PRODUCTION OF AN EDUCATIONAL TECHNOLOGY WITH GUIDELINES ON HIGH-RISK BREAST CANCER SCREENING FOR WOMEN
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202508140649
Amanda de Araújo Dias1
Luiz Carlos Santana da Silva2
Resumo
INTRODUÇÃO: O câncer de mama é uma patologia que se mantém como um problema de saúde pública extremamente importante, principalmente entre os países em desenvolvimento, sendo que 10 a 20% de todos os casos têm como causa principal as síndromes de predisposição hereditária ao câncer. Dessa forma, a motivação deste trabalho surgiu após 2 pesquisas realizadas em Belém– PA, em hospitais públicos de referência em atendimentos a pacientes oncológicos, nos quais foi identificado um número expressivo de pacientes com critérios clínicos para câncer de mama hereditário configurando alto risco para o seu surgimento. OBJETIVO: Produzir uma tecnologia educativa sobre rastreio do câncer de mama em indivíduos de alto risco para mulheres. MARCO REFERENCIAL: O rastreamento para o câncer de mama em indivíduos com alto risco para o desenvolvimento de neoplasias deve seguir protocolos individualizados e difere do rastreamento da população em geral com baixo risco. Portanto, no contexto do SUS, proporcionar orientações sobre detecção precoce e rastreamento do câncer de mama de forma acessível a indivíduos com alto risco para o desenvolvimento de neoplasias é fundamental, tanto para redução da incidência quanto da mortalidade por esta patologia. MÉTODO: Foi realizado um estudo metodológico em duas etapas: revisão narrativa da literatura e produção tecnológica. RESULTADOS: A revisão narrativa da literatura foi constituída de 9 sessões referentes a conceito, classificação, epidemiologia, fatores de risco e determinação de risco do câncer de mama, bem como sobre rastreio do câncer de mama baseado no risco clínico e as principais condições que necessitam de rastreio especial. A tecnologia produzida foi de cunho educativo em saúde e no formato de um e-book.
Palavras-chave: Rastreamento. Câncer de Mama. Hereditariedade. Tecnologia Educativa.
1 INTRODUÇÃO
O câncer de mama é uma patologia que se mantém como um problema de saúde pública extremamente importante, principalmente entre os países em desenvolvimento, sendo que 10 a 20% de todos os casos têm como causa principal as síndromes de predisposição hereditária ao câncer.1-2
Com base na International Agency for Research on Cancer (IARC), da Organização Mundial da Saúde (OMS), é esperado que, nas próximas décadas, o impacto desse câncer na população corresponda a 80% dos mais de 20 milhões de casos novos estimados para o triênio 2023- 2025.1-2
Com relação ao risco de aparecimento, os principais fatores para o desenvolvimento desse câncer são intrínsecos como hormonais e genéticos e extrínsecos, como fatores ambientais e comportamentais. Nesse contexto, as síndromes de predisposição hereditárias ao câncer (SPHC) merecem destaque, pois são responsáveis por ocasionar um número expressivo de casos dessa neoplasia.3
Dessa forma, o rastreamento do câncer de mama é de grande valia, especialmente em indivíduos de alto risco, como aqueles com critérios para câncer hereditário, pois além de reduzir as taxas de mortalidade e facilitar o tratamento precoce, também auxilia no processo de aconselhamento genético a familiares.4
É de extrema importância a identificação de indivíduos com critérios clínicos para síndromes de predisposição hereditária ao câncer de mama, devido estes apresentarem uma maior probabilidade de doença grave, de difícil tratamento e altas chances de recidiva, geralmente em idade inferior àquela determinada para rastreamento populacional.4-5
Depois de identificados, deve-se encaminhá-los para o aconselhamento genético oncológico a fim de auxiliar no planejamento das medidas de vigilância ou de prevençãopara as mais diversas situações que demonstrem alto risco de desenvolvimento de câncer, incluindo medidas de rastreio direcionadas para os familiares, o que difere do rastreamento da população em geral.4-5
