RELAÇÃO ENTRE A ATIVIDADE FÍSICA E O RISCO CARDIOVASCULAR EM INDIVÍDUOS JOVENS: O PAPEL DA SAÚDE DIGITAL

THE RELATIONSHIP BETWEEN PHYSICAL ACTIVITY AND CARDIOVASCULAR RISK IN YOUNG INDIVIDUALS: THE ROLE OF DIGITAL HEALTH

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202508231222


Emanuele Aguiar Scatolin1*; Emanuely Ximenes Furtado1; Gabriela Cristina Lima Areal Alencar1; ⁠Rodrigo da Silva Justo1; ⁠Brenda de Souza Araújo1; ⁠Wedson Moraes Soares1; Luís Felipe Martins Ramos1; Victória Félix Mappes1


RESUMO

Introdução: As doenças cardiovasculares (DCVs) representam a principal causa de morbimortalidade global, com a inatividade física e o comportamento sedentário sendo fatores de risco modificáveis de crescente prevalência, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. As abordagens convencionais de intervenção frequentemente carecem de eficácia e alcance sustentados. Nesse contexto, as intervenções de atividade física baseadas em tecnologia e saúde digital, como aplicativos móveis, dispositivos vestíveis (wearables) e programas de telemonitoramento, emergem como estratégias promissoras e escaláveis para promover a saúde cardiovascular. O presente estudo teve como objetivo analisar a efetividade e os mecanismos dessas intervenções na melhora dos desfechos cardiovasculares em populações jovens. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura. A busca por artigos foi realizada nas bases de dados PubMed e SciELO, abrangendo um período de cinco anos, entre 2020 e 2025. O processo de triagem e seleção final resultou na inclusão de 28 trabalhos relevantes para a análise. Resultados: As evidências encontradas indicam que as intervenções digitais são uma abordagem viável e aceitável, com potencial para promover a atividade física em jovens. Os estudos demonstraram eficácia na redução de fatores de risco, como a diminuição do índice de massa corporal e da obesidade central, e o aumento da capacidade cardiorrespiratória. Ferramentas como EXERGAMES mostraram-se particularmente eficazes no engajamento. No entanto, os resultados são frequentemente mistos: os efeitos sobre desfechos cardiovasculares específicos, como a pressão arterial e o controle glicêmico, são limitados e não conclusivos em muitos estudos. Discussão: A efetividade das intervenções digitais parece estar fortemente ligada a mecanismos de mudança comportamental, incluindo a gamificação, o automonitoramento e o feedback contínuo, que aumentam a motivação e a adesão. Por outro lado, a implementação dessas ferramentas enfrenta barreiras significativas. A baixa adesão a longo prazo é um dos principais desafios, comprometendo a sustentabilidade dos efeitos. Além disso, a heterogeneidade metodológica dos estudos e a precisão variável de dispositivos de monitoramento dificultam a comparação de resultados e a consolidação de evidências robustas para a prática clínica. Conclusão: As intervenções de saúde digital representam uma ferramenta valiosa na luta contra a inatividade física e o risco cardiovascular em jovens. No entanto, para que seu potencial total seja alcançado, é urgente superar as lacunas de pesquisa existentes. É fundamental a realização de estudos mais rigorosos, com períodos de acompanhamento mais longos e um foco maior na personalização das abordagens, a fim de estabelecer diretrizes definitivas e integrar essas tecnologias de forma eficaz nas estratégias de saúde pública.

Palavras-chave: Saúde Digital, Atividade Física, Saúde Cardiovascular.

