RELAÇÃO ENTRE A EXPOSIÇÃO A NEUROTOXINAS COMUNS AO AMBIENTE NATURAL E O DESENVOLVIMENTO DE DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS EM POPULAÇÃO RESIDENTE EM ÁREA DE DEPÓSITO DE RESÍDUOS A CÉU ABERTO

RELATIONSHIP BETWEEN EXPOSURE TO COMMON ENVIRONMENTAL NEUROTOXINS IN A POPULATION LIVING IN AN OPEN-AIR WASTE DISPOSAL AREA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202510312002


Letícia I. Almeida; Missiane Trindade; Isabela V. Barbosa; Luan Felipo Botelho Souza; Aparício Carvalho Moraes; Alcione O. Dos Santos


RESUMO 

INTRODUÇÃO: O termo “neurotoxina” refere-se às toxinas que possuem potencial degradante  ao sistema nervoso, podendo levar a danos permanentes ou temporários em neurônios e  outras células nervosas. Essas substâncias podem ser encontradas em diversos ambientes e  devido ao seu potencial nocivo ao sistema nervoso, essas substâncias estão frequentemente  correlacionadas ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como a doença de  Parkinson, a doença de Alzheimer e a esclerose lateral amiotrófica (ELA) e outros danos  temporários como convulsões, paralisia e perda de memória. OBJETIVO: Avaliar a prevalência  de doenças neurodegenerativas em uma comunidade específica do município de Porto Velho  e correlacionar esses achados a presença de metais pesados anteriormente encontrados no  solo da comunidade. METODOLOGIA: A pesquisa foi realizada no Laboratório de  Biogeoquímica da UNIR, com análise geoquímica do solo via espectrometria de absorção  atômica e questionários sobre sintomas neurológicos na população. RESULTADOS: O solo da  comunidade de Vila Princesa apresentou níveis elevados de mercúrio total (0,2990 mg/kg),  acima do limite permitido (0,2800 mg/kg), e metais como Ni, Zn e Ti. O mercúrio pode  atravessar a barreira hematoencefálica, elevando o risco de doenças neurodegenerativas.  Altas concentrações de Zn, por exemplo, afetam a biodisponibilidade de ferro, contribuindo  para o surgimento de Parkinson. A população apresentou alta prevalência de Alzheimer, Parkinson, abortos e partos prematuros. CONCLUSÃO: Os achados sugerem correlação entre  contaminação do solo e doenças neurológicas, destacando a importância de monitoramento  ambiental e ações de mitigação. 

Palavras-chave: Neurotoxinas. Metais pesados. Neurodegeneração. Contaminação.

1. INTRODUÇÃO 

O termo “neurotoxina” refere-se às toxinas que possuem potencial degradante ao sistema  nervoso, podendo levar a danos permanentes ou temporários em neurônios e outras células  nervosas. Estas substâncias podem ser encontradas em diversos ambientes: água, ar,  produtos químicos industriais, pesticidas, drogas, venenos de animais e plantas, entre outros,  podendo agir de diferentes formas a depender de sua estrutura química e mecanismo de ação.  Devido ao seu potencial nocivo ao sistema nervoso, essas substâncias estão frequentemente  correlacionadas ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como a doença de  Parkinson, a doença de Alzheimer e a esclerose lateral amiotrófica (ELA) e outros danos  temporários como convulsões, paralisia e perda de memória. As neurotoxinas podem agir por  meio de diversos mecanismos (CHEN, 2022). 

No caso dos metais pesados, a sua ação como neurotoxinas depende de vários fatores,  incluindo a concentração, a duração da exposição e a suscetibilidade individual (SINGH R, et  al., 2024). Metais como mercúrio, chumbo, cádmio e arsênio possuem afinidade por certas  estruturas no cérebro, como neurônios e células gliais (LAPHEAR, 2022) (SILVA et al., 2021).  Esses metais podem penetrar no sistema nervoso central por meio de inalação, ingestão ou  absorção cutânea. Uma vez no cérebro, eles podem causar danos de várias maneiras, tais  como estresse oxidativo, disfunção mitocondrial, desregulação de neurotransmissores e  interferência na sinalização intracelular (SANTOS et al., 2022). 

No estado de Rondônia, as atividades extrativistas e garimpeiras são comuns como fontes de  renda. Essas atividades estão frequentemente associadas à deposição de neurotoxinas em  leitos fluviais, devido ao frequente emprego de mercúrio e cianeto para extração. Assim, a  bacia superior do Rio Madeira se tornou a segunda região produtora em garimpo de ouro mais  importante na Amazônia durante as últimas duas décadas do século XX. Esse contexto  contribuiu para a ocorrência de processos de bioacumulação e biomagnificação de mercúrio  (uma neurotoxina) (PINHEIRO et al., 2023) na biota aquática do rio, sendo este um dos  elementos que apresentam maior risco de danos à saúde humana associado principalmente  às lesões no sistema neurológico (ARAÚJO et al., 2022). Devido à relevância do Rio Madeira  como principal afluente na região, a área tem sido alvo de estudos intensos voltados para a  saúde da população. Pesquisas anteriores evidenciaram tais processos por meio da detecção  de elementos neurotóxicos (Al, As, Cd, Pb, Mn, Hg) em amostras de leite materno de lactantes  que residem nas margens do Rio Madeira. Além disso, foi confirmada a presença de  neurotoxinas em concentrações atípicas em diferentes áreas do rio (MOSCHEN &  GONÇALVES, 2020).

