QUALIDADE DE VIDA E RISCO CARDIOVASCULAR NAS PESSOAS IDOSAS

QUALITY OF LIFE AND CARDIOVASCULAR RISK IN ELDERLY PEOPLE

CALIDAD DE VIDA Y RIESGO CARDIOVASCULAR EN PERSONAS MAYORES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511261213


Antonio Carlos Nascimento Santos Junior¹
Estélio Henrique Martin Dantas²*


Resumo

Introdução: O envelhecimento populacional global tem ampliado a incidência de doenças crônicas, sobretudo cardiovasculares, exigindo abordagens preventivas mais eficazes e sustentáveis. Objetivo: Propor e descrever uma intervenção integrativa baseada nos pilares das Blue Zones, voltada à melhoria da qualidade de vida e à redução do risco cardiovascular em pessoas idosas. Métodos: Estudo transversal, descritivo e analítico, de abordagem quantitativa, desenvolvido com base em dados secundários do Laboratório de Biociências da Motricidade Humana (LABIMH), vinculado à Universidade Tiradentes – UNIT, Aracaju-SE. A amostra foi composta por 372 idosos (≥ 60 anos), de ambos os sexos, acompanhados pela Atenção Básica de Aracaju. Foram avaliados fatores clínicos, antropométricos e psicossociais, além da qualidade de vida pelo instrumento WHOQOL-OLD e do risco cardiovascular pelo escore de Framingham. Os dados foram analisados por testes Qui-quadrado, t de Student e correlação de Pearson (p < 0,05). Resultados: Observou-se predomínio do sexo feminino, média de idade de 68,4 anos e prevalência elevada de hipertensão, dislipidemia e sedentarismo. Houve correlação significativa entre idade, adiposidade abdominal e pressão arterial sistólica com o risco cardiovascular. Constatou-se ainda correlação negativa entre o escore global de risco cardiovascular e a qualidade de vida. Conclusão: Os resultados evidenciam que determinantes comportamentais e psicossociais exercem influência direta sobre o risco cardiovascular e o bem-estar de pessoas idosas. Intervenções integrativas e de baixo custo podem representar alternativas eficazes para promoção da longevidade saudável na atenção primária.

Palavras-chave: envelhecimento saudável. qualidade de vida. risco cardiovascular. medicina preventiva. longevidade.

Abstract

Introduction: Population aging has increased the incidence of chronic diseases, particularly cardiovascular disorders, highlighting the need for preventive and sustainable approaches. Objective: To propose and describe an integrative intervention inspired by the Blue Zones principles, aimed at improving quality of life and reducing cardiovascular risk in elderly individuals. Methods: This cross-sectional, descriptive, and analytical quantitative study was developed based on secondary data from the Human Motricity Biosciences Laboratory (LABIMH) at Tiradentes University, Aracaju, Brazil. The sample consisted of 372 elderly participants (≥ 60 years) of both sexes enrolled in primary health care. Clinical, anthropometric, and psychosocial variables were assessed, including quality of life (WHOQOL-OLD) and cardiovascular risk (Framingham Risk Score). Statistical analysis employed Chi-square, Student’s t-test, and Pearson correlation (p < 0.05). Results: The sample showed predominance of women, mean age of 68.4 years, and high prevalence of hypertension, dyslipidemia, and sedentary behavior. Significant correlations were observed between age, waist-hip ratio, systolic blood pressure, and cardiovascular risk, with an inverse correlation between cardiovascular risk and overall quality of life. Conclusion: Behavioral and psychosocial determinants exert direct influence on cardiovascular risk and well-being in the elderly. Low-cost integrative strategies may represent effective interventions for promoting healthy longevity in primary care settings.

Keywords: healthy aging. quality of life. cardiovascular risk. preventive medicine. longevity.

Introdução

O envelhecimento populacional global representa um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI, em virtude do aumento expressivo das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), sobretudo as cardiovasculares, que são responsáveis por cerca de 17,9 milhões de mortes anuais em todo o mundo (WHO, 2023). No Brasil, essas enfermidades continuam sendo a principal causa de mortalidade entre idosos, influenciadas principalmente por fatores modificáveis de estilo de vida, como alimentação inadequada, sedentarismo e estresse psicossocial (BRASIL, 2022).

