QUEIMADAS E EFEITOS NA MORBIMORTALIDADE POR DOENÇAS RESPIRATÓRIAS EM CRIANÇAS EM CIDADE DA REGIÃO DO ARCO DO DESMATAMENTO, NA AMAZÔNIA BRASILEIRA: RESULTADOS PRELIMINARES EM UM ESTUDO DE CORRELAÇÃO 

BIOMASS BURNINNG AND EFFECTS ON MORBIDITY AND MORTALITY DUE TO RESPIRATORY DISEASES IN CHILDREN IN A CITY IN THE ARC OF DEFORESTATION REGION, IN THE BRAZILIAN AMAZON: PRELIMINARY RESULTS IN A CORRELATION STUDY

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202507112058


Valdir Soares de Andrade Filho1
Antonia Eduarda Alves Fadul2
Luigi Dieb Magalhães3
Adrieny Souza Cunha4
Maria Julia Menezes de Freitas5


RESUMO

Este estudo teve como objetivo investigar a correlação entre a ocorrência de queimadas, variáveis meteorológicas e os indicadores de saúde respiratória em crianças residentes no município de Rio Branco, capital do estado do Acre, no período de janeiro de 2005 a dezembro de 2024.  A pesquisa utilizou dados secundários obtidos de fontes oficiais: Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). As variáveis analisadas incluíram o número de focos de queimadas, médias mensais de temperatura do ar, umidade relativa do ar e precipitação, além de registros de internações hospitalares e óbitos por doenças respiratórias em crianças. Para a análise estatística, foram aplicados os testes de correlação de Pearson e de Spearman, conforme a distribuição dos dados. Os resultados preliminares revelaram uma associação positiva e estatisticamente significativa entre a quantidade de focos de queimadas e o número de internações hospitalares por doenças respiratórias na população infantil. A análise também indicou que condições meteorológicas como baixa umidade do ar coincidem com os períodos de maior incidência de queimadas e aumento de agravos respiratórios. Esses achados reforçam a hipótese de que a exposição à poluição atmosférica oriunda das queimadas impacta negativamente a saúde infantil, especialmente no que diz respeito ao sistema respiratório.

Palavras-chave: Queimadas, Poluição do ar, Saúde infantil, Amazônia.

ABSTRACT

The objective of this study was to investigate the correlation between the occurrence of wildfires, meteorological variables, and respiratory health indicators in children living in the municipality of Rio Branco, capital of the state of Acre, from January 2015 to December 2024. The research utilized secondary data obtained from official sources: the Department of Informatics of the Unified Health System (DATASUS), the National Institute for Space Research (INPE), and the National Institute of Meteorology (INMET). The variables analyzed included the number of wildfire outbreaks, monthly averages of air temperature, relative humidity, and precipitation, as well as records of hospital admissions and deaths due to respiratory diseases in children. Pearson and Spearman correlation tests were applied for statistical analysis, depending on the distribution of the data. The preliminary results revealed a positive and statistically significant association between the number of wildfire outbreaks and the number of hospital admissions for respiratory diseases among the pediatric population. The analysis also indicated that meteorological conditions such as low relative humidity coincide with periods of higher wildfire incidence and an increase in respiratory illnesses. These findings support the hypothesis that exposure to air pollution resulting from wildfires negatively affects children’s health, particularly with regard to the respiratory system.

Keywords: Biomass burning, Air pollution, Child health, Amazon

1 INTRODUÇÃO

As queimadas na região Amazônica brasileira representam uma das problemáticas socioambientais mais complexas e persistentes enfrentadas pelo país nas últimas décadas. Este fenômeno, que se intensifica especialmente durante os períodos de seca, está diretamente relacionado a fatores antrópicos, como a expansão das fronteiras agropecuárias, a grilagem de terras, a exploração madeireira ilegal e práticas agrícolas tradicionais como o uso do fogo para limpeza e manejo do solo. Tais práticas, embora muitas vezes justificadas pela dinâmica econômica regional, resultam em impactos ambientais severos, contribuindo significativamente para o desmatamento, a perda da biodiversidade e a degradação dos serviços ecossistêmicos da floresta (Fearnside, 2006; Rivero et al., 2009; Zanin et al., 2022).