ABSTRACT

Introduction: Cardiovascular diseases (CVDs) are the leading cause of global morbidity and mortality, with physical inactivity and sedentary behavior being modifiable risk factors of increasing prevalence, especially among adolescents and young adults. Conventional intervention approaches often lack sustained effectiveness and reach. In this context, technology-based and digital health interventions for physical activity, such as mobile applications, wearable devices, and remote monitoring programs, are emerging as promising and scalable strategies to promote cardiovascular health. This study aimed to analyze the effectiveness and mechanisms of these interventions in improving cardiovascular outcomes in young populations. Methodology: This is an integrative literature review. The search for articles was conducted in the PubMed and SciELO databases, covering a five-year period from 2020 to 2025. The final screening and selection process resulted in the inclusion of 28 relevant papers for analysis. Results: The evidence found indicates that digital interventions are a viable and acceptable approach with the potential to promote physical activity in young people. Studies have demonstrated effectiveness in reducing risk factors, such as decreased body mass index and central obesity, and increased cardiorespiratory fitness. Tools like exergames have proven to be particularly effective in engagement. However, the results are often mixed: the effects on specific cardiovascular outcomes, such as blood pressure and glycemic control, are limited and inconclusive in many studies. Discussion: The effectiveness of digital interventions appears to be strongly linked to behavioral change mechanisms, including gamification, self-monitoring, and continuous feedback, which increase motivation and adherence. On the other hand, the implementation of these tools faces significant barriers. Low long-term adherence is one of the main challenges, compromising the sustainability of the effects. Furthermore, the methodological heterogeneity of studies and the variable precision of monitoring devices make it difficult to compare results and consolidate robust evidence for clinical practice. Conclusion: Digital health interventions represent a valuable tool in the fight against physical inactivity and cardiovascular risk in young people. However, for their full potential to be realized, it is urgent to overcome the existing research gaps. It is essential to conduct more rigorous studies with longer follow-up periods and a greater focus on personalized approaches to establish definitive guidelines and effectively integrate these technologies into public health strategies.

Keywords: Digital Health, Physical Activity, Cardiovascular Health.

INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares (DCVs) representam a principal causa de morbimortalidade em escala global, constituindo um problema de saúde pública crescente em diversos países. O desenvolvimento e a evolução clínica das DCVs estão intrinsecamente ligados a fatores de risco comportamentais modificáveis, como o sedentarismo1, 2. Indivíduos que apresentam esses fatores, como hipertensão arterial e obesidade, estão sob elevado risco de desenvolver alterações fisiopatológicas em órgãos vitais, como o enrijecimento arterial e a hipertrofia ventricular2. Em contrapartida, a prática regular de atividade física emerge como uma poderosa estratégia profilática e terapêutica, capaz de modular favoravelmente múltiplos parâmetros fisiológicos e mitigar os riscos associados ao sedentarismo e à obesidade1, 2.

Nesse contexto, abordagens de saúde eletrônica e digital têm recebido atenção significativa da pesquisa, sendo consideradas uma opção promissora para o enfrentamento de baixos níveis de atividade física e comportamento sedentário3, 4. O volume de pesquisas sobre tecnologias digitais para a mudança de comportamento em saúde aumentou enormemente nas últimas décadas, com um foco especial em celulares e aplicativos como plataformas tecnológicas5. Particularmente a partir de 2013, o interesse em tecnologias de “Geração 2”, como smartphones e dispositivos vestíveis, aumentou acentuadamente. Essas ferramentas têm sido amplamente estudadas para encorajar a atividade física, o que demonstra a expectativa de que a área continue a crescer e se diversificar3, 5.

O problema da inatividade física é particularmente relevante entre crianças e adolescentes, que não estão atendendo às recomendações atuais de atividade física, privando-se dos benefícios de saúde proporcionados pelo exercício regular. Programas baseados em tecnologia representam uma opção atraente e promissora para promover a atividade física nesta faixa etária. As intervenções digitais variam em duração, utilizando principalmente aplicativos de smartphones e rastreadores de atividade vestíveis como ferramentas. Contudo, apesar do grande potencial, há uma clara necessidade de estudos futuros, pois a baixa adesão e a comparabilidade limitada entre as pesquisas exigem cautela na avaliação de seus efeitos4. É crucial que haja uma cooperação mais estreita entre as ciências comportamentais e as áreas tecnológicas para que o conhecimento teórico e os avanços tecnológicos sejam melhor integrados em aplicações práticas, visando um maior impacto social e eficácia5.

Diante desse cenário, o presente artigo tem como objetivo analisar a efetividade e os mecanismos de intervenções de atividade física baseadas em tecnologia e saúde digital (aplicativos, wearables e programas de telemonitoramento) na melhora de desfechos cardiovasculares em adolescentes e adultos jovens.

