RECOMENDADORES E LEILÕES EM REDES SOCIAIS: COMO PERSONALIZAÇÃO E GATILHOS DE INTERFACE ELEVAM A COMPRA POR IMPULSO E AFETAM O BEM-ESTAR 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512211506


Lucas Santos Marquezzini¹
Matheus Almeida de Carvalho²


RESUMO: As redes sociais integram recomendação algorítmica, anúncios personalizados  e pagamentos de baixa fricção, criando um funil atencional que pode favorecer compras  não planejadas, mas a literatura carece de uma síntese orientada à engenharia para explicar  esse processo no Instagram. Este trabalho objetiva mapear como a arquitetura  multissuperfície do Instagram (Feed, Explore e Reels) se relaciona com o aumento do  desejo de compra por impulso e com marcadores de bem-estar. Adotamos uma revisão  integrativa que conecta engenharia de ranking e leilões publicitários, gatilhos de interface  (escassez/urgência, prova social) e psicologia do consumidor (autocontrole,  fadiga/reatância) sob o arcabouço S-O-R. A síntese indica que a otimização por taxa  estimada de ação (acoplamento ranking + leilão) tende a gerar sobre-exposição a conteúdo  persuasivo e ativar vias hedônicas, elevando o urge to buy, especialmente entre usuários  com menor autocontrole. Como contribuição, propomos um modelo técnico-psicológico  unificado e diretrizes de engenharia ética — diversidade mínima de exposição, janelas de  cool-down e transparência útil — para mitigar riscos ao bem-estar e orientar decisões de  produto e pesquisas futuras. 

Palavraschave: Instagram. sistemas de recomendação. publicidade personalizada.  compra por impulso. bem‑estar. S‑O‑R. 

ABSTRACT: Social media integrates algorithmic recommendation, targeted advertising,  and low-friction payments, creating an attentional funnel that can favor unplanned purchases, yet the literature lacks an engineering-oriented synthesis explaining this process  on Instagram. This study aims to map how Instagram’s multi-surface architecture (Feed,  Explore, and Reels) relates to increased impulse-buying desire and markers of well-being.  We conduct an integrative review that connects ranking engineering and ad auctions, UI  triggers (scarcity/urgency, social proof), and consumer psychology (self-control,  fatigue/reactance) under the S-O-R framework. The synthesis indicates that optimizing for  estimated action rate (the ranking–auction coupling) tends to produce over-exposure to  persuasive content and activate hedonic pathways, heightening urge to buy, particularly  among users with lower self-control. As a contribution, we propose a unified techno psychological model and ethical engineering guidelines—minimum exposure diversity,  cool-down windows, and useful transparency—to mitigate well-being risks and inform  product decisions and future research. 

Keywords: Instagram. recommender systems. targeted advertising. impulse buying.  well‑being. S‑O‑R.

1 INTRODUÇÃO 

O Instagram consolidou‑se como um ecossistema de recomendação  multissuperfície (Feed, Explore e Reels). Em cada superfície, mecanismos de  ordenação (rankers) definem a posição de exibição a partir de sinais  comportamentais (retenção, cliques, salvamentos), atributos do item (tema, trilha  de áudio, popularidade contextual) e afinidade entre emissor e receptor,  maximizando uma função‑objetivo por scroll (p. ex., probabilidade estimada de  engajamento/ação). Em paralelo, os espaços publicitários nessas mesmas  superfícies são alocados por leilões que combinam lance do anunciante,  qualidade/relevância do criativo e taxa de ação estimada do usuário, sob budget  pacing. O efeito prático é a fusão entre conteúdo orgânico e pago em um funil  atencional único, no qual ambos disputam posição exatamente nos momentos de  suscetibilidade previstos pelos modelos. 

Essa arquitetura cria condições férteis para compras não planejadas sob  baixa deliberação. Dois mecanismos são decisivos: (i) personalização baseada  em dados, que intensifica a exposição repetida a itens com alta probabilidade  estimada de clique/ação; e (ii) gatilhos de interface (prova social,  escassez/urgência) combinados a pagamentos de baixa fricção (autofill, carteiras,  buy now), que comprimem a janela de decisão e convertem desejo em ação.  Evidências recentes sugerem que recomendações personalizadas e anúncios  segmentados tendem a elevar o “desejo de comprar” (urge to buy) por vias  afetivas (entretenimento/afeição) e cognitivas (informatividade/credibilidade), com  predominância da via hedônica em redes sociais (e.g., Chen et al., 2019; Verma  & Gupta, 2024). Em paralelo, há indícios de custos ao bem‑estar em subgrupos  vulneráveis (e.g., Nyrhinen et al., 2024). 

