REABILITAÇÃO ORAL COM ABORDAGEM MULTIDISCIPLINAR E PLANEJAMENTO DIGITAL: RELATO DE CASO CLÍNICO

MULTIDISCIPLINARY ORAL REHABILITATION WITH A DIGITAL PLANNING APPROACH: A CLINICAL CASE REPORT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602251508


Júlia Calvo Nunes1; Eduarda Letícia Pagliosa1; Marlon Rosin1; Afonso Elias Lermen1; Katyeli Regina Boufleuher Foltz1; Letícia Silva Vianna1; Lívia Moro Torres1; Lucas Coser1; Fabiana Scarparo Naufel2; Rolando Plumer Pezzini3


Resumo

Alterações estéticas e periodontais associadas a um grande trespasse vertical representam um desafio clínico na reabilitação oral, exigindo planejamento criterioso e integração multidisciplinar. Este artigo apresenta o relato de caso clínico de uma reabilitação planejada digitalmente em paciente com overbite acentuado, sorriso gengival, coroas clínicas curtas e exostoses ósseas, com queixa principal relacionada à estética do sorriso. O tratamento foi conduzido na clínica de Residência em Reabilitação Oral da Unioeste, e incluiu cirurgias periodontais, aumento da dimensão vertical de oclusão em resina composta indireta, facetas em resina composta nos dentes anteroinferiores e facetas cerâmicas em dissilicato de lítio nos dentes anterossuperiores, seguido por instalação de placa oclusal estabilizadora. O uso combinado de materiais restauradores permitiu conciliar estética, função, conservação de estrutura dental e boa relação custo/benefício. Os resultados demonstraram restabelecimento da harmonia dentogengival, obtenção de estabilidade oclusal, melhora significativa da estética do sorriso e satisfação do paciente.

Palavras-chave: Aumento da Coroa Clínica; Dimensão vertical de oclusão; Reabilitação Bucal; Overbite.

1 INTRODUÇÃO

O trespasse vertical aumentado, é definido pelo recobrimento excessivo dos incisivos inferiores pelos superiores, ultrapassando 40% da coroa clínica. Sua etiologia é multifatorial, envolvendo fatores congênitos e adquiridos (DAOKAR & AGRAWAL, 2016), podendo apresentar origem dentoalveolar, esquelética ou ambas (KUHN & NOGUEIRA, 2025). Clinicamente, essa condição pode interferir nos movimentos mandibulares (LEVY, 2020) e estar associada à redução do espaço interoclusal e desgaste ou fraturas dentárias, configurando desafios relevantes para o planejamento restaurador (BEDDIS et al., 2014).

Sob a perspectiva restauradora, a oclusão inadequada pode resultar em desgaste dentário progressivo, fraturas frequentes de restaurações, limitação do espaço restaurador e instabilidade oclusal no longo prazo (ALDOWISH et al., 2024). O tratamento da sobremordida pode envolver tanto intervenções periodontais, quanto as voltadas à articulação temporomandibular e também estratégias restauradoras, sendo o aumento da dimensão vertical de oclusão (DVO) parte do planejamento clínico (DAOKAR & AGRAWAL, 2016; ABDUO & LYONS, 2012). Com planejamento adequado, o aumento da DVO diminui o overbite, além de possibilitar criar espaço interoclusal para os materiais restauradores, redistribuir as cargas mastigatórias e otimizar os movimentos excursivos da mandíbula, assegurando maior longevidade clínica ao tratamento (ABDUO & LYONS, 2012; YADFOUT et al., 2024).

A presença de coroas clínicas curtas associadas à exposição gengival excessiva traz desafios importantes para o planejamento restaurador e obtenção de harmonia dentogengival. Coroas clínicas curtas podem se dever a variações dimensionais, desgaste dentário ou posicionamento coronal da gengiva (AKDAŞ, 2025). A análise da relação dento-gengival é essencial para o diagnóstico adequado que permita resultados estéticos mais previsíveis, geralmente envolvendo tratamento interdisciplinar (CHU et al., 2010). O aumento cirúrgico de coroa clínica é um dos procedimentos mais frequentes para  readequação estética do contorno gengival e das proporções dentárias, pois permite adequada exposição da estrutura dental e favorece a estabilidade periodontal e a longevidade das restaurações adesivas subsequentes (SMITH et al., 2023). 