Um dos principais territórios afetados por essa dinâmica é o chamado Arco do Desmatamento ou Arco de Fogo, um extenso território que se estende do oeste do Maranhão e do sul e leste do Pará em direção ao oeste amazônico, incluindo Mato Grosso, Rondônia, o sudeste do Acre e o sul do Amazonas. Essa região concentra os maiores índices de desmatamento e queimadas na Amazônia Legal, sendo caracterizada por intensa atividade agropecuária e pressões fundiárias, além de apresentar uma crescente ocupação desordenada do solo (Fearnside, 2006). O uso inadequado da terra, aliado à fiscalização ambiental frequentemente ineficaz, tem contribuído para a transformação acelerada da paisagem amazônica, convertendo florestas em pastagens e monoculturas, ao custo de uma profunda degradação ambiental (Becker, 2005).

As queimadas são responsáveis por emissões significativas de partículas de aerossóis para a atmosfera que exercem uma série de efeitos diretos e indiretos no clima e funcionamento do ecossistema amazônico. Especialmente as de grande escala, associadas ao desmatamento, as queimadas geram vastas quantidades de poluentes atmosféricos, como material particulado fino (PM2.5), monóxido de carbono (CO), dióxido de carbono (CO₂), hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs) e ozônio troposférico (Artaxo et al, 2006).

Diferentemente do que é observado em ambientes urbanos, em que a poluição atmosférica é caracterizada por uma exposição crônica, as queimadas na Amazônia representam uma exposição de elevada magnitude à saúde das pessoas por um período médio anual de 3 a 5 meses, associado ao período do verão amazônico, quando do período da estação climatológica seca. As regiões mais afetadas por emissões de queimadas são concentradas ao longo do arco do desmatamento, acompanhando também áreas de influência das rodovias (Andrade Filho, 2015). Como a pluma das queimadas consiste majoritariamente de particulado fino, este material pode ser transportado por longas distâncias, impactando a saúde da população da bacia amazônica em quase toda sua extensão (Ignotti et al, 2010; Gonçalves et al, 2012; Andrade Filho, 2015).

Esses poluentes, oriundos da queima de biomassa, são amplamente reconhecidos por seus efeitos adversos à saúde humana, particularmente sobre populações vulneráveis como crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias pré-existentes. Crianças, em especial, apresentam maior suscetibilidade aos efeitos da poluição do ar devido ao seu sistema respiratório em desenvolvimento, maior taxa de respiração e tempo de exposição ao ar livre (Pope et al, 1995; Ribeiro e Assunção, 2002; Arbex, 2004).

Estudos apontam o aumento da incidência de doenças respiratórias agudas, durante os períodos de maior intensidade das queimadas na região Amazônica (Rocha & Fagg, 2016; Fernandes & Terceiro, 2022; Sousa et al, 2024). Por outro lado, vale ressaltar também que as alterações de temperatura, umidade e o regime de chuvas podem aumentar as manifestações de doenças respiratórias, assim como alterar as condições de exposição aos poluentes atmosféricos.

Neste contexto, o objetivo do presente estudo foi investigar a correlação entre a ocorrência de queimadas, as variáveis meteorológicas e as internações hospitalares e mortalidade por doenças respiratórias em crianças residentes no município de Rio Branco, capital do Acre.

2 METODOLOGIA

Este estudo é de natureza descritiva, com abordagem quantitativa, e tem como objetivo investigar a correlação entre a ocorrência de queimadas, variáveis meteorológicas e a quantidade de internações hospitalares e mortalidade por doenças respiratórias em crianças residentes no município de Rio Branco, capital do estado do Acre. Localizado na região do Arco do Desmatamento da Amazônia brasileira, o município é historicamente marcado por elevados índices de desmatamento e queimadas, especialmente durante os períodos de estiagem, o que o torna um cenário propício para a análise dos impactos ambientais sobre a saúde infantil.

O município de Rio Branco apresenta uma área de 8.835,7 km², onde aproximadamente 44,95 km² são de área urbana. A população estimada mais recente, com referência em 1º de julho de 2024, é de aproximadamente 387.852 habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2025), com uma densidade populacional de 41,28 hab/km². Crianças até nove anos de idade representam cerca de 20% da população total.

Figura 1. Localização geográfica do município de Rio Branco, Acre.