Próximo ao rio, há a existência de um lixão a céu aberto, desprovido de saneamento básico, o  que pode tornar o ambiente ainda mais vulnerável à presença de neurotoxinas (20). A  decomposição de grandes quantidades de resíduos no lixão pode gerar a liberação de gases  tóxicos e a contaminação do solo e da água por substâncias químicas, como o alumínio e  outros elementos presentes em baterias e equipamentos eletrônicos, que podem ser  descartados junto com o lixo comum, representando riscos à saúde dos trabalhadores locais  e dos residentes próximos (BELLINGER, 2022). 

A comunidade de Vila Princesa originou-se com catadores de lixo que colonizaram o local após  o declínio de alguns garimpos da região, devido à grande proximidade que a comunidade  possui ao Rio Madeira. O Rio Madeira tem extrema importância para o estado de Rondônia,  sendo um dos principais rios da região amazônica, desempenha papel fundamental na  economia do estado e proporciona condições para o transporte fluvial de mercadorias. No  entanto, a bacia superior do Rio Madeira foi a segunda mais importante região produtora de  ouro de garimpo na Amazônia durante as duas últimas décadas do século XX, o que contribuiu  para que hoje o rio apresente processos de bioacumulação e biomagnificação na biota  aquática, com grandes quantidades de mercúrio. Estudos posteriores evidenciam esses  processos por meio da presença de elementos neurotóxicos (Al, As, Cd, Pb, Mn, Hg) em  amostras de leite materno de lactantes que subsidiam as margens do Rio Madeira. 

Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivo realizar uma pesquisa de campo em  diferentes áreas de solo na região de Vila Princesa, uma comunidade localizada no município  de Porto Velho, onde adultos e crianças sobrevivem coletando materiais em um lixão. O  propósito é determinar a concentração de metais pesados (neurotoxinas) em áreas  específicas e avaliar os riscos para a saúde humana e o meio ambiente (RASHID et al., 2023).  Além disso, pretende-se analisar a vulnerabilidade da população diante dos resultados  obtidos, considerando que o sustento da comunidade depende diretamente da área  investigada. 

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA 

2.1 ASPECTOS GERAIS DE NEUROTOXINAS 

As substâncias neurotóxicas, em um sentido amplo, representam novas  estruturas químicas que, quando administradas in vivo ou in vitro, têm a capacidade de  ocasionar lesões neuronais ou neurodegeneração, com certo grau de especificidade  relacionado ao fenótipo neuronal ou às populações de neurônios com características  específicas (por exemplo, receptor, tipo de canal iônico, dependência de astrócitos,  entre outros). O termo mais abrangente “neurotóxico” engloba essa categorização, mas  também amplia a definição para incluir mediadores intra ou extracelulares envolvidos  no processo neurodegenerativo, como fatores necróticos e apoptóticos.  Adicionalmente, uma vez que os astrócitos são células satélites de suporte essenciais para os neurônios e o dano a essas células afeta a função neuronal, é justificável  estender o termo “neurotóxico” para englobar espécies químicas que também  prejudicam adversamente os astrócitos (AGUILAR et. al, 2004).

2.2 NEUROTOXINAS COMUNS AO AMBIENTE NATURAL 

Figura 1 – Substâncias químicas neurotóxicas comuns ao ambiente natural 

Fonte: Do próprio autor

2.3 NEUROTOXINAS E O DESENVOLVIMENTO E PROGRESSÃO DE DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS  

Patologias frequentes, como malformações congênitas, infarto do miocárdio,  neoplasias, transtornos neuropsiquiátricos, diabetes e doença de Alzheimer, resultam  em morbidade ou mortalidade prematura em aproximadamente dois terços dos  indivíduos afetados ao longo de suas vidas. Muitas dessas doenças têm uma tendência  a ocorrer em famílias, com casos que se agrupam entre parentes em uma proporção  maior do que na população em geral. No entanto, seu padrão de herança geralmente  não se enquadra nos padrões mendelianos. Isso ocorre porque essas doenças raramente  resultam exclusivamente da herança de um ou dois alelos de efeito significativo em um  único locus, como observado nos distúrbios mendelianos dominantes e recessivos. Acredita-se que interações complexas entre diversas variantes  genéticas, que modificam a suscetibilidade à doença, juntamente com exposições  ambientais específicas e possíveis eventos casuais, atuem em conjunto para  desencadear, acelerar ou proteger contra o processo da doença. Por essa razão, essas  condições são consideradas de origem multifatorial e são classificadas como complexas.  Nesse sentido, a exposição ambiental a neurotoxinas presentes no ambiente natural  como os metais pesados, pode, em muitos casos, acelerar ou desencadear o processo  da doença em indivíduos que já possuem uma predisposição genética a desenvolver  patologias do SNC (THOMPSON, 2014, 87-91).  

