SLEEP QUALITY AND ANXIETY SYMPTOMS IN MEDICAL STUDENTS: A CROSS SECTIONAL STUDY AT A HIGHER EDUCATION INSTITUTION
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202601151835
Isadora Pinheiro Athayde1
Henrique Castro Mendes1
João Gabriel Sicupira Rodrigues1
Laíse Angélica Mendes Rodrigues2
RESUMO
Avaliar a relação entre qualidade do sono e sintomas ansiosos em estudantes de Medicina visando compreender os impactos na saúde mental e no bem-estar desses acadêmicos. Métodos: Estudo observacional, de caráter transversal, realizado com 140 estudantes de Medicina de uma instituição de ensino superior. A coleta de dados foi realizada por meio de questionário sociodemográfico, do Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI) e do Inventário de Ansiedade de Beck (BAI).Resultados: A amostra apresentou distribuição equilibrada entre os sexos e predominância de estudantes do ciclo clínico (59,3%). A média de sono foi de 6h40, com ampla variabilidade. A maioria relatou dificuldades para iniciar (72,1%) e manter o sono (81,4%), além de queixas como calor noturno (80%), dor ao deitar (64,3%) e sonolência diurna (57,1%). Quanto aos sintomas ansiosos, observou se predominância de intensidade leve a moderada, destacando-se nervosismo (74,3%) e incapacidade de relaxar (70%). O uso de ansiolíticos e indutores do sono foi baixo, predominando abordagens não farmacológicas. Conclusão: Os dados revelam elevada frequência de distúrbios do sono e sintomas ansiosos, reforçando a importância de estratégias de promoção da saúde mental.
Palavras-chave: Qualidade do Sono. Ansiedade. Estudantes de Medicina.
1. INTRODUÇÃO
A ansiedade é considerada um dos principais desafios de saúde mental enfrentados pela sociedade contemporânea, afetando uma em cada três pessoas em algum momento da vida (Bandelow e Michaelis S, 2015). Trata-se de uma condição que pode se manifestar de forma transitória ou patológica, a depender da intensidade dos sintomas e do impacto nas atividades cotidianas. Segundo Craske MG e Stein MB (2017), os transtornos de ansiedade englobam estados de medo e antecipação desproporcionais às ameaças reais, gerando sofrimento significativo e prejuízos nas funções sociais, acadêmicas e profissionais.
Entre os diversos fatores associados ao desenvolvimento e agravamento da ansiedade, a qualidade do sono destaca-se pela sua relação direta e bidirecional com os transtornos ansiosos. Estudos apontam que indivíduos com sono de baixa qualidade possuem maior propensão ao desenvolvimento de quadros ansiosos, assim como pessoas com ansiedade tendem a apresentar dificuldades para iniciar e manter o sono (Almondes KM e Araújo JF, 2003). Essa interação pode gerar um ciclo vicioso, no qual a ansiedade prejudica o sono e o sono deficiente intensifica os sintomas ansiosos (Gajardo J, et al., 2021).
No contexto acadêmico, especialmente em cursos da área da saúde, essa realidade se torna ainda mais preocupante. Estudantes de Medicina são frequentemente expostos a intensas cargas de estudo, responsabilidades práticas e elevado nível de exigência, o que os torna particularmente suscetíveis a distúrbios ansiosos e alterações no padrão do sono (Pagnin D e Queiróz V, 2015; Nogueira EG, et al., 2021).
A fisiologia do sono, enquanto função biológica essencial, exerce papel fundamental na manutenção do equilíbrio físico e mental. Durante o sono, ocorrem processos metabólicos e neuroquímicos cruciais, como a regulação emocional, a consolidação da memória e o controle do estresse (Carone CMM, et al., 2020). O sono é composto por ciclos que se alternam entre as fases REM (Rapid Eye Movement) e NREM (Non-Rapid Eye Movement), regulados pelo ritmo circadiano, sendo cada etapa responsável por funções específicas na recuperação do organismo (Júnior CCA, 2022; Jesus AAM, 2023). Fatores como estresse, hábitos inadequados, uso de substâncias, sedentarismo e rotina desorganizada podem impactar negativamente esses ciclos e, consequentemente, a saúde mental (Gajardo J, et al., 2021).