Embora os avanços tecnológicos e farmacológicos tenham prolongado a expectativa de vida, o prolongamento da vida sem qualidade persiste como um desafio relevante. Nesse contexto, abordagens integrativas e preventivas têm se destacado por unirem ciência, comportamento e propósito de vida (BUETTNER, 2012; LONGO, 2018; SINCLAIR, 2020). As denominadas Blue Zones — regiões do mundo com alta concentração de centenários saudáveis — evidenciam que a longevidade é resultado de hábitos de vida equilibrados e não apenas de predisposição genética. Esses grupos mantêm alimentação predominantemente natural, prática regular de atividade física leve, vínculos sociais fortes, controle do estresse e senso de propósito existencial.

Autores como Blackburn e Epel (2017) demonstram que tais comportamentos influenciam positivamente os mecanismos epigenéticos do envelhecimento, promovendo o alongamento dos telômeros e a redução de processos inflamatórios e de resistência insulínica — fatores diretamente relacionados à saúde cardiovascular. De forma complementar, Longo (2018) e Fung (2016) destacam que padrões alimentares naturais, associados à restrição calórica e ao equilíbrio entre gorduras boas e controle glicêmico, estimulam a regeneração celular e a proteção metabólica. Sob a ótica psicossocial, Seligman (2004) propõe que emoções positivas e o senso de propósito fortalecem o eixo mente-corpo, modulando respostas neuroendócrinas e cardiovasculares.

Apesar do aumento de pesquisas sobre envelhecimento e longevidade, ainda há escassez de modelos integrativos e de baixo custo aplicáveis à atenção primária à saúde. A maioria das intervenções tende a abordar fatores isolados, desconsiderando a natureza multidimensional do envelhecimento saudável. Assim, o presente estudo propõe e descreve uma intervenção baseada nos pilares das Blue Zones, com foco na melhoria da qualidade de vida e na redução do risco cardiovascular em pessoas idosas, integrando fundamentos de nutrição funcional, medicina do estilo de vida, psicologia positiva e epigenética aplicada.

Metodologia

Trata-se de um estudo transversal, descritivo e analítico, de abordagem quantitativa, desenvolvido a partir de dados secundários do Laboratório de Biociências da Motricidade Humana (LABIMH) da Universidade Tiradentes (UNIT), em Aracaju/SE. A investigação integra a linha de pesquisa “Saúde e Envelhecimento” do Programa de Pós-Graduação em Saúde e Ambiente.

A amostra foi composta por 372 idosos (≥ 60 anos) de ambos os sexos, cadastrados em Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Aracaju, no período de janeiro a julho de 2023. Os dados foram coletados por pesquisadores treinados, seguindo protocolos padronizados de avaliação física, clínica e psicossocial.

Foram incluídos indivíduos com autonomia funcional preservada e ausência de déficits cognitivos graves, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos aqueles com doenças incapacitantes, degenerativas avançadas ou com dados incompletos.

As variáveis analisadas compreenderam dados sociodemográficos (idade, sexo, escolaridade, estado civil e renda), indicadores clínicos (pressão arterial, glicemia, perfil lipídico, índice de massa corporal, relação cintura-quadril e gordura corporal), fatores de risco cardiovascular (hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo e sedentarismo), além da qualidade de vida avaliada pelo instrumento WHOQOL-OLD (OMS, 2005) e do risco cardiovascular calculado pelo Framingham Risk Score (FRS).

A análise estatística foi conduzida no software SPSS®, versão 26.0. Foram realizadas análises descritivas e inferenciais, incluindo testes Qui-quadrado, t de Student e correlação de Pearson, adotando-se nível de significância de p < 0,05. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Tiradentes (CAAE: 26524719.4.0000.5371), em conformidade com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

Resultados

A amostra foi composta por 372 pessoas idosas, com média de idade de 68,4 ± 6,2 anos (variação de 60 a 89 anos), predominando o sexo feminino (63,2%; n = 235). Os participantes apresentavam majoritariamente baixa escolaridade (48,1% com ensino fundamental incompleto) e renda de até um salário mínimo (31,7%), evidenciando vulnerabilidade socioeconômica.