2.4 O MERCÚRIO COMO NEUROTOXINA  

O mercúrio é classificado em terceiro lugar pela Agência do Governo dos EUA  para Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças dentre os elementos ou substâncias  mais nocivos do planeta, juntamente com arsênico e chumbo, os quais continuam a ser  descarregados em nossos corpos hídricos e solo, lançados em nossa atmosfera e  consumidos por meio de nossa alimentação e água. As atividades antropogênicas  aumentaram quase três vezes a quantidade de mercúrio presente na atmosfera, e a  carga atmosférica está crescendo a uma taxa de 1,5% ao ano. A contaminação do solo  por mercúrio ou a redistribuição de água contaminada tem o potencial de adentrar a cadeia alimentar por meio de vegetais e animais. Uma vez inserido na cadeia alimentar,  o mercúrio pode se acumular biologicamente, resultando em efeitos adversos para a  saúde humana. O mercúrio ocorre naturalmente e também é um poluente  antropogênico. A emissão de mercúrio processado pode resultar em um aumento  contínuo da quantidade de mercúrio atmosférico, que entra nos ciclos de distribuição  atmosfera-solo-água, onde pode persistir por longos períodos. A intoxicação por  mercúrio é consequência da exposição ao mercúrio ou seus compostos, resultando em  diversos efeitos tóxicos, variando de acordo com sua forma química e via de exposição.  A principal via de exposição humana ao metilmercúrio (MeHg) ocorre  predominantemente por meio do consumo de peixes, frutos do mar e animais selvagens  contaminados, que foram expostos ao mercúrio por meio da ingestão de organismos  inferiores contaminados. A toxicidade do MeHg está associada a danos no sistema  nervoso em adultos e a comprometimento do desenvolvimento neurológico em bebês  e crianças. O mercúrio ingerido pode sofrer bioacumulação, resultando em incrementos  progressivos nas cargas corporais. O mercúrio apresenta efeitos tóxicos significativos em  nível celular, cardiovascular, hematológico, pulmonar, renal, imunológico, neurológico, endócrino,  reprodutivo e embrionário (RICE et. al, 2014). 

2.5 O CHUMBO COMO NEUROTOXINA  

Variadamente de outros metais, como ferro, zinco, cobalto, cromo, manganês e  cobre, o chumbo é um elemento completamente estranho ao metabolismo humano,  independentemente da quantidade. Trata-se de uma substância neurotóxica cuja  presença nos diferentes tecidos, a partir de uma concentração mínima (superior a 10  μg/dL), interfere em distintas atividades metabólicas, resultando em sinais e sintomas  da enfermidade denominada saturnismo ou intoxicação por chumbo. O chumbo, em  quantidades encontradas na natureza, não acarreta problemas para os seres humanos  (CARVALHO et al., 2017). Entretanto, sua utilização em larga escala em processos  industriais e a consequente liberação no ambiente fazem dele um dos principais  contaminantes ambientais do planeta. Esse metal passou a ser empregado em processos  industriais no século XVIII, o que ocasionou uma contaminação ambiental e intoxicação  humana em proporções significativas, a ponto de ser considerado, no final do século XIX,  uma epidemia nos países desenvolvidos. O sistema nervoso e o sistema digestivo são os  mais suscetíveis ao chumbo, e o hábito infantil de explorar o ambiente com a boca, comum na infância, pode aumentar as vias de exposição por meio  do solo, poeira doméstica e ar. Crianças podem ingerir 5 μg/dL por dia, sendo 1%  proveniente do solo, 7% da água, 75% da poeira e o restante de outras fontes.  Pesquisadores como Figueiredo, Capitani e Gitahy (2005) destacam que as brincadeiras  típicas dos meninos, que os levam mais para as ruas, podem aumentar a via de exposição  dessa população em relação às meninas. Estatísticas do Centro de Vigilância  Epidemiológica (CVE, 2002) indicam que aproximadamente 4% de todas as crianças do  mundo apresentam níveis elevados de chumbo no sangue. A ação do chumbo no  organismo, inibindo ou imitando o cálcio e interagindo com proteínas, resulta em  mecanismos de toxicidade que envolvem processos bioquímicos fundamentais,  afetando todos os órgãos e sistemas. Além disso, o chumbo também interfere no  metabolismo dos carboidratos, reduzindo a circulação de glicose no cérebro, que,  juntamente com o oxigênio, é a principal fonte de energia para os neurônios, podendo  gerar problemas na área percepto sensório-motora. Conforme relatado pelo CDC (1992),  a intoxicação por chumbo com níveis superiores a 10 μg/dL no sangue pode ocasionar  alterações neurocomportamentais em crianças, como déficits no desenvolvimento  psicológico, hiperatividade, atraso no desenvolvimento da linguagem e cognição (DESCANIO et al., 2015).  

2.6 DISTRIBUIÇÃO DO MERCÚRIO NA REGIÃO DE PORTO VELHO  

Estudos recentes acerca da distribuição do mercúrio (Hg) na região da bacia do  Rio Madeira revelam processos de acumulação biológica e magnificação trófica na fauna aquática, embora os níveis atuais, avaliados em sedimentos e águas, estejam dentro dos  parâmetros considerados normais para a região. Isso indica que, apesar da significativa  redução das atividades de mineração de ouro a partir da metade dos anos 90, as  quantidades de mercúrio lançadas na bacia do Rio Madeira nas décadas de 70 e 80 ainda  se encontram dispersas em diferentes componentes bióticos e abióticos, suscetíveis a  remobilização e incorporação biológica, como evidenciado pelos resultados obtidos nas  concentrações de mercúrio em peixes e na população ribeirinha. Portanto, permanecem  como uma ameaça real à saúde humana na região, o que enfatiza a necessidade de um  programa de monitoramento contínuo e de pesquisas que esclareçam os principais  mecanismos biogeoquímicos que levam à contínua biodisponibilidade do mercúrio nos  ecossistemas locais. O fator de emissão médio de mercúrio decorrente das atividades de  mineração de ouro na década de 80, estimado por Pfeiffer & Lacerda (1988), era aproximadamente de 1,3 kg de mercúrio por  1,0 kg de ouro produzido. Cerca de 55% a 65% do total de emissões ocorre na atmosfera,  principalmente durante a queima do amálgama mercúrio-ouro nos próprios garimpos e  durante o processo de purificação do ouro em casas compradoras (PFEIFFER et al.,  1988). 