Diante do crescente aumento dos índices de ansiedade entre estudantes universitários, especialmente daqueles inseridos na formação médica, e considerando o impacto da qualidade do sono na saúde mental, torna-se relevante aprofundar a compreensão sobre essa associação. Dessa forma, este estudo tem como objetivo avaliar a relação entre qualidade do sono e sintomas ansiosos em estudantes de Medicina, visando contribuir para o entendimento do bem estar psicológico desses acadêmicos e fornecer subsídios para estratégias de promoção da saúde mental no ambiente universitário.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1 Fisiologia do Sono
O sono é um mecanismo natural do ser humano enquanto espécie, sendo uma necessidade intrínseca para regulação dos aspectos que norteiam a saúde física e mental biológica, a qual sofre influência direta do estilo de vida individual e coletivo, a qual a sociedade contemporânea está inserida (ALVES & ALVES, 2019). Dentro de uma média conhecida usualmente, um adulto saudável necessita em torno de 7 a 8 horas de sono, sendo de difícil estimativa a necessidade individual para regulação das funções corporais com êxito (SILVA, 2021).
Além disso, o rebaixamento de consciência desse momento individual, contribui para a diminuição das atividades metabólicas do organismo, bem como o relaxamento muscular e a atividade sensorial, sendo saudável à medida que corrobora para o descarrego do processo estressor cotidiano da contemporaneidade (CARONE et al., 2022). Nesse âmbito, a fisiologia saudável deste momento sofre influência direta na rotina, tendo reflexos na ocorrência de pesadelos ou a falta da satisfação no que tange o descanso proporcionado dentro disso (COELHO et al., 2020).
2.2 Fases do Sono (Sono REM e NREM)
O sono é regulado pelo ritmo de temporização circadiana (STC) – comumente chamado de “relógio biológico”. O STC, segundo Alvino (2021), segue a sincronização de períodos entre claro e escuro, influenciado por fatores externos – como a luz do sol- para alternar o organismo humano entre os períodos de sono e vigília, atuando na sua sincronização ao longo da vida. Levando isso em conta, o sono, como qualquer parte do organismo, sofre diferentes influências ao longo da vida, sendo fator preponderante para desencadear diferentes distúrbios da sua regulação, como a insônia, bem como transtornos psicossomáticos – destacando-se a transtornos de ansiedade (CHAGAS, 2019).
No sono NREM, existe a modulação GABAérgica, principal neurotransmissor dessa atividade, vindouro das as regiões hipotalâmicas, cujos neurônios estão constantemente ativos durante esse estado, na qual oscilam no córtex encefálico entre momentos de hiperpolarização e silêncio, resultando em estabilidade e dificultando a transmissão sensorial por todo o encéfalo. Essa condição está associada a ondas lentas, tornando difícil o despertar por estímulos do meio externo. (JÚNIOR, 2022).
Após esse momento, segue-se a fase REM do sono, caracterizada, dentro do Eletroencefalograma, pela dessincronização de ondas e atonia do sistema músculo-esquelético, exceto o controle motor dos olhos, onde ocorre movimentos oculares irregulares e rápidos. sendo nessa fase de sono que ocorre a maior parte do processo de sonhos (JESUS, 2023).
2.3 Fatores de Interferência no Sono
O sono e sua qualidade podem ser influenciados por diversos fatores, inerentes ao próprio indivíduo ou ao ambiente ao qual ele é exposto. Fatores endógenos e exógenos como dieta, estado psicológico, idade, patologias, interferências durante o sono, inatividade física e medicamentos são exemplos desses influenciadores (GAJARDO et al., 2021). A depender da intensidade desses componentes, a pessoa pode vir a desenvolver distúrbios do sono como a insônia, sonolência excessiva diurna ou até parassonias (movimentos e comportamentos incomuns durante o sono) (SCHWAB, [s.d.]).