Lacuna. Falta na literatura uma síntese orientada à engenharia que  conecte, ponta a ponta, o “como” (acoplamento ranking + leilão) ao “quê” (gatilhos  de interface) e aos desfechos de consumo (impulso, clique, compra) e bem‑estar  do usuário, especificamente no contexto multissuperfície do Instagram.

Tese orientadora. Argumenta‑se que, no Instagram, a combinação entre  ranking por superfície (Feed/Explore/Reels) e publicidade personalizada tende a  intensificar a exposição repetida, a prova social e os gatilhos de  urgência/escassez, elevando o desejo de compra por impulso. Esse efeito é  condicionado por diferenças individuais — amplificado em usuários com menor  autocontrole e atenuado por fadiga ou reatância à personalização. 

Objetivos da revisão. (1) Mapear como personalização e posicionamento  (ranking) se associam ao desejo impulsivo; (2) identificar gatilhos de interface  (prova social, urgência/escassez, rótulos) que amplificam esse efeito; (3) analisar  como autocontrole e fadiga/reatância moderam o processo; e (4) explorar  associações reportadas entre impulso e indicadores de bem‑estar. 

Contribuições. A revisão oferece: (i) uma cartografia técnica do “como é  feito” (sinais, ranking e leilão); (ii) um modelo conceitual integrador que articula  recomendação, gatilhos e moderadores psicológicos sob S‑O‑R; e (iii) diretrizes  de engenharia ética (diversidade de exposição, cooldowns, transparência útil)  derivadas da síntese. 

2 DESENVOLVIMENTO 

A compra não planejada no ambiente de social commerce decorre de  decisões de engenharia de sistemas que controlam exposição, ordenação e  pagamento. No Instagram, o acoplamento ranking + leilão consolida, em um  mesmo funil atencional, conteúdo orgânico e anúncios: rankers por superfície  maximizam a probabilidade estimada de engajamento/ação a cada scroll,  enquanto os espaços publicitários são alocados por leilões que combinam lance,  qualidade/relevância do criativo e taxa de ação estimada, sob budget pacing

Assim, ambos disputam posição nos momentos previstos de suscetibilidade do  usuário. 

Para dissecar este ecossistema, propomos um modelo que integra esses  domínios em três pilares: (1) Ecossistema de Estímulos (S), (2) Mecanismo  Interno de Mediação (O) e (3) Fatores Moderadores.

2.1 ECOSSISTEMA DE ESTÍMULOS (S): GATILHOS ALGORÍTMICOS E DE  INTERFACE 

2.1.1 Conteúdo (ranking e anúncios) 

Em plataformas sociais, a otimização de ranking tende a priorizar  engajamento, não “informação”. Evidências em larga escala em contexto correlato  (Facebook Pages) mostram que apelos persuasivos/afetivos (humor, emoção,  filantropia) elevam engajamento (curtidas/comentários), enquanto conteúdo  puramente informativo (p. ex., preço) pode reduzir tais sinais quando isolado (Lee;  Hosanagar; Nair, 2013). A extrapolação para-Instagram deve ser cautelosa, mas  é plausível dado o parentesco entre superfícies orientadas a feed. 

Tabela 1 – Efeito de conteúdo persuasivo vs. informativo no engajamento.

Fonte: Adaptado de LEE, D.; HOSANAGAR, K.; NAIR, H. S. (2013). SSRN The Effect of  Advertising Content on Consumer Engagement: Evidence from Facebook

2.1.2 Interface (gatilhos e fricção) 

Uma vez capturada a atenção, a interface pode comprimir a janela de  decisão. Gatilhos de escassez (“últimas unidades”) e urgência (contadores  regressivos) funcionam como heurísticas de valor (Ali; Maqsood; Janjua, 2025), e 

quando combinados a pagamentos de baixa fricção (autofill, carteiras digitais, buy  now), facilitam a conversão. Resultados de survey sugerem efeitos positivos de  personalização, escassez e urgência sobre intenção de compra, com variância  explicada substantiva (e.g., R² ≈ 0,52) no modelo reportado por Ali; Maqsood;  Janjua (2025). 

Tabela 2 – Sumário do modelo de regressão (personalização, escassez, urgência).

Fonte: Adaptado de ALI, F.; MAQSOOD, H.; JANJUA, Q. (2025). The Critical Review of Social  Sciences Studies, 3(2), 269–289. 

2.2 MECANISMO INTERNO (O): MEDIAÇÕES AFETIVAS E COGNITIVAS 

Os estímulos (S) não levam diretamente à resposta (R); são processados  pelo organismo (O) por vias cognitivas e afetivas. A literatura de social commerce indica que confiança afetiva e afeição frequentemente mediam o caminho para o  desejo de compra impulsiva, superando a via puramente cognitiva (Chen et al.,  2019; Verma; Gupta, 2024). 