Tabela 1 – Dados sobre emissão e contaminação de Mercúrio na região da bacia do  Rio Madeira.

Emissões 
diretas para rios, solos e 
corpos d’água
Taxas de deposiçãoConcentrações  de mercúrio o  no soloConcentrações de mercúrio no sedimento 
atmosférica o das vias 
urbanas
Fator de emissão 
Médio de Hg na década de 80
Percentual Aproxima  da mente  35-45%70,83% 55% a 65%
Taxas 40-200 30-340 ng.g -¹Acima de 100- 200 µg.kg-¹
Referências (Bastos  et.  al, 2004)(Lacerda  e 
Salomons , 1998)
(Silva  et. al,
  2004)
(Silva et. al, 
2004)
(Pfeiffer & 
Lacerda, 1998)
Observações 
 adicionais
A emissão  é  
principalmente de vapor de 
Hg0(Hg  
metálico) e de uma fração na forma 
partículada, de espécies Hg2+ e  Hg0.
Taxas 
relativamente 
elevadas.  A  
contaminação do solo por Hg é comum.
Valores mais 
elevados 
próximos às áreas de 
mineração.
Acima da média de teor de  mercúrio dos solos da região  amazônica (100-200 µg.kg-¹)Na década de 80, na bacia do rio madeira  , a atividade 
garimpeiro a era de 
aproximada
mente 1,3kg de Hg por 1,0kg de ouro
produzido .

Figura 2 – Sintomas da contaminação por mercúrio em mulheres indígenas  com altos níveis de contaminação no sangue

Fonte:Aldira e Gilmara Akay e Dário Kopenawa. Disponível em:  
>https://azmina.com.br/reportagens/em-tres-aldeias-do-para-60-das-indigenas estao contaminadas/< 

3. METODOLOGIA  

Tipo de Pesquisa 

A pesquisa empregou análise geoquímica do solo para quantificação de metais pesados e a  aplicação de questionários para avaliação dos achados sintomatológicos na população.  Posteriormente a obtenção dos resultados, questionários foram desenvolvidos com base em  protocolos epidemiológicos validados com foco em coletar informações sobre: dados  demográficos e socioeconômicos, histórico de exposição a fontes potenciais de metais pesados (como contato direto com o lixão a céu aberto); sintomas neurológicos relatados (como cefaleia, tontura, neuropatias periféricas, tremores e problemas cognitivos); histórico  clínico de patologias neurológicas diagnosticadas, no entrevistado ou em conhecidos, com  ênfase em doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer, a fim de correlacionar  a sintomatologia aos achados no solo.  

Local Da Pesquisa 

A pesquisa foi conduzida na Comunidade Vila Princesa, situada na zona leste de Porto Velho,  capital do estado de Rondônia. A comunidade é conhecida por abrigar um lixão a céu aberto  e possui aproximadamente 1.148 habitantes, a maioria dos quais está diretamente envolvida  em atividades relacionadas ao lixão. A Vila Princesa não possui infraestrutura básica, como  ruas asfaltadas, saneamento básico e acesso à água encanada (Figura 1).

Figura 1. Comunidade Vila Princesa, Porto Velho, Rondônia

Visualização aérea por satélite da localidade da comunidade Vila Princesa, em Porto Velho, Rondônia. Destaca- se a delimitação da área residencial da Vila Princesa, contornada em  amarelo, adjacente à rodovia BR-364, identificada por um marcador azul. Próximo à  comunidade, encontra-se um aterro sanitário (lixão), delimitado em vermelho e identificado com marcador vermelho. Observa-se também que a região está rodeada por áreas verdes  densas, indicando proximidade direta à vegetação nativa. Fonte: Próprio autor.

População E Amostra 

Para avaliar a contaminação do solo, foram coletadas duas amostras: uma na área mais  distante do depósito de resíduos e outra diretamente no lixão. Cada amostra, de  aproximadamente 500 g, foi coletada com material plástico para evitar contaminação  metálica e armazenada em sacos plásticos para posterior análise. 

Análise Geoquímica 

A determinação da concentração de metais pesados foi realizada em colaboração com o  Laboratório de Biogeoquímica da Universidade Federal de Rondônia. Utilizou-se a técnica de solubilização ácida, seguida de quantificação por espectrometria de absorção atômica com  geração de vapor frio (FIMS 400, Perkin Elmer). Essa metodologia permite a extração  eficiente dos analitos, garantindo alta precisão na quantificação (15). 

A determinação da concentração de mercúrio total (HgT) foi realizada por meio da técnica  de solubilização ácida, seguida de quantificação por espectrometria de absorção atômica  com geração de vapor frio utilizando o equipamento FIMS 400 da Perkim Elmer. 

A técnica de solubilização ácida consiste na digestão da amostra com uma mistura de ácidos  fortes, promovendo a dissolução dos metais presentes. Esse processo permite a extração  eficiente dos analitos, possibilitando sua posterior quantificação com alta precisão. A  espectrometria de absorção atômica com geração de vapor frio é uma metodologia  altamente sensível, empregada especificamente para a determinação de mercúrio. Essa  abordagem permite a conversão do mercúrio em sua forma elementar volátil, aumentando  a sensibilidade da análise e reduzindo interferências. 