Pela posição geográfica, Rio Branco situa-se em uma região de intensa radiação solar ao longo do ano. Apresenta clima equatorial úmido, classificado como do tipo Am segundo a classificação de Köppen-Geiger. Essa tipologia climática é característica da região amazônica, com temperaturas elevadas ao longo do ano e um regime de chuvas sazonalmente bem definido.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (2025), a temperatura média anual em Rio Branco gira em torno dos 26 °C, com variações que oscilam entre 24 °C e 27 °C. A precipitação anual varia entre 1.800 mm e 2.300 mm, sendo concentrada majoritariamente entre os meses de dezembro a abril, período classificado como chuvoso. Os meses de janeiro a março costumam registrar os maiores volumes de chuva, frequentemente superiores a 300 mm mensais. Por outro lado, o período seco ocorre entre junho e setembro, com destaque para os meses de julho e agosto, quando os índices pluviométricos podem ficar abaixo de 60 mm mensais. Durante essa estação, há queda na umidade relativa do ar, que pode atingir níveis inferiores a 50%, criando condições propícias para a ocorrência de queimadas e aumento da concentração de poluentes atmosféricos. A umidade relativa do ar, em geral, é elevada no restante do ano, situando-se entre 80% e 90%.

A análise foi realizada com base em dados referentes ao período de 1º de janeiro de 2005 a 31 dezembro de 2024, com o intuito de identificar padrões temporais e sazonais relacionados às variáveis ambientais e aos eventos de saúde observados. A população de interesse compreende todas as crianças de até 9 anos de idade, residentes no município de Rio Branco, cujos registros de internações hospitalares e óbitos por doenças do aparelho respiratório estão disponíveis nas bases de dados públicos nacionais, do Sistema Único de Saúde (SUS).

Todos os dados utilizados na presente pesquisa são secundários e de acesso público. As informações sobre a ocorrência de queimadas foram obtidas no Banco de Dados de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), disponível online. As variáveis meteorológicas, como temperatura média mensal do ar, umidade relativa média mensal e precipitação acumulada mensal, foram obtidas do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), com base nos registros da estação meteorológica de Rio Branco (Código 82915). 

Os dados sobre internações hospitalares e mortalidade por doenças respiratórias foram obtidos por meio do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), por meio do TABNET, utilizando os Sistemas de Informações Hospitalares (SIH/SUS) e Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIS/SUS), respectivamente. Foram consideradas as doenças classificadas no Capítulo X da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), códigos J00 a J99, correspondentes às doenças do aparelho respiratório.

As variáveis do estudo foram organizadas em séries temporais mensais, sendo classificadas em dois grupos principais: ambientais e de morbimortalidade. As variáveis ambientais incluirão o número mensal de focos de queimadas, a temperatura média do ar (em graus Celsius), a umidade relativa do ar (em porcentagem) e a precipitação (em milímetros). As variáveis de morbimortalidade compreenderam o número de internações hospitalares e o número de óbitos mensais por doenças respiratórias em crianças com até 9 anos de idade.

Para a análise estatística, foram aplicados testes de correlação de Pearson e de Spearman, conforme a distribuição das variáveis. A normalidade foi verificada por meio do teste de Shapiro-Wilk. A correlação de Pearson foi utilizada para identificar relações lineares entre variáveis com distribuição normal, enquanto a correlação de Spearman foi aplicada para variáveis com distribuição não normal ou de natureza ordinal. O nível de significância estatística adotado foi de 5% (p < 0,05). As análises foram realizadas com o auxílio do software estatístico JAMOVI versão 2.6.26.0.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise dos dados evidenciou uma relação entre a ocorrência de queimadas, as condições meteorológicas adversas e os agravos respiratórios em crianças de até nove anos no município de Rio Branco, estado do Acre.

A série temporal analisada revelou que os meses com maior número de focos de calor coincidiram com o período de estiagem na região, notadamente no segundo semestre de cada ano, quando se observam os menores índices de precipitação, as temperaturas médias mais elevadas e, sobretudo, a redução acentuada da umidade relativa do ar. Ao longo do período de estudo, foram registrados 12.811 focos de calor, no município de Rio Branco, sendo que 97,3% ocorreu entre os meses de julho a outubro. Esse padrão sazonal reflete a dinâmica ambiental típica da Amazônia ocidental, mas também revela um agravamento dos impactos ambientais e de saúde pública durante esse intervalo do ano, especialmente em áreas urbanas expostas à fumaça oriunda das queimadas, como é o caso de Rio Branco.