A reabilitação de pacientes que apresentam alterações oclusais e comprometimentos periodontais exige planejamento minucioso, e muitas vezes multidisciplinar. Nesse contexto, a implementação do fluxo de trabalho digital tem se mostrado um diferencial determinante na previsibilidade terapêutica, sobretudo em casos de alta complexidade (OLIVEIRA & OLIVEIRA, 2025; QIU et al., 2024).  Estratégias como escaneamento intraoral, planejamento e enceramento digital e impressão 3D permitem análise estética e funcional aprofundadas, além de favorecerem a comunicação entre os profissionais envolvidos, facilitando a integração entre as etapas periodontais e restauradoras, e contribuindo para a execução de protocolos clínicos mais precisos e previsíveis (COACHMAN et al., 2017).

O objetivo deste artigo é relatar um caso clínico de reabilitação restauradora planejada digitalmente, envolvendo abordagem periodontal, aumento da dimensão vertical de oclusão e restaurações adesivas diretas e indiretas, para melhorias estéticas e funcionais de paciente com overbite acentuado e queixa estética.

2   METODOLOGIA 

O presente estudo trata-se de um relato de caso clínico cujos dados são provenientes dos atendimentos realizados na clínica odontológica do programa de Residência em Reabilitação Oral – Prótese Dentária e Dentística Restauradora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE.

3   RELATO DE CASO

Paciente do sexo feminino, 31 anos de idade, compareceu à Clínica da Residência em Reabilitação Oral da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) com queixa principal relacionada à insatisfação com a estética do sorriso. Durante a anamnese, a paciente relatou ausência de doenças sistêmicas e negou sintomas articulares. Informou ter realizado tratamento ortodôntico por 3 anos, concluído há aproximadamente 10 anos. Ao exame clínico inicial, na avaliação extraoral observou-se bom equilíbrio entre os terços faciais, inclinação do plano oclusal, linha do sorriso alta com exposição gengival aumentada (Figura 1). Na avaliação intraoral observaram-se coroas clínicas curtas, alinhamento dentário insatisfatório, contorno gengival irregular e restauração insatisfatória no dente 22 (Figura 2). A análise oclusal evidenciou ausência de guia canina, toque anterior excessivo, desgaste nos dentes anteriores e presença de sobremordida. 

Diferentes alternativas terapêuticas foram apresentadas à paciente, no entanto, houve preferência pelo uso de cerâmicas nos dentes superiores, e a etapa ortodôntica não foi aceita em razão do tempo de tratamento e do histórico prévio. Sendo assim, com base no exame inicial e em fotografias extra e intra-orais, o plano de tratamento proposto a paciente incluiu: clareamento dentário caseiro supervisionado, aumento cirúrgico das coroas clínicas anteriores na arcada superior, remoção das exostoses ósseas, aumento da dimensão vertical de oclusão, remodelação estética anterior inferior com resina composta e com cerâmica dos dentes superiores.

Figura 1 – Fotografia extraoral inicial.

Figura 2 – Fotografias iniciais intraorais.

O clareamento dental caseiro supervisionado foi realizado como etapa prévia ao tratamento cirúrgico e restaurador, para que os tecidos periodontais recém-operados não fossem expostos ao agente clareador, já que este poderia desencadear danos epiteliais e irritação gengival (KAHLER, 2022), comprometendo o processo cicatricial, além de definir a cor final a ser empregada nas facetas. Após moldagem superior e inferior em alginato (Hydrogum, Zhermack) e obtenção do modelos de gesso, foram confeccionadas moldeiras individuais em plastificadora a vácuo com placa de EVA de 1mm de espessura (Soft – EVA, Villevie). Foi registrada a cor inicial dos dentes na tonalidade A2 da escala Vita, no início do tratamento (Figura 3A). A paciente foi orientada a utilizar gel clareador à base de peróxido de carbamida 10% (Potenza Bianco PF, PHS Group) 4 horas ao dia por 21 dias, conforme protocolo clínico (KURY et al., 2025). Após 3 semanas, os dentes apresentavam tonalidade B1 (Figura 3B). 

