QUALIDADE DAS AMOSTRAS HISTOPATOLÓGICAS EM EXAMES PARA DETECÇÃO DE NEOPLASIAS CERVICAIS ASSOCIADAS AO HPV

QUALITY OF HISTOPATHOLOGICAL SAMPLES IN TESTS FOR THE DETECTION OF CERVICAL NEOPLASMS ASSOCIATED WITH HPV

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202508282145


Rebeca Soares Corvello; João Pedro Araujo Vascão1
Adriana Cunha Vargas2


Resumo

O Câncer de colo de útero representou uma das neoplasias malignas que mais afetaram a população feminina no Brasil. Para isso, foram analisados os exames histopatológicos do colo do útero e relacionados com a satisfatoriedade da amostra quanto à zona de transformação e ao tipo de neoplasia. O estudo epidemiológico analisou os dados sobre a satisfatoriedade dos exames histopatológicos, os quais foram obtidos do DATASUS, no período entre 2013 a 2023. A análise foi classificada como câncer de colo de útero C53 (CID-10). As informações foram coletadas para todos os grupos etários e, após uma avaliação dos grupos mais prevalentes, foram comparadas com variáveis determinadas no projeto. A pesquisa expôs a qualidade e satisfatoriedade dos exames histopatológicos, a incidência de metaplasias relacionadas ao HPV e confirmou a satisfação elevada em casos avançados. Foram relacionados os tipos de HPV mais prevalentes, a idade média, a capacidade de identificação das lesões citopatológicas, assim a capacidade terapêutica da associação entre a histopatologia e citopatologia no diagnóstico avançado. Sumariamente, os resultados revelam que a qualidade das amostras histopatológicas nos protocolos de rastreamento para neoplasias cervicais relacionadas ao HPV é comprometida por uma série de fatores subjacentes, tais como restrições anatômicas (ou seja, presença de TZ III), falhas técnicas de execução e processamento, incapacidade, desigualdades e heterogeneidade de acesso aos cuidados de saúde e a falta ou escassez de normas oficiais padronizadas. O efeito direto dessa má qualidade é o possível risco de subdiagnóstico ou ações terapêuticas desorientadas. Certamente é imperativo não tanto aumentar o número de exames quanto garantir que as amostras coletadas sejam confiáveis em refletir as áreas de alto risco, especialmente à medida que a prevalência de lesões induzidas por HPV está aumentando. Padronização técnica, treinamento de colposcopistas e manutenção adequada de registros são mandatos fundamentais de qualquer estratégia nacional para a prevenção do câncer cervical.

Palavras-chave: câncer de colo de útero. histopatologia. HPV

1. INTRODUÇÃO

O Câncer de colo de útero representa uma das neoplasias malignas que mais afetam a população feminina no Brasil e no mundo (Lopes, 2019), sendo uma questão de saúde pública extremamente importe no cenário atual em que vivemos (Silva, 2020), considerando que hoje, representa a quarta causa mais frequente de morte de mulheres por câncer no Brasil (Inca, 2022) e a sétima mais comum em nível mundial (Carvalho Karine, 2019).

Essa neoplasia maligna, foi responsável por 67.439 óbitos por residência no Brasil, num intervalo de 10 anos entre 2012 e 2022, considerando que a grande maioria dos casos foram descritos após a entrada na fase reprodutiva na mulher, sendo mais frequente na faixa etária entre 50 e 60 anos de idade (Brasil, 2022). No contexto regional, o câncer de colo de útero é o segundo tipo de câncer mais incidente na região Norte (20,48/100 mil) e na região Nordeste (17,59/100 mil), sendo também o terceiro mais incidente na região Centro Oeste (16,66/100 mil), o quarto na região Sul (14,55/100 mil) e por fim, a quinta posição na região Sudeste (12,93/100 mil) (Brasil, 2022). 

O câncer pode ser definido como um tumor maligno caracterizado por uma proliferação celular rápida e desordenada, resultante de alterações no ciclo celular causadas por mutações no DNA, que possui a capacidade de invadir diferentes órgãos do corpo humano, podendo se espalhar para diversas partes do corpo, estando essa capacidade invasiva das células cancerosas, relacionada com o processo de metástase.(Carvalho Karine, 2019) No caso do câncer de colo de útero, o mesmo é, na maioria dos casos, transmitido sexualmente por uma infecção persistente do Papilomavirus Humano (HPV), responsável por 70% dos cânceres cervicais.(Lopes, 2019).