MÉTODO

Este estudo é uma revisão integrativa de literatura, uma abordagem metodológica que permite a síntese de conhecimentos sobre o tema a partir da análise de pesquisas já publicadas. Permitindo a inclusão de estudos com diferentes delineamentos metodológicos (quantitativos e qualitativos), proporcionando uma compreensão abrangente da correlação entre a efetividade e os mecanismos de intervenções de atividade física, tecnologia e saúde digital e sua influência no risco a doenças cardiovasculares em adolescentes, jovens e adultos jovens.

A busca pelos artigos foi realizada nas plataformas digitais SciELO e Pubmed. As buscas foram conduzidas utilizando uma combinação de descritores controlados e palavras-chave relevantes (“Physical Activity” OR “Exercise” OR “Mobile Health”) AND (“Adolescent” OR “Youth” OR “Young Adult”) AND (“Cardiovascular Health” OR “Cardiovascular Risk”) AND (“Digital Health” OR “Technology”).

As buscas foram filtradas a publicações nos idiomas português e inglês, com um recorte temporal de 5 anos e com disposição do texto completo de forma gratuita, totalizando em 181 publicações na plataforma Pubmed e 21 na plataforma Scielo.

Foram incluídos artigos originais e revisões que abordassem a temática delineada, associando o controle cardiovascular, atividade física e o uso de tecnologia. Foram excluídas publicações de teses, dissertações, editoriais, cartas, resumos de congressos, duplicatas e artigos que não associam a temática proposta ou que abordem apenas um dos tópicos de pesquisa.

As publicações foram inicialmente selecionadas por seus títulos, resultando em 84 publicações na plataforma Pubmed e 9 na plataforma Scielo.

Seguiu-se a leitura do resumo para verificar a relevância inicial do trabalho. Por fim, os textos completos dos artigos pré-selecionados foram lidos na íntegra. A seleção foi realizada por três revisores. A amostra final da pesquisa apontou 28 trabalhos relevantes.

A ilustração 1 mostra o processo de seleção dos estudos conduzidos conforme as diretrizes do Fluxograma PRISMA. 

Ilustração 1: Fluxograma PRISMA do método de pesquisa:

RESULTADOS

Os estudos e publicações elegíveis para analisar os mecanismos de intervenções de atividade física baseadas em tecnologia e saúde digital na melhora de desfechos cardiovasculares em adolescentes e adultos jovens são descritos no Quadro 1.

No total, foram selecionadas 28 publicações de um recorte temporal de cinco anos. Os estudos abordaram dados primários e secundários. A heterogeneidade da amostragem nesta pesquisa contribui para uma análise abrangente, considerando diferentes pontos de vista.

Quadro 1: Quadro de resultados.

DISCUSSÃO

A literatura revisada demonstra que as intervenções de saúde digital emergem como uma estratégia promissora, viável e eficaz para a promoção da atividade física e o combate ao comportamento sedentário em adolescentes e adultos jovens. As evidências indicam que ferramentas digitais, como aplicativos móveis, programas de telemonitoramento e eHealth, são capazes de impulsionar mudanças comportamentais favoráveis9, 17, 26, 28. Nesse sentido, estudos clínicos e revisões corroboram que essas abordagens são não apenas acessíveis e envolventes para o público jovem, mas também capazes de prevenir o acúmulo precoce de fatores de risco cardiovasculares, como demonstrado em escolares6, 17.

Os resultados analisados também apontam para benefícios concretos em desfechos específicos. Intervenções remotas de atividade física, por exemplo, mostraram-se eficazes na melhora da capacidade cardiorrespiratória e na redução da obesidade central19. Da mesma forma, o uso de EXERGAMES foi associado a uma redução significativa no índice de massa corporal (IMC) em adolescentes22. Além disso, os achados indicam que o potencial de resposta à intervenção pode ser influenciado por fatores biológicos, como a maturação sexual, que foi correlacionada com uma maior probabilidade de melhora na massa gorda corporal20. De modo geral, a alta viabilidade e a aceitabilidade das intervenções digitais sugerem um caminho promissor para o desenvolvimento de soluções escaláveis na área da saúde.

No entanto, a análise da literatura revela que os resultados não são uniformemente positivos, com algumas intervenções apresentando eficácia limitada, especialmente a longo prazo. Um estudo com coaching interativo baseado na web, por exemplo, não demonstrou superioridade duradoura na perda de peso em comparação com um programa não interativo, levantando questões sobre a sustentabilidade dos efeitos [18]. Similarmente, uma intervenção com aplicativo para smartphones, apesar de ter sido bem planejada para um contexto familiar, não produziu aumentos significativos nos níveis de atividade física, sugerindo que a simples presença da tecnologia não garante a mudança de comportamento25.

