ACTINIC CHEILITIS: A REVIEW OF CLINICOPATHOLOGICAL, DIAGNOSTIC, AND THERAPEUTIC ASPECTS.
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202509301612
Gustavo Fraga Landini1,3; Kenedy Anderson Cordeiro Felix Ribeiro1; Emilly Alves de Oliveira1; Kauã Henrique dos Santos1; Fernando José Santana Carregosa2; Manoel Henrique Santos da Conceição1; Fabio Luiz Oliveira de Carvalho4
RESUMO
Queilite actínica (QA) é um distúrbio potencialmente maligno que afeta principalmente o lábio inferior, causado pela exposição crônica à radiação ultravioleta (UV). É particularmente prevalente entre trabalhadores ao ar livre, como agricultores, pescadores e operários da construção civil, evidenciando sua associação com fatores ambientais e ocupacionais. Estudos no Brasil mostram maior prevalência em homens de pele clara com mais de 50 anos, refletindo a exposição solar cumulativa e a maior suscetibilidade. Clinicamente, a QA varia desde ressecamento persistente e discreta descamação até placas esbranquiçadas ou eritematosas, fissuras, crostas e ulcerações. Sua natureza crônica aumenta o risco de progressão para carcinoma espinocelular de lábio. O diagnóstico baseia-se no exame clínico e na biópsia, que pode revelar displasia epitelial e ceratinização atípica. A dermatoscopia também tem se mostrado útil na avaliação. O tratamento inclui vermelhonectomia cirúrgica, crioterapia, terapia fotodinâmica, laser, agentes tópicos como 5-fluorouracil ou imiquimode e novos medicamentos como o mebutato de ingenol. A prevenção por meio da fotoproteção labial e de programas educativos voltados a trabalhadores ao ar livre é essencial para reduzir a incidência e a progressão maligna. O presente trabalho tem como objetivo revisar a literatura científica sobre Queilite Actínica (QA), com foco em seus aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos.
Palavras-chave: Queilite actínica, Radiação ultravioleta, Carcinoma espinocelular, Diagnóstico, Tratamento.
ABSTRACT
Actinic cheilitis (AC) is a potentially malignant disorder affecting mainly the lower lip, caused by chronic exposure to ultraviolet (UV) radiation. It is particularly prevalent among outdoor workers such as farmers, fishermen, and construction workers, highlighting its association with environmental and occupational factors. Studies in Brazil show higher prevalence in fair-skinned men over 50, reflecting cumulative sun exposure and increased susceptibility. Clinically, AC ranges from persistent dryness and mild scaling to whitish or erythematous plaques, fissures, crusts, and ulcerations. Its chronic nature increases the risk of progression to lip squamous cell carcinoma. Diagnosis is based on clinical examination and biopsy, which may reveal epithelial dysplasia and atypical keratinization. Dermoscopy has also proven useful in evaluation. Treatment includes surgical vermilionectomy, cryotherapy, photodynamic therapy, laser, topical agents such as 5-fluorouracil or imiquimod, and newer drugs like ingenol mebutate. Prevention through lip photoprotection and educational programs targeting outdoor workers is essential to reduce incidence and malignant progression. The present paper aims to review the scientific literature on Actinic Cheilitis (AC), focusing on its clinical, diagnostic, and therapeutic aspects.
Keywords: Actinic cheilitis, Ultraviolet radiation, Squamous cell carcinoma, Diagnosis, Treatment.
1. INTRODUÇÃO
A queilite actínica (QA) é uma desordem potencialmente maligna caracterizada por alterações degenerativas na mucosa labial, principalmente no lábio inferior, decorrentes da exposição crônica e cumulativa à radiação ultravioleta (UV). Essa condição possui relevância epidemiológica significativa, afetando sobretudo indivíduos que desempenham atividades laborais ao ar livre, como agricultores, pescadores e trabalhadores da construção civil, estando fortemente associada a fatores ambientais e ocupacionais (Faria et al., 2022; Melo et al., 2021). Estudos brasileiros multicêntricos também confirmam maior prevalência em homens de pele clara, acima da quinta década de vida, refletindo tanto a maior susceptibilidade cutânea quanto a exposição solar acumulada (Silva et al., 2020).