Figura 3 – (A) Cor antes do clareamento; (B) Cor após o clareamento.

A paciente apresentava exostoses ósseas vestibulares bilaterais as quais a incomodavam ao sorrir, motivo pelo qual foi indicada e realizada a remoção cirúrgica. A figura 4 mostra o crescimento ósseo na região de primeiro pré-molar a segundo molar superior. O planejamento do aumento de coroa clínica estética (ACCE) foi fundamentado no planejamento digital e análise facial da paciente. Foi avaliado a posição das incisais com os lábios em repouso e a posição do lábio superior durante o sorriso máximo para determinar a quantidade ideal de exposição dentária e gengival (Figura 5). A partir desses parâmetros, foram definidas as proporções dentárias e o posicionamento das margens gengivais dos dentes anteriores, os quais foram repassados para o Mestrado da Unioeste para realização da cirurgia. A Figura 6 apresenta o pós-operatório imediato da cirurgia.

Figura 4 – (A) Aspecto pré-operatório; (B) Cicatrização após 7 dias.

Figura 5 – (A) Exposição incisal em repouso; (B) Planejamento digital para ACCE.

Figura 6 – (A) Pós-operatório imediato do ACCE.

Para a reabilitação oclusal e o aumento da dimensão vertical de oclusão (DVO), optou-se pela realização de restaurações indiretas em resina composta na arcada inferior. Inicialmente, foi confeccionado o JIG de Lucia em resina acrílica vermelha (Resinlay Speed Pattern, TDV), com a paciente posicionada em relação cêntrica, a fim de determinar a nova dimensão vertical e assegurar a reprodutibilidade da relação maxilomandibular e da posição côndilo-fossa, respeitando o selamento labial. Esse dispositivo foi utilizado para o registro desta nova dimensão no escaneamento intraoral (Primescan, Dentsply Sirona). Obtidos os modelos digitais e o registro oclusal, o software digital MeshMixer foi utilizado para verificação do aumento desejado e para enceramento digital dos dentes inferiores utilizando biblioteca digital aberta de dentes (Figura 7). O aumento obtido entre as cúspides de contenção dos segundos molares foi de 1.4mm, o que resultou em levante anterior de 4.1mm. Finalizada essa etapa, o modelo foi impresso (Anycubic Photon Mono 2) para confecção de guia em silicone (Clonage, DFL) e realização do mockup para avaliação dos contatos oclusais e movimentos de excursão mandibulares (Figura 8). 

Figura 7 – Enceramento digital do aumento de dimensão vertical.

Figura 8 – (A) Modelo impresso; (B) Guia para mockup; (C) Prova do mockup inferior.

Para a obtenção das restaurações indiretas, inicialmente foi confeccionada uma moldeira individual em placa de acetato de 1,5mm (Placa Cristal, BioArt) com alívio interno para o silicone transparente. Em seguida, foi feita a guia em silicone transparente (Silic One Clear Body, FGM) sobre o modelo dos dentes posteriores encerados, com stop anterior com anatomia original em silicone, a fim de garantir apoio e estabilidade durante a produção das peças (Figura 9). Assim que o silicone foi injetado sobre o modelo, o conjunto foi levado à panela de pressão (Aqua Press, Essence Dental) sob 20MPa por 10 minutos para evitar a formação de bolhas (Figura 10). Em seguida, as restaurações indiretas foram realizadas individualmente com resina composta termoplastificada (Herculite Precis EA1, Kerr), e então colocadas no dispositivo Wash & Cure (Anycubic) para pós-cura por 10 minutos (Figura 11). O acabamento foi realizado com discos de lixa abrasivos com sequência decrescente de granulometria, e o polimento por espirais, disco de pelo de cabra e feltro. A Figura 12 apresenta as peças finalizadas.