Ademais, os achados são frequentemente mistos, com benefícios em alguns desfechos, mas não em outros. Embora intervenções com EXERGAMES tenham se mostrado eficazes para reduzir o IMC, ele não foi observado para desfechos cardiovasculares específicos, como o controle glicêmico e a pressão arterial22. De forma similar, a literatura aponta que intervenções digitais são promissoras para promover comportamentos alimentares saudáveis e melhorar o conhecimento nutricional, mas as evidências sobre o seu impacto na atividade física e nos resultados antropométricos a longo prazo são limitadas ou inconclusivas32. Essas inconsistências reforçam a necessidade de uma investigação mais aprofundada sobre os mecanismos de ação e a durabilidade dos efeitos dessas intervenções.

A análise dos estudos revela que os mecanismos de ação das intervenções digitais para a promoção da atividade física em jovens estão frequentemente ligados a fatores psicológicos e comportamentais. A gamificação e o aumento da motivação emergem como estratégias centrais para impulsionar a adesão e o engajamento. Os EXERGAMES, por exemplo, são apontados como ferramentas que dialogam com a melhoria dos níveis de atividade física ao estimular o prazer na prática e o desejo por um estilo de vida mais ativo8, 22. A incorporação de elementos de jogo em plataformas digitais demonstra potencial para aumentar a eficácia de intervenções, reforçando a importância da diversão e do engajamento para garantir a adesão dos jovens ao exercício30.

Outro mecanismo fundamental de ação identificado na literatura é a autogestão e o feedback contínuo, que capacitam o indivíduo a monitorar e controlar seu próprio comportamento. O automonitoramento da atividade física e o estabelecimento de metas, seja através de sensores integrados a smartphones, rastreadores de atividade vestíveis ou aplicativos dedicados, são estratégias frequentemente utilizadas e eficazes14, 24, 30. O feedback imediato, fornecido por mensagens de texto ou diretamente no aplicativo, atua como um reforço positivo, lembrando e motivando os usuários a se manterem ativos [24]. No contexto clínico, ferramentas digitais que fornecem esses recursos podem inclusive auxiliar profissionais de saúde a oferecer aconselhamento personalizado, aumentando o conhecimento e a motivação dos pacientes para a mudança comportamental26. Esses mecanismos, portanto, transformam a interação passiva com a tecnologia em uma ferramenta ativa de autogestão da saúde.

Outro fator que se destaca na análise dos mecanismos de ação é o papel do suporte social e familiar. Embora uma intervenção baseada em um aplicativo com foco na família não tenha produzido um aumento significativo nos níveis de atividade física, o estudo sugere que o envolvimento familiar é um fator importante para o sucesso das intervenções25. Isso indica que, para o público jovem, o contexto social e o apoio dos pais ou responsáveis podem ser mais relevantes do que a ferramenta tecnológica em si. Esse achado aponta para a necessidade de um debate mais aprofundado sobre como integrar o suporte familiar de maneira eficaz nas intervenções de saúde digital, reconhecendo que a tecnologia é uma facilitadora, mas a mudança de comportamento é um processo social e contextual.

Apesar do potencial demonstrado, a literatura também aponta para barreiras significativas que comprometem a eficácia e a sustentabilidade das intervenções digitais. A baixa adesão e o engajamento a longo prazo emergem como os principais desafios, um ponto de convergência entre as pesquisas18, 24, 25, 30, 33. Um estudo com coaching interativo para perda de peso, por exemplo, não conseguiu manter a superioridade do grupo de intervenção a longo prazo, evidenciando a dificuldade de sustentar o uso contínuo da ferramenta18. Similarmente, mesmo quando a intervenção é bem planejada, como no caso de um aplicativo para famílias, a falta de engajamento do usuário pode resultar em um impacto limitado na atividade física25. Esses achados sugerem que o sucesso de uma intervenção digital não se limita à sua concepção, mas depende fundamentalmente de sua capacidade de manter o usuário engajado ao longo do tempo.