Neste cenário, em duas pesquisas realizadas em Belém – PA, em hospitais públicos de referência em atendimentos a pacientes oncológicos, foi identificado um número expressivo de pacientes com critérios clínicos para câncer de mama hereditário.4-5
No primeiro estudo, realizado no Hospital Ophir Loyola (HOL) no período de setembro de 2017 a setembro de 2018, foram coletados dados de 278 pacientes, sendo que destes, 77 pacientes atendiam critérios para SPHC, 25% apresentavam critérios para Síndrome de Predisposição Hereditária ao Câncer de Mama e Ovário (HBOC), 6% para Síndrome de Li-Fraumeni e aproximadamente 2% para Síndrome de Cowden.4
No segundo estudo, realizado no Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB) no período de janeiro a julho de 2022, foram coletados dados de 200 pacientes, sendo que 48 pacientes atendiam critérios para a Síndrome de Predisposição Hereditária ao Câncer de Mama e Ovário (HBOC) representando 24% da população estudada e que mereciam avaliação oncogenética especializada.5
Frente a estes dados, as ações governamentais brasileiras que visam à identificação, orientação e acompanhamento de indivíduos e familiares de alto risco para o desenvolvimento do câncer de mama ainda são insuficientes e pouco abrangentes.
Os indivíduos identificados em Belém – PA com critérios para câncer de mama hereditário e que apresentam familiares com alto risco para o desenvolvimento deste câncer, infelizmente carecem de acompanhamento médico especializado e orientações sobre detecção precoce, pois o rastreamento é diferenciado para a população de alto risco e deve ser realizado de forma individualizada e específica para cada caso.
Por tudo isso, o objetivo geral deste trabalho foi produzir uma tecnologia educativa sobre rastreio do câncer de mama em indivíduos de alto risco para a população adulta e os objetivos específicos foram: sintetizar evidências da literatura sobre rastreio do câncer de mama no cenário de alto risco e criar um produto digital em formato de e-book sobre rastreio do câncer de mama.
2 METODOLOGIA
3.1 TIPO DE ESTUDO
Trata-se de uma pesquisa metodológica desenvolvida em duas etapas: revisão narrativa da literatura e elaboração de tecnologia educacional em saúde sobre rastreio do câncer de mama em indivíduos de alto risco.
Os estudos metodológicos são adotados quando se tem por objetivo produzir e elaborar novas ferramentas, além de legalizar processos preexistentes.6
É válido ressaltar que a confecção de produtos tecnológicos envolve etapas específicas, sendo elas: elaboração, validação e aplicação.7 Não obstante, este estudo se concentrou na fase de elaboração do produto pelo tempo restrito para o desenvolvimento das demais etapas do processo.
O produto tecnológico elaborado neste trabalho foi um e-book, que pode ser classificado como Tecnologia Educacional segundo Nietsche (2005) e Tecnologia Leve-Dura segundo Merhy (2000).8-9
Este foi o modelo escolhido para o desenvolvimento da tecnologia em questão por ser prático, acessível e de fácil distribuição em larga escala, para que possa ser difundido ao maior número de pessoas possível, tendo em vista que carrega informações valiosas que salvam vidas, e por isso, é um formato muito interessante no contexto de educação em saúde, principalmente por apresentar pouca ou nenhuma barreia no quesito acesso e custo (zero).
3.2 ETAPAS DO ESTUDO
3.2.1 Etapa 1: Revisão NARRATIVA da literatura
Foi realizada uma revisão narrativa da literatura através do Up to Date, uma base de dados online por assinatura que fornece informações médicas atualizadas, baseadas em evidências e revisada por pares no período de janeiro a abril de 2025, através da pesquisa pelos seguintes temas: epidemiologia do câncer de mama, rastreio do câncer de mama e síndromes de predisposição hereditárias relacionadas ao câncer de mama e ovário.