A técnica de espectrometria de emissão óptica com plasma acoplado individualmente é um  método de análise de múltiplos elementos que se vale de um plasma altamente aquecido  para estimular os átomos a emitirem luz em comprimentos de onda distintos, os quais são  únicos para cada elemento químico em particular. A quantidade de fótons gerados está  intimamente ligada à quantidade desse elemento presente na amostra. Neste caso, o  objetivo da técnica consiste em proporcionar a análise precisa e sensível dessas substâncias  para avaliar o potencial risco ambiental e à saúde pública. 

Questionário Sintomatológico 

Após a coleta inicial de dados, foram aplicados questionários semiestruturados,  fundamentados em protocolos epidemiológicos validados, visando avaliar informações  demográficas, histórico de exposição a metais pesados e a ocorrência de sintomas  neurológicos, como cefaleia, tontura, neuropatías periféricas, tremores e déficits cognitivos.  Os participantes da pesquisa incluíram todos os pacientes da UBS Vila Princesa que residiam  na comunidade e que concordaram em participar da pesquisa, no período compreendido  entre julho de 2024 e janeiro de 2025. A coleta de dados ocorreu na Unidade Básica de Saúde  (UBS) da comunidade durante o segundo semestre de 2024, uma vez por semana. Todos os  pacientes presentes foram convidados a participar do estudo, independentemente do  motivo da consulta. Os participantes responderam ao formulário em formato presencial,  conduzido por autores do presente trabalho, previamente treinados. Foram garantidos o  sigilo das informações e o anonimato dos participantes, conforme as diretrizes éticas  vigentes. 

O cálculo do tamanho amostral foi realizado com base em uma análise estatística que  considerou variáveis relevantes para a pesquisa, tais como a prevalência esperada de  sintomas neurodegenerativos na comunidade, o nível de confiança desejado e a margem de  erro aceitável. Como resultado, foi determinado que seriam necessários 289 formulários para garantir a robustez e a representatividade dos dados a serem coletados. Este cálculo foi  fundamentado em princípios estatísticos que visam proporcionar uma amostra suficiente  para a generalização dos resultados. 

No entanto, durante o período designado para a coleta de dados, enfrentamos desafios  logísticos e sociais que limitaram a captação de informações, resultando na obtenção de  apenas 99 formulários preenchidos. Essa discrepância entre o número amostral calculado e  o número efetivamente coletado ressalta os riscos e limitações associados à utilização de  formulários em pesquisas desse tipo, especialmente em comunidades expostas a  neurotoxinas. Como consequência, a margem de erro dos dados coletados foi estimada em  aproximadamente 9,42%, o que pode comprometer a precisão estatística dos resultados  obtidos, o que implica na necessidade de cautela ao interpretar os dados. 

Critérios De Inclusão E Exclusão 

O estudo do solo da comunidade, abarcou amostras de solo colhidas em locais opostos, com  o principal critério de inclusão consistindo na seleção de amostras antagônicas. A primeira  das amostras foi coletada em uma área distante do depósito de resíduos sólidos, enquanto  a outra foi retirada diretamente do ambiente de lixão a céu aberto. O intento residia na  análise da influência dos resíduos na qualidade do solo e na manifestação ou ausência do  aumento da quantidade de neurotoxinas ambientais. As amostras que não satisfizeram a  esses critérios foram excluídas da análise. Importa frisar que as amostras foram submetidas  a técnicas de análise química a fim de identificar elementos químicos enquadrados na  categoria de neurotoxinas, como metais pesados, visando obter informações sobre a  composição química do solo e eventuais contaminações. A coletagem priorizou a  preservação das amostras como garantia de resultados que podem contribuir para uma  melhor compreensão dos riscos à saúde da população exposta a essas condições ambientais  adversas. 

O formulário sintomatológico foi aplicado na comunidade de Vila Princesa ao longo de 2024,  abrangendo todos os pacientes atendidos na Unidade Básica de Saúde (UBS),  independentemente do motivo da consulta, para ampliar a diversidade de participantes e  minimizar vieses de seleção. Foram incluídos apenas moradores com comprovação de  residência mínima de seis meses na comunidade, assegurando exposição contínua ao ambiente.  Os critérios de exclusão contemplaram indivíduos não residentes, pessoas incapazes de  responder ao questionário, e aqueles que se recusaram ou não puderam fornecer  consentimento livre e esclarecido. Além disso, foram excluídos pacientes com diagnósticos  prévios de doenças neurológicas estabelecidos antes de sua chegada à comunidade, visando  isolar fatores externos à exposição ambiental local. 

Análise Dos Dados 

Os dados coletados foram submetidos a uma análise criteriosa, a fim de avaliar a possível  vulnerabilidade da comunidade Vila Princesa em relação à presença de neurotoxinas, bem como compreender o impacto quantitativo dessas substâncias na vida diária e na saúde dos  moradores. Essa avaliação considerou as concentrações de metais pesados previamente  identificados como neurotoxinas relevantes, além de investigar a correlação entre tais  concentrações e os sintomas relatados na comunidade. 