No período de 2005 a 2024, foram registradas 12.880 internações hospitalares por morbidade respiratória, no município de Rio Branco, sendo que as causas mais prevalentes foram Pneumonia (63%), Doenças crônicas das amígdalas e das adenóides (13%) e Asma (13%). Para óbitos por causas respiratórias em crianças, na área e período de estudo, o total observado foi de 185 indivíduos, sendo que as causas mais prevalentes foram Pneumonia (62%), Doenças respiratórias devidas a outras substâncias externas (26%) e Bronquiolite (7%).

Os testes estatísticos aplicados revelaram uma correlação positiva e estatisticamente significativa entre o número de focos de queimadas e o número de internações hospitalares por doenças do aparelho respiratório em crianças (Internação x Focos – Teste de Pearson 0.170, pvalor 0.005 e Teste de Spearman 0.128, p-valor 0.04). Tanto o coeficiente de Pearson, aplicado às variáveis com distribuição normal, quanto o coeficiente de Spearman, utilizado nas análises não paramétricas, indicaram uma associação direta entre o aumento da atividade de queimadas e a elevação dos casos de internação por doenças respiratórias. 

Em relação aos dados climáticos, a variável internação hospitalar apresentou correlação negativa e estatisticamente significativa com a temperatura do ar (Internação x Temperatura – Teste de Pearson -0.187, p-valor 0.004 e Teste de Spearman -0.198, p-valor 0.002), com precipitação (Teste de Spearman -0.201, p-valor 0.002) e umidade relativa do ar (Teste de Spearman -0.138, p-valor 0.03).

Foi observado que a variável de mortalidade por causas respiratórias, em crianças até nove anos, não apresentou nenhuma relação estatística significativa com as variáveis independentes focos de calor e dados climáticos analisados.

Tabela 1. Matriz de correlação de Pearson e Spearman entre as variáveis utilizadas. Período de 2015 a 2024. Rio Branco, Acre.

Este achado está em consonância com estudos prévios conduzidos na Amazônia Legal e em outras regiões do país. 

Rocha e Fagg (2016) buscaram analisar a correlação do incremento das queimadas e o aumento do número de internações por doenças respiratórias em crianças e idosos selecionados no período de 2009 a 2012, residentes em Alta Floresta e em Peixoto de Azevedo, situados no norte do Mato Grosso, na área de influência da rodovia, na Amazônia Legal. Os autores demonstraram que existe relação entre o incremento das queimadas e o aumento do número de atendimentos ambulatoriais nas faixas etárias pesquisadas.

Fernandes e Terceiro (2022) tiveram como objetivo identificar a influência das queimadas na prevalência de doenças respiratórias infantis, a partir da análise de prontuários dos pacientes da ala pediátrica que estiveram internados no Hospital Municipal de Marabá (HMM), no período de 2014 a 2016. Foi observado o número de internações por doenças respiratórias em crianças de até 5 anos de idade, sua relação com a umidade relativa do ar e o número de focos de queimadas ocorridos na cidade de Marabá – PA. Os resultados indicaram que as maiores taxas de comorbidades coincidem com o aumento dos focos de incêndios, bem como com a diminuição da umidade relativa do ar.

Sousa et al. (2024) buscaram discutir a prática das queimadas no contexto amazônico, os impactos dos poluentes na saúde humana e as principais doenças com influência de ocorrência associado às queimadas. O estudo indicou que as mudanças climáticas ocasionadas pelo aumento dos poluentes atmosféricos afetam várias esferas, como a biodiversidade, a economia e, em especial, a saúde da população, principalmente os agravos do sistema respiratório, o que por fim pode vir a aumentar o número de internações hospitalares por doenças respiratórias.

Neste cenário, Arbex et al. (2012) destacam que os poluentes liberados pelas queimadas, como o material particulado fino (PM2.5), monóxido de carbono e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, têm capacidade de penetrar profundamente nos pulmões e agravar quadros respiratórios, especialmente em populações vulneráveis.