Figura 9 – Guia em silicone transparente para confecção das peças em resina composta.

Figura 10 – Panela Aqua press eliminadora de bolhas.

Figura 11 – Pós cura da resina composta.

Figura 12 – Overlays após acabamento e polimento.

Após verificação da adaptação das peças, realizou-se o isolamento absoluto de todo arco inferior para cimentação das peças. Previamente ao condicionamento, foi realizada limpeza dos dentes com pedra-pomes e água. Em seguida, realizou-se o condicionamento ácido do esmalte por ácido fosfórico a 35% (Gluma Etch, Kulzer) por 30 segundos, seguido de lavagem abundante e secagem. Posteriormente, foi aplicada uma fina camada de bond (Optibond FL, Kerr) sobre o esmalte, com remoção dos excessos com microbrush limpo, seguido de fotopolimerização por 40 segundos (Elipar DeepCure LED, Solventum). As peças em resina composta foram jateadas com óxido de alumínio 30µm (Microjato, Bio-Art Equipamentos Odontológicos), limpas e condicionadas por ácido fosfórico 35% (Gluma Etch, Kulzer) por 30 segundos. Após lavagem e secagem, foi aplicado silano (Silane Primer, Kerr) sobre a superfície interna da restauração por 60 segundos, seguido de evaporação do solvente com jato de ar suave. Em seguida, foi aplicado bond do sistema adesivo (Optibond FL, Kerr), com remoção dos excessos com microbrush limpo e fotopolimerização por 40 segundos (Elipar DeepCure LED, Solventum). A cimentação foi realizada com resina composta fluida (Supreme Flowable Restorative, Solventum) na cor A1, seguida de fotopolimerização por 40 segundos em cada face. Ao final, procedeu-se ao ajuste oclusal até obter contatos bilaterais e simultâneos. O passo a passo é ilustrado na Figura 13.

Figura 13 – (A) Isolamento absoluto; (B) Profilaxia com pedra -pomes; (C) Aplicação de ácido fosfórico; (D) Aplicação de adesivo; (E) Espessura das peças; (F) Peças cimentadas.

Com o objetivo de reconstruir as áreas de desgaste dos dentes anteriores e restabelecer a guia canina, foram confeccionadas facetas diretas em resina composta nos dentes anteriores inferiores. A Figura 14 apresenta o procedimento clínico. Após isolamento absoluto, realizou-se profilaxia com pedra-pomes e água, seguida de condicionamento por ácido fosfórico a 35% (Gluma Etch, Kulzer), aplicado por 15 segundos em dentina e 30 segundos em esmalte, seguido de lavagem abundante e secagem. Em seguida, foi aplicado o sistema adesivo (Optibond FL, Kerr), com aplicação do primer exclusivamente nas regiões de dentina exposta, seguida de evaporação do solvente com jato de ar suave, e posterior aplicação do adesivo em toda a superfície, seguido de fotopolimerização por 40 segundos. A aplicação das resinas compostas foi realizada de forma incremental, sendo cada camada fotopolimerizada individualmente por 40 segundos antes da aplicação do incremento subsequente. Com o auxílio de uma muralha anterior de silicone previamente confeccionada, a face lingual dos dentes foi construída com resina microhíbrida translúcida de alto valor (Forma WE, Ultradent). A estratificação foi realizada de forma incremental, iniciando pelas paredes proximais com resina microhibrida de esmalte (Harmonize A1, Kerr), seguida da aplicação de dentina (Herculite Precis A1, Kerr, pigmento branco (Epic, Biodinâmica) na região incisal, resina de efeito (IPS Empress Direct Effect – Trans Opal, Ivoclar) e finalização com esmalte acromático (Palfique LX5 – WE, Tokuyama). O acabamento foi realizado com discos de lixa abrasivos com sequência decrescente de granulometria, e o polimento por espirais, borrachas, disco de pelo de cabra. 