Para identificar padrões de sintomas neurológicos na comunidade Vila Princesa através da  técnica de Análise de Componentes Principais (PCA), com o objetivo de reduzir a  dimensionalidade dos dados e facilitar a interpretação das relações entre sintomas diversos  associados à exposição ambiental, foram analisadas respostas dos moradores da  comunidade referentes a 29 sintomas neurológicos relatados. A análise PCA foi aplicada aos  dados transformados em variáveis binárias (presença ou ausência de sintomas). Os dados  foram normalizados com Standard Scaler antes da aplicação do PCA. Optou-se por extrair  dois componentes principais para facilitar a visualização gráfica e interpretação dos  resultados. 

Os resultados obtidos possibilitam a formulação de conclusões fundamentadas que refletem  a situação da comunidade Vila Princesa em relação à exposição a neurotoxinas e aos riscos  potenciais associados. Essas conclusões fornecem uma visão abrangente dos impactos sobre  a qualidade de vida e a saúde dos moradores, levando em consideração tanto a exposição  direta quanto a potencial contaminação do solo e dos recursos naturais essenciais para a  comunidade. 

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS 

4.1 HGT (CONCENTRAÇÃO DE MERCÚRIO TOTAL)

Obteve-se um valor de 0,2990 para a concentração de mercúrio total (HgT) encontrado  no solo da comunidade. Esse valor foi comparado com o padrão de referência estabelecido, que  é de 0,2800, apontando a presença de quantidades elevadas da concentração de mercúrio total  no solo.  

Evidenciou-se a presença de mercúrio total em níveis foram da normalidade na  comunidade, torna-se evidente o risco da bioacumulação e seus consequentes efeitos na saúde  da população. Ao serem questionados sobre a ocorrência de sintomas neurológicos (perda de  memória, tremor, dificuldades cognitivas, alterações de humor) não atribuíveis a outras  condições, 52% dos 99 participantes relataram sintomas compatíveis. No entanto, nenhum dos  participantes informou ter recebido diagnóstico médico de doença neurodegenerativa, 1  participante (1%) relatou demência. 

Ao serem questionados sobre possuírem familiar ou amigo, residente da comunidade de  Vila Princesa, previamente diagnosticado com condição degenerativa (exemplificando com Alzheimer, ELA, Doença de Huntington, Demência, Doença de Parkinson, Esclerose Múltipla,  Ataxias espinocerebelares), 20 participantes relataram possuir, destes, 57,1% possuem familiar  ou conhecido diagnosticado com Alzheimer, enquanto 28,6% possuem familiar ou conhecido  diagnosticado com doença de Parkinson. O mercúrio, metal altamente neurotóxico, tem sido  associado à Doença de Alzheimer (DA). Estudos prévios em modelos animais demonstraram  que a exposição ao mercúrio inibe a polimerização da tubulina, um componente essencial dos  microtúbulos, levando à formação de agregados neurofibrilares, similar ao observado em  cérebros de pacientes com DA. Essa interferência na estrutura celular pode contribuir para a  neurodegeneração (LIU Y, et al., 2023). Além disso, a sinergia tóxica do mercúrio com outros  metais, como zinco e cádmio, potencializa seus efeitos deletérios, sugerindo que níveis  relativamente baixos de mercúrio podem contribuir para a etiologia da DA. A relação entre a  contaminação por mercúrio e a susceptibilidade à DA em indivíduos portadores do gene ApoE  também tem sido investigada (FERNANDES et al., 2024). 

No que tange as mulheres que já gestaram, concluiu-se que 72,2% das 36 entrevistadas  apresentaram parto prematuro, 55,6% tiveram um recém-nascido com baixo peso ao nascer e  13,9% apresentaram aborto espontâneo. Um estudo posterior realizado na província de Fujian  demonstrou relação positiva entre a exposição a mercúrio dose-dependente e o parto prematuro,  além de relações da concentração de mercúrio no sangue materno com efeitos adversos a  gravidez (WU Z et al., 2024). 

Referente aos efeitos da exposição durante a gestação, evidenciou-se que 67,4% de 86  entrevistadas referiram aborto, enquanto 8,3% de neonatos apresentaram malformação  congênita e 13,9% dos nascidos-vivos apresentaram deficiência mental ou intelectual na  primeira infância. O mercúrio é encontrado na natureza em duas formas: orgânica e inorgânica;  a forma orgânica é mais hidrossolúvel e pode ser transferida diretamente ao feto por via  transplacentária e ser secretada no leite; enquanto a forma inorgânica tende a se concentrar no  líquido amniótico. O mercúrio possui efeitos deletérios e teratogênicos, justificados pelo  estresse oxidativo e pela influência do mercúrio na rede de microtúbulos, que pode levar a um  desarranjo na distribuição cromossômica durante a mitose. Assim, filhos de mães expostas a  metilmercúrio podem apresentar retardo mental, paralisia cerebral e crises convulsivas, sendo  especialmente prejudicial a exposição durante o período pré-natal (LI S, et al., 2022). 

Os entrevistados tiveram a oportunidade de selecionar quais sintomas eram sentidos  frequentemente e sem explicação durante a entrevista, e destes, as sintomatologias mais  prevalentes observadas foram: tremores (31,9%), dificuldade de concentração (31,9%), perda  de memória (28,6%), mudanças de humor (36,3%) e confusão mental (22%). Esses efeitos neurotóxicos podem ocorrer devido à capacidade do mercúrio de atravessar a barreira  hematoencefálica, resultando em danos neuronais que comprometem funções cognitivas e  motoras (GARCIA ML, et al., 2024). Estudos indicam que a intoxicação crônica pode levar a  impactos irreversíveis na qualidade de vida dos indivíduos expostos. Outros sintomas  significativamente relatados foram a insônia (50,5%), anemia (30,8%) e fraqueza muscular  (28,6%). Estudos indicam que a intoxicação por mercúrio pode levar a manifestações  neurológicas, como insônia, devido à sua ação neurotóxica. Além disso, a exposição crônica ao  mercúrio pode resultar em anemia, possivelmente decorrente de sua interferência na síntese de  hemoglobina. A fraqueza muscular também é um sintoma relatado, associado ao efeito do  mercúrio sobre o sistema nervoso e muscular. 