Clinicamente, a QA apresenta um espectro de manifestações que variam de ressecamento persistente e descamação discreta até áreas esbranquiçadas, eritematosas, fissuras, crostas e ulcerações. Esse caráter crônico e progressivo é relevante porque está diretamente relacionado ao risco de degeneração maligna em carcinoma espinocelular de lábio (Bakirtzi et al., 2021; Carneiro et al., 2023). Entretanto, a diferenciação entre lesões iniciais e outras condições benignas, como queilites inflamatórias crônicas, pode ser complexa, o que muitas vezes pode atrasar o diagnóstico e comprometer o prognóstico adequado (Jha et al., 2022).
O diagnóstico é realizado por meio do exame clínico detalhado, frequentemente complementado pela biópsia, que revela displasia epitelial de diferentes graus, atipias celulares e áreas de queratinização anormal (Carneiro et al., 2023). Além disso, estudos recentes ressaltam a importância da dermatoscopia como ferramenta complementar na avaliação clínica (Jha et al., 2022).
No que se refere ao tratamento, diversas modalidades têm sido aplicadas, desde medidas preventivas até terapias ablativas e não ablativas. Entre as principais opções estão a vermelhectomia cirúrgica ou ou vermilionectomia, a crioterapia, a terapia fotodinâmica (Arisi et al., 2022; Radakovic et al., 2020), o laser (Ayen-Rodriguez et al., 2022), o uso de agentes tópicos como 5-fluorouracil e imiquimode (Bakirtzi et al., 2021) e até novas drogas, como ingenol mebutato (Rossini et al., 2021). A escolha terapêutica deve considerar fatores clínicos individuais, o grau de comprometimento da lesão e os recursos disponíveis, sendo essencial uma abordagem personalizada e baseada em evidências (Vasilovici et al., 2022).
No campo preventivo, estudos têm mostrado que a fotoproteção labial desempenha papel central, não apenas na redução da incidência da QA, mas também na prevenção de sua progressão maligna (Moon et al., 2021). Além disso, intervenções educativas indicam lacunas de conhecimento até mesmo entre acadêmicos da saúde, evidenciando a necessidade de programas de conscientização mais amplos (Oliveira et al., 2021). Estratégias de saúde pública direcionadas a trabalhadores expostos ao sol, como agricultores e pescadores, são fundamentais para diminuir os índices de QA, uma das neoplasias malignas mais agressivas da região bucal.
O presente artigo tem como objetivo revisar a literatura científica sobre a Queilite Actínica (QA), com foco em seus aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos. Busca-se, ainda, destacar a relevância da detecção precoce, as medidas preventivas e as estratégias terapêuticas disponíveis, discutindo sua eficácia e aplicabilidade na prática clínica, a fim de contribuir para a redução da progressão da doença e para a promoção de melhores resultados em saúde bucal.
2. METODOLOGIA
Esta revisão integrativa da literatura possui uma metodologia qualitativa, sendo baseada em ARISI, M. et al, CARNEIRO, M. C. et al, FARIA, M. H. D. et al, MELO, I. G. G. de et al.e no desenvolvimento da seguinte pergunta de pesquisa: quais são os fatores de risco mais relevantes, os desafios diagnósticos e as estratégias terapêuticas abordadas na literatura científica contemporânea acerca da Queilite Actínica, levando em consideração colaboração de uma equipe multidisciplinar? Para essa análise, foram empregadas bases de dados eletrônicas.: U. S. National Library of Medicine (PubMed), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Cochrane Library, Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Science Direct para pesquisar e identificar estudos que respondessem à pergunta norteadora desta revisão integrativa da literatura. A base de dados foi pesquisada para estudos realizados entre 2015 e 2025. Obtemos um total de 102 artigos, foram excluídos 44 após os critérios, não foram encontradas duplicatas e foram selecionados 15 artigos para esta pesquisa. Esta revisão integrativa baseou-se em cinco etapas: na primeira etapa foi o estabelecimento dos descritores para ambas as bases de dados, sendo uma com a utilização de MeSHterms (PubMed) e DeCS/MeSH (BVS). Em seguida, na segunda etapa, foi feita uma busca avançada nas bases e análise do quantitativo dos artigos científicos presentes na íntegra. Na terceira etapa, os artigos que atendiam aos critérios de elegibilidade definidos pelos pesquisadores foram escolhidos. Na quarta etapa, os pesquisadores criaram uma tabela descritiva contendo informações sobre os autores, os objetivos da pesquisa, os resultados e as conclusões. Em seguida, desenvolveram a discussão dos artigos científicos com o intuito de responder à pergunta central definida no início da metodologia. Foram utilizados três descritores para a composição da chave de pesquisa, sendo os seguintes (MeSH/DeCS). ((“actinic cheilitis”) AND (Therapeutics))) OR ((“actinic cheilitis”)) AND (signs)) ((“actinic cheilitis”) AND (diagnosis)) OR Os pesquisadores, então, escolheram os estudos que apresentavam análise no título e no resumo, conforme os critérios de elegibilidade estabelecidos. Esses critérios incluíam: publicações em português e inglês; ensaios clínicos, tanto randomizados quanto não randomizados; metanálises; revisões sistemáticas e outros artigos relacionados ao tema em questão.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os trabalhos que preencheram todos os critérios de seleção foram incluídos no estudo, os que não preencheram os critérios e/ou não se mostraram relevantes foram excluídos. Os resultados por análise foram representados na Tabela 1 e estabeleceu-se a construção da Tabela 2 aos estudos selecionados, com formulação das colunas (Autor/Ano; Objetivo do estudo; Resultados e Conclusão).