A Figura 15 ilustra o resultado após as cirurgias periodontais, o aumento da DVO e a realização das restaurações anteriores, sendo possível observar a modificação do volume ósseo, a melhora da proporção dos dentes superiores e a alteração na exposição dos dentes inferiores.

Nos dentes antero-superiores, após escaneamento intraoral e o encerramento do projeto em laboratório, a etapa de prova de mock-up foi realizada utilizando resina bisacrílica na cor bleach (Primma Art, FGM), como mostrado na Figura 16. Foram realizados ajustes e testadas as guias de lateralidade e protrusão, e a estética final validada pela paciente, para prosseguimento. Para o preparo das facetas, ilustrado na Figura 17, foi realizado desgaste inicial das regiões mais vestibularizadas, em seguida, foi colocado mock-up para realização dos preparos guiados, utilizando as pontas diamantadas 4142, 2135 (KG Sorensen) e brocas de micro preparo (FG MI 806.014F e FG MI 830.009F – Besser Dental). O acabamento foi dado com disco abrasivo de lixa e broca multilaminada FG 7664 (Prima dental, Angelus). Para confecção das peças optou-se pelo dissilicato de lítio fresado nas cores 1M1 (cervical) e 0.5M1 (Escala Vita 3D Master).

Figura 14 – (A) Isolamento absoluto; (B) Profilaxia com pedra -pomes; (C) Aplicação de ácido fosfórico; (D) Aplicação de adesivo; (E) Confecção da concha palatina; (F) Paredes proximais; (G) Camada de dentina; (H) Resina de efeito; (I) Camada final de esmalte.

Figura 15 – Aspecto após cirurgias periodontais e reabilitação inferior.

Figura 16 – Prova do mock-up.

Figura 17 – (A) Desgaste inicial; (B) Mock-up para realização do preparo guiado; (C) Preparos finalizados.

Após a realização das provas a seco, úmida e com cimento try-in (NX3 Try-In Gel, Kerr) nas cores Bleach e Clear, procedeu-se à etapa de cimentação (Figura 18).  Sob isolamento absoluto com auxílio do grampo B4 (Brinker, Coltene), os dentes foram jateados com óxido de alumínio 30µm (Microjato, Bio-Art Equipamentos Odontológicos), limpos e condicionados por ácido fosfórico a 35% (Gluma Etch, Kulzer), aplicado por 15 segundos em dentina e 30 segundos em esmalte, seguido de lavagem abundante e secagem. Em seguida, aplicou-se o sistema adesivo (Optibond FL, Kerr), com aplicação do primer em dentina, seguida de evaporação do solvente com jato de ar suave, e posterior aplicação do adesivo em toda a superfície, seguido de fotopolimerização por 40 segundos As peças, previamente jateadas em laboratório, foram condicionadas com ácido fluorídrico a 10% (Potenza Attacco HF, PHS Group) por 20 segundos, seguidas de lavagem abundante com água e secagem com jato de ar. A aplicação de ácido fosfórico 35% (Gluma Etch, Kulzer) foi realizada por 30 segundos, seguido de nova lavagem e secagem. O silano (Silane Primer, Kerr) sobre a superfície interna da peça por 60 segundos, seguido de evaporação do solvente com jato de ar suave. Na sequência, foi aplicado bond do sistema adesivo (Optibond FL, Kerr), com remoção dos excessos com microbrush limpo e fotopolimerização por 40 segundos (Elipar DeepCure LED, Solventum). As facetas foram cimentadas utilizando cimento resinoso fotopolimerizável na cor White (NX3 Light-Cure, Kerr), e a fotoativação foi realizada por 40 segundos em cada face. Ao final do procedimento, realizou-se o ajuste oclusal e a verificação das guias funcionais. As Figuras 19 e 20 apresentam as fotografias do caso clínico após a finalização do tratamento.

Figura 18 – (A) Prova das peças com cimento try-in; (B) Isolamento absoluto; (C) Aspecto após jateamento com óxido de alúminio; (D) Aplicação do ácido fosfórico; (E) Aplicação do sistema adesivo; (F) Aspecto após cimentação.