Muitas vezes essa interferência no sono é perceptível pelo ritmo circadiano. Os distúrbios do sono ligados a esse ritmo se referem a estados em que o horário biológico não corresponde ao horário terrestre, de modo que a luz e escuridão se desalinha com a propensão do cérebro em acordar e dormir. Relacionando com fatores práticos discutidos no parágrafo anterior, o consumo de cafeína, pouca atividade diurna, medicamentos específicos, doenças como Alzheimer e encefalites, rotina desregulada, estresse emocional, irregularidade do horário de ir dormir, fuso horário etc corroboram para essa disparidade (SCHWAB, [s.d.]).
Esses desencontros do horário interno e externo ainda podem ser classificados como Doença da fase adiantada do sono (dormir cedo e acordar cedo), Doença da fase atrasada do sono (dormir tarde e acordar tarde) e Síndrome do sono vigília diferente (quando ocorre alternância do estado de dormir e acordar dependendo do dia) a depender da interação das influências citadas e a resposta do indivíduo (SCHWAB, [s.d.]).
2.4 Conceituando a Ansiedade Patológica
Os transtornos de ansiedade como um grupo são as condições mais prevalentes em saúde mental. Indivíduos com transtornos de ansiedade são excessivamente temerosos, ansiosos ou esquivos em relação à detecção de ameaças no ambiente (situações sociais ou locais não familiares) ou internos a si mesmos (sensações corporais incomuns). A resposta é desproporcional ao verdadeiro risco ou perigo representado. O medo ocorre como um resultado de uma ameaça iminente percebida, onde a ansiedade é um estado de antecipação sobre estas futuras ameaças (CRASKE & STEIN, 2017). O medo e a ansiedade típicos são usualmente transitórios, respostas adaptativas a um fator estressor, que entra em remissão quando este fator cessa. Entretanto, um indivíduo pode apresentar a ansiedade em um determinado espectro de severidade. A ansiedade mórbida normalmente resulta em constante sofrimento e prejuízo em áreas funcionais fundamentais (GODDARD, 2017).
Os Transtornos de Ansiedade são um importante problema de saúde pública, em virtude da sua prevalência, cronicidade, condições de comorbidade e impacto na qualidade de vida. Em uma análise a nível dos circuitos neurais, o reconhecimento dos estados de medo e ansiedade aparenta ser mediado por via cortical, enquanto respostas defensivas à ameaças (associada com respostas psicológicas e comportamentais) tendem a ser mediadas por via subcortical e estruturas e circuitos do tronco encefálico (GODDARD, 2017).
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a proporção de pessoas com distúrbios de ansiedade tem crescido ao redor do mundo, especialmente em países de renda baixa. A estimativa aponta que a proporção média mundial de pessoas com ansiedade era de 3,6% em 2015. Este problema é especialmente relevante no Brasil, em que a proporção de pessoas com ansiedade era quase três vezes superior à média global (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2017).
Apesar da diferença de metodologias utilizadas, estudos ao redor do mundo mostram que o Transtorno de Ansiedade Generalizado (TAG) é consistentemente associado com custo humano e econômico. Pessoas com TAG descrevem dificuldades devido à ambos os sintomas físicos e emocionais. Ademais, pacientes que sofrem do Transtorno de Ansiedade Generalizado juntamente com outras doenças mentais são substancialmente mais prejudicados do que pacientes que não possuem outra comorbidade associada (WADE, 2012).
2.5 A Relação entre o Sono e Ansiedade
A relação entre sono e ansiedade é demonstrada em estudos como sendo uma interação bidirecional, isto é, uma pessoa com uma personalidade ansiosa prévia possui tendência a ter uma labilidade de descanso comprometida, assim como um horário e qualidade de sono interferidos por fatores diversos podem desencadear ansiedade. A título de exemplo, uma situação em que um estudante que está ansioso pode levar a um adormecimento comprometido assim como o descanso alterado (por exigências da rotina por exemplo) pode desencadear ansiedade. Ademais, conclui-se que existe o risco de essa interação se tornar um ciclo vicioso, com o sono deficiente levando à ansiedade e essa ansiedade, por sua vez, levando a um sono ainda pior (ALMONDES & ARAÚJO, 2003).