Através desses temas, foram gerados centenas de textos bases e referências. Foram então escolhidos artigos com base nesta ordem de prioridade: meta- análises, estudos randomizados, coortes e estudos de caso controle. O segundo filtro utilizado nesta base de dados foi o tempo, sendo que quando havia mais de um artigo referenciado as mesmas informações, foi optado por utilizar o de tempo mais recente para a produção desta revisão.
Também foi utilizado o Pubmed neste trabalho, uma base de dados gratuita que permite a busca por artigos científicos. Neste banco de dados foram utilizados os seguintes termos no idioma inglês para a pesquisa: Screening for breast cancer predisposition syndromes. Foram aplicados os seguintes filtros: artigos apresentados no último ano (2024-2025) e artigos gratuitos com textos completos. Esta busca foi realizada no dia 11 de fevereiro de 2025 e resultou em 47 artigos. Um terceiro filtro foi aplicado para selecionar artigos de revisão e esta nova busca resultou em 7 artigos. Esses artigos compuseram a revisão de forma a complementar a pesquisa realizada no Up to Date.
A escrita da revisão levou em considerações as normas estabelecidas pelo estilo Vancouver para as referências.
3.2.2 Etapa 2: Produção tecnológica
Foi produzida uma Tecnologia Educativa e de caráter informativo com base nos dados obtidos na etapa 1 no formato de um e-book.
Para a produção foi utilizado um aplicativo de editoração que opera com auxílio de inteligência artificial, chamado gamma.app.
Para tal, foi construído um prompet com base na revisão de literatura inicial.
Após a formulação inicial, a editoração foi finalizada no aplicativo Canva.
As imagens utilizadas foram criadas com base na inteligência artificial através de comandos escritos pensados de forma a estruturar representações animadas e fidedignas ao texto escrito.
Para a criação de cada página, foi escolhido tipos de cartões que fossem constituídos por imagens e infográficos, de forma a facilitar o entendimento e melhorar a comunicação com o público.
Ao final, o arquivo do e-book foi exportado no formato PDF para ser acoplado a um QR CODE criado través de um gerador de código online chamado QR GENERATOR.
Por meio desse QR CODE, basta apontar a câmera de um smartphone ou dispositivo eletrônico para ter acesso gratuito ao e-book.
Além disso, o e-book também pode ser compartilhado nas mais diversas redes sociais, necessitando apenas da conexão a uma rede de internet.
O e-book foi registrado na Câmara Brasileira do Livro.
3.2.3 Aspectos Éticos
O presente estudo não necessitou ser submetido ao Comitê de ética em Pesquisa, pois não envolveu pesquisa com seres humanos, estando em consonância à Resolução Nº466/12 do Conselho Nacional de Saúde.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
3.1 REVISÃO NARRATIA DA LITERATURA
3.2.1 RASTREIO DO CÂNCER DE MAMA COM BASE NO RISCO
A modalidade e a frequência de rastreio são recomendadas de acordo com o risco de desenvolver câncer de mama ao longo da vida.10
Ao aconselhar sobre o rastreamento do câncer de mama, é importante discutir os potenciais benefícios e danos do rastreamento deste câncer, e incentivar as pacientes a considerar seus próprios valores e preferências e apoiá-las a tomar uma decisão que seja melhor para elas com base na fase de vida em que se encontram.10
Mulheres com Risco Médio
Idade inferior a 40 anos:
Nenhuma diretriz de triagem recomenda o rastreio de rotina para mulheres com risco médio que têm menos de 40 anos de idade. Nessa população a incidência de câncer de mama é baixa, não há ensaios randomizados de rastreamento desse câncer e as características de desempenho da mamografia são ruins.