Tabela 1 – Seleção dos artigos por análise empregada e estabelecimento dos critérios de inclusão.

Tabela 2 – Estudos detalhados em tabela de resultados.











A queilite actínica (QA) é uma inflamação crônica do lábio, resultante principalmente da exposição prolongada à radiação ultravioleta, sendo classificada como uma condição oral potencialmente maligna. Trata-se de uma lesão que pode representar a etapa inicial do desenvolvimento do carcinoma espinocelular (CEC) invasivo do vermelhão labial (Arisi et al., 2022).
A QA acomete predominantemente indivíduos do sexo masculino (74,45%) e é mais prevalente em pessoas brancas (90,69%), em razão da menor quantidade de melanina e consequente redução da proteção natural contra a radiação ultravioleta. A exposição solar é apontada como o principal fator etiológico, associada a 61,69% dos casos. A idade também se configura como variável relevante, considerando o efeito cumulativo da radiação UV ao longo da vida. Assim, indivíduos mais velhos apresentam maior suscetibilidade, com média etária de acometimento de 57,45 anos (Carneiro et al., 2023).
Clinicamente, a QA manifesta-se por ressecamento associado à descamação e atrofia, com margens mal definidas e presença de erosões na região do vermelhão labial. O surgimento de ulcerações ou nódulos pode indicar possível evolução para um carcinoma espinocelular invasivo. Na dermatoscopia, a QA apresenta áreas esbranquiçadas sem estruturas definidas, descamações, erosões e halos esbranquiçados, enquanto na microscopia confocal de reflectância observa-se descontinuidade do estrato córneo, paraceratose com padrão em favo de mel atípico, ceratose solar, além de vasos dilatados e tortuosos com aumento do fluxo sanguíneo (Faria et al., 2022).
O uso inconsistente ou inadequado de medidas de proteção solar, como chapéus de aba larga e protetores labiais com filtro UV, também contribui significativamente para o desenvolvimento da QA, devido à constante exposição solar, que desencadeia uma série de reações prejudiciais em células e moléculas. Entre os principais processos envolvidos está o dano direto ao DNA, com a formação de estruturas anormais, como dímeros de pirimidina e fotoprodutos 6-4, que levam a mutações e à instabilidade do material genético dos queratinócitos. Além disso, a radiação UV induz a produção de espécies reativas de oxigênio, intensificando o estresse oxidativo e contribuindo para danos indiretos ao DNA (Melo et al., 2021).
Há uma associação relevante entre o tabagismo e o aumento do risco de desenvolvimento da QA. Nesse contexto, a combinação entre etilismo e tabagismo pode potencializar esse risco, visto que o álcool facilita a absorção de substâncias carcinogênicas presentes no cigarro (Melo et al., 2021).
Outro fator importante é o desregulamento dos mecanismos de controle do ciclo celular, especialmente pela perda ou falha funcional do gene TP53, responsável por prevenir a formação de tumores. A falha nesse sistema, associada às mutações induzidas pela radiação UV, compromete a reparação do DNA e favorece a apoptose (morte celular programada), promovendo o crescimento de células anormais com potencial carcinogênico (Rossini et al., 2021).
Entre os fatores não modificáveis, destaca-se o fototipo cutâneo: indivíduos com fototipos I e II, segundo a classificação de Fitzpatrick, apresentam risco significativamente aumentado em comparação àqueles com maior pigmentação. A idade também é determinante, com maior prevalência da doença em indivíduos com mais de 50 anos. O predomínio da QA em homens pode ser atribuído tanto a fatores biológicos quanto a padrões de exposição solar historicamente mais intensos e prolongados nesse grupo (Faria et al., 2022).