Por fim, visando a preservação e longevidade da reabilitação, indicada uma placa oclusal estabilizadora. Foram encaminhados ao laboratório, as moldagens em alginato (Hydrogum®, Zhermack), JIG de Lucia, registro de mordida e o arco facial para a montagem em articulador. A placa foi instalada e ajustada até a obtenção de contatos oclusais uniformes e simultâneos.

Figura 19 – Fotografia extraoral final. 

Figura 20 – Fotografias finais intraorais.

4   DISCUSSÃO

O trespasse vertical excessivo caracteriza-se pela sobreposição dos dentes anteriores superiores sobre os inferiores, superior a 2–3 mm ou maior que 40% da coroa clínica dos incisivos inferiores (KUHN & NOGUEIRA, 2025). Sua etiologia é multifatorial, podendo envolver alterações de origem esquelética, dentoalveolar e muscular (KUHN  & NOGUEIRA, 2025). Nessa condição, a inclinação acentuada da face palatina superior cria uma guia íngreme que restringe o envelope de função, influenciando diretamente os movimentos mandibulares e a distribuição das forças durante os movimentos excursivos (ABDUO & LYONS, 2012). Como consequência, aumenta o esforço muscular para a desoclusão, gerando sobrecarga mecânica que resulta em desgastes e falhas restauradoras (ABDUO & LYONS, 2012). Ainda, esses pacientes apresentam maior prevalência de sintomas de disfunção temporomandibular, quando comparados a indivíduos sem esse trespasse acentuado (LI et al., 2021). 

As reabilitações de casos complexos, que envolvem restabelecimento de função e proporções estéticas, envolvendo intervenção cirúrgica periodontal, requerem planejamento multidisciplinar criterioso, integrando princípios de oclusão, periodontia, dentística e prótese. Embora a ortodontia seja o tratamento de primeira escolha para correção da mordida profunda, fatores como tempo prolongado de tratamento e histórico ortodôntico prévio dificultam a aceitação pelos pacientes (HUANG et al., 2012). No caso relatado, diante da recusa pela paciente, optou-se pelo aumento da dimensão vertical de oclusão, uma vez que, possibilita a redistribuição dos contatos oclusais, alivia área de contato dos dentes anteriores e otimiza os movimentos excursivos da mandíbula (ABDUO & LYONS, 2012).

O aumento da dimensão vertical de oclusão foi realizado por overlays em resina composta indireta. O uso de resina é uma estratégia conservadora, especialmente quando os dentes antagonistas posteriores são hígidos (OSIEWICZ et al., 2019). Esse material foi selecionado por possibilitar a confecção de peças com pequena espessura sem a necessidade de desgaste da estrutura dental, preservando ao máximo o remanescente (CHANTLER et al., 2025). Além do excelente custo-benefício em comparação às cerâmicas, as resinas indiretas oferecem possibilidade de reparos intraorais e  maior resiliência (GRESDNIGT et al., 2019), o que pode favorecer a dissipação das cargas oclusais durante o período de adaptação à nova dimensão vertical. Entretanto, deve-se considerar limitações do material, como menor estabilidade de cor a longo prazo e resistência ao desgaste inferior à das cerâmicas vítreas, o que exige acompanhamento clínico periódico para manutenção do brilho e da integridade anatômica e de superfície das restaurações (ABDUO & LYONS, 2012; GONÇALVES; DE LIMA; BARRETO., 2023).

O sorriso gengival e a presença de exostoses ósseas podem comprometer a harmonia do sorriso e a autopercepção do paciente (AKDAŞ, 2025). Com o lábio em repouso, a borda incisal dos incisivos superiores já tocavam o lábio inferior, assim o aumento de coroa clínica estético, guiado pelo planejamento digital, foi a conduta de escolha para restabelecer as proporções dentárias. As exostoses, embora benignas, representavam desarmonia estética para a paciente e produziam volume excessivo conferindo convexidade exacerbada, justificando sua remoção (GOMES et al., 2020). O uso do planejamento digital permite análise estética integrada à face e à dinâmica labial, e foi determinante para comunicação com a periodontia, aumentando significativamente a previsibilidade e fidelidade entre o projeto virtual e o resultado clínico final (COACHMAN et al., 2017).