O HPV é um vírus de ácido desoxirribonucleico (DNA) de fita dupla, sem envelope, com mais de 100 genótipos e está relacionado com a grande maioria dos casos de câncer de colo de útero. A transmissão ocorre predominantemente por via sexual e estima-se que aproximadamente 80% das mulheres adquirirão a infecção durante a vida. No entanto, a maioria elimina a infecção através da imunidade inata, geralmente dentro de 9 a 12 meses. Aquelas com infecção persistente com genótipos de alto risco correm risco de desenvolver neoplasia. (Bhatla Neerja, 2020) Nem todos os tipos de HPV têm potencial oncogênico, temos alguns subtipos de HPVs de baixo risco, como HPV 6, 11, 42, 43 e 44, causando apenas lesões epiteliais benignas. Mas também temos HPVs de alto risco, como HPV 16, 18, 31, 33, 34, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 66, 68 e 70, são fortemente ligados ao desenvolvimento de câncer cervical, anal, peniano, vulvar, vaginal e orofaríngeo (Choi, 2023).

Quando existe a suspeita de câncer de útero é recomendado a realização de um exame histopatológico para a confirmação do diagnóstico. Tal exame é efetuado em laboratórios de anatomia patológica e seu laudo é emitido por médicos patologistas. O

resultado histopatológico da biópsia do colo uterino é padrão ouro, porém a confiabilidade depende dos conhecimentos do médico patologista que avaliará a biópsia. O resultado do exame é determinante para a escolha da evolução do tratamento, uma vez que esse irá variar dependendo da histologia e grau de disseminação (Claro Bento Itamar; 2022).

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

Esta pesquisa apresenta extrema importância para a sociedade médica, pois apesar da Citopatologia do câncer de colo de útero ser muito discutida e averiguada, a histopatologia não recebe o mesmo renome. Tendo em vista a escassez de artigos e estudos conduzidos a partir da análise dos exames histopatológicos é relevante trazer tal discussão para o ambiente médico e científico para desenvolver um atendimento mais globalizado e abrangente. Ademais, o exame histopatológico é de suma importância para a identificação precoce de muitas patologias, dentre elas o câncer de colo de útero, através de uma análise microscópica de determinado tecido visando a detecção de possíveis lesões.

2 METODOLOGIA 

Este estudo trata-se de uma análise epidemiológica, retrospectiva e quantitativa, baseada na análise de dados secundários provenientes do sistema DATASUS (Departamento de informática do Sistema Único de Saúde), uma plataforma responsável por armazenar e disponibilizar informações de saúde no Brasil, auxiliando na gestão de políticas públicas. A população do estudo compreende mulheres residentes no Brasil, diagnosticadas com câncer de colo de útero (CID C53) no período de 2013 a 2024. Os dados foram extraídos do DATASUS, considerando todos os casos disponíveis na base de dados que atendem aos critérios de inclusão.

Os critérios de inclusão estabelecidos foram: mulheres com diagnóstico confirmado de câncer de colo de útero (CID C53), exames histopatológicos registrados no DATASUS e registros que contenham informações sobre a zona de transformação e o tipo de neoplasia. Foram considerados critérios de exclusão registros incompletos ou inconsistentes e casos nos quais não há informações sobre a qualidade da amostra histopatológica.

Os dados coletados através da plataforma citada englobam características sociodemográficas, como raça, sexo e nível de escolaridade; qualidade da coleta dos exames histopatológicos, avaliando a adequabilidade do material coletado; presença de alterações citopatológicas atípicas; tipo de procedimento realizado; realização de colposcopia; margens cirúrgicas; grau de diferenciação celular e tipo de encaminhamento. A extração e organização dos dados foram realizadas utilizando planilhas eletrônicas e software estatístico para garantir a integridade e padronização das informações.

A análise dos dados foi conduzida de forma descritiva, buscando identificar relações entre a satisfatoriedade da amostra histopatológica e o tipo de neoplasia diagnosticada.