Em uma revisão dos resultados de 73.335 mamografias de triagem inicial em mulheres de 35 a 39 anos, o valor preditivo positivo foi de apenas 1,3%.11
Idade de 40 a 74 anos:
É sugerido mamografia de triagem a partir dos 40 anos. Porém, as diretrizes de especialistas variam em suas recomendações sobre quando iniciar a triagem e a frequência em mulheres de risco médio nessa faixa etária. Apesar disso, a maioria das sociedades médicas recomenda que o rastreio seja anual.12-20
Idade de 75 anos ou mais:
É recomendado que as mulheres com 75 anos ou mais realizem triagem apenas se sua expectativa de vida for de pelo menos 10 anos. Para as mulheres nessa faixa etária que optam por ser rastreadas, a mamografia a cada dois anos pode ser apropriada.12-20
Não há um limite de idade superior claro ou uma frequência ideal para o rastreamento em mulheres saudáveis, uma vez que a incidência de câncer de mama permanece alta até os 80 anos, mas o número de anos de vida economizado diminuirá com a idade.11
No Brasil, a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), o Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR) e a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) recomendam que a Mamografia seja realizada de forma anual entre 40 e 74 anos e a partir dos 75 anos, que seja realizada se a expectativa de vida for de no mínimo 7 anos. Também se recomenda que a tomossíntese seja associada a mamografia convencional quando disponível.22
Mulheres com Risco Moderado
Para as mulheres com risco moderado (ou seja, aproximadamente 15 a 20% de risco de câncer de mama ao longo da vida), incluindo a maioria dos indivíduos que têm uma história familiar de câncer de mama em um parente de primeiro grau, mas não têm uma síndrome genética conhecida, é recomendado a mesma abordagem para triagem como para as mulheres com risco médio, incluindo a idade para começar a triagem e a frequência de triagem.23
Enquanto alguns autores sugeriram que a triagem deve ser iniciada em uma idade mais precoce se um parente de primeiro grau tivesse câncer de mama na pré-menopausa, há poucos dados de alta qualidade apoiando essa abordagem na ausência de uma síndrome genética conhecida. Como exemplo, em um estudo de caso-controle de rastreamento de câncer de mama entre as mulheres dos Estados Unidos com idades entre 40 e 65 anos, houve apenas uma tendência não estatística para uma maior proteção em participantes com aumento moderado em comparação com o risco médio de câncer de mama.23
Mulheres com Risco Alto
Para aqueles com histórico de radiação torácica antes dos 30 anos, certas condições mamárias (Hiperplasia Ductal Atípica, Carcinoma Lobular In Situ e Hiperplasia Lobular Atípica), mamas densas e aqueles com um risco calculado ao longo da vida de desenvolver câncer de mama superior a 20% é recomendado rastreio com mamografia e ressonância magnética das mamas, o qual pode ser realizado de forma associada ou intercalada (mamografia e ressonância com intervalo de 6 meses entre os exames) a depender dos fatores de risco específicos.24
A Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), o Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR) e a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) recomendam que o rastreio seja da seguinte forma:22
– Mamas densas: Mamografia + Ultrassonografia Mamária anual a partir de 40 anos ou Ressonância Magnética anual ou Mamografia Anual + Ressonância Magnética a cada 2 anos (em caso de mamas extremamente densas).22
– História pessoal de certas doenças mamárias (Hiperplasia Lobular Atípica, Carcinoma Lobular In Situ e Hiperplasia Ductal Atípica): Mamografia + Ressonância Magnética anual a partir do diagnóstico ou Mamografia + Ultrassonografia anual (caso não possa ser realizada a ressonância).22