O fluxo de trabalho digital tem se consolidado como padrão-ouro para alcançar previsibilidade na reabilitação oral. Este processo inicia-se com o planejamento digital, que permite análise facial, dento-labial e dento-gengival através das fotografias, tornando o diagnóstico e a tomada de decisão mais eficientes (COACHMAN et al., 2017). O escaneamento intraoral elimina a imprecisão das moldagens convencionais e fornece um modelo digital de alta fidelidade (MANGANO et al., 2017). Sobre esse modelo, o enceramento digital é realizado, permitindo controle rigoroso de espessura e anatomia oclusal. Por fim, a impressão 3D do projeto permite a materialização de modelos, utilizados para a confecção do mock-up clínico.

Com base nas demandas estéticas e funcionais apresentadas no caso, e desejo específico pelo uso de facetas cerâmicas da paciente, optou-se pela confecção de facetas em dissilicato de lítio nos dentes superiores, buscando resistência ao manchamento e desgaste sem comprometer as propriedades ópticas (SOARES et al., 2014). Através do planejamento reverso com fluxo digital e preparos minimamente invasivos guiados por mock-up, foi possível restabelecer as proporções dentárias, corrigir o apinhamento e a inclinação do plano oclusal observados inicialmente.

A opção por um sistema híbrido, cerâmica no arco superior e resina composta no inferior, visa conciliar a resistência cerâmica com a resiliência da resina. A cerâmica superior oferece estabilidade de cor e brilho superficial (GONÇALVES; DE LIMA; BARRETO, 2023), propriedades fundamentais para atender aos requisitos de alta demanda estética da paciente. Ao mesmo tempo, a resina composta nos antagonistas apresenta maior resiliência, facilidade de ajuste oclusal e possibilidade de reparos diretos, além de melhor razão custo/benefício (GRESDNIGT et al., 2019). A diferença nas propriedades dos materiais implica em diferenças na resistência ao desgaste e estabilidade de cor, exigindo acompanhamento periódico, especialmente das restaurações inferiores, que estão mais suscetíveis ao desgaste ao longo do tempo (ABDUO & LYONS, 2012; GONÇALVES; DE LIMA; BARRETO, 2023). 

Ainda, considerando o padrão braquifacial da paciente e o uso de um sistema híbrido (cerâmica e resina), a instalação de placa oclusal estabilizadora tornou-se etapa imprescindível para a preservação da reabilitação. A literatura reforça que dispositivos interoclusais são fundamentais para dissipar tensões musculares e proteger os materiais restauradores contra forças parafuncionais, reduzindo o risco de fraturas ou desgaste precoce das resinas inferiores (ALDOWISH et al., 2024). 

5   CONCLUSÃO

O presente relato de caso demonstra que a reabilitação oral de pacientes com mordida profunda associada a alterações estéticas e periodontais pode ser realizada de forma previsível e conservadora, por meio de planejamento criterioso e abordagem multidisciplinar. A combinação entre aumento da dimensão vertical de oclusão, cirurgia periodontal estética e reabilitação restauradora adesiva permitiu restabelecer função, estética e harmonia do sorriso.

REFERÊNCIAS


1 Discente do Curso Superior de Residência em Reabilitação Oral – Prótese e Dentística da Universidade Estadual do Oeste do Paraná e-mail: juliacalvonunes@gmail.com
2 Discente do Curso Superior de Residência em Reabilitação Oral – Prótese e Dentística da Universidade Estadual do Oeste do Paraná e-mail: juliacalvonunes@gmail.com
3 Docente do Curso Superior de Residência em Reabilitação Oral – Prótese e Dentística da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Doutora em Dentística (PPGO/FOUSP). e-mail: fabiana.naufel@unioeste.br
3 Docente do Curso Superior de Residência em Reabilitação Oral – Prótese e Dentística da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Doutor em Prótese Dentária (PPGO/ULBRA). e-mail: rolando.pezzini@unioeste.br