Este estudo utiliza dados secundários de domínio público disponíveis no DATASUS, respeitando os princípios da ética em pesquisa e as diretrizes da Resolução CNS 466/12. Não há identificação dos participantes, garantindo o anonimato e sigilo das informações analisadas.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

No período de 2013 a 2024, um total de 444.355 mulheres no Brasil realizaram exames histopatológicos. Dentre essas, 53,89% apresentaram resultados citopatológicos alterados, enquanto 8,85% apresentaram lesões sugestivas de câncer sem a realização do exame citopatológico. Já os resultados benignos corresponderam a 37,26% dos casos. 

Chama atenção que mulheres fora da faixa etária recomendada para o rastreamento do câncer do colo do útero (ou seja, ≤24 anos e ≥65 anos) também apresentaram proporções consideráveis de alterações. Por exemplo, na faixa ≤24 anos, 9,40% dos exames mostraram alterações, e na faixa ≥65 anos, 10,17%.

Com relação à etnia, as mulheres brancas representaram a maior proporção em todas as categorias: 44,25% dos resultados alterados, 47,50% das lesões sugestivas de câncer sem exame citopatológico e 40,12% dos resultados benignos. As mulheres pardas aparecem em seguida, com 13,95% dos resultados alterados. Destaca-se também a etnia amarela, que apresentou 30,38% de exames alterados, 26,31% de lesões sugestivas de câncer e 32,50% de resultados benignos — percentuais expressivos frente ao total.

No que se refere à escolaridade, observou-se um elevado percentual de dados ignorados: 99,76% entre os resultados alterados, 99,63% nas lesões sugestivas de câncer, e 99,79% nos resultados benignos. Essa lacuna dificulta análises mais precisas sobre a relação entre nível educacional e os achados dos exames.

TABELA 1: Identificação de mulheres que realizaram exames citopatológicos no Brasil. Brasil, 2025

A análise da amostra populacional permitiu uma visão ampla sobre os exames colposcópicos realizados, revelando padrões relevantes quanto à qualidade do exame, adequação da colposcopia, características da zona de transformação (ZT), frequência de exames considerados insatisfatórios e a distribuição dos diagnósticos citológicos e colposcópicos. Os dados foram organizados em cinco principais eixos temáticos: colposcopia, margens cirúrgicas, grau de diferenciação epitelial, citopatologia atípica de células escamosas e glandulares.

Em relação à qualidade colposcópica, identificou-se uma alta proporção de insatisfatoriedade associada à presença da ZT tipo III, situação em que a junção escamo-colunar não pode ser completamente visualizada. Essa condição foi mais comum nas lesões de baixo e médio grau. A categoria “Anormal Grau I” apresentou a maior proporção de ZT tipo III (87,05%), seguida por “Anormal Grau II” (81,69%) e “Normal” (80,75%). Já o grupo “Sugestivo de Câncer” apresentou uma taxa bem menor (46,05%), possivelmente devido à destruição tecidual mais intensa que expõe melhor a lesão, facilitando sua visualização colposcópica.

Além disso, um número considerável de exames foi classificado como inadequado, com destaque para os grupos “Sugestivo de Câncer” (n = 4.362) e “Miscelânea” (n = 3.628), evidenciando desafios técnicos significativos tanto no rastreio quanto no acompanhamento desses casos.

Quanto à avaliação das margens da ZT, inferida pela presença das classificações tipo I e II (IIa e IIb), as categorias “Anormal Grau I” (n = 152.839) e “Anormal Grau II” (n = 84.466) apresentaram maior frequência de margens visíveis, o que sugere maior facilidade de acesso visual ao epitélio de transição. No entanto, a presença crescente de ZT IIb nestes grupos aponta para a necessidade de atenção redobrada em casos com maior risco de progressão, nos quais a ZT tende a migrar para dentro do canal endocervical. A identificação precisa dessas margens é fundamental para assegurar a remoção completa da lesão durante procedimentos conservadores, como o LEEP ou a conização.