Observou-se elevada prevalência de fatores de risco cardiovascular, destacando-se hipertensão arterial sistêmica (67,2%), dislipidemia (53,8%) e diabetes mellitus tipo 2 (39,5%). O sedentarismo foi o fator mais frequente (71,1%), enquanto o tabagismo ativo foi identificado em 8,9% dos casos. Houve associação significativa entre sedentarismo e risco cardiovascular elevado (p = 0,014), ressaltando o papel do comportamento físico na modulação do risco cardiometabólico.

O perfil clínico e antropométrico revelou média de IMC de 27,8 ± 4,6 kg/m², com predomínio de sobrepeso. A relação cintura-quadril foi de 0,94 ± 0,06, caracterizando risco metabólico aumentado. A pressão arterial sistólica média foi de 136,7 ± 18,4 mmHg, a glicemia em jejum de 108,3 ± 24,5 mg/dL, o HDL médio de 48,2 ± 10,1 mg/dL e os triglicerídeos médios de 158,4 ± 52,8 mg/dL, indicando tendência a disfunção metabólica e resistência insulínica.

De acordo com o escore de Framingham, 41,3% dos participantes apresentaram baixo risco (< 10%), 38,7% risco moderado (10–20%) e 20% risco alto (> 20%). Foram encontradas correlações significativas entre o risco cardiovascular e idade (r = 0,44; p < 0,001), relação cintura-quadril (r = 0,37; p = 0,002) e pressão arterial sistólica (r = 0,49; p < 0,001).

A avaliação da qualidade de vida pelo WHOQOL-OLD demonstrou melhores escores nos domínios funcionamento sensorial (72,8 ± 10,4) e participação social (70,1 ± 11,7), enquanto os piores resultados foram observados nos domínios autonomia (61,2 ± 13,3) e morte/morrer (58,6 ± 15,2). Verificou-se correlação negativa significativa entre o escore global de risco cardiovascular e a pontuação total de qualidade de vida (r = −0,32; p = 0,018), indicando que níveis mais elevados de risco cardíaco se associam a menor percepção de bem-estar físico, emocional e social.

Esses achados reforçam a interdependência entre fatores biológicos, comportamentais e psicossociais no envelhecimento, sugerindo que intervenções integrativas e de baixo custo — centradas em alimentação natural, atividade física leve, vínculos sociais e propósito de vida — podem melhorar simultaneamente a qualidade de vida e reduzir o risco cardiovascular entre pessoas idosas.

Discussão

Os achados deste estudo confirmam a elevada prevalência de fatores de risco cardiovascular entre pessoas idosas acompanhadas na atenção básica, em consonância com dados nacionais que apontam aumento progressivo da hipertensão arterial, dislipidemia e diabetes na população acima de 60 anos (BRASIL, 2022). O predomínio do sexo feminino e a vulnerabilidade socioeconômica observados refletem o perfil demográfico brasileiro, marcado pela feminização do envelhecimento e por desigualdades estruturais que impactam o acesso a práticas saudáveis e serviços de saúde (IBGE, 2023).

A associação entre idade, adiposidade abdominal e pressão arterial com o risco cardiovascular reforça a importância do controle de fatores modificáveis. Estudos prévios evidenciam que o acúmulo de gordura visceral e o sedentarismo contribuem para resistência insulínica, inflamação subclínica e disfunção endotelial — eixos fisiopatológicos centrais no processo aterosclerótico (FUNG, 2016; LONGO, 2018). Esses resultados corroboram a literatura internacional que demonstra que pequenas modificações no estilo de vida, como alimentação natural e prática regular de atividade física leve, são capazes de reduzir o risco cardiovascular em até 40% (WHO, 2023).

A correlação negativa entre risco cardiovascular e qualidade de vida destaca a natureza multidimensional da saúde no envelhecimento. A percepção reduzida de autonomia e o desconforto diante da finitude indicam que o sofrimento emocional e social exerce influência sobre o risco biológico, conforme apontam Seligman (2004) e Blackburn e Epel (2017). Esse vínculo evidencia a necessidade de modelos assistenciais integrativos, capazes de abordar simultaneamente corpo, mente e propósito de vida.