– História pessoal de Radioterapia torácica antes dos 30 anos de idade: Mamografia + Ressonância Magnética anual a partir de 8 anos do término do tratamento ou Mamografia + Ultrassonografia anual (caso não possa ser realizada a ressonância).22
Para os casos de portadoras de mutações genéticas e síndromes específicas, deve-se realizar o rastreamento conforme a orientação relacionada a cada condição específica.22
3.2.2 SÍNDROMES GENÉTICAS QUE AUMENTAM O RISCO PARA CÂNCER DE MAMA E O rastreamento direcionado
Embora a maioria das mulheres com câncer de mama e/ou de ovário hereditário carregue uma variante patogênica (ou seja, mutação deletéria ou prejudicial) no gene de suscetibilidade ao câncer de mama 1 (BRCA1) ou no gene de suscetibilidade ao câncer de mama 2 (BRCA2), alguns cânceres de mama hereditários são devidos a outras síndromes hereditárias raras.25
Nesse contexto, os principais genes de alta penetrância relacionados a síndromes de predisposição hereditária ao câncer que acometem o parênquima mamário são: BRCA 1,BRCA2, P53, STK11, PTEN, CDH1 e PALB2. Os genes de moderada penetrância que quando estão mutados aumentam o risco para câncer de mama são: ATM, CHEK 2, BARD1, RAD51 e NF1.25-26
BRCA 1 e BRCA 2
As mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 são responsáveis pela Síndrome de Câncer de Mama e Ovário Hereditário (HBOC) a qual é responsável pela maioria dos cânceres hereditários de mama e ovário com uma variante patogênica identificada em um gene de suscetibilidade ao câncer.25-26
No geral, variantes patogênicas nesses genes (supressores tumorais) estão implicadas em cerca de 15% das mulheres com câncer de mama familiar e uma proporção semelhante de todas as mulheres com cânceres de ovário incidentes.25-26
Mulheres com mutação no gene BRCA1 têm risco de 57-72% de desenvolver câncer de mama ao longo da vida e 45-69% em mutação no BRCA2.105 O risco ao longo da vida para câncer de ovário gira em torno de 39 a 59% para portadoras de BRCA1 mutado e 11 a 20% para portadoras de BRCA2 mutado.27
É recomendado que seja realizado a mastectomia bilateral profilática e a salpingooforectomia bilateral (preferencialmente entre 35 e 40 anos considerando a idade para gestar).28-29
Rastreio: Em mulheres que não realizaram as cirurgias redutoras de risco, recomenda-se a partir dos 18 anos, que o autoexame das mamas realizado periodicamente pode facilitar a conscientização sobre alterações, e o exame clínico das mamas deve ser realizado a cada 6 a 12 meses a partir dos 25 anos. A ressonância magnética é recomendada anualmente a partir dos 25 anos, ou antes, dependendo da idade mais precoce do câncer da mama na família. A mamografia com associação da tomossíntese deve começar aos 30 anos ou ser individualizada se a idade mais precoce de início na família for abaixo dos 25 anos. As ressonâncias magnéticas de mama e a mamografia podem ser intercaladas em 6 meses.29-30
TP53
A Síndrome de Li-Fraumeni é causada por mutações no gene TP53, um importante supressor tumoral. Também é conhecida como síndrome do câncer de sarcoma, mama, leucemia e glândula adrenal e como síndrome do câncer relacionado ao gene da proteína tumoral p53 hereditária. É uma síndrome hereditária rara associada a múltiplos tipos de câncer em idade precoce.31
Além do câncer de mama, está associada a sarcomas, tumores do sistema nervoso central, leucemias, meduloblastoma e cânceres adrenocorticais.31
Pacientes com Síndrome de Li-Fraumeni requerem acompanhamento multidisciplinar rigoroso ao longo de toda a vida devido ao alto risco de desenvolvimento de múltiplos tipos de câncer.31
Rastreio: Recomenda-se Ressonância Magnética de Mamas a partir de 20 anos anual e Mamografia a partir dos 30 anos.32
Recomenda-se também outros exames com início aos 18 anos de idade: Ressonância Magnética de corpo Inteiro e Ressonância Magnética de Crânio anual, Ultrassonografia de Abdome Total a cada 6 meses e Colonoscopia a cada 5 anos.32