Sobre o grau de diferenciação epitelial, embora esse dado não esteja explicitamente descrito na tabela, foi possível estimar sua distribuição a partir das categorias colposcópicas. Lesões de baixo grau (Anormal Grau I) foram as mais frequentes, representando a maior parte dos exames satisfatórios (n = 152.839). Já as lesões de alto grau (Anormal Grau II) somaram 84.466 exames, com destaque para a significativa presença de ZT tipo III e colposcopias inadequadas (n = 1.942). O grupo “Sugestivo de Câncer”, apesar de menos numeroso (n = 13.329), também apresentou altas taxas de inadequação colposcópica, possivelmente atribuídas a fatores como sangramento ativo ou alterações anatômicas extensas, que dificultam a avaliação visual da lesão.

No que diz respeito à citopatologia atípica de células escamosas, os achados que sugerem alterações leves (como ASC-US e LSIL), provavelmente agrupados na categoria “Anormal Grau I”, mostraram um cenário clínico paradoxal: embora sejam alterações de menor gravidade histológica, esses casos concentraram as maiores taxas de colposcopias insatisfatórias e ZT tipo III. Esse padrão pode dificultar o diagnóstico precoce de lesões mais graves ocultas, destacando a importância do acompanhamento rigoroso e da complementação diagnóstica com testes como genotipagem do HPV e biópsia dirigida.

Em relação às alterações citológicas de células glandulares, provavelmente representadas pela categoria “Miscelânea”, os resultados revelam um perfil de difícil avaliação diagnóstica. Dentre os 23.892 exames considerados satisfatórios nessa categoria, observou-se uma alta taxa de colposcopia inadequada (n = 3.628) e uma frequência expressiva de ZT tipo III (63,88%). A localização profunda das glândulas e a dificuldade de visualização da junção escamo-colunar nesses casos contribuem para a subdiagnose ou para o atraso na identificação de adenocarcinomas in situ e lesões invasoras iniciais, o que justifica a necessidade de condutas mais invasivas, como a curetagem endocervical ou a conização precoce.

Por fim, é importante destacar os dados classificados como “Ignorados”, que apresentaram proporções relevantes em todas as categorias, especialmente no grupo “Sugestivo de Câncer” (40,74%). Essa alta taxa de registros incompletos ou pouco claros reforça a urgência de se padronizar melhor os laudos e aprimorar continuamente o registro clínico, sobretudo em programas de rastreamento em larga escala.

TABELA 2: Tabela comparativa de mulheres que realizaram exames histopatológicos que obtiveram exames satisfatórios e insatisfatórios segundo colposcopia, margens cirúrgicas, grau de diferenciação, citopatologia de células escamosas, citologia atípica de células escamosas e citologia atípica de células glandulares.

A avaliação da histopatologia em amostras coletadas de mais de 440.000 mulheres brasileiras no período entre 2013 e 2024 indica problemas críticos que vão além da mera detecção de alterações celulares. A grande proporção de exames de citologia esfoliativa com alterações citopatológicas (53,89%) e a alta proporção de casos com base nos critérios para definição de neoplasia cervical sugerida (8,85%) em mulheres que não tinham histórico citológico prévio sugerem não apenas problemas na condução dos exames, assim como na qualidade das amostras avaliadas. Quando a maioria dos exames é positiva, é necessário determinar se essa positividade está alinhada com a realidade epidemiológica ou é resultado de interferências técnicas (ou seja, coletas insuficientes, interpretação incorreta, manipulação inadequada das amostras) que podem afetar diretamente a confiabilidade do diagnóstico. Esse panorama repercute na literatura. (Costa R.F 2018), em um estudo sobre a análise de mais de 62 milhões de testes SISCOLO, já haviam enfatizado um paradoxo perturbador, pois muitos exames estavam sendo realizados, o que não resultou em uma alta detecção de lesões de alto grau. Isso é um indicativo de que o número de exames por si só não leva à eficiência se a qualidade das amostras ou a análise não estiver sujeita a critérios técnicos rigorosos. A interpretação precisa das lesões associadas ao HPV depende diretamente da qualidade da amostra histopatológica e fundamenta a necessidade de monitoramento laboratorial não apenas para eficiência, mas também para uniformidade diagnóstica.

