrevendo as características clínicas e radiográficas dos dentes afetados e o tratamento odontológico realizado.
CASO CLÍNICO
Paciente do sexo masculino, 10 anos de idade, portador de osteogênese imperfeita tipo I, foi levado à clínica odontológica após os pais notarem a presença de uma fístula entre os elementos 21 e 22 (Figura 1), cerca de seis meses após sofrer uma “cabeçada” do irmão durante uma brincadeira. Inicialmente, o paciente não relatou dor nem apresentou sintomas evidentes.
Porém, com o tempo, a fístula tornou-se visível, sendo confirmada por meio de exame radiográfico (Figura 3). Observou-se ainda mobilidade no elemento 22.


Figura 3 – Radiografia periapical inicial. Exame periapical revelando rarefação óssea na
região apical do elemento 21, compatível com lesão inflamatória de origem endodôntica.
Fonte: Arquivo pessoal.
O diagnóstico de osteogênese imperfeita havia sido estabelecido anteriormente, com base no histórico familiar, uma vez que o pai do paciente também é portador da condição. Desde então, o paciente encontra-se em acompanhamento no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto – HC- FMRP/USP, realizando tratamento sistêmico com pamidronato dissódico administrado por viaintravenosa a cada seis meses, com o objetivo de reduzir a fragilidade óssea e prevenir fraturas. O tratamento com bifosfonatos já estava em curso antes do episódio de trauma relatado.
Na primeira sessão clínica odontológica, foi realizada a abertura coronária dos elementos 21 e 22, e constatou-se saída de pus através da fístula. Foi realizada drenagem ativa com auxílio de sonda exploradora e neutralização da secreção purulenta (Figura 4). Para medicação intracanal inicial, utilizou-se tricresol, embora a fístula tenha permanecido com dimensões visíveis. No entanto, houve alívio parcial da dor.

Foi prescrita antibioticoterapia com Clindamicina 600 mg a cada 8 horas e Metronidazol 250 mg, ambos por 7 dias. Como medida preventiva, recomendou-se o consumo frequente de iogurte natural para auxiliar na recomposição da microbiota intestinal.
Três dias após a abertura dos elementos e início da medicação, procedeu-se com a instrumentação manual até a lima tipo Kerr número 40. O curativo intracanal adotado foi o UltraCal®, renovado a cada 15 dias durante aproximadamente dois meses. Após regressão clínica da fístula e estabilização do quadro, realizou-se a obturação com cimento endodôntico Selaplex®.

O tratamento evoluiu de forma satisfatória, com remissão da fístula, alívio da sintomatologia dolorosa e estabilização dos elementos dentários envolvidos.
O atendimento clínico relatado neste estudo foi realizado pela cirurgiã-dentista Vivian Vilela Oliveira, inscrita no CRO-SP sob o número 105465, a qual gentilmente cedeu todos os dados clínicos e radiográficos utilizados neste trabalho. A profissional realizava seus atendimentos em sala própria alugada na Clínica Liz, localizada na cidade de Barretos – SP. Ressalta-se que uma das autoras deste trabalho possui parentesco direto com o paciente, o que permitiu o acesso autorizado às informações clínicas e à documentação fotográfica utilizada. Todos os dados e imagens foram fornecidos com consentimento livre e esclarecido, sem qualquer restrição ética ou legal quanto à sua utilização para fins acadêmicos e científicos.
DISCUSSÃO
O tratamento endodôntico em pacientes com osteogênese imperfeita apresenta desafios clínicos importantes, especialmente quando associado a infecções periapicais decorrentes de traumas. No caso relatado, o paciente com OI tipo I desenvolveu uma fístula ativa entre os elementos 21 e 22, apenas meses após um episódio de trauma leve, o q u e demonstra a fragilidade do tecido dentário nesses casos. Mesmo sem sinais iniciais de dor, a evolução tardia da lesão reforça a importância do acompanhamento prolongado.
De acordo com Kim et al. (2020), as alterações estruturais internas, como canais radiculares estreitos ou obliterados, são comuns em pacientes com OI, exigindo atenção redobrada na instrumentação e no planejamento do tratamento. No presente caso, foi possível conduzir a instrumentação até a lima Kerr 40, o que sugere uma anatomia relativamente preservada, compatível com o subtipo leve da condição. Ainda assim, a drenagem abundante de exsudato purulento exigiu intervenções sequenciais e uso de curativos eficazes.
A literatura apoia o uso do hidróxido de cálcio como medicação intracanal devido às suas propriedades antimicrobianas e capacidade de neutralizar resíduos inflamatórios (MEHTA et al., 2019). O UltraCal®, utilizado neste caso, foi trocado quinzenalmente, seguindo protocolos clínicos comuns para casos com fístula persistente. A persistência da fístula após a abertura inicial reforça a importância do controle químico e mecânico rigoroso do sistema de canais. Quanto à antibioticoterapia, a combinação de Clindamicina e Metronidazol é considerada eficaz no controle de infecções odontogênicas com envolvimento anaeróbio, especialmente em pacientes imunocomprometidos ou com histórico de doenças sistêmicas (COSTA et al., 2021). A prescrição foi bem tolerada pelo paciente, e medidas preventivas como o consumo de iogurte foram orientadas para evitar efeitos colaterais gastrointestinais.
No presente caso, o paciente já fazia uso de pamidronato dissódico antes do trauma, conforme protocolo do HC-FMRP/USP. Esse bifosfonato de segunda geração atua na inibição da reabsorção óssea, promovendo aumento da densidade mineral e redução do risco de fraturas, sendo fundamental no manejo clínico da OI.
Este relato destaca que, mesmo em pacientes com alterações genéticas como a OI, o tratamento endodôntico pode ser bem-sucedido, desde que baseado em planejamento cuidadoso, conhecimento das particularidades clínicas da condição e uso de recursos terapêuticos adequados.
CONCLUSÃO
O presente estudo demonstrou que o sucesso do tratamento endodôntico em pacientes com osteogênese imperfeita depende de um planejamento individualizado, aliado ao conhecimento das particularidades anatômicas e estruturais dos dentes acometidos. No caso apresentado, o uso prévio de pamidronato dissódico fármaco que contribui para o aumento da densidade óssea e redução de fraturas reforça a importância de considerar o quadro sistêmico no manejo clínico. A adoção de instrumentação manual, medicação intracanal eficaz e acompanhamento rigoroso permitiu a obtenção de um resultado satisfatório, mesmo diante das limitações impostas pela condição.
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1 Discentes do Curso Superior de Odontologia do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos– UNIFEB. e-mail: ana.boliveira@sou.unifeb.edu.br; beatriz.oliveira@sou.unifeb.edu.br; gabriela.souza@sou.unifeb.edu.br; laura.vilaca@sou.unifeb.edu.br.
2 Docente do Curso Superior de Odontologia do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos– UNIFEB. Mestre e doutora em Microbiologia (UNESP), Especialista em endodontia. e-mail: simone.marques@unifeb.edu.br