3. METODOLOGIA
Para alcançar os objetivos propostos, realizou-se uma pesquisa de campo, com abordagem quantitativa, de caráter transversal e natureza epidemiológica, aplicada a acadêmicos do curso de Medicina do Centro Universitário FIPMoc (UNIFIPMoc), em Montes Claros (MG), durante o segundo semestre de 2024. O delineamento permitiu avaliar, em um momento específico, a relação entre qualidade do sono e sintomas ansiosos, buscando identificar padrões relevantes no contexto acadêmico.
A pesquisa foi realizada na própria instituição, envolvendo estudantes regularmente matriculados do 1º ao 12º período, maiores de 18 anos. Foram excluídos discentes menores de idade, com matrícula inativa, em afastamento ou que recusaram participação. A amostra foi constituída por adesão espontânea, sem definição prévia de número mínimo, considerando as limitações operacionais da coleta. Buscou-se maximizar o número de respondentes dentro do cronograma.
A coleta ocorreu de forma híbrida, por meio de formulário eletrônico (Google Forms®) enviado via WhatsApp® e aplicação presencial nas dependências da universidade. Foram realizados reforços a cada 15 dias. A participação ocorreu mediante aceite no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), disponibilizado no início do formulário.
O instrumento utilizado foi composto por três seções. A primeira abordou dados sociodemográficos e acadêmicos, incluindo informações como idade, sexo, período do curso e uso de medicamentos para indução do sono ou ansiolíticos, elaborado especificamente pelos pesquisadores para este estudo. A segunda seção correspondeu ao Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI), instrumento validado e amplamente utilizado para avaliar a qualidade do sono em adultos e foi aplicado o Inventário de Ansiedade de Beck (BAI).
Os dados foram organizados no Microsoft Excel® e analisados no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS®), por meio de análises descritivas e comparativas, visando explorar associações entre sono e ansiedade.
O estudo seguiu os princípios éticos da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, com aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFIPMoc. Todos os participantes assinaram eletronicamente o TCLE, e a pesquisa foi autorizada formalmente pela instituição.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A amostra foi composta por 140 estudantes do curso de Medicina, sendo a maioria do sexo masculino, que representou 50,7% dos participantes, enquanto o sexo feminino correspondeu a 49,3%, evidenciando uma distribuição relativamente equilibrada entre os gêneros. Quanto ao ciclo acadêmico, a maior parte dos participantes estava inserida no ciclo clínico, correspondendo a 59,3% da amostra, seguido pelo ciclo básico com 32,1%, e, em menor proporção, estudantes do internato, que representaram 8,6%. Essa distribuição demonstra um predomínio de estudantes em fase intermediária do curso, período caracterizado por grande carga de atividades práticas e contato direto com a realidade clínica, fatores que podem impactar diretamente na qualidade do sono, nos níveis de ansiedade e nas demandas psicossociais enfrentadas pelos discentes.
Tabela 1 – Distribuição dos participantes segundo sexo e ciclo acadêmico no curso de Medicina.

Fonte: Athayde IP, Mendes HC, Rodrigues JGS, 2025. Dados originais dos autores.
No que se refere ao tempo necessário para adormecer, a média encontrada foi de 25 minutos (±18 minutos), enquanto a mediana foi de 20 minutos, o que indica que metade dos estudantes adormece em até 20 minutos. Contudo, os valores variaram desde 5 minutos até casos extremos de 3 a 4 horas para iniciar o sono, evidenciando uma considerável heterogeneidade no tempo de latência do sono entre os participantes. O horário habitual de despertar no último mês apresentou uma média de 6h40 (±1h05) e uma mediana de 6h30, indicando que metade dos estudantes acorda até esse horário e a outra metade em horários posteriores. A distribuição dos dados revelou que o horário mais frequentemente citado foi 6h00 da manhã (23,6% da amostra), seguido de 7h00 (17,1%). No entanto, os horários de despertar variaram de forma significativa, desde 4h00 até 8h00 ou mais tarde.