• Via Cognitiva (confiança racional): qualidade da informação → confiança  cognitiva (competência/percepção de utilidade). 

• Via Afetiva (confiança emocional): similaridade/estética → confiança afetiva →  urge to buy

Em Chen et al. (2019), modelos de equações estruturais (SEM) mostram efeito  direto e significativo da confiança afetiva sobre o desejo de compra impulsiva (β ≈  0,218).

Figura 1 – Modelo teórico dos mediadores de confiança no social commerce.

Fonte: Adaptado  de CHEN, Y. et al. (2019). Information & Management, 56(2), 236–248. 

2.3 MODERADORES PSICOLÓGICOS (LIMITES DO SISTEMA) 

A eficácia do pipeline não é uniforme: depende de moderadores de  vulnerabilidade e resistência. 

• Vulnerabilidade (baixo autocontrole). Estudos com jovens consumidores indicam  associação entre baixo autocontrole e maior propensão à compra por impulso (β  ≈ 0,403), maior impulsividade em redes sociais (β ≈ 0,240) e atitudes mais  positivas a anúncios segmentados (β ≈ 0,247) (Nyrhinen et al., 2024). 

• Resistência (fadiga e reatância). Exposição repetida a gatilhos de  escassez/urgência pode gerar fadiga publicitária e dessensibilização (Ali;  Maqsood; Janjua, 2025). Sinais de personalização excessiva ou rótulos  percebidos como manipulativos podem ativar reatância psicológica; em Amin  (2024), rótulos de IA “recomendado por IA” não elevaram intenção (p = 0,065),  sugerindo limites para nudges.

Tabela 3 – Baixo autocontrole → impulso (modelo SEM). 

Fonte: Adaptado de NYRHINEN, J. et al. (2024). Computers in Human Behavior, 153, 108129. 

3 DISCUSSÃO E MODELO TEÓRICO PROPOSTO 

A revisão permite ir além da ideia simplista de que “algoritmos causam  impulso”. A integração entre engenharia de ranking/leilões, mediadores  psicológicos e moderadores sugere um mecanismo coeso. 

3.1 JANELA ALGORÍTMICA DE SUSCETIBILIDADE 

Propomos o conceito de Janela Algorítmica de Suscetibilidade: intervalo  temporal em que conteúdo orgânico eleva sinais de engajamento, os rankers por  superfície ampliam a exposição, o leilão publicitário sincroniza impressões pagas  para explorar o pico de suscetibilidade e gatilhos de interface + baixa fricção  convertem emoção em ação. 

• Abertura (engenharia): priorização de conteúdo com alto potencial  persuasivo/afetivo que gera sinais de engajamento. 

• Exploração (ads): sincronização via leilão e budget pacing

• Conversão (psicologia): ativação predominante de vias hedônicas e confiança  afetiva. 

• Fechamento (interface): urgência/escassez + pagamentos de baixa fricção.

3.2 MODERADORES COMO PEÇA CENTRAL: QUANDO A PERSUASÃO  FALHA 

• Amplificação (vulnerabilidade): mais efeito em perfis de baixo autocontrole. 

•Atenuação (resistência): fadiga por repetição e reatância a sinais de  personalização limitam o efeito; rótulos de IA podem não funcionar como nudge universal. 

3.3 IMPLICAÇÕES PRÁTICAS (ENGENHARIA DE PRODUTO ÉTICA) 

• Criativo e ranking com diversidade: balancear atributos persuasivos com  diversidade de exposição (p. ex., meta de diversidade mínima por sessão). 

• Orquestração responsável com ads: usar pacing para evitar saturação; reduzir  frequência de gatilhos para coortes suscetíveis. 

• Gatilhos com freios: frequency caps e janelas de cool‑down para mensagens de  urgência/escassez. 

• Fricção justa: passos de confirmação opcionais para valores altos ou categorias  de alto impulso. 

3.4 LIMITAÇÕES E AGENDA DE PESQUISA 

1) Plataforma: muitas evidências são de contextos correlatos (Facebook,  WeChat); validar diretamente em Instagram (por superfície). 

2) Causalidade: forte presença de estudos transversais (survey/SEM); ampliar  com experimentos. 

3) Medidas de bem‑estar: predominância de autorrelato; combinar com métricas  comportamentais. 

Agenda proposta: (i) Survey + SEM replicando S→O→R e moderadores  (autocontrole, fadiga) no Instagram; (ii) Experimento 2×2 em feed simulado  (personalização: alta/baixa × urgência: presente/ausente); (iii) Experimentos  naturalistas com logs de sessão; (iv) modelos dinâmicos de fadiga para estimar  dessensibilização ao longo do tempo.