Uma segunda barreira crítica para a implementação e a avaliação da eficácia das intervenções digitais reside na precisão técnica dos dispositivos utilizados. A validade dos resultados de muitos estudos que empregam wearables para monitorar a atividade física pode ser comprometida, pois a precisão e a confiabilidade das medições, como a da frequência cardíaca, variam significativamente. Um estudo recente demonstrou que o desempenho desses dispositivos é altamente dependente da marca, da posição de uso (ex: pulso vs. braço) e da intensidade da atividade, o que pode levar a variações consideráveis na precisão dos dados coletados31. Essa limitação técnica exige cautela na interpretação dos resultados de intervenções baseadas em dados de wearables e sublinha a necessidade de padronização e validação contínua desses dispositivos para garantir a robustez das evidências.

Apesar da crescente quantidade de pesquisas sobre o tema, a área ainda apresenta lacunas metodológicas e de evidência. A heterogeneidade entre os estudos é um fator limitante, dificultando a comparação de resultados e a consolidação de conclusões robustas9, 23. Muitos estudos carecem de evidências sólidas, e a variedade de metodologias, intervenções, populações e desfechos avaliados impede que se chegue a consensos definitivos sobre a eficácia de certas abordagens de saúde digital. Essa falta de padronização impede a replicação e a validação em larga escala, o que é um obstáculo para a criação de diretrizes clínicas baseadas em evidências.

Outra lacuna crítica é a necessidade de personalização das intervenções. A literatura sugere que programas genéricos, mesmo quando bem desenhados, podem não ser suficientes para induzir mudanças comportamentais significativas, como a adesão à atividade física25. Existe um consenso de que a eficácia das intervenções digitais pode ser consideravelmente melhorada ao se adotar abordagens que considerem as particularidades de cada indivíduo, como suas motivações, preferências e o contexto social em que estão inseridos25, 30. O desenvolvimento de técnicas mais avançadas, incluindo recursos adaptativos e a integração de teorias comportamentais, é fundamental para garantir que as intervenções sejam mais engajadoras e, consequentemente, mais eficazes a longo prazo.

CONCLUSÃO

A presente revisão integrativa reforça a relação intrínseca e multifacetada entre a atividade física e a saúde cardiovascular, e consolida as intervenções de saúde digital como uma estratégia promissora e viável para o combate ao sedentarismo em adolescentes e adultos jovens. Os achados demonstram que ferramentas como aplicativos, videogames ativos (EXERGAMES) e programas de telemonitoramento têm a capacidade de promover o aumento dos níveis de atividade física, com resultados positivos em desfechos como a redução do índice de massa corporal (IMC) e a melhora da capacidade cardiorrespiratória. Os mecanismos de ação baseados em gamificação, automonitoramento e feedback são eficazes para aumentar a motivação e o engajamento, elementos cruciais para a mudança de comportamento nessa faixa etária.

No entanto, a literatura ainda apresenta desafios significativos que limitam a generalização e a sustentabilidade dessas intervenções. A evidência sobre a eficácia a longo prazo é escassa e frequentemente inconclusiva, com estudos relatando baixa adesão e inconsistência nos resultados ao longo do tempo. Além disso, a heterogeneidade metodológica e a precisão variável de dispositivos vestíveis comprometem a comparabilidade e a validade de alguns achados. Fatores contextuais, como a necessidade de maior personalização e a falta de integração com o suporte familiar e a prática clínica, também emergem como barreiras importantes a serem superadas.

Conclui-se que as intervenções de saúde digital representam uma ferramenta poderosa e escalável para a promoção da saúde cardiovascular, mas seu pleno potencial ainda não foi totalmente alcançado. Para isso, são urgentes estudos futuros mais robustos, que investiguem a sustentabilidade dos efeitos a longo prazo, explorem a eficácia de diferentes plataformas e mecanismos de forma mais rigorosa, e considerem a personalização das abordagens. A superação dessas lacunas permitirá a criação de diretrizes baseadas em evidências para o desenvolvimento de soluções digitais eficazes, que possam ser integradas de forma definitiva na prevenção e gestão das doenças cardiovasculares em jovens.

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1 Acadêmico de Medicina. Centro Universitário Uninorte, AC, Brasil

1*Autor correspondente: scatolinmanuu@gmail.com