Em relação à quantidade de horas de sono por noite, a análise apontou uma média de 6 horas e 40 minutos (±1h10), com uma mediana de 7 horas, refletindo que metade da amostra dorme até esse tempo e metade igual ou superior a esse valor. A distribuição foi bastante dispersa, com relatos que variaram entre 3 e 10 horas de sono por noite. As faixas de horas de sono mais frequentemente relatadas foram 7 horas (22,9%), seguidas de 6 horas (17,1%), além de um grupo relevante que relatou dormir 5 horas (5,7%) e outro que indicou dormir 8 horas (12,1%).
Esses dados revelam uma grande variação nos hábitos de sono dos estudantes de Medicina, tanto em termos de horários quanto na duração total do sono, com valores de média e mediana que ajudam a ilustrar o padrão predominante na amostra.
Dando continuidade à análise da qualidade do sono dos estudantes, os dados obtidos a partir do PSQI revelam uma frequência elevada de distúrbios relacionados tanto ao início quanto à manutenção do sono.
Observou-se que 72,1% dos estudantes relataram ter dificuldade para adormecer em até 30 minutos em pelo menos uma ocasião no último mês, sendo que 16,4% enfrentaram essa dificuldade de forma frequente (três ou mais vezes por semana). Além disso, 81,4% dos participantes relataram acordar no meio da noite em alguma frequência, com 17,9% experimentando esse problema de forma frequente (três ou mais vezes na semana). Esse padrão de despertares noturnos sugere uma fragmentação significativa do sono na amostra estudada, comprometendo sua continuidade e qualidade.
A necessidade de se levantar para ir ao banheiro também foi um fator relevante, com 65,7% dos estudantes relatando essa ocorrência em pelo menos um dia da semana, sendo que 10,7% enfrentaram essa situação com frequência semanal elevada. Já dificuldades respiratórias durante o sono foram menos prevalentes, embora 51,4% dos estudantes tenham relatado ter apresentado essa queixa ao menos uma vez no último mês, e 11,4% de forma frequente ( Três ou mais vezes na Semana )
Sintomas associados à síndrome da apneia, como tosse ou ronco forte, foram menos prevalentes na amostra: 67,1% dos estudantes não apresentaram esses sintomas no último mês, enquanto apenas 4,3% relataram que ocorrem três ou mais vezes por semana.
Em relação ao desconforto térmico, foi observado que a maioria não sentiu frio ao deitar, com 64,3% relatando ausência desse sintoma. No entanto, o calor noturno se destacou como queixa relevante: 80% dos estudantes referiram sentir calor ao se deitar em alguma frequência, com 23,6% relatando que isso ocorre três ou mais vezes na semana — possivelmente associado a fatores ambientais ou fisiológicos que comprometem o conforto durante o sono.
O relato de dor ao deitar também merece atenção, estando presente em 64,3% dos estudantes, sendo que 9,3% enfrentaram esse desconforto frequentemente (três ou mais vezes na semana).No que se refere ao conteúdo dos sonhos e à qualidade subjetiva do sono, 40% dos estudantes relataram ter tido sonhos ruins ao menos uma vez no último mês, com uma menor parcela (3,6%) vivenciando esse problema de forma frequente.
A sonolência diurna também se mostrou presente: 57,1% dos estudantes relataram alguma dificuldade para se manter acordados durante atividades cotidianas, como conversar, estudar ou assistir aulas, sendo que 10% indicaram que essa dificuldade é frequente (três ou mais vezes por semana).