STK11
A Síndrome de Peutz-Jeghers (PJS) é uma doença rara associada a variantes patogênicas no gene da serina/treonina quinase 11 (STK11, também chamada de LKB1). Lesões pigmentadas mucocutâneas ocorrem em aproximadamente 95% dos pacientes afetados; além disso, pólipos hamartomatosos no trato gastrointestinal são características marcantes.32
Mulheres com PJS têm um risco aumentado ao longo da vida para câncer de mama (32 a 54%). Está associado ao aumento do risco de câncer gastrointestinal, incluindo câncer de cólon e reto, estômago, intestino delgado e pâncreas, bem como câncer de mama e ovário.32
Rastreio: Ressonância Magnética + Mamografia a partir dos 30 anos e Exame Clínico das Mamas a cada 6 meses é recomendado.33
PTEN
Mutações no gene homólogo da fosfatase e da tensina (PTEN) causam uma variedade de síndromes conhecidas como Síndromes de tumor hamartoma PTEN (PHTS). A síndrome de Cowden (também conhecida como doença de Cowden ou síndrome de hamartoma múltiplo) é o fenótipo mais bem descrito dentro da PHTS.34
A Síndrome de Cowden é causada por mutações no gene PTEN, que regula o crescimento e a divisão celular. Esta síndrome rara aumenta o risco de diversos tipos de câncer, incluindo mama, endométrio e tireoide.34
Achados cutâneos e orais são comuns e geralmente as que levam aos diagnóstico. Caracteriza-se por múltiplos hamartomas (crescimentos benignos) e lesões mucocutâneas distintivas, como pápulas faciais, queratoses acrais e lesões papilomatosas orais. Macrocefalia (aumento da circunferência craniana) também é comum. Várias lesões geniturinárias também podem surgir. Anormalidades benignas da tireoide, como bócio multinodular, tireoidite linfocítica (Hashimoto) e adenomas são muito comuns e relatadas em até 68% dos pacientes.34
O câncer de mama é a malignidade mais comum na síndrome de Cowden. O risco ao longo da vida para pacientes femininas afetadas é frequentemente relatado entre 25 e 50% e o diagnóstico acontece em média entre 38 e 46 anos de idade.34
Rastreio: Exame clínico das mamas a cada 6 a 12 meses, a partir dos 25 anos de idade ou 10 anos antes do primeiro familiar acometido por câncer na família. Mamografia anual e ressonância magnética das mamas a partir dos 30 anos de idade ou 10 anos antes do primeiro câncer de mama conhecido na família.35
CDH1
O gene CDH1 codifica a E-caderina, uma proteína de adesão celular essencial para a manutenção da arquitetura tecidual. Mutações germinativas neste gene estão associadas à Síndrome do Câncer Gástrico Difuso Hereditário e também conferem risco aumentado para câncer de mama do tipo lobular invasivo.36
Mulheres portadoras de mutação no CDH1 têm risco de 40-60% de desenvolver câncer de mama lobular ao longo da vida.36
Rastreio: O rastreamento recomendado inclui ressonância magnética de mamas anual a partir dos 30 anos, complementada por mamografia.36
PALB 2
O gene PALB2 (Partner and Localizer of BRCA2) codifica uma proteína que interage diretamente com BRCA2, sendo essencial para sua função no reparo do DNA por recombinação homóloga.37
Mutações em PALB2 conferem um risco de câncer de mama ao longo da vida de 53% e até os 50 anos de 17%.37
Rastreio: Para mulheres com variantes patogênicas em PALB2 é recomendado a mamografia anual com Ressonância Magnética anual da mama, com e sem contraste, começando aos 30 anos ou 5 a 10 anos antes do diagnóstico mais jovem de câncer de mama na família, o que ocorrer primeiro. Também é discutido opção de mastectomia redutora de risco, particularmente para mulheres com forte histórico familiar de câncer de mama.38
Síndrome de Lynch
A síndrome de Lynch, também chamada de câncer de cólon hereditário não polipóide, está associada a variantes patogênicas em genes de reparo de incompatibilidade (MMR) (MSH2, MLH1, MSH6 e PMS2) e variantes patogênicas no gene da molécula de adesão de células epiteliais (EPCAM).39