4 CONCLUSÃO 

Esta revisão integrativa articulou, no contexto multissuperfície do  Instagram, o encadeamento técnico-psicológico que liga decisões de ranking e  leilões publicitários (S) aos gatilhos de interface e, por meio de vias hedônicas e  da confiança afetiva (O), ao aumento do desejo de compra por impulso (R), sob a  modulação de autocontrole, fadiga e reatância. Ao consolidar evidências  dispersas, propusemos a noção de Janela Algorítmica de Suscetibilidade, que  explica quando o funil atencional integra conteúdo orgânico e pago para  maximizar a conversão — e porque esse processo é heterogêneo entre usuários.  O resultado principal é um modelo unificado S-O-R orientado à engenharia, capaz  de traduzir construtos psicológicos em variáveis de produto e métricas  operacionais. 

Do ponto de vista prático, derivamos diretrizes de engenharia ética que  equilibram desempenho e responsabilidade: diversidade mínima de exposição por  sessão, frequency caps e janelas de cool-down para gatilhos de  urgência/escassez, fricção justa em compras de maior risco e transparência útil  que informa sem induzir reatância. Reconhecemos limites da literatura  (predominância de autorrelato e de estudos transversais, generalização entre  plataformas) e delineamos uma agenda empírica com survey/SEM específico  para Instagram, experimentos controlados em feed simulado e estudos  naturalistas com logs para modelar fadiga ao longo do tempo. A adoção conjunta  do modelo e das diretrizes oferece um caminho concreto para reduzir potenciais  custos ao bem-estar sem renunciar à relevância e da eficiência do sistema. 

REFERÊNCIAS 

LEE, D.; HOSANAGAR, K.; NAIR, H. S. The Effect of Advertising Content on  Consumer Engagement: Evidence from Facebook. SSRN Working Paper, [S.l.],  2013. Disponível em: https://ssrn.com/abstract=2290802. Acesso em: 16 out.  2025

CHEN, Y.; LU, Y.; WANG, B.; PAN, Z. How do product recommendations affect  impulse buying? An empirical study on WeChat social commerce. Information & Management, [S.l.], v. 56, n. 2, p. 236–248, 2019. Disponível em:  https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0378720617305372.  Acesso em: 18 out. 2025.

AMIN, A. Artificial intelligence in social media: a catalyst for impulse buying  behavior? Young Consumers, [S.l.], ahead of print, 2024. Disponível em:  https://www.emerald.com/yc/article-abstract/doi/10.1108/YC-10-2024- 2297/1256612/Artificial-intelligence-in-social-media-a catalyst?redirectedFrom=fulltext. Acesso em: 20 out. 2025.

NYRHINEN, J.; SIROLA, A.; KOSKELAINEN, T.; MUNNUKKA, J.; WILSKA, T.-A.  Online antecedents for young consumers’ impulse buying behavior. Computers in  Human Behavior, [S.l.], v. 153, p. 108129, 2024. Disponível em:  https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0747563223004806. Acesso  em: 23 out. 2025.

ALI, F.; MAQSOOD, H.; JANJUA, Q. Psychological Triggers in Online Shopping:  The Influence of Scarcity, Urgency, and Personalization on Consumer Buying  Behavior. The Critical Review of Social Sciences Studies, [S.l.], v. 3, n. 2, p. 269– 289, 2025. Disponível em:  https://thecrsss.com/index.php/Journal/article/view/443. Acesso em: 26 out. 2025.

VERMA, A.; GUPTA, A. K. Unveiling the Psychology Behind Personalized  Advertising: A Review of Impulsive Buying Behavior on Social Media Platforms.  SSRN Electronic Journal, [S.l.], 2024. Disponível em:  https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=5261403. Acesso em: 28  out. 2025.

PAL, S. Impulse Buying in the Digital Age – The Influence of Personalized Ads,  Recommendations, and Instant Purchasing Options. Integrated Journal for  Research in Arts and Humanities, [S.l.], v. 5, n. 2, p. 24–33, 2025. Disponível em:  https://www.researchgate.net/publication/389794428_Impulse_Buying_in_the_Di gital_Age_- _The_Influence_of_Personalized_Ads_Recommendations_and_Instant_Purchas ing_Options. Acesso em: 30 out. 2025.


¹Graduando em Engenharia de Software, Universidade de Vassouras, Maricá, RJ – Brasil, E-mail: lucas-marquezzini@hotmail.com;
²Mestrando em Engenharia de Biossistemas, Universidade Federal Fluminense (UFF). Orientador