Outro dado expressivo é a dificuldade para manter o entusiasmo nas atividades diárias, que esteve presente em 78,6% dos estudantes, sendo que 15% relataram enfrentar esse problema com alta frequência. Este dado sugere impacto relevante do sono de má qualidade sobre o bem-estar emocional e a motivação dos estudantes.
Tabela 2 – Distribuição dos Sintomas Relacionados à Qualidade do Sono entre os Estudante

De maneira geral , ao analisar a classificação da qualidade do sono entre os acadêmicos de Medicina, observa-se que metade dos participantes (50%) referiu ter uma qualidade de sono considerada “boa”, enquanto apenas 12,9% classificaram como “muito boa”, indicando que pouco mais de um décimo percebe seu sono como plenamente satisfatório. Por outro lado, uma parcela expressiva dos estudantes apresentou percepção negativa quanto à própria qualidade do sono: 30,7% relataram sono “ruim” e 6,4% descreveram como “muito ruim”, totalizando 37,1% com avaliação insatisfatória.

Além disso, foi analisado o uso de ansiolíticos e indutores do sono entre os pacientes ,revela um perfil de prescrição predominantemente conservador, com a maioria dos indivíduos não fazendo uso dessas medicações. No caso dos ansiolíticos, 77,1% dos pacientes não utilizam qualquer medicamento dessa classe, indicando uma possível preferência por abordagens não farmacológicas ou uma baixa necessidade de intervenção medicamentosa para quadros de ansiedade. Entre os que fazem uso de ansiolíticos, os antidepressivos aparecem como primeira opção, sendo os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) os mais prescritos (10%), seguidos pelos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN), com 7,1%. Já os benzodiazepínicos, apesar de sua eficácia reconhecida no controle agudo da ansiedade, apresentam um uso bastante restrito (2,1%), o que provavelmente reflete a preocupação com seus efeitos adversos, como risco de dependência e sedação. Outras classes, como os antidepressivos inibidores da recaptação de noradrenalina e dopamina (INRD) e antipsicóticos, aparecem em proporções mínimas (1,4% e 0,7%, respectivamente), sugerindo seu uso em casos específicos ou refratários.
No que diz respeito aos indutores do sono, os dados mostram que a grande maioria dos pacientes (87,86%) não faz uso de medicações para insônia, o que pode indicar tanto a eficácia de medidas não farmacológicas, como higiene do sono, quanto uma baixa prevalência de distúrbios graves de sono nessa população. Entre os medicamentos utilizados, os benzodiazepínicos aparecem em 3,57% dos casos, enquanto os hipnóticos não benzodiazepínicos (como o zolpidem) são prescritos em 2,86% das situações, refletindo uma tendência de preferência por fármacos com menor potencial de dependência. Alternativas como suplementos (2,86%), fitoterápicos (0,71%) e anti-histamínicos (0,71%) também são registrados.
Tabela 3 – Frequência de Uso de Classes Medicamentosas Relacionadas ao Sono e Saúde Mental


Fonte: Athayde IP, Mendes HC, Rodrigues JGS, 2025. Dados originais dos autores.
A análise dos dados obtidos por meio do Inventário de Ansiedade de Beck (BAI) revela que, de maneira geral, a maioria dos participantes relatou baixa intensidade de sintomas ansiosos, com predominância de respostas nas categorias “Não” e “Levemente”. Sintomas como “Dormência ou formigamento” (67,9%), “Tremor nas pernas” (57,9%), “Medo de ocorrer o pior” (39,3%) e “Atordoado/tonto” (62,9%) apresentaram maior concentração na opção “Não”, indicando menor frequência desses sintomas entre os participantes.
No entanto, alguns sintomas chamaram atenção por apresentarem distribuições mais equilibradas entre as categorias de intensidade. Por exemplo, a “Sensação de calor” teve 35,7% dos participantes respondendo “Não”, enquanto 31,4% relataram sentir esse sintoma de forma leve, 22,1% de forma moderada e 10,7% de forma grave. De forma semelhante, a “Incapacidade de relaxar” apresentou apenas 30% de respostas na categoria “Não”, com 32,1% relatando o sintoma levemente, 27,1% moderadamente e 10,7% gravemente.