Nesse contexto, a proposta baseada nos princípios das Blue Zones mostra-se particularmente pertinente à realidade da atenção primária brasileira. Estratégias de baixo custo, como hortas comunitárias, grupos de caminhada e encontros intergeracionais, podem fortalecer vínculos sociais e favorecer a adesão a comportamentos protetores. A literatura de Buettner (2012) e de Sinclair (2020) respalda que o equilíbrio entre nutrição natural, movimento e sentido existencial influencia positivamente a expressão gênica e o envelhecimento epigenético.

Portanto, a integração entre práticas comportamentais e determinantes psicossociais representa um caminho promissor para a longevidade saudável, sobretudo em contextos de recursos limitados. Essa abordagem amplia o escopo da medicina preventiva e contribui para uma atenção mais humanizada, sustentável e efetiva.

Conclusão

Conclui-se que o risco cardiovascular entre pessoas idosas mantém relação direta com fatores modificáveis de estilo de vida e está inversamente associado à qualidade de vida. O modelo integrativo proposto — fundamentado nos pilares das Blue Zones — demonstra potencial para reduzir o risco cardiometabólico e promover bem-estar físico, emocional e social.

Sua aplicabilidade na atenção primária reforça a viabilidade de estratégias preventivas de baixo custo, que aliam nutrição funcional, atividade física leve, vínculos sociais e propósito de vida. Tais ações podem ser incorporadas às políticas públicas de saúde, com impacto positivo na autonomia e na longevidade da população idosa brasileira.

Declaração de financiamento

O presente trabalho não recebeu apoio financeiro de agências de fomento, instituições públicas ou privadas. A pesquisa foi desenvolvida com infraestrutura acadêmica disponibilizada pelo Laboratório de Biociências da Motricidade Humana (LABIMH) da Universidade Tiradentes.

Conflito de interesses

Os autores declaram inexistência de conflito de interesses de ordem pessoal, profissional ou financeira.

Contribuição dos autores

Antonio Carlos Nascimento Santos Junior: concepção do estudo, redação, análise de dados e revisão crítica.

Estélio Henrique Martin Dantas: orientação metodológica, supervisão científica e revisão final do manuscrito.

Aspectos éticos

O estudo foi conduzido conforme os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Tiradentes (CAAE: 26524719.4.0000.5371).

Referências

BLACKBURN, E.; EPEL, E. The Telomere Effect: A Revolutionary Approach to Living Younger, Healthier, Longer. New York: Grand Central, 2017.

BRASIL. Ministério da Saúde. Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das DCNT no Brasil 2021–2030. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.

BUETTNER, D. The Blue Zones: Lessons for Living Longer from the People Who’ve Lived the Longest. Washington, DC: National Geographic, 2012.

FUNG, J. The Obesity Code: Unlocking the Secrets of Weight Loss. Toronto: Greystone Books, 2016.

IBGE. Síntese de Indicadores Sociais 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.

LONGO, V. D. The Longevity Diet. New York: Avery, 2018.

SELIGMAN, M. E. P. Authentic Happiness. New York: Free Press, 2004.

SINCLAIR, D. A. Lifespan: Why We Age – and Why We Don’t Have To. New York: Atria Books, 2020.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Cardiovascular Diseases (CVDs): Key Facts 2023. Geneva: WHO, 2023.


¹ Curso de Medicina, Universidade Tiradentes – UNIT, Aracaju, Sergipe, Brasil. E-mail: antonio.cnascimento@souunit.com.br — ORCID: https://orcid.org/0009-0003-7610-000X
² Programa de Pós-Graduação em Saúde e Ambiente, Universidade Tiradentes UNIT, Aracaju, Sergipe, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2617-6461
*Médico formado pela Universidade Tiradentes (UNIT), com atuação em Longevidade, Medicina Preventiva, Epigenética e Saúde Integrativa. Endereço: Avenida Beira Mar, 3538, bairro Jardins, Condomínio Ville de Paris, apto 201B, CEP 49025-400, Aracaju, Sergipe, Brasil. E-mail: antonio.cnascimento@souunit.com.br.