Esta síndrome aumenta os riscos de câncer de cólon, endométrio, ovário e estômago. Embora alguns estudos tenham sugerido que há um risco aumentado de câncer de mama associado à síndrome de Lynch, os dados são inconclusivos.118-119
Portanto, não há rastreio indicado para câncer de mama apenas pela Síndrome em si.118-120
Mas, se a paciente tiver parentes com câncer de mama (principalmente em idade jovem), for portadora de outras mutações genéticas e tiver risco global aumentado para câncer de mama com base em modelos preditores de risco, pode ser indicada mamografia anual iniciando aos 40 anos de idade ou ressonância magnéticas das mamas, conforme as diretrizes de alto risco.39-41
Outras Mutações associadas ao aumento de risco para Câncer de Mama (genes de moderada penetrância)
NF1
Mutações em NF1 causam uma síndrome autossômica dominante na qual indivíduos afetados desenvolvem máculas café-com-leite, sardas axilares e/ou inguinais, neurofibromas periféricos, gliomas da via óptica, gliomas de tecidos moles e sarcomas. NF1 codifica a neurofibromina.41
A neurofibromina é um membro de uma família de proteínas que afetam uma série de vias de sinalização, estimulando a sobrevivência e proliferação celular.121
Mulheres com mutação em NF1 têm um risco aumentado de câncer de mama de início precoce (geralmente entre 30 e 40 anos).41
Recomenda-se Mamografia anual aos 30 anos e, dos 30 aos 50 anos, Ressonância Magnética das mamas com e sem contraste. 38
RAD51C e RAD51D
A mutação nesses genes é rara, mas pode conferir risco de câncer de mama de 17 – 30%.38
Recomenda-se Mamografia + Ressonância Magnética das Mamas a partir de 40 anos de idade.38
BARD1
Aumentam o risco para câncer de mama em 17 – 30%.38
Recomenda-se Mamografia + Ressonância Magnética das Mamas a partir de 40 anos de idade.38
CHEK2
Estudos descobriram que portadores de mutações em CHEK2 têm riscos aumentados de câncer de mama, estômago, próstata, rim, leucemia, neoplasias de células plasmáticas, câncer de tireoide e sarcoma.42
É recomendado Mamografia + Ressonância Magnética anual começando aos 30 a 35 anos. A idade para iniciar o rastreamento do câncer de mama é modificada com base no histórico familiar e deve começar de 5 a 10 anos antes do diagnóstico de câncer de mama mais jovem na família, mas não depois dos 30 a 35 anos.38
ATM
Risco cumulativo de câncer de mama ao longo da vida de 20 – 40%. Recomenda-se Mamografia + Ressonância Magnética das Mamas anual a partir de 30 a 35 anos. Se a mutação for na variante c.7271T>G, a vigilância pode começar aos 25 anos com Ressonância Magnética das Mamas e a adição de mamografia anual a partir dos 30 anos.38
3.2 PRODUTO TECNOLÓGICO
As informações obtidas na etapa 1 foram sintetizadas o e-book através de uma linguagem acessível para o público alvo.

4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O rastreio do câncer de mama é de fundamental importância, principalmente no contexto de alto risco para o seu desenvolvimento.
Neste sentido, o material produzido contribuirá para melhorar as taxas de detecção precoce desta neoplasia especialmente em mulheres com critérios para síndromes genéticas que aumentam as chances de câncer, bem como em mulheres que possuem critérios de alto risco, proporcionando maiores chances de cura e redução de orçamento em saúde pública.
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1Residente de Oncologia Clínica da Universidade Federal do Pará – UFPA com sede no Hospital Universitário João de Barros Barreto – HUJBB e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Análises Clínicas – PPGAC – UFA e-mail: a.a.damandadias@hotmail.com
2Professor Doutor, PhD em Ciências Biológicas e Chefe do Laboratório de Erros Inatos do Metabolismo (ICB/UFPA). e-mail: lcsantana-pa@hotmail.com