4.2 RESULTADOS: CO, MN, CR, NI, PB, FE, ZN, AL, AS, BA, CD, MG, SR, TI, V.

Dentre as substâncias investigadas na área do Lixão de Vila Princesa, foram  identificadas concentrações significativamente superiores aos valores de referência regional  para três metais pesados: Níquel (Ni), Zinco (Zn) e Titânio (Ti). A presença elevada desses  metais no solo pode ter implicações para a saúde humana. 

Embora as substâncias mencionadas (CO, MN, CR, NI, PB, FE, ZN, AL, AS, BA, CD,  MG, SR, TI, V) não tenham uma relação direta com o funcionamento normal do sistema  nervoso central humano, podem ter impactos negativos sobre o SNC, quando presentes em  concentrações elevadas ou em casos de exposição crônica. Os metais pesados são classificados  com base em sua densidade consideravelmente elevada e notável toxicidade, mesmo em  concentrações reduzidas. Uma característica intrínseca a esses elementos é sua propensão à  bioacumulação no organismo humano. Uma vez que, em sua maioria, não se sujeitam a  processos metabólicos significativos, eles têm a capacidade de permanecer acumulados nos  tecidos e órgãos até que sejam, eventualmente, excretados em sua forma ativa. No entanto,  enquanto estão armazenados nas células, esses metais pesados podem desencadear reações  prejudiciais e adversas a essas estruturas (MOSCHEN & GONÇALVES, 2020). 

O desequilíbrio de metais essenciais, como ferro, cobre e zinco, gera a produção  excessiva de espécies reativas de oxigênio, resultando em danos a lipídios, proteínas e DNA  (KIM SJ et al., 2023). O ferro e o cobre, especialmente, catalisam reações de redução,  aumentando a formação de radicais livres e contribuindo para a neurodegeneração. O ferro em  condições normais seria absorvido e utilizado em reações como a formação do grupamento  Heme, porém em situação de acúmulo este participa da reação de Fenton, a qual sua forma  reduzida Fe²⁺, reage com o peróxido de hidrogênio e forma hidroxila, o radical livre mais importante. Ademais, metais não essenciais, tais quais chumbo, cádmio, alumínio e mercúrio,  aumentam esses processos por interferirem na homeostase neuronal e desencadearem a  agregação anormal de β-amiloide e tau, proteínas diretamente ligadas à disfunção sináptica e  morte neuronal (ZHOU L et al., 2024). O acúmulo destas, forma placas amiloides e  emaranhados neurofibrilares, características marcantes da doença. Simultaneamente, a  exposição crônica a esses metais também ativa células imunes no cérebro, a chamada micróglia,  induzindo a inflamação persistente que agrava os danos neuronais. (CHEN et al., 2022) 

O Níquel (Ni) apresentou concentração de 60,013 em relação ao referencial de 54,  indicando contaminação elevada no solo da comunidade. A exposição ao níquel, principalmente  por inalação, está associada a problemas respiratórios e ao câncer de pulmão, sem evidências  de impacto no SNC. No que tange aos entrevistados, 11,3% relataram serem portadores de  asma, e nenhum relatou possuir ou conhecer um morador da comunidade diagnosticado com  câncer de pulmão. 

A exposição ao níquel tem sido associada ao desenvolvimento de asma, especialmente  em contextos ocupacionais. Um estudo de caso publicado na Open Research Journal observou  que a exposição experimental de culturas de mastócitos a íons de níquel e outros metais  presentes no ar ambiente provocou a ativação dessas células, sugerindo um possível mecanismo  para o desenvolvimento de asma em indivíduos expostos a esses metais (KOLBERG et al.,  2019). 

Em consonância a Iskandar et al. (2022), a exposição ao níquel é provável fator causal  de danos respiratórios. A exposição crônica ao níquel, evidenciado pelo estudo realizado na  região de Volta Redonda, Rio de Janeiro, relaciona diretamente o aumento de patologias  respiratórias, tais quais asma e bronquite, especialmente em populações vulneráveis, como os  trabalhadores da empresa siderúrgica e moradores de área de risco, como lixões. A poluição do  ar nesses ambientes, frequentemente contaminada por diversos metais pesados, pode agravar  inflamações respiratórias, originar crises asmáticas e contribuir para o desenvolvimento de  doenças pulmonares crônicas e processos carcinogênicos (LI S et al., 2023). 