O sintoma “Nervoso” também apresentou uma distribuição relevante entre as categorias, com apenas 25,7% dos participantes indicando a ausência desse sintoma, enquanto 36,4% relataram sentir-se nervosos levemente, 24,3% moderadamente e 13,6% de forma grave. Já sintomas como “Palpitações” e “Sensação de insegurança” mostraram números semelhantes, com porcentagens expressivas nas categorias “Levemente” e “Moderadamente”, além de uma parcela dos participantes relatando esses sintomas de maneira grave.
Por outro lado, sintomas de maior gravidade emocional, como “Medo de morrer” e “Medo de perder o controle”, apresentaram as maiores concentrações na categoria “Não”, com 77,1% e 63,6%, respectivamente, indicando menor ocorrência entre os participantes. Da mesma forma, o sintoma “Assustado” apresentou 71,4% das respostas na categoria “Não”.
Em relação aos sintomas físicos, a “Dificuldade de respirar” foi relatada como inexistente por 61,4% dos participantes, com menores percentuais nas demais categorias. Por fim, a “Indigestão” apresentou 59,3% de respostas indicando ausência do sintoma, mas com presença considerável de casos leves (15,7%) e moderados (17,9%).
Tabela 4 – Distribuição dos Sintomas de Ansiedade Segundo o Inventário de Ansiedade de Beck (BAI) entre Estudantes de Medicina

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo revelou uma alta prevalência de distúrbios do sono e sintomas ansiosos entre estudantes de Medicina do UNIFIPMoc, com 72,1% apresentando dificuldade para adormecer, 81,4% relatando despertares noturnos e uma média de apenas 6h40 de sono por noite, associada a sonolência diurna (57,1%) e redução do entusiasmo (78,6%). Os sintomas de ansiedade, embora predominantemente leves a moderados, destacaram-se em itens como “incapacidade de relaxar” (62,1% com algum grau) e “nervosismo” (74,3% com relato), sugerindo uma carga emocional significativa, agravada pelo ciclo clínico (59,3% da amostra), fase de maior demanda acadêmica. Apesar disso, o baixo uso de ansiolíticos (77,1% não utilizavam) e indutores do sono (87,86% sem medicação) indica possível subdiagnóstico ou dependência de estratégias não farmacológicas. Fatores como calor noturno (23,6% frequente) e dor ao deitar (9,3% frequente) exacerbam a fragmentação do sono, reforçando a necessidade de intervenções institucionais—como programas de higiene do sono, suporte psicológico e adaptações curriculares—para mitigar os impactos na saúde mental e no desempenho acadêmico. Os resultados destacam a iminência da necessidade de políticas voltadas ao bem-estar discente, integrando prevenção e monitoramento contínuo da ansiedade dos mesmos para preservar a saúde mental estudantil e garantindo uma maior qualidade do ensino que permita a formação de profissionais mais completos ao cuidado do próximo.
REFERÊNCIAS
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11. NOGUEIRA, Érika Guimarães et al . Avaliação dos níveis de ansiedade e seus fatores associados em estudantes internos de Medicina. Rev. Bras. Educ. Med., Rio de Janeiro , v. 45, n. 1, e017, 2021 . Disponível em <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-52712021000100212&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 18 jun. 2025. Epub 21-Jan-2021. https://doi.org/10.1590/1981-5271v45.1-20200174.
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1Discentes do Curso Superior de Medicina do Instituto Afya Centro Universitário Montes Claros Campus Montes Claros – MG
e-mail: jgabriel.s.rodrigues@gmail.com, isadorapathayde@gmail.com, henrique.mendes@aluno.unifipmoc.edu.br
2Docente do Curso Superior de Medicina do Instituto Medicina do Instituto Afya Centro Universitário Montes Claros Campus Montes Claros -MG. Mestre em Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes ) email: laiseangelicamendes@yahoo.com.br