O tratamento da queilite actínica não se limita à eliminação da lesão displásica, mas também visa à redução do risco de progressão para carcinoma espinocelular. A restauração funcional do lábio e a adoção de medidas preventivas de longo prazo são essenciais. As medidas preventivas incluem fotoproteção labial com uso de protetores solares específicos para a região oral e interrupção de hábitos deletérios, como tabagismo e etilismo, que, em conjunto, aumentam significativamente a chance de transformação maligna (Vasilovici et al., 2022).
Em estágios iniciais, lesões localizadas ou difusas podem ser tratadas por métodos clínicos minimamente invasivos. Entre eles destacam-se: crioterapia com nitrogênio líquido, eficaz em lesões superficiais por induzir necrose seletiva do tecido alterado; laserterapia, que proporciona ablação precisa com menor agressividade e bons resultados estéticos; e a terapia fotodinâmica, na qual se aplica um fotossensibilizante — como o ácido 5-aminolevulínico — seguido de exposição à luz específica, promovendo destruição seletiva das células alteradas (Ayen-Rodriguez et al., 2022). Também são utilizados agentes tópicos, como o 5-fluorouracil (5-FU), antimetabólico eficaz em lesões difusas, e o imiquimode, imunomodulador que estimula a resposta imune contra as células alteradas, embora ainda seja menos utilizado, com relatos pontuais de sucesso (Vasilovici et al., 2022).
Na presença de displasia severa, suspeita de carcinoma ou lesões extensas, indica-se a vermelhectomia — ressecção parcial ou total do vermelhão labial —, que pode ser realizada por cirurgia convencional ou com laser cirúrgico. Este último oferece bons resultados funcionais e estéticos (Arisi et al., 2022; Radakovic et al., 2020).
O prognóstico da queilite actínica depende diretamente da escolha terapêutica mais adequada e da adesão do paciente às medidas preventivas. O acompanhamento clínico periódico, realizado a cada três a seis meses, é fundamental para monitorar possíveis recorrências ou sinais de transformação maligna (Vasilovici et al., 2022).
4. CONCLUSÃO
A queilite actínica (QA) permanece sendo um desafio significativo no cenário oncológico mundial, especialmente em virtude de seu diagnóstico frequentemente tardio, altas taxas de recorrência e prognóstico limitado. A predominância da doença em países com menor acesso a serviços especializados e o impacto de fatores culturais, como o uso de tabaco exigem ações direcionadas tanto para a prevenção quanto para o diagnóstico precoce. O cirurgião-dentista desempenha um papel central nesse contexto, sendo muitas vezes o primeiro profissional a ter contato com lesões potencialmente malignas ainda assintomáticas.
As abordagens terapêuticas vêm se diversificando com o avanço das pesquisas. Estratégias como a quimioterapia, a terapia fotodinâmica e os sistemas inovadores de liberação de fármacos têm mostrado potencial na redução dos efeitos colaterais e no aumento da eficácia terapêutica. Paralelamente, a incorporação de tecnologias digitais e inteligência artificial tem contribuído para melhorar a triagem, especialmente em ambientes com recursos limitados. Além disso, o uso de marcadores diagnósticos e biomarcadores moleculares, como p53, Ki-67, Ciclina D1, EGFR e HER2/neu, tem proporcionado avanços significativos na delimitação de margens cirúrgicas e na personalização do tratamento. Essas modificações complementam o exame histopatológico tradicional, agregando precisão ao diagnóstico e permitindo uma estratificação de risco mais eficaz.
Portanto, reforça-se a importância de uma abordagem multidisciplinar integrada, que envolva profissionais da odontologia, medicina, biologia molecular, patologia e oncologia, visando não apenas o controle da doença, mas também a progressão da qualidade de vida dos pacientes. Investir em capacitação profissional, tecnologias acessíveis e pesquisas robustas é essencial para superar os desafios clínicos e promover um cuidado mais resolutivo e humanizado no enfrentamento do QA.
REFERÊNCIAS
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1Discentes do Curso Superior de Odontologia do Centro Universitário AGES – Paripiranga, Bahia
e-mail: manoelhenriquesant@gmail.com – Centro Universitário Ages
2Mestrado em Odontologia Universidade Federal de Sergipe
3Docente da Faculdade do Nordeste da Bahia (FANEB)
4Mestrado em Educação Universidade Federal de Sergipe