O Zinco (Zn) atingiu 493,501 em comparação ao referencial de 467. Concentrações  elevadas podem causar distúrbios gastrointestinais e interferir na absorção de ferro (Fe) e cobre,  afetando a nutrição e possivelmente impactando o SNC, com potencial associação ao declínio  cognitivo em idoso e a doenças neurodegenerativas como Parkinson. A interferência na  absorção de ferro (Fe) e cobre pode afetar negativamente o estado nutricional, contribuindo  para o desenvolvimento de anemia. Isso é particularmente relevante considerando que 30,8% dos entrevistados relataram anemia. No que diz respeito ao sistema nervoso central (SNC), o  desequilíbrio na homeostase de metais essenciais, incluindo o zinco, tem sido associado a  doenças neurodegenerativas, como a doença de Parkinson. Estudos indicam que tanto a  deficiência quanto o excesso de zinco podem contribuir para o estresse oxidativo no cérebro,  um fator implicado na patogênese de doenças neurodegenerativas. A observação de que 28,6%  dos entrevistados conhecem um morador da comunidade com doença de Parkinson pode sugerir  uma possível correlação entre os níveis elevados de zinco e a prevalência dessa condição na  população estudada. 

O Titânio (Ti) foi detectado em 942,198 para um referencial de 850, condizente com áreas  de deposição de resíduos sólidos. Embora não seja considerado tóxico para o SNC, a exposição  a partículas finas pode causar problemas respiratórios e impactos gerais na saúde como irritação  respiratória, irritação cutânea, irritação digestiva e irritação oftálmica. 11% dos entrevistados  apresentaram náuseas, vômitos e diarreias sem motivo evidente e irritação respiratória. 

Os dois primeiros componentes principais extraídos explicaram conjuntamente 25,5% da  variância total dos sintomas: Componente Principal 1 (PC1) que explicou aproximadamente  14,29% da variância total e Componente Principal 2 (PC2) que explicou aproximadamente  11,21% da variância total (Figura 2).

Figura 2. Análise de Componentes Principais (PCA) dos Sintomas Neurológicos

O gráfico de PCA representa uma técnica estatística que permite reduzir a dimensionalidade dos dados, condensando as informações de múltiplas variáveis em poucos componentes principais, facilitando sua interpretação. No eixo X é Componente Principal 1 (PC1) e no eixo  Y é Componente Principal 2 (PC2), cada ponto no gráfico representa um indivíduo da amostra  estudada, a proximidade ou agrupamento dos pontos indica similaridade nos perfis  sintomatológicos entre os indivíduos e os pontos mais afastados sugerem indivíduos com perfis  distintos de sintomas. Fonte: Do próprio autor. 

A análise dos pesos dos sintomas nos componentes principais permitiu identificar os  seguintes padrões: Componente Principal 1 (PC1) foi fortemente influenciado pelos seguintes  sintomas de Confusão mental (0,291), Dificuldade de concentração (0,331), Mudanças de  humor (0,312) e Anemia (0,269). Esses sintomas podem representar um padrão associado à  exposição crônica a neurotoxinas e possivelmente refletindo comprometimento cognitivo e  emocional generalizado. 

O Componente Principal 2 (PC2) foi caracterizado principalmente por Náuseas (0,289),  Tremores (0,171), Movimentos involuntários (-0,241) e Perda de memória (-0,312), que indica  sintomas neurológicos mais específicos, que podem estar relacionados a tipos específicos ou  agudos de exposição neurotóxica. 

A PCA destacou dois agrupamentos distintos de sintomas neurológicos, possivelmente  indicando diferentes formas de impacto neurológico em resposta à exposição ambiental  contínua na comunidade estudada. O primeiro componente sugere comprometimento cognitivo  mais difuso, enquanto o segundo componente revela um grupo específico de sintomas motores  e de memória, frequentemente associados a exposições neurotóxicas agudas ou severas. 

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O presente trabalho analisou a presença e quantidade de neurotoxinas no solo da  comunidade de Vila Princesa, que culminou em valores elevados de HgT (concentração de  mercúrio total) e dos metais: Ni, Zn e Ti. 

A análise de mercúrio total (HgT) em amostras de solo utilizando a técnica de  solubilização ácida seguida de espectrometria de absorção atômica com geração de vapor frio  demonstrou um valor de concentração de 0,2990 em comparação com um padrão de referência  de 0,2800. A porcentagem de recuperação de 106% indicou uma precisão superior à esperada.  Esse resultado é o mais relevante ao presente trabalho, pois o mercúrio pode entrar na cadeia  alimentar e causar efeitos adversos na saúde humana. A toxicidade do mercúrio está associada  a danos no sistema nervoso, particularmente à capacidade do mercúrio metálico de atravessar a barreira hematoencefálica e causar efeitos neurotóxicos, estando assim associada à progressão  e ao surgimento de doenças neurodegenerativas. 

A pesquisa referente a valores individuais de diferentes metais revelou valores alterados  frente ao referencial em relação ao Ni, Zn e Ti. A respeito desses metais, podemos considerar  que os moradores da comunidade de Vila Princesa, por meio da exposição ao solo, estão sujeitos  a desenvolver principalmente problemas respiratórios, por meio da inalação de partículas finas.  Em casos específicos, como a exposição prolongada ao Zn, é plausível considerar a capacidade  do elemento de interferir na absorção de nutrientes, como o ferro, o que pode impactar a saúde  do sistema nervoso central e ser associado a doenças neurodegenerativas, como a doença de  Parkinson. 

A análise multivariada com PCA revelou claramente padrões distintos entre os sintomas  neurológicos reportados, evidenciando a existência de agrupamentos específicos que poderiam  indicar diferentes mecanismos de toxicidade ou tipos de exposição ambiental na comunidade  Vila Princesa. Esses resultados sugerem a necessidade de estudos clínicos detalhados para  confirmação diagnóstica e avaliação das vias específicas de exposição que levam a tais padrões  sintomatológicos. 

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