No presente estudo, a associação observada entre baixa umidade relativa do ar e o aumento das internações hospitalares também foi estatisticamente significativa e cientificamente plausível. Durante o período de estiagem, a redução da umidade favorece a suspensão prolongada de partículas no ar, aumentando a concentração de poluentes atmosféricos nos ambientes urbanos.

A correlação entre temperatura média do ar e as internações respiratórias se apresentou estatisticamente significativa e inversamente proporcional. Ainda assim, os dados indicaram uma tendência de aumento das internações nos períodos com temperaturas mais elevadas, o que pode estar relacionado à intensificação da decomposição da matéria orgânica e à maior volatilização de compostos tóxicos oriundos das queimadas. Tais condições ambientais não apenas intensificam a exposição a poluentes, como também agravam os efeitos do estresse térmico sobre o organismo, especialmente entre crianças pequenas, que possuem maior taxa metabólica e menor capacidade de regulação térmica.

Como salientado por Arbex et al. (2012), o ar seco contribui para o ressecamento das vias aéreas e aumenta a suscetibilidade a infecções respiratórias e processos inflamatórios, especialmente em crianças, cujo sistema imunológico e aparato respiratório ainda estão em desenvolvimento. Neste cenário, a combinação entre ar seco e alta carga de poluentes eleva significativamente os riscos de bronquite, asma, pneumonia e outras afecções respiratórias agudas.

De modo geral, os resultados preliminares deste estudo corroboram e ampliam os achados de pesquisas anteriores, demonstrando que o modelo de uso do solo baseado na expansão de áreas agropecuárias, com o uso recorrente do fogo como ferramenta de manejo, contribui significativamente para o aumento da carga de doenças respiratórias na população infantil da Amazônia brasileira. A localização de Rio Branco dentro do chamado Arco do Desmatamento — uma faixa geográfica que concentra altos índices de supressão florestal e queimadas — reforça a urgência de se repensar as políticas de gestão territorial e ambiental na região. 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo contribui para o fortalecimento do corpo de evidências científicas que relaciona a degradação ambiental por queimadas ao aumento da morbimortalidade infantil por causas respiratórias. Os resultados aqui apresentados indicam a necessidade urgente de integração entre políticas ambientais, sanitárias e meteorológicas, a fim de mitigar os efeitos da poluição atmosférica na saúde pública, especialmente durante os períodos críticos de seca. 

A implantação de sistemas de alerta precoce, a adoção de estratégias de prevenção de queimadas e o fortalecimento das ações de vigilância em saúde ambiental são fundamentais para proteger as populações mais vulneráveis, sobretudo as crianças, diante das ameaças cada vez mais intensas dos impactos das mudanças ambientais sobre a saúde humana na Amazônia. É fundamental fortalecer os sistemas de vigilância ambiental e epidemiológica, bem como intensificar campanhas educativas e sanitárias nos períodos críticos do ano. A adoção de medidas preventivas, como alertas à população e estratégias de mitigação da exposição à fumaça, pode contribuir para a redução dos agravos respiratórios e dos custos sociais e econômicos associados.

Além disso, este trabalho, mesmo com resultados preliminares, evidencia a necessidade de aprofundar as pesquisas sobre os impactos das mudanças no uso do solo e das alterações climáticas na saúde humana, particularmente na Amazônia. A articulação entre ciência, gestão ambiental e políticas públicas é essencial para enfrentar os desafios complexos decorrentes da degradação ambiental e de seus reflexos diretos sobre a qualidade de vida das populações locais.

REFERÊNCIAS

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1Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas, colegiado de Geografia, da Escola Normal Superior. E-mail: vfilho@uea.edu.br 

2Discente do Curso de Licenciatura em Geografia, da Universidade do Estado do Amazonas
E-mail: aeaf.geo22@uea.edu.br

3Discente do Curso de Licenciatura em Geografia, da Universidade do Estado do Amazonas
E-mail: ldm.geo23@uea.edu.br

4Discente do Curso de Licenciatura em Geografia, da Universidade do Estado do Amazonas
E-mail: asc.geo22@uea.edu.br

5Discente do Curso de Licenciatura em Geografia, da Universidade do Estado do Amazonas
E-mail: mjmdf.geo22@uea.edu.br