Achados colposcópicos durante o mesmo período confirmam essa avaliação da qualidade técnica das amostras. Os exames “insatisfatórios” foram encontrados mais comumente em casos “Anormais Grau I” e “Anormais Grau II” e estavam frequentemente associados à zona de transformação do tipo III. Em caso de ZT não visível ou não suficientemente acessível, a biópsia obtida pode não representar o tecido mais em risco de transformação neoplásica, consequentemente há risco de subdiagnóstico. Essa é uma limitação técnica com implicações clínicas significativas. (Del Pino, 2021) estabeleceram que a ZT III está significativamente correlacionada com a redução da sensibilidade para detectar lesões intraepiteliais de alto grau (CIN2+), o que exigiria métodos adicionais para melhorar o diagnóstico, como curetagem endocervical. A falta de amostras representativas não apenas afeta a acurácia histopatológica, mas também se relaciona à segurança médica, significando que a qualidade da amostra não é apenas da seção histológica ou coloração, mas começa com a colposcopia e a localização exata da lesão.

Há um aumento de mais de duas vezes quando se observam outros grupos etários além da faixa etária tradicional de rastreamento (25-64). Naquelas com menos de 25 anos, uma alteração histopatológica foi detectada em 9,4% e entre mulheres com 65 anos ou mais, esse valor foi de 10,17%. Além da controvérsia sobre a extensão da faixa etária do rastreamento baseado em risco, esse resultado sugere um potencial viés de seleção. Pacientes no protocolo também podem passar por tais estudos urgentes, que são menos bem preparados, menos otimizados e que resultarão em uma amostra menos ideal. Pesquisas como Lim et al. (2013) e Vargas et al. (2019) propõem que não é apenas a idade que deve ser levada em consideração ao avaliar a qualidade e adequação das amostras, mas também a indicação clínica e histórico de rastreamento.  Lesões glandulares também foram estudadas. Essas alterações, que frequentemente são colocadas na categoria “Diversos”, surgem predominantemente profundas no canal endocervical, uma região não acessível e difícil de avaliar por colposcopia padrão. A alta taxa de TZ tipo III nesses casos indica que as amostras obtidas frequentemente não são uma verdadeira representação da lesão, (Gatuguta 2020) enfatizam que em casos suspeitos de AIS, o padrão ouro não é a colposcopia isolada, mas sim uma conização diagnóstica, exatamente para extrair uma amostra histopatológica completa com margens avaliáveis.

Assim, é possivel inferir que os registros deficientes são o maior inimigo tanto da análise epidemiológica quanto da tomada de decisão clínica. Em exames histopatológicos, > 99% das informações sobre os níveis educacionais estavam faltando. A análise tabular também revelou que 40% dos casos “Sugestivos de Neoplasia” tinham alguns campos cruciais em branco no relatório de colposcopia. Não apenas essas lacunas nos registros obstruem uma avaliação das interseções entre influências sociais e qualidade da amostra, elas também complicam o acompanhamento do paciente e a continuidade do cuidado. A evidência científica é clara sobre a questão relacionada à qualidade da manutenção de registros sendo sinônima da eficiência do sistema de rastreamento e taxas de sucesso do diagnóstico histopatológico (Bornstein, 2012)

4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em suma, os resultados revelam que a qualidade das amostras histopatológicas nos protocolos de rastreamento para neoplasias cervicais relacionadas ao HPV é comprometida por uma série de fatores subjacentes, tais como restrições anatômicas (ou seja, presença de TZ III), falhas técnicas de execução e processamento, incapacidade, desigualdades e heterogeneidade de acesso aos cuidados de saúde e a falta ou escassez de normas oficiais padronizadas. O efeito direto dessa má qualidade é o possível risco de subdiagnóstico ou ações terapêuticas desorientadas. Certamente é imperativo não tanto aumentar o número de exames quanto garantir que as amostras coletadas sejam confiáveis em refletir as áreas de alto risco, especialmente à medida que a prevalência de lesões induzidas por HPV está aumentando. Padronização técnica, treinamento de colposcopistas e manutenção adequada de registros são mandatos fundamentais de qualquer estratégia nacional para a prevenção do câncer cervical.

REFERÊNCIAS

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      1Discente 
      2Docente